sábado, 31 de dezembro de 2016

BOM ANO NOVO PARA TODOS

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BOM ANO NOVO!

Meus amigos, estimados inimigos, esperamos sinceramente que entrem com o pé-direito em 2017. Podemos garantir-vos que vai ser um ano cheio de mudanças. Mal ecoe o som das 12 badaladas, mais logo, entre outros, vai haver alterações no preço dos combustíveis, no tabaco e nas bebidas. Queremos dizer que, por inerência e por uma questão de poupança e aproveitamento, aconselhamos uma forte ingerência de álcool e fumar até os pulmões chorarem de alegria, como quem diz, umas grandes pielas -tenham é cuidado com a GNR na estrada, que esta polícia está de dente afiado para quem pecar e pisar o risco.
Ao longo do ano, vamos ter também muitas mudanças de roupas diariamente. Mais que certo, também vamos mudar de humor muitas vezes. O dinheiro na carteira, provavelmente, será cada vez menos, o que é uma coisa boa, porque quem não tem dinheiro não pode ser viciado, por conseguinte, será, aos olhos da igreja, um bom cristão e, quando se finar, terá o Céu garantido com uma suite de luxo.
Como se vê, vamos ter um ano completamente diferente deste que se extingue -e que para muitos não deixa saudade.
Então, sendo assim, e porque o texto já vai longo e não se pode desperdiçar energias por que a coisa mais logo vai aquecer -se vai!-, desejamos a todos muita saúde, paz e amor.

FELIZ ANO NOVO 2017


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(Imagem da Web)




FELIZ ANO NOVO!
Dito assim, parece mais uma mensagem circunstancial igual a tantas outras. Bolas, mas não é isso que eu quero! Vocês, leitores deste blogue, que tendes tido a paciência de ler o que eu escrevo -e já ultrapassa em muito o milhão de visitas- merecem mais do que uma simples mensagem do tipo: toma lá e vai-te embora. Não é esse tipo de encomenda que vos quero entregar.
Tenho que dizer duas coisas em relação ao Ano Novo e ao Natal. Por um lado, não gosto deste período. Por outro, é um tempo triste e depressivo. Psicologicamente, tem uma explicação. Sei o motivo por que não gosto, mas não vos vou contar, que isso, para aqui, é irrelevante.
Socialmente, este tempo santo, para mim, deixa algo a desejar. É o Dezembro do “feliz Natal” quase por obrigação recíproca. A prendinha dada quase da mesma forma. É a preocupação a termo certo com os mais pobres e carenciados. São os almocinhos solidários. É a sopinha dos pobres. É como se durante este mês caísse uma nuvem social-caritativa de boa vontade e depois, quando ela desaparecer, lá para Janeiro, tudo volta à normalidade. Não queria ser demasiado duro, mas é um período que, em nome dos pobrezinhos, tem acoplado muita hipocrisia –às vezes sem termos noção.
Mas uma coisa é certa, mesmo retirando toda esta carga nublada, acho que o Natal igualmente a outras datas que pretendem chamar a atenção são importantes. Se não existissem seria bem pior. Ainda que durante pouco tempo, como bandeira de armistício, salienta e lembra o que de melhor existe dentro de nós: a paz, a solidariedade, a bondade, o respeito pelo outro, a preocupação social no seu todo.
Em relação ao Ano Novo quase a mesma coisa. “Bom Ano!”. "Bom Ano!”. “Feliz Ano Novo!”. “Boas Festas!”. Isto se  repete no último dia 31 para 1 (hoje e amanhã) e duplica até à exaustão ainda durante todo o mês de Janeiro. Todos sabemos que esta mensagem é uma espécie de engana-tolos. Antecipadamente, adivinhamos que, salvo raras excepções, este próximo ano de 2017 não vai ser melhor do que o pretérito. Como sempre, vai ser mais do mesmo: mais aumentos nos bens essenciais e menor rendimento disponível nas famílias. A maioria, os mais necessitados, como sempre, vai andar a fazer contas e a fazer esticar o magro ordenado ou subsídio de desemprego. A felicidade será uma miragem.
No entanto, mesmo sabendo que se trata de uma falácia, todos colaboramos alegremente nesta embriaguês social. Recebemo-la, entranhamo-nos nela e devolvemos o presente vazio de conteúdo. De certo modo, não é totalmente de estranhar, porque também nos alimentamos de esperança, fé no futuro, de utopia, sobrepondo a ideia do genial, do fantástico, de que este próximo ano é que vai ser, mesmo racionalmente e a priori crendo que não passa de um sonho imaginário.
Financeiramente tudo vai continuar igual. Aquele contentamento interior esperançado de desejo a realizar pressupõe uma optimização em todos os campos: dinheiro, emprego, paz na família, e… saúde. Pois é! Escrevi saúde em último lugar intencionalmente. É que, para todos nós, no geral, o vigor é como o ar que respiramos. É um bem adquirido. Tomamos à letra o conceito internacional conferido pela Organização Mundial de Saúde: “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”. Psicologicamente interiorizamos que a saúde é um direito fundamental, intrínseco, consignado, por Deus ou pela Natureza, pelo simples facto de estarmos vivos. Só damos por ela quando nos falta. E lembrei-me de escrever sobre a nossa robustez física porque a um meu familiar muito chegado, há pouco tempo, foi-lhe diagnosticada uma doença grave. Quando lhe telefonei a desejar as boas festas respondeu-me: “só preciso mesmo é de saúde!”. Ora cá está! Ele deixou de se importar com o todo, com o dinheiro, com as viagens, com a necessidade de adquirir um carro novo, para apenas se focar no essencial para viver. Nada do que considerava anteriormente, agora, passou a ter valor.
Quando tenho dúvidas em relação a qualquer escolha que tenha de fazer –porque optar  a todo o momento faz parte da condição humana-, tenho por costume aferir entre o mal maior e o mal menor. É assim uma espécie de balançar entre custos e proveitos –nunca podemos ganhar sem inevitavelmente perder. Quando chego à conclusão de que o mal menor é a preferência, como quem diz que os proveitos para a sociedade são maiores que os prejuízos (custos), não tenho nenhuma dúvida em embarcar no mesmo cruzeiro social. E é o que penso em relação ao Natal e ao Ano Novo. O homem é um ser de rotinas, de hábitos enraizados. Quase todos afirmamos a pé juntos de que não somos supersticiosos. No entanto, pelas práticas religiosas e pagãs, estas quadras têm muita superstição acoplada. Quer na forma, quer no conteúdo. Como exemplos, ir à missa do galo, na noite de Natal, ou comer as 12 passas na passagem do ano velho para o novo.
Apesar de tudo e mesmo com todas as premissas que enunciei, e na impossibilidade de prolongar estas épocas de paz e amor, é bom existir um Natal e um Ano Novo a cada doze meses que passam.
BOAS FESTAS a todos e muito obrigados pela pachorra que têm tido ao ler os meus desabafos. O meu sincero obrigado. Neste tempo de escassez económica, onde a tristeza é marca inevitável, em que parece não haver luz no horizonte, façam os possíveis por serem felizes e não percam a esperança. Não esqueçam que o sol nasce todos os dias e, haja o que houver, teremos sempre primavera. Nos momentos mais tristes, pensem nos passarinhos, que nada tendo materialmente, continuam no seu chilrear de alegria, mesmo até em dias de chuva e vento. Sorriam o mais que puderem. Por enquanto não paga imposto.
Um grande e apertado abraço a todos. FELIZ ANO NOVO!

