sexta-feira, 10 de setembro de 2021

UM HOMEM (IN)COMUM

 

(imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



UM HOMEM (IN)COMUM


O manto hipócrita da morte cai,

como a noite sobre o dia,

sempre que alguém se vai,

se de estatuto que amplia

a sombra dos que lhe chamam pai,

ninguém parece ver a hipocrisia,

a mentira travestida, que até abstrai,

transformar o triste finado com magia,

num santo homem, um exemplo, rezai,

o pobre olha para este teatro e desconfia,

é o politicamente correcto que nunca sai,

diáfano discriminador do poder que alicia,

eleva o poderoso e esquece o humilde, ai!

Triste sina daquele que em graça não inebria,

embrulhado no mais triste anonimato se achai,

nasce só, sozinho vai morrer sem companhia,

sem ser idolatrado, sem ser abençoado, pensai,

assim é o Homem na igualdade que o guia.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

BARÓMETRO DOS JORNAIS EM PAPEL PUBLICADOS NA BAIRRADA




Jornal da Mealhada (edição de 1 de Setembro)


POSITIVO


Após umas merecidas férias, a reentrée do Jornal da Mealhada ficou marcada com uma pujante viragem para a política partidária. Os tempos de auscultação e divulgação a isso obrigam. E muito bem. Já não era sem tempo.

Com uma capa bonita e apelativa aos sentidos, esta edição convida a desfolhar as suas 24 páginas e a degostar, tomar o sabor, os conteúdos escolhidos pela redacção.

Com duas entrevistas a dois candidatos à Câmara Municipal, respectivamente António Jorge Franco, pelo movimento Mais e Melhor, e Nélida Marques, pelo Partido Chega – salienta-se as duas fotografias em grande plano da candidata. Se na escolha do vencedor pesar o valor beleza, acreditamos, Nélida Marques já ganhou. Quanto às perguntas e respostas, no conjunto, estão muito bem, com cada concorrente a tentar passar a “sua” mensagem política.

No interior do caderno, com trechos informativos sobre o Partido Socialista, a coligação Juntos pelo Concelho da Mealhada e a coligação CDU, pareceu-me haver algum cuidado na igualdade e possibilidade de dar a palavra aos concursantes às eleições no próximo 26.

Com uma reportagem sobre o nó da Pedrulha nas páginas centrais, gostei de ler esta primeira edição depois da “silly season”, período de menor informação jornalística, que ocorre em pleno Agosto, pico das férias.


MENOS BOM


Passam os meses, passam os anos, estou cada vez mais velho, e não vejo na direcção do jornal nem melhoramentos nem ambição de mudar a agulha para melhor. Como já repeti à exaustão, sem menosprezar os actuais, o título precisa de novos colaboradores que abarquem o espaço político, sobretudo com interpretações de facto e prospectivas futuras, ou seja, especulações sobre o que pode vir a acontecer.

Salvo melhor opinião, o Jornal da Mealhada está para as notícias como a máquina fotográfica está para a imagem. Sobre o que vê dispara e capta o momento. Porém, como se sabe, o momento presente passa imediatamente a passado – e muito mais num órgão local que é editado quinzenalmente. Ora, são as interpretações, projecções e ilacções que servem de ponte entre o passado e o futuro. É esse resultado retirado de silogismo que, dando um maior critério de escolha, obrigando o leitor a pensar, o “aprisiona” a uma qualquer publicação. Um cidadão que gosta de ler jornais gosta de um jornalismo vivo, virado para amanhã e com o ontem apenas a servir de referência.

Por outro lado, e também já o referi, é inadmissível que nos vários estabelecimentos da cidade da Mealhada, cafés, restaurantes, consultórios e outros, não se encontre disponível o único jornal publicado no Concelho. É preciso despoletar o bairrismo nos empresários. Nem que, para isso, a Santa Casa da Misericórdia tenha de oferecer o periódico durante um ou dois meses. Por incúria do primeiro e desinteresse dos segundos, estamos a lesar a Cultura e a provocar a iliteracia no Concelho.

Será preciso fazer um desenho?


