segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PRONTO! JÁ VI QUE TENHO DE ESCREVER OUTRA CARTA...

via central
(Imagem do Google furtada ao blogue Notícias de Coimbra)


Segundo o Campeão das Províncias online de hoje, “Um projecto para construção da avenida Central na «Baixa» de Coimbra, cujo primeiro esboço tem 50 anos, foi rebaptizado, hoje, de via Central, pelo presidente da Câmara Municipal.
A via Central, de natureza rodo-ferroviária, visa proporcionar a circulação automóvel entre a avenida de Fernão de Magalhães e a rua da Sofia.”
Uma boa notícia para a Baixa e para a cidade, sem dúvida! Se houver concretização, já sei que tenho de escrever outra carta política –agora de desagravo- ao presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado. Mas que não seja por isso! Perante grandes obras inquinadas e relançadas, retirando-as do "prego", cá estou para dar o dito por não dito! Só não mudam os burros!
Mostre lá a obra, senhor governador-geral e presidente do burgo, e cá estou! Tal como não se esquece de mim, da mesma forma, não me esqueço de Vossa Mercê!

(Leia também, aqui, o blogue Notícias de Coimbra sobre este mesmo assunto.)

UM APELO VINDO DE CASTANHEIRA DE PERA



No meu entendimento, muito mal vai Portugal quando um cidadão do interior do país, preocupado e em representação de outros, depois de apresentar um problema fundamental para o desenvolvimento da sua terra às entidades responsáveis e à comunicação social generalista, se dirige a um blogue pouco conhecido, quase insignificante no todo nacional e a cerca de oitenta quilómetros de distância, e lhe pede ajuda pelo facto de todas as personalidades visadas no apelo ou porque não responderam ou porque se estão a marimbar para o grito de denúncia do bom colaborador natural, defensor da sua comunidade, e exemplo para os seus pares.
Antes de prosseguir, vou elencar as entidades visadas e a quem foi solicitada uma solução:

-Presidente da Administração Regional de Saúde Centro;
-Presidente da República; Presidente da Assembleia da República;
-Primeiro-ministro;
-Ministro da Saúde;
-Ministério da Saúde;
-Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade;
-Grupo Parlamentar do Partido Socialista;
-Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata;
-Grupo Parlamentar do Partido Comunista;
-Grupo Parlamentar do partido CDS/PP;
-Grupo Parlamentar do Partido Os Verdes;
-Grupo Parlamentar Bloco de Esquerda;
-PAN –Pessoas-Animais-Natureza;
-Comissão Parlamentar de Trabalho da Saúde;
-Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias;
-Direcção do Agrupamento de Centros de Saúde do Pinhal Interior Norte;
-Direcção do Centro de Saúde de Castanheira de Pera;
-Presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera;
-Presidente da União de Freguesias do Coentral e de Castanheira de Pera

MAS, AFINAL, O QUE É QUE SE PASSA?

Tudo começou com um e-mail recebido de Castanheira de Pera, assinado por Filipe Lopo. Alega este cidadão que encontrou por acaso o Blogue Questões Nacionais e que, depois de enviar um apelo em 18 de Janeiro último a todas as entidades citadas, talvez o assunto merecesse da minha parte algum interesse.

E QUAL É O ASSUNTO?

Vou dar a voz a Filipe Lopo –que não conheço: “Castanheira de Pera de Pera, um concelho com cerca de 3000 habitantes -cuja população triplica durante os meses de verão, entre Junho a Setembro, devido ao complexo turístico Praia das Rocas-, vive nesta altura e desde o verão passado, um perfeito pesadelo no que respeita aos cuidados de saúde. Desde então e até ao momento, Castanheira de Pera viu-se sonegada de médicos, um por baixa médica (o actual director do Centro de Saúde) e outro por rescisão contratual.
Em Novembro de 2015 foi colocado um médico de serviço vinte horas semanais. O que é manifestamente pouco -para não dizer ridículo- para consultas não de três mil utentes mas somente para atendimento de um ficheiro de um dos médicos ausentes. Por vezes lá aparece um outro clínico que, por poucas horas também, lá vai vendo alguns doentes que desesperam por uma consulta. Os enfermos, candidatos a uma consulta para serem vistos pelo médico, chegam a estar diariamente desde as quatro horas da manhã às portas do referido Centro de Saúde.

E O QUE POSSO FAZER?

Naturalmente que, respondendo com objectividade ao apelo, para além de escrever um texto a, pelos vistos, malhar em ferro frio, pouco posso adiantar. Por isso mesmo, cá fica o registo para memória futura. Mas, digo-lhe, vou fazer mais: vou remeter o seu grito de ajuda para Sandra Felgueiras, do programa “Sexta às 9”, da RTP1. Quem sabe –e esta jornalista saberá-, seja assunto para passar na televisão pública?

(TEXTO ENVIADO PARA O PROGRAMA SEXTA ÀS 9, DA RTP1)


BOM DIA, PESSOAL...



FOI-SE! QUE NO ETERNO SONO DOS JUSTOS DESCANSE EM PAZ!

A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO (3)





Na última quinta-feira, da semana passada, a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, tocou a reunir os empresários da Baixa e cerca de uma trintena respondeu à chamada. Como já escrevi foi chover no molhado. Como quem diz, se fosse possível rebobinar os filmes dos encontros da última década veríamos que as reivindicações são sempre iguais. É mesmo chover no molhado! Os directores da agência, salvo pequenas diferenças de programação –como desta vez que apresentaram, para este ano, um inovador festival de música para novos talentos, à imagem dos concursos televisivos- apresentam repetidamente as marchas populares como o habitual caso de sucesso e num discurso contundente, de voz grossa e barbuda, perante os comerciantes, mostram a mesma posição musculada perante a Câmara Municipal de Coimbra.
Na mesma proporcionalidade, durante o tempo da discussão, como se fossem bonecos mecânicos com a corda toda, os empresários, num acutilante desfolhar de discurso gasto pelo tempo, malham e voltam a malhar na autarquia e, se preciso for, até acusam o executivo municipal de comer meninas ao pequeno-almoço. Passadas as cerca de duas horas do bate-boca, uns e outros, directores da entidade e empresários, calmamente e na paz de Deus por terem cooperado, dão por encerrada a sua participação comunitária e vão à sua vida. Como caracol que se encolhe na casca, recolhem ao seu abrigo e, durante um ano, haja o que houver, e nem que sejam pulverizados com chuva de aço pela edilidade, nunca darão um grito –e muito menos um pio- de revolta contra o agressor malandro e insensível aos problemas alheios.
O desenvolvimento dos personagens presentes nestes encontros, talvez sem se aperceberem, faz deles actores de uma peça teatral sem grande ensaio mas bem-sucedida. Num espectáculo cénico, umas vezes burlesco outra dramática, cada um, dando tudo o que tem para mostrar que é activo, está atento, tem soluções, queixa-se de estar a ser prejudicado. Contorcendo-se e procurando frases rebuscadas, faz o melhor para parecer bem no papel que lhe coube na sua performance. Então se a assistência bate palmas, ui, ui, é um verdadeiro orgasmo mental para o orador.
Vamos então ver as reivindicações que atravessaram a última década e continuam na moda. Como num muro de lamentações e, sem o tempo a fazer mossa, aqui está a dialéctica do bom povo que lavra no rio:

