quinta-feira, 31 de julho de 2014

O PS E A "EXCEPTIO NON ADIMPLETI CONTRACTUS"

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Vou começar com três ressalvas. A primeira é que, com muita pena e apesar do título remeter para um alegado conhecimento, não percebo nada de direito. O que sei é que a “exceptio non adimpleti contractus”, excepção do contrato não cumprido, está prevista no artigo 476 do Código Civil e, aplicado às relações contratuais entre particulares, “significa que, após firmado acordo entre os particulares, caso um não cumpra com suas obrigações, o outro também não está obrigado.”. Esta explicação é uma espécie de justificação para o título.
A segunda é que, apesar de ter alguns amigos e conhecidos no Partido Socialista (PS), não sou filiado e muito menos simpatizante –apesar de me considerar liberal de convicção, pelos desmandos de insensibilidade social, iguais aos partidos da coligação do actual executivo governamental, nos últimos anos afastei-me completamente destes partidos do centro. Para mim são farinha do mesmo saco, reverso do verso da mesma moeda, onde só contam os seus interesses partidários e os dos amigos e compadres.
A terceira salvaguarda é referir que conheço pessoalmente algumas pessoas de Coimbra e cujo nome vou referir. Escusado será dizer que nenhum deles irá responder e que a partir de agora serei persona non grata. Declaro que não me importo nada. Aliás, fico aliviado porque escrevo o que penso. De mentiras estou eu farto. É por causa dos abracinhos solidários que, apesar de ser continuadamente reivindicado, a porcaria da política local e nacional nunca muda. Nunca se altera porque os importantes, os que aspiram a cargos no partido, não querem que mude. É assim uma espécie de reviralho. Vira o disco e toca a mesma.
Em abrir parêntese, digo que tal como os políticos partidários, a norma aqui na cidade é apenas responder por grau de importância horizontal. Ou seja, só haverá réplica na mesma linha estatutária, de elite de desempenho. Só por excepção, um professor universitário comentará um apontamento de um qualquer cidadão sem “dr.”, “engenheiro”, “director” ou “presidente”. No seu entendimento, se o fizessem seria como se o “senhor”, o amo, descesse do seu imaginado pedestal e viesse falar com o “criado”. É tanto mais estranho por que estas pessoas, quase sempre de esquerda, para além de apregoar e defenderem continuadamente os valores da igualdade, são formadores de futuros sociólogos, psicólogos, advogados, procuradores e juízes, deveriam sentir a obrigação de darem o exemplo no respeito em paridade pelo simples valor pessoa, de não discriminação, a todos os cidadãos. Tristeza! Fechar parêntese.
E agora sim, vou ao assunto que me levou a começar a primeira frase. Certamente como a maioria, tenho acompanhado o folhetim das expulsões recentes de cerca de uma centena de militantes do PS, onde se contam Elísio Estanque e Pedro Bingre, ambos professores do ensino superior, e passando por Cristina Martins. Lembro que já em Fevereiro, último, Ricardo Castanheira, também membro do PS-Coimbra, foi suspenso por 18 meses e, segundo carta sua no “Campeão das Províncias”, decidiu sair pelo seu próprio pé. Retirando Cristina Martins deste lote de notáveis, todos os restantes são acusados de não terem apoiado o candidato autárquico do seu próprio partido, Manuel Machado. Mas mesmo neste segundo grupo há diferenças substanciais: uns, como é o caso de Estanque e Bingre fizeram parte das listas do movimento de cidadãos. Outro, o de Castanheira, não será bem assim. Ou seja, parece-me, no primeiro caso, de Elísio e Pedro, não haverá dúvida de que violaram os Estatutos do PS, no artigo 6.º, nº 1 que diz o seguinte:
“1. É membro do Partido Socialista quem, aceitando a Declaração de Princípios, o Programa, os Estatutos e a disciplina do Partido, se inscreva como militante e seja aceite pelos competentes órgãos.”
E também o artigo 14, número 2, alínea 3 que transcreve o seguinte: “Considera-se igualmente falta grave a que consiste em integrar ou apoiar expressamente listas contrárias à orientação definida pelos órgãos competentes do Partido, inclusive, nos atos eleitorais em que o PS não se faça representar.”

E CASTANHEIRA MERECE UMA RATOEIRA?

Segundo parece, no segundo caso, com Ricardo Castanheira, a trabalhar no Brasil, não teria sido assim. Ao que se diz, este militante teria escrito um texto de apoio à nova formação independente e, logo e implicitamente, apelando ao voto contra o seu partido de origem, o PS. E é aqui que, salvo melhor opinião, o critério de aplicar a sanção, na decisão de suspensão, pode estar ferido de ilegitimidade, por duvidosa interpretação, e abuso de poder por parte da Comissão Nacional de Jurisdição. Nomeadamente por, notoriamente, contrariar o artigo 3.º, dos Estatutos, que prescreve o seguinte: O Partido Socialista reconhece aos seus membros liberdade de crítica e de opinião, exigindo o respeito pelas decisões tomadas democraticamente nos termos dos presentes Estatutos”. Isto é, um texto de opinião publicado num jornal local mesmo aconselhando o voto em outro candidato que não o indicado pelo partido poderá ser encarado no Direito Constitucional como uma manifestação de livre expressão ou, pelo contrário, pode ser visto como um desrespeito “pelas decisões tomadas democraticamente nos termos dos presentes Estatutos”?

ATÉ TU, CRISTINA?

Ao que se leu na comunicação social, esta militante da secção da Sé Nova, em 2011, denunciou a existência de militantes fantasma nos cadernos eleitorais do partido e que vieram a alterar substancialmente os resultados eleitorais. Estas irregularidades foram comunicadas ao Secretário-Geral, António José Seguro, e a outros dirigentes.
Ora se foi apenas isto –porque nunca sabemos tudo- está de ver que alguma coisa vai mal lá para o lados Largo do Rato, em Lisboa. Até porque o artigo 10º, no número 1, alínea e) e f), são declarativos:
 e) Participar à entidade competente para dele conhecer qualquer violação das normas que regem a vida interna do Partido. E não sofrer sanção disciplinar sem prévia audição e sem garantias de defesa, em processo organizado pela instância competente;
f) Arguir perante as instâncias competentes a nulidade de qualquer ato dos órgãos do Partido que viole o disposto nos presentes Estatutos;
E ainda há outro ponto que vale a pena referir. Os factos atribuídos a Cristina Martins ocorreram em 2011. Ora estes Estatutos foram aprovados em 31 de Março de 2012. O desvio à norma desta militante –que não conheço-, na punição, foi apreciado por estes Estatutos ou pelos anteriores?

POR QUÉ NO TE CALLAS?

