terça-feira, 31 de janeiro de 2012

DIÁRIO DE UMA EXPERIÊNCIA SOLIDÁRIA (1)



 Pouco passava das 9h30 quando eu, o Arménio Pratas e o Francisco Veiga pusemos os sapatos a andar sobre as pedras da calçada. Os três vamos tentar apelar à solidariedade, ao mais fundo da sensibilidade humana de cada um. Vamos pedir ajuda monetária para um nosso colega, o Armindo Gaspar, que está a viver um momento indescritível de agonia financeira. Ontem, em cima dos seus já imensos problemas, viu a sua loja vandalizada e roubada dos perfumes de maior valor. O estabelecimento ficou praticamente sem nada para que ele possa continuar a ganhar a vida nos dias que aí vêm.
Eu vou à frente. Não me custa pedir… desde que não seja para mim. Passei a minha vida a pedir, quase a estender a mão. Tenho um profundo respeito por quem pede. No caso presente, faço isto sem qualquer dificuldade. Aliás, confesso, é como se fosse um qualquer trabalho, uma qualquer missão. Tenho para mim que o íntimo de uma pessoa se revela no momento em que é posta à prova, isto é, quando alguém apela à sua generosidade. Então gosto destes desafios. É como se estes contactos me enriquecessem e me ajudassem a conhecer melhor o ser humano.
O Veiga e o Arménio, homens de trabalho como eu que viemos de lá de baixo –da latrina, como costumo dizer- e, a pulso de muito esforço e trabalho, atingimos uma posição que nos permitiu até hoje viver desafogadamente. Até quando não se sabe. Noto que ambos me acompanham com muita dificuldade nesta acção. Sentem-se constrangidos.
Para quem não faz da mendicidade um exercício diário, o acto de pedir –para nós mesmo- implica um estado de alma, uma coragem constante da parte de quem roga. Por outras palavras, é o sofrer antecipadamente, sabendo que o nosso interlocutor tem aquilo que nos falta, mas com uma elevada esperança na satisfação do pedido. É saber que, psicologicamente, no fundo do espírito estamos uma lástima, mas temos de fingir, teatralizar. A humildade deve estar sempre presente. O doador, embora seja imanente à condição humana, psicologicamente,  gosta de sentir que está por cima. Embora no momento de doar seja tomado de vários conflitos em catarse. O medo de um dia trocar de posição com o sujeito que está à sua frente passa-lhe sempre pela mente e, muitas vezes, vai condicionar a sua vontade, impelindo-o a contribuir.
Pedir para outros, para outras causas –pelos menos no meu entendimento- é muito fácil. Não implica o rebaixamento psicológico. Antes pelo contrário somos tomados de um sentimento de alteridade, fazermos algo transcendendo a diferença e em prol de alguém, que a maioria não consegue. Então acontece que, nesta situação, facilmente quem pede pode tornar-se arrogante, como se sentisse que o outro, o doador, tem de ser tomado da mesma solidariedade que nos move –senti isso hoje mesmo.
Dizia eu, então, que o Veiga e o Arménio não estavam muito à vontade no desempenho voluntariamente aceite –saliento que convidei outros colegas que não aceitaram. Disseram mesmo que lhes custava muito andar por aqui “de mão estendida”, a fazer caridade. “Era demasiado deprimente”, arguiram.
Começámos num largo da Baixa. Inicialmente explicávamos ao que íamos. No primeiro estabelecimento que entrámos “o patrão não estava”, foi-nos dito pelo gerente. “O proprietário estava no Brasil e só regressava lá para a Primavera”, transmitiu-nos, a despachar-nos sem grande cuidado.
Entrámos no segundo. Aqui, quase sem explicarmos ao que íamos, o dono puxou imediatamente de várias notas.
Começámos numa rua, a seguir,  noutro espaço comercial. “O patrão está em reunião. Podem aguardar?”, foi-nos transmitido pelo funcionário, na interrogativa. Aguardámos. Veio o dono. Quando viu três sujeitos, um deles, eu, com folhas na mão, deveria ter pensado para si mesmo: “mau, mau! Daqui não vai sair coisa boa. Ou ferroada ou martelada!”
Recebeu-nos com cara de poucos amigos. Eu conhecia-o, já escrevera no blogue mais do que uma vez proactivamente sobre o seu estabelecimento. Explicámos o que nos movia. O rosto continuava tenso. Quase de má vontade, puxou de uma nota e colocou-a em cima do balcão. Enquanto começava a tomar conta da inscrição, atirei: “então, o senhor, não dá mais?” -Olha o que eu fui dizer. Enfureci completamente o bicho. Só lhe faltava deitar fogo pelas narinas. “O quê?? Olhe, já estou arrependido por ter dado isto!”, replicou, zangado. O Arménio e o Veiga, pelos traços embaraçados do rosto, pareciam pedir a Deus que os tirassem daquele filme.
