quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ATÉ AO FIM DO MÊS, DALINE!





A Daline, um pronto-a-vestir com fabrico próprio e demais conhecido na cidade, vai encerrar no fim deste mês, de Fevereiro. A funcionar há 21 anos no Largo do Poço, no rés-do-chão do edifício do Jazz ao Centro e onde, durante décadas, funcionou o mítico Salão Brazil, este enorme estabelecimento, que em 1994 veio ocupar o antigo espaço da AGA, António Gomes António, vai mandar cinco funcionários para o desemprego. Pela enorme área de venda, é um dos últimos ícones como modelo de uma Baixa comercial desaparecida.
Segundo alguém que sabe do que fala mas que prefere não se identificar, “em princípio, pelo menos foi ventilado, será uma restruturação. Falou-se que a marca irá funcionar num espaço mais pequeno para conter os custos. Repare que numa altura em que não há negócio a renda são cerca de 1500,00 euros e ordenados para cinco funcionários. É a crise! Vai tudo para o desemprego! A fábrica é em Leiria e, como todas as unidades de produção, atravessa graves problemas. O culpado disto é o Governo que, em vez de ajudar, prefere que vá tudo para o charco. Com juros a 30 por cento para quem se atrasa no pagamento do IVA quem é que aguenta? É o Estado que nós temos!”

A SAGA CONTINUA

Nesta última segunda-feira encerraram duas lojas. Uma de roupas, na Rua das Padeiras, paredes-meias com a Peixaria Pinguim e outra de perfumes na Rua Adelino Veiga. Segundo uma vizinha desta perfumaria, “já há uns tempos que se falava no seu fecho. Já não tem artigos lá dentro para venda. Já viu isto? Onde vamos parar?”
Também no fim do mês, na Praça do Comércio, vai encerrar uma loja de artigos decorativos a funcionar no antigo espaço d’O Cordelinho.

FALECEU A SENHORA ALBERTINA



Quem passou este fim-de-semana na Praça 8 de Maio estranhou o Quiosque Espirito Santo estar fechado. Um estabelecimento que está diariamente aberto e só encerra nos dias de Natal e Páscoa, onde a Lena é sentinela, para acontecer o contrário algo grave ocorreu. E foi mesmo! A mãe do Jorge, Albertina de Jesus Martins, de 87 anos, pessoa muito estimada e que durante décadas trabalhou na Rua do Corvo, deixou-nos.
Quem nos vai falar da falecida é o comerciante Henrique Ramalhete que a conheceu bem. “A senhora Albertina era empregada doméstica de Berta dos Santos Silva –pessoa muito activa e ligada ao Movimento Nacional Feminino, organização de apoio à Guerra Colonial, com o suporte do Estado Novo entre 1961 e 1974. Era esta senhora que, neste período e na Baixa, recebia e distribuía os aerogramas provindos e destinados aos militares no ex-Ultramar Português. Então, fosse pela filosofia da casa ou não, a verdade é que a dona Albertina, mesmo sendo empregada, chamava os marçanos do comércio, como eu a trabalhar na Rua do Corvo e originário de gente muito humilde, e presenteava-os com um suculento lanche. Um gesto de bondade que nunca esquecerei. Onde ela estiver, o meu agradecimento e que descanse em paz.”
Em nome da Baixa, para o Jorge Martins e esposa Lena e para toda a família, uma mensagem de condolências e um grande abraço nestes dias de tristeza.

VER, OUVIR E PENSAR

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O CORTÊS JÁ TEM OUTRO "ORGON"



Depois de, há cerca de duas semanas, Jorge Santos, um benemérito de Miranda do Corvo, ter oferecido um órgão ao músico de rua Luís Cortês, na quarta-feira, da semana passada, um energúmeno deu-lhe a “palmada” na Praça 8 de Maio. Em princípio, segundo testemunhas que o viram carregar o instrumento, o gatuno estará identificado pela PSP. O problema, como se compreende, é a prova. E sem aparecer o instrumento é complicado.
Por que no meio de bandalhos como o ladrão que surripiou o ganha-pão do Luís há sempre gente boa que emerge e que nos dá esperança num mundo melhor, hoje à tarde, uma senhora, acompanhada do neto, entregou um órgão novo ao Cortês. Disse quem viu que, perante a surpresa, o músico de pobreza reconhecida deu em chorar desalmadamente. Um gesto deste altruísmo é bonito de mais! Salienta-se. Em nome de todas as pessoas de boa-vontade, muito obrigada. Mesmo no desleixo do músico invisual, que ao não cuidar bem do que lhe oferecem com tanto amor causa alguma irritação por parecer não dar valor ao esforço dos outros, temos de ter uma compreensão maior e o que deve prevalecer é o sentimento de generosidade. Uma boa lição que esta nobre benfeitora e o neto deram. Bem-haja!


NÃO SOMOS A GRÉCIA MAS...



"Há cada vez mais famílias sem dinheiro para comprar comida e pagar as contas da água e da luz. O alerta é feito pelo Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, no dia em que a instituição faz 150 anos."

sábado, 21 de fevereiro de 2015

CARTA À PROCURADORA GERAL DA REPÚBLICA







Cara Joana Marques Vidal, Procuradora Geral da República, espero que esta minha carta vá encontrar Vossa Excelência de boa saúde na companhia de todos os seus e em paz com o fantasma do segredo de justiça, esse desterrado e desalmado espectro invisível que se torna materializado num estalar de dedos, e que, apesar da sua luta, teima em atentar o seu magistério.
Porque não nos conhecemos, apresento-me: Luís Fernandes, um pacato cidadão já com algumas rugas e muitos cabelos brancos que, sem ímpeto legalista ou de justiceiro, faz da escrita uma espada a desbravar o denso manto da ignorância das coisas simples e banais. Uma espécie de vento rasteiro a mostrar que depois da passagem dos grandes eventos anunciados fica sempre uma sedimentação calcada e sem história, uma injustiça latente nos macerados mas sem voz para se defenderem das atrocidades tantas vezes disfarçadas de legitimidade.
Enquanto garante da promoção da defesa da legalidade democrática, escrevo-lhe esta missiva por dois motivos: o primeiro, para levar ao seu conhecimento o teor de um acontecimento. O segundo, para a interrogar como pode esta (in)justiça continuar aos seus e nossos olhos?
Embora já tivesse escrito a primeira parte desta história, ou nefasto acontecimento, no mais antigo semanário de Coimbra O Despertar, naturalmente sem identificar as partes e sem entrar no caso concreto, principio por lhe contar que se trata de um processo de violência doméstica. Tudo teria começado numa cidade do litoral, há cerca de uma dúzia de anos, quando Maria, na altura com 25 anos, funcionária pública e moçoila bonita, depois de um casamento falhado, se enamora de um novo companheiro. Desta nova ligação apaixonada nascem dois filhos, actualmente um com 12 e outro com meia-dúzia de anos. Ao que parece, com o passar do tempo, a mulher foi-se apercebendo de algumas escapadelas e facadas no matrimónio e pouca vontade de contribuir para a despesa caseira e começou a reclamar. Alegadamente, a resposta por parte do parceiro ao longo dos anos foi umas contundentes bofetadas embrulhadas em vapores etílicos, de vez em quando. Fosse por vergonha ou medo, Maria foi calando e nunca apresentou queixa nas instituições para o efeito. Até que, presumivelmente, há cerca de um ano começou a pensar em, conjuntamente com os filhos, abandonar aquela vida de sofrimento. A opressão física e mental aumentou e agora acompanhada com chantagem de lhe serem retirados os rebentos. E Maria, na casa e sua propriedade do anterior enlace, continuou a calar. Até que há cerca de três meses mudou para outro quarto e passou a dormir com o rebento mais novo. Estava aceso o rastilho de mais violência já por ela sobejamente conhecida. Pouco depois do Natal, a meio de uma noite e presumivelmente tomado pelo álcool, o companheiro irrompeu e à frente da criança de seis anos violou e obrigou-a manter relações sexuais. E Maria foi apresentar participação na PSP local. O denunciado foi sinalizado e contactado pela polícia. Em resposta aumentou a pressão sobre a sua comparte, retirando-lhe os cartões de crédito e o telemóvel.
Entretanto, por esses dias, sob ameaça de morte, submeteu a mulher, e os filhos, a entrar no automóvel e obrigou-a a consultar uma vidente numa localidade com praia ali próximo. A visionária, perante os dois, sentenciou o fim daquela união e o agressor, ficando fora de si, ameaçou matá-la juntamente com os filhos. Em desespero de causa, a sequestrada, por telefone, conseguiu contar à mãe e descrever-lhe o cenário de horror e violência que, juntamente com os seus rebentos, estava a decorrer. A progenitora contactou a PSP e foi montada uma operação de resgate. Aberto o processo de inquérito, foi aconselhada a sair imediatamente com os filhos da habitação familiar –recorda-se que o locado está em seu nome. O tirano, como se nada se passasse, manteve-se onde sempre esteve e a vítima foi viver para casa de uma amiga. Durante duas semanas esta prole desfeita e em frangalhos viveu um calvário sem precedentes, sobretudo pela impunidade e liberdade de movimentos do déspota que, apesar da medida de coação imposta de não poder aproximar-se da ex-companheira, para além de tentar resgatar os filhos na escola, continuou a intervalar com a mulher juras de amor e intimações de morte.

