sexta-feira, 10 de julho de 2009

ESCREVER APENAS POR ESCREVER





Hoje, estou apreensivo, do jeito que ninguém atura. Talvez por isso não me apetece escrever sobre coisas sérias. Quero escrever, mas de qualquer coisa, de uma banalidade qualquer. Ando à procura, ainda nem sei sobre o que me vou debruçar.
Estou naqueles dias, em que, como cana no canavial, balanço entre o presente e o futuro. Apetece-me viajar mas tenho receio que o autocarro, pelo aspecto envelhecido, avarie pelo caminho. Parece-me uma velha “carripana”, talvez dos anos de 1970, daqueles que vemos nas fotografias de quem veio de Cuba, e nos mostra para nos fazer inveja.
Em cima do tejadilho, numa grade, que pode servir para prender os sonhos, está repleta de malas de cartão, a fazer lembrar a Linda de Suza…ou talvez o contemporâneo Tony Carreira.
Dentro da “caminheta”, repleta até ao tecto, gente como eu, de sapatos sem brilho, meios-gastos pela erosão do tempo, com uma fatiota domingueira já tão coçada quanto a camioneta que, apesar dos solavancos da vereda, provocando encontrões nos passageiros, teima em não avariar, como que a contrariar o meu presságio. Tive sorte, vou ensanduichado entre duas mulheres avantajadas. Numa travagem sem contar, por causa daquele rafeiro escarnecido, fiquei com a minha cara entalada entre os largos seios de protuberâncias, como “air-bags”, a amolecer a pancada sofrida pela pressão dos travões a chiar num “chinfrim” a ecoar pela montanha. Tive realmente sorte, neste pesadelo viário, em forma de aventura turística cubana, não viajava nenhum ambientalista, caso contrário, seria um grande “trinta-e-um”. É que a poucos metros do sopé do monte, por onde passamos, um casal de águias-reais, num daqueles entretenimentos que os humanos conhecem tão bem, foi interrompido e, em grito histérico de protesto, bateram asas ao vento e deram ao slide, perdendo-se no horizonte.
O condutor do autocarro, displicentemente, quase em provocação, de cigarro no canto da boca à Jean-Paul Belmondo, saracoteando pela vereda estreita da montanha, parece não se preocupar com as gentes “ensalsichadas” e muito menos com os apertos que sofro quando aqueles “buldozers” de mulheres me apertam contra o peito. Lá em baixo, deslizando os olhos pela escarpa que os milénios se encarregaram de esculpir, umas águas calmas, num mar azul, parecem convidar a saltar da enferrujada “trotineta”, mas as mulheres avantajadas, sem preocupações de linha corporal não me deixam. Transpiro por todos os poros. Dentro do veículo, que mais parece uma porcaria…de porcos, o suor mistura-se de hálitos campezinos e urbanos.
Lá no fundo, nas traseiras do carro, onde o tecto se curva, alguém ensaia uma canção popular com os beiços encostados numa harmónica. Uma mulher trinca-espinhas reclama pelos acordes, acordou o seu menino. Mas o flautista é teimoso, e de surdo faz-se burro, e continua a encher a camioneta de sons desconexos, parecidos com uma canção pimba. E assim chegamos à meia-praia. Paramos então no largo. É uma festa para a aldeia. Aproxima-se o “Zé-tolo”, com aquele ar desconjuntado, estende a mão a qualquer um, e no meio de um grunhido parece querer dizer: “ó… dótor…munheda…munheda…”
E eu, sem mais tema para escrever, vou ficar-me por aqui, antes que venha a noite…

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