Continuámos. A seguir entrámos noutra loja. Também conhecia a proprietária –já escrevi no blogue, também. Explicámos a razão de estarmos ali. Começou por dizer que as coisas estavam assim, assado. A Baixa precisava disto, daquilo, e era preciso fazer mais não sei o quê. E nunca mais se decidia. Interroguei: “podemos então contar com o seu contributo?”. Puxou de duas notas do bolso, completamente amarfanhadas e colocou-as em cima do balcão, assim da mesma forma que se coloca a palha na manjedoura do burro. Fiz de conta que não liguei, mas fiquei furioso. “Filha da mãe”, pensei com os meus botões.
Entrámos noutro estabelecimento. Após alguma indecisão. Veio uma boa dádiva, mas, atenção, tinha de ser anónima. Ninguém poderia saber. “às tantas, ainda vão dizer que o que dei é pouco. Sei lá!”, replicou.
Continuámos. Reparámos que nesta artéria quase todos tinham conhecimento do caso pelo Diário de Coimbra. Muitos ao comparticipar invocavam: “o senhor Armindo é um bom homem! Todos devemos ajudar. Não sabemos o nosso dia de amanhã!
Entrámos noutra rua. O Arménio já estava à vontade. Até parecia que sempre fez aquilo na vida. O Veiga continuava reservado, mas andava sempre ao nosso lado. Nesta rua fomos surpreendidos pela enorme generosidade de vários comerciantes. Também entrámos em algumas lojas onde o desespero e a frustração de não poder ajudar era patente no rosto: “desculpe, desculpe, mas há vários dias que estou a fazer um, dois euros. Não conseguimos ganhar para renda. Sinto tanta pena!” –reparei no casaco coçado que tinha vestido. Tinha a certeza de que falava verdade.
Continuámos. Numa loja, onde os patrões estavam noutra cidade, falámos com a funcionária. Disse-nos: “eu vou transmitir o vosso pedido, mas olhe que eles nunca estão abertos a nada. Nunca ajudam ninguém. Mas não importa, contribuo eu” –e puxa por uma nota do bolso para nos dar. Não aceitámos. De empregados não aceitamos, já bastará as suas dificuldades.
Entrámos noutro estabelecimento. Estava um colaborador. Explicámos ao que íamos. De maus modos, replicou: “eu quero lá saber disso? O problema é dele! Eu já não sou aumentado há três anos!”, replicou com azedume e patente ressabiamento.
Entrámos noutro espaço comercial. Nem foi preciso alongarmo-nos. “Eu sei ao que vêm. Eu li no jornal. Gosto muito do Armindo. Uma boa pessoa. Que pena! Não imaginava que precisava da minha ajuda!” –e dá uma vultuosa contribuição. À saída ainda diz: “eu depois vou fazer outra entrega pessoalmente ao Armindo!”
Vamos a outro comerciante: “tenham paciência, mas eu quero fazer a minha entrega anonimamente. Vou deixar debaixo da porta do estabelecimento do Armindo” –Diz-nos em recado.
Vamos a outra loja de um abastado comerciante. O Arménio e o Veiga tentam desmotivar-me a ir lá. Um deles diz: “Ó pá!, parece que não o conheces. Só vamos perder tempo!”
Mas eu gosto de esticar a corda. Quero mesmo ver como reage o homem perante este caso de necessidade. Sou eu que falo, a expor a situação que nos levou ali.
-O que vocês andam a fazer é uma vergonha! –Enfatiza.
-Vergonha? Porquê? –Interrogo.
-Porque sim! Em vez de andarem aqui a pedir aos comerciantes, deviam ir directamente às instituições!
-Ai sim? E a que instituições  nos podemos dirigir? –Interrogo.
-Não sei… sei lá! Isso é um problema vosso! –Replica com algum mau modo.
-Mas o senhor tem consciência do estado financeiro em que se encontra o Armindo? É uma questão de humanidade. Ele precisa de dinheiro para retomar a sua actividade. Ficou com a loja toda destruída. –Contraponho.
-O senhor agora quer dar-me lições de humanismo, é? Quer-me ensinar? –replica meio furioso.
-Não, não quero. O que preciso é da sua contribuição. Pode ajudar? –respondo e interrogo.
-Devo dizer-lhe que não gosto de algumas posições que o senhor toma. Está a ouvir? –Desafia.
-Que posições? Pode exemplificar? –Pergunto.
-Não posso, nem quero. Quem é você para me interrogar? –E virou-nos as costas displicentemente.
O resultado desta primeira experiência solidária foi fantástico. Os homens de boa vontade deram-nos 1230 euros nesta manhã, deste primeiro dia. Estas excepcionais pessoas ajudaram a colmatar o azar de um homem bom. Muito obrigado a todos. Que sejam abençoados. Amanhã continuaremos.



