segunda-feira, 13 de agosto de 2018

REABRIU A TABACARIA ESPÍRITO SANTO





Ainda numa fase embrionária, isto é, sem jornais e revistas que marcaram o tempo ao minuto nas últimas seis décadas, (re)abriu hoje a tabacaria Espírito Santo, junto ao Café Santa Cruz, que encerrou no passado dia 30 de Julho.
Se como diz o povo “Rei morto Rei posto”, a reforçar o aforismo, é verdade que a nova gerência está à altura de uma loja com história. A cargo da Marisol Santos, uma empresária cheia de garra de vencer, que detém o Cantinho da Marisol, no Adro de Cima, junto à Igreja de São Bartolomeu, um espaço dedicado ao artesanato, sobretudo em cerâmica, digno de nota 20, o “velho” quiosque, que faz parte de todos nós e das nossas rotinas, fica muito bem entregue.
Claro que para que tudo dê certo, é bom não esquecer, é necessário que eu e você, leitor, de vez em quando vá lá comprar uma revista, um jornal, uma peça da sua cerâmica artesanal, por exemplo. Por muita vontade que a consuma, a Marisol não vive apenas do mar e do Sol.


FALECEU UMA FIGURA ICÓNICA DA CIDADE

(Foto de Anabela Monteiro)




Subitamente, nos primeiros dias deste Agosto, depois de se ter sentido mal na Figueira da Foz, onde residia, foi transportado de urgência para os HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, veio a falecer há cerca de uma semana o Paula/Paulinha, um precursor do travestismo na cidade. Tinha 54 anos de idade e foi baptizado com o nome de João Paulo de Campos Lobo.
Embora o conhecesse mal na altura -mas dava para perceber-, tanto quanto julgo recordar e saber, o/a Paula/Paulinha nasceu mulher em corpo de homem. Ou seja, o seu sexo biológico não correspondia à sua orientação sexual. Com um sinal na face direita, os seus longos cabelos estendidos em cascata pelos ombros tornavam-no numa figura curiosa e polémica. De altura acima da média, com uma voz grave mas melodiosa, de fino trato, a sua forma de apresentação feminina era profundamente maneirista e delicada.
Natural da África do Sul, foi com 18 anos que pisou solo conimbricense pela primeira vez. Quem relata retalhos da sua vida é a sua grande amiga e confidente a Anita, Anabela Monteiro, que viveu a sua infância na Sé Velha e ali, no início da década de 1980, conheceu o/a Paula/Paulinha. Diz Anita: “A nossa grande amizade surgiu há 36 anos desde a altura que ela veio para Portugal. Ela é da África do Sul. Ela vivia com a mãe em São Martinho do Bispo. Quando o pai morreu tranferiu-se para o Parque de Campismo da Figueira da Foz. Ela não ficou muito bem desde que o pai faleceu, pois ele era o seu porto de abrigo. Ainda voltou uma vez para Coimbra mas acabou por assentar de vez na praia da claridade. Aqui, na Figueira, tinha algumas pessoas amigas, mas quando não estavam sentia-se um pouco só. Tratavam-na como Paula. Infelizmente por algumas pessoas era desprezada (pessoas estúpidas).


UMA OUTRA COIMBRA


Estávamos então em 1982. O/A Paula/Paulinha foi uma figura emblemática na cidade no campo do travestismo, hábito de adoptar o vestuário, os hábitos sociais e comportamentos usuais do sexo oposto. Num tempo em que tudo o que fugisse à “normalidade” era apontado a dedo, imagina-se o quanto teria sofrido por um acaso biológico que não era da sua responsabilidade.
Apesar de perpassar uma ideia para o exterior de grande liberalidade, Coimbra, no início desta década, era um burgo adormecido e profundamente conservador. Com uma movida incipiente e assente quase numa envergonhada clandestinidade impressa a selo de costumes marcados a ferros, havia quatro discotecas que, entrando pela noite dentro, sobressaiam: a “Boite” Etc, na Avenida Afonso Henriques, o Scotch, na Quinta da Ínsua, na margem esquerda do Mondego, a Oui, na Praça Fausto Correia, e o Bonzão, no Monte Formoso. Ali para os lados de Tentugal havia o Géminus, uma boite propriamente dita. Abria à noite e tinha muitas mulheres a servir com longos decotes que prometiam o paraíso numa pequena sala de diversão.
Como a furar o exclusivo dos grandes cafés que marcaram gerações, foi por volta de 1987 que o Albertino abriu o bar Quebra, nas Escadas de Quebra Costas. A seguir abriu o bar Sacristia, no Largo da Sé Velha. Talvez um pouco mais tarde abriram as discotecas Broadway, na zona da Pedrulha, e a Via Latina, junto à Praça da República.
Voltando ao personagem que deu origem a este escrito e que há pouco nos deixou, os nossos sentidos pêsames à mãe e restante família de João Paulo de Campos Lobo. Que descanse em paz!

