domingo, 11 de fevereiro de 2024

25 DE ABRIL, 50 ANOS DEPOIS

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)





Almerindo Oliveira, num daqueles dias em que tudo parece pardo e desvirtuado, sentiu-se nostálgico. Fosse pelo peso das suas 65 primaveras, e prestes a entrar na reforma, sem penalização. Fosse pela maldita barriga que, mesmo comendo pouco, teimava em não abater. Fosse pela enorme clareira que dividia a sua cabeça num campo de aviação para animais voadores e duas margens densas para nidificar a caspa, a verdade é que as constantes manifestações de classes profissionais ocorridas no último ano, tem-no deixado apreensivo.

Reivindica-se trabalhar menos horas e auferir maior ordenado; pede-se que o Governo acabe com o IMI, Imposto Municipal sobre Imóveis, e Imposto de Selo. Em contrapartida, que se construa mais largos milhares de habitações sociais, e passe a ser o pai espiritual de milhões de filhos de pai incógnito; reclama-se o aumento desenfreado para os aposentados com reformas baixas– mesmo para quem não descontou. Muitos contribuintes, jovens e menos novos, viram descer até ao gratuito o custo dos passes sociais e descidas nos escalões de IRS – mas é pouco e querem muito mais, como, exemplo, a gratuitidade de propinas universitárias. Requer-se a baixa de IVA para todos sectores da actividade económica.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS), depois de classificado como excelente, bestial, durante a pandemia em 2020/2021/2022, de repente, num virar de página, como se uma nova pandemia social maléfica se instalasse, as denunciadas falta de médicos e filas para marcar uma consulta passam a constituir abertura de telejornais diariamente. Os professores, mesmo com a razão que lhes assiste, liderados – ou instrumentalizados - por vários sindicatos, contribuem para o caos. Com os tribunais atulhados de processos em atraso vergonhoso, os oficiais de justiça fazem greve a exigirem novos aumentos.

Com um Presidente da República mais interessado em concentrar o olhar nos índices de popularidade e o Ministério Público acutilante e actuante, transformado em Deus omnipresente e vingador, o Governo, com casos suspeitos e outros insuspeitos, caiu nas suas malhas e o Primeiro-ministro, António Costa, de um pedestal de estrela brilhante, caiu, resignou e passou a gestor de um executivo em coma de apagamento.

Alegadamente, assente num erro discriminatório no aumento de uma ramificação policial pelo Conselho de Ministros, os restantes responsáveis pelos vários ramos de segurança, PSP, GNR, Guardas Prisionais e Agentes da Polícia Municipal, mesmo sabendo que o Governo, em modos limitados de Gestão, não pode assumir compromissos para o futuro que onerem o país, fazem uso de baixas médicas fraudulentas para faltar a compromissos inadiáveis e tomam a rua como centro de anarquia, lançam o medo e a insegurança. Numa mimética comprometedora, os Bombeiros Sapadores entram no cortejo reivindicativo dos subsídios de risco.

Os agricultores, depois de décadas de exploração pelo grande comércio nacional e deixados pisar por normas concorrenciais ultrajantes exaradas pela Comunidade Europeia, perante o ruído devastador dos rurais franceses, decidem acordar agora, precisamente, quando o Governo pouco pode fazer.

Em casa onde não há pão, todos ralham e nenhum tem razão.

No próximo 10 de Março, perante 8 candidatos a primeiro-ministro sem cadastro, sem bússola ideológica onde o que conta é o assédio eleitoral sem limites, e sem provas dadas que garantam confiança governativa, vamos ter eleições legislativas.

Como se de um “complot” se tratasse, um plano cúmplice maquiavélico a conduzir em direcção à tragédia, parece tudo muito estranho.

A trabalhar desde criança, Almerindo, filho de pais humildes, não pode estudar em tempo útil, mas, mesmo assim, apanhando o comboio das letras de noite e trabalhando durante o dia, tirou o curso de TOC, Técnico Oficial de Contas. Subindo a pulso no escalão social, conseguiu entrar nos quadros da função pública e tornar-se “manga de alpaca”.

