sábado, 30 de junho de 2012

A FERRADURA

(As Alminhas de Barrô, Infelizmente já com casas à sua volta)

 Ela transpôs a porta da loja em passo ligeiro. Tinha um aspecto de boneca e parecia deslizar nas entrelinhas da luz. Ou melhor, com aqueles cabelos compridos alourados a emoldurar um rosto bonito e simples, aquela imagem de mulher poderia perfeitamente constituir o paradigma do sonho de felicidade de qualquer masculino com o coração embrulhado em nuvens de solidão. O corpo, bem torneado, assim meio esguio, fornecido com dois seios pequeninos e bem modelados, que, para qualquer homem, pensando poder afagá-los em ardente desejo, poderia ser o ideal de prazer eterno. Duas pernas bem desenhadas adivinhavam duas coxas roliças e elegantes a acabar numa cintura de número 36.
“O senhor vende ferraduras?”, atirou-me de chofre. Confesso, tenho uma especial atinência para tentar entender o que está por detrás da superstição. Não porque me considere superior a estas pessoas ou a outras quaisquer. Eu também já fui assim. Já acreditei em tudo isso. Mesmo até na religião, aliás, fui baptizado, fiz a primeira-comunhão e casei pela igreja Católica. Na nossa geração, nascidos em meados de 1950, era assim. Curiosamente, quando penso em religião, não posso deixar de pensar num episódio da minha infância. Juntamente com os meus pais, em 1963 tinha 7 anos, vivia numa aldeia entre a Mealhada e o Luso, Barrô. A escola primária, como era então conhecida, estava localizada num outro lugar, a Lameira de São Pedro, que distava, em linha recta, cerca de cinco quilómetros. Este caminho, em ida e volta, era percorrido a pé, diariamente, por todos os alunos. Ao sair da povoação, já numa zona descampada e sem habitações, estava a pequena capela em honra das Alminhas –só para lembrar, antigamente encontravam-se pequenos altares ao longo das estradas ou caminhos rurais. Eram, portanto, um local, que até poderia ser escavado numa rocha, em forma de oratório com uma pequena imagem, onde se deixava uma oração, uma flor, ou uma vela, em culto aos mortos. Hoje estes locais fazem parte do nosso património artístico-religioso.
Neste caso das Alminhas da minha aldeia, foi mesmo construída uma pequena capelinha onde caberiam lá dentro três ou quatro pessoas. Espreitando pela porta encerrada e apenas aberta uma vez ao ano, encimada por uma cruz, poderia ver-se um pequeno altar com uma imagem alegórica que já não lembro. À sua volta estava um pequeno terreiro, em terra batida, onde, com um grande bailarico, se comemorava a festa anual.
Então, retenho na memória de, a caminho da escola, muitas vezes, ter parado junto à capelinha. Não me lembro bem, mas, é possível que estas paragens ocorressem em dias de prova escrita. Recordo perfeitamente de entrar em negociação directa com as Alminhas: “se eu tirar boa nota dou-te um tostão –dos cinco tostões que o meu pai me há-de dar no próximo domingo para eu ir ver televisão na venda do senhor António da Loja”. Não sei quanta vez fiz isto, o que me parece é que, naturalmente pelo temor, sempre que as Alminhas me valeram eu teria cumprido e lá teria colocado o tostão debaixo da porta de madeira.
À medida que fui avançando na idade, continuei a acreditar na religião e também nos amuletos, incluindo o efeito da ferradura –que há muitos anos recordo ter pregado uma por cima de uma porta para apelar à boa sorte. O tempo foi passando e há uma década entrei na Universidade, em direito. Fosse lá, ou não, pelo ensino ali ministrado –o que para mim também é estranho, no sentido de que tive alguns professores muito crentes-, a verdade é que, progressivamente fui-me tornando racionalista e deixando de acreditar em forças que transcendem os humanos –é óbvio que não discuto se estou certo ou errado. Não coloco em causa quem acredita. É apenas uma questão de fé, e, reconheço, não sou abençoado com este dom. Ponto e parágrafo.
Então, sempre que me aparece alguém a querer comprar uma ferradura, um livro de São Cipriano, um dólar, uma moeda de tostão, umas figas, etc., sempre que tenho possibilidade, tento falar com a pessoa. Umas vezes, quando me perguntam se o objecto em causa dá sorte, respondo que sim, desde que se acredite com fervor –e acredito mesmo neste princípio. É aqui que o mistério da fé se revela. Não tenho qualquer dúvida em afirmar que o dogma, o acreditar sem pôr em causa o poder superior subjacente, pode fazer, de facto, milagres. Já em relação ao livro de São Cipriano –este santo foi um feiticeiro do século III que se converteu ao cristianismo e escreveu um livro de feitiçarias e rituais de ocultismo do quotidiano com o seu nome-, quando me interrogam se lê-lo faz mal e o seu conteúdo, nas suas indicações, funciona, costumo dizer que não há livros bons ou maus. Os manuscritos são apenas instrumentos, mensageiros, do pensamento materializado do seu autor e será catalogado de óptimo ou medíocre pelo leitor consoante o interesse do tema expresso, Portanto, em suma, não haverá livros bons nem maus. Há apenas livros.
Interroguei então a senhora da razão de estar a adquirir uma ferradura. O que lhe aconteceu? Será que está sem emprego? Quem sabe afogada em dívidas? Será que tem um filho que lhe dá imensos problemas? “Não”, enfatizou. Tudo o que enunciei corria bem. Até habitava em casa própria. Então? Não me diga que procura um amor? Interroguei. “Pois é isso mesmo!”, respondeu-me sem pudor. Como é possível? Voltei a questionar-me perante tanta beleza. E a senhora faz alguma coisa para conseguir uma paixão? Isto é, vai a um bailarico, a uma discoteca dançar, está inscrita na Internet, num site, sai ao domingo e vai ao cinema ou passear no parque? “Não, não vou, só saio de casa para o trabalho”, respondeu-me. Então como é quer que a minha ferradura faça efeito? Voltei a indagar. Para não voltar cá reclamar, vou oferecer-lha. E a mulher bela, com um sorriso envergonhado, certamente a pensar no que lhe disse, saiu à procura de um vento místico que lhe traga um abençoado amor.

SE EU VOLTASSE ATRÁS...