sábado, 11 de agosto de 2018

UM PENSAMENTO DE VEZ EM QUANDO...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




POR CARLOS JOÃO CASCAIS FIGUEIREDO


EUROPA”
Aos horrores da Segunda Grande Guerra sucederam as ameaças da Guerra fria, que ainda se manifestaram durante muitos anos.
Entretanto, Jean Monnet, Robert Chuman e ainda Altiero Spinell - preso por Mussolini durante o grande conflito bélico – lançaram a ideia inovadora da Europa Unida. Mais tarde, pela concretização, foram apelidados de “Pais da Europa”, sobretudo pelo comissário europeu Jacques Delors que, imbuído do espírito europeu, criou Fundos de Coesão, Fundos estruturais e outros mecanismos de desenvolvimento a fim de equilibrar as economias mais débeis. Era o advento do federalismo, que nunca chegou a concretizar-se, e foi ultrapassado pela actual hegemonia políticas da Chanceler Angela Merkel.”

BAIXA: APUNHALADO AO ENTARDECER




Nesta última quinta-feira, cerca das 18h00, no Beco das Canivetas, que dá ligação entre a Cozinha Económica e a Rua Adelino Veiga, um indivíduo de “cerca de cinquenta anos”, alegadamente, foi apunhalado com várias facadas. Foi o 112, com uma ambulância, que o apanhou muito ferido e levou para os HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra.
Embora as informações sejam difíceis de obter, confirma-se que, de facto, foi mesmo trespassado e cortado com vários golpes no corpo – há várias pessoas que viram o homem caído no asfalto e a esvair-se em sangue. Sabe-se também que a vítima é (foi) um indivíduo de apelido Grilo, um sem-abrigo que dormia na reentrância das montas da desaparecida loja de brinquedos Românica. Hoje, por aqui pela Baixa, consta-se, de boca-em-boca, que teria morrido no hospital. Como não se sabe o nome por inteiro, por parte da unidade de saúde, não foi possível saber o seu estado clínico e se teria mesmo falecido.


COMERCIANTES NA ZONA MUITO PREOCUPADOS


Muito sublinhado o pedido de anonimato, sem darem a cara, alguns dos operadores da zona, mostrando muita preocupação com a degradação que está a acontecer nas ruas e becos estreitos paralelos à Rua Adelino Veiga, sempre vão adiantando: “olhe, pelo facto de não ter vindo nada nos jornais diários, por um lado, ainda bem. Quanto menos se souber melhor. Por este andar, qualquer dia não temos pessoas a virem para esta zona durante a tarde. Polícia nem vê-la! Por aqui, precisamente por causa desta e de outras ocorrências, as lojas estão a fechar cada vez mais cedo. Mas, se vai escrever, incida sobretudo naquela miséria das montras da Românica. Aquilo é um ninho de promiscuidade e, como está decorrer um litígio em tribunal entre o proprietário e o antigo arrendatário, nenhum deles quer saber do que se está passar. Quem está a sofrer com este abandono a que a área está votada por parte da PSP são os comerciantes. Nós é que apanhamos com tudo isto.”


MAS A BAIXA É INSEGURA?


