terça-feira, 30 de setembro de 2014

"OS TRABALHADORES DO COMÉRCIO DE COIMBRA ESTÃO FARTOS DE VIVER MAL!"



São 14h00 no relógio da torre sineira da Igreja de São Bartolomeu. A dois passos, junto ao pelourinho, chama a atenção uma viatura Ford Fiesta, de passageiros, com dois altifalantes no tecto a debitarem canções de Zeca Afonso. Penduradas nas janelas, várias bandeiras representativas da CGTP e do CESP, Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal, emergem do interior do automóvel. Em redor da viatura, no total, cerca de meia dúzia de mulheres ostenta bem alto o estandarte do sindicato. Algumas distribuem panfletos com a mensagem que as move e justificação para estarem ali. De um lado do folheto salta á vista o título: “OS TRABALHADORES DO COMÉRCIO DE COIMBRA ESTÃO FARTOS DE VIVER MAL!! Os baixos salários arruínam o comércio e serviços –CONCENTRAÇÃO DE DIRIGENTES E DELEGADOS SINDICAIS DO COMÉRCIO”. No verso outro cabeçalho faz incidir os olhos: “ACIC continua com postura de não querer negociar coisa nenhuma”. Logo a seguir pode ler-se: “ A ACIC continua com a postura de não querer negociar, contribuindo para a agonia do comércio e de quem dele vive. (…)”
Fui ouvir a coordenadora do CESP, Andreia, e comecei com uma interrogação: esta concentração aqui, precisamente neste local, não é inocente, pois não? Respondeu a representante do CESP: “Não, de facto, não é por acaso que escolhemos a Praça do Comércio. É mesmo intencional! A direcção da ACIC nega-se a reunir connosco para discutir o Contrato Colectivo de Trabalho. Estamos há um ano à espera de resposta. Desde 2009 que não há actualização. Só para comparar, a diferença salarial entre Coimbra e Aveiro é de 100 euros a mais para os trabalhadores da cidade dos ovos-moles. Os nossos associados da Lusa Atenas estão a passar por imensas dificuldades. Sabemos também as agruras que o pequeno comércio está atravessar mas, não havendo aumentos e sem poder de compra, patrões e funcionários acabam todos mal. 
Tudo isto redunda em complicações várias. Embora esta concentração seja apenas para dirigentes e delegados sindicais estamos cientes das contrariedades. Veja, por exemplo, enviámos a comunicação à imprensa, por “press release”, de que estaríamos aqui a reivindicar o que é de justiça e, como vê, nenhum dos diários se deslocou cá. Diga-me, isto não é informação geral? Este desligamento dos jornais, mesmo que não seja deliberado, acaba por ilegitimamente apagar o nosso esforço e, com esta sonegação de notícias, estão a fazer o jogo da associação que, para todos os efeitos, representa o  patronato.”

VISIONAR E PENSAR...

BOM DIA, PESSOAL...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE....




João Silva deixou um novo comentário na sua mensagem "O SENSEI (O MESTRE)":


Tive o privilégio de ser aluno deste grande mestre e grande homem e, mais tarde, privar como amigo e dirigente da secção. Posso afirmar sem rodeios, que o mestre, o meu mestre, estará sempre presente na minha vida com todos os ensinamentos que me deu ao longo dos anos que partilhámos naquela secção.
Não podia deixar de escrever umas palavras em tua homenagem, mais que justa, diga-se... Para ti Zé, meu amigo. O meu muito obrigado, para ti mestre. "OSS"!

A QUEDA DO HUMANISMO E A ASCENSÃO DO ANIMALCENTRISMO





Ontem, Domingo, durante a manhã, junto às antigas instalações da Garagem de São José, na Avenida Fernão de Magalhães, um carro permanecia embrulhado em cartão e em toda a volta rodeado com fita autocolante da Polícia Municipal (PM). Quem passou e não ligou, provavelmente, teve o mesmo pensamento que eu tive: olha, agora a PM já não emprega bloqueadores e faz uma espécie de embrulho surpresa ao condutor. Acontece que achei aquilo estranho e fui ver o que tratava tão surpreendente quadro. Não foi fácil deslindar o mistério, confesso, mas cheguei lá. No vidro da viatura um papel manuscrito colado dava a seguinte mensagem: “Está um gato dentro do capô. Contacte-nos, seguido de um número de telemóvel”. Dei a volta à viatura e vislumbrei um recipiente com água e ouvi um miar.
Brincando um pouco com a situação, aos meus olhos caricata, pelos vistos um felino resolveu acampar entre o motor da viatura e, está de ver, como não tinha licença, a PM resolveu intervir. Presumo que não conseguiu expulsar o “ocupa”.
Escrevendo sério, acho que isto passa das marcas. Alguém está a instrumentalizar os recursos da PM para fins que não são os seus. E a meu ver, o pior de tudo, é que esta força de polícia municipal não se está aperceber da gravidade da situação. Por que o lóbi da defesa dos animais é tão poderoso e está a tomar conta da solidão de tantos, vai ser difícil não ser insultado e acusado de insensibilidade mas, mesmo assim, vou prosseguir. Palavra que não diria nada se verificasse que, do mesmo modo, a PM até sinalizou um homem que há vários dias dorme nuns papelões, na Rua Eduardo Coelho, no prédio das desaparecidas Galerias Coimbra. Antes de prosseguir, vou identificar este ser humano. Trata-se do António José Vaz Monteiro, tem 46 anos e, antes de cair na rua e nas malhas do alcoolismo, trabalhou uma dúzia de Verões na antiga Sociedade de Porcelana de Coimbra e outras tantas Primaveras em vários empregos, incluindo o Ministério do Ambiente.
Penso que já se vê onde quero chegar, há qualquer coisa que foge à minha compreensão. Estamos a perder de vista o humanismo –a valorização do ser humano nas condições de generosidade, compaixão e preocupação- e entrar no “animalcentrismo” –um termo que inventei e que significa o animal como centro de tudo. Ora, no meu entendimento, os serviços públicos, com recursos de todos, estão a alimentar e a desenvolver esta nova filosofia. Reitero que o problema não reside na ajuda aos animais mas sim nas soluções que falham para as pessoas. Talvez valesse a pena pensar nisto. O que acha?


