segunda-feira, 31 de março de 2014

LOGO HÁ ASSEMBLEIA-GERAL DA APBC (1)




Mais logo, pelas 18h30, na Sala das Sessões da Câmara Municipal de Coimbra, vai realizar-se uma Assembleia-Geral da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra. Lembro que já houve uma primeira tentativa e depois choveram cartas para esta segunda. A ordem de trabalhos é a seguinte:

1-Análise e votação do Relatório de Atividades de 2013;
2-Análise e votação do Relatório de Contas de 2013;
3-Análise e votação do Plano de Atividades e Orçamento de 2014;
4-Eleição dos novos órgãos sociais da APBC;
5-Outros assuntos.


*******************************************

Começo com um esclarecimento em forma de penitência. No dia 12, deste mês de Março, numa primeira tentativa de realizar uma assembleia-geral na Sala das Sessões, da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), tendo em mente a impugnação, invoquei dois vícios formais:
1 -A falta de cumprimento do prazo legal de 15 dias, conforme os Estatutos –e cuja comunicação foi feita com três dias de antecedência e levou a que estivessem presentes, para além da direcção, pouco mais de meia dúzia de associados;

2 –A falta de consubstanciação para a passagem do testemunho do anterior presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Barbosa de Melo, e também presidente da autarquia, para o actual, Manuel Machado, e ex-aequo nos dois desempenhos. Invocava eu que, no mínimo, deveria ter havido uma acta a homologar a situação. Invocava Manuel Machado que, enquanto actual presidente da Câmara Municipal de Coimbra, era por inerência também o presidente da Mesa da Assembleia-Geral.

Depois de ter consultado as actas da APBC, desde a sua constituição, ressalvo de que no ponto um houve de facto violação das regras estatutárias –corrigidas agora com esta nova assembleia. Embora o presidente da Mesa não o tivesse admitido, sendo até bastante áspero pela minha chamada de atenção e que me levou a abandonar a sala, veio com nova convocação e já com o prazo legalmente instituído.
No segundo ponto, esclareço que não tenho razão. Tal como Manuel Machado alegou, de facto e de direito, ele é, por inerência, o presidente da Mesa da Assembleia-Geral. Portanto, ressalvo, neste ponto não houve ilegalidade. No entanto, tenho a certeza, a edilidade, tal como os outros associados fundadores, está obrigada a emitir certidão de conhecimento à direcção da APBC, com o novo presidente, e que dará origem a uma acta de tomada de posse. Ora nada disto foi feito. Em suma, a meu ver, não sendo ilegal, há pelo menos incumprimento das regras estatutárias –o que não invalida o acto da sessão. Os associados fundadores são: a CMC, a CGD, Caixa Geral de Depósitos, a ACIP, Associação, Comércio e Indústria de Panificação de Coimbra; Junta de Freguesia de São Bartolomeu; Junta de freguesia de Santa Cruz; e ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra. O Capital Social inicial foi de 42,500.00 Euros.
Por conseguinte, chamo a atenção para a ordem de trabalhos da acta número um, de 19 de Março de 2004, que reza o seguinte: "Comissão Instaladora, conforme mandato conferido na escritura pública de constituição da Associação, Horácio Pina Prata pela Câmara Municipal de Coimbra, Armindo Gaspar pela ACIC, António Pinto Santos pela Junta de Freguesia de Santa Cruz."
Invoco o procedimento da transferência porque sempre que houve mudanças de representação pessoal dos associados fundadores foi emitida pela entidade um documento exarado a dar conhecimento do facto. Sendo assim, tendo em conta a equidade de tratamento, a CMC, mesmo sendo o associado maioritário, com maior entrada para o capital social, não está dispensada da formalidade. Foi assim em várias passagens. Embora também não seja linear que o cargo seja ocupado pelo presidente da CMC. Este pode delegar em outro. Foi assim e está prescrito na acta de 22 de Junho de 2007, na passagem de Horácio Pina Prata, na altura vice-presidente da autarquia, para João José Rebelo, também vice da edilidade: “Que resulta, do cotejo, da decisão da CMC, de 21 de Maio de 2007, bem como a da Assembleia-Geral eleitoral da APBC, de 28 de Maio de 2007.”
Saliento também que os cargos dos órgãos sociais foram sempre ocupados pelos representantes dos associados fundadores. No caso, desta acta de 2007, a presidência da Mesa da Assembleia-Geral foi ocupada pela CMC; o primeiro secretário pertenceu à Caixa Geral de Depósitos; o segundo secretário pertenceu à Associação à ACIP; o suplente foi a Junta de Freguesia de Santa Cruz.
A direcção coube à ACIC; a vice-presidência à CMC; o tesoureiro à CMC; o vogal à CMC; o primeiro vogal à ACIP; o segundo vogal à Junta de Freguesia de Santa Cruz; o terceiro vogal à Junta de Freguesia de São Bartolomeu.
O Conselho Fiscal foi ocupado pela Junta de Freguesia de São Bartolomeu; o primeiro vogal coube à CMC; o segundo vogal à ACIC; e o lugar de suplente foi ocupado pela ACIP.

FACTOS PARA MEMÓRIA FUTURA

Achei interessante transcrever uma passagem da acta número 6 de 13 de Abril de 2007:
“Uma das lacunas desta direcção foi o facto do senhor Armindo Gaspar ser simultaneamente vice-presidente do Comércio da ACIC e presidente da APBC, cargos esses incompatíveis uma vez que os objectivos da ACIC e da APBC não são convergentes. Foram estas dificuldades encontradas pelo senhor Armindo Gaspar enquanto presidente da APBC, porque se sentia dividido. A equipa técnica precisa de ter uma orientação clara para que possa trabalhar.
Mais acrescentou que (…) Para se poder conciliar esforços disse, temos de fazer distinção onde entra a APBC e onde entra a ACIC” –Carlos Clemente.
Saliento que esta passagem esteve na origem da apresentação de um pedido de demissão por Armindo Gaspar, em 19 de Janeiro de 2007, que, na altura, tendo em conta o melindre da situação de arranque da agência, foi convencido pelos seus pares a continuar à frente da APBC.
Por outro lado a ACIC ameaçou também abandonar este projecto.
Em 3 de Março de 2005 foi aprovado o Regulamento de Condomínio da APBC –“Condomínio Comercial da Baixa de Coimbra”- e era constituído por sete elementos. Aqui era prevista a nomeação de um Director Executivo.
A Acta número um, de 31 de Maio de 2004, refere o seguinte: em reunião extraordinária da Assembleia-Geral, foi nomeado director executivo o Dr. Artur Miguel Marques de Sousa com a verba mensal de “900.00 Euros, vezes 12 meses acrescidos de IVA.”
Nesta mesma acta número um é dito que a “Lista candidata aos órgãos sociais da agência, resultante de uma proposta de consenso apresentada por todas as entidades associadas, com a seguinte composição” –e segue-se o nome dos nomeados. “Foi eleita por 845 votos a favor da Lista A.”
As entradas no capital social da APBC, no montante de 42,500.00, correspondem aos seguintes subscritores:
A CMC entrou com 20,000.00 Euros.
A ACIC tem uma comparticipação de 8,750.00 Euros.
ACIP tem uma representação correspondente a 6,000.00 Euros.
A CGD colocou uma verba de 5,500.00 Euros.
As duas (extintas) Juntas de Freguesia (São Bartolomeu e Santa Cruz) tiveram uma comparticipação de 1,000.00 Euros, cada uma

(CONTINUA NO TEXTO SEGUINTE ONDE DAREI CONTA DE TUDO O QUE PASSOU)

BOM DIA, PESSOAL...

