domingo, 31 de agosto de 2008

CULTURA: FILHA DE UM DEUS MENOR (3)





Há dias fui visitar o Museu do Caramulo. Até lá chegar, encontrei imensas placas sinalizadoras e indicativas de “museus”, já dentro da Vila, e junto ao museu, nenhuma. Resultado, como não conhecia, andei mais um quilómetro, que, ida e volta, somaram dois.
Para aceder ao museu, paguei catorze euros (éramos dois). Como já passava do meio-dia, e a casa de memória encerrava para almoço das 13 às 14, como não deu tempo para apreciar todo o extenso acervo, saímos e voltámos depois da hora de reabertura. Como saímos cedo, e vendo as placas indicativas de aldeias típicas, fomos visitar a que nos pareceu mais bonita: Bezerreira. Junto à estrada nacional uma placa a indicar a aldeia. Andámos, andámos e lá entrámos no lugarejo típico sem qualquer placa a indicar o nome do lugar. Percorremos a pé a pequena aldeola e, com desdita, vimos as imensas casas em pedra de granito completamente em ruínas. À saída, havia várias estradas sinuosas mas nem uma única placa a indicar qualquer destino. Entrámos na primeira e fomos parar a outra aldeia em sentido contrário ao Caramulo. Lá voltámos atrás e finalmente encontrámos o rumo certo. Quanto custará uma placa? Se não estivesse tão deficitário, palavra que me apetecia oferecer uma ao Presidente da Câmara Municipal do Caramulo.
No dia seguinte fui à Mata Nacional do Buçaco. Como entrei de carro, paguei 2.50 euros. Se fosse de monovolume pagaria 5 euros. Se entrasse a conduzir um autocarro pagaria 25 euros. Para além destas taxas, se visitasse a Capela ou o Museu Militar, que estão encerrados à hora do almoço, teria de, naturalmente, pagar ingresso.
Numa primeira apreciação, a frio, ao pagar entrada para a mata, o primeiro pensamento que nos ocorre é: “está correcto! Esta medida serve de portagem impeditiva que toda a gente leve o popó para o interior da floresta. Este ónus serve de medida protectora do ambiente. Como partimos de premissas erradas, naturalmente que a conclusão será errada também. Esta medida taxativa não pretende proteger a floresta, é no mínimo uma norma economicista que, para além de prejudicar o turismo do Luso, serve apenas e só para realizar verbas. E porque digo eu isto, pergunta você? Muito simples, não existe alternativa. O trajecto entre o pórtico de entrada da mata, o Hotel e a Cruz Alta é bastante longo, e feito em piso de calcário, em paralelepípedos. Como é assim, o resultado é que poucos voltam atrás renegando o pagamento. E aqui é que se prova que se a medida é para proteger a floresta é em vão. Em boa verdade, também não está prevista a desistência, porque não existe junto à portagem nenhum parque de estacionamento.
“E que alternativa deveria haver, já agora conte lá!”, interroga-me você, com ar de que está na presença de mais um “Chico-esperto”. Eu, sem desarmar, explico. Deveria haver dentro da Mata Nacional uns pequenos comboios, estes sim a pagar, que levariam as pessoas a conhecer e a percorrer a densa área de 105 hectares, classificada pelos botânicos como um dos melhores arboretos da Europa. Assim já me calaria. Esta era a verdadeira alternativa. Até vou mais longe: para além destes percursos dentro do interior desta “floresta Amazónica” deveria haver outros desde o Luso até às portas da mata.
Segundo informações que consegui no Luso, parece que há uns cerca de vinte anos a Pensão Alegre, que pertenceu ao Marquês da Graciosa –já agora aproveito para aconselhar a visita, é lindíssima a sua arquitectura antiga e muito bem recuperada-, conjuntamente com a Pensão Regional (também muito bonita e acolhedora), tinham umas “charretes”, puxadas por cavalos, com cocheiros vestidos de farda e a rigor, que faziam um largo percurso. Com o decair das termas, por isso ou por outros factores, a verdade é que acabaram estes transportes típicos.
Depois, há cerca de uma dezena de anos, houve um empresário arrojado que ousou avançar para o transporte de pessoas em pequenos comboios, entre o Luso e a Mata do Buçaco. Requereu as licenças, que lhe foram concedidas, mas não passou do primeiro ano. E aqui começa o desiderato. Para algumas pessoas que ouvi, “foram concedidas as licenças ao investidor, mas ele nunca saiu da Avenida Emídio Navarro. Os motores aqueciam muito até ao Buçaco e ele desistiu e foi-se embora”. Quando pergunto: se nunca saiu da avenida como saberia ele que os motores aqueciam? Esta interrogação fica sem correspondência.
A seguir vêm outras pessoas, que não se querem identificar, que dizem mesmo que durante um ano o comboio circulou entre o Buçaco e o Luso. Porém, os taxistas, vendo-lhes fugir a clientela para o comboio, trataram de fazer a vida negra ao pobre homem, que, assim, sem saudades, logo que pode, partiu. “Olhe, por estas guerras entre profissionais do mesmo ramo, perdemos todos: perdeu o homem, perdeu o turismo e perdeu o Luso!”
Se é verdade ou não, se estes desabafos serão “tricas”, isso não sei, limito-me a escrever o que ouvi. O que sei, em minha opinião, é que o Luso precisa de um transporte deste género para aproveitar o afluxo turístico e, calmamente, tirando partido da mata do Buçaco, poder usufruir daquela maravilhosa e imensa paisagem verde.
Quanto ao facto de se pagar para entrar na floresta, também ouvi uns comentários curiosos: “Olhe, há cerca de uns oito anos, o Movimento dos Jovens Católicos de Luso puseram a correr um abaixo-assinado para que se onerasse o acesso à mata do Buçaco. A medida, para além de ser ecológica, permitiria arrecadar umas verbas que se destinariam à revitalização daquele imenso espaço verde; à sua limpeza, conservação e sobretudo à recuperação das capelas da Via-Sacra, no percurso do Sacromonte.
A verdade é que se implantaram as portagens de acesso e, passados todos estes anos, tudo continua…para pior. As verbas nunca foram empregues para o fim a que se destinavam. As capelas, da Via-Sacra, sobretudo as esculturas originais do século XVIII, provavelmente da escola de Machado de Castro, estão num estado degradado, péssimo, que raia o escândalo, pelo abandono negligente”.
Quando lhe pergunto se acha que esta medida de ingresso onerada prejudica o Luso, este declarante afirma sem pestanejar: “Claro! Esta gente não está absolutamente nada interessada em proteger ou desenvolver seja o que for. Olham apenas para os nossos recursos sobre a bitola economicista. Querem é sacar! Estão pouco interessados na cultura ou na sua perpetuação. Ainda que apregoem o contrário, eles substituíram a memória do passado pelo vazio do presente!”

CULTURA: FILHA DE UM DEUS MENOR (2)



 Em Maio, do corrente ano, li no Jornal da Mealhada, em que sou colaborador e assinante, num excelente editorial do seu director, Nuno Castela, em que este defendia determinados pontos de vista para a futura utilização do “Parque Urbano da Mealhada”. Este espaço, junto à Nacional nº1, com cerca de doze hectares, foi recentemente adquirido pela autarquia mealhadense. Nuno Castela defendia uma boa utilização do parque, nomeadamente através de infra-estruturas de lazer, que tornassem aquele espaço, para além de lúdico, também único no concelho. Que não servisse apenas para implantação de um bar, como estava previsto pela Câmara da Mealhada.
Como sou natural do concelho da Mealhada e esta cidade não possui nenhum museu, e, para além disso, possuo muitos objectos antigos, e relativos a profissões em desaparecimento, propus cedê-los gratuitamente a termo em prol deste projecto. Peguei na ideia que tinha apresentado em Coimbra, ou seja o “Centro de Mesteres Antigos –Artes & Ofícios Tradicionais”, adaptei-a a novo figurino, tendo em conta que agora teria de ser implantado em pré-fabricados, mas se estes eram necessários para a construção do bar, facilmente seriam acoplados ao projecto, isto segundo a minha opinião. Elaborei um novo Anteprojecto, fiz um “boneco” para melhor compreensão da minha “proposta académica”, e entreguei um pequeno dossier na autarquia da terra do leitão nos primeiros dias de Junho, e fiquei à espera.
O tempo foi passando. Passou Junho, Julho e Agosto estava no fim e, da autarquia da Mealhada, nada. No dia 26, uma terça-feira, pondo os pés ao caminho, entrei na autarquia, e, na mesma secção onde anteriormente entregara o anteprojecto, mesmo ao lado do Gabinete do Presidente, agora com outra funcionária, e expliquei ao que ia e, mostrando a minha estranheza pelo silêncio, pedi para ser recebido pelo chefe da edilidade. A senhora ficou com o meu número de telemóvel e prometeu que, depois de falar com o presidente, rapidamente me ligaria a responder. Pedi-lhe que, no caso de vir a ser recebido pelo chefe do executivo, se possível, fosse durante esta semana, uma vez que estava de férias e, consequentemente, mais disponível.
Na quinta-feira, à tarde, recebi uma comunicação telefónica da funcionária: “O senhor presidente não recebeu nenhum anteprojecto seu. A minha colega (que o recepcionou anteriormente) está de férias, de modo que só é possível analisá-lo se o senhor voltar a entregar o documento. Para além disso, o senhor presidente não pode recebê-lo esta semana. Quando for possível recebê-lo contactá-lo-ei novamente”. Irritadíssimo por esta profundíssima falta de respeito, neguei-me na hora em entregar novo documento. Se o senhor presidente me quisesse receber muito bem, se não quisesse, tudo bem na mesma.
Depois de pensar melhor, tentei ligar para o mesmo número de telefone mas ninguém me atendeu. No dia seguinte, logo de manhã, estava junto da mesma funcionária a retirar o pedido para ser recebido pelo presidente Carlos Cabral. Pura e simplesmente, com este executivo não queria mais nada. Retorque a funcionária: “não quer? Olhe que afinal o anteprojecto está cá. Alguma coisa aconteceu para o senhor presidente não o ter lido. Não quer mesmo que seja apresentado?” Não, não quero mesmo! Estou farto da vossa falta de respeito. Prefiro apresentar o meu protesto na Assembleia Municipal, respondi irritado.
Dali, saí à procura da funcionária encarregue de fazer a inscrição para a Assembleia que, segundo informações prestadas, trabalhava numa secção de “obras particulares”, num outro edifício, a cerca de 100 metros da Câmara Municipal.
Entrei na referida secção e, ao funcionário presente, dizendo ao que vinha, solicitei a senhora encarregue da anotação. Responde o funcionário secamente: “a senhora (…), de facto trabalha aqui, mas agora está na Câmara Municipal, portanto, se quiser falar vá lá e procure por ela!”. Eu já estava irritado pelo que me tinha acontecido e, ainda para mais, como se estivesse em dia não, ainda tinha que aturar um mau funcionário, que de prestador de serviço público tinha muito pouco. Passei-me. Exigi que ele, através do telefone, contactasse a senhora, que era a sua obrigação. O seu serviço público era servir o cidadão e não contrário. O homem é que não estava pelos ajustes: se o interesse era meu que fosse à procura da senhora. Então atirei-lhe com o ultimato: o senhor não a chama, nesse caso, faça o favor de me apresentar o “livro amarelo”. Como uma mola, o homem virou-se para trás e colocou-mo à frente. Para os meus botões pensava: bom, não tenho mesmo outro remédio senão lavrar o meu protesto no livro.
Numa fracção de segundos, o homem pega no telefone e procura a funcionária e fala com ela, dando-lhe conta de que eu estaria à espera.
Veio a senhora, depois dos cumprimentos, disse-lhe que pretendia inscrever-me para a próxima sessão da Assembleia Municipal. A funcionária, de meia-idade, muito simpática por sinal, dividida entre a surpresa e a dúvida, exclamou: “inscrever-se para a Assembleia? Mas olhe, que aqui, nunca inscrevi ninguém! Quem quer assistir ao debate vai, sem inscrição, e no fim da sessão, depois dos dossiers apresentados, o Presidente da Assembleia Municipal pergunta aos presentes se algum se quer pronunciar acerca dos assuntos em debate. Mas é sempre só e apenas sobre os assuntos pendentes”.
Lá expliquei à senhora que, para denunciar ou anunciar qualquer assunto referente ao município, o acesso a uma assembleia municipal, depois de inscrição prévia, é público, enquanto órgão fiscalizador do executivo municipal. Para além disso, é um direito Constitucional de qualquer cidadão em exercício pleno dos seus direitos.
Lá ficou então, mais uma vez, com o meu número de telemóvel para, depois de falar com o presidente da assembleia, me contactar.
Agora pergunto-lhe leitor: que tipo de país é este? Que raio de pacovismo enfermam estas autarquias, em forma de paróquias, capelas e capelinhas? Esta ignorância, este obscurantismo, esta falta descarada de respeito pelo cidadão e pela cultura, a quem beneficia?
Como pode um país, com este serviço público, caminhar para a frente em direcção ao TGV, à Internet, ao século XXI, se ainda estamos na idade da pedra, no paleolítico social?