De zero a vinte, atribuo a esta edição 14,5 valores.


JORNAL DA BAIRRADA (edição de 2 de Setembro)


Conforme nos tem habituado, pela grande qualidade jornalística, na diversidade de temas e lugares da Bairrada, ao longo dos últimos anos, continua a ser o ponteiro de uma bússola a apontar o Norte. Nada contra a referir.


De zero a vinte, atribuo a esta edição 18 valores.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

MEALHADA: UMAS LIÇÕES A RETER

 





Ontem, por volta das 19h00, ao chegar à aldeia, fui alertado por um vizinho, “ó António, ó António, vem cá! Tu que és o escrivão cá da terra, podias escrever sobre esta miséria – e apontou os contentores cheios de lixo e a transbordar. As pessoas, sem critério, põem tudo no reservatório, depois é o que se vê: mau-cheiro e moscas aos montes. Desculpa lá estar a aborrecer-te com isto”, finalizou.

Não dei a certeza que ia escrever. Como tantas vezes, sem o dizer, em cenário idêntico, um pouco irritado, fico a pensar: que diabo, porque não escreves tu um e-mail direccionado à autarquia, ou telefonas? Por que tenho de ser eu? Não, não vou fazer isso. A obrigação de comunicar uma anomalia que resulte em prejuízo público, é uma responsabilidade social colectiva, de todos, sem excepção. E, entre o escrevo e não escrevo, fui a matutar no assunto.

Como em tantas dezenas ou centenas de vezes que isto me aconteceu com outros, em que me pedem para dar a cara numa solicitação, acabo sempre por escrever. Em solilóquio, em conversa surda com os meus botões, entre prós, lá vou dizendo: que raio, escreve lá isso! Nem te custa nada! E até gostas de escrever…

Às 21h30, duas horas e meia depois, estava a enviar um e-mail para a edilidade a dar conta do estado pouco consentâneo dos depósitos de excedentes.

Hoje, durante a manhã, os reservatórios de entulho foram despejados. Saliento que esta foi a segunda vez em que, depois de envio de e-mail, os serviços camarários de higiene responderam prontamente.

Como se sabe, na generalidade, incluindo eu, estamos sempre inclinados para dar “porrada” nos serviços públicos, mais concretamente na prestação de serviços à comunidade. Em pré-juízo estereotipado, achamos que todos funcionam mal. Mas quando somos atendidos com especial atinência raramente elogiamos. E devemos ser equilibrados no julgamento, entre a crítica negativa e o aplauso.

Primeira lição a reter:

- Não julgues antecipadamente uma instituição ou pessoa sem a testares e ouvires as suas razões;

- Não perguntes à tua cidade o que pode fazer por ti. Interroga antes o que podes fazer por ela (John F. Kennedy);

- Como cidadão, munícipe, sem qualquer receio de dar a cara, colabora com os serviços públicos, comunicando o que te parece menos bem no teu bairro, na tua rua;

- Não te preocupes se ainda estás longe do mínimo. A seu tempo, vendo o resultado do teu esforço, atingirás uma boa classificação;

- Procede com o teu vizinho como gostarias que ele procedesse contigo. Comportamento gera comportamento.

Vale a pena pensar nisto?


domingo, 5 de setembro de 2021

LUSO: ESPELHO MEU, HÁ MELHOR CANDIDATO DO QUE EU?

 

(Imagem do YouTube)



O debate, na RCPfm 92.6fm, Rádio Clube da Pampilhosa, transmitido via Facebook, entre os candidatos à Junta de Freguesia de Luso e concorrentes entre si nas próximas eleições autárquicas, que se vão realizar no dia 26, estava marcado para as 20h00 desta última Sexta-feira, 3 de Setembro.

Por questões técnicas, que levou a estação radiofónica a emitir um comunicado em acto de contrição, a emissão começou muito mais tarde e também com cortes, alegadamente por falta de sinal de Internet. Fosse por isso ou não, a verdade é que entre os dois vídeos reproduzidos na página do Facebook se nota um hiato, uma falha, acerca do que os antagonistas teriam dito, sobretudo, no que toca a melhoramentos, por si elencados, em várias povoações do Concelho.