FALECEU O NATALINO FERREIRA




Faleceu o senhor Natalino Correia Ferreira, de 90 anos de idade. O Natalino é pai do Sérgio Ferreira, proprietário do snack-bar Padaria Popular, no Largo da Freiria.
O defunto, homem simpático, cordato e assertivo, foi durante décadas funcionário do antigo Banco Nacional Ultramarino, com frente para a Rua Ferreira Borges e traseira para a Praça do Comércio.
Mesmo aposentado há muitos anos, foi sempre um companheiro calcorreante diário das pedras milenares da nossa Baixa. Até há cerca de um mês, com o seu passo ligeiro, marcou presença entre nós. Mesmo carregando o peso de nove décadas, parecia vender saúde pela agilidade com que se locomovia. Repentinamente, sem que nada o fizesse prever, teve uma recaída súbita e foi internado nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, onde viria a falecer exactamente anteontem, no dia em que perfazia três anos que a sua esposa desapareceu do mundo dos vivos.
Hoje, quando soarem as 15 badaladas na igreja de Rio de Vide o féretro dará início às cerimónias e depois de sair da Casa Mortuária encaminhar-se-à para o cemitério da mesma localidade.
Ao Sérgio Ferreira, ao António Manuel, filhos do senhor Natalino, e restante família um grande abraço de solidariedade nesta hora de angústia e sofrimento. Se posso escrever assim, em nome da Baixa e dos muitos amigos que por cá deixou os nossos sentidos pêsames.

UM COMENTÁRIO SOBRE...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO E UMA RESPOSTA...":


M
uito didático, obrigado, sr. Luís. Mas o que eu perguntava é o que o Barbosa de Melo fez em especial pela Baixa e em geral pela cidade, com simpatia ou sem ela. Não sei, pergunto.
Quanto a dar a cara, quer uma fotografia minha e a morada? É preciso isto e talvez um certificado de idoneidade da junta de freguesia para aqui publicar comentários em que apenas discordo de si? Sim, as coisas que eu aqui digo são tão terríveis e injuriosos que tenho de me esconder atrás do anonimato, inventando um nome.

António. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

UM APELO DE QUEM SOFRE NA BAIXA

Foto de Sara Cruz.
Foto de Sara Cruz.




Apelo escrito e fotos retiradas do Facebook e da autoria de
Sara Cruz, uma reconhecida lutadora destas ruas estreitas.


Já por várias vezes se denunciaram neste grupo (Coimbra livre e aberta a todos) questões com urgência de resolução em Coimbra, algumas que até foram resolvidas pelo poder das redes sociais... Pois aqui vai o meu desabafo e desejo para 2017: que se resolva esta VERGONHA, que se passa todos os dias na Baixa de Coimbra! (na Rua Sargento-mor e Escadas do Gato)
Hoje, ao falar com um agente da Polícia Municipal e queixar-me que se quisermos abrir a porta dos estabelecimentos não podemos porque há carros estacionados à porta, foi-me dito que ia avisar os colegas mas que geralmente não vêm aqui porque há com certeza outros locais mais urgentes para patrulhar, destinados pelo comandante e pelo senhor presidente da CMC. Também me disse que se várias pessoas enviassem e-mails e telefonassem para lá a pressionar o chefe podia ser que se fizesse alguma coisa. Por isso peço-vos para que - tal como eu - denunciem estas situações e peçam à polícia para que se faça cumprir a lei.

Os contactos da polícia municipal são:

Serviço de Polícia Municipal

Av. Sá da Bandeira, n.º106
3000-350 Coimbra
Telefone: 239 854 410
Fax: 239 854 419
e-mail: policia.municipal@cm-coimbra.pt
Os contactos do presidente da CMC são:
presidencia@cm-coimbra.pt

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


JOAO PAULO CRAVEIRO deixou um novo comentário na sua mensagem "NORBERTO PIRES INCOMODA A INÉRCIA DO PSD?":


Meu preclaro amigo:
Escrevo apenas para relembrar que a tal simpatia na cidade se consubstanciou em menos 10.000 votos do que Encarnação 4 anos antes. O que deu a presidência a Machado que, apesar de tudo, teve menos 3.000 votos que Seco na eleição anterior. 

UM COMENTÁRIO RECEBIDO E UMA RESPOSTA...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "NORBERTO PIRES INCOMODA A INÉRCIA DO PSD?":


O que fez o Barbosa de Melo pela Baixa, em particular, e pela cidade, além de ter deixado um "lastro de simpatia", seja lá o que isso for?



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RESPOSTA DO EDITOR


Meu caro anónimo, começo por lhe desejar um Bom Ano e, para além de formular votos de boa sorte, que lhe dê mais coragem para dar a cara em futuros comentários.
Em seguida, por que não quero que lhe falte nada, sobretudo informação para o ajudar a perceber um ou outro post mais complicado que eu escreva aqui, inicio com a consulta do Dicionário Priberam:

Sinónimos de Lastro: “base em que se afirma alguma coisa”, “tudo o que faz aguentar o peso”.
Agora vamos a simpatia: “sentimento de atracção moral que duas pessoas sentem uma pela outra”, “tendência natural para uma coisa”.

Estes foram os substantivos e adjectivos que empreguei para classificar João Paulo Barbosa de Melo

AGORA VAMOS AOS ANTÓNIMOS:

(contrário de) Lastro: movediço, inseguro.
(contrário de) Simpatia: “desinteligência, incompatibilidade, quezília, inimizade, implicância, embirração, animosidade”.
Embora não exactamente mas com o mesmo significado: “crispação, enrugamento, estado de tensão, de irritação ou agressividade”.

Quer exemplos de antigos e actuais autarcas que praticaram e praticam este (mau) modo de fazer política e interagindo assim (pela negativa) com os munícipes?

-Carlos Encarnação, ex-presidente da Câmara Municipal de Coimbra;
-Manuel Machado, actual ocupante da cadeira presidencial da edilidade.

Espero que fique satisfeito com a explicação fornecida, meu estimado anónimo. Em acaso de dúvida não hesite em consultar-me. Os amigos são para as ocasiões. Homessa!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MORREU HOJE O “ESQUINA DE SANTA CRUZ”





Sem pompa, sem glória, mas com circunstância, morreu hoje o “Esquina de Santa Cruz”. Não fosse o anúncio do seu obituário colado na porta e nem se daria pelo seu perecimento. No comunicado não se fala da causa da sua morte mas adivinha-se: foram os Salgados. Sabe-se bem que demasiada ingestão provoca um desmesurado aumento de colesterol. Mais que certo e entre outros desvios, teria sido o erro fatal.
Não consta que a bandeira da Nacionalidade, ali mesmo ao lado, desça a meia-haste nem o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o condecore a título póstumo.
Por parte do público, estranha-se esta indiferença, ou talvez não. No fundo entende-se esta apatia. Por um lado, acontece assim com todos os que caem em desgraça. Vivemos numa sociedade que apenas admite o sucesso. Não há lugar nem memória para os que morrem em combate. Por outro, nas últimas décadas, pelos tantos enterros ocorridos nesta parte da cidade, passou a ter-se o mesmo comportamento que qualquer habitante de Alepo, na Síria. A morte, pela companhia diária, passou a ser o ar que se respira. Já nada toca os nossos sentidos. É certo que de vez em quando lá se ouve um clamor: “morreu? Morreu quando? Há tantos anos que não venho à Baixa! Ai que pena?!? Faz tanta falta!
É apenas mais um de nós que se apaga. Depois de um tempo curto em câmara ardente, um dia destes, pela dinâmica da vida, outro qualquer irá ocupar o seu lugar. E quando isso acontecer já ninguém o lembrará, a não ser os mais chegados, aqueles que com ele, encostados ao balcão ou sentados numa mesa, choraram, exultaram de alegria, ou repeliram a sua forma dura de aumentar ou encurtar a esperança. Quando era considerado uma instituição de desenvolvimento, há muitas décadas que este tempo ultra-liberal apagou, pela sua alguma boa-vontade -não que fosse exageradamente generoso-, emprestou dinheiro para que muitos abrissem negócios e fez felizes muitos conimbricenses.
Durante muito mais de meio-século foi um marco presente em toda a Baixa da cidade. Teve muitos funcionários. Lembro apenas alguns: o Cravo, o Abel, o Fonseca, o Artur, o Mário, o Tó Vaz, o Guiné, o Luís, o “Licas”, o Juvenal, o Teixeira e outros que a minha memória não acusa. O Silvano, que recordo tão bem como se fosse ontem pelas tantas vezes que lá fui bater para tentar convencê-lo a emprestar-me uma quantia que me permitisse levantar vôo, era o seu gerente no princípio da década de 1980. Era a época em que a palavra dada valia mais do que o dinheiro. Tive lá desaires e esperanças renovadas no meu começo de vida empresarial. Nessa altura era conhecido por Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa. Depois, com a invasão das máquinas Multibanco, tornou-se mais frio e impessoal e passou a BES. Nos últimos dois anos, por questões estratégicas de economia, passou a Novo Banco e com este nome se extingue esta dependência bancária. Paz à sua virtual alma -considerando que as coisas são extensões de nós e quando desaparecem carregam consigo uma parte do nosso espírito.
Por isto tudo, que me toca o respeito e a saudade, uma memorável grande salva de palmas.

ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O HOMEM DA CATATUA





Ontem, dei de chofre com ele a passear na Baixa. Altivo, cheio de galhardia, com a sua catatua no ombro, mais que certo, sabia que no meio de tantos transeuntes onde a singularidade escasseia a sua pose era peculiar e chamava a atenção. De vez em quando afagava a cabeça do pássaro com ternura e, num diálogo a uma só voz, trocava impressões com a ave.
Dá pelo nome de Jorge Cunha. É natural de Monte Redondo, próximo de Pombal. Embora se encontre a trabalhar em França, na construção civil, como gosta muito de Coimbra, sempre que vem a Portugal dá um saltinho à nossa santa padroeira dos estudantes.
Embora o animal estivesse preso com um fino cordel perguntei-lhe se, para o manter perto de si, tem de estar amarrado. Disse que não. Alegou que o mantinha assim porque o bicho estranhava o bulício da cidade. Lá em casa, em Monte Redondo, andava sempre solto e voltava sempre ao seu ombro ao toque de um assobio. Gosta muito de pássaros. Este é já o décimo-segundo. “São uns amores! Você sabe lá?!?”. Constata e interroga-me em pergunta de retórica.

NORBERTO PIRES INCOMODA A INÉRCIA DO PSD?

(Transcrição do Campeão das Províncias)





Segundo o Campeão das Províncias, pelos vistos e a ser verdade, a provável corrida de Norberto Pires à presidência da Câmara Municipal está a incomodar o palacete da Lapa, em Lisboa. Numa espécie de “nem lá vou nem faço nada”, o PSD, que teima em declarar oficialmente o seu candidato, balança entre vários presidenciáveis e, com maior fixação em Álvaro Amaro.
Os sociais-democratas, em vez de apostar no certo, com provas dadas em Coimbra, sempre gostaram muito de arriscar no que vem do exterior -embora tenham morada na cidade mas tenham feito currículo fora. Aconteceu com Carlos Encarnação. Muitas expectativas e no fim a Baixa e a cidade, se não ficaram pior, ficaram na mesma. Dá a impressão que (e neste comportamento são iguais aos socialistas) o que lhes importa é ganhar o município a qualquer custo, mesmo que gerem anticorpos na infra-estrutura, nos militantes, do partido. Os resultados para Coimbra são os que se conhecem: um estranho conhecido no meio de nós.
No caso do ziguezague, é uma indecência o PSD não apoiar João Paulo Barbosa de Melo. Um homem sério, responsável pela administração da coisa pública, acessível aos munícipes e que, enquanto ocupou o lugar de presidente em substituição de Carlos Encarnação, deixou um lastro de simpatia na Baixa e na cidade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

EDITORIAL: TENDO EM CONTA O COSTUME DE ANTANHO, COMEÇARAM HOJE OS SALDOS

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Apesar de há vários anos a esta parte Portugal estar diariamente a ser vendido ao desbarato ao exterior e com promoções saldadas de toda a espécie e feitio para o interior, mas cá dentro, legalmente, desde 01 de Março de 2015 em que foi promulgado o RJACSR, Regime Jurídico de Acesso e Exercício de Actividades de Comércio, Serviços e Restauração, “que pretende a sistematização de alguns diplomas referentes a actividades de comércio, serviços e restauração da área da economia”, seguindo o velho costume, “começam” hoje os saldos de Natal. Antes da promulgação desta Lei dos Saldos, Promoções e Liquidações, cuja última actualização vinha de 2007, conhecida pela lei Serrasqueiro, havia dois períodos: o de Verão, que ia de 15 de Julho a 15 de Setembro, e o do Inverno, que ia de 28 de Dezembro a 28 de Fevereiro. “Tudo o que fossem baixas de preços realizadas pelos comerciantes ou grupos de distribuição fora desse período teriam que, obrigatoriamente, apelidar-se de “promoções”, “descontos”, ou eventualmente “liquidação total”, caso fosse essa a situação, uma vez que a palavra saldos ficava proibida fora daqueles dois períodos”.
Anteriormente a 2007, antes da lei Serrasqueiro ser promulgada, havia apenas duas temporadas de saldos no país: de 15 de Agosto a 30 de Setembro e de 15 de Janeiro a 28 de Fevereiro.
Com a entrada em vigor do RJACSR -publicada na vigência de Pedro Passos Coelho- o período de saldos ficou circunscrito a quatro meses de um ano civil e pode acontecer sempre que o comerciante quiser. "Relativamente à venda a retalho com redução de preço, embora se mantenha o período de quatro meses por ano em que se podem realizar saldos, elimina-se a limitação da realização dos mesmos em períodos definidos por lei, conferindo aos operadores económicos a liberdade de definirem o momento em que os pretendem realizar”.
O resultado desta medida ultra-liberal, declaradamente a tornar legal a lei da selva no comércio, a do mais forte, foi verificar um cada vez maior empobrecimento dos mais vulneráveis, como quem diz os comerciantes de rua. Na argumentação que serviu de suporte a esta norma legislativa quando se afirma que os governos não devem mandar nos stoks dos comerciantes e quando estes os devem colocar à venda por preço baixo, em teoria, é verdade. Ou seja, se vivêssemos numa economia fechada sem acesso fácil às importações, ou numa economia ideal, em que todos os entes, embora não tivessem o mesmo poder económico, estivessem obrigados às mesmas regras de fornecimento, em princípio, tal prerrogativa não geraria desequilíbrio de maior entre as partes. Acontece que a Globalização, com o mercado livre, veio baralhar tudo. Uma marca, com várias lojas em centros comerciais, o chamado grande comércio, facilmente pode importar da China ou de outro qualquer país asiático contentores de artigos com um valor de custo que se torna meramente residual. Este mesmo artigo para um lojista tradicional, obrigado a adquirir apenas algumas peças a um qualquer fornecedor grossista, pode ter um custo várias vezes multiplicado. Na hora dos saldos, ou promoções, os cinquenta por cento para os primeiros, para o grande comércio, pode significar continuar a ganhar muito e para os segundos, para o pequeno lojista, não ganhar nada. Afirmar que um comerciante tradicional pode fazer o mesmo, importar e exportar, é completa utopia versus demagogia. Só quem não conhece o nosso comércio interno, cheio de assimetrias, pode defender que os meios estão equilibrados. Basta ver quem faz publicidade nas televisões para apreender o estado assimétrico.
Por outro lado, devido ao diferencial de forças entre oponentes, pequeno e o grande comércio, entrámos numa deriva onde os descontos, sejam através de promoções ou liquidações, deixaram de ser a excepção para ser a regra. O resultado desta agressiva política de vendas é o desvio contínuo de consumidores para as grandes superfícies e a notória desertificação de todos os centros urbanos, cidades, vilas e aldeias. Sem mexer nesta desvirtuada política económica de pouco valerá o actual Governo ter criado a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. É uma ilusão de óptica da modernidade. O que sempre deu vida aos lugares mais recônditos foi sempre o pequeno estabelecimento comercial e industrial. Enquanto não se perceber que o grande comércio, com sedes em países de baixa fiscalidade, funciona como os Jacintos-de-água, uma das piores plantas invasivas do mundo, que come tudo à sua volta, de pouco vale andar a carpir mágoas sobre os que sucumbem nesta guerra sem quartel.
Por outro lado ainda, devido à overdose de oferta diária e rotineira, hoje já ninguém liga aos saldos, sobretudo, do comércio tradicional. Por um lado, os comerciantes, cumprindo calendário, locais fazem tudo para chamar a atenção dos clientes desertores e de pouco serve, por outro, os consumidores olham para as montras com rebaixas como cão a passar em vinha vindimada.
Estas épocas especiais só tem interesse para as televisões, com campanhas publicitárias massivas, que depois retribuem generosamente em imagens gratuitas das grandes áreas.
Por cá, como quem diz, pela Baixa de Coimbra, depois da azáfama de ontem em marcar novos preços nos produtos, fazer etiquetas, alterar montras, está tudo sereno. É assim uma coisa parecida com o jogo da lerpa para um jogador em maré de azar: baralha-se, dá-se de novo e as cartas saídas são um duque e dois ternos. Mas um bom jogador, tal como o poeta, é um fingidor e continua a mostrar um sorriso no rosto para não mostrar debilidade. Mas uma coisa é certa: esta memorável lei dos Saldos, Promoções e Liquidações, tem, inegavelmente, um contributo feliz para os comerciantes e (alguns) prestadores de serviços: é o mexer na coisa mesmo que a coisa, murcha pelo tempo, já não responda a estímulos.
Agora, com a nova lei entrada em vigor em 1 de Março de 2015, vender ao desbarato pode ser sempre que um homem quiser. O que seria do comércio tradicional sem o beneplácito do legislador? É assim como a um condenado à morte não lhe ser facilitados meios para colocar termo à vida e estar obrigado ao espectáculo do estertor final. Isso é só nos “staites”, por cá não. Aqui é diferente, há sempre uma lei generosa que ajuda a facilitar o enterro aos mais débeis, inclusive. E, sendo assim, em mimética, vestimos todos a opa para ir beatificamente, com ar de santinho, na procissão decadente. E aqui não não há santos nem pecadores de exclusão, todos, mas todos, fazem a sua parte para manter a aparência social.