À pergunta formulada, com toda a convicção baseada em verdade, como trabalhador e morador, posso responder que não é insegura, seja de dia ou de noite. As escaramuças que existem – como foi o caso há dias na Rua dos Oleiros e agora esta - mesmo que impliquem grande violência envolvem sujeitos ligados ao tráfico de droga e sem-abrigo. Como tal acontece em tudo o que seja lugar habitado, estes desmandos devem ser encarados, entre outros, como consequência de uma desertificação acentuada de residentes e insuficiência de políticas sociais que vão ao encontro de uma solução para a toxicodependência.
Complementando ainda a resposta à interrogação supra, no entanto, há um pormenor que me serve de extrema importância na minha classificação: conheço muita gente, seja bem instalada na vida ou sem-tecto. Por conseguinte, quando assim é, quando pisamos o nosso terreno, sentimo-nos sempre mais seguros.
Mas, então, acresce uma pergunta: e se eu não estivesse no meu meio, como me sentiria? Pois! Aqui é que bate. Sobretudo ao cair da tarde, depois das lojas encerrarem, e com o manto negro da noite instalado sobre as cabeças, se eu fosse visitante teria medo. Sobretudo nestas vielas e becos, pouca gente se avista – e os que se encaram são façanhudos e mal-encarados. Ora é aqui que a PSP, enquanto paradigma da segurança, falha redondamente no cumprimento do seu dever de elemento tranquilizador da população, seja autóctone ou outra.
Sabe-se, ou é fácil de saber, que neste Agosto, devido ao turismo, a população flutuante na Baixa terá triplicado diariamente. Ora, seria de supor que o Comando Distrital da PSP de Coimbra nomeasse mais agentes para patrulhar a zona histórica. Acontece que se durante o dia só por sorte damos de caras com agentes, então, à noite nem pensar. Os motivos projectados na falta de meios humanos e instrumentais a nível nacional são conhecidos e basta lê-los nos jornais diários. Se, por um lado, somos obrigados a entender, por outro, constatando certos acontecimentos, ainda que carecentes de provas, damos por nós a reflectir sobre o estado da nossa segurança interna.
Ainda ontem, no Facebook, foi postado o seguinte: “Pela manhã uma amiga vinha do Pátio da Inquisição onde deixou a filha no infantário, e junto à Caixa Geral de Depósitos deparou com uma sessão de pancadaria entre vários adultos, sendo que um deles tinha uma criança ao colo. Correu à polícia preocupada com a criança. Como a polícia não vinha voltou lá. A explicação dos agentes é que tinham chamado o piquete, que tinha ido buscar um veículo para se dirigir à ocorrência.
Um veículo? A 30 segundos a pé da confusão?
Teria sido verdade? Teria sido mentira? Não faço ideia! O que sei é que narrativas como estas fragilizam a corporação PSP.
O senhor Comandante Interino, a bem de toda a colectividade e da própria polícia, deveria mandar investigar. Acontecimentos como estes não podem nem devem ocorrer.


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A CPPME ANDOU A VISITAR O COMÉRCIO DE BEJA E…







Beja: comerciantes demonstram “preocupação, descrédito e tristeza"


A Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME) esteve, ontem, em Beja, com o objetivo de aprofundar o conhecimento da realidade local deste sector. “Preocupação, descrédito e tristeza” foi o cenário que a Confederação diz ter verificado, por parte dos comerciantes bejenses.
A CPPME, Confederação Portuguesa tem andando a fazer um périplo por todo o país, que visa aprofundar o conhecimento das várias realidades locais da classe, com o objetivo de criar, à semelhança dos anos anteriores, um documento de propostas a apresentar ao Governo para o próximo Orçamento do Estado. Em Beja, Jorge Pisco, presidente da CPPME diz ter encontrado nos proprietários comerciais “preocupação, descrédito e tristeza”.
Lojas prestes a fechar, falta de estacionamento, condicionamento do trânsito na zona histórica, aumento das rendas, desertificação e, sobretudo, o facto de haver “um número excessivo” de grandes superfícies comerciais no concelho, para os cerca de 30 mil habitantes foi, segundo Jorge Pisco, a realidade com se deparou a CPPME, na sua passagem por Beja.
O presidente da CPPME revelou que esta situação só pode ser revertida, através de apoios nacionais aos micro empresários e, deixou claro, que “as autarquias locais têm um papel fundamental” na resolução deste problema.