Perante a sanção de expulsão aplicada a Elísio Estanque e Pedro Bingre pela Comissão Nacional de Jurisdição, é confrangedor verificar o coro de críticas, em autoflagelação, do próprio Estanque que, para além de outras, chega a referir na sua página do Facebook o “cheio de rodeios e simpatias” de Carlos Cidade a pedir-lhe apoio –faz-me recordar um texto que escrevi há pouco tempo sobre um certo tipo coimbrinha que exalava azedume estomacal contra o novo ocupante da cadeira do poder do paço. Aflora ainda “o caso Luís Vilar” como se tivesse necessidade de recorrer a um condenado para se defender. Isto é, dar mais pancada em quem já está no chão. Utilizando as suas próprias palavras, “manter alguma dignidade seria o mínimo; em vez de participar naquela palhaçada”, é imperioso, digo eu, não sei!
Dar uma volta pelos comentários de vários notáveis do PS, alguns nacionais mas sobretudo locais, em solidariedade pelos punidos é uma viagem ao universo fantástico da hipocrisia. É patente a notória diferença entre o que se pensa e o que se escreve. O que conta ali é o abraço solidário. A justiça, o atribuir a cada um o que é seu, nesta questão não interessa absolutamente nada. Coimbra é uma lição no bater nas costas e dizer que “és um gajo porreiro, pá! E isso basta-me! Se és meu amigo, mesmo que não tenhas um pingo de razão, tens sempre!”. O que nos transporta para uma questão: se amanhã algum destes senhores ocupar cargos ministeriais vai desempenhar a sua função com esta idoneidade e independência?
Por isto mesmo se entende e compreende tantos ajustes directos na Câmara Municipal de Coimbra desde que o PS chegou ao poder.
Até o também Conselheiro de Estado Manuel Alegre que, misturando alhos com bugalhos, envolve tudo no mesmo saco e aflora a ética como se esta fosse flexível como a pastilha elástica e ao sabor das conveniências de cada um e cada grupo. Desde o caso de Cristina Martins até Estanque e Bingre e passando pela sua candidatura a Belém, pelo Movimento de Intervenção e Cidadania (MIC), tudo serve. Como se as três situações fossem todas iguais e, na candidatura à Presidência da República, como se o PS pudesse impedir um seu direito fundamental.
É uma tristeza! Valha-nos a Santa Purga! Ao menos sempre serve para mostrar como são muitas pessoas que nos rodeiam nesta Coimbra, cuja cidade “é assim e assado”, nas suas próprias palavras.
Porca miséria!



TEXTO RELACIONADO

"A esperança arruinada"


quarta-feira, 30 de julho de 2014

ESCREVER SOBRE O QUÊ?




É raro acontecer mas estou naqueles dias em que não sei sobre o que escrever. Preciso de o fazer, como catarse, não passo sem este exercício. É uma necessidade que vem lá do fundo. É assim como se estivesse carente de um abraço profundo mas, mesmo que tivesse um milhão, não me satisfazia. Hoje, sinto-me uma espécie de folha seca que corre no riacho ao sabor da corrente. Estou enfastiado com tudo o que me rodeia, com a apatia que, aos meus olhos, reina à minha volta. Estou tristonho sem estar triste. Vou explicar melhor, é como se estivesse envolvido numa letargia que se por um lado me paralisa sem imobilizar totalmente, por outro, se me retira força anímica, também me mantém expectante. Em metáfora, é como se estivesse transformado numa múmia, de olhos brilhantes, corpo inerte e retesado. Assim no género, estou cá em corpo, porque tenho mesmo de estar, mas a alma, desalentada e como frustrada por não o poder abandonar, anseia por fugir dele, partir para longe. Aposto que ela, a alma, se pudesse, largava tudo e transmutava-se para uma terra, à beira-mar plantada, onde o pôr-do-Sol, com aquele vermelhão de Inferno de Dante, beija as águas no horizonte e um bando de gaivotas, no seu intenso chilrear pedem meças à liberdade dos humanos.
Claro que a questão principal é: porque estou sorumbático? Não haverá razões para isso acontecer? Claro que há –mas não vou contar, obviamente. Tem tudo a ver com os outros. Curioso como os nossos problemas e as soluções imbricam sempre em quem nos rodeia. Ainda que se apregoe o oposto, de que tudo está dentro de nós, mas não é assim! Se vivêssemos sozinhos, numa ilha gigantesca, mais que certo, não teríamos ansiedade, depressão, angústia e solidão. Apenas precisaríamos de respirar para viver e pouco mais. Somos seres sociais –ainda que também o contrário- porque nascemos no meio de uma comunidade. Se é certo que tal como dizia o filósofo iluminista Rosseau, o humano nasce selvagem, num estado de pureza natural e, intrinsecamente, livre e são as instituições, logo a começar na família, que o corrompem e o tornam amestrado e escravo desta mesma colectividade; é também verdade que, palavras do teórico político, “a maioria de nossos males é obra nossa e os evitaríamos, quase todos, conservando uma forma de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela natureza". Ou seja, somos tornados prisoneiros do sistema pela ambição que nos domina. A razão harmoniosa seria haver meio-termo, mas não há – o meio-termo só existe em números matemáticos. Apenas conhecemos a porta de entrada, o início do caminho, e lá penetrando, perde-se a noção de equilíbrio, de tempo e de espaço. Apenas inferimos do conhecimento do desastre quando ele acontece, ipsis verbis. Sem a agnição deste descalabro, no cair do precipício, esta ambição, para a sociedade, é o combustível que alimenta o homem e este, pelo desencadear da acção, na subsequência, é o instrumento, o motor, que leva ao desenvolvimento. Tal como a ganância, é também certo que apenas se sabe onde começou esta expansão, que anda de braço-dado com a ambição, mas não se sabe onde vai acabar –julga-se, tem-se por conta que o progresso é assim uma fonte de água límpida sempre a jorrar e que, pela sua pureza, é sempre bom eternamente porque conduz a um cada vez melhor bem-estar.
A ambição pode provir de, pelo menos três situações: quem nada tem e quer ter; quem já tem e precisa de conservar e ter mais; e quem já tem muito e quer ter muito mais.
No primeiro e segundo casos é uma questão de sobrevivência –portanto encarada como uma aspiração razoável e entendível. Já no terceiro caso, quem já tem muito e quer muito mais, ainda que do ponto de vista moral seja aceitável, trata-se de um parasitismo, no sugar o sangue à vítima e que conduzirá à sua morte. Quer dizer, por conseguinte, que, sendo legalmente admissível, do ponto de vista ético será condenável.
Depois de andar para aqui a pontapear as palavras, uma questão que emerge neste texto é: afinal onde quero chegar? Sei lá! Não faço a mínima ideia. Eu só queria escrever qualquer coisita. Mais nada! Ficou desiludido? Olhe, desculpe lá! Talvez amanhã eu tenha mais inspiração. Hoje não dá para mais.


VALE A PENA PERDER UNS MINUTOS A LER...



"UM JEITO MANSO"

“Os homens do Expresso e Ricardo Salgado, o BES, o Grupo Espírito Santo: Nicolau Santos, Pedro Santos Guerreiro, João Vieira Pereira. E Miguel Sousa Tavares. E João Duque. E outros de outra comunicação social como Marcelo Rebelo de Sousa. E o Correio da Manhã (mas isso não sei se é bem jornalismo). E os Partidos. E não só.”

BOM DIA, PESSOAL...

terça-feira, 29 de julho de 2014

AI SE EU FOSSE...

