segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O CREPÚSCULO DA VIDA E OS SONHOS QUE FICAM

Há uma semana fui vê-lo ao IPO, Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil, em Coimbra. Eu sabia que o Saraiva estava muito mal. Há muito tempo que o cancro que minava o seu corpo, encurtando o resto da sua vida, como torpedo imparável, ia avançando sem que nada o conseguisse deter. Como se estivesse a vê-lo agora, estava lúcido sentado numa cadeira de braços. Tinha naturalmente um aspecto muito debilitado. Além de eu saber que estava em fase terminal, notava-se o seu ar esbranquiçado, cadavérico. Apesar disso, nestes casos anómalos, quando visito um doente, é para mim sempre um conflito. Estar calado, marcando apenas presença, falarmos de assuntos vagos, ou falarmos da sua doença? E se falando dela, sabendo nós todo o historial clínico, o que se deve dizer?
Faço sempre a mesma coisa, entro pela porta da mentira condescendente, do tipo de verborreia que ninguém acredita, nem eu, mesmo esforçando-me por parecer convincente, muito menos o doente que me escuta, e foi o que fiz mais uma vez.
“ Então como vai isso Saraiva?!...Estás com bom aspecto. Pareces mais novo, até o cabelo retornou, e mais preto ainda”. -Entrei com ele, tentando ou achando que com isso o animaria.
Ele olhou para mim, com os seus olhos tristes, não proferiu palavra, mas o seu silêncio, embrulhado na mensagem do seu olhar, disse-me mais do que se tivesse falado. Foi como tivesse dito “porque não te calas? Achas que não sei o que me espera? Precisas de mentir descaradamente? Pensas que sou parvo?”.
Passado um tempo, em que pareceu estar absorto, soletrou meigamente, de forma conclusiva, que não admitia réplica: “ goza bem a vida Luís. Goza o teu dia. Goza-o como se fosse o último. As coisas que deveria ter feito e não fiz. As viagens que rejeitei, para poupar dinheiro. Para quê, saberás tu responder?! Foi-me proposto ir a Espanha, fazer uma operação, um novo método, através de uma total transfusão de sangue, davam-me 80% de garantias de sucesso. Custava dez mil euros. Não fui. Até os tinha… pensava que isto passava. Estás a ver, vou eu e o dinheiro fica… “
Hoje, dia 31 de Dezembro, em que todos velamos o ano velho, para logo, antes da meia-noite, cuidarmos do encaminhamento e do seu féretro, o meu amigo Saraiva foi a enterrar, por acasos do destino, umas horas antes do funeral do ano de 2007.
Que lições a tirar de um ano velho que se vai e uma vida que se finda? Muitas. Façamos os possíveis para deixarmos de nos preocuparmos com coisas simplistas de lana caprina. Esta nossa mania de ampliarmos os nossos problemas até à exaustão, esquecendo-nos, tantas vezes, que mesmo ao nosso lado estão problemas gravíssimos sem uma única solução possível. E, como o meu amigo Saraiva, sem um queixume em relação ao futuro, apenas lamentando aquilo que não fizeram em prol de si mesmo.
Às vezes somos tão miudinhos e mesquinhos, não somos? Vale a pena pensar nisto?
Que a morte do meu amigo, na sua frase profética, carpe diem (goza o teu dia), sirva para nos fazer parar um momento, neste movimento louco, e pensar se vale a pena continuar no mesmo estilo de vida que levámos até hoje.

sábado, 29 de dezembro de 2007

ADEUS ANO VELHO

ADEUS ANO VELHO
Vais embora dois mil e sete,
não me deixas recordações,
se te acusar, dizes que não te compete,
mas a verdade é que foste só desilusões;
Há um ano entraste de mansinho,
prometeste ser melhor que o antecedente,
passado um ano, és mesmo mentirosinho,
és como os políticos a aldrabar a gente;
Já nem sei bem porque te aceito,
se por obrigação, se pela esperança,
este sentimento que não me sai do peito,
o teu incumprimento fere-me como uma lança;
Se pudesse mandava-te parar ó tempo,
fazes-me velho, só me trazes desilusões,
sem te ver, vergastas-me como o vento,
fazes de mim um velho perdido de ilusões;
Está bem, pronto, não faças essa cara, então,
não fiques triste, foi apenas um desabafar,
mais uma vez, mais um ano, estou na tua mão,
não me frustres, não acabes com o meu sonhar;
Promete, ao menos, que te vais esforçar,
se não conseguires para mim, darás ouvidos,
escutarás, tomarás em boa conta, vais realizar,
todos os sonhos de todos os meus amigos.