TEXTOS RELACIONADOS



ESTOU IRRITADIÇO



ESTOU IRRITADIÇO

Sinto-me agastado com certas pessoas que me provocam irritação,
uns, fazem de mim uma espécie de vazadouro das suas frustrações,
contam-me a vida toda, incluindo todos os desaires do coração,
ninguém me interroga se estou com pachorra, ou em condições,
para ser a praia onde vão estender as suas ondas de descompressão,
claro que poderia remetê-las para o Inferno e chamar-lhes canastrões,
mas cá vou ouvindo, tentando não soçobrar, no meu mar de solidão;
Outros, sem nada para fazer, peroram sobre isto e aquilo, sobre feijões,
mexem em tudo, desarrumam a minha alma, desejam ir para o Japão,
fustigam o Passos Coelho, metralham o Governo, chamam-lhes ladrões,
batem no António Costa, socialista, eleito para ser carne para canhão,
até ontem detestavam António Seguro, apeado por Costa sem caução,
hoje largam lágrimas de crocodilo pelo caído com um pungente sermão,
vou apanhar gambuzinos ou tomo um ansiolítico para a depressão?

ESTOU CANSADO, MAS, MESMO ASSIM, VOU DAR OUTRA... MÚSICA

BOM DIA, PESSOAL...

domingo, 28 de setembro de 2014

EDITORIAL: PESSOAS BURRAS QUE NOS DIRIGEM




Hoje, realizou-se a “I Meia Maratona de Coimbra/Corrida do Conhecimento”, com partida no Largo da Porta Férrea e finalização na Avenida José Bonifácio de Andrade e Silva –junto ao Fórum Coimbra. Durante a manhã, a Baixa esteve sem acesso automóvel e praticamente sitiada. Na Estrada Nacional 1, qualquer condutor proveniente de Sul quando chegava junto ao Hotel Dom Luís, por indicação de um agente da PSP, era obrigado a retornar à origem sem qualquer indicação sinaléctica de via alternativa. Quem saía junto ao açude, a mesma coisa, era empurrado para o Fórum Coimbra. Foi um verdadeiro caos durante toda a manhã.
Não é a primeira que escrevo sobre os malefícios remetidos directamente para os motoristas sempre que há uma prova desportiva na cidade. Estou certo, quem faz estes planos sem planos deve pensar que todos os automobilistas que circulam ao Domingo são turistas de passagem e que andam a gozar o panorama. Acontece que há muita gente que trabalha neste dia e, por estes absurdos cortes, é sempre assim: vê-se em palpos de aranha para conseguir chegar ao centro da cidade. Gostava que me respondessem a várias questões: em que é que esta prova pedonal promove o património classificado pela Unesco? Para que serve o Estádio Cidade de Coimbra? Por que não se realizam lá estas provas desportivas? Por que raio é que qualquer corrida há-de sempre prejudicar a acessão à Baixa? Entre todas estas interrogações uma resposta emerge: é o populismo em toda a sua grandiosidade. Faça-se festa para o povo e ilumine-se o céu com o estalejar dos foguetes. Como sempre, alguém vai apanhar as canas e pagar a factura.
Há duas semanas o executivo municipal não aderiu ao movimento “um dia sem carros”. Quanto a mim, muito bem! E então passada uma semana faz uma coisa destas? Terá noção quem manda nestes licenciamentos nos custos económicos que tais absurdas decisões têm para quem exerce a sua actividade na Baixa?
Bem sei que estou a ser especulativo e pouco racional –no sentido de lançar uma suspeição sem provas, mas à mulher de César não lhe chega ser séria- mas é pouco claro o facto de as viaturas serem desviadas para o Fórum Coimbra. Pode-se até argumentar que todos os apoios vieram das empresas sediadas naquele Centro Comercial. Mesmo assim é pouco! Falta aqui equidistância, harmonização de interesses tendo em conta o menor dano possível para alguns, e respeito pelas empresas do Centro Histórico. É assim que se promove esta área comercial? Quem decide nestas coisas, saberá o que está a fazer? 