CULTURA: FILHA DE UM DEUS MENOR (1)



 Em Fevereiro, deste ano, ao saber do iminente desmantelamento do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, Doutor Mário Silva, em Coimbra, para além de medidas que visavam evitar o seu total encerramento, levando em conta a falta de iniciativas culturais que elevem a auto-estima e a revitalização da zona histórica, elaborei um anteprojecto escrito, em forma de “proposta académica”, que enviei a várias entidades com responsabilidades políticas na Baixa, entre elas, a Câmara Municipal de Coimbra, a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, a APBC, Agência de Promoção para a Baixa de Coimbra, o INATEL, a Reitoria da Universidade de Coimbra, juntas de freguesia de São Bartolomeu e de Santa Cruz.
Certamente, estará a interrogar-se, afinal de que tratava este “Anteprojecto em forma de ideia”? Pois bem, eu explico, começando por apresentar as partes dispersas: tendo em conta que existe em pleno coração da Baixa um edifício vazio, e sem qualquer utilização, com 600m2, na Rua da Sofia, o antigo quartel DRM, e protocolado à Universidade em regime de cedência; tendo em conta que o Museu Nacional da Ciência e da Técnica tem um espólio valiosíssimo, disperso pela cidade e fora dela, desde a mais antiga lâmpada fosforescente de que há conhecimento, alfaias agrícolas, as primeiras galenas (primeiros rádios de captação de ondas hertzianas, do inicio de 1920), os primeiros Gramophones de Thomas Edison, quatro carros e duas avionetas do Estado Novo que nunca foram mostrados ao público, e milhentos instrumentos importantíssimos no desenvolvimento da Ciência e da técnica entre meados do século XIX e finais de XX, para além deste extraordinário acervo museológico; tendo em conta que ao remexer neste assunto do museu descobri que havia sete funcionários “emparteleirados”, sem trabalho distribuído, e a receber salários, mensalmente, sem que ninguém se importasse com o seu rendimento laboral; tendo em conta a carência de “empreendimentos-âncora” que levem pessoas para a Baixa, porque não juntar os elementos e fazer um “Centro Comercial de Mesteres Antigos –Artes & Ofícios Tradicionais”? Este “centro comercial”, seguindo a linha dos modernos centros de consumo, teria, no entanto, uma diferença: estaria vocacionado apenas para o antigo, para artes e profissões em desaparecimento, como, por exemplo, sapateiros, barbeiros, latoeiros, tanoeiros, etc. Para além disso, ao fim de semana, muitas profissões e jogos tradicionais (como, por exemplo, o vendedor de banha da cobra e o jogo de saltar à corda, entre outros) seriam apresentadas teatralmente. Assim como, e contrariamente a esta interactividade, tendo em mira a preservação museológica de objectos, teria uma parte inactiva, representativa de profissões, onde não faltava a de prostituta, com uma secção apenas dedicada a objectos de culto de índole sexual.
Neste Anteprojecto estava prevista a entrada de mecenas e dadores de arte contemporânea ou objectos antigos coleccionáveis que, preocupados com o fim que levariam as telas, os brinquedos antigos, faianças ou as porcelanas da Vista Alegre, após a morte do coleccionador, poderiam ali dar prolongamento ao seu gosto pelo coleccionismo, e, através do seu nome referenciado, evitariam o espartilhamento pelos herdeiros de algo tão precioso que, durante décadas constituiu o sal da sua existência, o preenchimento de um vazio inexplicável, e, que para além de tudo, levou uma vida a construir.
O coleccionador está para a arte como o caçador está para a presa; pode levar uma vida inteira para conseguir uma peça rara, mas não desiste nunca de a perseguir. Um dia, quando menos espera, cai-lhe nos braços. A seguir a esta luta titânica vem a pergunta: “quem vai dar valor ao que tanto me custou conseguir? Assim que eu fechar os olhos, os meus herdeiros, ávidos por dinheiro, como aves de rapina, inevitavelmente vão vender tudo ao desbarato”.
Como qualquer escritor ou artista em geral, o coleccionador é um ser vaidoso, dividido entre o narcisismo e a alteridade. Para além de objectos para a sua colecção persegue o culto da imagem através do acervo da memória. Para além disso, quer projectar no futuro a sua passagem terrena, através dos objectos que juntou e ser recordado como uma pessoa sensível que, através da pesquisa, a expensas suas, contribuiu para a memória futura de um povo. O seu espólio, no seu sentir, é uma extensão da sua individualidade e pessoa, é a sua própria identidade projectada em peças que lhe lembram o passado, nas suas reminiscências, e o futuro em ser recordado.
Por isso, nos nossos dias, há imensas pessoas que, quer pelos motivos acima apontados, quer por um altruísmo sem descrição, entregam as suas obras, os seus amores de uma vida, para serem preservados e mantidos expostos em museus.
Infelizmente, por um lado, constata-se que, no caso de algumas autarquias, aceitam mas, a seguir, não respeitam a vontade do benemérito. Por outro lado, por uma tremenda ignorância, acabam por não dar valor ao que lhes é dado de mão-beijada. Para piorar, algumas, nem sequer se dão ao trabalho de aceitar.
Para terminar o meu texto, e ainda relativo ao meu Anteprojecto, gostaria de lhe dizer leitor que nenhuma entidade, que citei, se deu sequer ao trabalho de me responder.
Mas não foi a única. Há mais! Conto a seguir, para não maçar.

A MISÉRIA DO INTERIOR





SOMOS CONVIDADOS, ATRAVÉS DE PLACAS SINALIZADORAS, A VISITAR "ALDEIAS TÍPICAS". COMO QUALQUER CURIOSO QUE SE PREZE, VAMOS, E O QUE SE NOS DEPARA? IMENSAS CASAS DE CALCÁRIO EM RUÍNAS QUE FAZ DOER O CORAÇÃO. E AS QUE ESTÃO RECUPERADAS, O RESTAURO FOI FEITO SEM QUALQUER CRITÉRIO. QUE PENA! NÃO HAVERÁ NINGUÉM QUE VEJA A RIQUEZA QUE TÊM ENTRE MÃOS? VALHA-NOS TODOS OS SANTOS DA CAPELA!
DEPOIS HÁ OUTRA QUESTÃO: PORQUE NOS CONVIDAM? PARA VER A MISÉRIA E A DECREPITUDE? SERÁ PARA ISSO? OU, PELO CONTRÁRIO, SERÁ UM "STUDY CASE", EM QUE OS AUTARCAS NOS QUEREM FAZER SENTIR A PENA, O DÓ, E A DOR DE VERMOS ESTE "DESFAZER" DA MEMÓRIA SEM PODERMOS INTERVIR? SERÁ ASSIM UMA ESPÉCIE DE TERAPIA DE CHOQUE, COMO A DIZER-NOS: "VÃO-SE HABITUANDO PORQUE NO FUTURO SERÁ MUITO PIOR!"

O PARADOXO



O PASSADO E A MODERNIDADE NA ALDEIA DE BEZERREIRA, CARAMULO

VOLTO ...JÁ!