UM MILHÃO DE VISITAS

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Lembrando o velho período desaparecido das lides comerciais, aqui também se entra na corrida aos saldos. Por coincidência, é claro como o algodão, o blogue Questões Nacionais totalizou hoje um milhão de visitas. Ou seja, em analogia, dez cidades médias como Coimbra já vieram espreitar este buraco onde despejo muitas das minhas frustrações e vaidades. E tal como a entrada oficial do período dos saldos nada traz de valor acrescentado ao comércio, é óbvio, este número de leitores nada traz de novo. De qualquer modo, porque sou um macaquinho de imitação igual a qualquer outro, não quero ficar aquém. A partir de hoje e até Fevereiro quem der uma pestanada aos títulos tem direito a 50 por cento de desconto -se já nada pagava, como é óbvio, agora ainda paga menos -é assim uma espécie de “friday”, em que se aumenta na véspera para descontar no dia seguinte. Para quem tiver a coragem de se aventurar a ler certos lençóis que escrevo, que de tão longos quase servem para escalar o Himalaia, passa a ter um desconto directo de oitenta por cento. Para certas pessoas que estou a pensar, que ocupam certos lugares institucionais, e que não me gramam nem carregado de açúcar em ponto, em exclusivo, usufruem de um desconto de cem por cento

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

FALECEU UM DOS NOSSOS





Foi a enterrar no dia de Natal, anteontem, Joaquim Rasteiro, um nosso camarada das lides comerciais e calcorreante destas pedras milenares da Baixa de Coimbra. Durante décadas o sobrenome Rasteiro foi sinónimo de grande competência na área da fotografia. Primeiro na Rua da Moeda e depois, durante muitos anos, na Rua do Corvo, com o estabelecimento foto Corvo, encerrado há cerca de três anos, mas, como a lembrar a sua emérita passagem, ainda com o reclame erguido na fachada do edifício.
Segundo o Diário de Coimbra, “Joaquim Rasteiro (…) morreu na sequência de uma queda no canal central da obra do Mondego, junto ao viaduto da A1. (…) Ao que tudo indica, quando estaria a retirar água do canal de rega, para lavar o carro (…) supondo-se que tenha escorregado e sido arrastado.
Embora conhecesse mal o senhor Rasteiro, sei que foi um comerciante muito respeitado em toda a Baixa.
Para a sua família, neste momento de sofrimento pela perda repentina, em nome de toda a Baixa comercial, se posso escrever assim, a nossa maior solidariedade e profundo sentimento de saudade.
Até sempre, senhor Rasteiro.

sábado, 24 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS PARA TODOS OS MEUS AMIGOS E INIMIGOS

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Meus estimados amigos e respeitados inimigos:
Eu não queria deixar passar esta quadra sem vos dar uma prenda. Estou é com um grande problema: não sei o que vos dar. Vocês já têm tudo. Fartei-me de pensar o que vos haveria de oferecer. Tive imensa dificuldade em optar. Depois, deve ser desta altura meio lamechas, ando sem grande inspiração. Mas, mesmo assim, ainda pensei em mandar algo incomum, assim tipo “Ambrósio, apetece-me algo diferente”, mas esbarrei logo na dificuldade. Ainda fiz uns contactos para enviar para as minhas amigas assim um “presentão” daqueles, como quem diz, um gajo todo musculado, sem barriga e sem uma ruga –exactamente o contrário da minha santa pessoa- mas não tive sorte. Os tipos estavam todos a passar o Natal em casa com a família. Nem com pagamento dobrado pela prestação.
Para os meus amigos, homens –está de ver-, andei por aqui, pela Internet, a dar umas voltas assim a ver se arranjava também um material que fizesse história na minha amizade, mas qual quê? Nesta noite não havia noite, disseram-me, fosse lá por que preço fosse. Ainda meti umas cunhas mas nada. “Esta noite é só mesmo “c’o mê home”, respondeu-me uma boazona, assim com um material de fazer ressuscitar um morto, com muito mau humor, diga-se, que até temi poder levar nas trombas, através do telefone, da púdica rapariga.
Assim sendo, por amor da nossa amizade, não me levem a mal, carago, mas tenho mesmo de ficar só por um abraço. Se vocês soubessem como me sinto constrangido?!? Acho que até estou deprimido. Não estava à espera de um falhanço meu assim. Logo a mim, que sou tão certinho! Deixei tudo para a última hora. Foi o que foi!!
Desejo-vos então um Feliz Natal. Bem sei que, em face da minha lacuna, já não será o que deveria ser. Mas tenham lá paciência. Para o ano podem contar, sei lá, se calhar, com uma viagem ao Brasil e incluindo assistência em viagem. Obrigado a todos, e as minhas desculpas. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE E UMA RESPOSTA







Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "CMC: TANTO FAZ SER SOCIAL-DEMOCRATA COMO SOCIALIST...":



O Estado Social é isso mesmo, em qualquer lugar do mundo e já nasceu há muitos anos. Há menos tempo em em Portugal, embora eu próprio tenha crescido num bairro camarário, de renda baixa. Portanto, é também aos meus pais que se dirige, sr. Luis Fernandes. Em Inglaterra, onde vivi, muitas pessoas pobres até recebem um subsídio especial para o aquecimento, muitas vezes também em bairros sociais, onde pagam menos do que outros. É injusto para os que pagam os preços normais? Se é assim, vamos acabar com o Estado Social e cada um que trate da sua vida como puder e quiser.