Desde que se lembra e até hoje, sempre teve dois empregos, um a servir o patrão Estado até meio da tarde e o restante, até altas horas, a fazer contabilidade em pequenas e médias empresas. O sacrifício familiar foi uma constante sem precedentes em toda a sua vida de marido, pai e avô.

Desde a modesta casa até ao mais que rodado velhinho Fiat Punto, de 1984, tudo fora adquirido a prestações. Numa graça sem limites, no meio de uma gargalhada, diz que a sua maior alegria é a liquidação da última prestação.

Como se numa catarse, uma libertação de sentimentos ou emoções reprimidas, tivesse necessidade de se embrenhar no passado distante, tão longe, por se esfumar nas trevas da memória, e tão perto, por o tempo, marcado a ferros e parecer que foi ontem, passar a correr.

50 anos depois de 1974, aceita sem rebuço que a vida quotidiana dos portugueses melhorou muito. Mas nunca chegará ao ponto de ser perfeita.

Contudo, não podemos esquecer que o Estado Social não dá nada sem que antecipadamente tenha recebido. Ou seja, numa justeza equilibrada, é um distribuidor que, com divisão coerente evita uma discrepância social entre os que mais têm e os menos bafejados pela sorte.

Embora compreenda que o dissenso social é o motor do desenvolvimento, Almerindo, perante a sua longa experiência de vida, trabalhosa e difícil, custa-lhe entender tanta exigência ao Estado. Se todos queremos legitimamente auspiciar uma vida melhor, naturalmente, devemos ser serventes do Estado Social.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

MEALHADA: O ÚLTIMO DIA DO MERCADO DE SANT’ANA





O relógio da torre sineira da igreja matriz da Mealhada terminou há pouco de bater a última das doze badaladas. O tempo, como se indeciso entre o rir e o chorar e a oscilar entre dois polos, ora intermediava entre um sol brilhante e radioso e uma chuva copiosa.

O senhor Ventura, com o interior da caixa-aberta da sua camioneta repleta de caixas de madeira, preparava-se para abandonar o Mercado de Sant’Ana pela última vez. Esta popular praça, de roupas novas e usadas, calçado, árvores fruteiras, aves de criação, carnes vermelhas e brancas, sementes e hortícolas encerrava definitivamente hoje, 10 de Fevereiro de 2024.

Durante as últimas três décadas, impreterivelmente, pelas sete da matina de um qualquer Sábado, gelado ou tórrido, o comerciante de frutas e hortaliças marcou presença e, como fazendo parte integrante de um coro em notas musicais desafinado, com os pregões brejeiros e de assédio, ajudou a tornar aquele espaço, onde a ruralidade franca, com o calão, o palavrão e o vitupério, numa miscelânea de cores variadas, misturada com a “finesse” citadina, se torna encantadora. Como se um território neutral se tratasse, numa paz orgânica, tolerante e apaziguadora, ali, numa amizade cimentada nas diferenças de cada um, num caldinho multicultural, conviveram vendedores de etnia cigana, negros, e homens e mulheres de todas as cores.

Com a mão esquerda na manete da porta do automóvel, o pé do mesmo lado no patim e o direito na terra batida e esburacada pelo calcar das máquinas e carroças de duas rodas, o comerciante de frutas e leguminosas, com um olhar apagado e tristonho, com a mesma nostalgia de quem se despede de um amigo que parte para sempre, aparentando não ter qualquer pressa, parecia amarrado e adormecido perante a paisagem que se estendia à frente dos seus olhos.

Não era uma bela vista paradisíaca, daquelas metafóricas pinturas materializadas que transcende a realidade e faz bem à alma de qualquer um carecente. Pelo contrário, numa imensidão de chapas de folhas onduladas meio retorcidas a proteger parcialmente das intempéries e da canícula e suportadas por barras de ferro enferrujadas a fazer lembrar uma imagem terceiro-mundista, era um cenário de extrema pobreza visual.