QUER SABER O QUE É “REGUEIFA”?
FAÇA O SEGUINTE, DIRIGA-SE AO LUSO, ATRAVESSE A VILA EM DIRECÇÃO À FONTE DE SÃO JOÃO, E NUM QUIOSQUE PERTO DE SI ADQUIRA A “REGUEIFA”. É UM BOLO! PENSAVA QUE ERA O QUÊ?...SEU MALANDRECO!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

OS SETE ESPECTADORES DO APOCALIPSE



Domingo à noite, dia 24 de Agosto, no Teatro Messias da Mealhada, o cartaz anuncia a sessão para as 21,30: “Batman, o cavaleiro das trevas”.
À hora marcada, para início do filme, entrámos, eu e a minha esposa, e estranhámos a sala vazia. No Balcão éramos os únicos. Olhávamos para baixo, para plateia e não víamos viva alma. Especulativamente, em analogia, pensámos, bom a sala vazia tem a ver com o título do filme: trevas. Só podia ser isso. Veio o intervalo e, para nossa surpresa, afinal não estávamos sós, havia mais cinco espectadores.
E, o que é que isso terá de especial, perguntará o leitor, nos modernos multiplexes também não acontece isso? Acontece sim, é verdade. Mas há uma diferença, no cinema privado o sucesso de uns filmes, na sala ao lado, dão para outros menos concorridos. Chamo à colação o “privado” porque o Teatro Messias é de concessão pública. Foi a Câmara da Mealhada que o recuperou, e reinaugurou em 2001, gastando vários milhares de contos na sua beneficiação e, directamente, faz a sua exploração económica e financeira, através de, entre vários eventos, filmes em cartaz e teatro de revista.
E fez mal? Interroga-me você, meio desconfiado, tentando descortinar onde quero chegar. Não, não fez. Acho que fez até muito bem ao chamar a si o restauro e a revitalização de um edifício que, estando praticamente em ruínas, foi um marco histórico na Mealhada –inaugurado em 18 de Janeiro de 1950, por Messias Baptista, o seu grande impulsionador, para, sem fins lucrativos, servir culturalmente a comunidade Mealhadense, veio a encerrar definitivamente, já num estado decrépito em 1990.
A troco da sua posse a termo, salvo erro, durante cinquenta anos. Respondo ainda mais: ainda bem que o fez, ainda bem que adquiriu o cine-teatro do Luso, e oxalá outras autarquias do país seguissem o exemplo da cidade do leitão e, contrariamente a esta, com uma visão apenas economicista, deixem cair em ruínas os animatógrafos, aos poucos, quase deliberadamente, no esquecimento, daqueles cuja memória estão bem presentes como “Cinema Paraíso”.
Mas, então? Agora é que não percebo mesmo nada onde quer chegar, reclama você. Tenha calma. Eu explico. O executivo bairradino, ao adquirir uma sala de espectáculos, que é um marco importantíssimo na cultura, e custeando as obras de restauro, para uma cidade que de outro modo, através da iniciativa privada seria parcialmente impossível, está perfeitamente de acordo com o que se entende por “serviço público”. O que discordo é que a sua exploração seja deficiente e fique aquém do seu âmbito social. A autarquia, a troco de 3euros, por pessoa, possibilita a todos a facilidade de assistir a um filme actual e de cartaz. Lembro que em qualquer sala multiplex um bilhete custa 5.50euros. Acontece que, num desinteresse atroz, ou talvez não, as pessoas mesmo assim não vão. Então, como não se deslocam, numa sala para três centenas e meia de pessoas, com todos os custos inerentes, luz, pessoal, manutenção do edifício, amortização, nalguns casos, como neste que relato, o filme é projectado para os sete espectadores que referi.
Se, por motivos vários, as pessoas não vão, nesse caso, é preciso que a autarquia, continuando o espírito do “serviço público”, não se fique, de braços cruzados, apenas pela oferta do espaço a troco de uma módica quantia, à espera de quem não prometeu ir. Num gesto sócio-cultural sem discussão, e nos espectáculos que prevê pouca afluência, deveria oferecer bilhetes às juntas de freguesias para que estas os distribuam por quem entendam. Bem sei que logo haverá críticas de que é uma medida eleitoralista, mas o que é que é melhor, do ponto de vista cultural, sabendo que os custos fixos são os mesmos, será ter a sala vazia ou completa, mesmo que seja através de ingressos oferecidos? Penso que esta pergunta é de retórica, não oferecendo contestação.
Não nos devemos esquecer que o concelho da Mealhada é profundamente rústico, de uma ruralidade assente em séculos, e há pessoas, sobretudo reformados, que nunca entraram num cinema. Como não têm hábitos inculcados, evidentemente que a sua não convivência cultural, resultado da sua ignorância e desconhecimento, para eles é completamente desnecessária e despicienda.
Ora, mais uma vez chamando a atenção para o espectro de “serviço público”, estou certo que todos concordamos que criar hábitos nos cidadãos, de leitura, de frequentar museus, de dançar, assistir a peças de teatro, ir ao cinema, é realmente um investimento educacional, um serviço básico que cabe ao Estado despoletar.
O que leva ao desaparecimento de locais de culto da nossa memória é a sua não frequência pelos cidadãos, umas vezes porque não foram criados hábitos desde pequeninos, outras vezes, numa mimética de carneirada, vamos todos atrás de modas consumistas. Quando estes templos de memória encerram, ficando naquele espaço uma cratera, um fantasma de um edifício, um vazio de história que nos toca e fere, abrimos todos a boca de espanto: ahhhh! Que pena!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

FÉRIAS

(ESTOU AQUI, NO LUSO, A GANHAR FORÇAS. TEM INVEJA? FAÇA O MESMO. VENHA PARA O LUSO)

FÉRIAS
Eu sei, lá está você a pensar: “pois é, queixa-se, queixa-se, mas vai de férias. A coisa afinal até nem está assim tão má!”.
Eu respondo-lhe: efectivamente, cá para nós, que ninguém nos lê, a “coisa” não está muito boa, mas sabe, é por causa dos credores. Tenho de aparentar que estou muito bem. Entende o meu ponto de vista?! Claro que entende. Na aparência é que está o ganho.

sábado, 23 de agosto de 2008

ACHEI "A ORIGEM DO MUNDO"

("A ORIGEM DO MUNDO" -GUSTAVE COURBET 1866)

Passeava na rua lentamente,
sem ter nada que fazer,
olhava os rostos das gentes,
por entre uma chuva corrente,
tentava adivinhar no rosto, e ler,
se eram ateus ou crentes,
foi então, num raio de sol nascente,
num recanto escuro de prazer,
em sombra perdida de olhares carentes,
encontrei aquela pintura quente,
olhando as gentes que olhavam a correr,
interroguei se acaso eram parentes,
fugiam de mim, dela, como serpente,
saracoteia, em volta antes de morrer,
e eu, sem perceber nada, porque fugia a gente,
daquele paraíso carnal dolente,
imagem que convidava a entrar sem sofrer,
porque é que uma pessoa mente,
nunca diz aquilo que sente,
derrete-se toda para ter,
teatraliza e ilude a gente,
embora diga não querer,
mata pelo desejo que sente,
o gozo pode ser curto e saber,
mas ao desejo não se mente,
vida sem prazer não é viver,
é estar morto clandestinamente.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

UM ROMÂNTICO ROUXINOL CANTANTE




Quem passa no Largo das Olarias, em direcção à Loja do Cidadão, aos poucos, é invadido por uma voz forte, acompanhada pelos acordes de um pequeno órgão e cantando canções românticas de Tony Carreira, Roberto Carlos e até o último êxito de Jorge Palma “Encosta-te a mim”. Para variar vai à “brejeirice” do Quim Barreiros.
Sem o querermos, pela voz afinada do cantante, inevitavelmente somos obrigados a parar. Numa retrospectiva, olhando este quadro vivo de arte em forma de música celestial para os ouvidos de quem passa, pensamos, tal como esta pessoa, quantos bons artistas, como este, jazem pelos cantos das vilas e cidades e, num desperdício absoluto e desrespeito pela criação artística, não são aproveitados.
Tal como este, o Luís Cortês, sobrevive a troco de uma moeda, como se a arte fosse alienável por uma simples “coroa”, que, saindo do bolso de quem é mais tocado pela sensibilidade, com esse gesto altruísta, lhe permite pagar o quarto e viver, ou sobreviver, condignamente.
O Luís Cortês tem 32 anos de idade e é invisual de nascença. Para além disso tem o antebraço esquerdo decepado, “resultado de um acidente, uma queda de 18 metros, de um andar de um prédio, por causa de uma mulher, num período de grande depressão”, responde o músico às minhas perguntas. Sim, é mesmo músico encartado, segundo refere.
É também cantautor, isto é, faz as suas próprias letras e musica-as. Quem ouve as suas melodias, resultado da sua elevada sensibilidade, pensa que a canção cantada, saída da sua boca, será um qualquer original de um autor de renome.
Quando passar no Largo das Olarias, por um momento, pare, escute e olhe e, já agora, dê uma pequena moeda. Acredite, é bem merecida.

MADEIRA QUE QUEBRA NÃO SERVE PARA TRAVE MESTRA



O Diário as Beiras de ontem, em primeira página, informava que “Marthas deixa Baixa de Coimbra ao fim de 88 anos”.
No interior do jornal, e depois de desenvolver a notícia da jornalista Raquel Mesquita, a determinado passo são transcritas as declarações de Pedro Madeira, responsável da empresa Marthas: “É importante que os governantes vejam o que fizeram. A Câmara está a acabar com o comércio na Baixa, ao autorizar a abertura de grandes centros comerciais.”
Hoje, no mesmo Diário as Beiras, o mesmo Pedro Madeira, num texto com vários itens e com título “Marthas S.A. esclarece”, e a determinado passo diz o seguinte: “Por último, a empresa Marthas não faz nenhuma crítica à Gestão Camarária, instituição e Presidência por quem tem uma elevada estima. Simplesmente acho que hoje em dia, a questão dos Centros Comerciais tem que ser bem ponderada. Porque obviamente que com as novas superfícies Comerciais que Coimbra ganhou nos últimos anos, alguém tem que ser sacrificado (…).”
Então como é que é, senhor Pedro Madeira? Em que é ficamos? Não há nada como uma noite de sono dos justos bem dormida para fazer arrefecer os ânimos, responderá o amigo.
Se para o leitor esta dicotomia apresentada pela mesma pessoa, com um dia de diferença, pode constituir admiração, para mim não. Já estou habituado a pedir aos comerciantes, que tropeçam na vida comercial e empresarial, um testemunho que possa sensibilizar o poder político local e, até hoje, nenhum ousou dar a cara para ajudar os seus colegas, que, neste mar escalpelado, lutam para manter as suas naus em actividade. Confesso que quando li as primeiras declarações deste senhor Pedro Madeira disse para mim: “aqui está um homem às direitas, que no desastre, através das suas declarações, num gesto altruísta, chama a atenção pública para a necessária ajuda aos que vão resistindo a esta hecatombe.
Pois sim! As declarações de hoje no jornal vieram estatelar por terra a minha esperança e o meu pensamento de que, quando toca a interesses pessoais, haja diferentes entres iguais.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