António


RESPOSTA DO EDITOR

Em primeiro lugar, senhor anónimo, os meus calorosos cumprimentos. Feliz Natal para si (que nos conhecemos bem) e toda a sua família.
Em segundo, vamos então à minha contra-argumentação. Começo por lhe dizer que em abstracto está certo, no concreto está enganado. Antes de explicar melhor, vamos a um pouco de história.
Em teoria, nenhum Estado-nação, na sua contratualização social, que deixe cair um anormal número de pessoas isoladas, cidadãos, ou famílias na miséria poderá persistir no tempo. Sem políticas sociais distributivas, equitativas -praticando uma política equilibrada, não de confisco aos que mais trabalham para ter para, de forma gratuita, dar aos que nada têm, e contrária a extremismos- pode transformar-se num Estado insolvente, que está condenado ao desaparecimento. Mas, sem o tal equilíbrio de que aflorei, pode sempre incorrer na falência. O curioso é que pode falir de duas formas: por dar absoluta importância aos mais vulneráveis, exagerando nas transferências sociais -parecendo desenvolver o ócio-, e por aumentar demasiadamente os escalões de incidência contributiva aos que mais ganham e têm.
Convém lembrar que o Contrato Social, de 1762, elaborado pelo suíço Jean Jaques Rousseu (1712-1778) preconizava que o cidadão condicionava a sua liberdade, isto é, depositava na outra parte contratante, o Estado, para que este, como bom chefe de família, justo equidistante em relação a todos, distribuísse de forma equitativa os direitos e obrigações por igual. Assim seria na SAÚDE –que só viria a acontecer, embora timidamente, a partir da década de 1930, com o advento da Social-democracia e a criação do estado social de bem-estar com maior incidência nos países do norte da Europa. Assim seria na JUSTIÇA, onde o Estado patrocinaria a sua administração e se encarregaria de a aplicar a todos os indivíduos de forma igual, embora tendo em conta as diferenças de cada um. Seria assim na HABITAÇÃO, onde o patrono chamaria a si políticas de desenvolvimento que conduzissem a que a cada família ou indivíduo correspondesse uma habitação condigna. Assim seria na EDUCAÇÃO, em que seria facilitado a todos o acesso a um conhecimento literato e de modo a que, para além de todos saberem ler e escrever, o ensino universitário fosse acessível universalmente por igual. Assim seria no TRABALHO, criando, quer, através da iniciativa pública e dos serviços necessários à sua própria máquina administrativa, e tributando todos com alguma contenção, quer através dos privados, políticas de fomento empresarial e de modo a que economia floresça e, pelo seu desenvolvimento contínuo, gere empregos.
Como se sabe, tentando ser recto, estas políticas começaram ao de leve em Portugal por volta de 1970 com Marcelo Caetano e algumas reformas sociais como a aposentação, por exemplo, para alguma profissões.
Depois, com maior preocupação e ratificado no livro maior, na Revolução de 25 de Abril de 1974, com a Constituição da República Portuguesa, em vários direitos sociais consignados universalmente, e aprovada em 02 de Abril de 1976.
A seguir, tocados pelos ventos provindos da adesão à então CEE, Comunidade Económica Europeia, em 1986, foram sendo alterados direitos e obrigações comunitárias.
As prerrogativas sociais viriam a tomar velocidade de cruzeiro em 1996 quando o então primeiro-ministro António Guterres, para acudir à pobreza extrema, criou o Rendimento Mínimo Garantido -chamado a partir de 2004, e ainda agora, Rendimento Social de Inserção. Na altura a dar grande celeuma e grande oposição pelo CDS, de Direita, orientado por Paulo Portas, pela facilidade com que era atribuído a esmo e sem critério -chegando várias famílias, sobretudo de etnia cigana, inscrevendo-se em vários distritos, a acumular o subsídio.
Sem querer retirar totalmente o mérito da acção, creio que, por norma e excluindo os incapacitados, se continua mal. Um Estado, por princípio e em respeito a todos os cidadãos contribuintes ou não, nunca deveria atribuir absolutamente nada sem exigir contrapartidas.

O PROBLEMA É A PRÁTICA

A meu ver, é na forma de atribuir subsídios que verdadeiramente reside a linha divisora entre a Esquerda e a (verdadeira) Direita. A Esquerda, sempre disponível para doar sem olhar ao merecimento, nem que seja pelo facto de se nascer cidadão, não olha a encargos que endividam a Segurança Social e recaem sobre os restantes para dar sem olhar ao esforço para amealhar. A Direita, a verdadeira direita -não é a do PSD dos últimos vinte anos- está mais preocupada em aferrolhar e distribuir equitativamente e proporcionalmente ao mérito profissional de descontos apensos.
Aliás, os países do norte da Europa com o melhor estado de bem-estar do mundo, atribuem a todos os seus cidadãos várias prerrogativas sociais, nomeadamente na saúde, na justiça, na habitação e na Segurança Social, mas qualquer trabalhador desconta cerca de 50 por cento para acautelar o seu futuro.
Mesmo até o Reino Unido -que refere no comentário- já foi um bom país para redistribuir pelos mais necessitados. Pelo que leio, actualmente, está a restringir várias medidas de apoio social outrora conseguidas.
Não há volta a dar, meu caro anónimo. Só se deve (e pode) dar o que se tem. A teoria, em filosofia, é muito linda. O problema é o endividamento do Estado e a falência (anunciada) da Segurança Social que, numa escandalosa discriminação, está a sobrecarregar os mais velhos, aqueles que trabalharam toda a vida e não sabem se, pelo desvario dos governos, vão poder almejar uma reforma.


UM TEXTO RELACIONADO

"A PROGRESSÃO DOS IMPOSTOS. UM CASO PARA PENSAR"

UM CONTO DE NATAL REEDITADO




(Escrevi esta história baseada num caso real em dezembro de 2013)