UM ABRAÇO DO TAMANHO DO MUNDO

PARTIDOS SEM ÉTICA

A proprietária do imóvel, Maria José Correia, onde está assente há cerca de três décadas o Partido Social Democrata (PSD), na Rua dos Combatentes, salvo erro, há poucos anos moveu uma acção de despejo ao maior partido de oposição, demanda esta julgada procedente pelo tribunal com base em obras ilegais. Estas alterações arquitectónicas feitas pelo PSD, foram efectuadas sem autorização da senhoria. Creio, à posterior, veio esta a autorizar e a ratificar um novo contrato a termo que caduca agora. Se a minha memória não falha os factos foram assim.
Segundo o que li na imprensa, há pouco tempo, Jaime Soares, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, eleito pelo PSD, ameaçava impugnar a caducidade do contrato de arrendamento.
Pegando no desabafo da proprietária do edifício, “morro sem ter o prazer de entrar nela como sendo minha. Que tristeza possuir um bem que os outros põem e dispõem a seu bel-prazer e não a entregam aos seus legítimos proprietários”. Realmente é uma tristeza, ou melhor um escândalo, quando o inquilino é o maior partido de oposição e com aspirações a ser governo. Quando entidades, representadas por pessoas com responsabilidade social agem assim, realmente dá vontade de perguntar que espécie de governantes serão amanhã. É por estas e por outras que os partidos, incluindo os seus quadros de topo, caíram completamente no descrédito.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O BOMBISTA SUICIDA DA CULTURA COIMBRÃ