(Imagem da Web)


AI SE EU FOSSE…


Se eu fosse marinheiro,
de água doce ou salgada,
juro que te pegava no nevoeiro
e te levava embrulhada
nas velas do meu veleiro,
faria do mar uma auto-estrada,
de ti uma santa de mosteiro,
e mesmo que ficasses corada
levava-te pelo mundo inteiro,
mostrava-te o que é ser amada
numa terra de negreiro,
onde parece que a paixão cavada
no coração de aventureiro
é sentimento de cruzada
de exército sem timoneiro,
imagem de uma noite sonhada
com um amor em Janeiro
quando a folha nevada
é levada para o ribeiro,
naquela água sagrada
que faz andar o moleiro
em torno da farinha suada
em partículas de madeiro,
ou na terra lavrada
com os passarinhos em chinfreiro,
levava-te comigo, abraçada,
até ao universo verdadeiro.

VAI UMA MINI, PRESIDENTE?




A notícia chegou-me assim pela boca de duas senhoras: “então Manuel Machado, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, anda hoje a visitar as lojas da Baixa?”. Perante a minha incredulidade -já que desde a campanha eleitoral ocorrida há cerca de um ano, o usufrutuário disto tudo, desde a Associação Nacional de Municípios, passando pelo falar grosso na edilidade e todos gritarem “sim, majestade!”, até ao fazer curvar o mais gordo na Rua Castro Matoso, e ainda vir a ser o futuro Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, do próximo governo do Partido Socialista (PS), para conseguir repor o comboio da Lousã e finalmente ter uma estátua ao fundo do Parque da Cidade, nunca mais colocou os sapatos nas ruas estreitas- as senhoras insistiam: “é verdade é! Até estivemos a falar com ele e sobre o futuro do PS!”
Com o meu apurado faro jornalístico, vi imediatamente que estava perante um furo. Munido de bloco de notas, caneta e máquina de fotografar, montei na minha bicicleta e, perguntando à Celeste, uma sua admiradora, ao João, da Retrosaria Ziguezague, à Rita e à Rosa, dei a volta ao quarteirão e nada! Ninguém lhe tinha beijado a mão. Por acaso, mesmo por acaso, encontrei o “Carlitos popó”, na Praça do Comércio, e fiz-lhe a mesma pergunta. No meio de um gaguejo, como se estivesse a partir as frases com os dentes, adiantou: “oraaaaaaaaa… oraaa! Se nin… guém o con… con…vidou para vir cá ao bai…rro dos po…po…pobres, como é que…que ele apa…apa…rece? Tem de re… re…ceber um com…vite fo…fo…formal! Ele é mo…mo…nárquico! Por… por… isso nunca deixa de ir ao Reis, no Te…te…terreiro da Erva!
Fiquei a pensar nisto. Caramba! O popó é mais inteligente que mais uns tantos burgessos e pobres vira-latas como eu. Realmente é verdade! Mas como é que faço? Eu até o convidava para ir almoçar, comigo, ao “Zé Neto”, uma das muito boas casas que existem por aqui, na Rua das Azeiteiras, mas estou um bocado em baixo, sinto-me fraquito, como quem diz, com o forro das calças rotito de tanto catar. Se ainda, ao menos, aceitasse que lhe pagasse uma mini e uma sardinha frita, na Tasca da Mariazinha, na Rua do Almoxarife –e desde que não traga o séquito que anda sempre atrás dele quando atravessa a Rua da Sofia- eu até pagava. Juro que pagava!

OS EMPATA IDEIAS PARA A BAIXA



Com organização constituída por profissionais de várias áreas, estava previsto realizar neste último domingo a 2.ª Edição do “Mercadinho da Baixa”. Tal como a primeira mostra, feita no primeiro de Junho, seria apresentada na calçada, nas Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges. Na véspera, sem qualquer justificação e por e-mail, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) informou os promotores de que para aquela localização o projecto estava indeferido e dando a Praça do Comércio como alternativa. Vamos ouvir a organização do “Mercadinho da Baixa”:
“Consideramos este procedimento por parte da CMC inadmissível. Entregámos toda a documentação solicitada, incluindo as plantas de localização das bancadas. Não é a um dia do evento que oficialmente se faz a comunicação negativa. Tínhamos quarenta e tal expositores inscritos, envolvendo alguns lojistas da Praça do Comércio. Tirando o anterior esforço, deu-nos muito trabalho para desmarcar em cima da hora. Queremos ajudar a revitalizar a Baixa mas, assim, como é que se pode? Pensámos ser ao Domingo porque os estabelecimentos estão encerrados e é um dia muito morto para esta zona histórica. Certamente, vamos mudar o conceito. Se calhar, com muita pena nossa, com estes entraves e falta de respeito camarário, vamos sair desta zona.”

BOM DIA, PESSOAL...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

UM GRANDE ARTISTA QUE PARTIU







Partiu ontem deste nosso mundo de humanos animados Francisco Filipe Martins, um dos grandes guitarristas e compositor da Lusa Atenas. Ao que sei era um virtuoso da guitarra. Não o conheci pessoalmente. Coimbra, pela grande perda cultural, está mais pobre. Convém dizer que, salvo erro, as únicas homenagens que lhe foram prestadas ainda com vida provieram de uma página no Facebook criada por amigos e admiradores do grande músico e denominada de "Grupo de Amigos de Francisco Martins" e de Emília Martins, presidente da direcção da Orquestra Clássica do Centro (OCC), em Outubro de 2009 e Dezembro de 2012.
Como já é normal, para o ano, provavelmente, a família irá ser agraciada com uma homenagem a título póstumo materializada numa condecoração no Dia da Cidade. No limite ser-lhe-á atribuída uma placa toponímica numa rua, com o seu nome, e que de aqui a uns anos já ninguém sabe quem foi nem o que fez pela vida pública. Já escrevi alguns textos sobre isto mesmo, a pergunta que deixo no ar é a razão de se continuar a atribuir medalhas a esmo, no todo nacional –no Dia de Portugal- e na parte local, tantas vezes a pessoas que pouco ou nada fizeram pela comunidade e, noutras, esquecendo personalidades relevantes na história dos sítios.
Seguindo o exemplo dos Estados Unidos para os artistas, porque não se consagram “aqueles que da lei da morte se libertam”, perpetuando em vida o seu nome e a sua obra, no chão em forma de estrela, nos passeios de uma rua designada para o efeito?
À família enlutada de Francisco Martins, em nome de todos, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames.
Em jeito de memória, deixo uma crónica de Mário Nunes –também já falecido e que, durante vários anos, foi vereador da Câmara Municipal de Coimbra-, publicada no Diário as Beiras, em Dezembro de 2012, e que transcreve o seguinte:
“(...) Neste gesto de paz e esperança a OCC, dirigida pela incansável e criativa Emília Martins, agendou homenagem ao lídimo cultor da guitarra de Coimbra, Francisco Martins, corolário do tributo que lhe fora prestado em Outubro de 2009, então com a presença de grandes vultos da vida política, social e musical de Coimbra, numa organização, também, da OCC. O Pavilhão Centro de Portugal foi o espaço ideal para a homenagem. Estivemos no encontro cultural e testemunhámos que o valor e apreço de e por Francisco Martins é sobejamente reconfortante. As intervenções dos oradores com saliência para Rui Pato e Carlos Encarnação, acrescidas da leitura de poemas por Carlos Carranca, dos acordes de guitarra de Octávio Sérgio e Rui Pato, dos sons de piano por José Martins e da voz de José Miguel Baptista no “Epigrama para uma despedida”, completadas com a intervenção da Presidente da Direção da Orquestra, carregada de emoção, marcaram momentos sublimes de exaltação ao homenageado e evidenciaram atitudes de reconhecimento cultural e humanístico, que muito honram a cultura e a Canção de Coimbra."



