sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

QUEM TE ENSINA A TI SAPATEIRO A TOCAR RABECÃO?

(Imagem da Web)


PRODUZIR JÁ FOI. O QUE INTERESSA AGORA É FORMAR MAIS NEGOCIANTES... PARA VENDER O QUE RESTA DE PORTUGAL AOS RETALHITOS

"Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700 euros mensais de subsídios estatais"

"O programa inclui ainda um apoio de 10 mil euros para quem quiser iniciar um negócio próprio."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

JOSÉ AFONSO FALECEU HÁ 30 ANOS – A CARTA




José Afonso, o “Zeca” como era carinhosamente tratado, faleceu há 30 anos. O autor de Grândola Vila Morena, Os Vampiros, e outras tantas composições que, para além de perpetuarem o seu génio artístico e histórico, continuam sempre actuais. Viveu em Coimbra uma boa parte da sua vida numa casa, assinalada com placa de azulejos, no Largo da Sé Velha.
Chegou-me há dias às mãos um “aerogram”, com data de 14/10/1973, que fala dele. A escassos seis meses da Revolução de Abril achei interessante a cultura política deste exilado, sobretudo a informação de quem estava fora do país, na Dinamarca, mas que sabia o que se passava cá dentro. Vou transcrever este documento:

14/10/73 Helisvaengzt
Fruens Boge
DANMARK

Caro Gil
Então como é que vai essa merda por aí? Tudo porreiro? Já começaste a trepar as Monumentais (Escadas) todos os dias? E quanto às eleições? Eu ando informado através da “República” (jornal já desaparecido), que chega aqui à malta portuguesa, que isso aí está mesmo mau. Bem, tu depois me dirás qualquer coisa. Eu já tenho a tua morada, por isso te escrevo directamente para tua casa.
Tu como és um gajo porreiro em certos aspectos, por isso conto contigo para que me possas informar do que vai acontecendo aí em baixo. Panfletos e merdas semelhantes que sejam difundidos aí por baixo conto contigo para que mos envies. Só terás a acrescentar a despesa que fizeste e eu mando-te a guita. Livros, revistas e coisas de interesse conto também contigo para me trazeres informado. Eu já fiz o mesmo pedido ao Paulo, não bem o mesmo, mas quase. Para já envio-te a minha direcção para que possa ter notícias tuas. Aí vai:

Alberto Pinto
Heliosvaengzt, 36 II
5.250 Fruens Boge DANMARK

Passas esta direcção ao Paulo e somente a quem tenha necessidade dela, ok? Se quiseres vir até cá numas férias era bem melhor. Isto aqui é bestial, em todos os aspectos a não ser que agora a temperatura anda pelos 4 graus de dia. A malta aqui está bestial. Temos um apartamento cada um, todo mobilado com tudo o que é necessário. Temos dinheiro que dá para viver, para estoirar e juntar para qualquer merda. Eu recebi 2.000$00 (10 euros hoje) para roupas quando aqui cheguei (Odense), depois de ter o asilo. E vão-me dar mais 1.000 e tal escudos, isto é, 300 Coroas para comprar mais roupa.
Enfim, gosto...
Eu gramava cá ter umas gravações do Zeca Afonso e por isso ponho a hipótese de tu me poderes arranjar quem mas grave, isto é, o serviço ou outro gajo qualquer. Queria que elas fossem gravadas em estereo, se possível. Para já ainda nada. Espero primeiro por uma carta tua em que tu dirás as possibilidades que tens para isso. Dinheiro não é problema, pois eu envio-to logo de seguida em coroas e tu troca-lo e ficas com o resto para selos e para ires mandando umas quantas notícias.
Fico à espera de carta tua e do Paulo, ok? Pergunta ao Paulo se ele não quer vir cá passar as férias do Natal?
Temos possibilidade de dar alojamento, a ti ou ao Paulo ou a um gajo amigo, se ele quiser vir por aí.
Bem pá, por hoje é tudo. Felicidades para ti e cumprimentos ao teu mano e à malta.
Farvel = Adeus. Estou sempre ao dispor.
Alberto Pinto”

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

COMUNICAÇÃO DE UMA CONFERÊNCIA SOBRE O COMÉRCIO TRADICIONAL QUE CONVÉM LER






CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DAS MICRO, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS (CPPME)


José Brinquete
Secretário-Geral da CPPME 
Regional Workshop Small Retailers
21 de Fevereiro de 2017, Culturgest, Lisboa



Revitalização do Comércio Tradicional


Minhas senhoras e meus senhores:

Cabe-me falar da importância da “Revitalização do Comércio Tradicional” ou de proximidade, como também muitas vezes o designamos.