PARTIDA PARA LOCAL DESCONHECIDO MAS NEM TANTO

Depois de duas semanas em casa de amigos, sem meios necessários ao bem-estar, como roupas para os miúdos e largando o seu trabalho, no âmbito da APAV, Associação de Apoio à Vítima, foi remetida para local totalmente desconhecido até para a sua própria mãe –que se imagina como estaria nessa altura a viver a odisseia de terror da sua única filha. Depois de uma semana numa localidade de articulação, a ofendida, acompanhada dos seus dois filhos, foi transferida para uma casa comunitária de apoio à vítima numa cidade a cerca de 250 quilómetros, a sul.
Há mais ou menos duas semanas, numa noite aparentemente igual a outras onde o silêncio e a angústia imperavam e só quebrados no ranger das tábuas centenárias, por volta das quatro da manhã, foi acordada pelo barulho e gritos da responsável pela casa. A tocar à campainha do edifício estava o miúdo de 12 anos acompanhado com o pai e este com mais duas pessoas. O que teria acontecido? Maria, presumivelmente, a tomar soporíferos para dormir e tentar aguentar tanta sorte indigesta de mau fado, não deu conta da saída do seu filho mais velho a meio da noite. Apesar de não ter telemóvel o adolescente ausentou-se e, através de uma cabina pública, telefonou ao pai e deu-lhe conta da localização. Ou seja, a mulher estava à mercê do agressor. Não aconteceu uma tragédia porque, é de antever, não era a intenção do algoz desencadeá-la por hora. Está de ver que, levando duas testemunhas consigo, perante as frágeis provas de agressão física, pretendia provar a negligência grosseira maternal da ainda esposa.
Pergunta-se: estando o ofensor proibido de se aproximar da vítima, não seria suposto ter uma pulseira electrónica e controlado à distância? Interroga-se ainda, havendo filhos não será normal acontecer um desfecho assim, de contacto entre as crianças e o progenitor? Para os serviços habituados a lidar com situações análogas, não deveria ser evidente e assegurar o princípio da precaução? Que segurança é transmitida a quem é obrigada a abalar de trouxa às costas do seu habitat e com os filhos a tiracolo? Ainda outra interrogação: ao fazer deslocar a vítima e mantendo o agressor no seu meio, como nada se passasse, não estaremos perante uma escandalosa beneficiação do infractor? Estão erradas ou não as regras judiciais? Se estão certas,  parece-me, alguém foi negligente e não cumpriu com o que estava obrigado. Refiro, obviamente, a investigação e o juiz de instrução, este, que é o garante dos direitos, liberdades e garantias de todos os sujeitos processuais, sejam arguidos, assistentes ou ofendidos.
Mas ainda não acabou o calvário desta sentenciada e a penar antes do julgamento, senhora Procuradora Geral da República. Há uma semana, em face do desgaste psíquico que tudo isto deve estar a causar e se adivinha no adolescente, o rapaz “passou-se”. Depois de agredir verbalmente a mãe, empurrando a psicóloga e a assistente social e destruindo os objectos à sua mão, em descompensação, acabou internado, em psiquiatria, num hospital de Lisboa. Sem qualquer estratégia e harmonização de cuidados de segurança dos serviços envolvidos na salvaguarda da integridade física de Maria, esta deu de chofre com o seu ex-companheiro na mesma sala do hospital.
Para finalizar, senhora Procuradora Geral da República, interrogo: estes procedimentos, tendo em conta que há vidas humanas em jogo, não são uma espécie de roleta russa, pois não? É que se forem -e esperamos que não e este caso fosse pontual-, não é de admirar que, segundo a UMAR, União Mulheres Alternativa e Resposta, tenham ocorrido mais de quatro centenas de mortes na última década!

UMA CARTA PARA SE LER



"SE NÓS NÃO SOMOS A GRÉCIA É PORQUE SOMOS PARVOS"



"O “nós não somos a Grécia”, repetido por esta maioria como um mantra, é das frases politicamente mais estúpidas que me foi dado ouvir. É claro que nós somos a Grécia a partir do momento em que quisemos ser europeus e porque a Grécia é a Europa: foi a Grécia que fundou a civilização europeia ao abrigo de cujos valores queremos continuar a viver. (...) CONTINUE A LER AQUI.

UMA QUESTÃO DE CUSTOS E ESFORÇO

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

LEIA O DESPERTAR...

LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "REFLEXÃO: UM DIA DE NAMORADOS", deixo também as crónicas "UMA PALMADA DE LESTE COM CLASSE"; "O CORTÊS JÁ TEM UM "ORGON"; "FURTARAM O "ORGON" AO CORTÊS; "ABRIU O CAFÉ DA LOJA; e "FALECEU OSVALDO FERNANDES"


REFLEXÃO:  UM DIA DE NAMORADOS

O dia 14 de Fevereiro é considerado o Dia dos Namorados. Quem for casado ou conviva em união de facto, pelo menos nesta data, ofereça uma rosa ao seu amor. Se puder, leve-a a jantar fora ou, no mínimo, ao cinema –e por que não “As 50 sombras de Grey”? Ainda não vi este filme que estreou recentemente. Sobretudo nos casamentos longos, temos tendência, todos, homem ou mulher, a esquecer as gentilezas, os pormenores, que transformam uma relação diferente a dois. Acomodamo-nos. Achamos que a/o comparte está conquistado e já não é necessário fazer nada para o manter. Erro crasso para tantos de nós! O amor é como um jardim, se não for continuamente regado, fenece e morre.
Para quem não tem namorada, ou companheira, por ser viúvo, divorciado, solteiro, sozinho, pode ser um dia muito triste e a defesa para muitos, creio, é o álcool. Para estes solitários é um dia de enterrar a cabeça no travesseiro, no etílico, nas sobras de um passado, empoeirado e cheio de sombras, que não volta, para esquecer um tempo que teima em vir ao de cimo e sobrepor-se a todas as recordações. Para estes muita coragem e ganhem esperança de que há sempre alguém à espera. Não se escondam atrás do reposteiro ou dos efeitos alucinogénios para aguentar o mundo que parece ter aterrado em cima dos seus ombros. Vão à luta. Para muitos destes, sobretudo pessoas com alguma idade, o facto de serem info-excluídos, não saberem lidar com computadores, pode ser uma enorme barreira. Apesar de haver muitas instituições de apoio à terceira idade, penso, ainda não se dá o devido valor a este facto e o quanto a sua ignorância pode contribuir para a solidão e infelicidade de tantos.
Há pouco tempo um meu amigo, já com alguma idade, pedindo-me ajuda, alertou-me para duas premissas que contribuíam enormemente para a sua angústia e isolamento e que eu nunca tinha pensado. A primeira é a precisão de saber comunicar na Internet e a segunda é a necessidade de saber dançar. O meu amigo, de cerca de sete décadas mas com aspeto de ter menos idade, mostrou-me a sua impotência para arranjar uma companheira para os dias que teimam em ser curtos e noites que, por não conseguir dormir, são demasiadamente compridas.
Nem nos passa pela cabeça os dramas que acontecem entreparedes de silêncio e retiro na terceira idade. São tragédias que, por sermos mais novos e ainda nos mexermos bem, nos passam ao lado. Há uma imensidão invisível à espera de um simples sorriso de alguém. No Dia de Namorados, que já foi, pensemos nisto.