Os aspirantes ao poder que se apresentaram foram: Claudemiro Semedo, actual presidente da Junta e que, concorrendo como independente, defende a camisola do Partido Socialista (PS); Nelson de Matos, pelo Bloco de Esquerda (BE); Óscar Carvalho, pela coligação PCP/PEV, CDU; Diogo Ribeiro, pelo movimento Independente Mais e Melhor (MM); e Ângelo Gomes, em substituição da cabeça de lista Andrea Dinis que não pode estar presente, em representação da coligação Juntos pelo Concelho da Mealhada (JPCM), respectivamente, formada pelos partidos PSD-CDS-IL-PPM-MPT.


QUANTO À PRESTAÇÃO DOS CANDIDATOS:


Transversalmente, todos estiveram bem. Aparentemente tudo bons amigos, pareceu mais uma reunião colegial da mesma facção ideológica. Retirando uma pequena picardia de Ângelo Marques (JPCM) apontada ao movimento Mais e Melhor, dizendo que “era Mais do Mesmo”, não houve setas envenenadas mas sim canções de embalar. Podia até nem ser o pensamento comum, mas deram a perceber que estavam ali por espírito de missão e não por protagonismo pessoal.

Nelson de Matos, do BE, esteve muito bem. Com a lição bem estudada e alguma graça à mistura parecia um liberal a defender mais Cidadania e menos Estado. Com um discurso muito racional, gostei da sua passagem acerca de festejos populares caídos do Céu aos trambolhões, quando afirmou que para haver festas têm de haver pessoas. Disse ainda, e muito bem, que “os recursos são escassos”.

Óscar Carvalho, da CDU, embora bem de uma maneira geral, poderia ter apresentado a defesa do Luso com mais leveza, sobretudo quando atirou a suspeição que as águas da Fonte de São João não cumprem os critérios de análise laboratoriais em vigor. Instigado pelo jornalista moderador a ser claro, Óscar, defendendo que não o deveria fazer ali, escusou-se. Das duas uma: ou não levava o assunto a discussão ou, levando como levou, fundamentava a acusação. Não o fazendo, e deixando a balouçar o cisma, acabou por fazer pior.


QUANTO À MODERAÇÃO:


Achei que, por parte do jornalista mediador, faltou ali moderação. Nestes debates de duas horas, por respeito e equidade de todos, deveria haver um relógio para atribuir mais ou menos o mesmo tempo a todos. Pareceu-me uma conversa entre cinco candidatos que fluiu em roda livre, por vezes fugindo ao tema proposto.


QUANTO ÀS PROPOSTAS LEVANTADAS PARA BARRÔ:


Embora ouvisse por parte do candidato do BE que as propostas de melhoramentos para Barrô eram transversais a todos os candidatos, só percebi a resposta de Claudemiro Semedo (PS) que afirmou:


* “Estamos a avaliar a aquisição de um terreno para fazer um parque de merendas,

que foi solicitado pela Associação Recreativa”;

* “Barrô é uma das aldeias com mais crianças, e também um parque infantil”;

* “Na antiga Escola Primária, substituir o telhado”;

* “E, de acordo com a Câmara Municipal, reparar a estrada que liga a Vila Nova

de Monsarros


E A TAÇA DE CORTIÇA PARA A IDEIA MAIS ORIGINAL VAI PARA…?


Embora correndo o risco de estar a ser injusto, já que não consegui apreeder todo o debate, mesmo assim, arrisco a propositura de Claudemiro Semedo (PS) ao propor a construção de um cemitério para animais de companhia.

Como não foi perguntado pelo moderador, Semedo não disse se, em complemento e tal como já se faz em Bragança, se tenciona alavancar uma ambulância a uma das corporações de bombeiros para transportar animais feridos ou mortos.