Nos últimos 30 anos assistimos a grandes mudanças:

I

Primeiro foi o aparecimento das grandes superfícies, que neste espaço de tempo não pararam de crescer, como enxames de abelhas, por todas as vilas e cidades do país. Sempre com privilégios na fiscalidade, nos horários de funcionamento, no estacionamento fácil e na capacidade de aquisição dos produtos.

Depois foi o aparecimento das lojas chinesas, mas com produtos de origem chinesa, indiana, paquistanesa, etc., com artigos a preços de baixo custo que as lojas nacionais muitas vezes não podiam suportar.

Mais recentemente surgiu a crise, esta crise provocada pelos desmandos do sistema financeiro, que conduziu milhares de portugueses ao desemprego, afectando profundamente o mercado interno.

Na verdade, a política de austeridade, de cortes nos salários e nas pensões, de aumento brutal de impostos, reduziu o poder de compra dos portugueses e levou milhares de micro e pequenas unidades comerciais ao encerramento e à falência.

Na generalidade das zonas comerciais das vilas e cidades, onde sempre estiveram o comércio e a restauração, foram retirados os serviços públicos e foi condicionado drasticamente o estacionamento e a mobilidade de uma forma geral.

A tudo isto, há que acrescentar as dificuldades de acesso ao crédito, com vista a modernização do negócio, todas as questões da fiscalidade, os preços proibitivos da energia eléctrica, a lei do arrendamento não-habitacional, que a CPPME designa como a lei dos despejos comerciais, e muitas outras questões que afectam igualmente a actividade comercial.

Qualquer vila ou cidade está completamente cercada por grandes superfícies comerciais e de lojas chinesas (só na Avenida da República, em Vila Nova de Gaia, já existiram mais de 30 lojas chinesas).

Acontece que, nas zonas históricas ou antigas de qualquer urbe, onde se situava, e ainda se situa, a maior parte do comércio tradicional, é, precisamente, onde está a memória de cada uma dessas populações.

Daí afirmarmos que matar o comércio tradicional é, ao mesmo tempo, matar a memória desses espaços urbanos.

II

O quadro atrás referido, é suficientemente demonstrativo da profunda crise por que está a passar o comércio tradicional.

Não há nada a saber! As políticas económicas, implementadas nestas três décadas, levaram ao abuso de «poder dominante» e de «abuso de dependência económica» por parte das grandes empresas e oligopólios sobre as PME, apesar de ilegais e ilegítimas face à lei da concorrência..

Podíamos referir ainda: as condições do crédito às MPME; as Agências de Viagens que passaram para as mãos das Companhias de Seguros. Ou, a asfixia das pequenas empresas dos sectores funerário, de oficinas de reparação, de empresas de reboque, etc.

Para já não falar da predação das grandes empresas de energia e combustíveis sobre as PME, ou as gravosas condições impostas pelas grandes cadeias de distribuição de vestuário (Grupo Inditex/Zara por exemplo) sobre a sua rede de PME subcontratadas, entre outros exemplos que aqui poderiam ser dados.
Deve dizer-se que as zonas históricas ou antigas ainda há décadas fervilhavam de intensa actividade comercial. Aliás o comércio terá sido algumas vezes o embrião desses próprios centros.

Hoje, na maioria das urbes, essa intensa vida comercial deixou de existir ou apresenta-se decadente. Muitos apontam a pequena dimensão, a pouca diversidade da oferta, a não adaptação de horários, a não adesão a formas de comércio electrónico ou, até, a vetustez dos equipamentos como causa dessa decadência. Há naturalmente alguma razão nisto tudo. Mas essa razão não explica tudo.

Como explicar que o comércio de proximidade, no geral desenhado na urbe, à escala humana, deixe de integrar a vida urbana? Que alternativa ou alternativas foram oferecidas?

Duma coisa temos a certeza, sem comércio e serviços não há cidade nos espaços históricos e em novas centralidades, que as dinâmicas e o crescimento da urbe sempre criaram. E, para desatar este o nó cego, a mobilidade urbana (do cidadão, da viatura e do estacionamento) é um dos aspectos vitais.