Com o motor a ronronar, como se de um gato se tratasse, parecia que o “bicho”, sem respeito pelo sentimento de solenidade do momento, aguardava o par de mãos do dono para se pôr a andar dali para fora. Mas o homem, como se estivesse pregado com cimento àquele chão pleno de crateras, teimava em não dar acordo de si.

Só quem sente abruptamente o corte de qualquer coisa, um hábito, uma rotina, que se colou a nós e, como revigorante, nos ajuda a encarar o dia e a ser o que somos, consegue compreender o sofrimento do desaparecimento de algo que morre, ou desaparece, e perceber a lágrima solitária e furtiva que se soltou daqueles olhos cansados.

Mas, foi emoção de um momento. Segundos ou minutos, ou coisa que o valha. O som estridente de uma buzina acordou o senhor Ventura daquele longo torpor.

No próximo Sábado estará novamente pronto a atender os seus muitos fregueses na nova infra-estrutura comercial.


O NOVO MERCADO ABRE NO PRÓXIMO DIA 17


Depois de 115 anos a servir a população, entre o provisório e o definitivo, o Mercado de Sant’Ana fecha a última página de uma história que dava um livro. O terreno, onde funcionou mais de um século e está englobado no átrio da Capela com o mesmo nome, é propriedade da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada. Alegadamente, destina-se à construção de novas valências sociais, como lar de terceira-idade, a desenvolver por conta da Irmandade mealhadense.















quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (3)

 



Nos últimos três dias, numa espécie de rosário (terço), trazendo à discussão a festa de ano em Barrô, fui desfolhando as contas. Ainda que possa parecer provocatório, a intenção é, trazendo o assunto à liça, tentar perceber o que se passa, dando ideias, e, pelos interessados, fazer reflectir para o futuro.

Bem sei que, alguns, estarão a pensar: “olha p’ra ele armado em esperto. Se sabe tanto, que faça ele!

Como ressalva, pelo que vou escrever a seguir, mais uma vez peço desculpa se alguém se sentir ofendido.

Levando à letra o pensamento que me levou a redigir esta série de textos, a solução para elevar esta terra no espectro concelhio não reside num homem só, mas sim num grupo de moradores dispostos a largar a sua área de conforto e que esteja disposto a romper com a inércia, a preguiça da inactividade. Sobretudo, despender algum do seu tempo em nome de um projecto social sem fins lucrativos que, destinado a um colectivo amorfo e silencioso, pode falhar e implicar o endividamento dos envolvidos.

Apesar de habitar, de facto, há cerca de quatro anos, já deu para ver que, na generalidade, os moradores na aldeia são pouco solidários uns com os outros.

Numa catarse mal tratada, muitos permanecem em conflito consigo mesmos desde que nasceram e procuram na religião a abstracção que lhes traga a redenção.

Numa espécie de capa comunitária de mentira, todos se dão bem. Mas isso é apenas o que parece. No fundo, bem no fundo, dissimulado nas entranhas, há um ódiozinho de estimação a minar as relações de fraternidade.

Voltando a ideias que possam dar resistência e manter a festa de ano de pé, vou elencar algumas “deixas”:


1 -Anualmente, deveriam ser nomeadas duas comissões de mordomos:


A sacro, que seria responsável unicamente pela realização das homilia e procissão solene.

Este grupo, constituído por três residentes, embora independente, ficaria ligado à Comissão de Capela. Com uma conta bancária associada mas autónoma, este movimento de entradas e saídas de dinheiro, embora sobre consulta por parte da comissão de capela, apenas seria movimentado por dois elementos nomeados para gerir a festa do ano em curso.

Em caso de contas positivas, sempre tornadas públicas sejam negativas ou positivas, o remanescente deveria ser depositado num fundo de reserva transitando de um ano para o seguinte e servir de almofada a quem vier de novo.