EDITORIAL: CARTÃO VERMELHO PARA A ACIC



O que se está a passar no centro histórico, por muito distraídos que andemos, não pode deixar ninguém indiferente. Nos últimos anos encerraram várias dezenas de estabelecimentos. Em Março, deste ano, para melhor me consubstanciar, andei de rua em rua e contei cerca de 50. Perante o autismo das entidades representativas dos comerciantes, nomeadamente a Agência de Promoção para a Baixa de Coimbra (APBC) e a Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC), fui à Assembleia Municipal e, neste plenário, apresentei as minhas preocupações. Fui olhado, segundo o meu juízo de valor, pelos deputados municipais como “avis rara”. Para além do presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, que chamou à colação o problema, os outros vereadores, quer do executivo, quer da oposição, ninguém pareceu importar-se com a presente situação –neste blogue, andando para trás, pode ler o que senti perante aquelas “criaturas” insensíveis, em "A ASSEMBLEIA É DE TODOS".
Posteriormente, em conversa com o presidente da Câmara, Carlos Encarnação, acerca do encerramento do Museu da Ciência e da Técnica, aflorei, com preocupação, o problema que se estava abater sobre o comércio de rua na Baixa. Respondeu o presidente: “que quer que faça? É um comércio envelhecido, não se adaptou aos novos tempos. Não tenho nenhuma varinha mágica para mudar a situação!”
No tocante à ACIC, e como ressalva de interesses, fui membro da direcção desta instituição de 1998 a 2003. E se refiro este pormenor não é por acaso. Eu sei (senti) a dificuldade que é querer fazer coisas e não conseguir. Os comerciantes são uma classe “instalada”, agarrada a velhos hábitos e costumes ultrapassados. É muito difícil criar-lhes entusiasmo seja para o que for. São individualistas, pouco solidários e egocêntricos no superlativo absoluto. Preferem morrer de pé, cheios de dívidas, sem um pio, como quem diz, sem pedir ajuda, enquanto têm tempo, a reivindicarem apoios, expondo as suas dificuldades financeiras, e, assim, poderem aguentar a presente crise, que já vem de 2002, sobretudo a partir do “discurso da tanga”, de Durão Barroso.
Depois de apresentada a minha introdução em forma de incompatibilidade de interesses, prossigo então no meu ponto de vista. Apesar da ACIC marear em oceanos de turbulência, estes estados rebeldes dos tempos que se vivem não podem, nem devem, explicar tudo. O presente executivo, neste momento liderado por Paulo Mendes, é o mesmo que em 1998 eu fazia parte e cujo líder era Horácio Pina Prata, que se na altura se apresentou aos comerciantes e à cidade como um novo D. Sebastião, foi um profundo flop. Este pseudo-salvador o que fez foi usar os colegas de direcção e a ACIC como trampolim para voos mais altos do seu interesse pessoal e particular, cujos anos à frente daquela associação, na parte financeira, foi um descalabro, pelo menos em negócios mal geridos, e não deixou saudades. Quanto muito deixou profundas inimizades nos seus outrora amigos do peito. Claro que, saliento, através da sua protecção, alguns aproveitaram a sua sombra mediática (enquanto durou) em benefício próprio. Hoje a ACIC é um resquício de guerra, um farrapo, uma amostra da instituição centenária com 145 anos. Só institucionalmente representa os comerciantes e industriais, porque na prática poucos lhe reconhecem autoridade moral para pugnar pelos interesses de uma classe que já não vive, vegeta pelas ruas de amargura deste centro histórico de Coimbra.
O melhor que este executivo da ACIC deveria fazer era demitir-se e ser criada uma comissão de salvação do comércio local. Isso sim era um dever regional patriótico nacional. Há muitos anos, e o mesmo se passa com o actual líder Paulo Mendes, que o seu papel é negar a evidência. Ou seja, estão diariamente a encerrar lojas? Será isso motivo de preocupação? Não, nada disso! O que se passa em Coimbra é o mesmo problema transversal do país, é a crise, refutam os membros representativos desta associação. Então interrogo: se estes representantes dos comerciantes, continuadamente, afirmam apenas que vêem com preocupação o actual estado de coisas, mas que, no conjunto geral são meia dúzia de casas encerradas, e que os negócios vão sendo substituídos, e mais: que perante a actual conjuntura as coisas até estão muito bem. Pergunto: se aos seus olhos a situação não é preocupante nem calamitosa, como podem eles, perante o Ministro da Economia, perante o governo, reivindicar seja o que for para uma classe profissional que está prestes a cair na indigência?

O JOSÉ MANUEL DE COIMBRA CLAUDICOU





O José Manuel de Coimbra, um pronto-a-vestir com cerca de 15 anos, na Rua das Padeiras, encerrou esta semana.
Creio que, pelo que me apercebia, quando passava à frente do estabelecimento, pelo menos duas funcionárias teriam sido despedidas e, consequentemente, ido, inevitavelmente, para o desemprego.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

E VAI MAIS UM!



Este estabelecimento, na Rua do Corvo, em frente da Ricarlina, que até há dias foi uma ervanária, encerrou para férias…para, conforme se apercebe na foto e segundo se consta nos vizinhos, não voltar a abrir.
Isto é que é uma sina!, dirá você. Por dois motivos, creio. O primeiro, pensa você com os seus botões, por que raio, sempre que visito este blogue, lá vem mais uma casa comercial encerrada? O bloguer que escreve aqui é o jornalista de serviço ao comércio tradicional da Baixa, ou quê?
O segundo motivo, interroga-se o leitor, qual será a razão de só dar notícias tristes? “Será que me quer co-responsabilizar pelo encerramento destas casas? Mau, mau! Isso é que era bom! Lá porque eu, com franqueza, há mais de meio ano que não vou à Baixa, não tenho culpa nenhuma disso! Então, se eu moro na Solum e tenho mesmo ali ao lado o “Dolce Vita”, por que raio hei-de ir eu à Baixa? Homessa!, o raio do homem é chato como as melgas!

UMA VENDA FIXA DE VERGONHA





Em 2002, logo após a vitória autárquica de Carlos Encarnação, foi colocado em discussão pública o novo Regulamento da Venda Ambulante.
Acerca dos vendedores ciganos, que, há data, estavam colocados no Largo da Maracha, junto ao “bota-a-baixo”, e, pela necessidade de obras na Rua da Louça, foram colocados a 50 metros daquele local e junto aos extintos Armazéns Amizade, no Largo das Olarias, junto à Loja do Cidadão.
Já depois da aprovação plena do Regulamento de Venda Ambulante, Pina Prata, o então vice-presidente de Carlos Encarnação garantia verbalmente a quem o queria ouvir que “aquela vergonha que se constatava no “bota-a-baixo” iria desaparecer. A venda iria ser regulamentada e aos ciganos iriam ser atribuídos lugares com dignidade”. O tempo foi passando, em 2005 Pina Prata foi destituído, Encarnação foi reeleito, e até hoje tudo continua na mesma.
O quadro que se nos depara para quem vai à Loja do Cidadão é simplesmente deplorável, ou pior, vergonhoso. Já anteriormente o escrevi aqui, embora não se entenda como é que este executivo aprova um Regulamento muito mais regrado e restrito para a venda Ambulante, em relação ao anterior de Manuel Machado, e, em toda sua displicência, mostra, na prática, ser muito mais desmazelado do que o seu antecessor.
Se por um lado é inconcebível que uma feira degradada como a que se avista ali possa coabitar com lojas de rua –basta atentar, por exemplo na venda de artigos de desporto, de marca, a 5Euros, quando ao lado existe um estabelecimento a vender as mesmas marcas, logicamente por preços mais elevados. E não é preciso fazer juízos de valor acerca da razão do comerciante de rua vender muito mais caro.
Sem paternalismos bacocos, apenas tentando ser justo, por outro lado, e esta é uma verdade inquestionável, os vendedores ciganos têm direitos. Não têm culpa dos serviços administrativos da autarquia serem relapsos. E assim sendo, é obrigação desta Câmara dar condições dignas a estas pessoas. Em minha opinião deveriam ser-lhes concedidos, em toda a Baixa, pequenos quiosques típicos, onde cada um faria o seu negócio, logicamente obrigando-os a cumprir as mesmas regras que qualquer comerciante está obrigado.
Simplesmente mantê-los ali, em magote, todos juntos, ao molho e fé em Deus, sem condições nenhumas deveria, acima de tudo, envergonhar o presidente da Câmara, embora, pela nossa omissão, em pouco nos importarmos com aquela situação decadente, também sobra para nós. Também nos envergonha a todos.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

NÃO NOS DEIXES MARTHAS!


(MAIS UM GRANDE ESTABELECIMENTO DA BAIXA QUE ENCERRA.)

O velho Marthas, com 98 anos finou-se. Desde a implantação da República, em 1910, que “morava” na Praça Velha, em Coimbra. Se alguém se lembra dele, isto é, se o visitaram nos últimos meses, parecia vender saúde. Gostava de livros, e tudo o que se relacionava com cultura. Ensinava a pintar. Tinha tintas, pincéis, imensos lápis, esferográficas e tudo o que se precisava no escritório.
Gostava tanto do velho Marthas. E vai fazer tanta falta. A Praça do Comércio, sem ele, não voltará a ser a mesma. Morre sem sequer uma homenagem, sem uma oração de despedida. Aposto que morre angustiado com esta “república” desordenada, sem consideração para a maioria dos seus filhos, que, esvaziada de ideais republicanos, “peito-cheio” de ultraliberalismo, se revelou um fiasco para o velho combatente da liberdade de livre-comercializar. Com a sua queda arrasta também um pouco de nós. Só o futuro, aquando da sua ausência sentida, irá mostrar a falta que nos faz a todos.
Como eu gostava do meu amigo Marthas. Era um ícone para toda a Baixa. A sua sabedoria não tinha limites. Tinha várias mulheres. Deixa cinco. Quatro desamparadas, no desemprego, uma delas com um bebé recente. Só uma fica melhor, mantendo o emprego. Quando lhe pergunto porque decidiu o Marthas morrer agora, quase com uma lágrima a saltar, responde: “que quer? Ninguém se importa! 98 anos de história…que se apagam! A dor que sinto, meu Deus! Apesar de tudo, entre as cinco, sou a que fico amparada”.
Por coincidência ou não com o mês da Implantação da República, o Marthas só em 31 de Outubro vai ser trasladado para a Adémia, onde irá ser "enterrado" sem pompa, sem glória, sem circunstância.
Até Outubro próximo vai ser exposto em câmara ardente e, em pungidos lacrimejantes, vai ouvir de si, que pouco o visitou em vida, de outros que nunca se dignaram entrar na sua alma, no velho edifício de seiscentos, com colunas e capitéis em pedra centenária de Ançã, de mim, com cara sofrida, mas que fui pouco amigo, frases sentidas no género: “não nos deixes Marthas!”
Mais um que nos deixa. Haja alguém que evite esta razia.
PAZ À SUA ALMA!