UMA PALMADA DE LESTE COM CLASSE

Na quarta-feira da semana passada, logo ao abrir dos estabelecimentos, visitaram algumas ourivesarias e uma loja de velharias e antiguidades. Eram dois homens e uma mulher com idades entre os cinquenta e os sessenta anos. Bem vestidos, com fatos de bom corte, e a arranhar o português de modo a conseguirem ser entendidos, pareciam turistas em trânsito. Só com muita sorte, pela pronúncia, se poderia adivinhar que eram bandidos.
Passava pouco das 10h00 quando entraram na ourivesaria Ágata. Enquanto um homem entretinha António Cruz, para lhe mostrar uma salva de prata, a mulher dava a “palmada” a uma pulseira e um colar, ambos de ouro maciço e no valor arredondado de 2000 euros. A vigarista saiu com o acompanhante e o segundo homem, “entretainer”, continuou a falar com o proprietário do nobre estabelecimento. Certamente quando o casal já se tinha afastado o suficiente para não ser apanhado, o segundo burlão, com cortesia e elegância, despediu-se do lojista com a recomendação de que voltaria mais tarde. Andavam a ver peças para um amigo. Foi então que o reputado comerciante da Baixa se apercebeu do furto. Ainda correu as ruas em redor mas dos ladrões nem sombras.
António Cruz tinha um ar combalido, como se, de repente, lhe acrescentassem mais uma vintena de anos. “Bolas! Estou a vender cerca de 10 por cento do que comercializava há uns anos atrás e, sem que se conte, uma pessoa leva uma “chapelada” destas!”, enfatiza. Sinto-me agredido, com um mal-estar impossível de descrever”.
As lojas, na maioria, detém apenas uma pessoa. Por isto mesmo escrevo esta crónica. É preciso muita atenção aos grupos e à sua apresentação. Qualquer um de nós está preparado para suspeitar do malvestido e deixar à vontade o bem aprumado. Como tantas vezes tenho escrito, a vida de um comerciante de rua é cada vez mais uma espécie de roleta russa. Nunca se sabe quando, por motivos vários, pode tombar.


O CORTÊS JÁ TEM UM “ORGON”

Passavam poucos minutos das nove quando o telemóvel tocou. Era o senhor Olímpio Medina, o proprietário do mais identificativo estabelecimento, com o mesmo nome, de instrumentos musicais da Baixa. “Alô, Luís? Queria pedir-lhe um favor. É o seguinte: ontem ligou para aqui um senhor de Miranda do Corvo a dizer que leu no jornal O Despertar o que você escreveu e tem um órgão para oferecer ao Luís Cortês mas que só o pode trazer para Coimbra quando vier cá. Acontece que o Cortês anda desesperado, até já me quer comprar um órgão de qualquer jeito –sei lá onde vai ele buscar o dinheiro? Precisa de trabalhar e ganhar. Entende-se! Então liguei ao senhor de Miranda a propor-lhe ir lá buscar o instrumento mas ele, como não me conhece, pareceu receoso. Então pensei que se você fosse comigo seria mais fácil. Íamos no meu carro. Pode ir comigo?”
E, como dois catraios em busca de uma solução que pode ajudar a salvar um amigo, lá fomos –interessante como, por algo que consideramos bom, largamos tudo sem olhar a tempo e a despesas. É como se, passando o devido exagero, corrêssemos em busca de um medicamento que pode salvar uma vida –foi isto mesmo que senti no entusiasmo manifestado pelo senhor Olímpio.
Chegámos a Miranda do Corvo e ligámos ao benfeitor que se tinha disponibilizado para oferecer o instrumento ao Luís Cortês. Veio então o senhor Jorge Santos com um teclado Yamaha debaixo do braço. Pelas feições, reconheci-o de Coimbra, já lá vão muitas décadas. Disse-nos que estava aposentado por invalidez e que ao ler o apelo no jornal ficou muito sensibilizado. Por que o podia fazer, tinha muito gosto em contribuir para um dia-a-dia melhor do músico de rua, da Baixa de Coimbra. Mesmo contra a sua vontade -por não gostar de publicidade, disse-, lá consegui tirar uma foto do momento. Expliquei porque o fazia. Este seu gesto pode levar outras pessoas a fazer o mesmo para situações análogas. Comportamento gera comportamento. Apenas por isso e nada mais. Um agradecimento do tamanho do mundo para este benemérito, Jorge Santos, e um grande abraço para o senhor Olímpio. Neste dia, durante a tarde, o Cortês já manifestava um sorriso de felicidade. Não é tão bom quando tudo acaba bem?




FURTARAM O “ORGON” DO CORTÊS

Hoje, quarta-feira, durante a tarde, alegadamente, um indivíduo pegou no órgão do Cortês, o músico de rua que costuma estar em frente à Igreja de Santa Cruz, colocou-o debaixo do braço e abalou em direcção à Praça do Comércio. De salientar que este instrumento musical foi oferecido há cerca de uma semana por um benemérito de Miranda do Corvo, de nome Jorge Santos.
Segundo pessoas presentes na Praça 8 de Maio, indignados com a acção do energúmeno que teria surripiado o “orgon” ao Cortês, não deixaram de contar que o instrumentista é muito desleixado e não cuida dos bens à sua guarda. “Muitas vezes deixa o seu ganha-pão abandonado ao sol e à chuva sem levar em conta a importância para a sua sobrevivência. Depois acontece isto!”, referiram.
Foi apresentada participação do furto na PSP. Se o leitor tiver alguma informação que possa ajudar, por favor, informe a polícia.


FALECEU OSVALDO FERNANDES

No último fim-de-semana, Osvaldo Augusto Fernandes, de 83 anos, partiu do nosso meio. O seu funeral, com missa de corpo presente no Centro Funerário Nossa Senhora de Lurdes, realizou-se nesta segunda-feira. Pessoa muito conhecida na Baixa, nasceu no Beco das Canivetas, morou na Rua das Rãs e, durante muitos anos, até final da década de 1980, foi fabricante de malas com oficina na Rua Corpo de Deus onde veio a residir até há cerca de sete anos quando se transferiu para o Lar Graça de São Filipe, em Bencanta, São Martinho do Bispo. Sei que foi muito bem cuidado nesta casa e, até ao último minuto de vida, muito bem acompanhado pela sua filha Isabel Fernandes a quem, naturalmente, deixa um oceano de saudade.
O Senhor Osvaldo era irmão de João Fernandes, ex-delegado da Fundação Inatel, a quem, do meu cantinho, endereço um grande abraço de solidariedade nesta hora de angústia e sofrimento.
À Isabel Fernandes, aos filhos desta e netos do desaparecido, ao meu amigo João Fernandes, em nome da Baixa, que vê partir mais um dos seus obreiros, um enorme carinho de solidariedade e os sentidos pêsames.



LEIA O CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS...



Leia aqui o CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS desta semana.