PARA OS ESPECIALISTAS DE ARTE





O conteúdo deste vídeo deve ser tomado pelos especialistas de arte com muita moderação. Se acaso sentirem tonturas, recomendo o "Restaurador Olex" para as indisposições intestinas



sábado, 29 de março de 2014

ROSTOS SEM ROSTO: A PROSTITUTA





“Sou prostituta, tenho 48 anos de idade, e exerço esta actividade nas ruas da Baixa há cerca de uma dezena de anos. Nasci em Miragaia, no Porto. Dei o primeiro grito numa família abastada. Muito abastada. O meu pai, hoje aposentado, era quadro superior de um banco. Estudei até ao 12.º ano num colégio católico. Não me faltou nada. Fui educada com muito amor e carinho. O problema, talvez maior, é que os meus pais são divorciados. A minha mãe é toxico-dependente e alcoólica. Depois tirei um curso de esteticista, massagista e visagista –assessora de imagem. Exerci na cidade Invicta. Casei cedo e assim me mantive durante 20 anos, até conseguir aguentar a porrada que levava do meu ex-marido e os maus tratos associados. Eu era uma mulher linda! Ainda hoje sou, apesar de estar um pouco estragada. Casei para me libertar do bloqueio da minha família, que nem um cigarro me deixava fumar. Sentia-me asfixiada pelos meus pais. Gostava do meu marido, mas depressa o meu sonho se desvaneceu. Ele comigo fazia pouco sexo, mas ia às prostitutas. Várias vezes apanhei doenças venéreas por causa disso. A nossa existência é muito cruel. Nunca pensei em enveredar por esta vida. Enquanto casada, tantas vezes me ofereceram dinheiro para eu fazer sexo mas eu nunca quis. Era o amor, sabe? Até que tive de fugir dele por não aguentar tanta pancada –pode ter a certeza de que, se calhar, como eu, a maioria das prostitutas que anda por aí foi vítima de violência doméstica.

A VIDA DEPOIS DA VIDA

Então, com, mais ou menos, 38 anos respondi a um anúncio de uma revista e conheci um homem. Ele trouxe-me para Coimbra embalada na esperança de uma vida melhor. Mas quem nasce atrás do sol-posto, com a má-sorte associada, dificilmente verá o astro-rei brilhar. O fulano tinha apenas uma intenção em mente: que eu me prostituísse. E depressa estava a aprender o “bê, à, bá” da mais antiga profissão do mundo. Ele pertencia a uma rede de carne branca com ligações a França e Holanda. Para me libertar dele foi o cabo das tormentas. Mas, nessa altura, ninguém me ajudou. Cheguei a ir pedir ajuda a um vereador da Câmara Municipal, para me arranjar um trabalho, e ele respondeu que eu fosse para o Largo do Paço do Conde. Que era lá o meu lugar –que, curiosamente, é onde estou quase sempre e junta com outras mulheres. Mais tarde apareceu-me um engenheiro de uma instituição do Estado, um chefe de serviço –que ainda hoje lá exerce- que, dizendo que gostava de mim, se revelou um gigolo. Pôs-me a trabalhar na noite. Eu gostava dele, por isso me tornei sua amante. Mas o interesse dele não era o meu amor. Tinha uma forma sub-reptícia, muito subtil, de se bater aos meus ganhos, pedia prendas de grande valor. Nunca me deu nada. E eu tive de aprender à minha custa. Os homens não valem uma merda! É amá-los e fornicá-los! Que é o que faço mesmo! Dão-me prazer, um gozo danado, e ainda me pagam. Quem é aqui o utilizado? São muito estúpidos! Às vezes perguntam-me se eu tenho orgasmo. Tenho sim, filho –respondo. Tenho dois. O primeiro quando me pagas e o segundo quando te vejo a puxar as calças para ires embora.

UM POUCO DE AMOR. PLEASE!

Sofro de esquizofrenia bipolar. Tenho de tomar medicamentos para me aguentar. Às vezes pareço zonza –sei lá quantas vezes você, ao passar por mim, assim teria pensado, que eu levava uma broa. Nada disso. Eu não me drogo. Os homens tratam-nos como coisas sem valor. Mas eu tenho sentimentos. Preciso de ser amada, ter um pouco de carinho. E não tenho. Por vezes, quando estou mais em baixo, ligo ao meu pai só para ouvir a sua voz, mas ele não me dá hipótese de continuar a conversa e corta logo: “fala-me em números! Quanto precisas?” –ele nem a minha voz quer ouvir. O meu progenitor, apesar de ter refeito a sua vida com outra mulher, vê em mim a minha mãe –que, quando nova, era muito linda-, na voz, na imagem e em tudo. Nunca superou isso. Ele todos os meses deposita cerca de 200 euros na conta do assistente social que me acompanha. É este técnico que me vai dando o dinheiro ao longo do mês. Estou a viver numa pensão da Baixa –mas não levo para lá clientes.

ESCORREGAR NO CAMINHO

Cai-se na prostituição por três motivos. Por expiação –no sentido de expurgar a culpa. Mas que culpa? Por inspiração –há mulheres que gostam mesmo desta vida. E por omissão –entregam-se à actividade sem recalcitrar. Sem se questionarem. Deixam-se ir na corrente.
Isto é também um vício. Às vezes saio à noite para levar um agasalho a uma colega e acabo por ficar. O dinheiro cega-me, sabe? Embora não precise de muito. Por conseguinte, logo que faça 20 euros por dia, com um ou dois clientes, chega-me. Não quero mais! Outras vezes também faço isto por missão. Pode achar inverosímil, mas eu tenho prazer em dar satisfação aos homens.
Esta vida fez de mim uma psicóloga. Olho para qualquer rosto e, sem nunca o ter visto, sou capaz de descrever a pessoa. Habituei-me a ler um homem através da face. Saber ao segundo o que é que ele quer de mim. Trabalho com homens sem taras. Estes indivíduos são perigosos. Tive más experiências. Já fui violada mas não comuniquei à polícia. Ele apontou-me uma pistola, amarrou-me e levou-me para a mata. Sei quem é, mas não quero falar disso. Nem os cães violam as cadelas, porra! Trabalho com viúvos, divorciados e solteiros. Já me propuseram casamento. Outros querem que eu vá viver com eles. Na maioria das vezes, sobretudo os mais velhos, querem-me como companhia. Sou mais virada para o trabalho de acompanhante… popular. Não é acompanhante de luxo! Vêem mais em mim a mulher e menos o objecto sexual. Está a perceber?!
As pessoas da Baixa tratam-me, todos, muito bem. Com muito afecto! Sou simpática, não me drogo e não sou malcriada para ninguém. Faço aqui as compras todas. Se tenho dinheiro pago logo, se não deixam-me levar. Confiam em mim. Sabem que, apesar de ser prostituta, sou séria. Tenho dignidade. Tenho coração. Aqui, dentro do peito bate uma alma. Entende? Sabem o que eu faço. Não ando mascarada. Sabem que tenho uma filha que é médica e um rapaz que é economista –os meus rebentos sabem muito bem o que faço. Dizem que a escolha é minha, é uma opção de vida, e não têm nada a ver com isso. São uns queridos, os meus filhos, não são?
Acabei a gostar desta vida. É uma forma de libertação. O patrão não bate e a patroa não ralha.
Não espero nada da vida! Não tenho ilusões. O amor é uma utopia!"