 Neste 20 de Dezembro o autocarro parou junto ao rio Mondego. Estava o Sol no centro de um dia friorento à sombra. Do meio da pequena multidão uma mulher esguia e de meia-idade saiu em passo ligeiro mas resoluto. Era baixa, com pouco mais de metro e meio. Era incrivelmente magra, muito magra, como se a gordura numa qualquer reivindicação se negasse a encher o corpo. Vestia com simplicidade roupas que, de tanto serem repetidas, pareciam querer manifestar-se pelo excesso de uso. Quem olhasse aquele rosto fechado de frente veria dois olhos negros, embaciados de tristeza mas, ao mesmo tempo, um olhar duro, petrificado pela mágoa, como se o pouco e o muito já não fizessem qualquer diferença, se tivessem imunizados à dor, e estivessem prontos a levar qualquer pancada do destino.
Como fantasma perdido nas trevas em busca de um encosto que lhe consubstanciasse afirmação, atravessou a avenida quase sem dar pelos carros e, no seu andar rápido, entre o suave vacilar de pena e o carregar os pés no chão de dentes cerrados, entrou nas ruas largas da calçada. A sua mente estava longe, cavalgava sobre um corcel de memórias. As pessoas que consigo se cruzavam sem as ver com definição, aos seus olhos, pareciam sombras que se moviam em câmara lenta. Nem a música espalhada ao vento de “O Natal existe” a fez hesitar em calcar as pedras quase com raiva. A letra da canção parecia gozar com a sua disposição “quero ver você não chorar, não olhar para trás nem se arrepender do que faz”. Pensou para si, “não chorar como? Só se fosse pelo motivo da fonte das lágrimas ter secado”. Sentiu-se invadida por uma irritação surda. Se não fosse por coisas, apetecia-lhe mandar um grito para o ar acompanhado de uma grande asneira. “Que merda de tempo este que se vive agora no Natal! Anda tudo lixado, com a alma mais negra que a chaminé da casa de aldeia onde nasci, e tudo finge que é feliz. Esta época natalícia faz-me lembrar o período pré-eleitoral em que anda tudo a cantar hossanas ao candidato. Passado um mês desaparece a nuvem de euforia, vem a solidão e a falta de expectativa, e regressa a realidade que sempre esteve no meio de nós e nos há-de acompanhar até ao fim dos nossos dias. Nunca gostei muito do Natal. Nesta quadra sou assolada por memórias que de boa vontade expurgava. Casei próximo de Dezembro. Rodou o calendário e quando pari os meus filhos andavam S. José e Maria à procura de um estábulo indecente para parecerem os mais segregados desta vida simbólica de pobreza. Também nesta época, estava o solstício de Inverno a preparar-se para polvilhar tudo de branco, foi quando a minha mãe morreu –que saudades que eu tenho dela!
Faz tantos anos que dei o sim lá na igreja da Rainha Santa –tantos, tantos! Quantos? Sei lá! Até já me esqueci. Tantas esperanças que coloquei naquele ramo de camélias amarelas! Era o tempo das flores. Quando casei ainda se apanhava no ar o cheiro dos cravos. Agora o cravo feneceu, já só resta a memória e o espírito revolucionário num livro que tenho lá em casa e nos móveis que ainda mantenho e não pude trocar por outros mais modernos. Do cravo passámos a escravo. Mas, agora que penso nisso, somos subjugados a quê? E Porquê? E Eu? Sou submissa a quem? Se calhar do destino, deste fado de má-sorte. Sempre trabalhei tanto, tanto, até agora para eles! Para todos! Para a minha família! Nunca cuidei de mim. Não soube pugnar pelos meus interesses. Há décadas que não vou ao cinema! Há séculos que não vou dançar. E quando foram as últimas férias que gozei fora? Estive sempre em segundo lugar. A primeira escolha era deles. Eu apanhei sempre o que restava, o que não lhes interessava. Porque é que este meu filho me havia de fazer isto? Deus queira que ele se safe! Tive mesmo azar! Anda uma pessoa a criá-los para isto! Porque é que ele me fez isto? –E olhos começaram a humedecer. Ao longo destas décadas, tanta escada que encerei! Tanta casa que arrumei! Tanta roupa que passei a ferro em casa das senhoras! Tanta merda que eu limpei depois de sair da repartição pública em segundo trabalho forçado e até às tantas. Porque é que ele me fez isto? O que eu sofri para pagar as propinas lá na Faculdade de Economia e não o consegui ver licenciado. Mas ele é tão inteligente! Como é que os mais espertos, tendo um talento inato, se transformam nos mais burrões? Porque é que o meu filho me fez isto?”
Quase sem dar pela distância, chegou à Praça 8 de Maio e entrou na Igreja de Santa Cruz.

                                                                   II

Transpôs a porta do templo e foi banhada pela atmosfera fria da pedra secular, onde o silêncio envolvente convida à introspecção, ao remanso da essência, e a oração surge sem ser requisitada. Havia um cheiro a Natal misturado em odores de incenso e vela queimada. Algumas mulheres, com ar solene, de cabeça baixa, em sinal de respeito total, encaminhavam-se para um dos lados, presumivelmente onde estaria representada a Sagrada Família e com o Menino Jesus.
Como um saco de águas rebentadas para dar à luz, as lágrimas irromperam por aquela face martirizada pelo tempo e o sossego como testemunha. Num dos muitos bancos de madeira corridos, acomodou-se, deu um último olhar para o púlpito reluzente a ouro enegrecido pelos anos e fumo de velas, marcas de fé num derradeiro milagre, e cerrou os olhos. O pranto, como fio de água provindo das profundezas da terra, continuava a correr pela pele sulcada de bainhas madrastas. Como um condenado à morte, em que lhe resta apenas uns minutos de vida e só um milagre a pode salvar, ajoelhou e mentalmente encetou um monólogo emudecido: “Senhor, ajuda o meu filho! Sabes que nunca Te pedi nada para mim. Dá-me uma mostra de que és bom. Bem sei que não fui boa mãe ao dar-lhe tudo de mão-beijada. Pensei que estava a fazer o melhor. Enquanto eu trabalhava pela noite dentro, correndo de Seca para Meca, contando os cêntimos, ele moinava. Quando eu me levantava de madrugada para deixar o seu almoço prontinho em cima do fogão chegava ele meio borracho e com outras coisas mais que o alucinavam. Eu via mas não queria ver nem crer. Tive sempre esperança que ele mudasse. Ele é bom menino, Senhor! Tenho a certeza. É certo que é muito manipulador e, fazendo que ouvia, nunca escutava ninguém. É muito inteligente, mas pouco disciplinado. Talvez seja este o verdadeiro problema. Nunca tive mão na sua vontade. Às vezes irritava-me com ele mas quando se abraçava a mim, naquele gesto apertado, acabava a derreter-me e estragava tudo. Sempre foi diferente do irmão, o outro meu filho que está lá longe do outro lado da fronteira. Ajuda o meu filho, Senhor! Dá-lhe uma outra oportunidade. Apesar dos seus quase 35 anos continua a ser uma criança crescida. Bem sei que contribuí para ele ser assim. Eu sei! Mas tem dó! Ele é um fruto desta sociedade conspurcada pelo vício, onde a necessidade de abstracção implica a recorrência a ansiolíticos, a álcool, a droga, como ele. Foi por esta que o meu filho, em associação com outros, começou a assaltar pessoas na cidade. E eu sem saber de nada! Levei um baque, Senhor! Quando a polícia me bateu à porta para o levar sob prisão fiquei em choque. Como foi possível? Como foi possível  ter-me feito uma coisa destas?
Daqui a meia-hora vai ser lida a sentença no Tribunal. Pela Tua incomensurável misericórdia, neste Natal de 2013, ajuda o meu filho! Pelo Teu omnipotente poder de influência sobre a humanidade, prepondera a juíza. Faz com que ela tenha compaixão e lhe dê uma oportunidade de reinserção social. Fazes isso, Senhor?”

                                                                    III

A sala fria do Tribunal estava repleta. O ambiente era de tensão, emoção e expectativa. Sabe-se lá o que iria na cabeça de todos aqueles familiares?! Dentro de momentos, pela leitura da sentença proferida pela juíza presidente do colectivo, iria ser decidida a vida, o futuro daqueles três jovens. A súmula de crimes cometidos pelos arguidos contra a comunidade ficou ali bem vincada e esclarecido que causaram temor social, como tal iriam ser castigados. E foi lido o acórdão na parte decisória que mais interessava. E num caso nunca visto a magistrada chorou. De entre os presentes, uma mulher suspirou fundo e olhou para cima. O seu menino tinha sido condenado a pena suspensa.