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

UM COMENTÁRIO RECEBIDO...




Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "OS PANAIS DO DESMAZELO": 


Vamos lá por partes.
A CMC, Câmara Municipal de Coimbra, parece que está a querer sacudir responsabilidades deste assunto.
Quase de certeza que os ditos pendões foram lá colocados com autorização da autarquia. Logo a mesma deveria notificar os responsáveis para os retirar. Digo mais, nem devia dar autorização para ali serem colocados pois pelos vistos prejudica o sistema de videovigilância .
E a PSP nada diz acerca dos pendões?
Este actual executivo da CMC anda completamente a ver o Basófias passar.
É o que faz governar quem não foi eleito. O antigo presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Encarnação, tambem é culpado desta situação; o comandante nunca deve abandonar o barco mesmo quando anda completamente à deriva. 

OS PANAIS DO DESMAZELO

(ESTA FOTO É DO DIÁRIO DE COIMBRA)


 Tudo indica que um dos painéis do Jazz ao Centro que se encontra pendurado há vários meses no enfiamento do raio de acção da câmara de videovigilância e que está colocada na parede da autarquia teria, presumivelmente, prejudicado a detecção do roubo na perfumaria Pétala, ocorrido esta noite, cerca das 05h00.
Durante a manhã, por aqui, pelas ruas estreitas, várias vezes ouvi comentários apontando aqueles pendões, abandonados desde Outubro do ano passado, como causadores de uma possível ineficácia da PSP. Lembro que este estabelecimento violado, a Pétala, dista cerca de 50 metros desta polícia.
Um dos indignados era Carlos Clemente, presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, e, por inerência, deputado na Assembleia Municipal. “É inconcebível aqueles estendais continuarem ali abandonados há meses. Eu até parecia que estava a adivinhar. Em Dezembro, fiz uma intervenção na assembleia contra a sua permanência e a conspurcar o espaço público urbano. Até cheguei a falar particularmente com o presidente da Câmara, João Paulo Barbosa de Melo, que me respondeu para eu os mandar retirar, porque a junta recebia verbas para esse efeito. Acontece que o executivo a que presido não tem meios. Como é que chegamos aos candeeiros? Para além disso, quem deveria ser obrigado a retirá-los deveria ser a entidade que os colocou lá e beneficiou da sua publicidade. É ou não é?! Uma coisa tenho a certeza aquela bandeira pendurada, naquele sítio, porque está no enfiamento da direcção da câmara de videovigilância, aparentemente, prejudicou a intervenção da polícia em tempo útil.”

AS MODAS VEIGA ENCERRA UMA DAS LOJAS





 As Modas Veiga, com dois estabelecimentos de pronto-a-vestir, um na Rua Eduardo Coelho, números 41 e 43, e outro no Largo da Freiria e com frente para a Rua das Padeiras, vão amanhã encerrar esta última loja.
Em conversa com Francisco Veiga, reputado e reconhecido comerciante da Baixa com elevada experiência no ramo de comerciar, diz-me que “em virtude dos elevados custos e da exorbitante renda era impossível continuar. Ainda tentei fazer ver ao senhorio como estava a correr o negócio mas ele não quis saber. Felizmente não me faz diferença porque tenho a outra loja a poucos metros desta, mas, confesso, não deixo de sentir um apertão no peito, perante a completa insensibilidade deste proprietário e ex-comerciante.”
Já escrevi várias vezes que esta situação de os proprietários e ex-comerciantes, numa completa indiferença, ao não atenderem os queixumes dos arrendatários e teimando em manter os contratos com valores acima do admissível tem de acabar.
Sou completamente a favor da economia de livre-mercado. Porém o que está a acontecer é que, nos arrendamentos comerciais novos, temos duas classes, uma, a dos proprietários, a viverem acima da média e com rendas hiper-inflacionadas. Outra, a dos inquilinos comerciantes, pessoas muito vulneráveis devido à constante queda de rendimentos, que, tentando ganhar a vida, se vêem confrontados com rendas abusivas. Por outras palavras, estamos perante um cenário de posição dominante por parte destes senhorios.
Ora, perante o Novo Regime de Arrendamento Urbano que aí vem, é preciso tomar medidas contra quem, não tomando em conta os seus começos, numa completa frieza, teima em contribuir para a desertificação da Baixa. E, a meu ver, até nem será muito difícil de tomar medidas eficazes contra este desaforo. Basta, tão só e por parte do Governo, que os estabelecimentos comerciais fossem classificados como bens de utilidade pública e, para acelerar a sua utilização, só fosse permitido estarem encerrados 6 meses. Passando além deste prazo teria várias consequências administrativas. Se assim fosse, poderíamos ter todos a certeza que não se continuaria a assistir a estabelecimentos encerrados no Centro Histórico há vários anos.
É um escândalo o que se está a passar com os arrendamentos comerciais novos.

AUXÍLIO AO NOSSO CAMARADA COMERCIANTE




 Amanhã, terça-feira, durante a manhã, através de uma pequena comissão, irá ser feito um peditório na Baixa para ajudar o nosso colega comerciante, Armindo Gaspar. Este homem, que trabalhou toda a vida, num descarte de duques do destino, já estava a atravessar o período mais difícil que qualquer um pode sentir. Como se isso fosse pouco, e ainda tivesse que ser mais castigado, esta noite foi assaltado e fustigado com o chicote da adversidade.
Provavelmente, muitos dos comerciantes, perante este acto desesperado, irão comentar de que não é admissível uma situação destas e irão dizer que caberá às instituições desempenhar este papel. Porém, perante a situação de aflição, devemos partir para a sensibilização geral, para a acção, ou, como sempre, passando a culpa para outros e lavando daí as mãos como Pilatos, devemos esperar (sentados) que se reponha uma situação individual de calamidade?
O mal desta classe, no meu entendimento, é chutar sempre para canto os problemas que a aflige. Ando há quatro anos a escrever sobre este assunto. Porque ao longo de muitas décadas estes profissionais sempre viveram bem e agora, por vários factores –sendo a maioria extrínsecos à sua responsabilidade- estão a cair na indigência. Bem sei que custa muito em dar o rosto quando se já lá esteve em cima e agora, num descambar continuado, se está no último patamar que separa o remedeio e a pobreza. Talvez o livro de Elísio Estanque, que dará ao prelo proximamente, com o título “Classe Média, Ascensão e Declínio”, explique em pormenor e sobre a óptica do sociólogo, o não assumir deste decadente estado social.
Contrariando o geral, neste caso concreto, num acto de coragem sem precedentes, o Armindo Gaspar dá a cara –aliás, como sempre fez- mais uma vez para mostrar aos seus camaradas, para mostrar a quem de direito, no caso as instituições, que o seu assobiar para o lado em face do que se está a passar envergonha todos. Não encavaca somente os comerciantes, mostra a frio a hipocrisia reinante no nosso meio. Bem sei que, infelizmente, esta situação de penúria social não é exclusivo desta classe comercial, mas chama a atenção para esta injustiça. Esta agremiação, para além de, durante toda a sua vida, ter contribuído para a riqueza do país, durante décadas, deu emprego e trabalho a quem dele necessitou. Hoje, numa cobardia institucional, estes operadores, caídos na mais reles miséria, não têm direito a subsídio de desemprego.
Pode ajudar amanhã o Armindo?