- A Polícia Municipal continua a malhar no pessoal do comércio. Mas esquece-se de actuar na Praça do Comércio e, perante a rebelião surda de São Tiago, deixa transformar aquele vetusto largo em estacionamento à borliú.
- A falta de estacionamento, sobretudo barato ou gratuito.
- A discriminação que a Baixa sofre pela comunicação social ao ser tema de notícia por um simples assalto a um açougue. Em contrário, a ladroagem que actua nas grandes superfícies nunca  é tema na imprensa local.
- A fealdade endémica de muitas lojas, que não se modernizam e continuam com as mesmas caras de pau à sua frente.
- A falta de iluminação pública, com os candeeiros de rua a concorrerem para um filme de terror.
- Os chineses que, na economia local e nacional, comem tudo com apenas dois pauzinhos.
- As montras apagadas durante a noite.
- A constante realização de eventos nas ruas largas e o esquecimento deliberado das ruas estreitas.
- A paupérrima iluminação de Natal proporcionada pela Câmara Municipal.
- O abuso continuado de alguns comerciantes em ocuparem o seu espaço na via pública e o do vizinho e obstaculizarem a carga e descarga e até a passagem de um carro de bombeiros.
- A autarquia é mais papista que o Papa e papa tudo em taxas e emolumentos. Assim a continuar, especulando, vai obrigar os velhinhos a pagar pela ocupação dos bancos de jardim.
É urgente a isenção de pagamento de taxas de publicidade nos estabelecimentos, de toldos e ocupação de via pública com pequenos vasos que alindem as fachadas das lojas e prédios.
- A falta de limpeza pública durante o dia na Baixa e a aviltante carência de formação de quem cá reside e que coloca o lixo a todas as horas.
- As Noites Brancas, como nevoeiro em manhã de Agosto, não fazem sentido –a não ser para a hotelaria. O visitante vem à festa como se fosse à romaria de São Brás. Vem nesse dia e só retorna quando houver mais festa em honra do santo padroeiro.
- É preciso fazer alguma coisa para atrair pessoas à Baixa, nem que seja oferecida uma verba pecuniária a cada cliente.
- É preciso revitalizar o arrendamento barato e trazer moradores para a zona histórica.
necessário alargar os horários para além das 19h00. Sobretudo a partir da Primavera os estabelecimentos devem estar abertos até mais tarde e inclusive ao Domingo. É a única forma de certo modo combater as grandes superfícies.

E pronto! Do que foi escrito, está tudo dito. Falta apenas fazer uma referência à empresa FOCUS que no final, a correr e por falta de tempo, apresentou sumariamente o Programa Comunitário de Apoio “COMPETE 2020”. Trata-se de incentivos para dinamizar o comércio e o turismo, que, cobrindo 90 por cento das despesas elegíveis, podem ir até à elaboração de um diagnóstico e plano de acção para cada empresa.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...



Paulo Dinis deixou um novo comentário na sua mensagem "A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO(2)":


Muito Boa tarde.
Meu nome é Paulo Dinis e sou presidente da A.C.M.C., Associação do Comércio de Mercados de Coimbra, que tem como objectivo principal a dinamização e divulgação de um dos maiores espaços comerciais da Baixa de Coimbra e que é o Mercado Municipal D. Pedro V. Já tive o prazer de conhecer e conversar com o Sr. Vitor Marques.
Dá -me agora algum gozo ler este tipo de notícias e ver tanta preocupação agora quando numa dessas conversas que eu tive alertei para o facto de isto se ir passar. Estou em crer que com este tipo de política o pior ainda está para vir, ora pensem um pouco comigo e digam-me se estou errado. Deixaram-se abrir grandes superfícies em toda a periferia da cidade, seja na zona norte, Santa Clara, ou zona sul, com bons estacionamentos à borla e deixaram-se ampliar outros que já estavam instalados como supermercados . No centro da cidade deixaram fechar lojas-âncora que chamavam gente a Baixa de Coimbra como, por exemplo, a Zara, Capicua, Breskia, Romeu, etc., etc,. Agora pergunto: se quiser comprar nessas casa aonde tenho de me dirigir? Fórum ou Dolce Vita? Certo. Deixou-se fechar o posto-médico da Avenida Sá da Bandeira para obras e nunca mais abriu. Fecharam os Correios do Mercado. Mais uma machadada na frágil Baixa de Coimbra. Agora estão a decorrer obras no Terreiro da Erva para o sitio ficar mais bonito, mas mais uma vez pergunto: ora, esse espaço tinha cerca de 400 lugares de estacionamento, ou seja, se cada carro que, pelo menos, transportasse um passageiro, agora, serão menos 400 pessoas a circular na Baixa de Coimbra. Então qual será a alternativa para o desaparecimento desse estacionamento.

Mais uma vez fico admirado o Sr. presidente da APBC defender a vinda do Continente para a Baixa de Coimbra. Será que ele, ou qualquer café ou restaurante, consegue vender um café e uma nata por 1€, ou vender uma refeição por 2.95€? É que se conseguem têm andado a enganar todos nós durante estes anos todos e estão cheios de dinheiro.
Não me digam que a autarquia não tem culpa porque é mentira. Cabe a esta entidade fazer de tudo para que o comércio se enraíze na Baixa de Coimbra e não se desloque para os grandes centros comerciais; cabe à autarquia não licenciar tudo o que seja grande superfície em excesso na periferia das cidade para que as pessoas se desloquem para a Baixa, para efectuarem as suas compras; cabe à autarquia arranjar estacionamentos ou meios para as pessoas se deslocarem para o centro da cidade. Tomem atenção a outras cidades como, por exemplo, Viseu, Leiria, que nestes últimos anos muito se desenvolveu enquanto a cidade de Coimbra regrediu aí uns 20 anos.
Numa dessas conversas disse ao Sr. Vitor Marques que as nossas associações não deveriam servir para fazer festas enquanto nos lixavam por trás. Mas sim para lutar pelo nosso futuro e daquilo, dos associados, que representamos. A Baixa só vai voltar a funcionar quando forem dados incentivos para certas lojas-âncora voltarem para esta zona; lojas que tragam pessoas à Baixa. Quando houver facilidade de estacionamento e quando houver facilidade para as pessoas poderem arrendar a sua casa de habitação no centro da cidade. Depois, aí sim, acredito que a zona histórica volte a renascer.

VAMOS LÁ, PESSOAL...