A este grupo de três pessoas, mais que certo senhoras, durante o ano de vigência mordoma, cabe-lhe tomar várias iniciativas, na aldeia e fora dela, de modo a conseguir verbas que lhe permita fazer melhor do que o ano anterior – mais abaixo enumero uma série de actividades que podem ser aplicadas, isto para além do peditório directo ao povo;


2 A profana, constituída por três pessoas essencialmente homens, seria a comissão nomeada anualmente para realizar as festividades alegóricas, tais como, arruada com gaiteiros, contratação de grupos de baile e outras iniciativas artísticas.

Embora independente, este grupo ficaria ligado à Associação Recreativa - tenho esperança que, mais dia menos dia, acorde do seu longo sono letárgico -, com uma conta bancária independente do clube. Esta conta seria movimentada por dois dos três mordomos nomeados. Em caso de resultados positivos, o remanescente transitaria para um fundo de reserva, para servir de almofada para os anos seguintes.

A Associação Recreativa, sem força executiva nos planos de mordemia, serviria como incubadora, parte consultora e comparte na ajuda à realização dos eventos;


3 – Iniciativas para angariar fundos ao longo do ano (que podem servir para as duas comissões Sacra e Profana):


Janeiro – percorrer as casas com o cantar das Janeiras (5, 6 e 7 de Janeiro), pedindo dinheiro ou géneros. Esta alegoria seria para usar na festa a seguir, passados uns dias.

- Pedir nos estabelecimentos comerciais, no concelho, géneros variados.

- Os géneros, garrafas de vinhos, licores, chouriças, salpicão, presunto, broa, roupas, artigos de bricolage, outros, seriam leiloados no Sábado ou Domingo do Dia da Festa, a ocorrer em 20 de Janeiro, no Largo da Capela.

- Alguns destes géneros, assim como outros angariados, seriam canalizados para uma quermesse com rifas enroladas junto à capela e outra dentro do salão recreativo.

- Sendo este o dia das festividades, recuperar a moda do Ramo, a dança da flor nos arraiais.

- Venda de garrafas, ou outros, em leilão nos intervalos musicais.

- Concurso para os melhores pares dançantes.

-Realizar, neste dia, uma Feira de Velharias no Largo Assis Leão.


Fevereiro – Feitura de vários livros, com senhas numeradas, com três prémios a sortear no dia da festa.


Março – Primeiro peditório porta-a-porta na povoação. Possibilidade de angariar fundos em outros lugares da freguesia.

(usar o Dia de Páscoa como instrumento para captar fundos)


Abril – Primeiro grande almoço a realizar na Associação Recreativa de Barrô para angariação de fundos.


Junho – (re)criar os populares “cravanços”, constituídos por duas pequenas fitas cruzadas e um alfinete.

Começar a cravar os populares com uma moeda, fora e dentro do lugar.


Julho – Realizar o segundo almoço na Associação Recreativa de Barrô, para angariar fundos.


Setembro – Realizar um almoço no Pavilhão de Várzeas para angariar fundos – em troca, Várzeas usaria o salão de Barrô em Novembro, aquando das festas locais.


Novembro – Num Domingo, realizar uma matiné na Associação Recreativa de Barrô com um grupo musical, por exemplo, um organista e outro.

Convidar, por exemplo, o Ruizinho de Penacova para actuar em Barrô.


Dezembro – Usar o presépio de Natal, no Largo da Capela, como incentivo a pedir donativos aos visitantes.


FIM


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (2)




Em anterior apontamento referi a dificuldade em angariar fundos para um evento, a Festa de Ano da aldeia – e que penso ser transversal -, que é cada vez mais encarado como algo desnecessário, que não faz falta nenhuma, que nem aquece nem arrefece. Mas não é assim, a festa de ano de um lugar habitado não é apenas a alegoria em si mesmo, é a identidade cultural das suas gentes, é o abraço de quem saiu menino e nesse dia regressa coxo e cheio de cabelos brancos.