UM COMENTÁRIO RECEBIDO...




Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "PERFUMARIA PÉTALA ASSALTADA": 


 No que eu poder ajudar podem contar comigo. Sou amigo do Armindo ele merece toda a ajuda possivel.
Logo mais passarei pela Pétala .
Vou divulgar este pedido de ajuda no meu blogue.
Hoje por ele amanhã por mim. 



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JPG deixou um novo comentário na sua mensagem "SOCORRO PARA UM HOMEM BOM": 


 Não conhecendo o Sr Armindo, acho que os familiares e amigos mais próximos poderão encaminhá-lo para que apresente queixa na polícia e declaração de sinistro junto do mediador de seguros (caso ainda não o tenha feito).

Relativamente à situação da casa, a DECO tem um gabinete de apoio, onde podem ser prestadas algumas informações que ajudam que passa por situações destas.

Pode parecer óbvio, mas quando não conseguimos racionalizar correctamente, a confusão que se instala até nos impede de ver o evidente.

Abraço e FORÇA!!! 



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NOTA DO EDITOR


 Muito obrigado, João Paulo e Jorge Neves. Neste caso concreto já todos esses passos foram dados. Aqui, com este pedido de ajuda, saliento, é preciso auxílio material, dinheiro, para o Armindo poder fazer face aos primeiros dias e até o seguro lhe pagar o devido.
Abraço e agradecido.

SOCORRO PARA UM HOMEM BOM





 O Armindo Gaspar tem cerca de 60 anos. Começou a trabalhar no comércio ainda criança. Fez de tudo um pouco para atingir um patamar que lhe permitisse viver desafogadamente e dar às suas duas filhas o que os seus pais não tiveram possibilidade de lhe proporcionar.
Este comerciante, sentindo e sabendo o que passou, nos últimos anos, prejudicando tantas vezes a sua actividade comercial, nos últimos vinte anos, tudo tem feito para ajudar os comerciantes que precisam. Primeiro foi na ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, depois foi na APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, onde ainda é o presidente da direcção.
Hoje o Armindo Gaspar, o nosso camarada, o nosso colega, acaba de, mais uma vez, ver o seu estabelecimento, o seu ganha-pão, assaltado e está a viver uma situação financeira preocupante e precisa do auxílio de todos. É certo que tem seguro, mas o prémio só será pago depois de inventariados os prejuízos, o que quer dizer que vai demorar um tempo, e, estando a loja vazia e semi-destruída, o nosso compatriota precisa de continuar a trabalhar. Sabendo que toda a classe comercial está numa situação aflitiva, mesmo assim, sem seu conhecimento, atrevo-me a pedir socorro para este homem bom. Dentro do que pudermos, e tendo em conta que amanhã poderemos ser nós, temos todos obrigação de repartirmos o pouco que tivermos com este nosso companheiro.
Está na hora de todos os comerciantes darem as mãos para ajudarem este comerciante, que, tal como outros, está a viver um momento de grande aflição.
Há uns anos para cá, com a queda abrupta das vendas no comércio tradicional, o Armindo, a par com os seus rendimentos, começou a cair a pique. Há cerca de duas semanas o Armindo e a sua família, numa palmada fria e inconsequente do destino que só quem a leva consegue avaliar, viu ser-lhe confiscada a sua habitação pelo banco.
Vamos ajudar o Armindo Gaspar?




PERFUMARIA PÉTALA ASSALTADA




 Esta noite, cerca das 05h00 da manhã, a perfumaria Pétala, na Rua Visconde da Luz, foi assaltada. No tempo de pouco mais de um minuto, dois indivíduos presumivelmente encapuzados, depois de terem estilhaçado as duas portas de vidro de acesso, limparam as prateleiras com os perfumes de marcas mais caras.
Ainda não contabilizados mas os valores rondarão para cima de 30 mil euros. No chão, num cenário apocalíptico, são visíveis os estragos, com frascos sem tampa e milhares de vidros estilhaçados.
Num canto, sentado, completamente abatido e com as lágrimas a correrem pela face está Armindo Gaspar, que num remoque repetido, como grafonola com disco riscado, repete até à exaustão: “que mal fiz eu a Deus para merecer tanto mal, um em cima do outro. Nos últimos tempos, tudo me cai em cima."
 Este homem, que desde criança trabalhou, tal como muitos comerciantes, está a viver uma situação aflitiva, como só quem passa por igual saberá dar valor.
O estabelecimento tem seguro. De salientar que a Pétala foi assaltada há cerca de dois anos, mais precisamente em 21 de Abril de 2010. Lembro também que este estabelecimento dista cerca de 50 metros da 2ª esquadra da Polícia de Segurança Pública.