TEXTOS RELACIONADOS


"Talvez valesse a pena pensar nisto"
"Carta a Carlos Clemente"
"Os comerciantes e a ACI(R)C(O)"
"As exéquias da indignação"
"Uma homenagem à mulher de Coimbra"
"Recebe esta medalha em nome..."
"Comendas ao desbarato"
"Baixa: um estranho cheiro no ar"
"Quanto custa atribuir o Honoris Causa"?
"Uma carta de Philadélfia"





UM COMENTÁRIO RECEBIDO E UMA RESPOSTA...




Andreia Silva deixou um novo comentário na sua mensagem "A DESTRUIÇÃO GRATUITA DA NOSSA ALMA":


Ahahaha! Contra Cultura... Não será uma referência ao avantajado traseiro da estátua?


***************************

NOTA DO EDITOR

Vamos por partes, Andreia, que, como é o caso, quando toca a referenciar um belo traseiro de mulher qualquer homem simples e ignorante, como eu, fica logo em sentido. No caso em apreço, retirando especulações feministas, digo-lhe que é uma obra de arte que eu gostava de ter na minha sala. A meu ver, a interpretação da guitarra foi conseguida com muita inteligência –e talento, naturalmente. Esta linha, pretensamente exploradora do corpo voluptuoso da mulher, é exclusiva nesta escultura? Claro que não. Começou no Renascimento e passou por vários movimentos –como a “Pop Art", nos anos de 1950, por exemplo- até hoje.
Continuando, começo por lhe agradecer o comentário, irónico e cheio de graça. Naturalmente que, como deve calcular, não ia privá-la de resposta –como estou a começar, ainda não sei se o que vai sair, se cairá para o sarcástico ou para o sério –se calhar vai ser na linha deste último. O que sei é que  vou ser longo e quase aposto que você não vai ler tudo.
Inicio com uma ressalva: não conheço o escultor Alves André. A seguir refere “Contra Cultura” como se aquela escultura passasse ao lado deste movimento. Antes de continuar, sem me armar em sábio mas por que precisamos do conceito, vou definir “Cultura”. Antes de lá chegar, sabemos que, imbricando em todas as áreas, habitualmente divide-se em dois grupos: popular e erudita. Segundo um dicionário online onde fui repescar estas ideias, “Cultura significa cultivar, e vem do latim colere. Genericamente a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro dela que é. (…) Cultura também é definida em ciências sociais como um conjunto de ideias, comportamentos, símbolos e práticas sociais, aprendidos de geração em geração através da vida em sociedade. Seria a herança social da humanidade ou ainda de forma específica, uma determinada variante da herança social. (…)A cultura é também um mecanismo cumulativo porque as modificações trazidas por uma geração passam à geração seguinte, onde vai se transformando perdendo e incorporando outros aspetos  procurando assim melhorar a vivência das novas gerações.”
Antes de continuar, embora acessório, vou também conceituar “Arte”. Segundo a “Wikipédia”, “Arte (do latim ars, significando técnica e/ou habilidade) pode ser entendida como a atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens, tais como: arquiteturaesculturapinturaescrita,músicadança e cinema, em suas variadas combinações. O processo criativo se dá a partir da percepção com o intuito de expressar emoções e ideias, objetivando um significado único e diferente para cada obra.
(…) O principal problema na definição do que é arte é o fato de que esta definição varia com o tempo e de acordo com as várias culturas humanas. Devemos, pois, ter em mente que a própria definição de arte é uma construção cultural variável e sem significado constante.
(…) Ao mesmo tempo, mesmo que uma dada atividade seja considerada arte de modo geral, há muita inconsistência e subjetividade na aplicação do termo.
(…) Mesmo que se possa estabelecer parâmetros gerais válidos consensualmente, a análise de cada caso pode ser extraordinariamente complexa e inconsistente.”
Se chegou até aqui, muito obrigada. Sem arrogância, espero ter contribuído para algum derrubar de preconceitos e, tantas vezes, a defesa de uma impositiva “normalística” na apreciação de um qualquer objecto de criação artística. Se a qualquer obra tivesse que corresponder unanimismo, estou em crer, caía na “vulgata popularucha” e perderia a catalogação como tal. 
E a prática mostra o que defendo. Hoje passei junto ao Arco de Almedina e reparei que vários turistas estrangeiros fotografavam esta obra em causa. Por estranho que talvez lhe pareça, havia também mulheres a captar imagens. Como justificar? Serão estúpidos?
Bem-haja!





UMA IMAGEM CAPTADA POR ACASO...


BOM DIA, PESSOAL...