DRAMAS ALHEIOS EM GENTE DE NÓS




 Conheço a Teresa Carvalho há muitas décadas, ainda do tempo em que era funcionária auxiliar dos HUC. Ultimamente, volta e meia, vou dar com ela a vender umas quinquilharias baratinhas, a cerca de um euro, ali junto às Escadas de São Tiago.
-Olá, Teresa, como está?! –cumprimento-a. Então? Está a ver se escoa umas coisas que tem a mais e faz uns trocos? –Interrogo.
-Sim, preciso muito, sabe?
-Então, mas você já está reformada, não está?
-Estou sim. Já tenho 67 anos. Mas, sabe, meti-me numas coisas e que atempadamente não pude resolver e agora, todos os meses, sai uma parte do meu vencimento. Depois deste desconto fico com pouco mais de 500 euros…
-Mas eu já tenho reparado que você apresenta aqui uns trabalhitos em madeira. É você que faz?
-Não, é o meu marido. Ele tem muito jeito para fazer estas coisas. Diga-me lá, não era para haver uma feira, todos os domingos, no largo do Bota-abaixo? Disseram-me que ia haver. Você sabe de alguma coisa? É que fazia-nos tanto jeito…

UMA ARTISTA NA NOSSA RUA: A ABADESSA



 Quantos de nós já a ouvimos, e vimos, a tocar extraordinariamente bem concertina nas ruas largas, de Visconde da Luz e Ferreira Borges? Quantos de nós, nessa altura, não demos conta  e até comentámos com nossos botões: “é pá!, esta miúda tem talento! Toca bem que se farta!”
É a Cláudia Alves -sem pretender ofendê-la, vou batizá-la de “Abadessa”, pelas suas permanentes saias compridas e parecenças com uma mulher da Idade Média-, é estudante de jornalismo e, naturalmente como todos nós, precisa de trabalhar para fazer face às despesas porque a vida não está fácil para ninguém e muito menos para estudante. Aprendeu há cerca de um ano, sozinha, a tocar concertina. Como gosta tanto de música, e sobretudo do instrumento a que se dedicou, evoluiu rapidamente e agora até já faz parte do conjunto “Urtigas”, um outro grupo de foles que, para nosso contentamento, também costuma estar a tocar junto ao Arco de Almedina. Posso dizer que, tal como a Cláudia a solo, esta associação de músicos é um encanto para os nossos ouvidos ouvir as suas composições –e tanto quanto sei, um  dia destes vão gravar um cd de originais.
Voltando à Cláudia, ainda bem que, com a sua sublime música, alegra os nossos corações. Havia uma lacuna por preencher já há vários anos e desde que a “Edith Piaf da Caçada” nos trocou pelo Porto. Para a Patrícia, que faço votos para que esteja bem, daqui lhe envio um beijo de saudade. Felizmente que as nossas ruas, graças a pessoas como a Cláudia, a Patrícia e tantos outros de que vou falando aqui, continuam a ser “enfeitadas” com estas melodias que nos entram directamente na alma.
Gostava só de chamar a atenção de que é preciso mostrar apreço pelos artistas da nossa rua. Se puder, dê-lhes um pequeno contributo monetário e, já agora, sorria, sorria para eles. É importante mostrar-lhes o quanto lhes estamos gratos por, sem ordenado contratualizado, trabalharem para todos nós.
Uma grande salva de palmas para a Cláudia Alves, a nossa “Abadessa”, aqui em representação de todos os que mostram a sua criatividade, em arte, na rua.

BOM DIA PESSOAL...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

BAIXA: UMA FLOR PARA O "ZEZITO"




 Tal como já contei aqui, ontem, cerca das 23h30, em circunstâncias ainda por apurar, embora tanto quanto sei já está identificado o homicida, na Rua da Moeda foi assassinado o José Dias, mais conhecido por “Zezito” e com alcunha de o “garrafão”.
Ao que consegui indagar o “Zezito” não tem família e, por esse facto, os muitos amigos que ele tem aqui na Baixa querem que, “apesar de ser muito pobre, tenha direito a um funeral de classe”. Vai daí, o Fernando, do “Tapas”, na Rua das Rãs, conjuntamente com o Carlos Alberto Vacas, um outro amigo do falecido, trataram de espalhar por aqui uns panfletos onde apelam à solidariedade de todos. Diz-me O Carlos Vacas: “ele era uma joia de pessoa, pode mesmo crer. Não fazia mal a ninguém. Ainda nem estou em mim com o que aconteceu. Então, como ele não tem ninguém de família, junto com o senhor Fernando, estamos a ver se conseguimos que, pelo menos na última despedida, seja tratado como igual a outro qualquer. Isto é, que não olhemos para o funeral e, pela pobreza sem uma única flor, pensemos olha ali vai um pobre. Não. O “Zé” podia ser um de tantos como eu, que não tenho nada, mas somos muito ricos em amigos. Você entende onde quero chegar? Pode contribuir para umas flores para o "Zezito"?”

BAIXA: SANGUE NA MOEDA



 Ontem, cerca das 23h30, na Rua da Moeda, um homem foi assassinado à navalhada. A vítima era muito conhecida e frequentadora da Baixa. José Dias, de alcunha o “garrafão”, tinha 41 anos de idade. Segundo informações dispersas, “era um bom rapaz, não fazia mal a ninguém. Trabalhou na construção civil e ultimamente dedicava-se a fazer pequenas carocas.”
Segundo a única pessoa que consegui que e desse a cara, Dulce da Silva Conceição, moradora na Rua da Moeda, no 2º andar do prédio ao lado onde tudo aconteceu, conta-me: “eram para aí 23h30, mais ou menos, quando ouvi um grande barulho. Vim à janela e então vi dois grupos de pessoas, sei lá, com mais de meia-dúzia de sujeitos, a arremessarem pedras uns aos outros. Um dos grupos estava ao fundo da rua, onde era o antigo Armazém Amizade e outro estava a meio. Cada um deles enviava calhaus e insultavam-se entre si. De repente vi surgir um rapaz em braços e cheio de sangue no peito. Liguei logo para o 112. Ao mesmo tempo apareceu um indivíduo completamente bêbado e quando chegou à minha porta estatelou-se ao comprido. Quando o vi cair, até disse para mim: ai, coitado do homem, se calhar, morreu!
Em relação à morte ocorrida, não sei muito bem o que aconteceu, nem como nem onde foi ele ferido, se na rua, se dentro do café da Cacilda” –um estabelecimento de hotelaria com mulheres a servir à mesa, assim na linha dos cafés dos anos de 1970 que havia na Rua Direita, onde para além das "meninas", marcava presença uma “Juke Box”, com discos vinil sempre a tocar música a troco de uma moeda. É provável que este, vindo dessa época, seja o último existente com as mesmas características em Coimbra.

MAS, AFINAL, O QUE ACONTECEU?