 

SOCORRO PARA UM HOMEM BOM


 O Armindo Gaspar tem cerca de 60 anos. Começou a trabalhar no comércio ainda criança. Fez de tudo um pouco para atingir um patamar que lhe permitisse viver desafogadamente e dar às suas duas filhas o que os seus pais não tiveram possibilidade de lhe proporcionar.
Este comerciante, sentindo e sabendo o que passou, nos últimos anos, prejudicando tantas vezes a sua actividade comercial, tudo tem feito para ajudar os comerciantes que precisam. Primeiro foi na ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, depois foi na APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, onde ainda é o presidente da direcção.
Hoje o Armindo Gaspar, o nosso camarada, o nosso colega, acaba de, mais uma vez, ver o seu estabelecimento, o seu ganha-pão, assaltado e está a viver uma situação financeira preocupante e precisa do auxílio de todos. É certo que tem seguro, mas o prémio só será pago depois de inventariados os prejuízos, o que quer dizer que vai demorar um tempo, e, estando a loja vazia e semi-destruída, o nosso compatriota precisa de continuar a trabalhar. Sabendo que toda a classe comercial está numa situação aflitiva, mesmo assim, sem seu conhecimento, atrevo-me a pedir socorro para este homem bom. Dentro do que pudermos, e tendo em conta que amanhã poderemos ser nós, temos todos obrigação de repartirmos o pouco que tivermos com este nosso companheiro.
Está na hora de todos os comerciantes darem as mãos para ajudarem este comerciante, que, tal como outros, está a viver um momento de grande aflição.
Há uns anos para cá, com a queda abrupta das vendas no comércio tradicional, o Armindo, a par com os seus rendimentos, começou a cair a pique. Há cerca de duas semanas o Armindo e a sua família, numa palmada fria e inconsequente do destino que só quem a leva consegue avaliar, viu ser-lhe confiscada a sua habitação pelo banco.
Vamos ajudar o Armindo Gaspar?

sábado, 28 de janeiro de 2012

UM COMENTÁRIO RECEBIDO...




Melissa Pereira deixou um novo comentário na sua mensagem "DO BARULHO ENSURDECEDOR ATÉ À VITÓRIA FINAL": 



  É de lamentar que uma pessoa aparentemente tão instruída não saiba separar as coisas. As aparências iludem. Desvalorização do que fazem os jovens? Obrigada mas não. Onde se admite que pessoas com reformas de 485€ (outras menos) paguem um passe de 51€?

Se calhar a si não lhe pesa, que deve ganhar muito.
Esses alunos a que se refere especificamente (quanto ao facto de estarem a beber cerveja) não falam por todos, além de que isso ocorreu após o protesto. Nós lutamos por outra causa, esta foi só mais uma delas. Há dois anos troquei a minha véspera de Natal acomodada por sorrisos e abraços de sem-abrigo. Passei horas a distribuir comer e agasalhos pelas ruas. Até roupa que tinha vestida dei. Quer falar sobre isso?
Não seja retrógrado e não desvalorize o trabalho dos outros. Não somos todos iguais. A verdade é essa. 


NOTA DO EDITOR

 Começo por lhe agradecer o comentário, Melissa. Antes de argumentar em defesa dos meus pontos de vista gostaria de lhe dizer que não sou muito instruído –no sentido de que, por falta de tempo e impossibilidade, li muito pouco, sobretudo os clássicos que todos dizem ter lido, e mesmo a frequência escolar foi a possível. Quanto muito, tento ser esclarecido.
Com humildade, quero dizer-lhe, minha cara Melissa, que, quando apela para eu não ser retrógrado e não desvalorizar o trabalho dos outros, tenho também algo a dizer. No primeiro caso, de ser retrógrado –que se opõe ao progresso-, confesso, muitas vezes e neste caso específico sou. Mais à frente explicarei porquê. No segundo, “de não desvalorizar o trabalho dos outros”, tenho de lhe dizer que habitualmente tento não o fazer, mas, quando o intento, argumento com os meus pontos de vista. Neste caso concreto, e aqui já me estou a adiantar, é que não estou a desvalorizar o trabalho dos manifestantes. Sabe porquê? Porque esta mostra não é labor. Sendo claro e incisivo, o trabalho dos alunos, enquanto exercício profissional, é estarem nas aulas e não na rua.
Continuando, digo-lhe que, como refere, o facto de haver reformas de 485 euros, é escabroso, concordo consigo. Mas essa preocupação transcende –ou pelo menos deve ultrapassar as preocupações de alunos com a vossa idade, sensivelmente entre 15 e 17 anos. Incluindo o custo dos passes sociais. Esse sentir cabe aos vossos pais. Não quero dizer que um adolescente pré-adulto não deva informar-se sobre tudo o que se passa à sua volta, porém, por muito que se interesse sobre política –da polis-, falta-lhe o conhecimento e a maturidade, adquiridos com a experiência empírica. Na minha forma de ver, um adolescente como você, creio, deve preocupar-se, acima de tudo, em aprender. É para isso que a escola, enquanto extensão do Ministério da Educação, foi criada.
O problema da educação em Portugal, nos últimos 30 anos, é que está demasiado politizada. Claro que não será por culpa dos alunos, mas sim dos sucessivos ministérios que, entre avanços e recuos, não sabem o que fazer e também de uma classe de professores, muitas vezes, demasiadamente preocupada com a sua sobrevivência e elevadamente dividida entre vários sindicatos.
Gostaria de lhe dizer que não me fixei extraordinariamente no caso de alguns seus colegas estarem a beber cerveja –que, contrariamente ao que afirma, foi durante a manifestação, mas isso também não interessa nada. Chamei o assunto à colação porque, suportando-me dessa imagem, queria mostrar um outro mundo, subterrâneo, que existe para além do que se apreende. Hoje vivemos num tempo em que é moda manifestarmo-nos contra tudo, umas vezes com e outras sem razão. De tal modo, neste acaso de que argumento, que me parece inconcebível as escolas presentes na manifestação terem facilitado a falta às aulas nesta sexta-feira. As escolas, no geral, deveriam incutir nos alunos o sentimento da necessidade de aprender –não quer dizer que considere despiciendo o emergir do direito de manifestação. Creio é que em vez de despoletar o sentido de o fazer em grupo, deveriam fazer saltar o direito à indignação individual. O agir em massa é sempre estar a escudar-se no todo, sem dar a cara. É mais fácil e até é divertido –como foi o caso de que nos reportamos.
Minha cara, por muito que lhe custe ouvir, o que se assistiu ontem, foi a um carnaval, onde o ruído imperou. Penso que, a haver este tipo de reivindicação, tal, deve ser feito pelos vossos pais. Mais ainda, há locais próprios para ser feito, nomeadamente a Assembleia Municipal e o Executivo. É certo que isso implicaria que os vossos progenitores dessem a cara e, como sabe, a maioria, num mau exemplo para os filhos, não quer. Então vai-se pelo lado que é mais fácil: vocês, enquanto filhos e alunos. Primeiro porque, devido à vossa pouca idade, são muito mais fáceis de envolver em causas, segundo porque estão mesmo ali à mão de semear. Numa frase curta: vocês estão a ser instrumentalizados.
Gostaria de lhe dizer também que, contrariamente ao que muitos vos dizem, não há direitos inalienáveis –mesmo plasmados na Constituição. Há direitos a manter, como princípios indicadores da cidadania. Mas, tais, só serão alcançáveis enquanto o meio social envolvente, entre o contexto e a circunstância, o permitir –para ser claro: o “Ser Pessoa” é um direito constitucional inviolável e inalienável. Porém, em cenário de guerra não vale nada.
O que tento mostrar é que –não pretendendo defender este ou outro qualquer governo- os cortes na educação que estamos a assistir são inevitáveis. Tais como outros, na saúde, por exemplo. Foram conquistados e duraram até ao momento em que o estado económico do país o permitiu. Por muito que custe a entender, isto é mesmo assim.
Gostaria de lhe dizer ainda que faço parte de uma fracção de milhares de portugueses que, tal como os demais, comecei a trabalhar com 10 anos. Não estudei em tempo útil porque estava a ganhar dinheiro para os meus pais. O que estudei, ao longo da minha vida, foi de noite ou, como ave de arribação, cortando aqui, extraindo acolá, tomando notas, ler um jornal no café e mais um livro usado lá adiante. Em suma, fiz a minha formação intelectual a “martelo”. Foi assim a minha vida –tal como milhares de outros, volto a repetir, para que não pense que esta minha experiência me dá mais direitos do que a qualquer outro. Simplesmente se, por um lado não me confere prerrogativas especiais, por outro não é despiciendo –pelo menos para mim. É que não me esqueço que, no meu tempo de escola básica, para a frequentar, andava diariamente 10 quilómetros a pé.
Só para terminar, quando diz que “não me pesa e devo ganhar muito”. Estou a repetir-me, mas trabalho todos os dias –repito, todos os dias- e tento ser uma pessoa poupada. Tenho dificuldades como a maioria. Tento dar a passada conforme o alcance das minhas pernas.
Concordo consigo, quando diz que “não somos todos iguais”. Acontece que, com estas manifestações de rua, dá a parecer que o somos mesmo. Que todos, sem grande esforço individual, temos direitos iguais, mesmo sem a necessária correspondência de obrigação.