Numa longa lista, podemos elencar em primeiro lugar as dificuldades económicas das famílias na actualidade.

E como entender que o Estado, através de várias licenças camarárias e outras para espectáculos, cerca de oito licenciamentos, seja cerceador de iniciativas?

Será mesmo por estes dois obstáculos principais que as romarias e outras festas populares estarão em crise?

Como se explica que na década de 1960 e seguintes, quando o número de habitantes/moradores era menor do que hoje, onde o lugar de Barrô era um dos mais pobres na freguesia de Luso, se realizavam três festas anuais: São Sebastião (esta incluía procissão), São José e Alminhas? E não se pense que as festas eram abrilhantadas com um acordeonista e pouco mais. Nada de mais errado.

Enquanto criança e adolescente, relembro muito bem de ver aqui actuar os “Yankes”, o “Amadeu Mota”, os “Pavões”, os “Perus” e até o “Pop Men”. Bandas que eram o top na altura.

É bom recordar que os arraiais eram feitos na via pública – hoje existe na aldeia uma das melhores associações recreativas no concelho, que, desconhecendo-se quem manda nela, não funciona há vários anos.

Na altura, o Domingo da festa era o melhor dia do ano. Era ver os abastados com o seu desempoeirado fato domingueiro e chapéu na cabeça e os mais necessitados com as calças e camisas remendadas nos sovacos no Largo da Capela, colocando de lado os desentendimentos, de rostos abertos e felizes.

A seguir ao Dia de Páscoa, o Dia de São Sebastião, em Janeiro, em Barrô, era o prenúncio da paz na família para todo o ano que se iniciava. Os familiares, que moravam nas redondezas, vindos montados nas suas bicicletas, eram os convidados de honra.

Independentemente da classe, para além de galinhas e coelhos, quase todos matavam uma ovelha ou cabra para fazer chanfana, que era assada nos fornos a lenha situados na parte traseira da habitação. Nestes dias, como perfume a anunciar a vinda de um tempo novo, com os fios ondulantes de fumo a saírem das chaminés, o cheiro a carne assada invadindo tudo em redor, transformava a paisagem em quadro edílico.

Como escrevi ontem, pode até pensar-se que, no pior dos cenários, desaparece a parte profana (vinda de artistas e grupos de baile) mas mantém-se a religiosa. Como defendi, nada de mais falacioso. Se morrer uma, inevitavelmente, a outra entra em coma… A menos que que sejam alterados os métodos de licenciamento e planeamento na logística.

Por outras palavras, se não houver uma reviravolta no pensamento comum, sensibilizando todos para um bairrismo saudável e apelando uma maior generosidade, se não se transformar a sua organização em algo mais sustentável, o mais provável é morrer de vez.

Naturalmente, por parte dos mordomos nomeados não se pode arriscar investir cinco ou dez mil euros e, se o tempo for chuvoso, ficarem com uma dívida às costas, sem rede e sem suporte financeiro.

Por isso mesmo, embora pareça despiciente, é preciso parar e pensar o que queremos. Se queremos mesmo continuar, é preciso não continuar a assobiar para o lado. E que todos se entreguem à causa com honestidade e responsabilidade, de alma e coração.

Não se pode continuar a fingir que a feitura de um evento cultural é apenas para os outros. Os que realizam, assumindo a responsabilidade, devem entregar-se com empenho. Os que assistem tem o dever de comparticipar nos custos e, acima de tudo, comparecerem, para mostrar que estão ao lado de quem faz.


(CONTINUA AMANHÃ) 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (1)




Para os que seguem o que escrevo, na semana passada, publiquei várias crónicas sobre as festividades em honra de São Sebastião, o padroeiro da aldeia de Barrô, que se comemorou ontem, 21 de Janeiro.