Naturalmente que é muito difícil saber o que aconteceu, de facto, já que os moradores, e falei com vários, todos recusam dar a sua identidade. Vamos ouvir o primeiro: “aquilo foi assim: há três ou quatro dias houve uma cena de pancadaria e foi agredido um sujeito. Os agressores fugiram. Ontem um deles, presumivelmente, estaria dentro do café da Cacilda e foi avistado. Chamaram reforços e veio um grande grupo, entre portugueses e espanhóis, incluindo miúdos de pouco mais de 16 anos, para “arrear” no indivíduo. Estou em crer que se tratou de um ajuste de contas, mas, às tantas, esta morte, se calhar, nem teve nada a ver com o assunto. O que vi é que ele saiu daqui com várias navalhadas no peito. Não sei bem o que aconteceu, mas é possível que a Cacilda, quando se apercebeu que ia haver confusão, os tivesse posto na rua –que lá nisso, esta senhora é muito cumpridora. O estabelecimento fecha à meia-noite, pois a essa hora está tudo cá fora. Às vezes há barulho mas é, sobretudo, de quinta-feira para sexta. Na maioria dos casos é depois dos clientes virem para a rua, porque já vêm bêbados. 
Ultimamente está a haver mais confusão porque, ao lado, está um prédio com muitas mulheres estrangeiras que estão cá para praticarem prostituição e foi a partir de aqui que, para quem aqui reside e trabalha, passou a ser um problema. Porque, é claro, junta ali muitos homens. Às vezes chegam a estar ali 20 e 30. Então ao sábado à tarde é um corrupio. Começo a sentir algum medo de passar aqui e noto o mesmo em pessoas que conheço e tenho falado.”

Outro morador diz o seguinte: “nós nem temos nada contra a dona Cacilda. Ela está aqui há mais de 30 anos, faz o seu negócio e tenta ser o mais discreta possível. Nos últimos tempos é que as coisas têm piorado, essencialmente desde que estão cá as prostitutas. É que são muitas, sabe?! E, a gente olha para elas e não diz que o são… está a perceber? Vestem-se normalmente como nós, assim sem aqueles grandes decotes como a gente está habituada a ver. Está a compreender? O problema é que, algumas vezes, estão à porta a convidar os homens, assim no género: “ó querido, não queres entrar?”. Sabe uma coisa? A prostituição devia ser legalizada. Isto assim como está é uma bagunça. Punham estas mulheres a pagar impostos e controlavam estas casas, com exames clínicos, e pronto! Assim, é tudo um faz de conta.” –declarações de uma moradora de meia-idade que pediu, tal como os outros, o anonimato.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

LEIA O DESPERTAR




LEIA AQUI 
O DESPERTAR DESTA SEMANA


Para além da coluna "A minha rua: Eduardo Coelho (2)", deixo também os meus textos "Reflexão: olhai e vede, mercadores" e  "Baixa: pobre gentinha rica".





A MINHA RUA: EDUARDO COELHO (2)

 Continuamos a viajar no tempo. Estamos a meio da Rua Eduardo Coelho por volta de finais de 1980. Vamos em direção à Praça do Comércio. Logo no gaveto com o Largo da Freiria estava a Topal, um estabelecimento de pronto-a-vestir, entretanto desaparecido, e que, nos últimos anos, deu lugar às Modas Veiga. Hoje, e há largos meses, esta loja está encerrada. Mesmo em frente a este espaço estava a Topolino, uma loja de artigos para bebé e outrora pertencente à Casa Ramiro. Cerrou portas há cerca de três anos e deu lugar a uma sapataria, a “Via Centro”.
Continuamos um pouco mais para sul e, parede-meia com esta casa, estava a sapataria Coutinhos –nos dias correntes com papéis nas montras e, assim, já há mais de dois anos. Quase em frente estava a sapataria Progresso, pertencente à família Paiva, entretanto fechada e é hoje uma lindíssima casa de roupas interiores: “a Belíssima”.
A seguir está mais uma grande casa e de qualidade reconhecida: as Modas Veiga. Esta área comercial, anteriormente e até 2004, foi a Manga Rota. No mesmo lado, um pouco à frente e a entrar na Rua Velha, estava um pronto-a-vestir e é hoje a perfumaria Balvera. Mesmo de fronte e ao lado estavam as duas lojas da sapataria Paiva, e, desde essa altura, ainda hoje se mantêm na mesma família. Como vizinho estava a sapataria Dragão. É hoje uma casa de artigos de cerimónia para crianças e tem o nome de “Tradições”. Ao lado desta, nessa época de metade da década de 1980, estava a sapataria Coimbra –depois de ter sido as “Modas Romy”, durante cerca de três anos, é hoje a loja de Isabel Leão. Continuamos em direção à Praça do Comércio e, no mesmo lado, estava a camisaria Jorui, da firma Mendes & Cruz, Lª, que, como curiosidade, chegou a ter quatro funcionários e o patrão. Um dos empregados andava na "viagem", como caixeiro-viajante –é hoje o estabelecimento "Vergílio Lingerie". Mesmo em frente era a sapataria Beiras. É hoje a sapataria Angel.


Continuando, logo a seguir estava a sapataria Satélite, também da família Paiva. O velho Paiva, dono deste estabelecimento, e que aqui comercializou durante quase três quartos de século com a garra dos velhos lobos do comércio, viria a falecer há cerca de dois anos. O filho, herdeiro do velho Paiva, passado um ano viria a concluir o epílogo da velha sapataria. Hoje é um estabelecimento de artigos de “recuerdos” e artesanato, da Elisabete Cravo.
Mesmo ao lado da Satélite, em finais da década de 1980, estava a ourivesaria Silvestre. Encerrou nessa altura e deu lugar às modas Anacar. Ao lado desta estava a sapataria Modelo. Nos últimos anos, a partir de 1999 e até 2009, foi do Jaime Cruz –precocemente, faleceu a semana passada. Em jeito de curta homenagem, para ele uma lágrima de saudade. Depois de ser sapataria, a seguir, durante um ano mal dormido e cheio de preocupações, foi a loja de moda  “Sonhos Selvagens. Hoje, e já há vários meses, este sonho idealizado, concretizado mas triturado por este tempo da lei do mais forte, encontra-se forrado a jornais nas montras. Mesmo em frente, e num pequeno largo da rua, estava o armeiro Carlos de Almeida –hoje é a “Matriz”, modas. No lado contrário estava uma casa de confeções; hoje continua no mesmo ramo de negócio e chama-se Praça Nova. Mesmo ao lado, numa entrada de porta, a vender pilhas, corta-unhas e relógios, estava o chinês mais estimado e querido de todo o Centro Histórico, o Taipio. Ainda lá está hoje, embora mais a jogar às damas do que a comerciar. Ao lado dele, por essa altura, estava uma casa de bicicletas, o Leonel Castro Sereno. É hoje o pronto-a-vestir "Xilli".
Ao lado era a sapataria Antunes. Foi até há cerca de um ano e meio uma casa de confeções. Hoje está de montras vazias. Na porta ao lado, por esta altura de 1990, estava uma pequena tabacaria que ocupava o corredor da entrada do prédio. Encerrou há cerca de dois anos. Mais ao lado, até há cerca de um ano e meio, esteve uma loja de artigos decorativos. Hoje é uma loja de frutas de proprietário chinês. Foi ali, no início de 1970, que nasceu o El Dourado, do Manuel Ribeiro, e que, por causa de um grande incêndio, viria a transferir-se para a Rua Adelino Veiga. Mesmo em frente, do outro lado da rua, durante mais de cinquenta anos e até a meados de 1980, esteve o Carlos Camiseiro, uma das casas comerciais mais importantes da Baixa de Coimbra de todo o século XX. Por ali passaram, como empregados, grandes comerciantes como, por exemplo, o Francisco Veiga, o irmão, e tantos outros que não lembro. Esta casa foi uma universidade de comércio para várias gerações. Viria a ser comprada por José dos Santos Coimbra, um dos maiores comerciantes de sempre da cidade. Este, por volta de 1985, com grandes obras no edifício, viria a transformar esta reputada casa de artigos de desporto e afins no “Traje”. Assim se chamou, e para a história fica, até há quase quatro anos, altura em que encerrou. Viria a ter uma curta vida. A partir da morte do grande empresário, José Coimbra, por volta de 2000, entrou em declínio acentuado e claudicou. 