A VIDA NUM CARTÃO

Anda sempre acompanhada com um cartão de vacinas que ostenta no cabeçalho “Cartão Controlo do GAT-UP-REDUZ”. Este serviço está sediado no Terreiro da Erva. É com ele que vai requisitar preservativos. “São muito bons para mim e para outras como eu -enfatiza. Se não fossem estas instituições o que haveria de ser de nós? Levam-nos ao hospital para fazer exames de três em três meses. Olhe aqui a data! Fiz há dias análises ao sangue. Faço amiúde vezes rastreio contra o HIV, Hepatite, Cancro do útero e da mama, e Sífilis. A maioria dos clientes nem sabe disto. Pouca gente sabe. Mas quando a polícia nos identifica pede sempre este cartão de vacinas. Você também não sabia, pois não?”

(Todo este impressionante depoimento é real)

BOM DIA, PESSOAL....

sexta-feira, 28 de março de 2014

ESVAZIAR A CATEDRAL




Hoje, durante quase todo o dia, os Bombeiros Voluntários de Coimbra (BVC) tiveram uma potente moto-bomba ligada à cave das desaparecidas Galerias Coimbra, na Rua Eduardo Coelho e com frente para a Praça do Comércio, para extrair água. Depois de ter encerrado em 2008, esta catedral comercial foi adquirida por um comerciante chinês, que fechou também. Já há tempos aqui escrevi sobre o lago, assim lhe chamei. A água presente em grande quantidade teria cerca de dois metros de altura. Segundo Carlos Pereira, elemento dos BVC, “sob ordens do Millennium BCP, estamos a retirar a água do prédio e a dar uma limpeza geral no interior de todo o edifício. Queremos saber se há bombas de sucção, onde estão colocadas e, depois de o banco mandar ligar a energia eléctrica, coloca-las a trabalhar. Isto aqui, no rés-do-chão, estava uma miséria. Estamos fartos de retirar lixo e restos de comida para gatos. Olhe que desde manhã que várias pessoas nos perguntam pelos felinos. Bolas! Até parece que estão mais preocupadas com os animais do com as pessoas.”
De facto é verdade, digo eu. E já escrevi sobre este assunto. Todas as noites, na entrada lateral desta antiga loja de pronto-a-vestir dorme lá uma pessoa. Alguém se preocupa? Já escrevi várias vezes que o ideal, como em tudo na vida, é o meio-termo. Ora, parece que se está a entrar numa certa moda, que não pára de crescer, a de os animais ocuparem o espaço dos humanos. Cada um em seu lugar, mas sem esquecer que a humanidade, a compaixão, também deve ser distribuída pelos humanos.




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Esta semana deixo o textos "REFLEXÃO: A SOCIEDADE ESPETÁCULO"; "ESTA BAIXA ENTREGUE A SI MESMO"; "ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O ADVOGADO DOS POBRES DIABOS"; e "O CARRIÇO NÃO CANTARÁ MAIS"



REFLEXÃO: ESTA SOCIEDADE ESPETÁCULO

Em Itália, num concurso para novas vozes, “The Voice”, apareceu uma freira a cantar espetacularmente e encantou o público e o júri presente. O vídeo está a correr o mundo.
Por um lado, imediatamente surge a pergunta: se acaso a religiosa se apresentasse sem uniforme teria o mesmo sucesso? Provavelmente passaria à eliminatória seguinte mas a sua prestação não sairia daquelas quatro paredes. Vivemos hoje numa sociedade que, a todo o gás, procura o diferente. Então se estiver uma farda no meio é tiro e queda. Adoramos, todos, o lado cinzento do conspícuo, do notável, daquele que, para além de ter o dever de aparentar, tem de ser obrigatoriamente respeitável. Há aqui um certo voyeurismo, um perseguir uma imagem que não existe. Um espreitar por detrás do espelho.
Por outro, imaginemos que esta cena se passava em Portugal. O que teria acontecido? Mais que certo, teria caído o Carmo, a Trindade e a eminência do bispo da diocese onde a servidora de Deus estaria vinculada. Somos um país muito sério. E com coisas sérias não se brinca, diriam os puritanos. O respeitinho é muito lindo. Ou seja, o desejo de que este espetáculo ocorra mantém-se, simplesmente às claras jamais! E não há coragem para furar o situacionismo. A gente gosta, mas vai contra a vontade popular –que curiosamente só existe em ilusão. Não pode ser! E não há discussão!
Ainda há dias ocorreu numa discoteca do país um strip-tease feito por um agente da GNR, fardado e com arma no coldre. Caiu a mácula na instituição da Guarda Nacional Republicana. Vozes da terra e do céu levantaram-se em coro contra a afronta. Como é de prever, o aventureiro militar, mais que certo, corre o risco de expulsão por, alegadamente, envergonhar a organização de força policial. Está certo? Não sei! Há sempre duas formas de avaliar o mesmo problema. Então do ponto de vista ideológico é fatal. Para a direita, sempre tão agarrada aos velhos costumes, é um escândalo sem precedentes. Queime-se o homem no pelourinho da insanidade! Para a esquerda, que adora o corte fraturante mas com calmex, é um “nim”, nem assim, nem o contrário. Aguarda-se serenamente as conclusões do inquérito, exclamarão com solenidade, sem se comprometerem e embrulhados na libertária impostura de sempre, no manto diáfano da nebulosa.
Para mim, que sou liberal e procuro não ser dissimulado e escrevendo o que penso, analisando este caso do militar GNR, creio que o homem se excedeu, sobretudo usando arma no show. No entanto, creio que se deve ter uma postura desvalorizadora do ato em si mesmo. À luz do bom senso, trata-se de uma rotura entre a tradição secular militar, estática e assente num conservadorismo hipócrita, e os tempos hodiernos, sujeitos à sua dinâmica natural e onde a liberdade individual tende a libertar-se de um espartilho que é meramente de encenação social. Saliento que não defendo o “vale tudo”! Pugno é por uma sociedade mais transparente e equilibrada, justa no julgamento do erro, e frontal na mudança dos costumes. Sobretudo, para que se não continue a proceder num fingimento ridículo. Abaixo o cinzentismo de todos nós. Que o vídeo da freira italiana nos faça refletir.


ESTA BAIXA ENTREGUE A SI MESMO

José Barata está inconsolável. A sua casa, na Rua da Fornalhinha, foi assaltada na noite desta penúltima quarta-feira. Nos últimos seis meses é a terceira vez. Nos três assaltos há um ponto comum, os gatunos procuram metais, sobretudo cobre. Deram-se ao vagar de, calmamente, desmontar o interior de um esquentador e levarem os tubos. Levaram também uma série de miudezas. O mais valioso desta intrusão foi um quadro a óleo, original, de Carlos Reis com as medidas, mais ou menos, de 25X40. Desapareceu também uma imagem de Santa Filomena. Nas vezes anteriores levaram as torneiras e até o contador de água. “Estou saturado disto”, diz-me em desalento. “Vivo em Lisboa, na Parede, e venho cá várias vezes ao mês e ultimamente deparasse-me este quadro de destruição. Já me rebentaram a porta várias vezes. Desta última foi com um pé de cabra na zona das dobradiças. Comuniquei sempre as ocorrências à PSP. Os anteriores assaltos foram arquivados por falta de provas. Este último, já sei, vai ter o mesmo destino. Quando interrogo a polícia pela falta de vigilância respondem-me que não têm meios. E os nossos valores? A nossa segurança? Como é que é? Para que pagamos impostos sobre o património? Se não fossem as minhas memórias…”

E DA LONDRES NADA?