Perante este luminoso ante-projecto dou por mim a vacilar: não sei se ria pelo insólito (dos Humanos), se chore pelo colossal endeusamento atribuído aos Animais.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

MEALHADA: NÓS POR CÁ… VAMOS OUVINDO E COMENTANDO (2)

 





Com o tempo a encurtar para para a realização das próximas eleições autárquicas, que irão ocorrer no próximo 26 de Setembro, no Concelho da Mealhada as seis forças políticas candidatas à Câmara Municipal, que se apresentam a escrutínio, aparentemente, parecem manter-se calmas e sem preocupações de maior.

Como se sabe os candidatos ao executivo são os seguintes: o Movimento Mais e Melhor (MMM), com António Jorge Franco a liderar; a coligação Juntos pelo Concelho da Mealhada (JPCM), com Hugo Alves Silva como timoneiro; o Partido Socialista (PS), com Rui Marqueiro, candidato repetente, como cabeça de cartaz; o Bloco de Esquerda, com Gonçalo Melo Lopes no leme; a coligação CDU, Coligação Democrática Unitária, com João Marques como capitão de equipa; e o CHEGA, com Nélida Marques, a única mulher a aspirar à cadeira do poder municipal.

Como escrevi em anterior apontamento, destes seis aspirantes, constituindo o grupo dos alinhados, apenas três se posicionam para ganhar a majestática cadeira do poder, respectivamente o MMM, o JPCM e o PS.

Noutro grupo, chamemos-lhe de desalinhados, lado-a-lado, correm o Bloco de Esquerda e a CDU. Taco-a-taco, ambos no actual magistério contam com um deputado eleito na Assembleia Municipal, o Bloco de Esquerda com Ana Luzia Cruz e a CDU com João Manuel Couceiro, rivalizam para, no máximo, eleger um vereador ao executivo, no mínimo, inscrever mais um deputado na Assembleia Municipal.

Um e outro sabem que, no limite, para a vereação só um deles poderá conseguir eleger. Mas ambos podem almejar uma dupla de deputados para a Assembleia Municipal.

Com uma representatividade eleitoral num Concelho, até agora, fixado de pedra e cal nas hostes socialistas e pouco virado para aventuras à esquerda do PS, o seu resultado em votos na urna é muito similar - em 2017 o Bloco teve 632 votos e a CDU conseguiu 617 -, estas duas forças políticas sabem que o seu bom resultado esperado reside em dois factores: nos jovens, que vão votar pela primeira vez nestas eleições, e na abstenção, que só baixará com muito suor e proximidade dos eleitores.

Pelo que me é dado apreciar, parece-me que os comunistas estão mais empenhados em divulgar a sua mensagem, quer através da Internet, quer junto das populações.

E num terceiro grupo, chamemos-lhe solitário, constituído por uma única agremiação, inscreve-se o partido Chega, com Nélida Marques.

Sem orçamento inscrito para gastos de campanha, sem comunicação da cabeça-de-lista com os eleitores, praticamente sem fotos da candidata e sem propostas visíveis na página do CHEGA/Mealhada, será muito difícil este partido deixar um rasto de recordação para as próximas eleições de 2024. É certo que a intenção é mesmo, sem grandes alardes de contorcionismo, espetar uma bandeira do partido no Concelho, uma espécie de mandar o barro à parede e ver o que dá. Parece que este partido, endeusado em André Ventura, procura passar a mensagem a toda a força do seu líder nacional e está pouco preocupado com a candidata local. Ou é o contrário? No caso, será a candidata, que sem ligar muito ao lugar que ocupa, se está nas tintas para o CHEGA?


domingo, 29 de agosto de 2021

MEALHADA: NÓS POR CÁ…VAMOS OUVINDO E COMENTANDO (1)

 




A menos de um mês das eleições autárquicas, que vão decorrer no próximo 26 de Setembro, o ambiente nas oficinas de material de guerra das forças concorrentes continua calmo. É certo e sabido que as espadas já foram todas desembainhadas e o fio de corte testado. Na logística, na organização, é que o stress é maior. Fazem-se contas de sumir e somar, estendem-se cenários em cima da mesa como de mapas militares se tratassem. Ao pormenor, analisam-se os últimos vinte anos de sufrágio no Concelho e, apelando aos especialistas, traçam-se planos para combater o grande inimigo silencioso, a abstenção, e a forma de a abater.