Augusto barros (AB), encenador da Companhia de teatro “A Escola da Noite” –Grupo de Teatro de Coimbra, segundo o seu site na Internet, é uma Associação Cultural, sem fins lucrativos, reconhecida como Instituição de Utilidade Pública desde 1998- na última Quarta-Feira, dia 26 de Dezembro, deu uma longa entrevista, de duas páginas, ao Diário de Coimbra (DC).
Para que o leitor perceba melhor, mesmo correndo o risco de me alongar demasiado, tomo a liberdade de reproduzir alguns excertos proferidos por AB. Começa por naturalmente fazer o auto-elogio da companhia de teatro a que pertence, o que até se compreende e nem se leva a mal. Depois, objectivamente, traça um quadro negro do nosso ensino das artes em Portugal, sobretudo, quando diz que “ o grau de iliteracia, até de analfabetismo, e, fundamentalmente, uma coisa que depois condiciona tudo, que é a falta de educação artística desde os mais tenros anos de idade. Isso marca em definitivo a nossa vida futura. Se nós não convivemos com as artes desde pequeninos, continuamos a ser um país pobre”.
À pergunta do jornalista se “percebendo que a cultura não é rentável, no sentido de ter um retorno financeiro, uma companhia de teatro profissional não deveria tentar profissionalizar-se também do ponto de vista comercial? Para não depender totalmente de subsídios.” Responde AB: “Não se pode querer que tudo dê lucro. Eu bem sei que estamos numa sociedade muito louca, que só funciona através do dinheiro, mas que diabo, qualquer empresário percebe que quanto menos pessoas formar pior é a sua empresa. Como é que a ópera ou o teatro pode dar lucro? A não ser que se invista mais, de maneira a que as pessoas sejam mais educadas, vão mais às coisas culturais e o nível de educação geral se eleve com benefícios para a sociedade produtiva. Claro que há fórmulas comerciais que têm muita gente. Já não são arte, nem educação. São diversão e entretenimento. As coisas “pimba”, os Quim Barreiros, os “La Féria “, são clichés que se reproduzem, mas que não ensinam ninguém.”
Continuando a citar o encenador de “A Escola da Noite”, à pergunta do jornalista se não será possível um meio termo, responde aquele: “Esta é uma questão que, infelizmente, em Coimbra, é muito discutida (…) com a contradição entre o que é popular e o que é erudito. (…) Não é verdade que os ranchos sejam para todos. Não é verdade que a “dita” cultura popular –porque a maior parte do trabalho dos ranchos 90%são adulterações- seja para todos. São coisas mal feitas e que dão má imagem da cultura popular.” Não há trabalho de pesquisa bem feito por estes grupos? –pergunta o jornalista. Responde AB: “Eu já dei 10% para isso. Mas não sou eu que o digo. São os especialistas. Até nos congressos de etnografia e folclore passam a vida a dizer que a maior parte dos grupos está a fazer aldrabices. Estão a macaquear tempos antigos. E a fazer ficções sobre tempos antigos que não foram assim. Vejo coisas ridículas, de gente vestida aparentemente à século XIX, com danças que nada têm a ver com aquilo. Não é cultura popular. O vereador da Cultura (da Câmara Municipal de Coimbra -CMC-, Mário Nunes) é um vereador contra a cultura. Julga que defendendo ranchos e bandas consegue votos. É apenas uma questão eleitoral. (…) o vereador da cultura é anticultura. Basta ver-se qual tem sido a viagem do orçamento da Cultura nos últimos quatro ou cinco anos.”
Para salvaguarda de conflitos de interesses, e para que não fique qualquer dúvida, não represento a AFERM, Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego, o Ministério da Cultura, ou o Vereador da Cultura da CMC.
Depois desta ressalva, dentro da minha abominável ignorância, vou tentar responder a Augusto Barros. Faço-o porque, sinceramente, creio que este senhor foi, acima de tudo, arrogante, absolutista e tremendamente injusto para todas as pessoas que citou e, muito mesmo, mas mesmo muito, para os ranchos folclóricos. Eu conheço muito bem o “interior” destes grupos. Aliás, a AFERM deveria ter uma resposta para dar a este senhor Barros. Mas também não me admira, em Coimbra raramente as instituições respondem a qualquer assunto, mesmo que seja insulto. Só a Psicologia Social poderá explicar este reiterado comportamento.
Vamos então analisar, sob o meu vesgo olhar, ponto por ponto, as afirmações deste douto e futuro candidato a vereador da Cultura de Coimbra. Temos homem. Alegremo-nos ralé de ignorantes.
Comecemos por quando responde que não se pode crer que tudo dê lucro. Porque não? É obrigatório que a cultura, baixa ou alta, popular ou erudita, deva viver à custa de subsídios estatais? Não pode ser auto-sustentável, pelo menos parcialmente? É certo que o Estado não dá os melhores exemplos, agindo discricionariamente, discriminando pessoas e grupos. Favorecendo uns e prejudicando outros. Porém, a meu ver, o princípio que deve estar subjacente à feitura de cultura para massas ou minorias mais eruditas deve ser a sustentabilidade financeira própria e não o contrário, ou seja, o viver-se continuamente à custa de subsídios. Não é que considere que o subsídio seja despiciendo, nada disso. É importante, mas deve ser o acessório e não o essencial, como argumenta aqui o encenador de “A Escola da Noite”. Fala de La Féria como cliché? A meu ver, todos os encenadores ao falarem deste senhor deveriam pôr-se em sentido. Contrariamente ao que afirma, tem muito a ensinar aos subsidio-dependentes que grassam no país.
Depois fala dos ranchos (grupos folclóricos) como se conhecesse alguma coisa destes grupos. Pelo que fala, não sabe, nem conhece nada destes agrupamentos culturais. A maioria dos membros concorre por amor à camisola. Não é só o tempo que despendem como também as roupas e as suas deslocações, que é tudo à sua custa. Os últimos subsídios camarários, aos diversos ranchos da região de Coimbra, salvo erro, rondaram em média entre os 1000 e os 9000 euros. Pensa, por acaso, que esta pequena migalha tapa os buracos destes agrupamentos se não for o altruísmo dos seus membros? Para não falar na forma injusta quando refere que a percentagem de 90% são adulterações -era engraçado saber onde foi colher este valor, seria por amostra?- e o”macanquear” de tempos idos e das suas recolhas. Fala de Giacometti e Leite de Vasconcelos. Foram de facto a pedra basilar para que o nosso folclore não se perdesse, mas sem a carolice dos ranchos muita coisa se teria perdido também. Os Ranchos Folclóricos, tal como uma peça de teatro, não têm de ir ao absurdo da cópia fiel. O seu trabalho é a representação da memória ao mais aproximado possível.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

MANUAL DE MOTIVAÇÃO DO EMPREGADOR LUSO

O presidente de uma IPSS, Instituição Particular de Solidariedade Social, com 13 anos de existência na cidade de Coimbra, cuja função tem sido sobretudo virada para projectos de índole Social, nomeadamente em valências para famílias desestruturadas e crianças em risco, com sede nesta cidade, e com privilegiada articulação com o Centro Distrital de Segurança Social de Coimbra, a 21 de Dezembro último, enviou, como mensagem natalícia, aos seus cerca de uma dúzia de funcionários, entre auxiliares de base e técnicos superiores, em forma de prospecto, entregue de mão em mão, o texto que abaixo reproduzo. Saliento que, por acaso e só por acaso, este senhor presidente desta instituição ocupa um lugar de relevo, como político, numa cidade satélite de Coimbra.
Eis então a pérola, que, pela força motivadora, pode, por um lado fazer doutrina; por outro explicar como vão as relações contratuais no pequeno rectângulo à beira-mar plantado. Saliento que o texto que se segue é a transcrição fiel da mensagem entregue no sapatinho para integrar na árvore natalícia dos funcionários a 21 de Dezembro passado:

LOGOTIPO DA INSTITUIÇÃO

MENSAGEM DE NATAL

Está a chegar ao fim, o ano de 2007.
Tal como tinha dito, no almoço de Natal de 2006, ia ser um ano muito difícil, dado que terminavam projectos, os financiamentos eram escassos e a aprovação de novos Acordos na Segurança Social está cada dia mais difícil.
Apelei na altura a um empenhamento de todos os que ficavam na altura, tentando marcar a diferença pela qualidade, rigor e profissionalismo.
Constato ao fim deste ano de 2007 (apesar de sucessivos apelos), que nem todos adoptaram esta mensagem e esta postura: o horário cumpre-se, mas não se é rigoroso ao nível dos processos dos utentes, dos registos dos giros e das actividades, do envolvimento nas acções, na organização dos Dossiers técnico-pedagógicos,…
Cumpre-se, apenas quando alguém chama a atenção dos prazos e os incumpridores, têm sempre uma desculpa na ponta da língua, para o que não fizeram, mas que deveriam ter feito.
Muitos destes, fomentam a intriga e o “diz que diz”, pensando que assim conseguem subir mais rápido na instituição. Desenganem-se! ! Eu estou muito atento. É mais fácil apanhar um mentiroso, do que um coxo.
Felizmente, encontro alguns (não muitos), funcionários da Instituição que justifique o meu voluntariado e o dos membros dos Corpos Gerentes, na Instituição: estes funcionários são disponíveis, empenhados e são rigorosos. Só é pena que sejam poucos.
No inicio do novo ano de trabalho de 2008, alguns de vocês, não estarão na Instituição: uns por opção própria e outros por opção da Instituição (os tais incumpridores).
Para quem fica, dou o seguinte conselho: Não chega apenas apregoar nos corredores que temos muito trabalho, que a Instituição é muito exigente. É preciso (em tempo de grandes restrições) deixar apenas de apregoar e trabalhar efectivamente –cumprindo com rigor os prazos e com qualidade as tarefas que estão distribuídas a cada um.
Já agora um outro conselho: só está na (…) –nome da Instituição-, quem quer. Quem acha que não está bem, tem um rumo: vá-se embora.
Este ano, não vai haver almoço de Natal da Instituição: não é por dificuldades financeiras, é por opção: assim acaba-se com um espaço de intriga! Ainda não me esqueci do que aconteceu no ano passado. Acabado o Almoço de Natal, algumas pessoas, saíram cheias de pressa, para fazer o seu acto preferido: a intriga –foram telefonar para alguns dos que não estiveram presentes a adulterar as minhas palavras.
Para terminar, um último conselho: continuem assim e um dia destes, não tem Instituição para trabalhar.
Votos de bom Natal e de Bom ano Novo de 2008.

Coimbra, 21 de Dezembro de 2007.

O Presidente da Direcção Nacional.

(segue-se a assinatura e, entre parêntesis, o nome)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

MENSAGEM NATALÍCIA A UM AMIGO

Lembro-me de ti amigo(a),
nesta data tão especial,
pesa-me o pouco tempo que falei contigo,
desde o último natal;
Sei que não sou o amigo que desejarias,
que nem sempre soube entender o teu olhar,
que não estava quando tu mais precisarias,
não te emprestei o ombro para a tua cabeça pousar;
Quando choravas não te limpei nenhuma lágrima furtiva,
nem perguntei a razão dessa tristeza, dessa solidão,
estava longe, não senti a tua dor, porque estavas cansativa,
que raio de amigo sou eu então?
Só me lembro de ti, uma vez por ano, em Dezembro,
se isto é amizade, vale mais sermos inimigos declarados,
fazer de conta que não te conheço, de ti nada lembro,
de ti nada espero, nem sorrisos, só abraços sonegados;
Vale alguma coisa a desculpa, a minha retratação?
se amanhã, outro dia, outro ano, farei tudo de modo igual?,
Ou crês que depois destas palavras, em jeito de confissão,
me tornarei melhor, te darei mais atenção e minguarei o meu mal?;
E tu, por acaso, és diferente, cuidas da minha amizade como um jardim?
Como se eu fosse o teu recanto, o teu porto de abrigo, o teu portal?
És um justo jardineiro, gostas de todos os cheiros, não só do jasmim?
Lembras-te de mim, de vez em quando, não uma vez por ano, apenas no Natal?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O PAI NATAL DA PRAÇA 8 DE MAIO

