
Hoje, estou apreensivo, do jeito que ninguém atura. Talvez por isso não me apetece escrever sobre coisas sérias. Quero escrever, mas de qualquer coisa, de uma banalidade qualquer. Ando à procura, ainda nem sei sobre o que me vou debruçar.
Estou naqueles dias, em que, como cana no canavial, balanço entre o presente e o futuro. Apetece-me viajar mas tenho receio que o autocarro, pelo aspecto envelhecido, avarie pelo caminho. Parece-me uma velha “carripana”, talvez dos anos de 1970, daqueles que vemos nas fotografias de quem veio de Cuba, e nos mostra para nos fazer inveja.
Em cima do tejadilho, numa grade, que pode servir para prender os sonhos, está repleta de malas de cartão, a fazer lembrar a Linda de Suza…ou talvez o contemporâneo Tony Carreira.
Dentro da “caminheta”, repleta até ao tecto, gente como eu, de sapatos sem brilho, meios-gastos pela erosão do tempo, com uma fatiota domingueira já tão coçada quanto a camioneta que, apesar dos solavancos da vereda, provocando encontrões nos passageiros, teima em não avariar, como que a contrariar o meu presságio. Tive sorte, vou ensanduichado entre duas mulheres avantajadas. Numa travagem sem contar, por causa daquele rafeiro escarnecido, fiquei com a minha cara entalada entre os largos seios de protuberâncias, como “air-bags”, a amolecer a pancada sofrida pela pressão dos travões a chiar num “chinfrim” a ecoar pela montanha. Tive realmente sorte, neste pesadelo viário, em forma de aventura turística cubana, não viajava nenhum ambientalista, caso contrário, seria um grande “trinta-e-um”. É que a poucos metros do sopé do monte, por onde passamos, um casal de águias-reais, num daqueles entretenimentos que os humanos conhecem tão bem, foi interrompido e, em grito histérico de protesto, bateram asas ao vento e deram ao slide, perdendo-se no horizonte.
O condutor do autocarro, displicentemente, quase em provocação, de cigarro no canto da boca à Jean-Paul Belmondo, saracoteando pela vereda estreita da montanha, parece não se preocupar com as gentes “ensalsichadas” e muito menos com os apertos que sofro quando aqueles “buldozers” de mulheres me apertam contra o peito. Lá em baixo, deslizando os olhos pela escarpa que os milénios se encarregaram de esculpir, umas águas calmas, num mar azul, parecem convidar a saltar da enferrujada “trotineta”, mas as mulheres avantajadas, sem preocupações de linha corporal não me deixam. Transpiro por todos os poros. Dentro do veículo, que mais parece uma porcaria…de porcos, o suor mistura-se de hálitos campezinos e urbanos.
Lá no fundo, nas traseiras do carro, onde o tecto se curva, alguém ensaia uma canção popular com os beiços encostados numa harmónica. Uma mulher trinca-espinhas reclama pelos acordes, acordou o seu menino. Mas o flautista é teimoso, e de surdo faz-se burro, e continua a encher a camioneta de sons desconexos, parecidos com uma canção pimba. E assim chegamos à meia-praia. Paramos então no largo. É uma festa para a aldeia. Aproxima-se o “Zé-tolo”, com aquele ar desconjuntado, estende a mão a qualquer um, e no meio de um grunhido parece querer dizer: “ó… dótor…munheda…munheda…”
E eu, sem mais tema para escrever, vou ficar-me por aqui, antes que venha a noite…
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