Para sete lugares de vereadores elegíveis no executivo, entre seis agremiações candidatas à Câmara Municipal, três alinham-se na linha de partida, qualquer uma com espírito e esperança de ganhar:


- O Partido Socialista (PS) com Rui Marqueiro, veterano e vencedor das duas últimas maratonas, realizadas em 2013 e 2017, e que, mais uma vez, se apresenta em público para repetir o feito e ostentar novamente a coroa de louros. Marqueiro, do alto da sua experiência autárquica, sabe que, por várias razões, sanitárias, sociais e políticas, este é um tempo imprevisível e nada comparável aos anteriores. Mesmo não sendo presciente, adivinha que, desta vez, não vai ser fácil ganhar, quanto mais repetir a maioria absoluta com quatro vereadores. Do seio do seu partido, a provocar uma cisão, emergiu uma liderança de ex-socialistas, descontentes e com contas para acertar com o situacionismo, que lhe pode desviar metade do eleitorado. Uma coisa é certa: ganhe ou perca, Marqueiro sai por cima deste pleito eleitoral. Goste-se ou não das sua políticas para o Concelho, tem de se lhe atribuir créditos pela coragem e teimosia em não se deixar abater;


- A coligação Juntos pelo Concelho da Mealhada (JPCM), formada pelos partidos PPD-PSD/CDS-PP/ MPT/PPM/IL, como se sabe, apresenta Hugo Alves Silva. Repetente na candidatura, concorreu em 2017 e, sendo eleito, conquistou três lugares na vereação.

Tal como Rui Marqueiro, arranhando na cabeça e franzindo o sobrolho, fazendo contas à vida, sabe que as coisas tanto lhe podem correr bem como o seu contrário. Tal como o PS, embora menos pessoalizado, Hugo tem um “inimigo comum: o Movimento Mais e Melhor, liderado por António Jorge Franco.

Este movimento, constituído por independentes e simpatizantes de outros partidos, ideologicamente situado à esquerda do JPCM, de Hugo, e à direita do PS, de Marqueiro, é o que se chama no seu posicionamento ideológico variado de oportunista, isto é, para além dos seus indefectíveis, inevitavelmente, vai roubar votos à esquerda, do PS, e à direita, do JPCM.

E Hugo Silva está bem ciente deste problema.

Se a Ciência Política fosse exacta e assentasse em rácios anteriores e factores de continuidade, teoricamente, considerando a mesma percentagem na abstenção, o JPCM sairia vencedor destas eleições. Acontece que não é assim, e contrariando 2017, com o executivo polarizado em duas forças, desta vez podem ter assento três ou até, no limite, quatro agentes partidários no executivo. Ora, a acontecer este plano, a ambição de Alves Silva fica mais diminuída e refém do executivo a formar.

De qualquer modo, seja qual for a posição conseguida pela coligação, nada há a apontar a Hugo Alves Silva. Num Concelho onde o PSD é uma espécie de manta de retalhos e onde, parece, há mais setas envenenadas do que abraços de amizade, Hugo faz o que pode… e “quem faz o que pode, faz o que deve”, dizia Miguel Torga.


- O Movimento Mais e Melhor (MMM), liderado por António Jorge Franco, dos três concorrentes ao pódio, é o que mais treina diariamente no contacto com a pista, como quem diz, no toque pessoal com o público, na Internet e na captação de votos. Falta de esforço e transpiração ninguém lhe pode apontar.

Das três forças em presença posicionadas para a vitória, o MMM, ganhe as eleições ou fique em segundo ou terceiro lugar, como não tem dados comparativos anteriores, partindo do zero, será sempre considerado vencedor.

Com elementos na sua equipa conhecidos no Concelho, esta força política, entre os três adversários, pode surpreender.


Como nota final negativa, a meu ver, a maioria dos concorrentes está a deixar o contacto pessoal com a população de lado e apostar praticamente tudo na divulgação digital, através da Internet. Qual será a percentagem de info-excluídos no Concelho da Mealhada? 60%? 70%? É assim que se combate a abstenção, que em 2013 foi de 49,48% e em 2017 foi de 48,6%?