sábado, 26 de julho de 2014

EDITORIAL: A EROSÃO DA VIDA

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Esta semana faleceu uma minha vizinha, uma comerciante com estabelecimento próximo. Como sempre faço, quando algum profissional do comércio nos deixa, escrevo um pequeno texto de elogio fúnebre. Não estou preocupado com o balanço entre o deve e o haver, como que a julgar se o que parte fez isto ou aquilo, se contribuiu ou não para uma melhor convivência. Se foi meu amigo, ou não. Se concorreu e foi importante na minha amizade eu refiro. Se não ajudou, paciência! Foi o que foi, ou que pode ser, e não estou cá com julgamentos e sentenças a posteriori. Como tenho muito de racionalista, acredito que na morte tudo se apaga. Ainda que os activos e passivos sejam transmissíveis aos vindouros, algumas dívidas devem ser perdoadas. Sobretudo algumas ofensas ou palavras menos boas que, a seu tempo, nos feriram. Somos todos falíveis. Erramos a todo o momento e não me venham cá com superioridades comportamentais. E quem não absolver o próximo não se perdoará nunca e, enquanto andar por cá, será sempre uma pessoa azeda, intratável e que implica um razoável distanciamento na coexistência pacífica que deve nortear esta passagem a que chamamos de vida. Tenho para mim que o ódio, no pior, e o perdão no melhor, são paradigmas nos sentimentos da humanidade. Quero dizer, portanto, que a crónica final que escrevo sobre alguém que morre não é um ajuste de contas. É simplesmente um resumido aplauso a uma pessoa que esteve entre nós e, à sua maneira, representou um papel na comunidade –como alguém já escreveu, afinal a sociedade será um  grande teatro onde cada um de nós, no tempo de vida que lhe cabe, vai representando cenicamente a sua função. Ora, a ser assim, o papel de bonzinho não pode calhar a todos. Alguns terão de fazer de vilões e estes, mesmo em discriminação positiva, merecem uma ovação. É assim, com este espírito, que me entrego ao elogio fúnebre em geral.
Quando comecei este texto não era propriamente isto que queria transmitir. Mas, para quem gosta de se expressar através das palavras silenciosas, a escrita é assim como pensar em regar uma parte do jardim. Quando damos por ela já estamos fora de controlo.
Agora sim, vou pegar na ideia que me levou à primeira frase. Desde há sete anos que escrevo e fotografo praticamente todos os dias. É um disparate mas, sem grande cuidado na catalogação, tenho cerca de dez mil fotos de coisas e pessoas que passaram por aqui, pela Baixa da cidade. Então quando esta semana soube da notícia da morte da minha vizinha Romy fui procurar uma sua fotografia –embora ela fosse profundamente avessa a fotos, estava convencido que tinha uma pelo menos. Se tenho, depois de passar mais de uma hora a procurar, não encontrei. A que postei depois foi gentilmente cedida pelo filho Patrick -a quem aproveito para agradecer. Ao “desfolhar” este meu álbum virtual aconteceu uma coisa interessante: com uma tristeza absorvente, tomei conta das dezenas e dezenas de pessoas que desapareceram das nossas vistas. Umas, enquanto funcionárias, foram despedidas; outras, enquanto comerciantes, encerraram os seus estabelecimentos; outras, ainda, morreram e nunca mais voltarão ao nosso meio. Por exemplo, ao ver a imagem do finito “Manel”, da sapataria Reis e tal como ele também sumida, dá uma dor lancinante no peito. É como sentir que, com o seu desaparecimento físico, estamos mais abandonados e sozinhos. É como se, em metáfora, a nossa vida fosse um pavio a arder e, à medida que envelhecemos e vemos cair os mais chegados, vai ficando cada vez mais curto. É certo que a cidade, na nossa rua, no nosso largo, se renova com outras gentes mas já não é igual. É como se com quem parte, com eles, fosse um pouco de nós. É como se a nossa vida, em imbricamento, fosse também a deles. A verdade, e por estranho que pareça, é que quando estão no nosso meio não lhe damos grande valor. Pelo contrário até embirramos com minudências, com “coisinhas” que não têm o mínimo de interesse.
Há uns anos, em conversa com uma viúva, ao tentar confortá-la com a perda do seu marido, dizia-me a mulher: “sabe uma coisa? O meu homem não era flor que se cheirasse nem carregado de perfume caro. Às vezes maltratava-me, chegando mesmo a bater-me. Acredita que chego a ter saudades de uma ou outra bofetada que ele me dava?”. Na altura, não disse nada e fiquei sempre a pensar naquelas frases aparentemente vazias de sentido vivencial. Num primeiro momento fui levado a reflectir que a mulher deveria ser masoquista. Hoje não! Agora entendo melhor o seu desabafo. Quem se vai, na grande viagem sem retorno, deixa um rasto de solidão inexplicável. Se é certo que em aforismo tudo e todos são substituíveis, na prática, na praxis do dia-a-dia, não é assim. Todos os que foram marcando a nossa existência deixam um rasgo profundo na memória. E não é certo que, até no genoma, somos feitos de todo um passado que se perde nos labirintos do tempo?

BOM DIA, PESSOAL...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A DESTRUIÇÃO GRATUITA DA NOSSA ALMA


Esta noite, a hora indeterminada, desconhecidos vandalizaram o monumento ao fado, constituído por uma guitarra de Coimbra em forma estilizada de mulher, junto aos Arcos de Almedina e da Traição. Tributo à Canção de Coimbra, esperada classificação, a par de Lisboa, como património imaterial da humanidade, elegia sentida à alma da cidade, esta espectacular obra de arte em bronze, a par também da escultura de homenagem à Tricana de Coimbra com assento no início das Escadas de Quebra-Costas, é da autoria do escultor Alves André.
Segundo o testemunho de Catarina Rosas, de uma loja de artesanato em frente, que gentilmente cedeu as fotos, “de manhã, quando chegámos para abrir a porta, deparamo-nos com este atentado à cultura, desrespeito profundo ao património artístico da cidade, e ofensa ao génio humano.”
À hora que escrevo, cerca do meio-dia, saliento o facto positivo de dois funcionários camarários já terem reparado a escultura, assim como, em tentativa falhada, a parede pintada do banco Millenium, ao lado, e também grafitada com uma frase, curiosamente, “abaixo o machismo contra a cultura”.
Lembro os atentados, nos últimos anos, no Jardim da Sereia -a própria Tricana de Coimbra, inaugurada em 2008, obra do mesmo autor e situada um pouco mais acima, já foi também vandalizada. Recordo há cerca de um mês a destruição de um corrimão em ferro numa escada da Alta. Em face dos milhares de euros despendidos pelo erário público, alguma coisa terá de se fazer. Não se pode, passivamente, continuar a olhar para estes desmandos como coisa vulgar e que vai caindo numa certa habituação. Isto acontece por três motivos. O principal é o continuado desinvestimento na educação e a seguir na formação de adultos. Quem fez isto é crescidinho. O ensino universitário continua a apostar apenas na intelectualização e pouco na cidadania. O segundo é o continuar a licenciar estabelecimentos toda a noite e como se este fosse um caminho certo para manter os jovens ocupados. Caminhamos alegremente para o abismo social e, pela passividade, pela falta de exigência cidadã, deixamos que os (maus) gestores municipais, esquecendo os moradores, sejam coniventes com o apocalipse da vivência nas urbes e da aniquilação social dos jovens e continuem a semear a cultura do noctívago selvagem. Em terceiro lugar, é a falta de policiamento, de vigilância, que contribui para o abandalhamento da convivência com a arte. Hoje, e já há bastante tempo, o Centro Histórico, Baixa e Alta, está entregue à sua sorte. O que é de admirar, por incrível que pareça, é não a haver ainda mais devastação monumental. Neste estado a que chegámos a norma é imperativa: “faz o que te apetece! Se estás frustrado com a tua vida, bebe uns copos e arrasa qualquer coisa!”.




BOM DIA, PESSOAL...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

LEIA O DESPERTAR...


LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Esta semana deixo o textos "REFLEXÃO: UMA MEDIDA QUE SE APLAUDE MAS..."; "ESTE É O TEMPO..."; "CAIXA DE NINGUÉM"; e "TRÊS MULHERES PARA UM VISCONDE".