sábado, 27 de setembro de 2014

OS MENDIGOS DAS PALAVRAS





Estão em todas as encruzilhadas dos caminhos. Encontramo-los em qualquer esquina de uma qualquer rua. Damos de chofre com eles numa qualquer paragem de autocarro. As suas vestes tanto podem ser ricas como, pelo contrário, serem humildes e retratos de indigência. Em todos há pormenores que os aproximam: os seus cabelos desgrenhados e baços, o seu olhar desconsolado e sem brilho, os ombros descaídos a deixar sobrar tecido para pouco corpo e o implícito ar de abandono mostrado na barba por escanhoar, que carregam ao alcance de um vislumbre mais apurado. Ao nosso lado, podem permanecer estáticos, como se fossem portadores do medo de serem rejeitados ou, pelo contrário, chamarem a nossa atenção com uma singela infantilidade.
São os novos mendigos das cidades. Não estendem a mão, não rogam nada por palavras, no entanto são pedintes de atenção. Os seus olhos amargurados, como paisagem bucólica de negritude, mostram a tristeza que a sua alma carrega. Desde um amor desperdiçado, a um filho perdido nas malhas da droga, até um casamento preso por fios de nada e amarrado a conveniências mútuas para não se perder a segurança material, tudo transportam na sacola da sua existência. Pelos recalcamentos e frustrações marteladas, já há muito que deixaram de vociferar contra o Governo acusando-o de ser o causador das suas dívidas camufladas e destruidor da sua felicidade perdida. São baterias de energia acumulada. São as novas bombas humanas de deflagração do Ocidente. São os surdos kamikases do nosso tempo. Será sempre de supor que virarão a sua ira contra si mesmo, no entanto, mesmo em possibilidade remota, tomemos atenção às suas manifestações de ambiguidade entre a previsível loucura e a apatia inconsciente. Podem a qualquer momento explodir e desencadearem tragédias iminentes.
Se por acaso, em conversa de ocasião, despoletamos a sua descarga emocional teremos muita dificuldade em descolar. Colam-se como molusco na pedra batida em busca do último reduto. As conversas, como linhas e entrelinhas, engatam umas nas outras e dificilmente têm um resguardo que lhe ponha fim. Querem apenas ser ouvidos. Se forem interrompidos, pedem espera ao interlocutor e prosseguem a longa viagem através da memória. É natural que a narração seja acompanhada por lágrimas ardentes de sofrimento. Ali, na nossa frente, está uma pessoa desfeita em partículas de solidão. Ao alcance da nossa mão está o nosso espectro, a projecção de nós, como se nos mirássemos ao espelho.
Algumas vezes de cultura superior, verificamos amiúde que são sujeitos de extrema sensibilidade para as artes, quase sensitivos e carregados de espiritualidade. Parecem fantasmas que trazem consigo um mapa malfadado de pecados praticados em outra vida e que, por força de um destino desconhecido, têm de penar em busca de uma aceitabilidade e um aperfeiçoamento terreno. São uma espécie de inadaptados a este tempo de agora, que se diz moderno, onde poucos comunicam por palavras e muitos, a maioria, se faz transmitir através por dois dedos num teclado. São órfãos de pai e mãe nesta época onde o individualismo é a argamassa que liga o eu ao eu e o eu ao tu. São os novos ciganos das urbes que, como nómadas em área sedentarizada, desde o banco de jardim à cadeira de esplanada, poisam e acampam em qualquer lugar.
A comunicação natural, enquanto significado de partilha humana assente na frase, no olhar, no ouvir e no gestual, está a desaparecer a grande velocidade. O seu lugar foi ocupado pelo artificialismo da máquina -interessante como todos pensamos que o planeta encolheu e tudo está mais próximo. Nunca como até agora houve tanta possibilidade de transmissão entre pessoas. Mas se analisarmos ao pormenor, constatamos que cada vez estamos mais distantes e esvaziamos os afectos. Sentimentos como a amizade, o amor e a solidariedade são expressões praticamente sem sentido neste mundo globalizado. Sem termos noção, estamos a destruir o intrínseco, a originalidade do ser humano. Tudo indica que vão ser precisas várias gerações para recuperar o que se está perder. A menos que, nesta dinâmica, estejamos a evoluir para um novo homem, um passageiro do tempo. Mais autómato, mais frio de sentimentos e calculista, facilmente manipulável pelo desconhecimento do que o rodeia, sem opinião própria, este indivíduo não pode trazer nada de bom às sociedades futuras.
Porque vai reconhecê-lo facilmente, quando passar por um deste isolado mendicante dê-lhe um sorriso e uma palavra. Não esqueça, todos estamos a caminhar para este mesmo isolamento. No limite, pode ser que ainda se possa recuperar a essência perdida.



TEXTOS RELACIONADOS

"Deixai repousar em paz"
"Um homem sozinho"
"Um homem caminha na praia"
"Uma noite inesquecível"
"Escrever menos sério"
"Um homem avança e recua"
"Um  homem caído no chão"
"Um país modernaço c'mo caraças"
"Uma flor de papel"
"O livro não editado"
"A virgem de três vinténs"
"Um homem chega a casa e..."
"A carta"
"O confessionário público"
"Enredos"
"A queda da leitura em papel"

PELA REPOSIÇÃO DO METRO




(COM PEDIDO DE PUBLICIDADE)


29 de Setembro, segunda-feira, com início às 17h30 na Estação do Parque e final junto à Loja do Cidadão

PARTICIPE!

BOM DIA, PESSOAL...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

LEIA O DESPERTAR...



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "O SENSEI (O MESTRE)", deixo também as crónicas "A MORTE DA LEITURA EM PAPEL"; e "QUEDA DE BEIRAL DE UM PRÉDIO CAMARÁRIO".


O SENSEI (O MESTRE)

São 19h00, acabadinhas de bater na torre da Universidade e mais conhecida pela Cabra. Várias pessoas de escalões etários diferenciados, com um saco a tiracolo e em passo apressado, acorrem ao velho pavilhão do Estádio Universitário, na Guarda Inglesa, que ostenta na parede a inscrição “dojo” –que, em japonês, significa sítio do caminho, local onde se treinam artes marciais. Mais do que uma simples área reservada, é um lugar sagrado onde se entra descalço e o respeito, através de uma reverência, impera entre todos os praticantes, independentemente do seu grau de escala hierárquica. O termo milenar tem origem no Zen Budista, significando lugar de iluminação e onde os monges praticavam a meditação.
Lá dentro a azáfama é grande, vai começar o treino de Karaté Shotokan – Shotokan -a casa de Shoto-, é um dos estilos desta arte de defesa pessoal que surgiu dos ensinamentos ministrados pelo mestre Gichin Funakoshi (1868-1957), no arquipélago nipónico.
Ouve-se uma ordem disparada de uma voz bem timbrada e firme: “vamos formar!”. Quem ordena e fala assim é o Sensei –aquele que forma discípulos pelo saber acumulado na sua experiência-, o Mestre, José Arlindo Figueiredo Lemos. Quando pensamos num praticante de Karaté imaginamos um indivíduo alto e de grande robustez física, ora, paradoxalmente, José Arlindo é um “little man”, um homem pequenino, o mais baixo de todos os seus alunos seniores. Por que o conheço bem há mais de trinta anos, em contrapartida é uma pessoa de coração enorme, senhor de uma calma contemplativa assente na meditação espiritual, e de uma humildade e simplicidade impressionantes. As suas atuais sete dezenas de aprendizes, entre adultos e crianças, e os cerca de sete milhares que, ao longo dos últimos quarenta anos, receberam o seu saber, divididos já em três gerações, que atestem se há exagero na minha apreciação.