A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO(2)





Conforme contei em apontamento anterior, à solicitação da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, “com o intuito de ouvir a opinião dos comerciantes da Baixa de Coimbra quanto aos aspectos que têm vindo a influenciar negativamente o comércio desta zona,  nomeadamente na última época natalícia, bem como ouvir as suas  sugestões para  melhorar a actividade comercial”, compareceram cerca três dezenas de comerciantes.
Com o Alfredo Borges, da Adega Paço do Conde, a interpelar com acutilância o presidente da agência, Vitor Marques, a sessão prometia ser tudo menos de bocejo. Ali respirava-se vida e parecia saber o que se queria e até vontade de colocar a boca no trombone. Como sempre, nas sessões realizadas ao longo da última década, o saco das pancadas era a autarquia –que, mais que certo por não ter funcionário disponível a levar com tanta frustração junta, nunca disponibiliza ninguém para ouvir e esclarecer.
Enquanto o Alfredo atirava uma lança contra a falta de comparência dos colegas hoteleiros já o Vitor Marques relançava: “e qual foi a facturação do Natal? Eu gostava de ouvir o que falhou em Dezembro!”
Mas, numa falta de respeito institucional, ninguém queria saber do passado. Cada um, à sua maneira, queria direcionar as suas farpas para justificar a impotência de pouco se poder fazer para alterar um estado caótico que, em crescendo, já vem de longe. Começou a Conceição Braz, da loja Rapaz-Maria, “a Polícia Municipal é uma constante a multar na Baixa. É uma vergonha! As pessoas assim vão para os centros comerciais! Por outro lado, algumas pessoas, comerciantes, não se modernizam!”
À provocação da “São”, respondeu Aguinalda (Guida), do Café Sofia: “eu não tenho dinheiro para trocar uma cadeira!”
Prossegue a Conceição: “há muitos lojistas que optam por desligar as luzes das montras. Tudo isto desvaloriza a Baixa!”.
Respondeu novamente Aguinalda: “cada um sabe da sua vida! Se a gente puser um vaso em frente à porta, na rua, temos de pagar 22 euros à Câmara. É tudo a pagar! Se eu não tiver cuidado nas despesas não pago a renda!”

A ETERNA QUESTÃO DO ESTACIONAMENTO

Anteriormente António Madeira, dono do Hotel Oslo, tinha-se queixado da falta de adesão dos comerciantes às senhas dadas aos clientes para estacionamento gratuito num dos seus parques. A este tema respondeu o Joaquim, da ourivesaria Safira, na Rua das Padeiras: “Sobre esta questão do estacionamento… Eu faço um desconto de cinco euros na minha loja. No entanto, mesmo assim, o cliente não quer pagar o parqueamento!”

CHORAR SOBRE O LEITE DERRAMADO

Com grande incisão atira Aguinalda: “O que é que as pessoas vêm comprar às lojas da Baixa? Tantos ramos de comércio que desapareceram! E brinquedos para as crianças? Não há! O Continente na Baixa é muito mau! Porque deixaram abrir na Baixa? Eles vendem lá tudo o que nós aqui vendemos!”
A esta questão levantada pela Guida, do Café Sofia, respondeu o presidente da APBC: “eu não vejo as coisas assim! A loja Continente, naquele local, dá resposta a uma zona que estava morta e agora está revitalizada.”

QUE FUTURO PARA A BAIXA?

Manuel Mendes, com estabelecimentos na Praça do Comércio e o decano dos comerciantes –creio que o mais idoso e ainda à frente do seu negócio- colocou o dedo na ferida: “eu quero saber do futuro e pouco do passado. O passado morreu. É passado! A agência tem de se virar para o futuro. A Baixa não tem residentes! Temos de contrariar isto! É preciso tornar os prédios acessíveis à habitação! Há ruas que não têm luz, não têm cor. Estão mortas! O comércio da Baixa, contrariamente ao que se diz, é o comércio e a hotelaria juntos. A parte social cabe à Câmara! A Baixa tem de ser estudada por arquitectos!”
Respondeu Marques: “Estamos a estudar casos de sucesso, sobretudo no estrangeiro.”
Atira Alfredo Borges: “Temos de trabalhar para o próximo Natal. Já!”

O PROBLEMA DAS RENDAS EXAGERADAS

“Os senhorios preferem ter os prédios fechados do que praticar rendas acessíveis para facilitar a vida às pessoas”, interrompeu a Diana Oliveira, uma ex-funcionária e que brevemente vai lançar-se às lides empresariais. "Pode fazer-se tanta coisa para melhorar! Podiam fazer-se circuitos, como nas pastelarias! Constrange-me verificar esta falta de união entre os comerciantes. As pessoas não se movem. Podiam fazer-se parcerias. Coisas simples, que funcionavam se houvesse disponibilidade. Deveria fazer-se isto e muito mais! A APBC deveria servir de intermediária.”

MAS E O NATAL? COMO CORREU?

Contra a corrente, Vitor Marques insistia e queria saber o que falhou nas vendas de Dezembro mas os presentes continuavam a divagar.  Prossegue Marques: “As facturações foram muito abaixo no Natal. Por isso estamos aqui. Vamos elencar tudo. A Câmara deve ser encostada à parede. A autarquia tem de agir! A comunicação social é muito importante para elevar os nossos queixumes e chegar à Câmara!”
À convocação oratória respondeu Rui Carvalho, da sapataria Bull’s, na Rua da Louça: “Este último Natal parecia os anos de 1980. Não se passou nada e isso afastou as pessoas da Baixa! Na Câmara não existe democracia!”

(ARTIGO EM CONTINUAÇÃO)

"A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO (3)"

UM DRAMA PARA ALÉM DOS GRITOS






Cerca das 11h30 de hoje, na Rua das Padeiras, um casal de residentes à volta de sessenta anos, que moram nesta artéria há cerca de dois anos, deu em discutir a sua vida particular em altos berros na via pública. Como um acontecimento invulgar que quebrou a rotina de uma manhã de pacato Sábado na Baixa, os transeuntes paravam pelo espectáculo e sem tomar em conta as frases saídas da mulher –que, tanto quanto sei, é muito doente. Aqui também conflituante nesta discussão acesa onde os insultos se misturavam com os raios de sol envergonhados, o marido, que “baptizei” de “fininho” costuma estar à porta da Igreja de Santa Cruz a pedir uma moeda. Todos nós, a começar por mim, temos tendência em reprovar o acto de pedir sem procurar saber as razões que motivam tal humilhação –por que, diga-se o que se disser, do ponto de visto societário, estender a mão à caridade é profundamente humilhante. Embora me dê bem com ele, para não entrar na sua vida privada, nunca lhe perguntei a razão de estar diariamente a pedir junto do Panteão Nacional. Hoje, porque tomei atenção à discussão entre o casal, fiquei a saber tudo. Como em tantos casos que nos últimos tempos têm dado às notícias, não é de admirar que um dia destes aconteça uma tragédia a juntar a tantas outras acontecidas em casas portuguesas.
Vou então reproduzir o que ouvi da boca da mulher: “não me chames porca, que eu não sou! Qualquer pessoa pode ir ver a nossa casa e verificar que está tudo limpinho! Vivo muito mal, pois vivo! Recebes 424 euros e pagamos 300 de renda de casa, como é que dá para viver? Eu deveria tomar 17 medicamentos e deixei de os tomar por não ter dinheiro! Não me dão a reforma. Tomara eu que ma dessem! O gordo disse que recebias mais de mil euros? Bandalho, é o que ele é! Eu é que sei o que passo em casa!”

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO (1)




Cerca das 20h00 de ontem, perante o espírito invisível do velho Juvenal e cerca de uma trintena de comerciantes, no antigo Salão Brazil, Vitor Marques, presidente da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, deu as boas-vindas aos presentes. Começou por regozijar-se pelo facto de, contrariamente ao último encontro em que estiveram cerca de uma dezena de comerciantes, estarem ali mais de trinta profissionais do comércio. Lamentando a falta de dinheiro e pedindo a colaboração de todos, mostrou o plano de actividades para o ano em curso. Foi dizendo que, com a conta bancária caucionada a descoberto, as despesas correntes da agência calculam para o ano em curso um montante de 25 mil euros e as previsões cabimentadas em quotas de associados, cerca de 70, chegam apenas aos 8 mil euros. “Foi deliberado um subsídio de 35 mil euros”, mas pela insuficiência, “neste momento, não temos nenhum projecto aprovado”, enfatizou.