PARAR PARA PENSAR


Há muitos anos que ando a escrever que, transversalmente de norte a sul, o comércio de rua entrou num processo progressivo de extermínio. Este texto da CPPME, referente ao estado da compre e venda na cidade de Beja, diz tudo. As actividades mercantis, ditas de tradicionais, perante a maior passividade de todos, clientes, mercadores e autarcas, arrastam-se pelos corredores do desaparecimento temporal.
Tomo a liberdade de plasmar uma crónica que escrevi há cerca de uma década, mais precisamente em Abril de 2008:

José, nascido e criado para os lados de Penacova, com pouco mais de 10 anos, depois de ter concluído o ensino primário, começou a trabalhar numa loja de fazendas ali na Praça do Comércio. A Segunda Guerra Mundial, pela escassez de bens, ainda estava fresca na memória. Apanhavam-se os últimos estilhaços e, como um puzzle, tentava-se dar ordem a um certo caos reinante, sobretudo na procura e na oferta económica.
Apesar de Salazar ter evitado o envolvimento de Portugal neste grande conflito bélico, mesmo assim, não evitou o racionamento e alguma fome nas aldeias e cidades. Os tempos que se viviam eram duros. Os então caixeiros de comércio trabalhavam de sol-a-sol, apenas com o Domingo de folga, quando calhava. Eram tratados pelos seus patrões com violência verbal e física, sobretudo se não conseguiam vender um metro de tecido ao freguês para fazer a saia. José lembrava-se de apanhar brutais “caneladas” dadas pelo seu patrão, mesmo enquanto atendia o freguês. Era verdade que ele não se manifestava, mas o dono da loja reconhecia no marçano qualidades acima do comum e uma intuição especial para o negócio.
Com pouco mais de 20 anos, José, com muitos sacrifícios e uns contos de reis emprestados, adquire o seu primeiro espaço comercial e, logo a seguir, o seu primeiro carro Honda, em segunda mão.
Quando se deu o 25 de Abril de 1974, a revolução apanhou-o a trabalhar arduamente dia e noite com os seus 10 empregados. Era proprietário de três lojas de pronto-a-vestir na Baixa. Com os novos ventos de mudança no país os salários passaram de mil escudos (5 euros) para cerca de três mil escudos (15 euros) por mês. Nunca até aí os assalariados se tinham visto com tanto dinheiro. A consequência deste aumento foi uma frenética onda consumista. Foi uma correria para as lojas de comércio, nesta altura, centralizado então na Baixa histórica de Coimbra. Para aqui, para a zona histórica, confluíam todo o concelho e distrito de Coimbra. Aqui eram realizados todos os desejos. Numa variedade incomensurável de oferta, desde a almotolia em folha de Flandres até uma albarda para burro, tudo por cá se vendia. Aliás, e por isso mesmo, por a procura ser superior à oferta o negócio prosperava e não havia mãos a medir.
Depressa José se apercebeu que o comércio de rua iria atravessar os seus melhores tempos de ouro. Empenhou-se pessoalmente nas vendas diárias das suas lojas. Para cada cliente entrado nos seus estabelecimentos, no seu entender, deveria corresponder uma venda. Com uma pressão envolvente e sentida, os seus empregados sabiam que não podiam falhar, caso contrário lá tinham de ouvir os ralhetes intempestivos do patrão.
O cliente queria uma camisola vermelha? Azar, só havia azul-marinho! Não importava! Ficava o cliente a saber que não devia comprar vermelho. Para além de não se usar, não dava com o seu tom de pele. “Veja como lhe fica bem o azul-marinho”, argumentava o funcionário, encostando a malha ao rosto do comprador, tentando convencer e pensando para si: “se é mais uma “xizada” (se não vendo) estou tramado, lá tenho de ouvir o “Jota”. Deus queira que este compre!”.
Sem exagero, José tinha os melhores vendedores do comércio de Coimbra. Eles sabiam que o prémio da sua aplicação, no fim do ano, seria generoso e muito bem recompensados pelo patrão.
Investiu na construção civil, comprando vários edifícios por toda a cidade e mais estabelecimentos na Baixa. Em 1990 tinha 38 funcionários e 8 lojas, todas juntas, umas às outras. Na cidade era difícil lembrar a moda e a sua grande variedade de artigos sem falar em José Coimbra.
José acreditava na Social Democracia e era fã de Sá Carneiro. Com a morte deste fundador do PPD/PSD, em Dezembro de 1980, o grande comerciante sofreu o seu primeiro desaire em projecto político-partidário. Abominava “os comunas”, “esses vermelhos que hão-de levar este país à desgraça”, espalhava por entre o seu meio, enfatizando com solenidade profética.
Quando o governo de Cavaco Silva caiu para Guterres, em 1995, José começou a ver-se cabisbaixo e preocupado com o rumo do país, e do comércio de rua. A partir daí ninguém mais o viu sorrir. As rugas de preocupação assentaram arraiais na sua fronte para nunca mais levantarem. Nesta altura, tinha 30 empregados e a facturação das suas lojas decaía diariamente.
Morreu em Outubro de 2000, sem saber que “os comunas”, de que tanto receava, afinal eram os ultra-liberais que impregnavam o interior do seu amado partido PSD/PPD.
Sem o desejar, deixou uma bomba-relógio para o seu filho-varão resolver. Em 2004 ainda trabalhavam naquela outrora grande firma 25 funcionários, a maioria com mais de 30 anos de antiguidade.
Hoje o filho mais velho do extinto José Coimbra tem 10 funcionários. As vendas das suas agora 3 lojas não chegam para pagar os impostos. Muito menos ainda para pagar os ordenados.
Sem lhe restar outra alternativa, requereu a insolvência da firma que foi a menina dos olhos de seu pai. Vai encerrar definitivamente em Junho deste ano da (des)graça de 2008. Com o “féretro” desta grande firma, que faz parte dos anais históricos comerciais da cidade, vai-se um pouco de mim, um pouco de muitas centenas de pessoas –talvez mais de um milhar-, que ali aprenderam o “bê-à-bá” do comércio tradicional.
É caso para interrogar: Para onde vais, para onde caminhas, comércio de rua? Ao escrever isto, sinceramente, não consigo conter uma lágrima vadia de revolta.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