A PRAÇA DO COMÉRCIO...DE MARROCOS







Está a decorrer na Praça do Comércio, em Coimbra, a feira das cebolas. Pese embora o esforço de Carlos Clemente, o presidente da Junta de freguesia de São Bartolomeu, para revitalizar esta velha alegoria e dar vida a este comercialmente morto centro histórico, a verdade é que poucos o acompanham e entendem a sua luta em prol do comércio e desta zona histórica.
Por outro lado, em minha opinião, esta amostra de feira, com meia dúzia de vendedores a alienar cebolas, acompanhados com dois inestéticos barracões de comes e bebes, uma camioneta da Câmara Municipal estacionada e mais uns popós de uns quantos comerciantes instalados na zona, está completamente desajustada deste encantador lugar de memória. Não faz sentido manter este certame nos actuais moldes. Sou a favor de que deve continuar, mas juntando outros vendedores. Porque não, nestes dias, passar para aqui os vendedores de hortaliças e frutas, que, vindos do campo, diariamente transaccionam no mercado municipal? E porque não juntar artesãos de Coimbra a esta feira das cebolas? Quem lá passar, durante o dia, verifique o ar decrépito, de “coitadinhas”, que representa para o turismo ver num espaço nobre destes meia-dúzia de vendedeiras sentadas no chão a oferecer cebolas. Aproveite também para ver o enquadramento daquelas barracas de vendedores ambulantes (fixos), a imitar Marrocos, junto à igreja de São Tiago.
Desvie um pouco os seus olhos e veja a proliferação de camisolas da selecção a serem vendidas em dois estabelecimentos, que, abusivamente tomaram de assalto o espaço dos peões, e, em contraste, aprecie o conjunto estético que representam neste cenário, em que o tempo não apagou a memória.
Alguém deveria recomendar à autarquia que a paisagem urbana deveria ter regras. Se você, que lê este escrito, conhecer alguém na Câmara, ligado ao centro histórico, recomende que esta situação deve ser urgentemente alterada, o turista, que nos visita, aposto, agradece.

RESISTIR ATÉ TOMBAR



A Tasca da Graça, situada na Rua Velha, no centro histórico de Coimbra, foi assaltada, neste fim de semana, pela 15ª vez.
Em princípio, pelo nexo causal, provocado pelas obras eternas no prédio ao lado, propriedade da Câmara Municipal de Coimbra, que se arrastam há cerca de quatro anos, desta vez rebentaram uma grade em ferro e roubaram, entre vários géneros alimentícios e bebidas, um moinho de café e um rádio. Estiveram tão à vontade que tiveram tempo para beber 3 cervejas minis e três Compal light.
Beberam sumo sem açúcar que assaltante que se preze deve manter a linha, até por imperativos “profissionais”. Tantas vezes, coitados, é preciso passar por um ínfimo buraco.
Lembro que devido à revitalização do prédio ao lado do estabelecimento hoteleiro, foi implantada uma estrutura em ferro e entaipada praticamente toda a rua até Março deste ano. Em consequência, o adorável estabelecimento desta simpática senhora, desde Setembro do ano passado, e até hoje, já foi violentado 19 vezes.
Com acção intentada contra a autarquia, a decorrer no Tribunal de Coimbra, pela co-responsabilidade nos assaltos, ao criar condições factuais, está marcada a audiência para o próximo Outubro.
Quando interrogo o senhor Victor, o marido da Dona Graça, como é que aguenta esta situação, ele responde: “estou fodido com isto! Não sei o que hei-de fazer à puta da minha vida!

O RETIRAR DA PALAVRA



Segundo o Diário de Coimbra de hoje, em título de primeira página, “Vereador fica sem palavra e demite-se em plena reunião”.
“Álvaro Seco demitiu-se do cargo de vereador responsável pela Protecção Civil e pela Companhia de Bombeiros Sapadores da Câmara Municipal de Coimbra. Eleito pelo PS nas autárquicas de 2005, Seco entregou o pelouro a Carlos Encarnação, depois do presidente do município lhe ter retirado a palavra na sequência de uma discussão, que começou com a abordagem à instalação de uma Central Térmica de Ciclo Combinado de Taveiro, mas que acabou com a co-incineração “metida ao barulho (…)”.
A co-incineração, para além da contestação de que não devem ser queimados resíduos perigosos em Souselas, nesta discussão pueril, com custos elevadíssimos para o ambiente e para o país, que se arrasta há demasiados anos,depois de queimar um executivo (Manuel Machado, 1994-2002), desta vez incinerou um vereador.
Em contracorrente, em minha opinião, a co-incineração tem sido tratada, e aproveitada, em Coimbra, como um problema político, de luta partidária, de interesses pessoais, sem ter em conta os superiores interesses do país.
Entretanto, no vai-e-vem de recursos para o Tribunal Administrativo, a vizinha Espanha, recebendo as milhares de toneladas de lixo tóxico, e esfregando as mãos de contentamento, exclama: “discutam à vontade “portuguesitos”, tenham calma, até chegarem à conclusão que o melhor local de implantação para a co-incineração é Marte, nós recebemos os vossos dejectos de braços abertos…nuestros hermanos!”

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

COMÉRCIO TRADICIONAL: UMA MENTALIDADE TACANHA



Hoje, 17 de Agosto, ao ler no jornal PÚBLICO a notícia com o título “Associação Comercial de Viseu está a rever o modelo da iniciativa Noites Brancas, onde se lê, a determinado passo que “esta Associação Comercial do Distrito de Viseu (ACDV) está a repensar o formato das Noites Brancas, depois da fraca adesão por parte dos lojistas do centro histórico da cidade à última edição da iniciativa. As Noites Brancas de Viseu, decorreram nas sextas-feiras do período entre 11 de Julho e 8 de Agosto passado, só contaram este ano com meia dúzia de comerciantes que aceitaram prolongar o horário de funcionamento dos estabelecimentos até às 23h00.” Relembro que o conceito “Noites Brancas” é um formato importado de outros países no sentido de representar para o comércio tradicional uma espécie de pedrada no charco, para que através do movimento alegórico, de animação e artes, conjuntamente com o comércio aberto nesses dias, até quase ao bater da meia-noite, o consumidor perceba que ali, nos centros históricos, vive e sobrevive e sobretudo trabalha gente.
Continuando a citar o PÚBLICO (…) “os comerciantes justificam que não vale a pena prolongar os horários dos estabelecimentos, por não acreditarem que, durante a noite, vendam mais do que durante o dia. “Não há clientes”, atira uma das lojistas da Rua Direita. Explica que abrir as portas do estabelecimento para além do horário habitual a impediria de jantar. A outra hipótese implicaria pagar horas extraordinárias ao único empregado que ainda mantém. O fraco volume de negócios dos últimos anos obrigou-a a reduzir o número de funcionários de seis para um. Aquele que resistiu à crise só ainda não foi despedido porque “não há dinheiro para lhe pagar a indemnização”, acrescenta a mesma lojista.”
Vamos por partes. Primeiro, como ressalva de interesses, sou comerciante. Trabalho no comércio desde os meus 16 anos (tenho 51). E digo isto para que se não pense que sou uma andorinha esvoaçante a comentar um assunto de que tenho informação mas não possuo conhecimento. Noutras áreas é verdade, que, como outras pessoas que escrevem, só possuo mesmo a informação e comento-a como se fosse um grande teórico, sejamos honestos. Não é o caso aqui. Passando a imodéstia, sei do que falo.
E, ao ler este texto do jornal, não fico surpreendido. Um dos maiores problemas do comércio de rua é a falta de fé, acoplada com uma mentalidade tacanha, residual no “deve” e “Haver”. Para além da campainha da máquina registadora não conhecem mais nada. A maioria destes comerciantes (velhos, com toda a carga negativa do tempo que a frase possa ter) herdaram os negócios dos pais. Não foram eles que os criaram, se assim fosse talvez pensasem de uma outra maneira. Se os seus parentes hipoteticamente viesse outra vez à terra iriam ensinar-lhes que o comércio é realmente uma profissão mercantil, mas, acima de tudo, é uma arte, onde a sensibilidade e a sua razão de ser é o bem comum. “Negócio” é, como sabemos, a negação do ócio. Aquele que, em vez do lazer, do descanso, da preguiça e da inacção, opta pelo trabalho, pela construção, mesmo assente nas mais-valias, busca, é certo, o seu interesse individual, mas, nesta prossecução egoísta, como dizia Adam Smith, no século XVIII, “todos os indivíduos são levados, como que por uma mão invisível, a atingir o melhor benefício comum”. A propagação do consumo é o único fim e propósito de toda a produção e é através dele que se atinge um estádio de desenvolvimento imparável como o dos nossos dias. Comerciar é uma profissão que remonta ao início da humanidade. Lembremo-nos de povos da Antiguidade, que foram grandes viajantes expansionistas de todo o globo –muito antes dos descobrimentos portugueses-, os Gregos e os Fenícios, que, nas suas trocas, por artes e manhas se elevaram na classe social e, na História Universal, da lei da morte se libertaram.
Ora se esta gente, esta classe de comerciantes contemporâneos, só pensa em si mesma, no seu umbigo, nada dá sem receber em dobro, como poderão eles crescer? Se só vêem o imediato –negócio, negócio-, como podem eles contribuírem para o bem comum? Se acreditarmos no princípio de que só cresce quem reparte, logo estas pessoas, inevitavelmente, estarão condenadas a desaparecer.
E se tenho este parecer, não se pense que não continue a reivindicar urgentes apoios do governo para estas e outras pequenas empresas para que, através da sua sobrevivência, mantenham os vários empregos familiares e assim prescindam do apoio do Estado no tocante a subsídio de desemprego.
Mas, se para estas pessoas, que para além da máquina registadora não existe mais mundo a repartir, só interessa a sua gaveta, como é possível sair desta crise, mesmo que o governo intervenha? Para estes comerciantes, que nem amostras são dos antigos grandes beneméritos, as zonas onde estão inseridos são apenas para extrair ou sugar. Actuam como parasitas. Servem-se da cidade do mesmo modo que alguém se serve de uma prostituta, ou seja, sem qualquer respeito pela sua intrínseca dignidade.
A crise no comércio tradicional não é só comercial é essencialmente social e os resultados estão à vista de todos. Admite-se que, nos tempos difíceis que se vivem, as lojas continuem a encerrar às 19 horas em ponto? Admite-se que continuem a encerrar das 13 às 15horas? Admite-se que continuem a encerrar ao sábado às 13 horas?
O comércio, enquanto grande instituição de mérito histórico, prescinde desta gama de comerciantes pacóvios, preguiçosos, de mentalidade rasteira e ultrapassada. Encerrem as vossas lojas quanto antes e dêem lugar a gente nova, com garra e vontade de trabalhar e desenvolver as cidades, vilas e aldeias.
Olhem, vão bugiar! É o mínimo que, a praguejar, depois de ler a notícia, posso escrever.

sábado, 16 de agosto de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (31): UM TIRO PARA TODA A VIDA



(A CAPELINHA DAS ALMINHAS DE BARRÔ. TÃO PEQUENINA NO EDIFICADO MAS TÃO GRANDE NA ESSÊNCIA DAS GENTES DESTA TERRA)