A sapataria Londres, situada no rés-do-chão do mesmo edifício, encontra-se encerrada, à ordem do tribunal e por motivo de falência do comerciante, há cerca de 6 anos. José Barata lamenta a morosidade do processo judicial. “Veja bem que o meu inquilino fugiu sem me pagar as rendas de um ano e já em atraso. Como se fosse pouco, tenho de aguentar este tempo todo sem poder aceder ao que é meu. Mais, mas como proprietário sem direito à posse, continuo a ser responsável pelas obrigações decorrentes da loja. Ainda agora, para impedir a ocupação selvagem por sem-abrigo, tive de colocar um painel em chapa que me custou 500 euros.
É assim que se procura revitalizar o Centro Histórico? Um proprietário, em face de uma insolvência do inquilino, merece algum respeito?”. Interroga o dono do imóvel.

A CASA DAS AMÊNDOAS


Continua José Barata, “na década de 1930, quando nasci, os meus avós exploravam a Casa das Amêndoas, aqui, ao lado, na Rua Eduardo Coelho, número 26, onde é agora a Sapataria Trinitá, do senhor Quirino. Tenho uma ternura muito grande por esta zona, sabe? Andei por lá de gatas e foi lá que aprendi a dar os primeiros passos. Sabe que ainda conservo na minha mente o cheirinho da amêndoa torrada, como se fosse hoje? Se não fossem estas recordações já tinha ido embora há muito tempo. Sinto-me impotente. Estou farto de ser tratado pelo Estado como coisa!”





ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O ADVOGADO DOS POBRES DIABOS

 Lembro-me muito bem dele no início da década de 1980. Nessa altura, conservava a mesma timidez e contenção no falar –como hoje- e, naturalmente, tinha melhor aspeto físico. Para além de ser mais novo apresentava-se sempre de fato e gravata como qualquer causídico. Hoje o tempo, como castigo ou não, parece ter passado por cima da sua pessoa e agora já só resta o mesmo sorriso de menino, o ar de bom samaritano, e o falar calmo e mais espaçado, como se procurasse as palavras no éter. Recordo bem o então advogado Rui Fernando de Mesquita Figueiredo, o doutor Mesquita como era conhecido na zona da Sé Velha, na Alta da cidade. Era uma espécie de solicitador dos mais carenciados que, quase sempre com um “grão na asa”, nos fazia lembrar o doutor Ezequiel Prado, da novela Gabriela, Cravo e Canela. A troco de nada, ou ressarcido tantas vezes por pouco mais do que uma cerveja, defendia todos. Estou convencido que nunca teria ganho dinheiro com a advocacia. Se calhar, por andar amiúde abraçado ao deus Baco a saúde, quem sabe por ciúmes, não lhe perdoou e há poucos anos teve um AVC, acidente Vascular Cerebral. Mas como a natureza compensa quem carrega humanidade, recuperou parcialmente e podemos vê-lo tantas vezes a cruzar-se connosco nas ruas largas. Vamos saber mais do doutor Mesquita. Fale, apresente-se, senhor doutor:
“Nasci em Coimbra há 79 anos –como curiosidade, ontem, dia 27, celebrei o meu aniversário. Entrei na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1953 e, juntamente com a minha mãe, fui morar para a Rua dos Coutinhos. Em 1958, já licenciado fui exercer para Moçâmedes e Novo Redondo, em Angola. A minha mãe continuou por cá na mesma morada. Por lá, em terras africanas, fui também professor do Ensino Técnico –ensinava as cadeiras de direito, no Curso Comercial. Foi o melhor tempo da minha vida! Quando se deu a independência, em 1974, regressei novamente a Coimbra, à Sé Velha, à Praça Vermelha como era então conhecida. Nunca me meti em política. Sempre estive alheado. Era respeitado por todos. Sempre tratei bem toda a gente. Bebia um copo com qualquer um. Talvez por ser formado e ser, de certo modo, o advogado dos pobres, fui poupado algumas vezes. Na cidade, tive escritório na Avenida Fernão de Magalhães e na Rua da Sofia. Nunca ganhei dinheiro a advogar. Dava apenas para as despesas.
A minha mãezinha morreu já há muitos anos e larguei tudo o que me recorde álcool. Deixei também de exercer advocacia há cerca de uma década. Atualmente, estou a ser acompanhado no Centro de Dia 25 de Abril, no Ateneu de Coimbra. Tratam-me muito bem. Ainda ontem me deram banho porque já não posso. Os seus trabalhadores são o meu Anjinho da Guarda. Tenho familiares mas estão muito longe. Se não fosse o Centro de Dia não sei o que seria de mim! Recebo de Reforma 369 euros. É pouco! Pouquíssimo, se comparar com a verba que eu ganhava em África e quando trabalhava aqui. Está tudo bem para mim. Não me enervo! Estou em paz com o mundo! Só quero saúde, descanso e bom trato. E mais nada!”


O CARRIÇO NÃO CANTARÁ MAIS

 Na semana passada, num acidente deveras estúpido, faleceu o nosso amigo Joaquim Carriço, de 67 anos. Se toda a morte é trágica e sinónimo de dor para quem fica, mais o é ainda quando o finar de alguém, no derradeiro estertor, ocorre com grande sofrimento de impotência de quem o presencia e num cenário completamente improvável.
Com mais dois amigos, estava à pesca na Costa Nova. Por volta do meio-dia, pegou numa sandes e três cervejas –uma para cada um- e deu um dentada no pão. Engasgou-se e sentiu-se sufocar. Perante a incapacidade e o desespero de evitar um fim anunciado, Rui Alves, um dos seus acompanhantes e que tudo tentou para o fazer voltar à normalidade, apertando-lhe o peito e tentando expulsar o pão da sua garganta com massagem cardíaca, não conseguiu evitar a fatalidade e o Carriço exalou o último suspiro nos seus braços. Chamaram o INEM mas, segundo as declarações desta testemunha, “os serviços de emergência só chegaram 25 minutos depois. Ao que parece trocaram o endereço. Os bombeiros chegaram primeiro que os cuidados médicos. Ainda nem estou em mim. O meu melhor amigo morreu nos meus braços e sem que eu pudesse fazer alguma coisa! A vida é muito injusta, carago!”
O Joaquim trabalhava como odontologista, com consultório no Largo das Ameias, e, pela sua dedicação, era uma presença importante na Baixa onde detinha muitos amigos. Para além de tudo isto era meu vizinho. Nos Carvalhais de Cima, não se ouvirá mais a voz grave e melodiosa do Carriço a cantar o fado. Desde os seus amados cães até aos passarinhos do seu quintal, e sobretudo por todos nós, os seus confinantes que o estimávamos muito, vamos sentir a sua falta. Descanse em paz, meu amigo.