BAIXA: CRÓNICA DA SEMANA PASSADA

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



REFLEXÃO


Talvez sem darmos por isso, estamos a tornar-nos eremitas socializados. Aparentemente acompanhados, mas terrivelmente sós. Cada vez mais mais sozinhos e prontos a cair nas malhas da depressão. No dia-a-dia, acentuadamente, estamos a perder os princípios e valores que os nossos ancestrais nos legaram. A palavra dada, esvaziada de qualquer sentido de respeito que referenciava e demarcava alguém, deixou de ser o paradigma e símbolo de um compromisso assumido sem escritura. Hoje, como o incumprimento é a norma, não se confia em ninguém.
A comunicação prostitui-se completamente. Abandalhada pelas ruas do descrédito, poucos respondem a uma mensagem interrogativa telefónica. Tentar falar com alguém através do telemóvel, só atende se for da sua conveniência. Se não lhe levar créditos para o seu interesse, nem responde nem retorna a chamada.
O insulto gratuito tomou conta da maioria. Subentende-se, é como se quem enxovalhar mais passe a ser mais lido ou ouvido.
As redes sociais, transformadas numa espécie de muro de lamentações pessoais, onde ressalta a frustração e a esperança negativa no humano e no amanhã, estão repletas de desconsideração e perjúrio, onde o juramento falso por uma verdade, passou a ser o lugar comum. Como só se reage quando visado, o aviltamento, desde que seja direccionado a outro com a sua honra colocada em causa, passou a ter permissão como doutrina que religa e para ocupar um lugar de relevo neste novo costume. Sem qualquer controvérsia, sem oposição, num colaboracionismo colectivo que mete dó, estamos todos a transformar-nos em objectos sem dignidade, de usar e deitar fora, e de manipulação fácil.



UM CALOR QUE MAL SE AGUENTA




Na semana passada a cidade, tal como todo o país, foi bombardeada com uma canícula de assar o mais resistente ao calor. Com os termómetros a passarem os 41º graus Celsius, os residentes e os turistas que nos visitam em trânsito pareciam zombies a divagar num limbo.


POR FALAR EM TURISTAS…




Em grandes grupos familiares, quase todos de calções abaixo do joelho, calçado ligeiro nos pés, mochila às costas e smartphone sempre em ristepara apanhar uma boa imagem, nestes primeiros dias de Agosto, de nariz no ar e atentos a qualquer movimentação acima do olhar comum, estão a invadir todos os cantos e recantos da Baixa. Nas cabeças predomina o chapéu de abas largas, a proteger da canícula, trazendo à memória montanheses, como investigadores, fazem lembrar Harrison Ford em busca da arca perdida.
Nas ruas a mistura de línguas faladas onde o português parece envergonhado e mal se ouve, preparando um audível caldinho universal de culturas, faz de Coimbra uma cidade cosmopolita. Por estes dias são às centenas, senão em milhares. São os turistas “low cost” da nova vaga.