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JPG deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO...": 


Obrigado pela paciência e pela lição.

Se as "Melissas" forem ao PRIBERAM saber o significado de algumas palavras que aqui utilizou, foi sem dúvida, mais proveitoso do que a dita "manif".

Claro que a agitação social está normalmente de mão dada com a irreverência estudantil, tal como a ignorância e a arrogância não têm apenas em comum a terminação...

Só aumento das bejecas no NB ou dos shots no Teatrix é que não têm direito a "indignados", Arre!!!

Bom fim de semana! 



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Guida deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO...": 


 Só não concordo quando diz que os jovens não devem sentir as dificuldades. Devem sim, sempre soube o que poderia ou não pedir aos meus pais exactamente por saber como eram as coisas. E se hoje sei encarar as dificuldades económicas que vão aparecendo é exactamente por ter aprendido ao longo da vida: 1º com espectadora, depois como conselheira/cúmplice e depois como actuante. Explico-me (e é só um exemplo): os meus pais decidiram que eu haveria de estudar num Colégio (andei lá 5 anos); pagava-se; os rendimentos não eram assim tantos; para uma instrução melhor (e estamos a falar de um tempo em que havia falta de professores nos liceus, começando muitas cadeiras a ser leccionadas depois do Natal) não havia passeios, nem cinema, nem "barbies", nem consolas... não havia extras desnecessários. No meu ano de finalista (curso superior público) como é normal houve uma viagem, uma semana num local turistico muito procurado. Ôs meus pais só souberam depois dos meus colegas voltarem. É que nem me passou pela cabeça pedir-lhes o dinheiro para tal "gosto".
Já agora, permita-me um extra-comentário: nessa viagem + de 90% dos participantes eram bolseiros. 



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

UMA IMAGEM POR ACASO...




 A Baixa, apesar de ter muitas lojas encerradas, felizmente para todos, continua a ser um local de eleição para muitos que querem ganhar a vida tentando a sorte. Como já tenho escrito, as rendas continuam a ser impraticáveis para quem vem de novo. É certo que há um aceitamento tácito de quem se quer estabelecer, mas falta por aqui algum bom senso por parte dos proprietários. A maioria deles são ex-comerciantes e sabem muito bem como estão as coisas. E mais, foi nesta Baixa que atingiram um estatuto que lhes permitiu estarem agora a viver de rendas. Não deveriam ter um pouco de mais respeito e consideração por quem vem de novo? O Sol deve ser para todos ou apenas para alguns?
Não escrevo isto por acaso, ou porque tenha inveja, mas sei de vários casos de comerciantes com rendas em atraso... porque o negócio que se faz no dia-a-dia não dá para cumprir.
Talvez valha a pena pensar nisto. Se por um lado esta renovação é saudável, por outro, custa ver partir muitos deles, após alguns meses de grande esforço, com os sonhos desfeitos. Está certo Isto? Onde fica a moral?