Na página "OLHARES... POR COIMBRA E PELO PAÍS", na rubrica "NÓS POR CÁ..."  leia  o texto "UMA MULHER PRECIOSA" e na rubrica "OLHAR PARA SUL..."  "CARTA AO CHEFE DE ESTADO"


UMA MULHER PRECIOSA
Recuando no tempo, para a década de 1960, parece-me estar a vê-la, a caminhar na rua principal de Barrô. Passo seguro, ondulante e libidinoso, envolta numa timidez que lhe conferia uma aura de mistério e graça inexplicável. Aquele rosto bem modelado de mulher trintona, de olhos expressivos, e emoldurado, sempre, de cabelo curto bem arranjado em “permanente”. Com corpo de boneca parecia um manequim. Tinha uma sensualidade imanente. Era como se tivesse um espírito de luz que, sobressaindo das suas entranhas, lhe concedia um fino e cortês sublinhado pela natureza.
Era a Preciosa, como todos a tratavam na altura. Nenhum suplemento titular fazia acompanhar o nome principal. Estranho isto acontecer numa aldeia. Nesta época todas as pessoas tinham um apêndice em função do estatuto social que ocupavam no lugarejo. Se era solteira, fosse nova ou idosa, seria sempre “menina”. Se fosse casada, e de importância redobrada no lugar, seria sempre a “senhora”. Cada estado civil funcionava como título de cortesia e respeito, logo seguido do nome principal. Se não tinha grande importância social seria sempre acompanhada de uma alcunha. Era assim que se conhecia a “cascoa”, a “velhaca”, a “tasqueira” e tantas outras pessoas modestas.
 Acontece que esta musa, que aqui vou contar a sua história, era somente tratada pelo nome de Preciosa. Que segredo envolveria esta beleza? Foi graças a esta diva que eu, juntamente com outras crianças pobres do concelho da Mealhada, durante vários anos, tive a possibilidade de usufruir de 15 dias de praia e de, pela primeira vez, ver o mar. Hoje em dia, em que, pela facilidade de acesso e meios de locomoção, as distâncias encurtaram, parece quase impossível uma criança de cinco anos nunca ter ido ver o oceano. Mas, nessa altura, em que a pobreza falava mais alto que qualquer vontade, poucos infantes se poderiam dar a esse luxo. Foi tão importante, para mim, essa viagem até à Figueira da Foz que, passado meio século, ainda guardo na memória cada bocadinho do caminho. Lembro de o percurso ter sido feito em transporte numa camioneta de caixa-aberta. Cerca de uma vintena de miúdos, numa grande algazarra, ao som de “o mar enrola na areia”, trauteado por todos, chegámos então à praia da claridade. Recordo, então, ter chegado àquela casa antiga em Buarcos, perto do Largo Beira-mar. Percorrendo o tempo ao contrário, revejo-me, à hora do lanche, sentado na areia fina, com o mar azul em fundo, numa grande roda, conjuntamente com duas a três dezenas de crianças. No centro, acompanhadas de duas enormes cafeteiras de esmalte cheias de café com leite a fumegar e prontas a despejar nas canecas já na posse de cada um de nós, estão três ou quatro mulheres –uma delas é a Preciosa. Num cesto de verga, ao lado, estão cerca de trinta sandes de queijo de barra e cortadas às fatias de grandes pães de centeio. O leite é em pó e de sabor indescritivelmente bom e adocicado.

QUEM ERA?

 Mas quem era a Preciosa? E qual a razão de os habitantes da povoação a chamarem simplesmente pelo nome próprio, num misto de ostracismo e respeito?
 A Preciosa Pereira Morais nasceu em 1924, em Barrô, entre as cercanias de barro cinzento que viria a dar o nome ao pequeno burgo. Era herdeira de gente muito humilde e muito cedo, pela necessidade, começou a servir nas casas de lavradores mais abastados. Fazia um pouco de tudo. Ora sachava milho, ora arrancava batatas, ou fazia limpeza e cozinhava para os patrões. Como era muito bonita, depressa começou a ser cortejada pelos moços contratados pelos grandes agricultores. Apaixonou-se perdidamente por um que lhe viria a fazer dois filhos. Mas quisera o destino que este rapaz que lhe coubera em sorte não correspondesse e preenchesse os anseios desta rapariga sonhadora. E num tempo em que todas as mulheres que parissem tinham de casar, esta catraia preferiu manter-se solteira e sozinha com dois rebentos a seu cargo. Um escândalo para a época. Mas ela era forte e nunca se importou com o “diz-que-disse” e o “cortar na casaca”.
 Com o tempo, devido ao esforço dobrado da terra, impróprio para o corpo feminino, começou a sofrer da coluna e a ter muitas dores nos ossos. Um dia, já quase com quarenta anos, em que se sentiu pior, foi ao hospital da Mealhada a uma consulta. Foi atendida pelo doutor Artur Navega, então por esta altura de 1960, Subdelegado de Saúde do distrito de Aveiro. Este médico gozava de uma grande reputação no concelho por ser muito generoso para com os pobres.
 Quando Preciosa o viu pela primeira vez no hospital foi amor à primeira vista. Mas havia um grande problema: o clínico era casado. Mas amor não escolhe estados, é um sentimento indomável que a racionalidade não explica. Estava dado o primeiro passo para a grande paixão da vida desta habitante da aldeia entre a Mealhada e o Luso. Ali começou uma relação que só a terra há de comer e o tempo fará esquecer.
 Como a Preciosa precisava de praia para curar as suas dores mas não tinha possibilidades financeiras, naquele velho hospital, e nas sucessivas consultas, nasceu a ideia de, a expensas do seguidor de Esculápio, ela ir para banhos juntamente com as crianças pobres do concelho.
 A partir dali, na aldeia e nas terras em seu redor, Preciosa passou a ser a ponte entre a pobreza e o poder decisório, marcado pelo velho médico apelidado de “pai dos pobres”. As necessidades multiplicavam-se para quem nada tinha. Umas vezes, era o adolescente que precisava de ir trabalhar para a hotelaria mas não tinha o “Cartão de Sanidade”, essencial para exercer na labuta. Outras vezes, era a criança que precisava de cuidados médicos mas os progenitores não tinham dinheiro. A todas essas aflições esta mulher dava conta ao clínico que, para além de satisfazer os seus anseios, consultava gratuitamente e ainda oferecia os medicamentos.
 A casa de Preciosa, em Barrô, naquela época, era o porto de abrigo dos necessitados. Um dia, uma mulher do lugar foi bater-lhe à porta muito preocupada. A filha, pouco mais que adolescente, andava a engordar muito. Para além disso, tinha dado em vomitar. Será que a Preciosa não poderia falar com o senhor doutor, lá na Mealhada, para ver se este lhe receitaria alguma coisa para o enjoo? Claro que a mulher de boa vontade, mesmo sem ser médica, diagnosticou imediatamente a doença, mas não disse nada para não criar preocupações. E lá foram as três mulheres para o hospital. Quando a velha mãe foi posta perante a evidência de uma gravidez, ia-lhe dando o “fanico” mas emendou logo: “Ó senhor Doutor, eu juro que a minha filha nunca teve nada com ninguém! Isto só pode ser desígnio divino. Acredite senhor Doutor!”. Respondeu o velho e experiente médico, “não há problema, senhora, eu acredito, é um milagre da vida. Case a sua filha com urgência e tudo se resolve!”.
 O Doutor Artur Navega nunca dizia não a ninguém. Era uma pessoa boa e com uma sensibilidade à flor da pele. O segundo amor do clínico ia com ele para todo o lado, ao Porto, a Lisboa. Como ele gostava muito de pescar, levava-a sempre com ele para a Figueira. Gostava de a ensinar a lançar o fio no mar. Preciosa sempre o tratou por “senhor Doutor”. Ele pedira-lhe, numa bela altura, que jamais o tratasse por tu.
Um dia, estava na aldeia, em Barrô, e teve uma visita surpresa. Era alguém mandado pela Dona Aurora, esposa do velho médico, com uma mensagem: o senhor doutor Artur Navega estava a morrer no hospital. Quereria ela ir despedir-se dele nos últimos momentos de vida? Preciosa não foi. Mas naquele gesto sublime de carácter, de uma esposa atraiçoada, entendeu a imensa generosidade daquele ato impossível de descrever. Foi uma grande lição que recebeu com sofrimento. Nunca mais se esqueceu. Mas a consciência não a acusa de nada. Coração apaixonado não escolhe o seu amor.
A Preciosa Pereira Morais, de 92 anos, foi sepultada a semana passada no Cemitério de Luso. Deixo este texto elogioso em memória de uma mulher simples que tanto bem fez a muitos e, sobretudo, marcou a minha infância. Uma grande salva de palmas!