quinta-feira, 27 de março de 2014

UM PRESÍDIO CHAMADO BAIXA



A dona Graça é uma cozinheira de excelência e, durante dois anos, passou agruras na Rua Velha. Depois desta angústia que a ia mandando para o charco esteve estabelecida no Snack-bar Marcius, na Rua da Sofia, nos últimos cinco anos e até agora. Amanhã, sexta-feira, será o seu último dia de trabalho na Baixa. Passou o seu negócio a uma nova família. Os novos adquirentes, tenho a certeza porque sou cliente diário, herdam uma boa casa feita a pulso pelo desempenho esforçado do casal Victor Pereira e Graça Santos.
Há um ano atrás entrevistei a dona Graça e era patente o cansaço da sua luta contra moinhos de vento e pelo continuar a pugnar por uma zona que, pelo abandono das entidades oficiais, leva à saturação e ao baixar os braços do mais forte. Por isto tudo, tenho a certeza, esta lutadora mulher vai embora. Não é que entenda que os que estão são os melhores e quem vem de novo fique aquém. Nada disso! É a dinâmica natural das coisas. O que quero dizer é que estes partem, aqueles partem e todos, todos, se vão! A Baixa fica sem mulheres, sem homens, e prenhe de solidão. Tento mostrar que se pressente aqui um permanente desalento e o desistir de lutar por quem cá passou parte da vida.
A Baixa, nos últimos anos, está transformada num presídio. Só cá permanece quem não tem hipótese de remover a pena e partir para a libertação. Nos últimos anos tem sido assim. Vão embora de vez os ressarcidos, os que morrem agarrados ao balcão e os que são obrigados a abandonar por insolvência dos seus negócios. Por isso mesmo, ambos, não voltarão mais –em metáfora, e que já teriam cumprido a sua punição. Depois há os precários, aqueles cujos espaços são de sua propriedade e optam por arrendar e desistir da actividade comercial. Como se podem dar ao luxo de ter um pé dentro e outro fora, escolhem o melhor para os seus interesses a permanecer diariamente e morrerem de tédio todos os dias um pouco. Assim de repente e nos últimos tempos, que me lembre, foi o Paiva, com duas sapatarias, na Rua Eduardo Coelho, foi a sapataria Angel, na mesma rua, foram duas farmácias na Praça do Comércio, foi uma casa de tecidos na Rua do Corvo, foi a Boutique Romy, no Largo da Freiria, e outras que agora não recordo. E depois há então os outros, os eternos, os condenados a prisão perpétua, que não podem ter ordem de soltura por vários motivos -por dívidas, amarrados a compromissos inadiáveis, e colados a funcionários com várias décadas e que não podem indemnizar- e cuja permanência nesta prisão é a única opção possível, mesmo até enquanto fonte única de rendimentos. Depois há ainda os utópicos da esperança, sonhadores por força da conjuntura e à procura de um amanhã melhor, que voluntariamente vêm para as ilusórias grades em busca de uma ocupação porque estavam desocupados e com um sentimento de inutilidade. Como desconhecem completamente este ambiente presidiário basta um mês para quererem a liberdade. Porém, é muito tarde para voltar atrás e, por força de um destino que escolheram, passam a presos efectivos.

EDITORIAL: ADEUS COMÉRCIO DE RUA

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Com o terramoto legislativo governamental previsto para breve, e anunciado na comunicação social de total liberalização da actividade mercantil, está em marcha a destruição absoluta do comércio tradicional. Do pequeno estabelecimento de tecidos a metro, ao pronto-a-vestir, à sapataria, à pequena loja de ferragens, à perfumaria, não restará pedra sobre pedra. A partir do momento em que entre em vigor o diploma, depois de passar pela Assembleia da República, o comércio generalista entra em contagem decrescente em direcção à tumba. A partir daqui os centros históricos, a braços com uma desertificação acelerada de moradores, estarão apenas destinados à hotelaria.
A ser verdade que se vai liberalizar a época de saldos durante todo o ano, abrir-se novas superfícies comerciais com mais de 2000 metros quadrados através de uma simples declaração, abertura de esplanadas com diferimento tácito –aprovadas se não houver resposta da entidade municipal no prazo de 20 dias- e a liberalização total de horários para cafés, cervejarias, discotecas e casas de fado –que até agora só podiam estar abertas até às quatro da manhã, está em marcha uma revolução com consequências imprevisíveis. Com esta medida, ao dar-se plena liberdade empresarial à iniciativa privada, totalmente sem regras e saindo da tutela do Estado, está a dar-se aos grandes grupos económicos a possibilidade de assistirem ao completo aniquilamento dos mais pequenos. Guerreando-se entre si, com margens praticadas abaixo de custo e apenas para a sobrevivência, numa política de preços de terra-queimada, os pequeníssimos vendedores estarão a auto-destruir-se e a fazer o jogo dos grandes hipermercados.
Se havia dúvidas de que a pequena loja de bairro tinha os dias contados, a partir de agora é oficial. Vai desaparecer completamente dos centros das cidades. Se até aqui as directrizes governamentais deste Governo e anteriores eram subtis, agora caiu a máscara da pouca-vergonha. Este extermínio é um escândalo. É uma afronta à dignidade de tantos e tantos comerciantes que deram a vida na prossecução da revitalização harmoniosa das urbes, no último século. De aqui para a frente está em marcha a desvalorização completa do edificado nas zonas velhas. Será o fim destas áreas como zonas residenciais. Em face do ruído previsto durante toda a noite, ninguém ousará vir morar para o centro de um vulcão.
Ressalve-se a manutenção da boa moral e dos bons costumes ao continuar-se a proibir a abertura de sex-shops a menos de 300 metros de escolas ou igrejas. Se isto não fosse trágico dava vontade de rir até escancarar.
É o golpe fatal na classe média e nos pequenos artesãos, comerciantes e lojistas. É bom lembrar que foi uma ofensiva assim, da escravidão ao despotismo, que esteve na origem da Revolução Francesa de 1789 e que deu origem ao iluminismo. Convém também recordar que o mesmo se passou no império germânico, na Alemanha, com a revolução entre 1830 e 1848, pelo domínio absoluto da Prússia, e que, para além de originar várias crises em países europeus como a França, daria o germinar crescente do nacionalismo até à 1.ª Grande Guerra. Por cá, em Portugal, também pelo descontentamento popular, a descambar na violência, esteve o fim da Monarquia e ascensão da 1.ª República, em 1910, e o nacionalismo institucional liderado por Salazar com a implantação do Estado Novo, em 1933. 
Estou em acreditar que, no último meio-século e por parte da hegemonia capitalista selvagem, estamos em face da maior ofensiva perpetrada alguma vez contra os pequenos proprietários, artesãos e negociantes. Estamos perante uma agressão aviltante, aberrante, uma pilhagem neoliberal visando o descarado empobrecimento e a miséria dos mais pequenos.
É muito triste o que está acontecer. Todo o comércio tradicional está de luto. Vamos esperar a resposta da população.