A maior parte das grandes superfícies incluem parqueamento, restauração e diversão. Constituem-se como pólos alternativos à cidade histórica e às novas urbanizações, estas quase sempre sem planificação adequada.

Que fique claro, na Confederação não diabolizamos as grandes superfícies, mas também não se podem matar os centros históricos. Há que lhe dar uso e serão sempre incompletos sem o comércio.

III

O que fazer, então?

O planeamento urbanístico pode, e deve, definir as regras de ocupação do território que, a ser cumpridas, impediriam muitas das grandes superfícies. Sobretudo, aquelas que estão a mais!.

Depois, é essencial revitalizar os centros históricos, investindo na regeneração urbana.

Então que políticas de regeneração?

1 -A nosso ver, através de direcção municipal, participada, discutida com as populações, com os agentes sociais, económicos e culturais. Depois, políticas de manutenção de emprego, de espaço urbano ocupado, durante todo o dia, por aqueles que lá residem mas também por aqueles que lá trabalham. Voltar a instalar serviços públicos que empregam e mobilizam milhares de pessoas para os centros das Vilas e Cidades.

2 -Modernizar velhas estruturas locais, sejam elas o mercado, a escola, o jardim de infância, o lar de terceira idade, o teatro, o museu ou as colectividades. Criar novas actividades, onde as indústrias criativas poderão ter um importante papel – na animação, no entretenimento, na cultura e até nos desporto.

3 -Na manutenção da habitação e dos habitantes, procurando mesclar a actual maioria de população envelhecida com novos habitantes, que serão os novos utilizadores de todos os equipamentos e actividades antes referidas.

4 -E claro, políticas de apoio ao comércio de proximidade no acesso ao crédito, no arrendamento comercial, na redução dos impostos e das taxas, na baixa dos custos fixos e de contexto, na mobilidade (que como dissemos atrás é crucial), no combate à concorrência desleal fazendo funcionar a autoridade da concorrência, na melhoria do poder de compra dos portugueses, entre muitas outras medidas.

IV

Minhas senhoras e meus senhores!

Colocadas algumas questões que nos parecem centrais para a abordagem desta matéria “Revitalização do Comércio Tradicional”, gostaríamos de dizer, por fim, que estamos disponíveis para continuar a procurar as melhores soluções para a resolução dos constrangimentos aqui recenseados e outros que vierem a considerar-se importantes.

Muito obrigado pela atenção dispensada!

José Brinquete
Secretário-Geral da CPPME

SEMINÁRIO REABILITAÇÃO HUMANA DO CENTRO HISTÓRICO DE COIMBRA

Foto de Baixa de Coimbra.



Mais logo, pelas 19h15, no Teatro da Cerca de São Bernardo vai acontecer...



Este seminário tem como objectivo a abordagem de situações difíceis que assolam o Centro Histórico de Coimbra e perceber quem e que acções têm sido levadas a cabo para resolver ou minorar o seu impacto no meio onde acontecem. Esta iniciativa conta com a participação de associações de cariz social (Ergue-te, Associação Integrar, Obra de Promoção Social do Distrito de Coimbra, Cáritas Diocesana de Coimbra e AMI) e entidades que poderão estar envolvidas na solução para os problemas que existem na rede humana e social do Centro Histórico da cidade, como a Segurança Social, o Instituto de Emprego e Formação Profissional e a Câmara Municipal de Coimbra.” -retirado da página Baixa de Coimbra, no Facebook.

CARTA AO TRAMP (DESCULPA LÁ...)

Resultado de imagem
(Imagem retirada da Web)