E vai começar a aula de formação tendo por base o desempenho corporal. No aquecimento prévio há homens e mulheres de todas as idades e estão a correr ao longo do salão e a dar os primeiros passos de combate (kumite) tendo em conta o treinamento de competição. Segue a Kata, conjunto de movimentos de ataque e defesa e realizados em conjunto. A ideia de que o Karaté é elitista e não é para velhos é profundamente errónea e que se deve repudiar. Basta fazer uma visita ao pavilhão. Aqui pode ver-se que nem a profissão nem a idade são barreiras para a prática deste desporto. Basta ver o Adriano Moura, comerciante, de 63 anos, passando pelo Pedro Monteiro, funcionário público, de 53, o Fernando Gil, estudante, de 22, a Cristina Lopes, estudante de música, de 30, o José Faustino, doutorando, e o Leonel Simões, funcionário público e agricultor, de 56 primaveras contadas.


Mestre Lemos nasceu em Santo António do Alva, Oliveira do Hospital, há 56 anos mas foi levado para Lisboa ainda recém-nascido. Porque estava na moda a cultura oriental, em 1969, com 12 anos, começou a praticar as técnicas vindas do país do Sol Nascente. Três anos depois foi para Tóquio onde conheceu e recebeu aulas de Karaté do grande mestre Masatoshi Nakayama. Entretanto regressado a Portugal foi contactado por um grupo de estudantes ligados ao CAC, Clube Académico de Coimbra, para desenvolver a modalidade na Lusa Atenas, que já existia. Nestes entrementes foi abordado pela direção da Associação Académica de Coimbra (AAC) para dar continuidade à secção fundada em 1974 –faz este anos 40 anos- no Estádio Universitário.
Mestre José Arlindo, durante muitos anos residente na Real República do Prá-Kis-Tão, na Alta da cidade, é 6.º dan –a modalidade inicia-se no nível prévio kiu, cinto branco, e vai evoluindo até 3º kiu. A partir daqui, tendo em conta as dimensões Prática (execução corporal), Teórica (interpretação mental), e Curricular, o praticante entra no nível avançado de graduação, que vai do primeiro ao décimo dan. Mestre Lemos não se vê a fazer outra coisa. O Karaté é o seu universo onde desenvolve três vertentes: a lúdica, a formativa e a competitiva –esta mais dirigida aos jovens, já que a existência é uma constante competição. Esta arte marcial enquanto filosofia de vida, cujo lema é “aprende a lutar para nunca teres de lutar”, aumenta a autoconfiança, a ética, no respeito intrínseco por quem está no chão, desenvolve a igualdade, no princípio de que todos os praticantes são potencialmente iguais, e a noção de justiça, na busca da retidão e correção do injusto para o justo.
Se está a pensar em incorporar esta grande equipa ainda está muito a tempo. As aulas para adultos iniciados começam no próximo 6 de Outubro e decorrerão às segundas, quartas e sextas-feiras, das 20 às 21h00. Para as crianças serão às terças e quintas-feiras às 17h45.
Parabéns, Mestre José Arlindo. Esta é uma singela homenagem que se pretende pública. A cidade deve-lhe muito por tudo quanto tem feito pelo desporto de Coimbra. Um grande abraço, meu amigo!