REFLEXÃO: UMA MEDIDA QUE SE APLAUDE MAS…

Para quem não deu por isso, desde que Manuel Machado, o atual locatário do paço da Praça 8 de Maio, tomou posse como presidente da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), ao Sábado o edifício está de portas abertas. Porém, quem empurrar e transpuser as portas de vidro não pode passar do hall. Lá dentro, atrás de um pequeno balcão, está um agente da Polícia Municipal (PM). É bonito de ver esta ação? Faz sentido? Quanto a mim, que, ao longo dos anos, já escrevi vários textos sobre este necessário franquear neste dia da semana, faz sim, senhor! Estando o edifício aberto, ainda que em símbolo, parece dar as boas vindas a quem nos visita. É assim, em metáfora, como se fosse o Cristo-Rei, no Rio de Janeiro, de braços arqueados a receber todos. Em analogia, acontece que, na forma, esta abertura das portas da CMC ao sábado, como se apresenta, é um quase desperdício, um desaproveitamento de meios. Comecei por elogiar a medida e mantenho. No entanto pode melhorar do suficiente ao bom.
A meu ver, só em teoria, de modelo de cidade anfitriã no bem receber, fica bem ter apenas a entrada acessível e manter um agente da PM todo o dia ali enclausurado e sem mais nada para fazer. Quero dizer, portanto, que estou de acordo na forma mas não na substância. Por exemplo, por que não se aproveita este dia de Sábado para, rotativamente, estar um vereador do executivo a receber os munícipes? Incluindo o presidente? Ao que parece alguns vereadores não têm tempo para ouvir os cidadãos. Vou dar um exemplo. A Associação de Beneficência ao Comerciante de Coimbra, legalmente constituída em 2013, à espera de ver cumprida uma deliberação camarária, em novembro deste mesmo ano, pediu à representante do pelouro, Carina Gomes, para ser recebida. Como até ao mês passado, de junho, não tivesse disponibilidade, o que naturalmente se admite, o presidente da ABCC, Armindo Gaspar, reiterou pessoalmente e novamente por ofício para ser ouvido. Até hoje! É claro que nove meses, como período de gestação, nem será muito. Admito. É mais a cara de idiota, como eu, que, perante este desrespeito, qualquer um fica. Só isso!
Em síntese, está de ver que dar provimento a este plano, que apresento sem custos, faz sentido. Não acha?


ESTE É O TEMPO…

Neste dia que escrevo, hoje é o dia 19 de Julho, Sábado, neste ano da graça -e também da tristeza e desgraça para tantos, porque o mundo surge-nos ameaçador e perigoso. Supostamente, deveríamos estar no verão, naquela canícula intensa de cegarregas a matraquear o percurso, mas parece que estamos no outono, talvez por volta de outubro, quando as folhas secas caem e atapetam o chão e as andorinhas já teriam arrumado a trouxa e rumado para outras paragens menos hostis no clima. Pretensamente, nesta altura, o Sol deveria malhar-nos tanto, tanto, como o Primeiro-Ministro nos massacra a repetir que estamos no bom caminho, que o pior já passou, e, num virar de olhos, nos sobrecarrega com mais impostos. Mas agora, mediando entre uma luminosidade crescente e um crepúsculo precoce, como se o dia chorasse de pena, carpindo mágoas e pedisse desculpa, volta e meia, chove copiosamente neste fim-de-semana, deste mês de férias para quem as puder ter.
É óbvio que, perante este cenário de pés-secos e molhados, a Bolsa de Valores Epicurista vai entrar no vermelho e as ações de gozar o dia vão cair a pique. É natural que menos interessados queiram adquirir títulos de esperança num amanhã de bem-estar melhor. O tempo, aquele tempo conforme o conhecíamos noutro tempo, vale menos que a palavra prometida de um qualquer político. Mas, em boa verdade, a deles é igual à nossa porque a nossa é igual à deles. Não fosse o endeusamento em que nos achamos e colocamos, substantivando a nossa superioridade perante o outro, e facilmente se constatava que eles, políticos e tempo, são apenas a projeção e o resultado da nossa ineficácia enquanto pessoas de construção. Sobre os primeiros, os políticos, porque continuamos a deixar que sejam almas penadas, sem corpo para responsabilizar e encarnar, mas que infernizam as nossas vidas. Sobre o segundo, sobre o tempo, por um lado, tornamo-nos herméticos, pragmáticos, perdemos a fé na transcendência, o racionalismo submergiu a infantilidade que nos deveria acompanhar na existência terrena e só acreditamos no que vemos ou sentimos.
Por outro lado, pela previsibilidade fácil de saber se vai chover em tal data de aqui a meses, deixámos de ter necessidade de reconhecer São Pedro na sua provável omnipotência temporal como senhor de todas as águas do mundo. Esta perda da crença, contrariamente ao que se cogita, porque somos seres de doutrinação, empobreceu a nossa convivência. Numa erosão continuada largámos os antiquados mitos, maravilhas que nunca corresponderam, sendo apenas o velho costume humano de valorizar mais tudo o que está para trás, e, repetindo até à exaustão “no meu tempo… no meu tempo… era assim… e assado”, criámos outros de substituição. Como a facilidade no adquirir leva ao cansaço, depressa nos tornamos enfastiados destes e queremos outros que nunca nos satisfarão completamente. Começámos por tomar um comprimido ansiolítico para conter a ansiedade e a solidão. Passámos ao frasco e o isolamento é crescente. Queremos mais. Muito mais! Em suma, uma coisa é certa e dá para ver: não é a quantidade que gera a felicidade. Não estamos mais felizes. Em antítese, estamos cada vez entregues a sombras e a silêncios impostos e não procurados pela reflexão necessária. Neste individualismo crescente, quando parece que tudo dominamos, através da ciência e da técnica, somos cada vez mais ilhas onde cabe somente um corpo, isolado e só, e onde a obsessiva digitalização substitui o conhecimento intelectual e a mente, enquanto propulsor de inteligência e imaginação, passa a mero artefacto sem utilização para pensar. Sem graça, interessante como no desenvolvimento extrínseco, no conforto, a humanidade atingiu o Zénite e no intrínseco, no interior do ser, na agnição, como num regredir de eterno retorno, estejamos cada vez mais próximos do macaco.
Tal como o tempo previsto para a semana que aí vem é de mudança, pode ser que as coisas se alterem e encontremos a harmonização equilibrada entre o homem comum, na sua essência, e a Natureza que nos transcende. Vamos aguardar que passe esta nebulosidade envolvente, climatérica e social. Pode ser?


CAIXA DE NINGUÉM
No princípio deste mês, na Rua das Padeiras, apareceu uma tampa de ferro partida na via pedonal, de calçada, e que oferecia alguma perigosidade, sobretudo durante a noite -normalmente relacionamos estes quadrados de ferro com o saneamento. Como ficava em frente ao estabelecimento de Luís Duarte, fazendo o que lhe cabia, este comerciante comunicou a anomalia à Câmara Municipal de Coimbra.
No dia 8 deste mês recebeu uma comunicação, via e-mail, da autarquia informando que a reclamação tinha sido encaminhada para o Departamento de Obras Municipais.
Dois dias depois passou um funcionário dos SMASC, Serviço Municipalizados de Águas e Saneamento, afirmando “que aquele assunto era da responsabilidade da EDP, ou da PT, porque passavam lá uns cabos.”
Passado outro tempo mais ou menos igual veio um graduado da PSP –“um graúdo”, nas palavras do Luís Duarte-, acompanhado de outro, e ali mesmo, perante a caixa de ferro ofendida na sua integridade, afirmou que “em princípio o caso estava resolvido e que, por isso mesmo, estava encaminhado”
Passados mais uns dias, veio outro funcionário dos SMASC e, em face daquela tentativa de destruição ferronha por parte de autor desconhecido, olhando de cima para baixo, nada disse e seguiu em frente.
Esta semana o Duarte recebeu outro e-mail das Águas de Coimbra que transcrevia o seguinte: “No seguimento da reclamação, informamos, após averiguação local, que a tampa da caixa em causa não faz parte das nossas infraestruturas. Trata-se de uma caixa de cabos e por isso somos a sugerir que contacte a EDP ou a PT. Com os melhores cumprimentos, Rui Cardantas.”
Naturalmente, o Luís sente-se ofendido por este ziguezaguear de quem terá responsabilidade na manutenção da coisa pública e, em pingue-pongue, habilmente se desmarca. Diz ainda que não fará mais nada. Quando alguém ali se magoar e pedir ressarcimento à edilidade, então, talvez nessa altura vão a correr para a substituição da tampa de ferro.