Trump, meu amigo, companheiro -não te chamo camarada porque poderia irritar-te deveras, e não quero- espero que estejas bem, isto é, que ainda estejas em pé depois dessa tua constante provocação mundial. Antes de prosseguir, como deves calcular não me esqueço da Melania. Sei que continua boa, boa, sempre boa de saúde, é claro.
Continuando, meu caro colega, gostava de te dar os parabéns por continuares a agitar o teu país, os vizinhos do lado e os fora de vistas. Ó pá, imagino que a indústria mundial de fármacos, sobretudo de ansioliticos e produtos para emagrecimento, não deve estar nada a gostar da brincadeira. Por cá no meu cantinho tudo continua quase, quase igual. Refiro Portugal -não sei se já ouviste falar, se calhar não. Às tantas até pensas que, apesar de me conheceres, pela proximidade da língua, sou mexicano. Nem me admira se isto for mesmo assim. Sou da terra do Lobo Antunes. Aquele que escreve o que penso. Já estás a ver qualquer coisinha?
Continuando, que não devo fugir ao tema, essa tua jogada de aí, nos “staites”, colocares tudo a mexer é de mestre. O pessoal, por aí, andava muito obeso, só emborcava batatas fritas e hambúrgueres, e não fazia qualquer tipo de exercício. Agora não, passam a vida de cartazes ao alto e a gritar contra a decisão da maioria de te eleger. Espectacular, meu! Eu vi logo que quando revogaste a lei de reforma da saúde, o Obamacar, do nosso ex-colega que te precedeu, tinhas um novo modelo, como quem diz, um trunfo na manga. Está de ver que sabes bem o que fazes e caminhas em boa direcção. É preciso entregar tudo aos privados. Por aqui a coisa é parecida. Embora o que era bom já foi. Agora já só restam os transportes públicos de Lisboa e Porto, mas, pelo prejuízo continuado que geram, ninguém os quer.
Vê cá o nosso colega Marcelo -deves conhecer, é o supervisor do “teatro” nacional, o ministro-sombra do Governo, o nefelibata da ubiquidade, “o assunto arrumado da razão pura” de tudo o que não interessa discutir. É só beijinhos e abraços aos velhinhos. Por este andar, com tantos carinhos, vão durar até aos cem. Um problema de custos incomensuráveis para o Estado, como já anteviste. É de tal maneira grave que, para o contrariar, os partidos de esquerda querem a legalização da eutanásia a toda a pressa. Este Marcelo, que até é bom homem, nem as pensa! Com tanta lamechice à solta ainda nos torna mais moles do que já somos. “Pai mole gera filho molengão”, não é o que dizem?
Mas, ó Tramp, desculpa lá! Como a conversa é como as cerejas, até esqueci do que me trouxe aqui e levou a escrever esta cartita de cumprimentos efusivos. Então, afinal, sempre havia merda -perdoa não escrever trampa, mas podes pensar que estou a gozar contigo- lá na Suécia! Venho pedir-te perdão. Até eu, que te conheço, duvidei de ti. Cheguei a pensar que a Melania andava a esgotar-te fisicamente e dar-te cabo do intelecto. E não é que, como o tempo mostra sempre a razão, estavas a falar verdade? Já agora, meu caro, aproveito para te fazer uma pergunta: achas que, por cá, no velho continente, tentam esconder alguma coisa? Achas que a coisa está a ser branqueada com detergente da China? Ó pá, acredita, fiquei com a pulga atrás da orelha.
Abusando de ti, agora que já estás há mais de um mês na Casa Branca, não consigo deixar de te interrogar: se os Democratas, com o “Barraco” a comandar a coisa, deixou tão bem a tua terra, por que razão foste tu o escolhido? A culpa foi da Rússia? Achas que, em analogia, o que moveu os eleitores norte-americanos foi o mesmo sentimento que impele um gajo com uma mulher boa, boa, boa e repetidamente boa, a meter-se com a vizinha, que é um cavaco do pior? Teria sido isso?
E não te admires se por cá, pela Europa, a coisa vá pelo mesmo caminho. Vivemos todos muito felizes. Adoramos o situacionismo democrático. Amamos este Estado como “pater” protector. Este sistema monetário do euro é fantástico. É uma maravilha podermos circular à vontade. O não termos dinheiro para o fazer, bom, é um mero detalhe de circunstância. O que interessa não é o interesse geral como fim em si mesmo mas como meio. Ou seja, o que importa é termos um leque de possibilidades mesmo que nunca as possamos usufruir e que esteja apenas acessível somente a alguns. É assim uma espécie de miragem constitucional. Vivemos numa certa doutrina imposta de cima para baixo, da cúpula para a base. O vértice da pirâmide pensa, irradia pelos meios de informação, e o povo aceita pacificamente até ao dia em que, só para chatear, elege um “Tiririca” ou um Tramp como tu -não leves a mal, escrevo isto pelo arrebatamento que me causou a tua subida ao pódio.
Recebe um caloroso abraço cá do rapaz. Quando quiseres visitar-me estás à vontade. Garanto-te que cá no meu largo não haverá manifestações de protesto contra a tua visita. Isso é que era bom! Aqui mando eu, e tenho tudo controlado. Ai não?!? Se não poderes vir, faz-me um favor, manda a Melania.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