sábado, 22 de março de 2014

CALOU-SE A VOZ DO CARRIÇO


A notícia caiu-me de chofre pelo telefone: “morreu o teu vizinho Joaquim Carriço!”. Como? Interroguei meio atónito. Ainda um dia antes o avistara e ouvira a sua voz em monólogo com os seus cães. Os seus animais de caça eram uma extensão de si mesmo. Uma certa descrença no homem e um acreditar que o cachorro, na sua irracionalidade, será mais leal do que o humano.
O Joaquim era uma presença forte da Baixa. Era odontologista com consultório no Largo das Ameias e com muitos amigos nesta zona antiga.
Mas afinal o que aconteceu? Quem responde é o seu amigo de sempre, o Rui Alves –que o acompanhava no momento fatídico em que se desenrolou a tragédia. “Éramos três amigos. Estávamos a pescar na Costa Nova. Não sei bem explicar, mas eu pressentia qualquer coisa. Logo de manhã o Carriço insistiu em ir à Figueira da Foz comprar isco. Depois do regresso foi instalar as canas um pouco longe de nós, no molhe. Havia uma rampa com dois metros e, como a maré estava a esvaziar, pressupunha que iria ser bom para a pesca. Com a cana puxei-o. Foi então que o “merdita” –como nos tratávamos todos com carinho- disse: “ estou a ver as pedras a abanar!”. Achei estranha aquela observação. E até pensei que ele estava a brincar. Seriam cerca de 12h20 quando pegou numa sandes e em três cervejas -uma para cada um. Deu uma dentada e, de repente, começou a fazer-me sinais de aflição para eu o apertar no peito e dando-me a entender que estava sem ar. A pigarrear num sufoco indescritível, sem conseguir respirar, comecei a envolver o seu tronco, numa tentativa de expulsar o pão que estaria preso na sua garganta. Mas não conseguia e comecei a verificar que o Joaquim estava a ficar com as orelhas roxas. Ligámos para o INEM e, através do telemóvel, disseram para lhe fazer uma massagem cardíaca. Mas eu não estava a conseguir. E o INEM nunca mais chegava. Chegou 25 minutos depois. Ao que parece trocaram o endereço. Os bombeiros chegaram primeiro que a emergência médica. Tentaram tudo e até usaram um desfibrilhador, mas debalde! O médico do INEM disse que a sua morte, provavelmente, teria sido causada por engasgamento, mas é normal acontecer ficar-se sem conseguir ingerir alimentos quando a ocorrência é provocada por um AVC, Acidente Vascular Cerebral. Ora o Carriço já tinha um historial clínico de doença do coração. Há três anos teve um ataque grave. Tinha 67 anos, feitos a 3 de Janeiro, último. Ainda nem estou em mim. O meu melhor amigo morreu nos meus braços e sem que eu pudesse fazer alguma coisa! A vida é muito injusta, carago!”
Nos Carvalhais de Cima, não se ouvirá mais a voz grave e melodiosa do meu vizinho Carriço a cantar o fado. Desde os seus amados cães até aos passarinhos do seu quintal, e sobretudo por todos nós, os seus confinantes que o estimávamos muito, vamos sentir a sua falta. Descanse em paz, meu amigo. Foi uma honra ter privado consigo. Até sempre.

O QUE É ISTO?



"Esta é a história de uma mãe que percorre 10 quilómetros a pé, em plena Estrada Nacional 3, a empurrar a cadeira de rodas da filha deficiente para a levar ao médico."

sexta-feira, 21 de março de 2014

LEIA O DESPERTAR


LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Esta semana deixo o textos "REFLEXÃO: 97 ANOS"; "PARTIU O "ZÉ" MARIA DO ARCÁDIA"; "PELOS CAMINHOS DA FÉ ATÉ SANTIAGO"; e "A ÚLTIMA TREMOCEIRA FEZ ANOS"; e "UM CRÉDITO PARA O PINA"


REFLEXÃO:  97 ANOS

Se, metaforicamente, O Despertar fosse um homem dar-lhe ia um grande abraço e diria: estás mesmo bom, com bom aspeto, pá! Quem me dera chegar à tua idade e ser tomado nos braços por tantas e lindas mulheres, de todos os estratos sociais e de todas as eras! És um caso sério de resistência e longevidade! Dá cá outro abraço, pá! Parabéns!
Depois desta imaginária congratulação, agora estou sentado sobre a mesa, com o braço apoiado e a mão a fazer de concha para sustentação do rosto –na posição do Pensador de Rodin. Penso no que está acontecer à imprensa escrita, no jornalismo em papel. Nos últimos anos, sem que nada se possa fazer, estamos a assistir à morte continuada de títulos que fizeram parte da nossa existência, nesta liberdade recente. Com a sua partida a vida em comunidade ficou mais pobre. Se folhearmos os grandes jornais nacionais, para além de haver um repetição da notícia sem tratamento –numa espécie de aceitar a fonte central de notícias e colar-, verificamos que só interessam as grandes questões do mundo. Desapareceu a pequena informação relativa à nossa rua, ao nosso bairro, à crónica sobre a pessoa anónima. O homem comum tornou-se invisível nesta osmose purificadora do disparate. Mesmo correndo o risco de estar a ser juiz em causa própria, tenho de dizer que os jornais modestos, simples, feitos com a colaboração gratuita de escritores de fim-de-semana –refiro a minha pessoa-, como O Despertar, cada vez mais fazem sentido. O problema será aguentar, subsistir neste universo plastificado, formatado e obcecado pela novidade do usar e deitar fora, que rebentará pelo excesso de oferta e não pela carência. Nesta sociedade descartável, esta prática a que chamamos desenvolvimento tecnológico, que no seu objeto faz do homem um parasita que vive sem esforço à custa da máquina, tritura tudo o que é tradicional e assente no passado. Hoje a História está para o país como o burro para a agricultura. Ambos são tratados como instrumentos sem valor, sem um segundo olhar, e que não merecem respeito. A História passou a ser um fim em si mesmo e não um meio de formação intelectual para mais facilmente perceber o presente e o futuro.
Cada vez mais o colaborador do pequeno jornal, ao intervir na denúncia, é um missionário em terras abandonadas da iliteracia funcional. Um grande abraço a todos quantos contribuem para a feitura d´O Despertar.


PARTIU O “ZÉ” MARIA, DO ARCÁDIA”

 Foi a enterrar na quarta-feira da semana passada, no cemitério de Luso, José Maria Cerveira. Para a maioria este nome comum nada dirá. Mas se eu escrever que faleceu o “Zé” Maria, do Arcádia”, tenho a certeza, metade da Baixa fará um segundo olhar sobre a notícia. Conheci bem o “Zé” Maria”. Eu sou, ele foi, da mesma povoação que durante décadas nos viu por lá: Barrô, do Luso. Curiosamente, na nossa terra, era tratado distintamente por “Senhor José Maria”. Noutros tempos, nas aldeias, quando o estatuto era notado e implícito para quem se distinguia do comum, esta era a forma manifestada a quem, para além do sucesso, era reconhecido valor, respeito e afeição. Senhor de uma educação esmerada e de uma visão alargada sobre o humano, imediatamente fazia o retrato psicológico de quem estava à sua frente. Na sua calma natural, sem nunca levantar a voz, era um “gentleman” na forma como falava para qualquer um. Apesar de o ter conhecido bem e guardar dele uma boa memória, e lamentar a sua partida apresentando públicas condolências à família, vou dar voz a quem o conheceu melhor ainda, José António Machado:

“Comecei a trabalhar no Café Arcádia, Na Rua Ferreira Borges, em 1976. Durante quase um quarto de século fui seu empregado. Foi como um pai para mim. Tive sempre um bom relacionamento com ele. Sempre que precisei emprestou-me dinheiro. Materialmente, tudo o que tenho foi com a ajuda do Senhor José Maria. Era um homem de 5 estrelas! Ligava a todos por igual. Tanto lhe fazia que fosse um pobre cigano como um rico capitalista. Enquanto pessoas, mereciam o mesmo respeito. Ele nunca fazia distinções. Era bom que este país seguisse o seu exemplo no trato e na equidade. No café Arcádia chegámos a ser 19 funcionários, entre homens e mulheres. Tinha uma forma incrível de nos avaliar. Quando fui pedir-lhe trabalho, em 1976, já ele tinha uma grande lista de candidatos ao lugar. Eram 5h30 da madrugada quando falámos. Eu viera no comboio correio da manhã, desde a Aguim. Estava ele a preparar as coisas para abrir o café –nessa altura o Arcádia era já um ex-libris na Lusa Atenas. Aqui parava a fina flor da cidade. Então admirou-se de eu vir tão cedo. Respondi-lhe que estava habituado a erguer-me ainda a noite estava a sonhar. Deu-me trabalho e desabafou mais tarde que fora por esta minha qualidade que me escolhera. “Quem dorme muito não faz andar o moinho a tempo e horas”, dissera.
Tive sempre por ele uma consideração fora de série. Lembro-me, chegaram a oferecer-me três vezes mais ordenado do que lá ganhava, mas eu respondia que não se cospe no prato onde comemos a sopa. Só saí do Arcádia aquando do seu encerramento, em final da década de 1990. Indemnizou todos e não ficou a dever nada a ninguém. Era muito escrupuloso nas contas. O senhor José Maria foi um dos históricos da Baixa. Já poucos restam do seu tempo. Fez muito bem a talvez mais de metade dos comerciantes da Zona Histórica. Gostava muito de dinheiro, era muito poupado. E sobretudo muito justo. Gostava de atribuir a cada um o que é seu. E se via que o candidato ao empréstimo detinha qualidades emprestava sem receio. Mereceu tudo o que ganhou. Foi uma honra tê-lo conhecido, sendo seu empregado, senhor José Maria. Descanse em paz, meu amigo!”


PELOS CAMINHOS DA FÉ ATÉ SANTIAGO

 Neste último domingo, dia 16, um grupo de oito membros da Irmandade da Rainha Santa Isabel, alguns deles residentes na Baixa, pelas 11h00, assistiu à missa com bênção especial feita pelo pároco Sousa. Com votos de boa sorte, deste sacerdote e de todos os presentes na homilia dominical da Igreja da Rainha Santa Isabel e desejando a todos estes caminheiros que tenham um bom desempenho e finalizem a sua jornada com saúde e paz, o grupo partiu em direção a Santiago de Compostela. Iniciando a sua missão de caminheiros de Valença terão o seu regresso marcado para o próximo dia 22.
Luís Brito, o nosso vizinho e o mentor entusiasta da caminhada, sem disfarçar o orgulho de participar, cheio de força, enfatizou: “como já fizemos os Caminhos de Santiago várias vezes, embora importe algum esforço físico, somos tomados pela fé e com a ajuda de Deus vai correr tudo muito bem.”


A ÚLTIMA TREMOCEIRA FEZ ANOS

Batizei-a de última tremoceira por vender na Baixa, há mais de meio século, o famoso acepipe. Maria Adelaide está sempre presente na Praça 8 de Maio rodeada de tremoços, amendoins, pistachos e pinhoadas. No outono e no inverno vende castanhas e nos restantes meses do ano vira-se então para o petisco tão próprio das cervejarias portuguesas. Com o seu inconfundível lenço floreado na cabeça Adelaide é uma reconhecida figura típica desta zona antiga.
Mas o que me levou a escrever sobre a mulher mais querida do Centro Histórico não foi contar a sua vida, até porque já escrevi montanhas de crónicas sobre a sua pessoa. É que a nossa Adelaide fez 90 anos. Como se fosse a coisa mais banal do mundo não liga muito ao facto. Apenas pede a Deus saúde para continuar a trabalhar. Debaixo de um sorriso matreiro lá vai enfatizando: “vou continuar a trabalhar até morrer. A minha médica não quer que eu esteja parada – porque já estive acamada quatro meses e, por isso, ia batendo a caçoleta. Gosto muito de trabalhar, menino! Que quer? É um vício que está cá na cachimónia! Pela alminha do meu falecido marido, que foi sacristão na Igreja de São Tiago e com certeza deve estar no céu!”
Embora considere que merecesse uma homenagem maior deixo-lhe esta singela. Em nome de toda a Baixa, se posso escrever assim, uma grande salva de palmas de parabéns para a senhora Adelaide.


UM CRÉDITO PARA O PINA

Para quem não souber, o cabo-verdiano Lourenço Pina, para além de tocar muito bem viola acústica, tem uma voz caninha impressionante. Para mal dele, teima em não mostrar os seus dotes de intérprete. Até há pouco tempo fez parte da denominada Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra.
Depois da sua apresentação, pegando no cartaz que se apresenta no BES, na Praça 8 de Maio, em que a mensagem é “Crédito não é só para os grandes” –apareça e cresça”, fazendo analogia com a mensagem, pelo que vemos, constatamos que o Lourenço para além de não ser grande, apareceu e não cresceu. O que espera o BES para lhe dar crédito? Talvez por ele estar em pé –digo eu! O melhor é o Pina esperar sentado. Ou, porque somos pragmáticos e não acreditamos em milagres, demos nós, eu e você, créditos ao Lourenço. Vá lá! Quando encontrar novamente, peça-lhe para ele soltar a voz e dê-lhe uma moeda. Este é o verdadeiro crédito popular, que se não o ajuda a crescer ajuda-o a sobreviver.

BOM DIA, PESSOAL...

ESTA BAIXA ENTREGUE A SI MESMO


José Barata está inconsolável. A sua casa, na Rua da Fornalhinha, foi assaltada na noite desta última quarta-feira. Nos últimos seis meses é a terceira vez. Nos três assaltos há um ponto comum, os gatunos procuram metais, sobretudo cobre. Deram-se ao vagar de, calmamente, desmontar o interior de um esquentador e levarem os tubos. Levaram também uma série de miudezas. O mais valioso desta intrusão foi um quadro a óleo, original, de Carlos Reis com as medidas, mais ou menos, de 25X40. Desapareceu também uma imagem de Santa Filomena. Nas vezes anteriores levaram as torneiras e até o contador de água. “Estou saturado disto”, diz-me em desalento. “Vivo em Lisboa, na Parede, e venho cá várias vezes ao mês e ultimamente deparasse-me este quadro de destruição. Já me rebentaram a porta várias vezes. Desta última foi com um pé de cabra na zona das dobradiças. Comuniquei sempre as ocorrências à PSP. Os anteriores assaltos foram arquivados por falta de provas. Este último, já sei, vai ter o mesmo destino. Quando interrogo a polícia pela falta de vigilância respondem-me que não têm meios. E os nossos valores? A nossa segurança? Como é que é? Para que pagamos impostos sobre o património? Se não fossem as minhas memórias…”

E DA LONDRES NADA?


A sapataria Londres, situada no rés-do-chão do mesmo edifício, encontra-se encerrada, à ordem do tribunal e por motivo de falência do comerciante, há cerca de 6 anos. José Barata lamenta a morosidade do processo judicial. “Veja bem que o meu inquilino fugiu sem me pagar as rendas já em atraso. Como se fosse pouco, tenho de aguentar este tempo todo sem poder aceder ao que é meu? É assim que se procura revitalizar o Centro Histórico? Um proprietário, em face de uma insolvência do inquilino, merece algum respeito?”. Interroga o proprietário do imóvel.

A CASA DAS AMÊNDOAS


Continua José Barata, “na década de 1930, quando nasci, os meus avós exploravam a Casa das Amêndoas, aqui, ao lado, na Rua Eduardo Coelho, número 26, onde é agora a Sapataria Trinitá, do senhor Quirino. Tenho uma ternura muito grande por esta zona, sabe? Andei por lá de gatas e foi lá que aprendi a dar os primeiros passos. Sabe que ainda conservo na minha mente o cheirinho da amêndoa torrada, como se fosse hoje? Se não fossem estas recordações já tinha ido embora há muito tempo.”