TRÊS MULHERES PARA UM VISCONDE

A semana passada escrevi que o Centro Comercial Visconde, na Rua Visconde da Luz, de um total de mais de três dezenas apenas duas lojas resistiam com duas senhoras trabalhando em consertos de costura.
Pois esta semana, logo à entrada, abriu um novo estabelecimento de pronto-a-vestir com peças femininas de encantar. Com o sugestivo nome de “MUST-HAVE” que, segundo Helena Carvalho a simpática proprietária, traduzido para português significa “é obrigatório ter no guarda-roupa de uma senhora”. Mas vamos conversar com a Helena. De onde vem e para onde vai?
“Venho dos arredores de Soure onde, durante décadas, estive estabelecida. Sempre tive uma fascinação pela Baixa da cidade. Aqui estudei, aqui me apaixonei por esta rua larga e sonhei realizar projetos lindos. Com muito amor e carinho, agora, assim nasceu este meu estabelecimento. Acredito que as coisas vão dar uma volta. Tenho fé que a Baixa, num futuro próximo, vai voltar ao que foi noutros tempos. Bem sei que neste momento, comercialmente, está em coma. É um facto. Mas acredito que vai renascer das cinzas. Claro que, neste ressurgir, devem estar todos envolvidos, senhorios e inquilinos. Ora, falando deste centro comercial, verifica-se que os primeiros, os proprietários, continuam a pedir rendas incomportáveis e parecem lavar as mãos da responsabilidade social que lhes cabe na revitalização da Baixa.”


BOM DIA, PESSOAL...

UM COMENTÁRIO REJEITADO





Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "UM SAXOFONISTA NA VARANDA":



(ESTE TEXTO FOI CORTADO POR SER CONSIDERADO IMPRÓPRIO E PASSÍVEL DE MOTIVAR ACÇÃO JUDICIAL)

“Trabalham cerca de 30 … (…)

Ainda por cima... (…). Acordem enquanto é tempo!”


******************************************

NOTA DO EDITOR

Meu caro anónimo, entendo o seu problema. Acredite que entendo mesmo. O que você não pode é remeter o problema para mim. Se eu publicasse o seu comentário, mais que certo –e legitimamente por parte do visado- teria um acção por difamação no Tribunal. Apesar do seu azedume, tenho a certeza de que não me quer prejudicar. Há instituições previstas para acolher os seus queixumes. É lá que o amigo se deve dirigir. Esta página é apenas uma folha solta, livre, mas não ao sabor do vento. O que escrevo sobre pessoas é sempre com a minha cara que assino. Nunca me escudo sobre o anonimato. Acho que você, considerando que todos somos agentes de responsabilidade e de boas maneiras para outros, deve fazer o mesmo. Essa é a razão principal e fundamentada porque não publiquei o seu desabafo. É óbvio que poderia remeter os seus queixumes para o lixo, simplesmente, mas não fiz isso. Você merece-me respeito. Espero que eu também lhe mereça algum. Muito obrigado.


VÁ AO CAE, NA FIGUEIRA DA FOZ...



Visite a nova colecção de bijuteria da Isabel Mora, no Centro de Artes e Espectáculos, na Figueira da Foz, de 26 de Julho a 21 de Agosto. Por conhecer muito bem os trabalhos da Isabel, recomendo vivamente. Posso garantir que não dará por perdido o tempo que despender a visionar os seus excepcionais artigos manufacturados. Vá lá. Mas vá mesmo! Eu sei do que escrevo!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

PROTESTO CONTRA UM SILÊNCIO ENSURDECEDOR







Protesto: Coimbra. Sexta. 25 Julho. 19h00. Monumento ao 25de Abril. Rua Antero de Quental.


1. Por Portugal se ter empenhado e votado favoravelmente a entrada da Guiné Equatorial na CPLP.

2. Pela União Europeia se remeter a um silêncio cúmplice no conflito entre Israel e a Palestina. Divulgue! Participe!
Cidadão José Dias

(RECEBIDO POR E-MAIL COM PEDIDO DE DIVULGAÇÃO)

BOM DIA, PESSOAL...

FALECEU A ROMY



Durante cerca de catorze anos, quase diariamente, fez-nos companhia com a sua presença. Do virar do milénio até 2012 teve a loja comercial com o seu nome no Largo da Freiria, a “Boutique Romy”. De 2008 a 2011 esteve também estabelecida na Rua Eduardo Coelho com vestidos de cerimónia. Na segunda-feira passada, subitamente, sem um ai e sem se despedir de ninguém, o coração traiu-a. Com apenas 60 anos de idade, Maria Rosa Vinhas Gomes, mais conhecida por Romy, partiu para não mais voltar.
Segundo a sua irmã Teresa Gomes, “sofreu muito, a minha irmã! Perante tanta pressão, era inevitável este desfecho!”. Emigrante durante muitos anos na Bélgica, creio, regressou a Portugal a meio da década de 1990. Com grande inclinação e muito gosto para a moda, a sua boutique deu brado e marcou forte presença na Baixa.
Mesmo sendo simpática, era ao mesmo tempo uma pessoa algo tímida e introvertida. Nos últimos anos, como a tantos de nós, a vida, comercial e familiar, pregou-lhe frustrações e desencantos. Progressivamente, como passarinho solitário, foi-se fechando no seu sofrimento e dor. É mais um de nós que se vai e, por ficarmos mais sós, deixa um lastro de angústia e consternação.
Aos seus familiares directos, ao seu filho Patrick Gomes Marques bem como à sua irmã Teresa Gomes, nesta hora de incomensurável tristeza, em nome de todos os comerciantes, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames. Descanse em paz, Romy. Até um dia!








terça-feira, 22 de julho de 2014

JÁ AGORA.... UMA BOA NOITE QUE SE APROXIMA A PASSOS LARGOS...

UMA PERGUNTA BURRÓIDE



Como se sabe, hoje realizou-se a prova de avaliação de conhecimentos para professores contratados.
Será que os deputados eleitos, igualmente, não deveriam ser escrutinados no que sabem?


“As redes sociais estão ao rubro com os erros de português da deputada do PS Catarina Marcelino, que já comentou o que se passou aquando escreveu no Facebook.
«Não tenho por hábito fazer sensura [censura], mas não tulero [tolero] insultos, difamações e desrespeito. Pelo que apagarei comentários infames e com grande probabilidade bloquiarei [bloquearei] no meu Facebook o autor/a», escreveu a deputada na sua página, erros ortográficos que não deixaram indiferentes os internautas.”