QUANTOS SÃO? QUANTOS SÃO?

Alfredo Borges, proprietário da Adega Paço do Conde, lançando a primeira acha para a fogueira, começou por interrogar o orador: “qual é o sector que mais beneficia com os eventos da APBC? Quantos hoteleiros, para além de mim, estão aqui?” –atrás de Alfredo quatro vozinhas doces, femininas, em coro, disseram: “nós estamos aqui!”
Mas Alfredo, homem sem peias na língua, que estava ali para pôr os pratos limpos na mesa, cheio de pica, continuou: “quem representa a Câmara aqui, hoje?”
Vitor Marques, economista e sócio do Café Santa Cruz, lá ia tentando fazer frente como podia ao torpedo Alfredo e à questão da falta de representatividade autárquica disse: “nós tínhamos um representante na agência a representar a Câmara e foi ocupar outras funções. Hoje não temos representação”, aduziu.

Salvo melhor opinião, por força das alterações da Lei 50/2012, que levou à extinção da Empresa Municipal de Turismo de Coimbra, embora a legislação permita a participação dos municípios em associações de direito privado –a APBC é uma associação de direito privado ou público? Ou é uma grande caldeirada?- obrigou a adaptações. Sem saber ler nem escrever sobre questões de direito, avoco que o levantamento do quadro camarário não foi inocente. Confesso totalmente a ignorância, mas creio que esta ausência será definitiva, o que leva a interrogar: sem a comparticipação camarária e com as alterações dos programas do Quadro Comunitário de Apoio que futuro para esta entidade?

Prosseguiu Alfredo, “o que faz a Câmara por nós, pela hotelaria que também não está cá hoje?”. Retorquiu Marques: “temos o problema das esplanadas. Sabem lá a conta que, para pagar em cinco dias, recebi da Câmara?”
Alguém do público pergunta: qual a verba? Marques titubeia e não disse qual o montante.
A mesma pessoa da assistência, virando-se para António Madeira, dono do Hotel Oslo, em Coimbra, e membro da direcção da AHRESP, Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, disse lamentar que a associação representativa dos hoteleiros não tivesse marcado uma posição na cidade em defesa dos profissionais do sector.
Ao repto respondeu Madeira que em Setembro de 2015 houve uma reunião entre a AHRESP e o presidente da Câmara Municipal, Manuel Machado, e, por este, foi dito que haveria isenções desde que fossem solicitadas. Segundo alegou, em janeiro deste ano foram surpreendidos pelos elevados pagamentos pedidos pela autarquia e para serem liquidados em cinco dias, sobre pena de multas elevadas. “Estamos convencidos que haverá isenções para quem a pedir”, enfatizou o director da AHRESP.
Vitor Marques aproveita a boleia e diz: “eu pedi isenção!”

REGRAS CLARAS E EQUITATIVAS PARA TODOS PRECISAM-SE

Salvo melhor interpretação, ficou ali a balouçar um esquisito cheiro a terra queimada. Pela adjectivação, quero dizer que quem pagou antecipadamente, inevitavelmente, vai queixar-se ao Totta. Em nome do princípio da transparência, que deve acompanhar todos os actos públicos, a oposição no executivo municipal deve clarificar esta estranha deliberação camarária. Por outro lado, a haver isenções, a lista dos beneficiados deve ser tornada pública. Se assim não for, ficamos na ideia de que uns serão mais iguais do que outros.

CONFUSÃO NO OBJECTO

Quem esteve ontem presente no desaparecido Salão Brazil e agora sede do Jazz ao Centro Clube, mais que certo para quem se debruçou sobre esta questão, não sabia se estava perante a direcção da APBC se da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, que, tanto quanto me apercebi, não teve ninguém presente. Por que não teve lá um representante? A associação comercial já morreu e, não fazendo anunciar o funeral, ninguém sabe? Por parte do anfitrião não foi enviado convite para estar? Perguntas que ficam no ar e responda quem souber.
É que o objecto social de cada uma destas entidades são completamente diferenciados. À ACIC cabe (deveria caber) representar os seus associados e defender os interesses de toda a classe, comercial e industrial.
 Já à APBC, através do plasmado no seu artigo Terceiro, embora com algumas derivas, está atribuída “a promoção e modernização da zona da baixa de Coimbra, visando a requalificação daquela zona e o desenvolvimento da gestão unitária e integrada de serviços de interesse comum”. Leia aqui o artigo terceiro.
Ora o que assistimos ontem mais uma vez, e igual a tantas reuniões anteriores, numa confusão que já vem de longe, foi uma mistura de atribuições. Não admira que os comerciantes estejam entregues a si mesmo e terem chegado a um deplorável, triste e lamentável, estado de indigência.

(ARTIGO EM CONTINUAÇÃO)


"A APBC REUNIU E CHOVEU NO MOLHADO (2)"




UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...


SuperFebras deixou um novo comentário na sua mensagem "CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA":


Amigo:

E vossemecê outra vez a agulhar no pobre do animal.
Mas que raio é que vossa senhoria tem contra as ovelhas? Que eu saiba a populaça Coimbrã não descrimina sexualmente e há muito que permite a todo o tipo de carneirada entrada ali no prédio mesmo ao lado. Ora quem sabe não haja necessidade de juntar as ovelhas mais carnudas, caso as suas, de tanto ser ordenhadas, se mostrem esqueléticas! Se eu estivesse por aí era capaz de pensar em ganhar uns trocos apregoando galochas.
E como se atreve a comparar um pastor com quem não tem categoria para o ser? Um pastor sapiente do seu ofício sabe liderar, é o guia de seu rebanho, conduzindo-o a lugar seguro e que permita o seu engrandecimento. É heróico na sua defesa, até com a própria vida. Carrega às costas os mais frágeis e só ao rebanho rouba a lã quando os dias são promissórios, grandes e quentes, não quando a geada do inverno lhe esconde o pouco que têm para comer.
Denegrir assim tão nobre profissão não é coisa que se faça.

Viva as ovelhas, abaixo os carneiros.

De um que se sente fora do rebanho, um abraço.

Álvaro José da Silva Pratas Leitão
Bradford – Ontário
Canadá

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Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA":


É incrível como as pessoas hoje em dia vêem mal em tudo. Tudo serve para criticar, falar mal. Nada está bem. Depois queixam-se que não fazem nada.
Pior é achar que uns simpáticos animais mancham a imagem de uma cidade. Devem pensar que os frangos nascem nas prateleiras dos supermercados, e o leite vem dos pacotes.
O que dizer então, quando uma marca bem conhecida encheu o Terreiro do Paço da nossa capital, de porcos, cavalos, ovelhas, couves e batatas?

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http://www.cm-lisboa.pt/uploads/pics/_ASC2355.jpg
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Dizem que depois disto, Lisboa nunca mais voltou a ser a mesma. Como é que o Costa autorizou isto em favorecimento de uma marca privada!?