CARTA AO CHEFE DE ESTADO

Meu caro presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, estendo votos para que Vossa Excelência, ao receber estas minhas palavras, se encontre bem na companhia de todos os seus. Pelo respeito institucional que me merece, e porque não nos conhecemos, começo por me apresentar: Luís Fernandes, comerciante, 58 anos de idade, a trabalhar desde os 10, nascido e criado em Portugal e, por isso mesmo, cidadão de pleno direito.
Escrevo-lhe esta carta para que me informe das razões que o levaram a condecorar a semana passada 15 ex-autarcas com o grau de comendador da ordem de mérito. Antes de prosseguir vou lembrar o espírito que subjaz esta distinção: “A Ordem de Mérito é uma ordem honorífica Portuguesa que visa distinguir atos ou serviços meritórios que relevem desinteresse ou abnegação em favor da coletividade, no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas.”
Estou em crer que não me vai levar a mal por lhe colocar várias questões: a primeira, depois de ler em cima os princípios que devem nortear a atribuição, nomeadamente “que relevem desinteresse ou abnegação em favor da coletividade”, pergunto-lhe: algum destes ex-autarcas, que exerceram até três mandatos à frente das suas câmaras, reuniu esse transcendente sentido do dever? Isto é, para além da sua obrigação enquanto eleitos que se candidataram ao lugar público realizaram factos de notoriedade que os tornaram merecedores de serem diferenciados dos restantes 293 –muitos destes ainda com um currículo curto? Será que distinguindo esta minoria, de dezena e meia, não está a discriminar a maioria? Porquê estes e não outros? A segunda, como afirmou Vossa Excelência na cerimónia, se com esta ação de relevo pretendia homenagear o poder autárquico e dar conhecimento público, por que não atribuiu esta ou outra condecoração à Associação Nacional de Municípios Portugueses? Tenho a certeza que a circunstância da presidência deste organismo estar sob orientação Socialista não contribuiu para essa não decisão, não é verdade?
Perante tantas dúvidas levantadas, pode interrogar: afinal o que pretendo? Vou então explicar melhor. Como ressalva, no universo de ex-presidentes camarários contemplados apenas conheço um: Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, eleito em 2001 e nos dois mandatos subsequentes. Veio a renunciar a favor do seu vice em Dezembro de 2010. Dentro da minha subjetividade e do meu direito a opinar, Carlos Encarnação, enquanto edil, não fez absolutamente nada para merecer o privilégio consignado. Estou à vontade para o afirmar, votei no seu projeto no primeiro mandato e acompanhei todo o seu percurso político. Por mim escrevo, foi uma completa desilusão. Foi mais do mesmo, senão pior que o antecedente –que agora, para meu castigo, tenho de gramar outra vez, mas isso não é chamado para aqui. Salvo melhor opinião, ao atribuir-lhe o grau de Comendador da Ordem de Mérito, com esta ligeireza, está a concorrer para a vulgarização de um efeito oficial que deveria constituir a exceção. Já que os honorificados não têm a superior ordem moral de recusar, porque teima Vossa Excelência em usar as comendas a esmo e sem critério?





BOM DIA, PESSOAL....

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A ÚLTIMA TREMOCEIRA PROCURA UM NOVO BANCO




À hora do almoço, a dona Adelaide, a última tremoceira como lhe chamei, tendo por fundo os manifestantes a exigirem o seu dinheiro anteriormente depositado no BES –que Deus tem em má guarda pelo Novo Banco- sentada num assento de pedra, pelos traços do rosto e ainda que silenciosamente, manifestava algum descontentamento com o seu velho banco. “Fosca-se! No próximo dia 12 de Março comemoro 91 anos. Apesar do meu falecido marido ter sido sacristão, nunca tive informações privilegiadas divinas e, apesar de ter trabalhado toda a vida, continuo pobre. Coloquei todas as minhas acções neste merdoso tamborete de pedra e nunca cresceram. Investi aqui todo o meu dinheirinho e estou cada vez mais lisa! Seria contágio? Porra! Já há muito tempo que deveria ter mudado de banco! Agora, se calhar, já não vale a pena! Se ao menos me fizessem uma festa de aniversário no próximo dia 12, ainda vá que não vá! Caso contrário, sou obrigada a mandar umas “caralhadas” que abana tudo! Homessa! Isto irrita! Carago!”

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...





JPG deixou um novo comentário na sua mensagem "FURTARAM O "ORGON" AO CORTÊS":


Não sou conhecedor detentor da forma como o Luís Cortês "estima" o seu "ganha pão", mas acredito que o possa fazer de forma mais cuidada.

No entanto, não nos podemos esquecer que além de invisual, não tem um braço, pelo que tudo se torna mais difícil para ele e mais execrável para quem ostensivamente lhe roubou o órgão.

Escrevi "roubou" e não "furtou", pois considero que subtrair um bem (que lhe foi oferecido) utilizado para, de forma honrada, conseguir mais um dinheirinho para ajudar nas despesas domésticas, a uma pessoa invisual e deficiente motor, é uma violência por si mesmo!

Caro Luís, irei tentar junto de uns "contactos" da noite da Baixa, saber quem fez tal desumanidade.

Abraço!

"QUEREMOS O NOSSO DINHEIRO"





“Ladrões! Gatunos! Queremos o nosso dinheiro!”, os gritos amplificados por um megafone, de cerca de uma vintena de clientes alegadamente prejudicados, ecoavam hoje, por volta das 11h30, nas instalações do antigo BES e agora Novo Banco, na rua Visconde da Luz, em Coimbra. Dentro do hall de entrada alguns manifestantes ostentavam cartazes e slogans de indignação. Cá fora, muitos jornalistas e, à vista desarmada, muitos agentes da PSP pareciam de prevenção e a contarem com o pior.
Olhando rapidamente sobre o cenário que se passava em frente aos nossos olhos, dá para ver que alguma coisa não bate certo. Dá para entender que as falências do BPP e do BPN não serviram para nada. Dá para perceber que não foram assegurados os direitos legítimos dos pequenos depositantes e, como o mexilhão ao bater na pedra, foram lixados. Pelo que se leu na imprensa, os grandes aforradores, avisados e com informações privilegiadas, puderam, nas vésperas, levantarem milhões. É uma vergonha para o país a forma como são tratadas estas pessoas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O "INGINHEIRO" VENDEDOR DE CASTANHAS






Tem um ar magrote, esquálido, como quem se alimenta mal. A calça rota nas duas pernas e junto aos joelhos apresenta um ar cansado como objecto que já correu muito nesta vida. As suas mãos, com dedos compridos, são calejadas, mais que certo robustecidas pelas arestas de muitos tijolos que lhe tocaram em beijos de ganha-pão, parecem de operário pendurado num ilusório cabido e à espera de uma oportunidade. Senhoras e senhores, apresento-vos o “inginheiro” Paulo Dias. Aviso já que não tem canudo passado por qual faculdade, mas tem uma formação obrigatória para vender castanhas na Praça 8 de Maio. Façam o favor de não rir porque o caso é sério e o “inginheiro” pode sentir-se incomodado. Vou ligar o gravador e transcrever a história do “inginheiro” Paulo:
“Até há quatro anos trabalhei na construção civil. O trabalho começou a rarear e passei a fazer parte do universo de desempregados. Recebi subsídio de desemprego até há dois anos. A seguir foi-me atribuído o rendimento mínimo. Como não chegava para pagar a renda de casa, que é de 200,00 euros, tive de fazer pequenos biscates para ver se me aguentava com a minha companheira, a Sónia Margarida –que você conhece bem desde criança. Em Maio do ano passado foi-me cortado o RSI, Rendimento Social de Inserção, e a renda de casa começou a não acompanhar as minhas necessidades. Fui às Finanças colectar-me para vender bolas de Berlim na praia da Figueira da Foz. Fiz o mesmo para a minha Sónia, para poder vender bolos de Ançã junto à Loja do Cidadão. Mas a renda da casa, por falta de pagamento, teimava em crescer e a ameaçar o nosso bem-estar. Pedi uns dinheirinhos e comprei um carrinho de assar castanhas por 400,00 euros. Fui novamente às Finanças fazer um acrescento na colecta, agora como vendedor de castanhas. A seguir, fui à Câmara Municipal para tratar da licença. Era preciso um termo de responsabilidade e uma formação. Paguei 50,00 euros para o processo dar entrada. Fui então tratar da formação profissional para ser “inginheiro” e poder vender castanhas na Praça 8 de Maio. Encaminhei-me para a Palheira, uma localidade nos arrabaldes da cidade, para um técnico da especialidade. A troco de mais 25,00 euros para a formação e mais 50,00 euros pelo termo de responsabilidade, e após umas escassas horas, passei a licenciado. Por ser obrigatório, adquiri um extintor por 31,00 euros, que tenho de manter no carro. Fui à autarquia e paguei mais 30,00 euros por ocupação de espaço público até Abril e mais 6,50 euros por mês.
Ser “inginheiro” custa muito! Nunca tinha imaginado quanto! Sabe o que lamento? É a falta de sensibilidade de tantas pessoas –incluindo pessoal da fiscalização que, volta e meia, vão ter com a minha Sónia, junto à Loja do Cidadão, e a fazem arrumar tudo por falta de licença de ocupação. Ninguém pensa no esforço que faço para aguentar e estar aqui. Ninguém se preocupa se ganho o suficiente para pagar as licenças. É um absurdo! Não consigo arranjar dinheiro para tanta obrigação. Parece que querem obrigar-me a ir roubar. Repare, estou a pagar o quilo de castanhas a 4,00 euros. Num saco de vinte quilos, muitas delas vêm podres, vão à vida cerca de 15,00 euros. Diga-me? O que resta? Quase não dá para comer uma sopa! Acho que a edilidade deveria ter outro tratamento para os vendedores como eu, que sou pobre e mal tenho sítio para cair morto. É só mesmo para nos comer dinheiro! É muito triste, sabe?”