AUTO-TESTE NO MUNICÍPIO




Como se este exercício de imobilismo servisse para testar o seu realizador, neste último Sábado, a Câmara Municipal de Coimbra, através do pelouro da Cultura, organizou na Baixa a II Mostra de Estátuas Vivas. Inserido num projecto cultural que visou trazer gente para a zona histórica, correu muito bem, sim senhor! A autarquia safou-se e merece uma salva de palmas.
Assim o seu desempenho global para a revitalização do Centro histórico merecesse a nossa aprovação. Infelizmente, como tanto tenho escrito, não é assim. A edilidade, num desalinhado plano sem ordenação e sem consulta a quem cá reside e trabalha, continua a decidir mal sobre questões essenciais e que marcam o nosso tempo recente. A Baixa, sem orientação superior, continua o seu caminho em busca de uma identidade perdida mas à custa dos investidores particulares. Aqui fica o pedido: se não orienta e não quer saber, no mínimo, deixe andar e não crie entraves burocráticos a quem, sem a rede do orçamento do Estado, arrisca as suas poupanças.


VIDA NOVA NA PAISAGEM




No antigo espaço do Runkel & Andrade, na Avenida Fernão de Magalhães, abriu há dias um novo espaço de restauração aberto vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Numa medida de grande inteligência, juntando o útil ao agradável, esta encantadora superfície, para além de ser área de restauração serve também como recepção de hóspedes para o Hotel Almedina nos pisos superiores.
Repetindo, um projecto dois em um, com fino gosto na decoração simples mas arrojada. Parabéns à gerência da reputada unidade hoteleira.

UM REGRESSO QUE SE APLAUDE





Depois de dois anos na cidade de Espinho, regressou à Lusa Atenas a família Meireles. Sem necessitarem de grandes apresentações, os Meireles, constituídos pelo Fernando, filho e júnior, e o Fernando, pai e sénior, esta dupla de músicos tem encantado vários palcos pelo país fora. No aforismo certeiro de que “santos da casa não fazem milagres”, Coimbra passa ao lado do enorme talento que estes dois prodígios distribuem a quem passa na Rua Visconde da Luz.
Se um dia destes os encontrar na rua larga, por uns minutos, pare, escute e olhe. São do melhor que existe na nossa música tradicional portuguesa.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

BAIXA: EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA




UMA NOVA BOOK BOX

Hoje abriu uma nova loja de livros, sobretudo em língua inglesa, na Rua do Corvo, quase em frente a Ricarlina.
Sobre gerência de Jacqueline Austin, uma professora inglesa aposentada com várias paixões, entre elas Portugal e os livros, é um projecto que procura pernas para andar. Uma vez que o inglês está transformado na língua universal, a intenção é criar uma carteira de clientes desde os jovens aos mais velhos no idioma de Sua Majestade.
Residente em Mortágua há meia-dúzia de anos e já a entender bem e a falar quase melhor o português, escolheu a Lusa Atenas para o seu negócio por ser uma cidade média e com muitos estudantes.
Em nome da Baixa, se posso escrever assim, seja bem-vinda e que alcance o merecido e legítimo sucesso.


UM CASTELO QUE SE REERGUE DAS CINZAS




Depois de cerca de um ano encerrada e a acumular o pó nos livros, (re)abriu hoje a histórica Casa do Castelo, na Rua da Sofia.
Em boas mãos, ou seja na pessoa certa que trabalha com o artigo certo, este projecto nunca falhará. O novo ocupante, que trata os alfarrábios por tu há muitas décadas, é um nosso conhecido e amigo, o José de Almeida Gomes, que vai complementar o armazém do Tovim de Cima com uma loja na Baixa. Seja bem-vindo, senhor Gomes!


UM NOVO CONCEITO NA CIDADE





No antigo espaço do Runkel & Andrade, na Avenida Fernão de Magalhães, abriu um novo espaço de restauração aberto vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Numa medida de grande inteligência, juntando o útil ao agradável, esta encantadora superfície, para além de ser área de restauração serve também como recepção de hóspedes para o Hotel Almedina nos pisos superiores.
Repetindo, um projecto dois em um, com fino gosto na decoração simples mas arrojada. Parabéns à gerência da reputada unidade hoteleira