TRÊS MULHERES PARA UM VISCONDE



A semana passada escrevi que o Centro Comercial Visconde, na Rua Visconde da Luz, de um total de mais de três dezenas apenas duas lojas resistiam com duas senhoras trabalhando em consertos de costura.
Pois esta semana, logo à entrada, abriu um novo estabelecimento de pronto-a-vestir com peças femininas de encantar. Com o sugestivo nome de “MUST-HAVE” que, segundo Helena Carvalho a simpática proprietária, traduzido para português significa “é obrigatório ter no guarda-roupa de uma senhora”. Mas vamos conversar com a Helena. De onde vem e para onde vai?
“Venho dos arredores de Soure onde, durante décadas, estive estabelecida. Sempre tive uma fascinação pela Baixa da cidade. Aqui estudei, aqui me apaixonei por esta rua larga e sonhei realizar projectos lindos. Com muito amor e carinho, agora, assim nasceu este meu estabelecimento. Acredito que as coisas vão dar uma volta. Tenho fé que a Baixa, num futuro próximo, vai voltar ao que foi noutros tempos. Bem sei que neste momento, comercialmente, está em coma. É um facto. Mas acredito que vai renascer das cinzas. Claro que, neste ressurgir, devem estar todos envolvidos, senhorios e inquilinos. Ora, falando deste centro comercial, verifica-se que os primeiros, os proprietários, continuam a pedir rendas incomportáveis e parecem lavar as mãos da responsabilidade social que lhes cabe na revitalização da Baixa.”

BOM DIA, PESSOAL...

CAIXA DE NINGUÉM





No princípio deste mês, na Rua das Padeiras, apareceu uma tampa de ferro partida na via pedonal, de calçada, e que oferecia alguma perigosidade, sobretudo durante a noite -normalmente relacionamos estes quadrados de ferro com o saneamento. Como ficava em frente ao estabelecimento de Luís Duarte, fazendo o que lhe cabia, este comerciante comunicou a anomalia à Câmara Municipal de Coimbra.
No dia 8 deste mês recebeu uma comunicação, via e-mail, da autarquia informando que a reclamação tinha sido encaminhada para o Departamento de Obras Municipais.
Dois dias depois passou um funcionário dos SMASC, Serviço Municipalizados de Águas e Saneamento, afirmando “que aquele assunto era da responsabilidade da EDP, ou da PT, porque passavam lá uns cabos.”
Passado outro tempo mais ou menos igual veio um graduado da PSP –“um graúdo”, nas palavras do Luís Duarte-, acompanhado de outro, e ali mesmo, perante a caixa de ferro ofendida na sua integridade, afirmou que “em princípio o caso estava resolvido e que, por isso mesmo, estava encaminhado”
Passados mais uns dias, veio outro funcionário dos SMASC e, em face daquela tentativa de destruição ferronha por parte de autor desconhecido, olhando de cima para baixo, nada disse e seguiu em frente.
Esta semana o Duarte recebeu outro e-mail das Águas de Coimbra que transcrevia o seguinte: “No seguimento da reclamação, informamos, após averiguação local, que a tampa da caixa em causa não faz parte das nossas infra-estruturas. Trata-se de uma caixa de cabos e por isso somos a sugerir que contacte a EDP ou a PT. Com os melhores cumprimentos, Rui Cardantas.”
Naturalmente, o Luís sente-se ofendido por este ziguezaguear de quem terá responsabilidade na manutenção da coisa pública e, em pingue-pongue, habilmente se desmarca. Diz ainda que não fará mais nada. Quando alguém ali se magoar e pedir ressarcimento à edilidade, então, talvez nessa altura vão a correr para a substituição da tampa de ferro.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

EDITORIAL: A ESPERANÇA ARRUINADA



A novela está a decorrer num jornal perto de nós. Trata-se de uma peça teatral em três actos trágico-cómica e que anda na boca de toda a gente, localmente e no País. Uns porque até na desgraça acham graça; noutros porque provoca um corte na esperança de almejar um homem melhor. A música de apoio e de fundo, sem grande rasgo de originalidade, tem por título “ó tempo volta para trás e dá-me tudo o que eu perdi!”
O primeiro acto desenrola-se em torno da direcção do Teatro Nacional Trabalhista. Como o futuro se prevê profícuo na distribuição de lugares sentados, embora não traga nada de novo, aparece um segundo candidato ao lugar a agitar as águas já de si muito turvas já que o orçamento disponível não se mostra muito risonho para grandes aventuras cénicas.
O segundo rola em torno da mestra de guarda-roupa, mulher de fibra, de pelo na benta e verruga nos valores. Ao que parece, a roupeira apercebendo-se que, por meios pouco ortodoxos e contrário ao que defendiam com a mão no peito, desconhecidos assaltaram o camarim, abusivamente, falsificaram as assinaturas no livro de levantamentos, vestiram as togas e, com direito a voto, participaram na reunião quadrienal futura do teatro. Nesta parte de desempenho, ressalta a dúvida metódica, enquanto instrumento de pensamento existencial, da mestra-guarda-roupa. Vê-se a mulher de queixo apoiado sobre a mão em concha e a questionar: “se penso, logo existo; se existo, sou responsável pelas minhas acções, logo respondo perante os outros; se respondo perante os outros, devo denunciar o que viola os meus princípios!”
Esta mulher acaba por delatar os atropelos à chefia. Por incrível que pareça acaba expulsa.
O terceiro acto gira em volta dos actores, muitos deles convidados a integrar o elenco por serem nomes sonantes no “show business” da cidade hollywoodesca. Aceitaram integrar a peça e, para isso, na fase de inscrição receberam o regulamento interno onde constava o enredo, a história na forma de contracenarem e de se apresentarem em palco e ao público. Acontece que nos ensaios precedentes eram já perceptíveis sinais de que a narrativa estava a seguir a subjectiva interpretação dos performativos e em completo desrespeito pelos estatutos e obra. Foram avisados mas, talvez pelo seu currículo famoso, não ligaram. Acharam que a sua importância estatutária falaria mais alto. No dia da estreia seguiram o caminho por si traçado. Resultado: sem que estivesse previsto, o espectáculo acabou subdividido em várias cenas e quadros. Uma das cenas foi a de um parto ao vivo de um movimento de cidadãos independentes no burgo. Apesar de grande apoteose dos assistentes, caiu o Carmo e a Trindade no velho teatro. O “Carmo”, representado por um director Seguro, que na hora da estreia cantou vitória de peito-feito, e a Trindade afigurada pelo fantasma de Sócrates, a alma penada do filósofo grego e suas reincarnações. Esta cena foi fundamental para a cisão no teatro e dá argumentos fortes para enriquecer o primeiro acto.
Num dos quadros aparece um outrora candidato ao ministério das artes representativas, muito Alegre, de rima fácil e grossa verve, amigo e sempre solidário com todos aqueles que forem importantes. Não importa sol ou sombra, chuva ou temporal, ou ser injusto na apreciação dos factos. O que importa é que gente com estatuto, com peso na sociedade, não pode cair na lama e ser julgado como um qualquer “zé-ninguém”. Em paradigma, são postos a nu as teias e os interesses que grassam no “bas-fon”, por detrás da cortina, do grande teatro da Nação. Muito à portuguesa… de face moderna, está de ver! Que estes factos à luz do antigamente eram mesmo fascizantes e salazarentos. Nada de confusão!
Este vislumbre cénico, que dá pelo nome de “A esperança arruinada”, recomenda-se vivamente pela sua enorme força analógica do pensamento. É evidente que qualquer semelhança com um facto político que se atravesse é pura coincidência.