FURTARAM O "ORGON" AO CORTÊS




Hoje, quarta-feira, durante a tarde, alegadamente, um indivíduo pegou no órgão do Cortês, o músico de rua que costuma estar em frente à Igreja de Santa Cruz, colocou-o debaixo do braço e abalou em direcção à Praça do Comércio. De salientar que este instrumento musical foi oferecido há cerca de uma semana por um benemérito de Miranda do Corvo, de nome Jorge Santos.
Segundo pessoas presentes na Praça 8 de Maio, indignados com a acção do energúmeno que teria surripiado o “orgon” ao Cortês, não deixaram de contar que o instrumentista é muito desleixado e não cuida dos bens à sua guarda. “Muitas vezes deixa o seu ganha-pão abandonado ao sol e à chuva sem levar em conta a importância para a sua sobrevivência. Depois acontece isto!”, referiram.
Foi apresentada participação do furto na PSP. Se o leitor tiver alguma informação que possa ajudar, por favor, informe a polícia.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

NESTE CARNAVAL, OS CARETAS DO COSTUME




Hoje, terça-feira, dia solarengo, e Dia de Carnaval, em que o Governo não tornou feriado nem deu tolerância de ponto à função pública mas que muitas autarquias –incluindo a de Coimbra- deram, só cerca de dez por cento das lojas de comércio tradicional, na Baixa, estiveram abertas.
Com esta introdução já posso escrever sobre onde quero chegar:
Primeiro, fará algum sentido o executivo ministerial não dar tolerância de ponto quando, a seguir, pelas competências de independência do poder local, é ultrapassado e desvalorizado por muitas câmaras municipais? Será que este Governo é masoquista? Gosta de ser chicoteado? Ou será autista (sem ofensa para os familiares dos próprios) e prefere caminhar predestinadamente sem olhar ao que se passa em redor?
Segundo, estando toda a função pública a trabalhar, como a Loja do Cidadão por exemplo, e não tendo Coimbra tradição carnavalesca, em que fundamento assentou a decisão de encerrar os serviços camarários? Até se entendia, se tivesse grandes festividades em curso, como é o caso de outras cidades como Mealhada, Torres Vedras e outras. Ora, como escrevi atrás, a cidade dos estudantes não tem. Como entender esta decisão num tempo de crise, em que se deveria apelar ao trabalho dando o exemplo e mostrar entrega pessoal e colectiva para sairmos deste estado letárgico que nos tem mandado para o charco? Nesta decisão do presidente da Câmara Municipal de Coimbra, só se podem extrair estas razões: política partidária no pior, utilizada como afronta e arma de arremesso ao Governo, falta de bom senso na governação local e necessidade de agradar a todo o custo ao pessoal da autarquia.
Terceiro, estando o comércio de rua no estado miserável em que se adivinha –porque está mesmo! Sei que está! Não é invenção minha! Se bem que, às vezes, comece a pensar que é! Que só eu mesmo tenho dificuldades!- como entender que só uma ínfima parte deste universo comercial estivesse aberto? Argumentar que a urbe fica vazia neste dia e não haverá negócio só em parte pode aceitar-se. Todos os dias são imprevisíveis, por isso mesmo o Dia de Carnaval não é diferente dos demais. Acho que os comerciantes ainda não entenderam que devem ser menos egoístas e darem um pouco de si à cidade. Abrir o estabelecimento não pode assentar apenas no deve e haver –bem sei que é o essencial, o húmus, mas para além desta essência tem de restar alguma prestabilidade em nome da sociabilidade e do respeito colectivo. Fazemos parte de um todo. Não estamos isolados. Somos fios que se entrelaçam e formam uma teia. Nem que fosse para mostrar às entidades públicas que, mesmo coxos e debilitados, estamos cá para o que temos e vier. Perante este comportamento maioritário, como é que se argumenta contra o pensamento geral de que o comércio está muito bem e a ganhar muito dinheiro? Não tenho dúvida de que estamos em face de uma adversidade muito maior do que a crise financeira: o desalento endémico, o baixar os braços, o enfiar o chapéu de vencidos da vida.
Não seria melhor, o Governo, as autarquias, os comerciantes, todos desafivelarem a máscara e mostrarem a cara tal como ela é? Sem jogos faciais, sem contorcionismos, sem falsidade? É que assim, se continuamos a fingir com a mesma careta, o Dia de Carnaval não faz qualquer sentido.

BOM DIA, PESSOAL...

AURÉLIO "CAMISEIRO" DEIXOU-NOS





O último Sábado foi para mim um dia muito atarefado. De tal modo que nem consegui ler os jornais diários da cidade e, por isso mesmo, não soube da morte de Aurélio Augusto dos Santos, com 85 anos, mais conhecido como Aurélio “Camiseiro”. Só hoje, ao consultar os anúncios necrológicos espalhados por esta zona velha, me apercebi. O Aurélio foi um importante comerciante na Baixa da cidade até sensivelmente 1990. A sua loja foi no Largo do Poço, junto ao também desaparecido Salão Brazil, e hoje ocupada pela Ourivesaria Silva. Embora não tivesse grande confiança com ele –do meu ponto de vista, era uma pessoa austera e altiva, mas muito respeitada pelas suas posições de esquerda –segundo o Diário as Beiras de hoje, era militante do PCP. Lembro-me que a seguir ao 25 de Abril os comerciantes da Baixa estavam divididos em dois blocos: direita e esquerda. A direita era maioritária por aqui. Nos partidos políticos, a direita era representada pelo CDS-PP e PPD/PSD, com os seus líderes Freitas do Amaral e Sá Carneiro. A esquerda era irmanada pelo PS, com Mário Soares à frente, e o PCP, com Álvaro Cunhal. Mas, verdadeiramente, o medo dos comerciantes identificados com a direita estava projectado nos comunistas. Repare-se que estava em curso o PREC, Processo Revolucionário em Curso, em que as ocupações selvagens e as comissões de trabalhadores, de fábricas, negócios, quintas e habitações, estavam ao rubro. Nesta altura, de 1974/75/76, Cunhal era o demónio vermelho que tirava o sono a muitos comerciantes desta zona. E o Aurélio “Camiseiro” era apontado como uma sua extensão e olhado de revés pela maioria dos colegas de profissão.
Tinha eu então cerca de 18 anos, recordo-me de o meu patrão, já falecido e na altura um grande comerciante, com cerca de 15 funcionários em 1974 - e com 38 em 1982- fazer grandes discursos ao pessoal: “dos comunistas só vem miséria! Eles distribuem o que os capitalistas aferrolham. Votem em Sá Carneiro! Este será o garante dos vossos empregos!”. De tal modo ele dizia mal dos comunistas que acabou por me despertar a curiosidade e, durante alguns anos, comprar o Diário, o jornal do Partido Comunista, para tentar perceber o que era esta ideologia –claro que nunca levei o matutino para a loja. Por esta altura aconteceu uma coisa do arco-da-velha. Desde que me conheço, sempre gostei de ler um pouco ao deitar-me e antes de adormecer. Então uma bela noite destes anos revolucionários comecei a ler o livro “A 25ª Hora”, de Virgil Gheorghiu –que conta a história de um agricultor romeno que se vê requisitado para trabalhos forçados como se fosse judeu –que não era. Foi tal o entusiasmo na leitura que só parei na última página e pouco antes da hora de me levantar como normalmente. Uma das frases que nunca tinha ouvido falar e que li no enredo foi “carne para canhão” –que significa aqueles que vão tombar em primeiro lugar na frente inimiga, a infantaria, os que vão dar o corpo às balas. Então, sem dormir, fui trabalhar como era costume. Estava combinado que na semana seguinte eu iria para férias e já tinha tudo planeado com a minha então namorada -e a seguir esposa. Nesse dia foi-me comunicado pelo encarregado que, afinal e por uma razão que não lembro, já não poderia ir de férias. Mandei-me aos arames e disse ao gerente que não aceitava esta decisão. Ele descartou-se com o patrão. As ordens tinham sido dele. Quando chegou o dono da loja, cara-a-cara, disse-lhe que não estava certo o que estava a decidir em cima do joelho. Eu já tinha programa marcado. Ele insistia que quem mandava no seu estabelecimento era ele. Eu argumentava que mesmo sendo seu empregado também tinha vida própria. Ele estava inflexível e não se demarcava. Às tantas atirei: o senhor pensa que nós somos “carne para canhão”? É? O que eu fui dizer! Então aconteceu uma coisa incrível, o comerciante ficou possesso. À minha frente tinha um homem a bailar freneticamente a dança dos pezinhos e a praguejar num lancinante e pungente murmúrio: “Meu Deus! Eu tenho um comunista na minha casa! Tenho aqui um comunista! Como é que pode ser?”
O que sei, tanto quanto me lembro, é que fui para férias conforme o anteriormente combinado e, mesmo depois disto, o dono de oito lojas na Baixa –hoje algumas encerradas- sempre me respeitou. Quando saí, por minha iniciativa, em 1982, tentou tudo, desde aumentar o ordenado até oferecer-me sociedade numa futura loja. Não aceitei por uma questão de honra. Estavam em causa princípios que não abdicava por dinheiro nenhum. Para não me tornar aborrecido não vou contar aqui.
Bem sei que me desviei do assunto que me levou a escrever. Ou seja, o desaparecimento de um ilustre comerciante da nossa praça: Aurélio dos Santos, popularmente conhecido por Aurélio “Camiseiro”. À sua família enlutada, em nome da Baixa, se posso escrever assim –embora o executivo municipal ontem aprovasse um voto de louvor, a título póstumo-, os nossos sentidos pêsames.