Em frente estava as “Galerias Coimbra”. Um outro projeto visionário do também dono da “Traje”. Esta casa, depois de obras de grande vulto, abriu ao público, salvo erro em 1975, com três pisos e muita, muita mercadoria. Esta firma, José dos Santos Coimbra, Lª, que teve uma vida de mais de meio século –em que, com muito orgulho, lá trabalhei durante 9 anos de 1973 a 1982-, chegou a ter 38 empregados e, num raio de 50 metros, 7 lojas de pronto-a-vestir. Tal como a “Traje”, finou-se em Novembro de 2008. Em processo de insolvência, sem pompa e sem glória, hoje, como documento inapagável, resta apenas na memória como um ícone do apogeu comercial. Talvez por excesso, admito, mesmo ultrapassando o Carlos Camiseiro, teria sido a maior firma comercial da Baixa. Há cerca de um ano, o Edifício foi adquirido pelo Chen, um comerciante chinês muito estimado entre nós, e hoje no lugar das “Galerias Coimbra” está o “Hiper 99 – Nova Galeria”, uma loja de roupas, de certo modo, na linha da antecedente.
Em resumo, a Rua Eduardo Coelho tem hoje 7 casas encerradas e uma extensa história mercantil para contar aos vindouros.



REFLEXÃO: OLHAI E VEDE, MERCADORES




 Nesta última semana, mais propriamente no sábado, resultado de uma doença grave e fatal, foi a enterrar em campa rasa o Jaime Monteiro da Cruz. O Jaime tinha apenas 61 anos e, durante mais de uma vintena de anos, foi comerciante na Baixa de Coimbra. O comércio correu-lhe mal e em Janeiro de 2009 encerrou o último capítulo da história da sapataria Modelo, na Rua Eduardo Coelho. Para além da loja, perdeu a casa de habitação e, como se fosse pouco, depois de um casamento de 30 anos, acabou separado da consorte. Agora, quando exalou o último suspiro, tinha uma pré-reforma de menos de 300 euros.
Na noite do velório, em conversa com a viúva dizia-me esta em jeito de apelo: “a todas as mulheres de comerciantes em dificuldades e já com alguma idade, digo, abandonem o negócio. Por favor, reflitam e pensem nos vossos filhos. Não adiem. Não morram agarrados à esperança. Acabam a perder tudo como nós! Não vale a pena! Vai tudo; o negócio, a casa de habitação, a família, a honra. Por amor de Deus, tomem atenção. Evitem sofrer como eu tenho sofrido!”


BAIXA: POBRE GENTINHA RICA


 Na Rua Visconde da Luz, junto ao antigo Armazém Americano, na sexta-feira da semana passada, pode ver-se um grupo de pessoas em volta de muitos sacos pretos cheios de centenas e centenas de livros antigos.
Sem condenar de modo algum a atitude destes transeuntes, pareciam abelhas em busca de pólen. Ao que consegui saber, já no dia anterior foram colocados muitos sacos iguais e também carregados de manuais escolares, romances, poesia e outros manuscritos. Não consigo compreender como é que se pode chegar a isto. Já nem vou escrever que deveria ser crime colocar no lixo o paradigma da cultura como é o livro. Em Dezembro do ano passado aconteceu o mesmo na continuação desta artéria, na Ferreira Borges, com vários camiões carregados e, num completo desprezo pelo mensageiro do conhecimento, a serem encaminhados para a reciclagem. O que me levou, na altura, a fazer uma participação no DIAP, Departamento de Investigação e Acção Penal, no sentido da sensibilização e para a necessidade de ser criada legislação específica de salvaguarda para preservar, defender e valorizar este nosso emissário do património consuetudinário e cultural.


No meio da amálgama de gente, em mãos ávidas de procura, algumas imagens nas capas, olhando em súplica, fixamente para quem passava, pareciam chorar. Noutro saco de detritos, como se fosse instrumento de sátira, um manual de economia tinha o título “Desenvolvimento económico para a América latina”. Não deixa de ser irónico acontecer coisas destas numa urbe que se apelida de “Cidade do Conhecimento”.
Num tempo de escassos recursos, quando a maioria procura multiplicar a vida dos bens, interrogo-me, como é admissível que alguém, num desleixo incompreensível, coloque intencionalmente obras, algumas de relativa importância, para a montureira sem ter em conta que está a destruir e a contribuir para a ignorância de alguém? Para evitar iguais casos futuros, gostaria de lembrar que na Baixa há vários estabelecimentos de livros usados que pagam a sua recolha. Para além destes, há instituições sem fins lucrativos na cidade e a própria Câmara Municipal de Coimbra, através do “Projecto Baú”, que se encarregarão de os acolher gratuitamente e distribuir a quem mais precisa.