Era terça de Carnaval, naquele longínquo dia de 23 de Fevereiro de 1982. Normalmente, em Barrô, na minha aldeia, o dia era mais um igual, no calendário, que passava a correr. Há quem diga que no Entrudo os tristes, durante o ano, enfiam a máscara e, nos três dias de folia, tornam-se alegres e capazes das graças mais audazes. Porém, ou para desmentir o adágio ou não, a verdade é que os habitantes do meu lugar de eleição sendo tristes todo o ano, mesmo no carnaval continuavam a sê-lo. Raramente alguém se mascarava. De vez em quando havia excepções, é verdade, mas o habitual era esta quadra ser igual a uma outra qualquer.
Naquela terça, que o meu amigo Jorge, filho do “Zé” Maria Barbeiro, jamais esquecerá, o então rapaz, com 19 anos, cheio de força na guelra, iria concretizar uma ideia que, nos dias antecedentes, lhe andava a matutar na cabeça: iria fazer, no lugar, um dia diferente. Na sua casa, tinha um foguete que tinha crescido do dia de Páscoa do ano anterior e deixado pelo Manuel “Fanangueiro”. Quase sempre era este homem que mandava os petardos para o ar no dia das festas da aldeia. Numa militância continuada, tal como no Rio de Janeiro, em 20 de Janeiro, dia e mês da festa de São Sebastião, padroeiro do lugar, na festa de São José, padroeiro dos trabalhadores e da família, ou nas Alminhas, uma pequena capelinha onde, a caminho dos campos do Ribeiro ou da Lapa do sino, os assalariados deixavam uma pequena oração às almas dos que partiram. Nesse tempo, no início da década de 1980, esta pequena ermida estava isolada das restantes casas da população. Hoje, para o bem e para o mal –quanto a mim mal, deveria ter sido salvaguardado um pequeno terreiro em volta- esta pequena edificação está rodeada de casas, retirando-lhe a grandiosidade espiritual merecida. Um dia destes descreverei a importância que este pequeno templo teve na minha infância. Era nele que, enquanto criança, a caminho da escola primária da Lameira de S. Pedro, eu depositava as minhas esperanças, os meus medos e os pedidos de auxílio. Interessantíssimo, a meu ver, através da negociação e das promessas a cumprir: Alminhas, se me ajudares no ponto escrito, faço isto, se me ajudares a cumprir aquela tarefa farei aquilo.
Voltando ao Jorge, no dia de Carnaval de 1982, como tinha lá em casa um foguete de rebentamento foi convidar o Carlos “Maçãs” e o João Morais para, juntos, lançarem o foguete –para quem não souber, é um petardo pirotécnico ou de artifício composto por uma pequena quantidade de explosivo e de um pavio, que enrolado a uma cana, e depois de se incendiar a mexa, iniciando a combustão, eleva-se no ar e provoca um ou vários rebentamentos em forma de tiro. Estes artefactos ruidosos desde sempre foram muito usados nas aldeias de todo o Portugal para publicitar as festas populares, romarias ou celebrações eucarísticas. Era do conhecimento popular que onde estoirasse um foguete –e ouvia-se a dezenas de quilómetros- havia festa com certeza, numa aldeia portuguesa.
Mas o Jorge, fruto da sua pouca idade ou não, não tinha nem os cuidados nem a mestria do “fanangueiro”. E, para aumentar a negligência, retirou a bomba com explosivo da cana. Qualquer mestre em lançar foguetes sabe que um petardo sem cana é como uma arma carregada, pronta a disparar, nas mãos de uma criança. Assim que tocar no gatilho explode. E foi o que aconteceu, o Jorge incendeia o pavio, como não tinha cana direccional que o faz elevar no ar, em segundos explodiu ali mesmo, no meio das suas mãos. A sua mão direita desapareceu em bocados naquele fatídico dia de Entrudo, já lá vão mais de vinte e cinco anos. O Carlos “Maças” ficou com problemas de otorrinolaringologia, afectando-lhe sobretudo o aparelho auditivo para toda a vida. Felizmente que ao João Morais nada aconteceu para além de um grandessíssimo susto.
O que era para ser uma celebração carnavalesca diferente, na aldeia, tornou-se um dia de dor e marcante para toda a vida do Jorge.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

UMA AGÊNCIA DESPROPORCIONADA

("Pomba branca, pomba branca, já não sei do teu voar...")

O meu amigo Francisco Veiga, um comerciante da velha têmpera, na zona histórica de Coimbra, que sabe quantos clientes entrados na sua loja são precisos para fazer uma venda, que trata o comércio de pronto-a-vestir por tu cá tu lá, está simplesmente desolado com a actuação da APBC, Agência de Promoção da Baixa de Coimbra.
Como é associado desta UAC (Unidade de Acompanhamento e Coordenação), criada para divulgar, ajudar e dinamizar o centro histórico de Coimbra, há dias recebeu o roteiro das casas associadas. Para seu espanto, reparou, não constava no referido livrinho. Foi ao site e também lá não constavam os seus estabelecimentos. Ficou deveras incomodado. “Bom, foi um lapso, acontece”, pensou por entre o atender uma velhinha, que por acaso, só por acaso, foi uma grande “xizada”, como quem diz, apanhou uma grande seca e não vendeu.
Vai daí, dá uma passada à Praça 8 de Maio, sobe as escadas da Casa Aninhas, e, expondo o lapso à funcionária da APBC, ficou esclarecido: “a sua casa não consta no Roteiro porque não pagou as quotas de 2007”. O meu amigo Veiga nem queria acreditar, “o quê? Então, se esta unidade foi criada para apoiar o comércio independente, é assim, duma forma implacável que ajudam o comércio de rua? Eu sei que estava em atraso, não tenho problemas nenhuns em afirmar que tenho dificuldades financeiras, como todos, mas é assim que se procede? Não era mais fácil fazer um simples telefonema a informar que ter as quotas em dia era condição sine qua non para constar no livrinho?”
É curioso –este desabafo é meu- como um departamento associativo civil, criado para fazer a ponte entre o público e o privado se comporta com o mesmo grau de autismo que uma qualquer repartição pública em relação aos problemas do comércio de rua. Dá que pensar esta metamorfose não dá?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

PENSAR A RIR DE COISAS SÉRIAS...




Há bocado estacionei o meu popó num parque gratuito, junto ao Estádio Universitário, em Coimbra . Há muitos anos que conheço o arrumador (residente) daquele parque. Foge um pouco ao estereótipo comum. É um homem de cerca de 40 anos, bem vestido, de tez rosada e de constituição física robusta. Hoje vestia uma t-shirt azul e uns calções tipo bermudas. Não fosse o boné na cabeça, com a chapa de arrumador, e dir-se-ia um qualquer turista em trânsito.
Quando procurava um lugar, logo ele, solícito, aproximou-se, em passo de corrida, levou-me até um lugar vago. Pelo gesto, senti-me na obrigação de o recompensar e dei-lhe uma moeda. Foi então, sem que inicialmente eu não percebesse porquê, que, em altos gritos, ele soltou um chorrilho de pragas: “vão trabalhar malandros! A culpa não é vossa, é do governo, que vos dá o Rendimento Social. Vão para as obras! Aqui não se vende droga!”. Depois, já mais assertivo, vira-se para mim e exclama: “Homessa!, há tantos anos aqui e agora vem para aqui estes mostrengos”.
Se inicialmente eu não percebia nada, e com os meus botões pensava: o homem passou-se dos carretos, deve ser do sol, se bem que, diga-se, o astro-rei, neste Agosto, até está demasiado complacente com os humanos. Foi então que, olhando para o lado, me apercebi da razão da ira do arrumador. Estava ali o busílis de se sentir ameaçado. O seu espaço territorial, o seu universo, tinha sido invadido por dois rapazes na casa dos vinte e poucos anos, presumivelmente toxicodependentes. Um, pelo aspecto, seria declaradamente. O outro deixava dúvidas.
À medida que eu contornava o meu carro, ao meu lado, o arrumador residente, não sei se talvez por se sentir mais forte, continuou a agredir verbalmente a concorrência. Agora já lhes oferecia pancada: “saiam daqui seus caramelos antes que eu perca a paciência e vos parta o focinho”, vociferava o homem. O invasor com melhor aspecto, na maior das calmas, respondia: “isso é o que tu querias, mas não és capaz! Mandas-me trabalhar? E tu, com esse arcaboiço todo, que é que fazes aqui?”
A verdade é que a calma do rapaz devia ter desconcertado o residente e reparei, que á medida que vociferava, ia, sorrateiramente, se deslocando, não fosse o diabo tecê-las.
Paulatinamente, fui-me afastando e fui a pensar neste incidente. Quantas vezes, acusando os outros de usar os mesmos métodos que empregamos, porque nos julgamos melhores, naturalmente, achamos que estamos certos. O mal e o erro é sempre dos outros.
Para uns, somos uma ideia, um projecto, daquilo que gostaríamos de ser. Por um lado, vivemos permanentemente no passado. O passado é assim uma espécie de espelho onde reflectimos toda a nossa existência. Quando temos consciência da nossa imperfeição, da nossa finitude, enquanto seres mimeticamente iguais a outros como nós, neste espelho, como folha de balanço dividida entre o “deve e o “haver”, analisamos todos os nossos actos, as nossas acções, boas ou más. Através dessa percepção intuitiva será possível tornarmo-nos melhores amanhã. Quem assim procede sabe, e sente, que o bem, para além da felicidade que proporciona a quem o recebe, dá um imenso bem-estar a quem o pratica. E, se na aparência, isto são lamentos de conversão religiosa, é puro engano. Antes das religiões havia o homem, e este sentimento é imanente à sua condição antropológica.
Para outros, que não perdem tempo a pensar nisso, acham que tudo o que fizeram foi sempre a consequência dos actos dos outros. Como autómatos, narcisistas individualistas, caminham na vida como se fossem os bons. Para estes a sua vida projecta-se no futuro. Para eles não existe arrependimento ou contrição. Não partem nem repartem. Vivem de si e para si e alimentam-se da vingança. Pagam sempre o mal em dobro. Projectam no seu semelhante a sua frustração e insatisfação. O próximo é o culpado de tudo. Do seu insucesso, na escola, nos negócios, nas relações. No limite podem acusar Deus. Barafustam com o Mestre. Afinal até vão à missa e, quase sempre, dão uma moedinha ao indigente à porta do santuário. Quando este, passando a bola, retribui “que Deus lhe pague senhor!”, imediatamente, para estas pessoas, o Criador fica em dívida. Por isso não entendem o incumprimento.
A vingança é, sem sombra de dúvidas, o acto mais rasteiro e mesquinho de qualquer ser humano. Quem não é capaz de perdoar, e, por outro lado é alguém que permanentemente se auto-desculpabiliza, é uma pessoa perigosa. Dessa pessoa, a qualquer momento, podemos esperar tudo.
E, afinal, conhecemos tantas pessoas assim, não é?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

UMA DEOLINDA EM PROJECTO



Gostei de te ouvir Deolinda,
cantavas na Antena três,
és tão lareta, tão linda,
gosto do teu ar traquina,
és um presente que Deus fez;
Tens uma graça imanente,
que só quem gosta explica,
a racionalidade permanente,
por muito lúcida que o seja,
torna complexo e complica;
Esse teu ar bonacheirão,
obesa, e Maria-rapaz,
parecendo não valer um tostão,
acompanhada a contra-baixo,
poucos sabem do que és capaz;
Bamboleias-te, encantas e saracoteias,
como uma encantadora serpente,
parece que ninguém chateias,
que não incomodas uma mosca,
a cantar, encantas toda a gente.
Ah “ganda” Deolinda!