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Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA":



Bravo Sr. Quintans!
Obrigado pelo bálsamo de bom senso e lucidez.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA

(Vídeo de Márcio Ramos -para visionar clique em cima)




Meu caro presidente da Câmara Municipal de Coimbra, dirijo-me a vossa mercê enquanto presidente da edilidade coimbrã –isto para que não lhe passe pela cabeça demandar-me por ofensa ao seu bom nome e confundir que estou a dirigir-me ao cidadão Manuel Machado. Não meu caro presidente, é uma carta política. Contra a sua pessoa, individual e de personalidade jurídica, para além de não o conhecer bem, nada me move contra o cidadão com o mesmo nome.
Enquanto munícipe, escrevo-lhe esta carta para lhe dizer por este meio que vossemecê, enquanto chefe da autarquia e meu presidente em representação por voto expresso de uma maioria, é um parolo –que revela mau gosto, mas tem a mania que é fino.
O que assisti hoje na Praça 8 de Maio, lugar vetusto e onde se encontra o Panteão Nacional, ultrapassa todos os níveis de compreensão que possa ter pela sua actuação política dos últimos três anos e à frente dos destinos da cidade de Coimbra. Ao permitir um espectáculo rústico e de gosto duvidoso numa Ágora, lugar de reunião público, que deveria merecer o respeito nacional, Vossa Excelência ao dar autorização que um rebanho de ovelhas invadisse o coração mais nobre da Baixa, a nível político, não só diminuiu a cidade no seu todo como Portugal.
A nível económico, diga-me se, esquecendo Coimbra, por acaso passou a defender os interesses de Oliveira do Hospital. Tanto quanto julgo saber, o facto de, ex aequo, ser presidente da Associação de Municípios Portugueses continua a pugnar pelos interesses económicos dos produtores de queijo da região de Coimbra, não é verdade? É que me pareceu o contrário.
Em surdina, quem se deve estar a rir a bandeiras desfraldadas deve ser o seu colega de Oliveira do Hospital, Carlos Alexandrino. Não é todos os dias que se espeta uma lança em África.
Mas não pense que, nesta missiva, só escrevo mal de si. No fundo, bem no fundo, admiro a sua tenacidade em levar em frente o que uma minoria desaprova –e a maioria, por que não pensa, bate palmas como se assistisse a um circo. E mais ainda, caiu-me a boca ao queixo quando vi tantas câmaras de televisão, rádios e jornais, para assistir a um pequeno rebanho de ovelhas. A minha alma ficou parva quando vi todas as televisões a serem “enroladas” neste filme de terceira série e que só desvaloriza a cidade. Ridículo, meu senhor! O que vossa iminência proporcionou hoje foi uma indecência para a História de Portugal e perante o túmulo do nosso primeiro rei, Dom Afonso Henriques. Perdoe o desabafo, mas não resisto: ao vê-lo no meio dos animais lanígeros, sem dúvida, Vossa Senhoria dava um bom pastor.
Com esta encenação a favor de outra cidade, Coimbra vai ficar nos anais da idiotice bacoca e simplória. Exijo-lhe outro respeito pela cidade que você governa mas não é o seu dono.
Bem sei que, com estas minhas palavras directas, não almejo grande mudança futura na sua forma de governação municipal mas, mesmo assim, espero que pense um pouco que esta urbe, que foi também berço da nacionalidade, não começa e acaba em si. Há mais cidade e mais pessoas que a amam e têm uma palavra a dizer.
Despeço-me com urbanidade, porque é a minha obrigação. Só isso!

Luís Fernandes

(Texto enviado à Câmara Municipal de Coimbra)

A APBC QUER OUVIR OS COMERCIANTES





Mais logo, quando o relógio marcar 19h30, a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, vai promover um encontro com os comerciantes da Baixa.
Porque outras se seguirão segundo informação da agência, “a primeira destas iniciativas realizar-se-á mais logo, no Salão Brazil, com o intuito de ouvir a opinião dos comerciantes da Baixa de Coimbra quanto aos aspetos que têm vindo a influenciar negativamente o comércio desta zona,  nomeadamente na última época natalícia, bem como ouvir as suas  sugestões para  melhorar a atividade comercial.
 Far-se-á também a apresentação do sistema de incentivo Formação-Ação PME | DINAMIZAR , cujo período de candidaturas se encontra atualmente a decorrer.”
Dizendo que é fundamental, apela a presidência da APBC para a comparência de comerciantes neste encontro.
Embora, aquando da comunicação, se pedisse para confirmar a presença, mesmo tomando esta deliberação em abuso de confiança, afirmo que qualquer um pode comparecer sem inscrição prévia.

Até logo, se a minha clientela permitir e se Deus Nosso Senhor quiser.

AUTO-CITAÇÃO: O CHINÊS DA MINHA RUA



Hoje, mais que certo, devo estar carente e deu-me para me auto-citar.
Foi por acaso que revi um texto que escrevi em 2007 –e que, na altura, passou no programa “Histórias de Vida”, na Antena 1. Passando a falta de vergonha, está um miminho. Convido-o a ler e verifique se, de facto, não vale a pena perder três minutos. Curiosamente, ou talvez nem tanto, o café em que se desenrola esta história já encerrou.
Porra, tanto talento perdido nas entrelinhas do esquecimento!


HISTÓRIAS DE VIDA: O CHINÊS DA MINHA RUA

No pequeno café, sentadas e distribuídas pela sala, várias pessoas tomam o pequeno-almoço. Numa mesa, três mulheres ainda novas, talvez nos “intas”, comentam, entre si, a telenovela e vão sorvendo lentamente a “bica”. Noutra, uma senhora, certamente sexagenária, toma o seu galão. O seu olhar parece perdido no infinito, como se mil pensamentos, em turbilhão e por castigo, decidissem, em catadupa, atormentar esta mulher de meia-idade. Ao lado desta, um homem, talvez cinquentão, lê o jornal diário de forma rápida como se e de uma vez só lesse sofregamente os títulos e ficasse com conhecimento pleno do que se passara no dia anterior na cidade. Atrás do balcão, a patroa e a empregada, ambas de semblante ambíguo, entre o sorriso de circunstância e a preocupação de ter o futuro aqui tão perto, cada uma, com seu pensamento. A dona, com a mesma sofreguidão com que o homem lia os títulos do jornal diário, divagando nas entrelinhas da mente, provavelmente estaria pensando o quanto custa ver a diminuição diária de fregueses e, de vez em quando, olhava para a porta, mais que certo, com a esperança de ver entrar mais um cliente. A empregada, de vinte e poucos anos, com os braços cruzados sobre o peito, talvez em atitude de defesa, de semblante carregado, como se esta fosse a posição de descanso do seu rosto já calejado pela vida e que, somente, quando um cliente a interpela é tomada pela obrigação circunstancial de rir. Então, sorri, fazendo que ri, a meio sorrir. O que pensará ela? Interrogo-me em reflexão. Será mãe solteira e pensará no seu filho, ainda bebé, à guarda de uma ama que, por muito que o ame, nunca o amará como ela? Pensará no pai do bebé, seu recente amor marcante e precocemente desaparecido nas brumas do silêncio de emigrante num qualquer país estrangeiro, e que, este mês, não enviara a ajuda prometida ao seu pimpolho? Ou pensará que futuro poderá delinear para o seu rebento se, eventualmente, vier a ficar sem emprego?
É então, neste pequeno microcosmo da realidade, da fantasia e da imaginação, que entra o chinês da nossa rua: “Bum dia”, cumprimentou de olhar cativante e acompanhado de sorriso de orelha a orelha. Aquele “bum dia”, soletrado com meiguice, ecoou no pequeno café como um trovão. Todos levantámos os olhos. Mas porquê? Interrogamos.
É que aquele pequeno homem, de pouco mais de metro e meio, acabara de, sem o saber, dar uma grande lição a todos. Era o seu imanente ar de felicidade e simpatia. Não terá ele problemas para resolver tão graves quanto os nossos? Além de mais, estando a milhares de quilómetros da sua terra e da sua família, terá ele razão para sorrir? E, nesse caso, lembrando um velho aforismo, porque ri e rirá de quê? Rirá de nós? Da nossa cara de enterro, do nosso semblante pesado e circunspecto, do nosso medo endémico de tudo, do futuro, do presente, dos fantasmas do passado? Do enorme peso que o mundo, sobre os nossos ombros, faz carregar, parecendo fazer de nós, metaforicamente, uma besta de carga? Bom, se assim é, ele terá mesmo razões para sorrir: é que sendo nós, portugueses, pouco mais de dez milhões e estando plantados nesta ponta ocidental da Europa é evidente que tendo a China um quinto da população mundial e estando posicionada do outro lado do mundo, por homologia, carregamos de facto o elevado peso daquele grande país. Será por isso que ele ri?
Claro que não. Ele ri porque acredita no futuro. Ele sabe que mesmo o maior problema da humanidade que exista para resolver, nenhum vale o sacrifício de um sorriso. Obrigado homem do Oriente, deste-me uma grande lição. Não sei o teu nome, tão pouco me importa, o que sei é que, daqui para a frente, passarei a olhar para ti e todos os teus congéneres de uma outra forma. A tua civilização milenar tem muito para me ensinar. Obrigado. Bem-haja, sinceramente.