Através de um ou outro texto mais sério e outros, a maioria, em maneira mordaz (que morde, sarcástico), fui dando conta do evoluir da situação, como quem diz, se iria haver ou não festa religiosa - e já agora que chamo à colação o estilo em jeito de brincadeira, aproveito para pedir desculpa a alguém que se sentisse ofendido.

Praticamente, só nos últimos dias se chegou à conclusão que, em virtude de alguns donativos de maior vulto, seria possível realizar a missa e em seguida a procissão solene.

Relembro que, pelos usos e costumes, esta alegoria divide-se em duas faces: a sagrada e a profana.

A sagrada, constituída pela missa e procissão, tal como o nome indica, destina-se essencialmente aos crentes - para expressarem a sua fé enquanto alimento espiritual - e também àqueles que pretendem pagar promessas ao santo que fizeram durante o ano antecedente, depois de ver os seus desejos realizados.

A parte profana é constituída por pequenos vícios que visam servir o corpo físico com coisas que a igreja poderá não aprovar, isto é, tudo o que é alheio à religião.

Exemplos de profanação: um ou vários eventos com música, com artistas de nomeada ou banda de baile, ou outro teor artístico variado.

De salientar, ainda que opostos, os conceitos sagrado e profano estão ligados entre si como irmãos siameses. Só haverá crescimento de uma se a outra se desenvolver em harmonia. Se uma morrer, inevitavelmente, a outra desaparece em seguida.

Por outras palavras, se não se realizar a festa sagrada, ou se for perdendo importância, proporcionalmente vão decaindo os fiéis e a heresia vai crescendo nas comunidades. Por outro lado, a importância da imagem santífica na hagiografia (estudo da biografia dos santos) vai caindo na acreditação católica e, levando à descrença popular e falta de apelo, este protector, a médio prazo, pode desaparecer.

Não se fazendo as festividades anualmente as portas das casas da aldeia não se abrirão e cada vez mais as pessoas se tornarão vizinhos mais individualistas e solitários. Não virão os nascidos na terra e a residir e a trabalhar noutras cidades portuguesas. E muito menos os distribuídos na diáspora, os dispersados pelo mundo fora.

Estas celebrações pagãs são, sobretudo, um motivo para convívio anual e encontro de gerações.

Mas sabendo que a colectividade se mostra progressivamente mais desinteressada da memória e tradições populares, e, por outro lado, a sua contribuição pecuniária é cada vez mais insignificante – testemunhei um residente contribuir com uma moeda -, como se poderão fazer omeletas sem ovos?


(CONTINUA AMANHÃ)

 

domingo, 21 de janeiro de 2024

BARRÔ: NOTÍCIAS BREVES

 


* Com a Capela cheiinha até à rua – o que também não é muito difícil já que é pequena -, com início às 15h00 e durante mais de uma hora, o pároco celebrante da missa em honra de São Sebastião entusiasmou-se nos conceitos bíblicos e, com simplicidade e simpatia, com um sermão estruturado em paradigmas do quotidiano, através de um convite à prática da bondade e implementação do perdão, tentou apelar à conversão dos fiéis mais tresmalhados.

Já passava das quatro horas quando os quatro andores, entre eles o do padroeiro, transpuseram o átrio e em direcção ao Largo.

Foi bonito de ver a imagem de São Sebastião, no púlpito do andor todo engalanado com flores naturais de várias cores, ao ombro de quatro voluntários. Deu para perceber que o protector contra a fome e a guerra estava contente. Sem preconceitos, de cabeça erguida, olhos fixos no firmamento, tresandava a orgulho e solenidade.

Abrilhantada por uma mini-banda filarmónica, reunida à pressa, de Vila Nova de Monsarros e, alegadamente, por professores de uma escola de música de Coimbra – que, a propósito, desempenharam muito bem o seu papel artístico -, a Procissão, em passo cadenciado, muito bem dirigida por Edite Pedro, zeladora da Capela, percorreu toda a aldeia.

A fazer relembrar outros tempos de antanho tão presentes na nossa memória, o estralejar constante de foguetes ecoou no Céu que cobre Barrô.