(BASEADO NUMA HISTÓRIA REAL)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

CMC: TANTO FAZ SER SOCIAL-DEMOCRATA COMO SOCIALISTA...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Ontem os dois jornais da cidade, Diário as Beiras e Diário de Coimbra, noticiavam: “a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) celebrou ontem sete contratos de arrendamento e um de comodato que, no total, permitem alojar 16 pessoas com baixos recursos. Os arrendatários, explica a CMC numa nota de imprensa, referem-se a um T1, dois T2 e quatro T3 situados nos bairros da Rosa, Fonte da Talha, Ingote e ruas Direita e Verde Pinho. Os contratos, válidos por dez anos, e assinados pelo presidente da autarquia, Manuel Machado, compreendem rendas que oscilam entre os 4,19 euros por um T2 e os 80,09 euros por um T3.
Foi ainda assinado um contrato de comodato, gratuito, para um quarto, numa habitação T3 no Bairro da Rosa, em que a contratante tem direito a partilhar, com a outra contraente, a casa de banho, cozinha, arrumo e sala de estar. Trata-se, lê-se no documento da CMC, de “um modelo encontrado pela autarquia para resolver situações sociais urgentes, proporcionando um alojamento temporário e gratuito a quem se encontra numa situação de desemprego de longa duração.” -Extracto do Diário de Coimbra.
Nesta altura da quadra de Natal, ao lermos esta notícia ficamos encandeados e somos tomados por um reconfortante sentimento de agradecimento à autarquia pelo bem-fazer a quem precisa. Mas, se fizermos uma segunda leitura, não salta à vista uma profunda iniquidade social?
Para melhor se entender, nada melhor do que ir directamente ao assunto. Estará certo a Câmara Municipal de Coimbra atribuir um T2 por 4,19 euros? Sabendo o valor dos arrendamentos na cidade para a maioria, conceder um T3 por 80,09 euros estará correcto? Será que não estamos perante uma afronta a quem trabalha arduamente para conseguir um lar e viver, à sua custa, com dignidade? Será que não estamos a subverter os valores? Isto é, em vez de dar o peixe já pescado, amanhado e cozinhado, não seria lógico “obrigar” o adquirente a merecer o bem que recebe? Bem sabemos que se trata de pessoas desempregadas e carenciadas. Tudo certo. Mas se o beneficiário não tem rendimentos para pagar, ao menos, metade da renda média que se pratica na cidade, não deveria contribuir com serviços? Não é um escândalo atribuir um bem que é de todos, pagos pelos nossos impostos, a um privado? Claro que se fosse para uma associação que visa a dinamização e o bem comum já me parece razoável. Assim, a confundir o particular com o geral, parece-me, algo não vai bem no reino dos mais beneficiados em detrimento dos menos.
E não se pense que este modo de atribuição de casas camarárias (públicas) são um exclusivo deste executivo socialista. Nada disso, já na anterior vigência de coligação PSD/CDS/PPM a política era igual. Pode é adjectivar-se que nos dois sistemas, laranja ou rosa, como os vereadores da habitação são comunistas, é um problema fora de controlo do partido que ganha as eleições. O que, salvo melhor opinião, dá para perceber que os governos locais, através da caridadezinha, dando o que não é deles, manipulam bens públicos tendo por objecto eleições autárquicas.
Vale a pena pensar nisto?

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

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Marco deixou um novo comentário na sua mensagem "JORNALISMO DE CASERNA":

Luís já reparou? NÚMERO TOTAL DE VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA
Sparkline 994,832.
Está quase a ser um blogue «milionário»!
Parabéns.
Abraço.
Marco 

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

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Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "COMERCIANTES DA BAIXA DE COIMBRA QUEIXAM-SE DE UM...":


O sr. João Gaspar falou com os comerciantes errados!
Se tivesse falado com os «certos» tinha uma crónica como a reportagem da TVI, http://questoesnacionais.blogspot.pt/2016/12/jornalismo-de-caserna.htm
Abraço, amigo Luís.

Ps: já agora,festas felizes para si, família e todos os leitores do nosso Questões. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

JORNALISMO DE CASERNA

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Hoje, à hora do almoço, a TVI, no Jornal da Uma, apresentou uma reportagem sobre um “estudo” baseado no facto de os portugueses estarem a gastar mais. Foi dito que, em média por pessoa, vão gastar 370 euros em compras de Natal.
Abriu assim pela pivot: “os centros comerciais enchem-se de pessoas à procura das últimas compras de Natal e muitos admitem que não olham a gastos para agradar aos mais próximos”. Durante cerca de dois minutos, passados unicamente no Fórum Algarve, foram entrevistados funcionários e vários consumidores em trânsito na grande área comercial do sul e incluindo o seu director-geral.
Talvez para mostrar os raios de sol através da peneira, vieram a Coimbra, à Rua Ferreira Borges. Com os mesmos minutos da reportagem do shopping, com a jornalista a conversar com o dono da loja, foi utilizado todo o tempo a mostrar o interior de um estabelecimento de artesanato, barros e cortiça. Com o comerciante conimbricense a afirmar que estava a vender mais, a jornalista abriu assim: “os comerciantes são os próprios que nos contam que há muitas pessoas na Baixa”. E finalizou assim: “São então boas notícias dadas pelos comerciantes da Baixa de Coimbra. As pessoas começam a preferir mais o comércio tradicional e também a comprar mais.”
A pivot, em Lisboa, rematou assim: “Ana Bartolomeu Simões a deixar aqui o registo de que as coisas estão a correr bem no comércio tradicional, pelo menos, na Baixa de Coimbra.”

Perguntas:

-Falando unicamente com um comerciante pode a jornalista afirmar que “são então boas notícias dadas pelos comerciantes da Baixa de Coimbra”?

-Estando no interior de um estabelecimento de artesanato, de barros e cortiça, pode-se chamar a este negócio a representação do comércio tradicional?
-Falando unicamente com uma pessoa, pode afirmar-se que “as pessoas começam a preferir mais o comércio tradicional e também a comprar mais?
-Entrando apenas numa loja e entrevistando apenas um lojista, pode afirmar-se em directo quesão então boas notícias dadas pelos comerciantes da Baixa de Coimbra”?

O TESTE DO ALGODÃO: A BAIXA É MESMO UMA PROSTITUTA






Hoje, num diário da cidade, na página dedicada a encontros de prostituição, vinha publicado o anúncio que postei em cima.
Já há muitos anos que escrevo isto mesmo, ou seja, que a Baixa de Coimbra é uma prostituta. Servem-se dela para os seus interesses e, quando cessa o que lhes convém, abandonam-na à sua sorte, escrevi aqui neste texto (clique aqui em cima para aceder). E mais aqui.  E já agora, leia esta crónica também. 
Ora, numa espécie de teste de algodão, ficamos a saber que a Baixa de Coimbra é “uma morena delicada, quente e safada, delícia de menina”. Que está sempre disponível durante 24 horas com “acessórios, massagem body com duche a dois.

“COMERCIANTES DA BAIXA DE COIMBRA QUEIXAM-SE DE UM NATAL FRACO E SEM VENDAS”

(FOTO DO JORNAL ONLINE OBSERVADOR)



Por João Gaspar, jornalista da LUSA
Reportagem publicada no jornal online Observador


(UMA PERGUNTA ESTÚPIDA:
Por que razão, sendo esta peça distribuída por todos os órgãos de informação nacionais, ainda não foi publicado este trabalho nos nossos jornais diários?)

A época natalícia costuma ser uma das melhores alturas de faturação na baixa de Coimbra, mas, apesar de algum movimento registado, os comerciantes temem que esta possa ser uma destas piores épocas.”

Falta menos de uma semana para o Natal e José da Costa, de 85 anos, lê os jornais locais no balcão da ourivesaria onde trabalha há 73 anos. “O Natal não chegou. Se tivesse chegado, não estaria a ler o jornal a esta hora”, diz à agência Lusa o ourives com loja na Ferreira Borges. O tempo até “está bom”, nota, mas a falta de dinheiro dos portugueses e a concorrência das grandes superfícies não tem ajudado ao negócio.”


PODE LER TAMBÉM ESTE TEXTO RELACIONADO:

QUEM AJUDA O FERREIRA DA COSTA? É NATAL, NÃO É?