A MORTE DA LEITURA EM PAPEL


Utilizando como meio de transporte um autocarro, neste fim-de-semana, último, desloquei-me a uma cidade do interior do País, que dista cerca de 150 quilómetros de Coimbra. Embora navegue pouco, sempre que faço uma jornada mais ou menos longa gosto de levar comigo um livro ou um jornal para ler. Bem sei que, com este gosto, sou antiquado. Eu deveria ser um tipo moderno e levar comigo um “Tablet”, ou, sei lá, um “Smartphone”. Mas qual quê? Sou um irascível resistente a estes meios de comunicação. Para além de serem viciantes, considero-os totalmente invasores da minha privacidade, e continuo com o meu velho telemóvel Nokia que, volta e meia e quem sabe para me aborrecer, falha-me a rede mas nem assim me descolo dele.
Então no Sábado, quase ao pôr-do-Sol, como habitualmente em cima da hora, coloquei os pés na direção da Rodoviária Nacional, na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra. A meio do caminho, entre a minha casa e o centro rodoviário, dei pela falta do livro que deveria ser meu companheiro de viagem. Porém, como estava literalmente em cima da partida, já não pude voltar atrás. Dei por mim a pensar que não haveria problema já que, recordei, existia um quiosque de jornais no terminal das camionetas. No “guichet” adquiri o bilhete –por acaso a uma funcionária simpatiquíssima. Que bom é encontrar pessoas assim! Foi então que me apercebi que a venda de jornais e revistas estava encerrada para férias. Por segundos, senti que me faltava o chão e, como caminheiro perdido num deserto, comecei a olhar para todo o lado, para ver se, no limite, vislumbrava uma ponte, uma solução, para a carência do meu problema. Mas nada. Ali à volta não havia qualquer negócio de jornais ou revistas. Para tentar saciar a minha ansiedade, imaginei que dentro do autocarro haveria alguém que transportasse consigo um jornal e, depois de o tresler, mo cederia. E entrei no meio de transporte que três horas depois me deixaria na cidade do interior –a propósito saliento a frota de veículos de elevada qualidade que fazem este trajeto regular.
Às 18h30, conforme a hora indicada, o mastodonte motorizado, de cor azul e praticamente cheio, fez-se à estrada. Começando pelos fundos, iniciei então a minha busca com o olhar para encontrar um passageiro que levasse consigo leitura em papel. Ocupados entre o seu pequeno computador aberto, o “Tablet” e o “Smartphone”, verifiquei in loco, nem um único lia um livro, uma revista, ou um simples jornal de papel. Perante aquele cenário inimaginável, rendi-me à evidência: teria de escolher entre dormir, pensar na minha cada vez maior diferença entre estes tempos que teimo em não me englobar, ou apreciar a paisagem. Como não dormi, entretive-me a pensar e a ver. Perante os meus olhos, num contraste absoluto entre o progresso e o retrocesso, surgiam estradas novas como nunca vi e um incontável universo de pequenos negócios encerrados. É um apocalipse. Desde mercearias, a instalações de pneus, a fábricas de alumínios, até pequenas oficinas de mecânica, é um doer de alma assistir a este extermínio coletivo de criação de emprego nas localidades. No panorama, são esqueletos vivos, perdidos, marcas de uma memória comercial e industrial que se finou. E lá cheguei ao meu destino.
Regressei no Domingo à noite. Claro que, inevitavelmente, acompanhado de um livro que tomei de empréstimo ao meu amigo: “O Segredo”. Embora visse o filme, não tinha lido a história escrita.
Por volta das 21h30, na viagem de regresso, eu era comparte de um grupo de cerca de uma dúzia de passageiros com destino à cidade dos estudantes. Sem surpresa, verifiquei que, mais uma vez, quase todos estariam ligados à Internet e nenhum deles se ocupava a ler.
O autocarro arrancou e as luzes ficaram num lusco-fusco. Como cego a apalpar uma parede, comecei a carregar em todos botões por cima da minha cabeça mas nenhum parecia dar-me importância e a luz necessária para eu poder ler. Numa ambiguidade, entre o aperto premente e ao mesmo tempo sabendo que era só para mim, hesitei em levantar-me e indagar o motorista acerca da falta de luminosidade. Vou, não vou? E fui! Fez-se luz no “machimbombo” e eu passei o percurso quase sem sentir a diferença da distância.
Como questão final, deixo uma pergunta um bocado estúpida: e se os autocarros levassem consigo uns jornais do dia e umas revistas? Mesmo que aumentasse uns cêntimos nos bilhetes, será que não se estaria a contribuir para que a leitura em papel não se perdesse na vacuidade? No fundo estariam a dar continuação ao princípio do livro “O Segredo”, que é, como se sabe, a universal lei da atração: boas iniciativas trazem bons resultados.


QUEDA DE BEIRAL DE UM PRÉDIO CAMARÁRIO

Na semana passada caiu um beiral de um prédio na Rua das Azeiteiras. O edifício, onde durante décadas funcionou a mercearia do Humberto, alegadamente, é propriedade da Câmara Municipal de Coimbra. Salienta-se a grande quantidade de pluviosidade que tem caído nos últimos dias e que, mais que certo, terá contribuído.
Segundo um vizinho que pediu o anonimato, esta casa vazia, de dois andares e rés-do-chão, oferecendo perigo de derrocada, está sinalizada há cerca de cinco anos pela Proteção Civil. Pegando nas suas palavras, “olhe que foi uma sorte as telhas e as pedras envolvidas em caliça, ao mergulharem no asfalto, não terem caído em cima de um qualquer transeunte que fosse a passar. Esta área deveria ser chamada de “zona vermelha de perigo eminente”. Olhe aqui este túnel em madeira, no Beco das Canivetas! Está assim há quatro anos! Olhe à sua volta. Veja o estado decrépito destes prédios. Olhe o beiral daquele! A qualquer momento vem parar ao chão! Você conhece bem esta zona da Baixa e sabe que, provavelmente, é uma das mais pitorescas deste casario de antanho. Este desleixo não deveria ser sancionado? E se houver feridos ou mortes? A negligência grave não é punível no ordenamento penal? Sabe o que lhe digo? Esta declaração da Unesco, classificando Coimbra de Património Mundial, foi apressada e em cima do joelho. Foi o que foi!”

BOM DIA, PESSOAL...

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A MORTE DO HIMENEU

(Imagem da Web)