Foi bonita a festa, pá!


* Na última Sexta-feira, António Pita, chefe de Divisão (DAS), engenheiro na Câmara Municipal da Mealhada, acompanhado de um técnico andaram a fazer o levantamento topográfico dos terrenos confinantes à represa pública situada na Ribeira do Salgueiral, junto ao moinho de água, em Barrô.

O objectivo deste estudo orográfico visa complementar a intenção de ali construir uma praia fluvial. Relembro que esta promessa consta do caderno de encargos das propostas eleitorais do Movimento Independente Mais e Melhor, liderado por António Jorge Franco, e que ganhou as eleições autárquicas em 2021.


* Na última Sexta-feira, por iniciativa da Junta de Freguesia de Luso, praticamente todas as ruas e ruelas da aldeia foram varridas, algumas lavadas e noutras foram arrancadas as ervas das bermas. Durante a tarde, um camião cisterna dos Bombeiros Voluntários da Mealhada, com agulheta de alta-pressão, onde chegaram, deixaram um ar limpo.

Embora parecesse que um ministro viria de visita à povoação neste fim-de-semana, como já adivinhámos, foi por causa da festa religiosa em honra de São Sebastião.

Foi bonito de ver, pá!




BARRÔ: ENSAIO PARA UMA SAÍDA AIROSA

 




O relógio na torre sineira da Capela de Barrô está prestes a martelar as doze badaladas e anunciar o meio-dia de um dia soalheiro que promete aquecer qualquer osso, até de imagem de santo.

A porta da capela está encerrada. Paro e sento-me no patim da entrada. Ponho-me a pensar que hoje, Dia de São Sebastião – o meu amigo Sebastião, como o trato em longas conversas mudas -, a pequena catedral deveria estar de portas escancaradas. Não é por nada mas é muito natural que o Sebastião se sinta como preso no presídio. Sim porque, durante um ano, só vê a luz do dia quando há missa – e na procissão da Festa de Ano, se houver. Hoje vai haver.

Como já escrevi anteriormente, o meu amigo, por estes dias, tem andado com a psico às voltas. Por outras palavras, muito deprimido, coitadinho. Sobretudo quando anunciaram só missa e sem procissão para o dia do seu aniversário – que foi ontem, mas isso não interessa nada. É preciso é que se lembrem, sem esquecer, a pobre alma.

Mas ontem, quando se soube que iria haver mesmo procissão, o meu fiel já parecia outro.

Dizia eu então que, parando e sentando-me no patim do pequeno adro, comecei a ouvir uns ruídos esquisitos, uns murmúrios do lado de dentro da pequena ermida. Não eram barulhos inquietantes, nada disso. Era mais para o adocicado. Eram mais ou menos assim: “estes ficam-me bem. Gosto mais da cor daquele”…

Ó pá, vão-me desculpar, bem sei que é feio, muito feio espreitar pelo buraco da fechadura, mas não resisti ao chamamento da curiosidade.

Rodeados por vários andores todos engalanados por flores naturais – um mimo, sim senhor!- junto ao altar-mor, estavam várias imagens a ensaiar roupa. Mas atenção, não era uma roupita qualquer da marca “el cigano”. Nada disso, tudo marcas de grande qualidade, “Lacoste”, por exemplo, mas original, que de modas percebo eu. Fiquei levemente indignado. Estas imagens santíficas levam à letra o comportamento papal. Não é admirar se os sapatos forem da marca “pravda”.

Mas isso vá que não vá. O que me fez saltar a tampa – ou seja, não saltou por respeito ao meu amigo do peito – foi ver a imagem de Nossa Senhora de Fátima em trajes menores, também a vestir e despir roupa. Francamente! É preciso ter lata, digo eu, uma Senhora daquela idade, e naqueles preparos! Pouca vergonhice, é o que é!

Acabei por perceber a razão da porta da capela estar encerrada – para não mostrar poucas-vergonhas.