UMA CONSTATAÇÃO CURIOSA




 Há um ano, na data de antes de ontem, faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós por “Aspirante” –o Luís tinha 40 anos quando num estúpido acidente adormeceu na berma do Mondego e, segundo o pai Max, vindo a cair no rio. Era tratado pela alcunha de “Aspirante” precisamente porque fora a patente que tivera enquanto cumprira o serviço Militar. Enquanto decorria o tempo de tropa viera a sofrer um grave desastre, em que faleceu um seu amigo. Pelos danos causados, psiquicamente, nunca mais recuperaria o senso. Durante muitos anos vagueou pela cidade. Aparentemente, não desencadeava exteriorizações de extraordinário afecto. Parecia ser apenas mais uma personagem que deambulava pelas ruas estreitas e largas do casco urbano de uma cidade velha.
Quando, há um ano atrás, escrevi a crónica a anunciar o seu precoce desaparecimento, para além de ter recebido mais de uma vintena de comentários dolorosos e a lamentar a sua morte, só nesse dia tive 8438 visitas aos textos que reportavam a sua passagem entre nós –a média diária de visitantes assinalados anda por volta de 500.
Hoje escrevi sobre a morte súbita do Adelino Paixão noticiada pelo jornal Diário as Beiras, e com assinatura do repórter coordenador, Paulo Marques –o Paixão era, tal como o Luís Miguel, mais uma figura típica da Baixa que, também na aparência, era mais um e poucos lhe ligavam.
Hoje, até à hora a que escrevo, cerca das 17h00, o blogue teve cerca de 1500 visitas.
Depois desta longa introdução, penso que dá para ver onde quero chegar. O que pode explicar que durante a vida errante destas pessoas, durante muitos anos, enquanto circularam por entre nós, nunca lhes tivessem ligado muito, nem dado qualquer importância, e depois, subitamente, quando colocados perante o seu nefasto sumiço, reagem com redobrado pesar e dor?
Se respondermos sem pensar, assim no óbvio, estou certo que retorquimos com uma palavra: hipocrisia. Porém, a meu ver, esta manifestação de pesar é muito mais profunda e, estranhamente, é mesmo sentida como um corte na alma de cada um.
Vou explicar-me e, ao mesmo tempo, reflectindo, tentar desbravar o que está por detrás deste comportamento e, não se vendo, pressinto.
Começaria por interrogar: o que são estas pessoas numa cidade? Carlos do Carmo, em fado versejado e musicado, chamou-lhes os “loucos na cidade”. Há cerca de 30 anos li uma tese de um advogado francês –que já não recordo o nome- em que defendia que estes indivíduos, diferentes da maioria, talqualmente como a pequena delinquência, eram um quebrar da rotina nas urbes e, na sua acção pragmática, ainda que, por vezes, negativa, impediam que, em mimética estandardizada, fosse tudo igual. Por outras palavras, transportemo-nos para um agregado onde não se ouve um barulho, uma imprecação, onde tudo é previsível, onde a paz social é uma constante, um lugar paradisíaco, será que conseguiríamos viver num lugar assim? Penso que não. O homem é um ser social e ao mesmo tempo associal, tanto precisa de estar só como acompanhado. É capaz das maiores demonstrações de carinho, de solidariedade e bondade. No entanto este mesmo homem, a qualquer momento, é capaz de, num repente, virar homicida e assassinar sem mácula na consciência. Se for em guerra, com a desculpa de estado de necessidade, mata dezenas, centenas, milhares de humanos. É portanto, em sincronismo, um ser pacífico e conflituoso. Isto para dizer que, para além de todos sermos bipolares, temos absoluta necessidade de exteriorizar os dois sentimentos que transportamos dentro de nós como instintos siameses.
Então, chegados aqui, em jeito de balanço, já poderemos ver que embora todos defendamos a paz social como objecto, diariamente, no relacionamento com os outros, fomentamos a antipatia, a desconfiança e a animosidade permanentemente. Isto é, o desejo de pacificação não é mais do que uma miragem, uma utopia. Por outro lado a ordem que todos parecemos obsessivamente buscar quando a alcançamos pode já ser o caos –isto tem já a ver com a dinâmica social e o perfeccionismo que nos consome.
E então, interroga-se, o que tem estes dislates que escrevi atrás a ver com os dois comportamentos antagónicos –desprezo em vida e carinho na morte- perante um óbito? Que pode não ser somente um vagabundo da rua e, pela proximidade, ser alguém relativamente chegado?
Pelo conhecimento implícito, um falecimento desencadeia sempre em nós várias sensações desencontradas. Lembra-nos, por exemplo, que somos finitos, que a nossa vida é efémera, que a qualquer momento podemos perecer –este pressentimento torna-se mais lactente tanto quanto mais velhos estivermos e próximos do fim. Mas, acima de tudo, na generalidade, no âmago de cada um, acende a luz do perdão, da caridade, e extingue ódios recalcados. É como se aquela imagem da morte de outrem nos viesse lembrar que somos todos pecadores. Seres frágeis e fracos, e que, um dia, não se sabe quando, iremos também precisar daquela absolvição. Digamos, por outros termos, que, no nosso viver compulsivo, o desaparecimento de alguém, uma morte súbita, que tomemos conhecimento, toma assim no quotidiano o efeito de choque de um objecto arremessado na nossa cabeça.
Por outro lado, isto em relação ao desaparecimento destas pessoas invulgares -chamemos-lhe dementes ou outro nome qualquer- que nos cruzamos na rua mas que, provavelmente, nunca trocámos uma palavra ou um sorriso mas que, inconscientemente, passamos a admirá-los, penso, para além do sentimento de perda, solta também várias intuições diferenciadas. Enquanto vivos, transeuntes na cidade, olhamos para eles como o outro lado do espelho, o reverso de nós, a nossa alma despida. Ao mirá-los, naquele estado decrépito, é como se fizéssemos comparação entre o que somos e o que poderíamos ser. Vemo-los como a materialização dos nossos medos. E ao constatar que somos diferentes para melhor recebemos uma mensagem de bem-estar instantaneamente. É como se ao vermos uma pessoa assim diferente nos obrigasse a um balanço imediato, mas também passível de ser emergente num futuro próximo e esta impressão, pela dureza da imagem viva, activa a nossa defensiva e alerta-nos para um hipotético perigo. Esta ilacção, em projecção mental, pode continuar até ao desaparecimento físico e visual da pessoa fixada pelo nosso olhar. Nesta altura, quando perdemos esta visualização, haverá um sentimento de culpa que se liberta em pena e dor materializada na disponibilidade em fazer o que for preciso para colmatar o que não foi feito anteriormente. Como se, em cada um de nós, houvesse uma implícita e absoluta necessidade de expiação de culpa pelo lapso. Poderemos pensar que haverá nesta manifestação um descarregar, um lavar da alma, por, durante anos e anos, nunca lhe darmos qualquer importância significante.
Não sei se concorda com esta divagação. Provavelmente não. Foi apenas uma tentativa de reflexão. Nada mais do que isso.

UMA IMAGEM POR ACASO...



É o António Simões da Silva, mais conhecido carinhosamente entre nós por "Popey". Ontem que jogou a Selecção Nacional, obviamente que o nosso companheiro dos becos e ruelas esquecidas por muitos e apenas lembradas pelo silêncio tinha de estar preparado para o que desse e viesse.

UMA IMAGEM POR ACASO...


UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




Conversas... deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA AMABILIDADE DO PAULO MARQUES":


 Lamento, como outros(as), a morte destas figuras tão conhecidas na "nossa" cidade. Gente igual a nós, que nasceu como nós, que cresceu... e por força do "destino?" teve outro destino de vida, mas na morte voltamos todos a ser iguais. Acredito que noutra dimensão também haverá mais igualdade e justiça, e nesta esperança, desejo luz e paz a estes "Irmãos".