EDITORIAL: ESTA SOCIEDADE DE ESPECTÁCULO!




Em Itália, num concurso para novas vozes, “The Voice IT”, apareceu uma freira a cantar espectacularmente e encantou o público e o júri presente. O vídeo está a correr o mundo. (Visione em cima)
Por um lado, imediatamente surge uma pergunta: se acaso ela se apresentasse sem uniforme teria o mesmo sucesso? Provavelmente passaria à eliminatória seguinte mas a sua prestação não sairia daquelas quatro paredes. Vivemos hoje numa sociedade que, a todo o gás, procura o diferente. Então se estiver uma farda no meio é tiro e queda. Adoramos, todos, o lado cinzento do conspícuo, do notável, daquele que, para além de ter o dever de aparentar, tem de ser obrigatoriamente respeitável. Há aqui um certo voyeurismo, um perseguir uma imagem que não existe. Um espreitar por detrás do espelho.
Por outro, imaginemos que esta cena se passava em Portugal. O que teria acontecido? Mais que certo, teria caído o Carmo, a Trindade e a eminência do bispo da diocese onde a servidora de Deus estaria vinculada. Somos um país muito sério. E com coisas sérias não se brinca, diriam os puritanos. O respeitinho é muito lindo. Ou seja, o desejo de que este espectáculo ocorra mantém-se, simplesmente não há coragem para furar o situacionismo. A gente gosta, mas é pecado, pronto! Não pode ser! E não há discussão!
Ainda há dias ocorreu numa discoteca do país um strip-tease feito por um agente da GNR, fardado e com arma no coldre. Caiu a mácula na instituição da Guarda Nacional Republicana. Vozes da terra e do Céu levantaram-se em coro contra a afronta. Como é de prever, o aventureiro militar, mais que certo, corre o risco de expulsão por, alegadamente, envergonhar a organização de força policial. Está certo? Não sei! Há sempre duas formas da avaliar o mesmo problema. Então do ponto de vista ideológico é fatal. Para a direita, sempre tão agarrada aos velhos costumes, é um escândalo sem precedentes. Queime-se o homem no pelourinho da insanidade! Para a esquerda, que adora o corte fracturante mas com calmex, é um “nim”, nem assim, nem o contrário, nem coisa que o valha em alternativa. Aguarda-se serenamente as conclusões do inquérito, exclamarão com solenidade, sem se comprometer e embrulhados na hipocrisia de sempre, no manto diáfano da nebulosa.
Para mim, que sou liberal e procuro não ser dissimulado e escrevendo o que penso, analisando este caso do militar GNR, creio que o homem se excedeu, sobretudo usando arma no show. Deveria ter pedido autorização. No entanto se pedisse, seria concedida? É óbvio que não. Então o que quero dizer com isto? Que a sociedade, incluindo a militar, é dinâmica e como tal, nos actos que fogem ao comum, o seu julgamento a posteriori terá de ser avaliado sob o ponto de vista progressista e não estático. Como tal a justiça militar não deve agir neste caso de lana caprina da mesma forma que age um tribunal marcial a julgar traição à Pátria. Não se pode ir dos oito para o oitenta. Caso continue a proceder num fingimento que só ela, instituição, acredita corre o risco sério de cair no ridículo.
Em suma, não sei se consegui ser claro mas este país, fazendo comparação com outros europeus, somos todos tão cinzentos. Valha-nos Deus! Que este vídeo da freira italiana sirva para alguma coisa. Sobretudo para nos fazer pensar!

quinta-feira, 20 de março de 2014

MONTRA POÉTICA



MONTRA POÉTICA


Esta montra de poesia
que tem por lema Mal Dito
é uma catarse de heresia
do comerciante soldadito
que luta na maresia
para sobreviver, coitadito,
buscando na freguesia
o adiamento do veredito
da extinção sem anestesia;
É um rimar com maldição
na arte de vender e comprar,
é tristeza sem razão
não entendendo o apunhalar,
é não encontrar uma explicação
para o que se está a passar,
assistir à morte de uma profissão
e nada se poder fazer para evitar,
sendo todos cúmplices nesta transgressão.

quarta-feira, 19 de março de 2014

ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O ADVOGADO DOS POBRES DIABOS


 Lembro-me muito bem dele no início da década de 1980. Nessa altura, conservava a mesma timidez e contenção no falar –como hoje- e, naturalmente, tinha melhor aspecto físico. Para além de ser mais novo apresentava-se sempre de fato e gravata como qualquer causídico. Hoje o tempo, como castigo ou não, parece ter passado por cima da sua pessoa e, agora, já só resta o mesmo sorriso de menino, o ar de bom samaritano, e o falar calmo e mais espaçado, como se procurasse as palavras no éter. Recordo bem o então advogado Rui Fernando de Mesquita Figueiredo, o doutor Mesquita como era conhecido na zona da Sé Velha, na Alta da cidade. Era uma espécie de solicitador dos mais carenciados que, quase sempre com um “grão na asa”, nos fazia lembrar o doutor Ezequiel Prado, da novela Gabriela, Cravo e Canela. A troco de nada, ou ressarcido tantas vezes por pouco mais do que uma cerveja, defendia todos. Estou convencido que nunca teria ganho dinheiro com a advocacia. Se calhar, por andar amiúde abraçado ao Deus Baco a saúde, quem sabe por ciúmes, não lhe perdoou e há poucos anos atirou-lhe com um AVC, acidente Vascular Cerebral. Mas como a natureza compensa quem carrega humanidade, recuperou parcialmente e podemos vê-lo tantas vezes a cruzar-se connosco nas ruas largas. Vamos saber mais do doutor Mesquita. Fale, apresente-se, senhor doutor:

“Nasci em Coimbra há 78 anos –como curiosidade, para a semana, dia 27, farei 79. Entrei na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1953 e, juntamente com a minha mãe, fui morar para a Rua dos Coutinhos. Em 1958, já licenciado fui exercer para Moçâmedes e Novo Redondo, em Angola. A minha mãe continuou por cá na mesma morada. Por lá, em terras africanas, fui também professor do Ensino Técnico –ensinava as cadeiras de direito, no Curso Comercial. Foi o melhor tempo da minha vida! Quando se deu a independência, em 1974, regressei novamente a Coimbra, à Sé Velha, à Praça Vermelha como era então conhecida. Nunca me meti em política. Sempre estive alheado. Era respeitado por todos. Sempre tratei bem toda a gente. Bebia um copo com qualquer um. Talvez por ser formado e ser, de certo modo, o advogado dos pobres, fui poupado algumas vezes. Na cidade, tive escritório na Avenida Fernão de Magalhães e na Rua da Sofia. Nunca ganhei dinheiro a advogar. Dava apenas para as despesas.
A minha mãezinha morreu já há muitos anos e larguei tudo o que me recorde álcool. Deixei também de exercer há cerca de uma década. Actualmente, estou a ser acompanhado no Centro de Dia 25 de Abril, no Ateneu de Coimbra. Tratam-me muito bem. Ainda hoje me deram banho porque já não posso. Os seus trabalhadores são o meu Anjinho da Guarda. Tenho familiares mas estão muito longe. Se não fosse o Centro de Dia não sei o que seria de mim! Recebo de Reforma 369 euros. É pouco! Pouquíssimo, se comparar com a verba que eu ganhava em África e quando trabalhava aqui. Está tudo bem para mim. Não me enervo! Estou em paz com o mundo! Só quero saúde, descanso e bom trato. E mais nada!”