UNS NECESSÁRIOS ÓCULOS



Estou farto de sugerir uns óculos ao meu amigo Armindo Gaspar, presidente da APBC, Agência de Promoção da Baixa de Coimbra. Sempre que nos encontramos, lembro-lhe que a idade não perdoa, e, então no que toca à visão, o tempo é implacável. Palavra que já lhe disse que, se é por questões estéticas e de beleza, com os adornos bifocais, só poderá ficar melhor, vai ficar lindo. Se é por questões financeiras, e na impossibilidade de melhor preço num oculista tradicional na Baixa, recomendo-lhe a Multiópticas, que, segundo a publicidade, se o desconto é igual à idade, logo o meu amigo, que está próximo dos 60 anos de idade, vai pagar uma ninharia. Mas ele é teimoso e insiste em não ir. Depois faz as figuras que vos vou mostrar.
Hoje o DIÁRIO AS BEIRAS, em primeira página, em título de “caixa-alta”, anuncia em parangonas: “COIMBRA -Crise “mata” comércio na Baixa”. Em subtítulo, “Vivem-se tempos de aperto. O excesso de oferta aliado à queda do poder de compra leva à falência de alguns estabelecimentos comerciais. Em tempo de férias, a situação piora.”. No interior, em desenvolvimento, e a determinado passo, questiona o jornalista António Alves: “Motivo para alarme? O presidente da APBC, Agência de Promoção da Baixa de Coimbra, assegura que não. Armindo Gaspar mantêm-se optimista. “Em 50 lojas, estar meia dúzia fechadas, e tendo em conta o contexto económico, não é nada mau”, sublinha. E há mais. Armindo Gaspar garante que muitos dos estabelecimentos fechados vão reabrir, e com “nova cara”.
Continuando a citar o jornal, “O Dolce Vita, o Fórum e o Coimbra shopping não têm problemas. Porém, há quem diga que o cenário não é como parece. Armindo Gaspar afirma que muitas das lojas das grandes superfícies comerciais só não fecham porque os contratos de seis anos não o permitem. Todo o dinheiro investido seria perdido”.
Vamos então por partes. Primeiro, o universo de lojas comerciais na Baixa é de cerca de quinhentas e não cinquenta como refere o meu amigo. Segundo, o número de lojas encerradas nesta parte histórica da cidade são mais de cinquenta. Terceiro, o meu colega comerciante, em vez de se preocupar com os estabelecimentos da Baixa –para isso foi eleito- parece estar receoso com as lojas dos grandes centros de consumo.
Então, digam-me lá, o Armindo precisa de óculos ou não? Está bem, eu sei, podem argumentar que estes lapsos de visão e memória podem não se dever só aos olhos, pode ser Alzheimer. É verdade! Pode ser. Mas, cá para mim, também pode ser da gravata oferecida por Carlos Encarnação, presidente da autarquia conimbricense. É que este laço comprido em forma de cânhamo, adorno social que a todos fica bem, e que qualquer um gosta de receber como presente, para além das cores da coligação, tem um intenso odor a perfume "politicamente correcto".

UM (INTER)PASS DUVIDOSO


(IMAGEM DA WEB)




EX.º SENHOR
PRESIDENTE DA DIRECÇÃO GERAL DO CONSUMIDOR


ASSUNTO: PARTICIPAÇÃO


Luís Fernandes, comerciante, com estabelecimento, em (…) Coimbra, vem, por este meio, participar a V.Exª a seguinte ocorrência:


1-Por volta do dia 03 de Junho de 2008, a minha esposa, (…), quando se encontrava no interior do Coimbra shopping, nesta cidade, foi abordada por um homem para participar num concurso do CLUBE INTERPASS, cujos prémios seriam um cruzeiro familiar e vários prémios, entre eles várias estadas no Algarve, de 3 dias/2 noites;


2-porque se mostrou renitente em participar, logo o vendedor, acompanhado de outros, a convenceu a preencher o cupão e a inseri-lo numa tômbola, ao mesmo tempo que referia que o concurso era “coisa séria”, e autorizado pelo Governo Civil de Coimbra, que se tratava de uma acção promocional do “CLUBE INTERPASS, a fim de levar ao público em geral o conhecimento desta empresa;


3-No dia 09 de Agosto de 2008, a minha esposa foi contactada telefonicamente por uma funcionária desta empresa que, alegando que tinha sido bafejada pela sorte, ou seja, tinha sido sorteada com uma estada familiar, num dos empreendimentos da “INTERPASS”.
Perante a indecisão da minha esposa, a dita funcionária logo rematou: "ó minha senhora o “CLUBE INTERPASS” é uma empresa séria. O que pretendo é apenas entregar-lhe o “voucher” e mais nada!”.
Perante a refutação da minha mulher, em jeito de dúvida, se não quereriam antes vender-nos viagens, a colaboradora, sublinhando várias vezes o seu título de licenciada (doutora), amainava as dúvida com frases convincentes: “a senhora não esteja tão recalcitrante, apenas quero entregar-lhe o título de viagem e mais nada. Venha hoje ao Hotel Dom Luís, em Coimbra, perdendo apenas o tempo de tomar um café, entrego-lhe o “voucher”, e verá que não lhe queremos vender nada. Como este concurso é autorizado pelo Governo Civil de Coimbra, e se a senhora não aceitar, teremos de o comunicar àquele departamento Civil, e sortearmos outra pessoa;


4-Ficou combinado que, no mesmo dia, sábado, 09 de Agosto, pelas 21 horas, os cônjuges –era obrigatório a deslocação dos dois- iriam receber o prémio ao Hotel Dom Luís. À hora combinada deslocámo-nos à empresa hoteleira;


5-Depois de nos apresentarmos na portaria do hotel, fomos encaminhados para um andar inferior. Aí, numa sala, em género de triagem, deparámo-nos com uma grande azáfama de, presumivelmente, vários colaboradores que, ao avistar-nos, se dirigiram a nós. Fomos encaminhados para um dos cantos da sala.
Neste canto do compartimento, uma secretária com uma funcionária (a tal que nos contactou pelo telefone) que atendia um casal de cinquenta e poucos anos.
Enquanto esperávamos reparámos nas frases utilizadas pela colaboradora da empresa –do género “os senhores não tenham medo, entrem, entrem, é apenas para conhecerem a nossa empresa”. O homem, com indisfarçável incómodo, lá passou para uma grande sala contígua, onde se encontravam vários casais e muitos mais presumíveis colaboradores do “CLUBE INTERPASS”.
Chegou então a nossa vez;


6-A dita funcionária, utilizando o mesmo vocabulário, como se fosse uma gravação, tentou que passássemos para a outra sala.
Quando argumentámos que estávamos ali apenas e só para levantar um “voucher” a colaboradora foi peremptória: “ah, isso não! Se os senhores não forem lá para dentro não podemos dar-lhe o título!”.
Argumentámos que, ao telefone, nos tinham dito que a nossa deslocação ali seria apenas e só para levantar o “voucher”, mais nada. Portanto, em conformidade, a senhora teria de nos entregar o título. Caso não o fizesse imediatamente, que nos trouxesse o Livro de Reclamações. A este pedido reiterou que não tinham, nem eram obrigados a possuí-lo.
Certo da minha razão, puxei do telemóvel e adverti que caso não fizesse imediatamente chamaria a PSP. Perante a minha irrevogável vontade de participar, a funcionária, chamou outra pessoa. Esta, num tom paternalista, tentou amenizar as coisas, explicando que a empresa tinha vários empreendimentos espalhados pelo país e que a ida “lá dentro” era apenas para que nós, calmamente, pudéssemos tomar conhecimento e, com mais calma, podermos escolher o nosso destino.
Argumentei que se, de facto, fôramos sorteados o que tinha a fazer era entregar-nos o “voucher” com a viagem especificada. Perante a nossa irredutibilidade, e perante a ameaça de chamar a polícia, um pouco a contragosto, entregou-nos então um pseudo voucher sem que o nosso nome constasse no documento, e que abaixo reproduzirei:


**********************************************************************


CLUBE CIF-CLUBE INTERNACIONAL DE FÉRIAS, S.A. Nº571810
INTERPASS Av. Elias Garcia, 45C. 1049-078 LISBOA
Tel.:210 340 000 – Fax: 210 340 500
Email: clubenterpass.pt. www.interpass.pt


OFERTA NO ALGARVE PR_____________
3 dias/2 noites DATA__/___/____
Nome_____________________________________________________________
Morada____________________________________Profissão_______________
Cód.Postal:___-___________Tel.:______________Tlm.:___________________


ALOJAMENTO: Apartamento T1 para 4 pessoas em regime só de alojamento
RESERVA: Enviar voucher para o endereço do Interpass
PERÍODO DE UTILIZAÇÃO: 45 dias a partir de ____/____/ 15 SET.2008


PRETENDO USUFRUIR DESTA OFERTA NUMA DAS SEGUINTES DATAS (Sujeito a disponibilidade):
1_____//____//____OU 2 ____/_____/ OU 3 _____/_____/_____


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7-Por pensar que estamos em presença de “venda agressiva”, proibida por lei e, além de mais, pensar que não existirá nenhum concurso autorizado pelo Governador Civil de Coimbra, e que este procedimento é um engodo para vendas de viagens em sistema de “pressing”, venho solicitar a V.Exª se digne mandar investigar.
Com os melhores cumprimentos:
Coimbra, 11 de Agosto de 2008


(Luís Fernandes)

sábado, 9 de agosto de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (30): TODOS TEMOS UMA HISTÓRIA


(Capela de Várzeas)