No dia 1 de Outubro, último, descrevi aqui em palavras a angústia do José António Ferreira da Costa. Durante décadas foi arrumador de automóveis na margem esquerda. Estou convencido que é conhecido por mais de dois terços dos habitantes da cidade de Coimbra. Durante mais de vinte anos, a troco de uma moeda doada voluntariamente, ajudou muitas pessoas a encaixar a sua viatura num lugar seguro e à sua guarda.
Relembrando o artigo que escrevi, no ano passado, em Setembro de 2015, quando as folhas começavam a amarelecer e a se desprenderem das árvores, numa das vezes que nos encontrámos, contou-me que, através do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), se tinha candidatado a um concurso para técnico de profundidade, vulgo coveiro, promovido pela Câmara Municipal de Coimbra, que tinha sido seleccionado, e já estava a trabalhar no Cemitério da Conchada. Parecia irradiar felicidade. Pensei para comigo como, contrariando a precariedade e a insegurança do rendimento, um trabalho garantido pode constituir o fermento para uma boa cozedura no futuro de cada um de nós.
Então em Outubro, último, o Ferreira, trémulo e ansioso, carregando no rosto o desespero de desempregado, veio pedir auxílio: “Depois de um ano a trabalhar no Cemitério da Conchada, por conta de um contrato estabelecido entre os Recursos Humanos, da Câmara Municipal, e o IEFP, sem que nada o fizesse prever, mandaram-me embora. O meu vínculo contratual era através de um POC, Programa Ocupacional, do desemprego. Anteriormente ouvi o engenheiro dizer ao encarregado que o contrato era para revalidar se eu me portasse bem. Como eu precisava deste trabalho como pão para a boca, é claro que fiz tudo para cumprir. Estava convencido que era para continuar. Sem uma palavra de despedida, no dia 31 de Agosto, no último dia do contrato, o encarregado ordenou apenas que deixasse o fardamento, e mais nada! À minha pergunta se o que estavam a fazer estava correcto, o mestre respondeu que, embora não entendesse a medida do superior hierárquico, estava a cumprir ordens. Tinham falta de pessoal. Este despedimento não fazia sentido, disse-me o encarregado à laia de despedida, sem abraços nem palavras de incentivo. Não lhe disse mais nada. Valia de alguma coisa? Que lhe importava a ele ou ao superior se eu, sem aquele ordenado de 508,00 euros, ficava literalmente na miséria? Se eu lhes dissesse que sem a minha mensalidade o único rendimento que passa a entrar no meu lar é o da minha mulher, que ganha cerca de 450 euros, iriam perder o sono? Se eu mostrasse o meu recibo da renda de 300,00 euros, quereriam eles saber disso? Se eu contasse que agora não tenho direito a qualquer subsídio e estou a passar mal?
De pouco valeu eu ter escrito este texto. Até hoje o Ferreira da Costa, como náufrago, continua à procura de um apoio que lhe permita sobreviver e viver com dignidade neste mar encapelado. De lágrimas nos olhos, muito mais tristonho e acinzentado, hoje veio novamente pedir ajuda. Já foi a dezenas de empresas, já foi a recursos humanos de várias instituições e em todas lhe é transmitido o seguinte: “como o senhor não está a receber pelo IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional, não o poderemos admitir”.
Faz sentido esta prerrogativa? Se o Costa está inscrito não deveria bastar? Quer dizer, ele, que nada tem -nem sequer dinheiro para ir de autocarro a uma entrevista nos arrabaldes da cidade- fica atrás dos que têm alguma coisa? Não recebendo subsídio de desemprego ou Rendimento Mínimo Garantido (RSI) não deveria ser colocado à frente?
O que roga o José António? Pede bens alimentares? Pede roupa? Pede uma casa à Câmara Municipal? Não! O Costa pede trabalho. O Costa quer trabalhar para poder manter a família -nas entrelinhas entendi que se não conseguir emprego a desunião está em marcha.
Nesta quadra de Natal, como em anos anteriores, onde a hipocrisia reina em dádivas de sacola que servem para humilhar quem recebe e lavar a alma de quem dá, para quem precisa e quer trabalhar não há benevolência nem humanidade. Em silogismo, é como se a sociedade estivesse mais interessada em manter os pobres “ad eternum” no mesmo patamar de miséria.
Retirando as minhas bacocas análises de circunstância, e escrevo para si, leitor, que me lê neste momento: se você pode, de algum modo nem que seja com informação, ajudar o José Costa, por que não o faz? O que é que fez de solidário neste Natal? Que tipo de humanismo carrega você nesse seu coração? Ajude o Costa, porra!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

EDIFÍCIO DO JAZZ AO CENTRO ACUSA INCÚRIA DO PROPRIETÁRIO

(Fotos superiores de Tai Pio Zhu)





Ontem, cerca das 23h00, ruiu a cimalha superior, por cima de duas janelas, do prédio do Jazz ao Centro viradas para o Largo da Fornalhinha, junto à Tasquinha da Baixa.
Segundo uma testemunha que pediu o anonimato, “foi uma sorte os detritos em pedra, cimento e cal não terem atingido alguém que passasse àquela hora. E, felizmente, também não alcançou nenhum automóvel estacionado no largo. Foi um estrondo do “caraças”. Continua o meu depoente, “parecia a detonação de uma bomba. Quem não ganhou para o susto foram os membros da Igreja Evangélica, ali ao lado, que vieram todos para a rua espavoridos pelo “trovão” que se bateu na zona.

UM POUCO DE HISTÓRIA DO EDIFÍCIO

Este icónico prédio está ligado, em cordão umbilical, ao apogeu da Baixa e ao seu declínio. Até ao virar do milénio o primeiro andar da porta com entrada pelo Largo do Poço, como salão de jogos onde predominava o snooker e o bilhar livre, foi uma espécie de porto inglês na Segunda Guerra Mundial onde harmoniosamente conviviam todos os extractos classicistas da sociedade. Com o velho Juvenal, o capitão de terra e jogos, a comandar as operações, aquele espaço sagrado da Baixa de Coimbra foi o início de tudo, o baptismo e a consagração, para muitos trabalhadores do comércio iniciados nesta profissão nas décadas de 1960 e subsequentes.
Depois de vários anos encerrado, como a fazer o luto do desaparecimento do velho Juvenal, por volta de 2007 este maravilhoso espaço “art déco” da Baixa de Coimbra reabriu como restaurante e salão de bilhares. Mais tarde, sobre direcção do Telmo, um jovem empresário do Porto, foram retiradas as mesas de jogos forradas a pano verde e ficou apenas como casa de comidas.
Encerrou em 2012 e, sobre a batuta de Pedro Rocha Santos, a fazer lembrar os velhos salões de Chicago, entre 1920 e 1940, deu lugar ao Jazz ao Centro, uma iniciativa que muito veio contribuir para a revitalização desta zona histórica.

A QUE SE DEVE A DEGRADAÇÃO DO PRÉDIO?

Sabe-se que o principal nexo de causalidade existente nos edifícios envelhecidos e carecentes de obras nesta área de antanho foi sempre a renda desactualizada, sobretudo arrendamentos antigos, que tem contribuído directamente para a degradação dos Centros Históricos. Há tanto tempo que se fala disto. Mesmo depois da reforma patrimonial do Arrendamento Urbano realizada à cerca de quatro anos, com valores que, algumas, nem chegam aos 50 euros torna-se impossível aos proprietários encetarem as necessárias remodelações que o bom-senso e, sobretudo, a segurança pública exige. Esta Baixa é uma terra amada de ninguém.
Ora, e aqui reside o busílis da questão, desde a altura em que foi passado ao Telmo como restaurante, o espaço arrendado pelo Jazz ao Centro tem uma renda de mais de um milhar de euros assim como o rés-do-chão, consignado a um comerciante de pronto-a-vestir, que se falou na altura de ser à volta de 3000 euros -onde esteve instalada a desaparecida Daline e renascida mais ao lado-, está perfeitamente (hiper)actualizado em valores. Quero dizer, portanto, que a autarquia, outrora tão lesta a exigir obras aos donos de prédios que eram mais pobres que os seus inquilinos -embora, ressalvo, actualmente e nos últimos anos, com o vereador Francisco Queirós, ganhou um rosto mais justo e humanitário- tem obrigação de accionar os mecanismos legais para obrigar este dono do edifício, no mais curto espaço de tempo possível, a requalificar o prédio.
Como nota final, salienta-se a prontidão da Protecção Civil que, para além de, ainda ontem, ter imediatamente sinalizado a área envolvente, hoje, cerca do meio-dia, limpou todos detritos da via-pública.