É verdade que já tivemos debates na Rádio Pampilhosa, mas o som deixou muito a desejar. Esperemos que nos próximos embates radiofónicos a coisa flua mais e melhor a qualidade sonora.

Não estaria na altura de serem marcados (e realizados) debates entre todos todos os candidatos, à Assembleia de Freguesia, à Assembleia Municipal e à Câmara Municipal? E que tal se fosse no Cine-teatro Messias?


(Para não tornar esta crónica demasiado longa, brevemente, voltarei a este assunto para falar dos outros concorrentes)


sábado, 28 de agosto de 2021

MEALHADA: O IMPROVÁVEL TRAMBOLHO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)
 




Por hoje ser Sábado, de manhã, o dia mais disponível do fim-de-semana para as famílias, a média-superfície, com as pessoas a atropelarem-se umas às outras, estava a abarrotar de clientes. Não havia carros de compras vazios e acessíveis. Com alguma sorte, eu e a minha mulher, arranjámos um abandonado num canto do exterior.

Como a escolha de produtos para adquirir e comparação de preços cabe por inteiro à minha consorte, como um bom servidor, dócil e compreensivo, atrás da patroa, sem abrir a boca, não vá ela pensar que estou a imiscuir-me em assuntos do seu ministério, limito-me a conduzir o pequeno veículo parecido com um berço de bebé - é curioso como nestes pontos de venda, onde a sociologia e a psicologia de massas são estudadas ao pormenor, subrepticiamente todos os consumidores são tratados como infantes, com apelos à compra que mais lhes interessa, com promoções e descontos anunciados previamente através de mensagem para o telemóvel, acabamos todos a fazer o que eles querem. Ali, naquele porto de importação e exportação consumista, salvo excepções de isolamento masculino, quem manda são as mulheres e as crianças. O homem acompanhante é uma espécie de jarra florida num altar.

Como sempre faço, enquanto conduzo por entre corredores e montanhas de bens alinhados ao milímetro, distraio-me a avaliar comportamentos. É o anafado que vai adquirir umas garrafas de Coca-cola, é o cara de bebedolas que pede meças a um bom vinho de uma dezena de euros por garrafa, é a grávida que, antecipando o nascimento que se avizinha, mexe e remexe nos brinquedos.

Foi então que mesmo à minha frente vi um sujeito, tipo calmeirão, quarentão, de porte atlético e com roupas desportivas, bater com o carro de compras contra um expositor de latas de refrigerantes. Sentindo-se como libertas daquela presumível prisão, os pequenos canudos refrigerantes, espavoridos, saltaram cada um para seu lado. Era de supor que o homem, perante o acidente provocado por si se debruçasse para apanhar algumas latas e as colocasse no sítio onde se encontravam anteriormente. Mas nada fez, nem nada disse. Impávido e sereno, manteve o seu passo caótico e destrambelhado noutra direcção, como se nada tivesse acontecido.

Perante aquele acto de vandalismo leve e deficiente formação, dei por mim indignado. E fiquei a balouçar entre o chamo-lhe a atenção para o reparo e o/ou não chamo? Se o fizesse corria o rico de ser maltratado verbalmente. Se ficasse quieto apenas como espectador passivo, tenho a certeza, ficaria a remoer no facto de que é a indiferença colectiva, que toca todos e nos responsabiliza, que faz com que cada um, como qual, prevarique a seu modo e não respeite as mais elementares leis da moral que nos devem conduzir no dia-a-dia.

E fui ter com o gabiru: o caro amigo desculpe, mas não entende que deveria ter apanhado as latas que deitou abaixo e deixou espalhadas no chão? O senhor, que já tem alguma idade, com a sua forma de ser e estar, é um exemplo para os mais novos. Acha que fez bem? - interroguei.

Olhando para mim com olhar de surpresa, titubeante, respondeu: “há aí muita gente para apanhar. Claro que fiz bem!”