FALECEU O PARRA DAS MOEDAS






Durante cerca de quarenta anos foi companheiro diário nesta nossa Baixa comercial. Com estabelecimento dedicado a moedas, selos e medalhística, na Avenida Fernão de Magalhães, junto à pastelaria Arco Íris, Francisco do Nascimento Fernandes Parra foi o rei do coleccionismo. Da sua loja, situada no primeiro andar, saíram peças raras para todo o país e para o mundo.
Homem algo reservado na sua forma de ser, pela sua honestidade, cordialidade e respeito, cultivou na vizinhança um misto de admiração e estima. O “Parra das moedas”, como era conhecido entre nós, faleceu com 86 anos. O corpo encontra-se hoje em câmara ardente no centro funerário nossa Senhora de Lurdes onde, mais logo, pelas 15h30 será realizada a celebração da palavra e em seguida o féretro seguirá para o crematório municipal de Taveiro.
Segundo um vizinho, que pediu o anonimato, apesar da sua avançada idade e alguma fragilidade própria, esteve na loja até há cerca de duas semanas. Era um “comerciante à antiga”, em que o estabelecimento era sua extensão, confiável, daqueles em que a palavra dada era escritura cumprida.
Com mais esta perda a Baixa fica ainda mais empobrecida. Foram comerciantes como o Parra que ajudaram a erguer este centro comercial a céu aberto tal como o conhecemos, guardamos na memória, e que jamais voltará a ser igual. Foram homens como este que, naturalmente perseguindo o seu interesse egoísta, pela sua longa estada entre nós -já que os seus estabelecimentos, à medida que se iam aguentando no tempo, transformavam-se na sua segunda identidade- contribuíram para dar uma outra face humana e personalizada à Baixa de Coimbra.
Fugindo um pouco ao tema, a título pessoal, sem pretender mostrar desvalorização ou demérito para os novos comerciantes que agora se instalam -estes são apenas o resultado de uma política desastrosa, destruidora, de toda uma classe profissional cuja consequência vai ser muito custosa para os vindouros-, à luz das regras ultra-liberalizadas de confisco, em que o Estado apenas se interessa pelos impostos sugados e pouco pela sobrevivência dos seus cidadãos mais frágeis e, para além disto, perdendo o papel de moderador na concorrência desenfreada entre grandes e pequenos, é praticamente impossível um investidor comercial aguentar décadas no mesmo negócio. Hoje um pequeno comerciante está transformado num pária. Pelo que arrisca, é menos que um precário sem vínculo, sem contrato a termo -pouco se fala disto, mas irrita sobretudo quando lemos notícias destas: "Fisco deixou sair 10.000 milhões para "offshores" sem vigiar transferências."
Voltando ao desaparecimento do nosso amigo Francisco Parra, em nome da Baixa comercial, se posso escrever assim, para a família enlutada, os nossos sentidos pêsames. Até sempre, “Parra das moedas”.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O NEGRO SILÊNCIO IMPOSTO DA MINHA RUA





Cerca das 10h30 de hoje, na Rua Eduardo Coelho, junto à desaparecida sapataria Trinitá, uma voz rouca, bem afinada e acompanhada pelos sons melodiosos de uma viola bem tocada, começou a ouvir-se, a fazer lembrar Nuno Norte, dos Ídolos. Como manhã de nevoeiro de Agosto num vale frio e silencioso, as notas soadas espalharam-se rapidamente pelos becos em redor. Durante quinze minutos, a até aí artéria ensonada e entregue a si mesma no torpor de todos os dias ganhou vida, cor, barulho e até odor. Eis então que alguém se dirige ao espectacular músico de rua para ele parar imediatamente porque perto dali havia uma senhora doente. E o intérprete, obedecendo ao dever moral maior, parou, enfiou a guitarra no saco, e encaminhou-se para as ruas largas.
Quem o fez, no seu egoísmo tadinho, não vislumbra que, por um lado, através de uma mentira torpe está a roubar aos confinantes o prazer de ouvir uma toada de anjos, por outro, está a contribuir para a desertificação das ruelas estreitas. Às vezes apetece mandar certa gente para um lado que eu cá sei. Pouca sorte termos vizinhos assim. Afinal um pátio, uma rua, um bairro, uma cidade, na sua idiossincrasia, na forma colectiva de ser, são sempre o resultado individual dos seus moradores.