TEXTOS RELACIONADOS


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ABRIU O CAFÉ DA LOJA



Até 31 de Janeiro, e durante cerca de um ano, aquele encantador recanto do Edifício Azul, no Largo das Olarias, deu pelo nome de Pastelaria Chiado. Agora, e desde hoje segunda-feira, passou a chamar-se Café da Loja. É um projecto idealizado pelo casal Pedro Almeida e Filomena Cotelo. Aquando da abertura deste espaço, por conta do anterior concessionário, Pedro foi durante alguns meses funcionário. Partiu para outras vidas mas esta casa ficou-lhe sempre atravessada no coração e, mesmo à distância, nunca lhe perdeu o rasto. Então surgiu a oportunidade e, com o apoio de Filomena, não hesitou em criar quatro postos de trabalho e apostar no centro do centro da Baixa da cidade.
Depois de obras de remodelação, com muito mais luz e cor, a área ficou mais ampla e muito agradável à vista. O serviço é de grande qualidade, garanto. Presenciei e almocei –afinal, tenho de escrutinar, é ou não é?- tão bem que até me parece impossível pagar tão pouco. Só para se perceber, tive uma entrada, couvert, à leão, entrei numa boa sopa de legumes, comi um bitoque de fazer estalar o palato, atestei com um doce da casa e rematei com um bom café, paguei por tudo somente 7,00 euros. Amanhã vou outra vez, até porque a sua esplanada é de sonho, com o Sol a beijar quem se acomoda ali e a fazer esquecer as mágoas.
O Café da Loja vai estar aberto diariamente, de segunda a domingo, das sete da matina até às 24h00. Vamos encontrar-nos lá amanhã?



O PUTO ESTEVE ONTEM NO GOT TALENT




O Fernandito Meireles, o nosso puto, esteve ontem no Got Talent, programa da RTP 1, e encantou todos e até o júri. Parabéns ao papá Meireles, que, adivinho, não para de se babar, e ao miúdo que não deixa de surpreender. Uma grande salva de palmas para os dois!

BOM DIA, PESSOAL...

FALECEU OSVALDO FERNANDES



Neste fim-de-semana, Osvaldo Augusto Fernandes, de 83 anos, partiu do nosso meio. O seu funeral, com missa de corpo presente, será hoje pelas 15h00. Em seguida, o féretro sairá do Centro Funerário Nossa Senhora de Lurdes para o Complexo Funerário da Figueira da Foz. Pessoa muito conhecida na Baixa, nasceu no Beco das Canivetas, morou na Rua das Rãs e, durante muitos anos, até final da década de 1980, foi fabricante de malas com oficina na Rua Corpo de Deus onde veio a residir até há cerca de sete anos quando se transferiu para o Lar Graça de São Filipe, em Bencanta, São Martinho do Bispo. Sei que foi muito bem cuidado nesta casa e, até ao último minuto de vida, muito bem acompanhado pela sua filha Isabel Fernandes a quem, naturalmente, deixa um oceano de saudade.
O Senhor Osvaldo era irmão de João Fernandes, ex-delegado da Fundação Inatel, a quem, do meu cantinho, endereço um grande abraço de solidariedade nesta hora de angústia e sofrimento.
À Isabel Fernandes, aos filhos desta e netos do desaparecido, ao meu amigo João Fernandes, em nome da Baixa, que vê partir mais um dos seus obreiros, um enorme carinho de solidariedade e os sentidos pêsames.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

LEIA O DESPERTAR...

LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "REFLEXÃO: COMO É QUE SE FALA COM ESTA GENTE?", deixo também as crónicas "A FEIRA SEM REGRAS";  e "ADEUS, ~"CANTINHO DA ANITA"".



REFLEXÃO: COMO É QUE SE FALA COM ESTA GENTE?