O YUAN METEU ÁGUA



Esta noite, quando o Yuan, o nosso simpático vizinho vindo do Oriente, o Chinês da minha rua, dormia o sono dos justos, um cano, sei lá se em litígio com o meu amigo, deu-lhe para rebentar e encher de água o rés-do-chão de uma das suas lojas na Rua das Padeiras. Para além de obrigar ao encerramento do estabelecimento durante a manhã, felizmente, sem grandes consequências de maior.

QUANDO A QUALIDADE É ÚNICA RESULTA EM DESEJO OBSESSIVO




Esta noite, a horas indeterminadas, alguém desejoso de ser o primeiro a provar os enchidos, os bons queijos e outros artigos de elevada qualidade do “Talho do Machado”, na Rua das Padeiras, rebentou com a porta e abotoou-se com o que estava mais à mão. Não se sabe nada acerca da identidade do(s) intruso(s). Pode especular-se, sei lá, que fosse um homem que tivesse a mulher grávida, de esperanças, e que esta, num desejo obsessivo daqueles que não se pode negar, ordenasse ao comparte: “ai, Alfredo! Apetece-me tanto, mas tanto, comer o chouriço do Fernando Pratas!”. E, a ser assim, que pobre alma masculina resiste a satisfazer a companheira?
Seja por isso ou não, a verdade é que o melhor açougue da cidade e arredores provoca nos seus clientes um desejo incontrolável –penso que não é só no género feminino- e poucos aguentam em não voltar uma , duas três e quatro vezes e antes que tudo esgote neste talho tradicional onde tudo se corta, desde a carne do animal até à casaca do vizinho. Daí perceber-se que na última década já tenha sofrido cinco intrusões do mesmo género.
Segundo Fernando Pratas, um dos sócios do estabelecimento, “desta vez para além do meu chouriço, que é do melhor, também me levaram uns queijos e uma embalagem de leite achocolatado. Para além dos géneros alimentícios, quase de certeza para me confundir, levaram também cerca de cem euros em trocos, que eram de uns prémiozitos do Euromilhões. Mais que certo para me obrigarem a trabalhar mais. Uns queridos! Só querem mesmo o meu bem!”

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem de arquivo. "Esta "carraça" veste de vermelho)


Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "DUAS "CARRAÇAS" ENGAVETADAS":


Devido à minha profissão, é raro nos últimos anos andar na Baixa a pé, mas recentemente tirei um dia para tratar de uns assuntos e reparei na quantidade de pessoas, não só romenas, que me abordaram desde o Largo da Portagem até ao castelo do Manuel Machado. As «desculpas» para a abordagem foram várias, umas mais plausíveis do que outras.
Mas o que me fez comentar este post foi relacioná-lo com uma conversa ocorrida entre a minha mãe e uma vizinha. Passo então a contar o desabafo e contentamento da dita vizinha. Afirmava ela que depois de tanto tempo desempregado, o filho tinha arranjado um trabalho e ganhava bem, entregando-lhe até 10 ou 20 euros por dia, e guardando para si cerca de 40/45. Portanto, conseguia livre de impostos por volta de 60 a 65 euros diários. Para além disso, outra «empresa» (da concorrência), através de uma supervisora, tinha endereçado um convite para ele mudar de entidade patronal, prometendo-lhe ganhos maiores, e, claro está, «limpinhos».
O que fazia então o rapazinho (tem 35 anos mas é o menino da mamã)? É um «pedinte profissional». Sim, escrevi bem! Faz da pedinchice e mendicidade profissão! Estas «empresas» utilizam o nome de instituições de solidariedade social reconhecidas do público para realizar peditórios em grandes superfícies comerciais da cidade, dando 25% ao «pedinte», perdão, empregado. A «supervisora» fica com os restantes 75%. Como referi, outra responsável reparou que o rapaz tinha jeito e, sem respeitar a ética empresarial, ofereceu-lhe 30% para ele passar para a sua «empresa» -isto não se faz!
Conto este episódio para as pessoas estarem alertas. Isto passa-se em Coimbra e arredores; em centros comercias e retail park´s. Pois muita gente, pensando estar a ajudar, está apenas a sustentar uma máfia, uma organização de criminosos que vive à custa da bondade de muito boa gente. Por último, queria dizer que esta senhora não faz ideia do que o filho faz. Ela genuinamente pensa que o «menino» para além de trabalhar está a fazer uma boa acção. Não quero dizer que seja «burra», não. É apenas muito ingénua e crédula. Como não tem maldade e é realmente boa pessoa pensa que todos são assim. Para além de que os 10/20 euros que o filho lhe dá são uma ajuda preciosa aos menos de 300 euros que recebe de pensão da segurança social.
Um abraço, Luís.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

DESABAFO DE LOJISTA




“Hoje, na Praça 8 de Maio, contei seis vendedores ambulantes a vender guarda-chuvas aos passantes. Porra! Estará certo isto? Não pagam um cêntimo de impostos. E ninguém se importa? Eu tenho renda para pagar, o fisco que me ama até à exaustão e não se esquece de mim. No mínimo, trimestralmente, pelo IVA, obriga-me a escrever-lhe uma carta de amor. Às vezes apetece-me sair da loja e, com uma braçada de artigos, verificar se também gozo da mesma impunidade! O que me chateia é que se reclamo vêm logo dizer que estou a discriminar! Discriminar como? Apetece-me mandar certa gente para um lado que não digo!” 