P.S. -É evidente que me servi desta foto somente para mostrar a constante procura de espaços no Centro Histórico. O restante da minha reflexão nada tem a ver com este novo estabelecimento que irá surgir muito em breve na Rua Ferreira Borges.

ISTO É MUITO ESPIRITUAL...

JANTAR SOLIDÁRIO "AQUECER COIMBRA"





Exmos Senhores
 A Associação Integrar tem a honra de divulgar mais uma iniciativa da Equipa de Apoio Social Directo, inserida na Campanha "Vamos Aquecer Coimbra" e que conta a colaboração da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra e da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra. Assim, iremos, em conjunto, promover o Jantar Solidário "Aquecer Coimbra", destinado à população em situação de Sem-Abrigo.
Este jantar decorrerá na próxima 3.ª feira, dia 31, a partir das 20h, na Praça 8 de Maio.
Junte-se a nós e apoie esta causa!
Atenciosamente,  
A Secretária-Geral Adjunta
Dora Rigueiro



DO BARULHO ENSURDECEDOR ATÉ À VITÓRIA FINAL




 Hoje, cerca das 9h00 e junto à porta da Câmara Municipal de Coimbra já eram visíveis largas dezenas de alunos do ensino secundário. Numa manifestação ruidosa, com recurso a buzinas e a megafones, em que, pelo alarido, ninguém ficaria indiferente, era impossível não dar por ela.
Cerca das 11h30 o número de manifestantes já tinha aumentado significativamente. A poucos minutos do meio-dia já seriam centenas. Segundo o que poderia ser lido nos cartazes, estavam em causa os cortes na educação e o aumento dos passes sociais.
No meio da multidão o Adelino Paixão, um corredor de fundo destas ruas estreitas, não perdia pitada do que ali se passava. Estava um pouco ensimesmado. Especulando, perante todo aquele barulho de encenação, em face de vários miúdos estarem com garrafas de cerveja de litro na mão e a beberem, dos vários alunos adolescentes a lançarem ao vento nuvens de fumo dos cigarros, o que pensaria o Adelino daquilo tudo? Será que estaria a comparar a vida destes putos com a sua? Não se sabe, mas é provável. O Adelino, juntamente com a companheira, está a dormir diariamente num resguardo junto à Loja do Cidadão. Muitas vezes, estou certo, se deitarão na pedra fria, envoltos com um cobertor que mal lhes cobre a aceitação do pouco que têm, e com a barriga a dar horas. É certo que ambos foram presenteados pela natureza com uma anomalia psíquica, mas mesmo assim, se calhar, o Adelino pensará que entre o reivindicar destes jovens, com uma vida materializada plena de tudo, e o viver que lhe calhou em sorte há uma grande falta de equidade. É certo também, continuará a pensar o Adelino, que cada um sofre e sente à sua maneira, conforme os seixos pontiagudos lhe ferem os pés descalços. Quer dizer, para quem andar descalço, mas ele olha em volta, para o chão, para o calçado que os juvenis têm nos pés e vê sapatilhas de marca e caras. Mas, afinal, porque reclamam estes moços? Será porque são uns sortudos e não sabem? –interroga o Paixão com seu casaco que já viu melhores dias e umas alpercatas que já foram.


LEIA AQUI O DESPERTAR



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA



Para além do "Medina aqui tão perto", deixo também dois textos que escrevi e que pode ler lá também


REFLEXÃO: BAIXA, TERRA DE ESPERANÇA

 No último texto que escrevi sobre o Eldorado, dizia o Manuel Ribeiro que “os comerciantes da Baixa estão derrotados psicologicamente. Perderam o entusiasmo”. Se, por um lado, tendo em conta que este velho lobo do comércio se afastou das lides da compra e venda já há muitos anos e devemos desvalorizar um pouco as suas palavras, por outro, e apesar de ver de fora, temos de lhe dar completa razão.
Quem estiver atento, assiste-se no comércio da Zona Histórica a dois movimentos contrários entre si. Um, o dos instalados e constituídos por sujeitos acomodados, presos a rendas antigas ou lojas que vêm dos pais em herança, sem ânimo, está cá por estar e não faz nada pelo meio envolvente. Com o tempo, tornaram-se máquinas presas a rotinas anacrónicas. Abrem portas cada vez mais tarde e encerram cada vez mais cedo. Convencê-los a laborar ao sábado de tarde nem pensar. Outro movimento, centrífugo, em contrário e de grande velocidade, é o de quem chega de novo. Começam com poucos meios num lugar estranho. Com rendas elevadas, a raiar o abuso de posição dominante, a sua esperança no amanhã é infinita. Trabalham de segunda a sábado, todo o dia. Donos de uma fé inabalável, acreditam verdadeiramente na sua vontade. Apesar da retracção económica e de alguns encerramentos, constata-se uma renovada procura. Para muitos, esta zona continua a ser a ponta do sonho materializado. O futuro comercial da Baixa, essencialmente, vai depender destes novos empreendedores.