Hoje, foi a enterrar em campa rasa uma parte de mim. Morreu o meu himeneu. Nas últimas décadas andou sempre comigo. De tal modo que se confundia completamente com a minha pessoa, parecia uma máscara de mim. De facto, este meu afectuoso era muito chegado. Por isso mesmo, de tal modo sinto a sua partida que me sinto tristonho, ensimesmado e sem brilho, como se ficasse sem alma. O estranho é que na minha rua, onde sempre conviveu, poucos irão sentir a sua falta. Sempre foi discreto, quase sem graça, enjoado e sorumbático. Era assim uma espécie de espírito sempre presente mas ao mesmo tempo ausente. Conhecia-o desde bebé. Nasceu ali para os lados de Santa Clara, numa rua estreita onde havia e continua a haver um clube recreativo. Decorria o ano de 1977 quando recebeu os sacramentos do baptismo na Igreja da Rainha Santa Isabel. A catedral estava toda iluminada e cheia de muitos amigos. Alguns vieram de longe e outros de muito perto. Uns ainda andam por cá, outros já partiram há muito e sem se despedirem. Nesse dia de alegria, todos vestiram o fato domingueiro e levaram oferendas. Desde uma simples caneta, até um serviço de jantar, um talher em inox, passando por uma misturadora, tudo servia para justificar a presença física. Dinheiro era coisa rara, havia pouco, e não deram muito. A festa foi no velho clube, da rua com o mesmo nome, e juntou cerca de oito dezenas de amigos e conhecidos.
O himeneu viu a luz pela primeira vez numa prole muito pobre mas, tal como Cristo nasceu numa manjedoura e veio ao mundo para ser modelo de união entre humanos, também naquela família, porquanto instituição, se pretendia dele paradigma e que desse origem à sua continuidade. Enquanto infante sem eira nem beira, era reguila, espertalhaço, sonhador e ambicioso. Com uma convicção vincada, dizia aos mais próximos que haveria de ter um castelo, uma quinta com cavalos e uma casa em cima da árvore para os seus filhos brincarem. Quem o ouvia, sem acreditar no mínimo, sorria de complacência. Mas o futuro veio provar que se tinha desvalorizado demasiado as possibilidades do querer é poder e alguns destes sonhos foram realizados.
O Himeneu tinha 37 anos. Feneceu desta doença da moda. Dizem que são ralações da alma que progressivamente vão mirrando todos os que estão à sua volta e, como metástases que alastram, contaminam a sua própria estrutura. Segundo os vários especialistas contactados, a maleita sempre esteve lá, desde o primeiro dia do seu nascimento. Mantinha-se viva mas adormecida e à espera de sair da sua própria incubação. Era como se fosse uma história que estivesse hermeticamente fechada, que, sem chave de acesso, nunca começava para nunca acabar.
A meio da manhã, desta quinta-feira de um dia acinzentado e perdido a meio de uma semana igual a tantas outras, numa sala pequena e rodeado de sete pessoas, com duas assinaturas, acordou-se que se deveria desligar a máquina para evitar a continuação do sofrimento. 
Apesar de há mais de um ano e meio esperar este final, tenho de confessar: chorei desalmadamente. Mas pode alguém estar preparado para ver partir um horizonte, um sonho idealizado em longas noites serenas e outras de carneirinhos à solta?
O meu himeneu, o meu casamento, morreu hoje nos meus braços. Sem falar, pressenti que me queria dizer: “valeu a pena! Valeu a pena, mesmo que o fim da história não termine aqui!”



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"O QUE É A DEPRESSÃO?"




"O que é depressão? Deixe que essa animação de 4 minutos esclareça o assunto". Veja o vídeo e leia aqui.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

EDITORIAL: E SE A BAIXA FICASSE ALAGADA?

(Foto do Diário de Coimbra)


Autarquia não estava à espera de tanta chuva em tão pouco tempo e queixa-se de não ter sido devidamente avisada sobre este cenário. Várias zonas da capital ficaram alagadas e os bombeiros responderam a mais de uma centena de ocorrências. Comerciantes dizem que a situação se agravou porque as sarjetas estavam todas entupidas e que já deviam ter sido limpas.”–in Expresso.

E se de repente este cenário acontecesse em Coimbra? Seria de admirar? Não! De modo nenhum. O Rio Mondego, com a bacia freática em frente à Baixa assoreada já há vários anos, tem vindo a anunciar que pode inundar tudo num panorama já conhecido pelos mais velhos. Embora já tenha havido ameaças com ruas submersas, a enxurrada que deu mais preocupações aos comerciantes foi em 21 de Setembro de 2008. “Era um Domingo pacato, aparentemente igual a qualquer outro”, escrevi na altura.
O que impressiona mais é que se olha para o que aconteceu agora em Lisboa como se não tivesse qualquer relação com a cidade dos estudantes. O que se espera para começar a planear para no próximo verão retirar os inertes do “bazófias”? Estão à espera de quê para mandar limpar os “boeiros” e outros colectores?

BOM DIA, PESSOAL...

PARA PENSAR...

FUI AO BORDEL....




Normalmente, com pompa e circunstância, anunciam-se as despedidas de solteiro. Até faz sentido. Parte-se para uma aventura cheios de força, de fé e esperança numa vida a dois. Por parte do nubente, é comum ouvir-se: “ela é a mulher/homem da minha vida! Ela é a mulher/homem dos meus sonhos!”
O tempo, como ferro de engomar, vai vincando as coisas boas e, como coveiro prestimoso, vai enterrando as coisas más. Os sonhos, progressivamente, vão sendo arrumados em gavetões no mausoléu da memória e entregamo-nos à evidência de que a ambição é simplesmente um motor que gripou. Cresce a barriga e com o passar dos anos sentimos que estamos diferentes. Já não somos a mesma pessoa, crédula e sonhadora. Com o passar dos Outonos chuvosos e invernos gelados tornamo-nos fósseis, duros, inflexíveis, e damos por nós a contar histórias e mais histórias da nossa vida, como se a sua narração interessasse a alguém. Numa frase solta: tornamo-nos mais chatos que os animaizinhos assim baptizados.
As diferenças que sempre existiram entre nós e a/o consorte, de repente ou talvez não, como boias submergidas à força, irrompem e dão à tona e, o que até aí nunca foi, passam a ser um problema. Como mó desgastada pela rodagem rotineira, sentimos que tudo mudou à nossa volta.
O adeus à vida de casado, tanto quanto sei, raramente se faz nota. Entende-se! Afinal não há festa nenhuma! O ambiente é o de um velório. O que se apresenta são restos de uma vida em comum desfeita.
E porque estou eu aqui com esta lamechice? Então eu sei lá? Hoje, apeteceu-me ir ao bordel e pronto!

VÁ AO TEATRO



(UM PEDIDO DE DIVULGAÇÃO)


Exmo.(a) Sr.(a),

Seguem, em anexo, o press-realese e o cartaz do espetáculo "100 Pés -Cabeça" para a divulgação do mesmo. Este espetáculo foi criado pelo Teatro MaquinArtE e estreia dia 30 de Setembro de 2014, pelas 21h30, no CETA, Aveiro.
Estamos disponíveis para mais informações através dos contatos:
- 966 535 744 (Eduarda Almeida),
- 964 761 226 (Salomé Ângelo).
Agradecemos atenção dispensada e desejamos continuação de bom trabalho,
MaquinArtE


+ info
Teatro MaquinArtE
teatromaquinarte@gmail.com
966 535 744 (Eduarda Almeida)
964 761 226 (Salomé Ângelo)

CETA
Rua das Tomásias, 14-16
3800-271 AVEIRO
info@cetateatro.pt
234 425 497 | 967 875 740

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...