OBRIGATÓRIO ABRIR GUARDA-CHUVA DENTRO DE AUTOCARRO DOS SMTUC





POR MÁRCIO RAMOS


Hoje tinha uma consulta nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra.  Como é habitual, fui de transporte público,  até por que o tempo cinzento não  convidava a grandes  passeatas.  Chovia e soprava um vento gélido.
Tomei o autocarro dos SMTUC, Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra, junto à Estação Nova. Passados uns momentos, perto da curva em frente à Rua Adelino Veiga, apercebi-me de uma passageira a reclamar qualquer coisa. Tomei mais atenção. Então o que era? No lugar onde a senhora estava sentada caíam grossos pingos de água. O condutor, por sinal simpático, tentou amenizar a coisa. Da assistência, por brincadeira, alguém enfatizou que, pela proximidade da média superfície comercial, eram “pingos doces”. A verdade é que caía tanta água que a senhora teve de se levantar e ir em pé.
Entendo que os SMTUC não merecem a mesma consideração por parte da tutela que esta atribui à Carris ou aos transportes urbanos do Porto e, por isso mesmo, a sua manutenção cabe por inteiro à Câmara Municipal de Coimbra. Ou seja, não haverá dinheiro a rodos. Mas há uma questão que se me atravessa: antes de os autocarros saírem do hangar, na Guarda Inglesa, não recebem uma inspecção ainda que sumária? Não digo uma revisão geral mas, no mínimo, uma previdente manutenção rápida para ver se há sujidade no interior, vidros partidos, bancos danificados, ou outra qualquer anomalia. Não é a primeira vez que me apercebo de chuva dentro dos transportes públicos.
Compreendo o esforço titânico da edilidade para manter a frota operacional, mas já tenho mais dificuldade em admitir estas pequenas falhas. Deveria haver mais atenção a estes pormenores. Até porque, de um modo geral, os serviços cumprem bem, andam a horas e os condutores são geralmente amáveis.
Vamos melhorar?

Márcio Ramos


UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...



Sidónio Simões  deixou um novo comentário na sua mensagem "A Baixa vista da minha janela":


Na generalidade até concordo com o que escreveram. No que se refere à cor é que já não estou pelos ajustes. Como sabem logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 houve um iluminado da tutela que achou que em toda a Baixa e Alta da cidade as casas tinham de ser pintadas de branco. Resultado: o que encontrei quando cheguei a Coimbra? Uma zona histórica descaracterizada ao nível da imagem visual. Estudaram-se as cores tradicionais e começou a dar-se cor ao Centro Histórico. No entanto, há que ter cuidado pois os fanáticos da clubite pintam coisas que até faz doer a vista. Por isso a CMC, Câmara Municipal de Coimbra, tem de ter uma palavra a dizer no que se refere à cor.
Um abraço.


Sidónio Simões

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA



TEXTO ESCRITO A QUATRO MÃOS.
POR  MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES


A Baixa tem  prédios históricos. Como é natural, uns com mais história, outros com menos. Uns de propriedade privada, outros com classificação pública. Todos, uns e outros, deveriam ser preservados, fomentando o seu restauro, e não seguir o exemplo de alguns países como, por exemplo, os Estados Unidos que, para criar espaço e dar lugar a empreendimentos luxuosos, mandam implodir edifícios com grande historial.
Coimbra, tendo em conta que a sua riqueza memorial reside na sua monumentalidade, deve manter a traça antiga. Apesar disso, interrogo: mas a que custo? Tenho para mim que, apesar da grande simplificação dos últimos anos, a autarquia ainda se mete demasiado nas decisões que deveriam calhar apenas ao proprietário. Um exemplo? Obrigar a pintar um edifício de determinada cor. Porque terá a edilidade de se imiscuir nesta decisão? Não é a diversidade que marca a diferença e torna a homogeneidade aceitável, menos rotineira e sempre igual?
Vamos por partes:
Se há uma queixa recorrente nesta zona é que a Baixa não tem residentes, mas,  sejamos honestos,  como pode uma pessoa  escolher viver numa casa bonita,  com passado histórico, se não tiver conforto? Sem isolamento térmico, ou ar condicionado?
Ainda que de certo modo em contradição, percebo até que a câmara  tenha de impor certos limites mas  pergunto: será que substituindo janelas de madeira velhas por alumínio, com cor da madeira e a imitar e à imagem das anteriores, desrespeita a história do prédio? Quanto custa colocar vidro duplo em janelas de madeira? Em traços gerais, apenas o dobro e com durabilidade menor. Ainda que se entenda a obrigação de ser o mais fiel possível, também terá de se entender que quando a imposição é demasiado gravosa só há dois caminhos possíveis: ou não se realiza ou faz-se contra a lei. Quero dizer, portanto, que qualquer norma legal deve ter sempre acoplada dois princípios: a simplicidade para a exequibilidade e o custo mínimo para evitar a dificuldade financeira.
Para além disso, será que, dentro da edilidade, há uma interpretação única ou várias? Conta-se por aqui, pelas ruas, ruelas e becos, que, em vários casos concretos, para cada técnico sua sentença.
Sejamos justos, com alguma centralização no Gabinete para o Centro Histórico que se praticou nos últimos vinte anos –parece-me que agora não- todos os proprietários encontraram ali um aliado para resolver os seus problemas. É óbvio que por uma questão de justiça não posso deixar de referir o seu director, Sidónio Simões -um técnico que mais ano menos ano, por força da aposentação, deixará o serviço- que, para além de conhecer muito bem todo o edificado, age de mangas arregaçadas e dá uma lição ao burocrata de gabinete. Muitos problemas, aparentemente irresolúveis, encontraram solução pela sua via. Um dia destes, nem que seja por um simples encontro em jantar, este funcionário superior deve merecer uma homenagem dos citadinos.
Talvez por termos uma padroeira  da cidade cuja flor  favorita era a rosa,  vejo muitos edifícios, nesta cidade, pintados em que a cor rosa predomina. Algumas vezes demasiado forte mas, se essa foi a vontade expressa do dono, não tenho nada com isso.
Por outro lado, temos o problema dos cabos de comunicações e energia eléctrica nas fachadas e sem que se vislumbre uma solução à vista. Uma das medidas possíveis seria obrigar as operadoras de comunicações a, com autorização prévia do proprietário, escondê-los dentro das paredes. Num abuso reiterado, estas empresas vão ao limite de nem sequer darem uma satisfação ao dono do prédio. Procedem como se estivessem imbuídas de um direito especial de ocupação.
Voltando à Câmara Municipal de Coimbra, tenho para mim que ao invés de facilitar existe uma vontade expressa de complicar. O resultado dessa tramitação é que perdemos todos: o munícipe, a Baixa, a cidade. Vou dar um exemplo: a histórica sapataria Elegante, na Rua Visconde da Luz, encerrou em 2011. O edifício foi vendido e, alegadamente, os novos adquirentes, sem autorização legal, creio, elevaram uma parte do telhado para a cota do vizinho e, com isso, tornaram o edifício mais harmónico do ponto de vista paisagístico. Resultado –ressalvo que escrevo sem grande conhecimento do processo-, passados cinco anos, a loja da desaparecida Elegante, como mausoléu a um comércio que morreu, continua abandonada. Não sei se fui claro, o que quero dizer é que a administração pública tem de estar preparada para dar solução à ilicitude e não pode arrastar no tempo uma resposta que urge. A não ser assim, somos levados a pensar que esta administração é inimiga do progresso e de quem quer investir e revitalizar a cidade. Não estou a dizer que se feche os olhos a tudo, antes, quero dizer que o que deve prevalecer é o princípio da solução rápida, seja com coima, seja lá com o que for. É preciso dar solução. Solucione-se!
A edilidade municipal é uma entidade abstracta mas constituída por pessoas que, tal como eu e você leitor, erram todos os dias. Logo, por inerência, não podem proceder na imobilidade iluminada e serem mais puristas que os jacobinos da Revolução Francesa. Os políticos são eleitos para ajudarem o cidadão nos problemas do dia-a-dia, e os funcionários públicos para estarem ao serviço da comunidade.
Coimbra tem todo o potencial para ser (já é) uma marca a nível mundial. Vamos todos trabalhar para a tornar mais apetecível para viver?