O encontro foi recentemente mas, confesso, a irritação ainda não me passou. Fiquei tão incomodado que, desconfio, não voltarei a falar com esta gente. Antes de me alongar, como ressalva, devo clarificar que o defeito é meu. Não é deles. Sou um tipo esquisito. Tenho a mania que sou incorruptível, que sou diferente, para melhor, de certa tralha que para aí anda. Claro que é pura arrogância, a raiar a estupidez e autoconvencimento, mas adiante. Não posso com pessoas embusteiras, com malabaristas que querem estar bem com Deus e com o diabo. Provocam-me uma comichão maior que uma dose massiva de urticária. Sempre fui assim, mas com a idade fiquei muito pior. E o problema é que não me consigo conter e digo na cara dos intrujões o que penso deles. Se é certo que fico aliviado –em boa verdade este prazer que sinto não tem preço-, por outro lado, constato, os sujeitos, perante a minha frontalidade, olham para mim como se olha para um louco, ou talvez como um animal que se pode tornar perigoso a qualquer momento. E, no mínimo, evitam-me como se esquiva de um aranhão.
Às vezes pergunto-me porque sou assim. Por que não sou polido, cheio de boas maneiras, controlado perante a hipocrisia latente e presente e dizer o que certa gentinha quer ouvir. Porque tenho de ser assim? Interrogo tantas vezes. Provavelmente, a razão é que, ao longo da vida, fui muitas vezes enganado por gentalha como esta que fez de mim “gato-sapato”. Vou só contar uma história para exemplificar. Comecei a trabalhar na Baixa, em 1973, no comércio, com 16 anos. Passando a imodéstia, para além de ser muito aplicado, era um miúdo cheio de ideias de vencer a pobreza e muito esforçado. Sabia que só através do trabalho conseguiria dar o salto. Durante os dias úteis atendia clientes ao balcão, à noite ia estudar e ao fim-de-semana ia para um café servir à mesa. Penso que o meu afinco deveria ser percetível. De tal modo que havia na Rua Eduardo Coelho um comerciante, com uma ourivesaria, o Rider, que quando me via fazia-me um festim de elogios, assim no género: “hás de ir muito longe, rapaz! És muito trabalhador. Tens muito jeito para o negócio!”. Talvez por tantas vezes esta mensagem ser repetida, ou porque se alongasse ainda mais nos louvores, acabei a acreditar que um dia poderia contar com a sua ajuda para me estabelecer por conta-própria.
Quando saí do Serviço Militar, em 1978, com 22 anos, já casado, lembro-me de me deitar, à noite, e acordar, de manhã, com o mesmo desejo: ter a minha própria loja. A procura estava no auge e não havia mercadorias para vender. O dinheiro circulava a rodos. Por essa altura surgiu o que eu considerava um bom negócio, mas havia um problema: não tinha dinheiro. Então, quando o desejo extravasa a razão deixamos de considerar as dificuldades e achamos que não há fronteiras até ao impossível. E fui falar com o meu alegado amigo Rider a sua casa. Nesta tentativa de investimento estava em causa dois mil contos –dez mil euros, hoje-, uma pequena fortuna para a época. Cheio de entusiasmo, expus o meu plano e completei com a frase: será que o senhor Rider pode ser meu avalista neste negócio? Em face desta interrogativa qualquer homem considerado normal teria dito ali mesmo que não. Mas este ourives era muito inteligente e de “normal” tinha pouco. Era um tipo muito esperto. Em vez de desmotivar, pelo contrário, incentivou e disse que era um bom investimento. Para complementar a farsa garantiu-me o aval de um empréstimo nesse valor e remeteu-me para o BESCL, Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, na Rua Visconde da Luz. Colocou-me um cartão seu na mão e enviou-me para o gerente do banco. Nessa noite não dormi. Já me via na minha loja e a vender as minhas malhas e camisas. Eram favas contadas. O negócio estava no papo, pensava dando voltas na cama. No dia seguinte, logo ao raiar do dia, estava ao balcão a pedir para falar com o gestor. Tratei de convencer o homem dos empréstimos. Apesar do meu manancial de argumentos que saiam em catadupa o funcionário bancário estava sempre a dar-me para trás. Ora porque não era boa altura, ora porque viriam tempos melhores, ora que aguardasse mais uns tempos. Andava ali às voltas mas nunca dizia que não financiava. Às tantas, porque já me estava a passar com aquela encenação, perguntei abruptamente: diga-me de uma vez por todas, empresta o dinheiro ou não? Foi então que o homem atirou o xeque-mate: não poderia financiar porque o Rider tinha um grande investimento em mãos e, em face disso, não poderia ser meu avalista. Quando saí a porta percebi tudo. O espertalhão do ourives, sem se desmanchar, mandou-me para o banco mas, quase certo e antes disso, ligou ao Silvano com a recomendação: “vai aí aparecer um puto sonhador. Despache-o o mas tente convencê-lo de que a culpa não é minha.”
Nunca me esqueci desta história. É por isso mesmo que sou terra-a-terra. Pão, pão, queijo, queijo. Não posso com gente mentirosa, fingida. Refiro alguns políticos da nossa praça.


A FEIRA SEM REGRAS

Está um frio de rachar a alma em fanicos. A temperatura adormece-nos as pontas dos dedos dos pés e enregela-nos a ponta do nariz. No relógio da torre da Universidade os ponteiros preparam-se para se encavalitarem um em cima do outro para dividir o dia e multiplicar a noite. Faltam, portanto, poucos minutos para a meia-noite, da passagem desta sexta para Sábado. Apesar do silêncio da área envolvente ser apenas entrecortado pelo barulho de um ou outro automóvel, o terreiro junto ao Convento de Santa Clara-a-Velha já está com várias bancas montadas e com muitos panos no chão de pedra. A razão de tais fantasmas feitos matéria é o facto deste Sábado ali mesmo se realizar a Feira sem Regras e onde dezenas largas de pessoas, uns vendedores profissionais, outros cidadãos anónimos, vão tentar fazer uns cobres que tornem os dias da próxima semana mais compridos e alegres.
Olho na direção do mosteiro e lá ao fundo vejo uma carrinha estacionada e um homem e uma mulher, pelos movimentos, preparam o seu espaço para o dia que romperá daí a umas seis ou sete horas. É a senhora Luz Alves, empregada de laboratório, e o marido, Telmo Alves, bate-chapas mas cuja profissão e serviço que vai aparecendo já viu melhores dias. Ambos com aparentes idades entre os cinquenta e os sessenta não dão mostras de receio de enfrentar a nevada. Com tanto frio, porque não estão na cama e vêm só de manhã? Interrogo. “Tenho de marcar o meu ponto de venda muito cedo, caso contrário, ao amanhecer terei muita dificuldade em conseguir um bom lugar, responde a senhora Luz. É a segunda vez que venho. Foi uma vizinha que me desafiou. No mês passado, na minha estreia, trouxe uns “cacarecos”, que tinha abandonados lá por casa, e ainda fiz à volta de cinquenta euros. Fez jeito, sabe? Foram inteirinhos para a minha filha e para a minha nora. Tudo o que eu realizar aqui é para as ajudar. Agora é assim! Nós pais estamos mal mas, mesmo assim, temos de auxiliar os nossos filhos! E o que é que não fazemos por eles? Você também os deve ter e deve saber do que falo. Desta vez trago mais coisas, sapatos, roupas e tudo o que tinha para lá esquecido. Gostei muito da minha primeira experiência. Passa-se aqui um bom bocado. Apesar de se vender as coisas muito baratinhas, entre um euro e cinquenta cêntimos, sempre se faz um dinheirinho. Não se paga nada para comercializarmos. Temos de nos esforçar muito para aguentarmos esta crise. As coisas estão muito difíceis, o senhor não acha?”




ADEUS, CANTINHO DA ANITA

No próximo dia 24 de Março o “Cantinho da Anita”, o mais bonito e emblemático estabelecimento de artesanato da Baixa, fará 29 anos de existência. Antes de bater palmas, de parabéns, vale mais ler o que está escrito a seguir: a “Casa Anita” vai encerrar. Para além de, logicamente, já não comemorar as três décadas, no final deste mês de Março fechará as portas para sempre.
Maria Hermínia Matos, a criadora, o mentor, deste ícone turístico e tão representativo da cidade, tal qual um postal ilustrado, embora se pressinta um nó na garganta, é uma mulher conformada com este triste desfecho. “Não me resta outra solução. Há vários meses que, colocando aqui dinheiro da minha reforma, estou a pagar para trabalhar. Naturalmente que não posso manter esta situação. Tenho uma funcionária, a Maria Fernanda, com cerca de 25 anos de casa, e que considero como filha. Ainda lhe ofereci o negócio mas ela não quer –e se quer que lhe diga até fico contente por ela não aceitar. O negócio que se faz atualmente não dá para arriscar. E olhe que não é pela renda. Pago um importância pequena, cerca de 150,00 Euros –aproveito para agradecer ao meu senhorio a sensibilidade que manteve comigo ao longo dos anos e em não me aumentar. É uma imaginação que acaba aqui. Não há hipótese de continuar! É um sonho que se desfaz –e os seus olhos humedecem e a voz sai embargada. Tanto lutei para abrir esta casa! Tudo fiz para a manter. Estive com a loja aberta ao Sábado, à hora de almoço e sempre que necessário mas os clientes não vieram. Abandonaram-nos, pura e simplesmente! Passaram a vir cá apenas para arranjos e para pequenos trabalhos que ninguém mais fazia. As prendas de Natal e de outras épocas do ano passaram a ser feitas nas grandes superfícies. É muito triste! Sinto um grande desconforto. Nem tenho palavras!”
Já escrevi algumas vezes sobre os (viciados) percursos turísticos. Já há muito tempo que os turistas são despejados no Largo da Portagem, percorrem o traçado na Rua Ferreira Borges, até ao Arco de Almedina, e sobem para a Alta. Resultado desta intencional ou falta de estratégia, em que as vias estreitas e até a larga Rua da Sofia praticamente não têm visitantes em trânsito, é o encerramento de vários estabelecimentos comerciais. Alguém se vai importar com isto? A defunta Empresa Municipal de Turismo nunca quis saber.