UMA AMABILIDADE DO PAULO MARQUES



O Paulo Marques, repórter coordenador do Diário as Beiras, é um bom amigo. Só por esta ligação afectiva de décadas, pelo exagero, posso entender que me considere "filósofo e cidadão activo". O meu muito obrigado ao Paulo. Passando a vaidade, o meu ego agradece.


O ARTIGO ESCRITO POR PAULO MARQUES, NA EDIÇÃO DE HOJE, NO DIÁRIO AS BEIRAS:

"Morreu um dos últimos “figurões” da cidade. Morreu Adelino Paixão. Figura típica, um dos últimos   “ r e s i s t e n t e s ”   dos “figurões” que marcaram a cidade  nas  décadas  de   setenta e oitenta. Adelino foi ontem, por volta das cinco da manhã, encontrado já cadáver, ali ao pé do Banco de Portugal. Não sobreviveu à decadência física e psíquica que há muito evidenciava.
H o m e m   d e   c o m p a n h i a , Adelino  viveu  largos  anos um   ta n t o   ofuscado   pelo porte agressivo – aristocrático, mesmo –, de um outro figurão, a cujo nome próprio apenas se associam o de Pedro. Morto este, que se dizia herdeiro de um hotel em Lisboa, Adelino viria a encontrar Júlia, com quem se repetiu o desequilíbrio de caráter:  ela altiva, ele submisso e simples. Dava nas vistas, portanto, a parelha Adelino Paixão e Júlia Madeira. Na baixa, um dos olhares mais atentos é o de Luís Quintans, comerciante, filósofo e cidadão ativo, que assim os descreve, no seu blogue, “Questões nacionais”: “Ambos têm um ligeiro desequilíbrio psíquico, embora nele seja mais patente, apesar disso, ambos, têm o seu quê de mistério e de encantamento. Ele, o Adelino, completamente despreocupado com a forma como se apresenta. Desde que lhe caia uma moeda nas mãos, não interessa de quem venha, e mesmo que trate qualquer burro, como eu, por doutor”.
À Júlia – cujo internamento, recente, terá contribuído para o definhamento irreversível da saúde e da vida de Adelino –, Luís Quintans reconhece orgulho e preconceitos: “É uma senhora, está de ver. Ela aceita, mas não é de qualquer um. Só de quem conhece! Não é a primeira vez que, sendo acometida dos “azeites”, se vira para o interlocutor e interroga: “olhe lá, você pensa que está a falar com quem? Eu sou uma funcionária pública de saúde. Está a ouvir?!”.
O Calhabé e a Solum eram outros dos poisos do Adelino. Dantes, muito mais, quando o Pedro ditava regras. Lá andavam,   “ altas   horas   da madrugada, aos gritos, um a fugir do outro, depois o outro a fugir do um”, recorda  Jorge Peliteiro, no seu blogue “Impressões de um boticário de província”.
Morreu o Adelino. Algures, o Pedro – e também o Tatonas e o Taxeira e outros – gostarão de ter mais um para a saudade do nonsense coimbrão."
Paulo Marques
paulo.marques@asbeiras.pt

UM HOMEM MORREU SOZINHO

(Imagem da Web)



Segundo o Diário as Beiras, "Morreu Adelino PaixãoFigura típica, um dos últimos “resistentes” dos “figurões” que marcaram a cidade nas décadas de setenta e oitenta. Adelino foi ontem, por volta das cinco da manhã, encontrado já cadáver, ali ao pé do Banco de Portugal. Não sobreviveu à decadência física e psíquica que há muito evidenciava.". LER MAIS AQUI.

Escrevi muitos textos acerca do Adelino, figura carismática que, pedindo uma moeda e tratando-nos por doutor, nos interpelava na rua. Em jeito de homenagem póstuma, porque todo homem tem direito ao seu minuto de fama, nem que seja pelo seu desaparecimento, tal como outros, aqui fica a lembrança de alguém que, embora vagueasse por estas ruelas acompanhado, morreu sozinho -como só aos pobres acontece assim.




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BOM DIA PESSOAL...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

VOU MAS É BEBER UMA MINI...

PEDIDA A DEMISSÃO DO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE COIMBRA

(FOTO DA WEB)

 Segundo conta Carlos Cidade, presidente da Concelhia do Partido Socialista na cidade, na sua página do Facebook, “Demissão de Manuel Porto do cargo de Presidente da Assembleia Municipal de Coimbra exigida por Jorge Veloso, eleito do PS, Presidente da Junta de Freguesia de Ribeira de Frades e dirigente da Associação Nacional de Freguesias” (ANAFRE).
Segundo Cidade, neste plenário, “Jorge Veloso demonstrou a incoerência da posição de Manuel Porto (PSD) enquanto Presidente da Assembleia Municipal ao aceitar o cargo de Presidente da Unidade Técnica da Assembleia da Répública, que tem como objetivo aplicar a Lei que levará à possível extinção de freguesias.”

VAI PARAR TUDO...

(Imagem da Web)


Até aqueles, como eu, que não ligam patavina ao futebol... 

A FRANÇA SOCIALISTA

(Imagem da Web)