Quando comecei a escrever estas pequenas narrações não fazia a mínima intenção de passar da primeira. Porém, como qualquer caminhada que começa no primeiro passo e tantas vezes sem termos planos para irmos além, como forças ocultas do destino ou do pragmatismo, somos empurrados a continuar. Umas vezes, sem o querermos, porque é impossível recuar numa “decalage” sem freio. Como no meu caso, outras vezes, acabamos por, quase obsessivamente, entrarmos dentro da “estória” e, como mensageiros de pessoas que em vida nos marcaram e não deixaram sinais escritos da sua passagem efémera, trocamos o lugar de narrador por apóstolo da vida passada. Como garimpeiro em busca de mais e mais ouro, o "continuum" tomou conta de nós. Falamos com alguém que nos fala de outro alguém, que por sua vez leva a outro que o marcou imenso, e está iniciado o rol da contagem crescente pelas existências decrescentes.
Foi assim que, numa conversa informal em Várzeas, se falou do falecido “ti” Manel, sapateiro. Em anterior apontamento já tinha escrito sobre ele e a esposa, também desaparecida deste mundo dos vivos, a “ti” Maria do Céu. Eram pessoas muito boas, quer um quer outro. Mas, como eu saí daquela aldeia com mais ou menos três anos, deixando a convivência diária dos autóctones, perdi muito conhecimento pessoal, no entanto, quando lá regressava, lembro-me, era muito acarinhado por todos. Por isso mesmo apenas via um lado, digamos formal, das pessoas. Praticamente não as conheci no dia-a-dia, no seu modo de viver a aldeia, na paz pachorrenta de um tempo que não volta mais.
Então, como dizia em cima, em conversa, vim a saber que o “ti” Manel, sapateiro, era um sujeito extremamente divertido. Com a sua voz palheta, de cana rachada, sempre de resposta pronta na ponta da língua, este homem simples, com a sua mercearia e taberna ao cabo da mesma artéria, junto ao largo da capela, onde normalmente estava a esposa, e a sua oficina de artífice de solas e cabedais a meio da rua principal do lugar, onde residia. Como toda a gente sabia da sua simpatia e facilidade de comunicação, era normal, junto à janela do seu “metier”, juntar várias pessoas para cavaquear. Ele, já habituado a trabalhar com as mãos, a coser e a colar alpercatas, não se deixando distrair, acompanhava qualquer conversa por entre um esticar de linha e o passar da agulha.
Ao que parece, de vez em quando lá vinha uma patifaria, como não podia deixar de ser. A “ti” Rosa, “Rata”, que morava num casebre hoje desaparecido a dois passos da ermida, era muito chata e, para além disso, tinha uma aversão à água que parecia coisa má. O cheiro era nauseabundo e o estrume de qualquer curral ao pé do fedor da “ti” Rosa era um perfume de rosas, de tal maneira que quando chegava ao redor da oficina fugia tudo espavorido com a conspurcação ambiental forçada. Então um dia o sapateiro, depois de pensar no melhor meio de a afastar dali, junto à sua janela colocou uma cadeira de palha com uma sovela –pequena lança pontiaguda que servia para abrir buracos nas solas e por onde passaria a linha- disfarçada no meio do assento e virada para cima. Quando a “ti” Rosa se sentou com satisfação na cadeira e foi picada deu um grito de tal volume que teria abanado toda a estrutura da ponte de caminho-de-ferro. Pelos vistos o resultado pretendido foi alcançado.
Outro costume deste simpático artífice, que dava um fartote de rir a quem sabia, era o olhar fixamente, olhos-nos-olhos, sobretudo as moças casadoiras e, num diagnóstico implacável e de quem sabe o que diz, atirava: “menina, tu estás cheia de gaifanas!”. As miúdas, aterradas de medo pelo ar cáustico do sapateiro, interrogavam: “gaifanas? O que é isso? É grave?”. Então o “ti” Manel, com ar matreiro, puxava de um alicate e arrancava um ou outro pelo das sobrancelhas e fazendo com que as moças gemessem de dor. Outras vezes, segundo a minha fonte, mandava-as apanhar gambozinos. Um dia mandou a Cidália, do Salgueiral, com um poceiro de vime (unidade de medida usada nos campos correspondente a cinco almudes), para a saída de água do moinho e para que ela apanhasse aqueles estranhos seres misteriosos. Como a água saía em folículos, a rapariga, depois de uma tarde à espera sem sucesso, saiu de lá toda encharcada. Nesse dia foi o gozo de toda a aldeia.
Para além destas pitorescas partidas, fruto da ignorância própria daquela época de 1960, havia muita dureza com as crianças mais carenciadas. Contou-me o João, o “Tripeiro”, como, nessa altura, era conhecido na zona, que naquele tempo, em Várzeas, os lavradores mais abastados abriam grandes poços para concentrarem a água para as regas dos campos e, para rentabilizar, colocavam lá peixes. Então o meu amigo “Tripeiro”, vindo da aldeia dos Moinhos, descia e juntava-se ao “Xico da Avó” e ao José “Maloio”. Como em casa rareava o necessário para satisfazer o estômago, trazia broa e sal e juntos, nos campos e onde calhava, apanhavam umas cebolas para comerem. Tinham por hábito, sempre que podiam, apanhar peixes nos poços de água. Um dia, conta o João, tinha então 10 anos, a GNR foi resgatá-lo a sua casa, sobre prisão, aos Moinhos. A sua mãe, que mesmo pouco sabendo do entendimento das leis, percebeu imediatamente que se estava a cometer uma atrocidade, uma injustiça, e não foi de evasivas: toca de se virar à paulada aos guardas. Foram todos para o posto e, se quanto ao comportamento da mulher-mãe houve alguma contemplação, o mesmo não aconteceu em relação ao filho João. Nem pensar em perdão. Foi apresentado ao juiz, julgado e condenado a multa. A mãe teve de desembolsar cerca de setenta escudos. “Tempos miseráveis aqueles!” -exclamou o João, engelhando a cara, abanando a cabeça e fazendo esforço para que uma lágrima vadia não viesse mostrar que um homem também chora. Hoje, a trabalhar na Suíça e muito bem colocado, lembra estes pequenos pedaços de vida. “Afinal todos temos uma história, não achas?”, interroga-me em pergunta de retórica.





REFLEXÃO



Eu gostava de escrever
uma história de encantar,
um enredo para sorrir,
uma narração para ler,
um estudo sem pensar,
nas coisas que hão-de vir,
o que interessa o não ter,
é preciso é saber estar,
andar nesta sempre a rir,
trabalhar para viver,
não viver para acabar,
predestinado a ferir,
como guerreiro sem o ser,
sem glória a lamentar,
tanto trabalho e sentir,
que aquilo que soube fazer,
foi andar sempre a lavrar,
de cara dura sem rir,
a Semear e a colher,
numa cadência sem parar,
como máquina a tinir,
vamos mas é entender,
que a vida está a encurtar,
vamo-nos mas é divertir,
enquanto dura é estender,
borda fora e navegar,
no oceano a bulir,
só à felicidade se render,
partir p’ra longe e não voltar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

NO MEIO DE DORMINHOCOS HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DESPERTA



Uma funcionária do Jornal O Despertar, recentemente adquirido pelo grupo de Lino Vinhal à família de Fausto Correia, a semana passada, telefonicamente, contactou diversos comerciantes. Tratava-se, segundo a porta-voz do jornal, de durante vários meses, o semanário fazer um trabalho jornalístico sobre a Baixa de Coimbra. Por isso mesmo, e tendo em conta a necessidade de promover esta zona histórica, o jornal tinha pensado em publicitar algumas firmas a um preço excepcional, ou seja, 50 Euros por mês, e durante quatro semanas.
Pessoalmente, por pensar que “O Despertar” iria realizar um trabalho jornalístico de qualidade, aderi ao primeiro mês, de Agosto, com a promessa de que, se gostasse do trabalho apresentado pelo jornal, faria outras assinaturas, durante os próximos meses.
Para minha surpresa a edição de 1 de Agosto apresentava uma página quase completa de publicidade de 19 entidades privadas e uma pública, no caso a Junta de Freguesia de S. Bartolomeu. No canto superior esquerdo, a ocupar um pouco mais de um sexto, um texto em forma de editorial.
Para melhor compreensão, vou transcrevê-lo na íntegra:

“CENTRO COMERCIAL COM ALMA E HISTÓRIA”

“O Despertar é matricialmente um Jornal de Coimbra. E em Coimbra sente-se particularmente bem na Baixa e nos Olivais, zonas citadinas que lhe serviram de berço e de amparo. Por isso decidiu criar esta página de publicidade a preços módicos (50 euros por mês, acrescidos de impostos).
A ideia é fortalecer esses laços de fraternidade e dar o nosso sentido de ajuda e solidariedade a uma zona económica, a Baixa, que tão desamparada tem sido em benefício de outras zonas.
Pensámos em criar semanalmente uma espécie de roteiro onde os potenciais compradores poderão adquirir os bens de que necessitam.
Grande parte dos comerciantes que contactámos compreendeu a ideia, apoiou-a e colaborou. Inexplicavelmente outros compreenderam-na mas não a apoiaram. E destes, alguns são dos que apregoam a torto e a direito que estão a matar a Baixa.
Ficámos a pensar, por isso mas não só, que na Baixa há dois tipos de comerciantes: os que se queixam com razão porque a secundarização daquele espaço como centro de negócios lhes causa prejuízos avultados; e aqueles que se queixam sem razão, porque para eles a Baixa continua a render e são eles os primeiros a querer que as coisas assim continuem. Uma perspectiva nova que se abre à análise deste problema que, sendo da Baixa, a Coimbra respeita.
Entretanto, e como sempre, continuaremos a contar com o apoio dos que compreender a nossa ideia e connosco queira colaborar.
Até para a semana."

Nesta dicotomia entre os bons e maus (os que se queixam com razão, e apoiaram a ideia, e os que se queixam sem razão, porque não apoiaram), entendida pelo jornal, já vi que estou entre os bons (subscrevi o plano de publicidade). Porém, se aprioristicamente tal escolha me deveria deixar ufano, não me deixa mesmo nada contente. Classificar comerciantes, operários ou membros de um qualquer clube, como “hipócritas” só porque não aceitaram, é o mesmo que ver o mundo através de uns óculos a preto e branco, numa versão maniqueísta. É lógico que, em face da dualidade única de cor, o resultado é profundamente discutível do ponto de vista intelectual, enviesado e fica aquém da realidade.
Depois o jornal, quanto a mim, deveria ser mais diplomático, disfarçando o agastamento e o revanchismo contra aqueles que não aderiram ao plano publicitário.
Tendo em conta que a troco de “um preço módico”, de 50 euros por mês, “O Despertar” propõem-se “fortalecer esses laços de fraternidade e dar o nosso sentido de ajuda e solidariedade a uma zona económica, a Baixa, que tão desamparada tem sido em benefício de outras zonas”, nesse espírito de solidariedade, não se entende a carga de azedume que transparece no referido texto. Ou melhor, entendo eu que sou má-língua, como uma intenção apenas e só como interesseira e mercantilista. Meu caro director do Jornal O Despertar, efectivamente, a Baixa necessita de ajudas mas não destas. Na parte que me toca declino a mão que me estende.