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

BOM DIA, PESSOAL...

DUAS "CARRAÇAS" ENGAVETADAS

(Imagem de arquivo - um exemplar de "carraça", vestindo de vermelho e a fazer uma abordagem)


Segundo informação do nosso colaborador e repórter especial nas artérias da calçada –Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges-, Márcio Ramos, duas “carraças” em forma de gente e mulheres –estou lixado com o Bloco de Esquerda, já sei!-, de etnia cigana e presumivelmente vindas da Roménia, que nos últimos dias abordavam os transeuntes com uma lista e a pedir uma assinatura, foram engavetadas pela PSP hoje de manhã. Nos últimos anos é um problema recorrente nesta zona.
Ainda tentei obter alguns conhecimentos complementares junto do local mas pouco foi adiantado. Segundo informações, viram apenas as duas mulheres serem acompanhadas por agentes e encaminhadas para a 2.ª Esquadra de polícia junto à Câmara Municipal.
Ainda pensei em ir saber mais alguma coisa junto dos cívicos mas desisti. Nunca me safo. Com ar façanhudo, ameaçador, nunca me dão informações, só aos jornalistas credenciados. De pouco vale alegar que tenho um blogue e que escrevo gratuitamente sobre ocorrências na Baixa. Olham para mim com ares de poucos amigos e, mostrando sem dizer, parecem retorquir: vai-te embora melga!
Ora, por não ganhar nada, já me sinto um “Zé do recado”, quanto mais ainda assim. Os tempos mudaram e os blogues, para o bem e para o mal, são uma moderna forma de imprensa. Talvez a PSP devesse acompanhar os novos tempos. Sei lá, digo eu! Porra, senhor subintendente Pedro Teles! Isto é discriminação!

QUADROS VISTOS DO MEU BANCO DE AUTOCARRO






Durante cerca de quatro décadas fui amante do meu carro. Por volta de 1977, comecei por ter um mini –usado que me custou 25 contos, vinte e cinco mil escudos, hoje 125 euros. Outros minis usados e de outras marcas se seguiram dentro do mesmo preço e nunca excedendo os 50 contos. Em 1990 tive o privilégio de sentir o cheiro a novo de uma carrinha utilitária a estrear –é um odor inconfundível e marcante. É excepcional. Nunca mais passa da nossa memória.
Sempre a subir na escala do bem-estar, em 2000 comprei uma carrinha topo de gama –como quem diz com um custo acima da média. Enquanto a desgraçada viatura aguentou e esteve na minha posse fui afortunado com ela. Até que um dia, como um sonho que se apaga, partiu e com ela a certeza de que nunca mais iria ter uma igual. Desde que me deixou comecei a interiorizar que só nos faz falta o que temos, e mesmo com menos poderemos ser felizes. Apesar de ainda ter uma carrinha ronceira para questões de trabalho, comecei a virar-me para os transportes públicos. Como é óbvio, numa substituição inevitável, perdemos umas coisas para ganhar outras. Então, paulatinamente, fui conquistando uma liberdade que nunca tivera e desconhecia. Sobretudo em viagens de longo curso, tenho possibilidade de pensar, posso ler o meu jornal descansado, posso dormir, ou fazer algo que gosto muito: apreciar o comportamento das pessoas que viajam ao meu lado. Imagino que há muitas mulheres sozinhas por opção e o gato passou a ocupar o lugar do homem. Quando a lei obriga a respeitar o mais fraco é porque a sociedade está doente. Estamos no tempo da futilidade. Há muitos terramotos invisíveis. Somos um país dividido entre o religioso e o profano, numa justiça que tarda, e a várias velocidades.
Já vi um pouco de tudo e escrevi em postal ilustrado. Sou assim, temos pena. Já notei o quanto custa a caçança na Transdev de Coimbra. Já apreciei um gesto solidário de um motorista e o seu contrário. Já constatei que praticamente a leitura em papel dentro de um autocarro desapareceu. Perante a passividade de todos, já vi dar milho aos pombos dentro da gare de Coimbra e sem um reparo.
Já assisti a um diálogo quase impossível de reproduzir entre um casal de meia-idade, em que o homem, pela força do (mau) hábito e num quadro à portuguesa tão nosso conhecido de outrora -e novamente na actualidade-, por tudo e por nada, oferecia pancada à mulher em cada frase saída da sua boca. Era uma adjectivação de tratamento humano ao contrário. Em vez dele dizer “está bem, querida”, vociferava e retorquia: “tu és uma besta! Está mas é calada antes que leves um sopapo!”
Em mais uma viagem em direcção ao interior, há dias assisti a mais um quadro cada vez mais recorrente e que, sem oposição, invade a nossa esfera privada. Ainda o autocarro da Transdev não tinha o motor ligado e, no seu interior, já uma mulher de meia-idade falava ao telemóvel. Falava não é bem, gritava porque todos os passageiros gramavam a sua conversa. Durante mais de quarenta e cinco minutos, e num percurso maior que vinte quilómetros, a mulher debitou toda a sua vida. Só faltou mesmo referir as suas contas bancárias e as quecas que deu na semana anterior.
Com a viatura parcialmente cheia, notava-se que os passageiros faziam um esforço para não ouvir mas o metralhar era tão intenso que impedia, por exemplo, alguns de se concentrarem na leitura dos tablet’s e computadores portáteis. Escrevendo pelo que senti, tive de interromper a leitura do jornal porque, perante o ribombar da voz da mulher, não me conseguia reconcentrar. Aquilo começou a irritar-me profundamente. Comecei a imaginar um plano para lhe mostrar o ridículo a que se estava expor. E se eu ficcionasse uma conversa ao telemóvel e, como se falasse com alguém, retratasse o que se passava? Foi então que, como se a dama adivinhasse os meus pensamentos, subitamente a conversa acabou –presumo que por falta de bateria ou porque caísse a chamada. Como sou um grande cromo e nunca resisto a intervir, em face do silêncio sepulcral que caiu no espaço ambulante, atirei: já acabou? Não pode ser! Quero mais! Não me pode deixar assim! Não aguento o silêncio!
Como picada por um alfinete, a mulher içou-se na cadeira e, como raio de luz, percorreu todo o seu espaço visual. Levantei o braço e disse: fui eu!
Mas um azar nunca anda sozinho. Passados dez minutos tocou o meu telemóvel e eu, contrafeito, atendi ainda que sumariamente para não dar nas vistas e fazer o mesmo. A mulher, mais uma vez, soergueu-se para ver se era mesmo eu que falava ao telefone. Aposto que se sentiu vingada.