 Começo por confessar que sou uma nódoa tão grande a economia que nem lixívia pura ou o melhor detergente e mais caro do mercado consegue apagar a mancha. Isto para dizer que se não consigo entender o que vou escrever a seguir, perante esta minha salvaguarda, ficará mais que explicado. É certo que com o tempo, talvez resultado da idade, estou cada vez mais totó e abstruso. Houve um tempo que, palavra de honra, ainda cheguei a ter alguma esperança em mim. Porém, debalde. Está visto que em cabeça careca jamais a brilhantina fará qualquer efeito no risco ao lado e na fixação do cabelo.
Então hoje estou mesmo completamente confuso. Eu seja ceguinho daquele olho que, apesar de estar destinado a montureira, alguns preservam virgens como a caverna da menina Esmeraldina, que mora na minha rua, no número 69 –creio que não deve conhecer, até porque ela não liga a qualquer tolo como você.
Dizia eu então que estou confuso, confundido, como raio que parta o senhor deputado Ricardo Rodrigues, que por acaso é do Partido Socialista (PS), mas poderia perfeitamente ser de uma qualquer outra agremiação partidária, que, para o caso, seria sempre igual –admite-se lá alguma vez que primeiro tivesse surripiado o gravador aos jornalistas da revista Sábado e a seguir andasse a espalhar ao vento umas teorias balofas? E mais, enquanto o PS foi governo, nunca se retratou nem falou em suspender a sua actividade do partido. Agora, que foi condenado em primeira instância, já pediu a interrupção da vice-presidência das hostes rosa até ao acórdão final. E a sua função de deputado? Fica na mesma? Não sofreu mácula? É preciso ter mesmo cara de pau, carago! –já agora, num exercício infeliz, que é o que eu sei fazer melhor, poderemos especular: será que se o PS ainda fosse governo este senhor teria sido igualmente condenado?
Bom, mas, com a conversa fiada, acabei por me dispersar. Juro pela minha mãezinha que eu pretendia escrever qualquer coisa que se aproveitasse, mas está difícil. Continuando, comecei a redigir este guisado de palavras porque acabei agora mesmo de ler na revista Sábado –coincidência com o caso do gravador- que o Françoi Hollande acaba de aumentar o salário mínimo em França –trato-o assim, tu lá tu cá, porque se calhar até somos amigos no Facebook. Sei lá, tenho lá tanta gente que não faço a mínima ideia do que fazem, não sei se estão a ver! Ora, no meio daquela panóplia, pode perfeitamente um  deles ser o Françoi.
Então, volto lembrar, em Julho, lá na terra do Obélix, o salário dos malandros passará para 1425,67 euros –sim, malandros, acho que estou a pensar bem. Se fossem trabalhadores a sério ganhariam milhares. É ou não é? Porra, isto é silogismo, carago! –Às vezes até me surpreendo comigo, quando tenho certas tiradas de inteligência. Chego a pensar que o meu mal, a burrice, ainda possa ter cura. Nem é de admirar, inventam tanta coisa…
Fosca-se! Vamos respirar fundo, antes de me atirar aqui ao teclado –que remédio tenho eu, não me resta mais nada a que me atirar. Uma pessoa envelhece e depois ou olha para o espelho e lamenta-se perante aquela imagem de velho ou então atira-se às memórias, ao tempo que foi tempo e que o tempo, como cilindro em betão, apagou.
Mas é melhor não me distrair com filosofias, que eu nessa parte nunca fui bom. Vou continuar, em Portugal, só para lembrar, o ordenado mínimo é de 475 euros –sendo um bocado sério e contrariando tudo o que escrevi para trás, está perfeitamente justificado o facto de haver deputados a gamar gravadores. É ou não? Sim, porque, proporcionalmente, é mais que certo que o ordenado do nosso deputado ao pé do congénere francês é assim qualquer coisa do outro mundo entre uma pulga e um elefante. Nós, se fôssemos justos, até nos deveríamos admirar de, cá no Parlamento, na generalidade, não se andar a surripiar carteiras uns aos outros –o que nos leva a outra questão: afinal o tribunal decidiu mal. O deputado Ricardo Rodrigues, perante esta atenuante, é mais que lógico, deveria ter sido absolvido –se bem que, trocando as voltas outra vez, seja lá qual fosse a decisão do tribunal nós nunca estaríamos satisfeitos. É assim, mais ou menos, como a nossa cara-metade; pode ser boa c’mo milho, mas a vizinha –ai, quando me lembro dela!- essa é que nos enche as medidas…
Voltando outra vez à “vaca-fria”, que até já se me tinha varrido, dizia eu que o meu mais que certo amigo Françoi Holland promulgou a subida do ordenado. Ora diga-me lá, perante este choradinho do senhor dos passos de coelho, que é o “nosso primeiro” –como se diz na tropa-, quem é que entende isto? Só se for mesmo o Passos Coelho, que, em face da atitude do ancestral de Napoleão, se eu lhe perguntasse, assim naquela voz de tenor romantizada, até já consigo ouvir a resposta: “ó meu amigo, os sociais-democratas constroem e amealham e os socialistas reivindicam e distribuem!”. É claro que, no seguimento desta argumentação, como sou um bocado lerdo –isto já é de família, não tenho culpa nenhuma, pelas alminhas-, eu ficaria sem pio.
Então, no meio de dois caminhos possíveis, em que num está uma placa a indicar “aumento dos ordenados, aumento da felicidade dos cidadãos e aumento da confiança na economia” e outra que indica “baixar os salários, baixar o tempo de vida dos cidadãos e baixar a esperança na recuperação económica”, qual é que se escolhia? Eu sei lá! Estou muito desordenado mentalmente. Deve ser da carrada de medicamentos genéricos que ando a tomar para ver se consigo ter paciência e aguentar este gajos todos. Vou mas é roubar gravadores p’ra estrada!

RAINHA SANTA ROGAI POR NÓS... (2)


RAINHA SANTA ROGAI POR NÓS... (1)


UMA IMAGEM POR ACASO...


terça-feira, 26 de junho de 2012

UM ANO DE ETERNA SAUDADE



Faz hoje um ano que faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós, aqui na Baixa, como "Aspirante". Nessa altura, para além de imensos textos, escrevi também esta composição poética. O pai, Max, não quis deixar em branco esta passagem e pediu-me para inserir este folheto da sua autoria e onde, amavelmente, consta o poema que compus. Em memória deste nosso companheiro diário das pedras rolantes que, por enquanto, por cá vamos calcorreando, cá fica o emaranhado de palavras para o tempo futuro.


UM POEMA EM MEMÓRIA DO "ASPIRANTE"

Tantos anos deambulei pelas ruas da cidade,
sobretudo, desde que deixei de ser elegante,
perdi a minha decisão naquela bestialidade,
estúpido acidente na estrada, tão arrepiante,
um amigo morreu naquela anormalidade,
outro, eu, em estado crítico, ficou agonizante,
nunca mais fui o mesmo, perdi a agilidade,
tornei-me um fantasma meio cambaleante,
dividido entre humanos, uma ambiguidade,
símbolo em gestos repetidos de autocolante,
brisa ondulante, vento suave de genialidade,
fui reconhecido entre todos por “aspirante”,
a maioria tratava-me bem, com amizade,
outros, preocupados com a sua vida delirante,
olhavam e viam um louco por fatalidade,
coisa sem nome, um monstro apavorante,
mas eu tinha sentimentos, coração, bondade,
quando avistava uma criança era apaixonante,
algo naquele ser me lembrava infantilidade,
agora que parti e deixei essa vida alucinante,
agradeço a todos, a muitos, a disponibilidade,
tantas mensagens de dor, de pesar, é fascinante,
é bom saber que, sendo diferente, deixei saudade,
a minha passagem, embora curta, foi marcante,
não fui apenas mais um demente na clandestinidade,
a divagar por entre ruelas, becos, de modo errante,
fui alguém que não teve sorte nesta desigualdade,
estava à hora errada, no local certo, foi determinante,
para escrever o meu futuro nas linhas da infelicidade.

TORNAR A BAIXA MAIS APELATIVA


 A Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra vai promover juntamente com a Universidade de Coimbra e a Associação Ruas – Recriar Universidade, Alta e Sofia um Curso de Visual Merchandising I Vitrinismo.

Este curso é preferencialmente para profissionais da área comercial (comerciantes/empresários, donos de marca, responsáveis por frente de loja) e pretende dotar os participantes de conhecimentos especializados ajustados à introdução de novas tecnologias, métodos de trabalho nesta área e às novas tendências de consumo.