Ilídio Lopes deixou um novo comentário na sua mensagem "A Queda da Leitura em Papel":


Olá Luís!
Li com interesse o teu relato da tua ida a algures no interior do Pais.
 Por aquilo que me foi dado observar, nós temos pelo menos esta coisa em comum... gostamos de ler.
Sempre que vou a Portugal utilizo a  TAP para viajar e no regresso aos Estados Unidos, para  além de outras coisas boas que nos oferecem, depois de fazermos o “check in”, também nos é dada a possibilidade de passarmos por um balcão onde nos são facultados, à nossa escolha, um jornal diário e uma revista. Ambos grátis. A propósito, que me fazem bastante jeito para ajudar a passar algumas horas de espera  pela hora da partida. Acho a ideia muito boa e, neste caso, um incentivo a leitura no papel!

PS: É difícil para mim, estar em algum lado, ou ir de viagem a algum lugar, e não ter um livro, uma revista ou um jornal por companhia!
Um abraço

Ilídio Lopes
Filadelfia
USA

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




Ana Afonso deixou um novo comentário na sua mensagem "O SENSEI (O MESTRE)":



Sem dúvida que esta é uma justa homenagem em que me revejo. O facto de o meu filho ter o privilégio de com apenas 6 anos poder assimilar toda esta filosofia e ensinamentos deixa-me imensamente orgulhoso.
Os meus mais profundos agradecimentos ao Mestre José A. Lemos.

José Carlos Marques

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O SENSEI (O MESTRE)





São 19h00, acabadinhas de bater na torre da Universidade e mais conhecida pela Cabra. Várias pessoas de escalões etários diferenciados, com um saco a tiracolo e em passo apressado, acorrem ao velho pavilhão do Estádio Universitário, na Guarda Inglesa, que ostenta na parede a inscrição “dojo” –que, em japonês, significa sítio do caminho, local onde se treinam artes marciais. Mais do que uma simples área reservada, é um lugar sagrado onde se entra descalço e o respeito, através de uma reverência, impera entre todos os praticantes, independentemente do seu grau de escala hierárquica. O termo milenar tem origem no Zen Budista, significando lugar de iluminação e onde os monges praticavam a meditação.
Lá dentro a azáfama é grande, vai começar o treino de Karaté Shotokan – Shotokan -a casa de Shoto-, é um dos estilos desta arte de defesa pessoal que surgiu dos ensinamentos ministrados pelo mestre Gichin Funakoshi (1868-1957), no arquipélago nipónico.
Ouve-se uma ordem disparada de uma voz bem timbrada e firme: “vamos formar!”. Quem ordena e fala assim é o Sensei –aquele que forma discípulos pelo saber acumulado na sua experiência-, o Mestre, José Arlindo Figueiredo Lemos. Quando pensamos num praticante de Karaté imaginamos um indivíduo alto e de grande robustez física, ora, paradoxalmente, José Arlindo é um “little man”, um homem pequenino, o mais baixo de todos os seus alunos seniores. Por que o conheço bem há mais de trinta anos, em contrapartida é uma pessoa de coração enorme, senhor de uma calma contemplativa assente na meditação espiritual, e de uma humildade e simplicidade impressionantes. As suas actuais sete dezenas de aprendizes, entre adultos e crianças, e os cerca de sete milhares que, ao longo dos últimos quarenta anos, receberam o seu saber, divididos já em três gerações, que atestem se há exagero na minha apreciação.
E vai começar a aula de formação tendo por base o desempenho corporal. No aquecimento prévio há homens e mulheres de todas as idades e estão a correr ao longo do salão e a dar os primeiros passos de combate (kumite) tendo em conta o treinamento de competição. Segue a Kata, conjunto de movimentos de ataque e defesa e realizados em conjunto. A ideia de que o Karaté é elitista e não é para velhos é profundamente errónea e que se deve repudiar. Basta fazer uma visita ao pavilhão. Aqui pode ver-se que nem a profissão nem a idade são barreiras para a prática deste desporto. Basta ver o Adriano Moura, comerciante, de 63 anos, passando pelo Pedro Monteiro, funcionário público, de 53, o Fernando Gil, estudante, de 22, a Cristina Lopes, estudante de música, de 30, o José Faustino, doutorando, e o Leonel Simões, funcionário público e agricultor, de 56 primaveras contadas.
Mestre Lemos nasceu em Santo António do Alva, Oliveira do Hospital, há 56 anos mas foi levado para Lisboa ainda recém-nascido. Porque estava na moda a cultura oriental, em 1969, com 12 anos, começou a praticar as técnicas vindas do país do Sol Nascente. Três anos depois foi para Tóquio onde conheceu e recebeu aulas de Karaté do grande mestre Masatoshi Nakayama. Entretanto regressado a Portugal foi contactado por um grupo de estudantes ligados ao CAC, Clube Académico de Coimbra, para desenvolver a modalidade na Lusa Atenas, que já existia. Nestes entrementes foi abordado pela direcção da Associação Académica de Coimbra (AAC) para dar continuidade à secção fundada em 1974 –faz este anos 40 anos- no Estádio Universitário. 
Mestre José Arlindo, durante muitos anos residente na Real República do Prá-Kis-Tão, na Alta da cidade, é 6.º dan –a modalidade inicia-se no nível prévio kiu, cinto branco, e vai evoluindo até 3º kiu. A partir daqui, tendo em conta as dimensões Prática (execução corporal), Teórica (interpretação mental), e Curricular, o praticante entra no nível avançado de graduação, que vai do primeiro ao décimo dan. Mestre Lemos não se vê a fazer outra coisa. O Karaté é o seu universo onde desenvolve três vertentes: a lúdica, a formativa e a competitiva –esta mais dirigida aos jovens, já que a existência é uma constante competição. Esta arte marcial enquanto filosofia de vida, cujo lema é “aprende a lutar para nunca teres de lutar”, aumenta a autoconfiança, a ética, no respeito intrínseco por quem está no chão, desenvolve a igualdade, no princípio de que todos os praticantes são potencialmente iguais, e a noção de justiça, na busca da rectidão e correcção do injusto para o justo.
Se está a pensar em incorporar esta grande equipa ainda está muito a tempo. As aulas para adultos iniciados começam no próximo 6 de Outubro e decorrerão às segundas, quartas e sextas-feiras, das 20 às 21h00. Para as crianças serão às terças e quintas-feiras às 17h45.
Parabéns, Mestre José Arlindo. Esta é uma singela homenagem que se pretende pública. A cidade deve-lhe muito por tudo quanto tem feito pelo desporto de Coimbra. Um grande abraço, meu amigo!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