O MERCADO DA AGONIA




“Querem acabar com o Mercado Municipal D. Pedro V. Ninguém se interessa por nada!” –é assim que Alberto Henriques, um reconhecido comerciante desta antiga praça popular da Baixa, se refere. “A escada rolante, que dá acesso do rés-do-chão ao primeiro-andar, está avariada e inactiva desde o dia 8 de Dezembro. De um total de três elevadores, embora um esteja a funcionar, dois estão incapazes de servir. Um há quatro e outro há oito meses. Perante este desleixo continuado, deveria passar a chamar-se “mercado da agonia ou das lágrimas”! Nós estamos para aqui abandonados e ao deus-dirá! Esta escada mecânica é essencial para o acesso dos mais idosos. Dá impressão que a autarquia quer arrastar deliberadamente este espaço de memória para a lama. Quando vejo o estado a que chegou o “meu” mercado, acredita, dá-me vontade de chorar. Eu estou aqui há quase quatro décadas. Conheço a história de qualquer um que aqui vende de trás para a frente. Estou triste. Muito triste!”

E AS ASSOCIAÇÕES DO MERCADO? POR ONDE ANDAM?

 O Mercado Municipal D. Pedro V tem duas organizações representativas: a CPAMMDPV, Comissão de Produtores Agrícolas do Mercado Municipal D. Pedro V, e a ACMC, Associação do Comércio dos Mercados de Coimbra. Esta com sede dentro do próprio mercado.
Quando questionada sobre este facto uma vendedeira de hortaliça, no rés-do-chão, que pediu o anonimato, enfatizou: “ora, ora! Eles querem lá saber! Toda a gente vê que o mercado morre um pouco todos os dias, e eles, que estão cá, não se apercebem?”


E O VEREADOR RESPONSÁVEL O QUE DIZ?


 Perante o desânimo dos comerciantes do Mercado Municipal contactei o vereador incumbido pelo pelouro, João Orvalho, que respondeu o seguinte: “compreendo o desalento dos operadores do mercado. Não está fácil... a solução para as intervenções nas escadas (primeiro foram duas avariadas, mas retiraram uma peça da que está em pior estado e repararam a outra). Agora só falta haver tesouraria -com o novo ano contabilístico a funcionar- para fechar o procedimento e passar à requisição do serviço; o mesmo se passa com os elevadores, cujo contrato de manutenção finalizou.
Gostaria de deixar uma mensagem de esperança a todos os que trabalham no Mercado Municipal. Enquanto responsável pelo pelouro,  quero dizer que desde que tomei posse, lancei a mim mesmo o desafio de revitalizar este grande “ex-libris” da Baixa e é o que estou a fazer. Muito em breve anunciarei um plano que irá revolucionar toda esta grande praça popular. Como sabem o município tem graves dificuldades financeiras e, por isso mesmo, as soluções, por vezes, tardam. Peço-lhes encarecidamente alguma paciência e um voto de confiança. Não me esqueço de vós.”




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A RES PUBLICA... DAS BANANAS

(IMAGEM DA WEB)



 O Governo acaba de anunciar que vai extinguir os feriados do 1 de Dezembro e 5 de Outubro.
Antes de prosseguir, como salvaguarda, gostaria de dizer que não sou um republicano muito convicto. Pelo que sei, pelo que leio, enferma dos mesmos vícios da Monarquia. Basta debruçarmo-nos um pouco sobre o período entre 1890, com as críticas mordazes de Rafael Bordalo Pinheiro, e 1910 para verificarmos que os dois sistemas políticos sofrem do mesmo cancro: benefício claro da mesma família aristocrática.
Continuando, depois da ressalva, nesta supressão dos feriados, há uma questão que é notória: fará algum sentido ainda no ano passado o Estado ter gasto cerca de 10 milhões –vou repetir, dez milhões- de euros nas comemorações do Centenário da República e este ano acabar com a sua efeméride?
Pode até argumentar-se que o Governo do ano passado, de Sócrates, era Socialista e o deste ano, de passos Coelho, é Social-democrata. Mas isto diz o quê? Sei lá! Se calhar que o primeiro, Socialista, não olhava a meios para atingir os fins… de propaganda e o segundo, Social-democrata, que não olha aos fins para cortar nos meios… mesmo caindo no ridículo e na falta de respeito por quem é Republicano e sente a causa profundamente.
A diferença entre o custo e o benefício justificará esta medida? Estou convencido que não. Mais ainda, por uma questão de equidade na análise, vamos colocar numa balança de dois pratos de um lado a comemoração da República e do outro a efeméride do 25 de Abril. Porque razão pesará mais a data da revolução dos cravos? Por ser mais recente e estar mais avivada na memória? E este argumento é convincente? Para quem? Bom, se calhar, para os que hoje, à custa do derrube do Estado Novo, enriqueceram de sobremaneira.
Já agora, especulando ironicamente e tentando encontrar razão onde não há, pensando melhor, provavelmente o Governo até estará certo ao apagar com uma borracha a data de 5 de Outubro. Senão vejamos: “República” vem do latim “Res publica, que significa coisa pública, de todos, do colectivo. Ora se nos últimos anos todos temos assistido a um progressivo desgaste do seu sentido de partilha societário em benefício de alguns, é lógico que não se entende continuar a elevar-se algo que se arrasta pelas pedras da calçada. Às tantas foi por isto mesmo que se apagou a luz republicana. O que podiam era ter explicado. É ou não é? Evitava eu de estar para aqui a deitar fumo pelas orelhas.
Voltando novamente ao sério, é com estas decisões que, por um lado, se começa a entender como é que as Finanças Públicas estão no charco, por outro, porque é que há uma onda crescente de hostilização aos políticos que governam ou governaram o país.
Esta decisão, perante o acontecimento do ano passado, no mínimo, deveria merecer deste Governo algum respeito. É uma decisão demasiadamente caricata para conseguir compreender.