O curso decorrerá ao longo do mês de julho, todas as quintas-feiras das 19h30 às 22h30 e aos sábados das 15h00 às 18h30, nas instalações do Museu Municipal – Edifício Chiado.
–Extrato retirado da página da APBC, no Facebook.

 Perante esta iniciativa conjunta, vamos para a rua ouvir os comerciantes. O que pensarão os profissionais desta acção que visa ser mais um instrumento numa revitalização que se deseja para a Baixa de Coimbra?
A todos que fizeram o favor de responder, e que se identificam, começo por agradecer. Elaborei três perguntas:

-É de medidas como esta que o comércio precisa?
-Se são complementares, o que é essencial? O que é preciso?
-Vai participar no curso de vitrinismo?


 Comecei por ouvir Eduardo Carvalho, com estabelecimento de retrosaria, na Rua das Padeiras: 
“É também com medidas como esta que o comércio precisa, sim. É uma boa ideia que pode ser implementada no comércio. Embora, a meu ver, não seja a parte fundamental para aguentar o presente. No entanto, esta formação é uma mais-valia que se deve aproveitar.

O Comércio, a pequena loja como a minha, precisa de uma baixa de impostos; é necessária uma política que obrigasse as grandes superfícies, juntamente como o comércio tradicional, a praticarem os mesmo horários e que todos encerrassem ao domingo. Precisamos de formas de financiamento para prover a tesouraria, com taxas de juro que o pequeno retalho pudesse suportar.

Não vou frequentar o curso porque tenho a minha mulher doente.”




 Henrique Ramalhete, do pronto-a-vestir Bambina, na Rua das Padeiras, disse o seguinte:
“Esta é uma das medidas que o comércio precisa. Tem interesse. Realço, realmente, a medida de recuperar as fachadas das lojas encerradas com painéis apelativos, para não dar a imagem degradada que a Baixa apresenta. Em relação ao vitrinismo, a meu ver, não é fácil. As lojas não têm grande capacidade de inovação. As montras são pequenas, não têm fundo. De qualquer modo é um instrumento a considerar, uma mais-valia.

É preciso, por parte da autarquia, um apelo para que as pessoas invistam na Baixa. A edilidade deveria incentivar, através de benefícios, para que as grandes marcas viessem para a Baixa. O IMI, Imposto Municipal sobre Imóveis, deveria ser onerado o máximo possível para as lojas encerradas.
Precisamos de pessoas aqui a circular. Para além de uma necessária baixa de impostos para a pequena loja, precisamos de uma dilatação no seu pagamento. É preciso ter acesso ao crédito, isto é, com mais facilidades e taxas reduzidas.

Em princípio não irei frequentar esta formação. Já tenho dois cursos de vitrinismo.”



 Vamos ouvir José Lucas, da Zedibel, na Rua das Padeiras:
“Esta medida de formação ajuda. É sempre positiva. Não é só o que precisamos, mas também é uma mais-valia. A Baixa precisa de ter gente; precisa de ter lojas de marcas atractivas. Neste momento, como estão as coisas, a meu ver, a única forma de suster os encerramentos seria obrigar os centros comerciais a encerrarem ao domingo. Precisávamos que o custo do estacionamento fosse participado; a autarquia deveria compartilhar, arranjando uma solução negociada com os operadores privados e de modo a que os utentes destes parques tivessem duas horas ou uma hora e meia gratuita logo que parassem as viaturas. Isto de modo a permitir que viessem pessoas para aqui e fizessem compras nas lojas e frequentassem os restaurantes.

É preciso baixar os impostos ao comércio tradicional, pelo menos durante os próximos dois anos, para que as empresas possam manter os empregos. As despesas são muito grandes para o negócio que se está a fazer no dia-a-dia. São os seguros com o pessoal; é o custo da luz, que se está a tornar incomportável; é a Segurança Social; é a medicina no trabalho, é muita coisa, são as licenças de toldos. É uma carga demasiado pesada.
Tenho 6 empregados –em 2009 tinha 12. Neste momento, está muito difícil de aguentar.

Não sei se irei frequentar este curso. Talvez vá. É sempre importante.”



 Agora vamos para a Rua do Corvo. Vamos ouvir Rogério Eloy, da loja Lancelote:
“Acho que esta iniciativa tem mérito. É um instrumento necessário para revitalizar a Baixa. Mas é uma entre muitas que fazem falta, como, por exemplo, o atendimento personalizado –estamos a perder essa escola do passado. Precisamos de oferta de qualidade na Baixa.

É preciso gente no Centro Histórico. É necessário baixar os impostos para a pequena loja de bairro. Estamos a ficar sufocados. Aqui, no meu estabelecimento, com quatro bocas para alimentar, está a ser muito difícil de manter. Era preciso haver mais união entre os comerciantes. Como é que se pode garantir uma Baixa com qualidade se vem tudo dos países emergentes? Era preciso mais facilidade na obtenção de crédito, mas em condições valorativas, não é para afogar os comerciantes.

Não sei se irei frequentar esta formação. Em princípio mandaria uma funcionária, mas como é pós-laboral é complicado. Mas ainda vou analisar.”



 Seguimos agora em  direcção à Rua Eduardo Coelho. Vamos parar nas modas Veiga e falar com o seu proprietário, Francisco Veiga:
“Acho esta formação interessante, mas não é tudo. Sem dúvida que é importante, porque pode ajudar os comerciantes a transformar as imagens das lojas; a melhorar a autoestima; e já que nos queixamos continuamente de que a Universidade está de costas voltadas para a Baixa é importante esta participação, porque pode promover uma maior aproximação.

A Baixa precisa de pessoas que a frequentem, não apenas nos dias de festas promovidas pela APBC, autarquia e Junta de Freguesia de São Bartolomeu e outras. É necessário que as pessoas venham nos outros dias também. É preciso polos de atracção, como, por exemplo, lojas de marcas conceituadas, internacionais, como também cafés temáticos. É urgente termos acesso ao crédito; precisamos de ter alguma facilidade nos pagamentos de impostos –nós queremos pagá-los, mas às vezes não conseguimos.
O alargamento dos horários de funcionamento do comércio, neste momento, não é solução. Estou aberto aos sábados de tarde, nas “Noites Brancas” até bastante tarde e não obtenho resultados. Para salvar o comércio da Baixa era preciso que tudo, incluindo os centros comerciais, encerrasse ao domingo. A partir daí, todos deveríamos fazer os mesmos horários de abertura e fecho ao público igual. Com o actual situacionismo, nós, o comércio tradicional, estamos sempre em desvantagem em relação às grandes áreas comerciais. Se todos praticássemos os mesmos horários lutaríamos com armas iguais.

Em princípio não irei frequentar esta formação, porque já tenho vários cursos de vitrinismo e merchandising” –técnica ou acção promocional no ponto de venda de modo a tornar mais eficaz a sua visibilidade e de modo a influenciar a decisão do comprador.