"ESTE É O MUNDO NOVO DOS EMPRESÁRIOS"


BOM DIA, PESSOAL...

A QUEDA DA LEITURA EM PAPEL





Utilizando como meio de transporte um autocarro, neste fim-de-semana desloquei-me a uma cidade do interior do País, que dista cerca de 150 quilómetros de Coimbra. Embora navegue pouco, sempre que faço uma jornada mais ou menos longa gosto de levar comigo um livro ou um jornal para ler. Bem sei que, com este gosto, sou antiquado. Eu deveria ser um tipo moderno e levar comigo um “Tablet”, ou, sei lá, um “Smartphone”. Mas qual quê? Sou um irascível resistente a estes meios de comunicação. Para além de serem viciantes, considero-os totalmente invasores da minha privacidade, e continuo com o meu velho telemóvel Nokia que volta e meia e quem sabe para me aborrecer falha-me a rede mas nem assim me descolo dele.
Então no Sábado, quase ao pôr-do-Sol, como habitualmente em cima da hora, coloquei os pés na direcção da Rodoviária Nacional, na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra. A meio do caminho, entre a minha casa e o centro rodoviário, dei pela falta do livro que deveria ser meu companheiro de viagem. Porém, como estava literalmente em cima da partida, já não pude voltar atrás. Dei por mim a pensar que não haveria problema já que, recordei, existia um quiosque de jornais no terminal das camionetas. No "guichet" adquiri o bilhete –por acaso a uma funcionária simpatiquíssima. Que bom é encontrar pessoas assim! Foi então que me apercebi que a venda de jornais e revistas estava encerrada para férias. Por segundos, senti que me faltava o chão e, como caminheiro perdido num deserto, comecei a olhar para todo o lado, para ver se, no limite, vislumbrava uma ponte, uma solução, para a carência do meu problema. Mas nada. Ali à volta não havia qualquer negócio de jornais ou revistas. Para tentar saciar a minha ansiedade, imaginei que dentro do autocarro haveria alguém que transportasse consigo um jornal e, depois de o tresler, mo cederia. E entrei no meio de transporte que três horas depois me deixaria na cidade do interior –a propósito saliento a frota de veículos de elevada qualidade que fazem este trajecto regular.
Às 18h30, conforme a hora indicada, o mastodonte motorizado, de cor azul e praticamente cheio, fez-se à estrada. Começando pelos fundos, iniciei então a minha busca com o olhar para encontrar um passageiro que levasse consigo leitura em papel. Ocupados entre o seu pequeno computador aberto, o Tablet e o Smartphone, verifiquei in loco, nem um único lia um livro, uma revista, ou um simples jornal de papel. Perante aquele cenário inimaginável, rendi-me à evidência: teria de escolher entre dormir, pensar na minha cada vez maior diferença entre estes tempos que teimo em não me englobar, ou apreciar a paisagem. Como não dormi, entretive-me a pensar e a ver. Perante os meus olhos, num contraste absoluto entre o progresso e o retrocesso, surgiam estradas novas como nunca vi e um incontável universo de pequenos negócios encerrados. É um apocalipse. Desde mercearias, a instalações de pneus, a fábricas de alumínios, até pequenas oficinas de mecânica, é um doer de alma assistir a este extermínio colectivo de criação de emprego nas localidades. No panorama, são esqueletos vivos, perdidos, marcas de uma memória comercial e industrial que se finou. E lá cheguei ao meu destino.
Regressei no Domingo à noite. Claro que, inevitavelmente, acompanhado de um livro que tomei de empréstimo ao meu amigo: “O Segredo”. Embora visse o filme, não tinha lido a história escrita.
Por volta das 21h30, na viagem de regresso, eu era comparte de um grupo de cerca de uma dúzia de passageiros com destino à cidade dos estudantes. Sem surpresa, verifiquei que, mais uma vez, quase todos estariam ligados à Internet e nenhum deles se ocupava a ler.
O autocarro arrancou e as luzes ficaram num lusco-fusco. Como cego a apalpar uma parede, comecei a carregar em todos botões por cima da minha cabeça mas nenhum parecia dar-me importância e a luz necessária para eu poder ler. Numa ambiguidade, entre o aperto premente e ao mesmo tempo sabendo que era só para mim, hesitei em levantar-me e indagar o motorista acerca da falta de luminosidade. Vou, não vou? E fui! Fez-se luz no “machimbombo” e eu passei o percurso quase sem sentir a diferença da distância.
Como questão final, deixo uma pergunta um bocado estúpida: e se os autocarros levassem consigo uns jornais do dia e umas revistas? Mesmo que aumentasse uns cêntimos nos bilhetes, será que não se estaria a contribuir para que a leitura em papel não se perdesse na vacuidade? No fundo estariam a dar continuação ao princípio do livro “O Segredo”, que é, como se sabe, a universal lei da atracção: boas iniciativas trazem bons resultados.