Começo por me apresentar,
espero que não me levem a mal,
estou na Praça, em pedestal, vou contar,
tudo o que daqui vejo; sou o Pai Natal;
Em projecto, fui criado pela ARCA,
pensado pelo Condomínio da Baixa,
prometeu pagar o Góis, diz o Gaspar, em ressaca,
“Eu?” Diz o Góis, “nem pensar”, arreganhando a tacha,
“sei que sou o homem da Caixa, mas dos pobres sem casaca,
não sou a Caixa Geral de Depósitos, que empresta com taxa”;
Sou um Pai Natal gigante, na minha sacola tenho lembranças,
tenho uma para o Encarnação, com laço e dentro duma lata,
embrulhada, em seda, cor de laranja, com afiadas lanças,
é uma carta de demissão deste, para oferecer ao Pina Prata;
Tenho outra prenda para o Mário Nunes, vereador da cultura,
é um disco de folclore, em vinil, com mensagem teatral,
os grupos de teatro da cidade dedicam-lha em rotura,
“Que vá para o Alasca, fique por lá, depois do Natal”;
Tenho outra, embrulhada, para o vereador Gouveia Monteiro,
vem da associação de Moradores do Ingote, são coisas sortidas,
tem o preço marcado, cinco euros, com pregão corriqueiro:
“Comprem, comprem, é barato, tem dois pesos e duas medidas”;
Rebusco no saco, tenho uma para o Castanheira Barros,
é uma chaminé, vem do Partido Social Democrata, vai ficar contente,
tem uma mensagem escrita: continua que em 2050 serás presidente;
Tenho outra para Sócrates, foi eleito, em Coimbra a personalidade do ano,
destronou Luís de Matos, na magia, deu cartas na levitação,
transmutou daqui serviços, ministérios, mandou tudo para o catano,
foi o novo Merlin da Europa, do moderno simplex, da globalização.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

UMA CÂMARA INDISCRETA

Gosto de ler as crónicas de João Silva –ex-vereador da Assembleia Municipal de Coimbra e outrora eleito pelo PS. Normalmente, a meu ver, são acutilantes, embora sem nunca perder de vista o interesse partidário, o que quer dizer que habitualmente têm sempre um cunho interesseiro, levemente demagógico e a puxar sempre para o partido político a que pertence. Talvez por estar afastado das lides partidárias, as suas opiniões costumam ser racionais e lógicas. Embora, confesse, que há dirigentes partidários que, nas suas crónicas nos media, são de tal modo descarados a pugnar pelo indefensável que, das duas uma; ou se julgam iluminados e só eles vêem o que ninguém mais consegue vislumbrar; ou então crêem que quem os lê é tolo e não tem cérebro para pensar. O efeito, para mim, é passar rapidamente por cima destes seus escritos ou opiniões e considerá-los como publicidade barata, dada de bandeja pelos jornais. Um favor prestados a estes políticos, temporariamente arrumados na prateleira, mas que, como se sabe a alternância política, no país, é como uma moeda, só tem verso e reverso, e, assim sendo, os jornais, sobretudo regionais, sabem que vale mais não os esquecer, amanhã, inevitavelmente estarão novamente no poder, mesmo que não passem de uns idiotas chapados, num servilismo bacoco, sempre prontos a dobrar a espinha ao chefe, em detrimento da defesa da região para que foram eleitos.
Voltando a João Silva, desta vez o homem fez exactamente o que os seus correlegionários fazem. Ou seja, bater no opositor partidário, apenas por bater, sem lógica, sem coerência, sem fundamentação retórica admissível no actual contexto da segurança das cidades. Refiro-me à implementação de câmaras de vigilância, nas diversas urbes do país, em que os seus edis solicitaram autorização à Comissão Nacional de Protecção de Dados.
Hoje, dia 20 de Dezembro, no Diário de Coimbra (DC), João Silva desanca em Carlos da Encarnação acerca deste ter intenção de aplicar na Baixa o sistema de vídeovigilância. Argumenta o ex-edil do PS que o presidente camarário, com esta sua demanda, se “associou a uma campanha de insegurança psicológica –que abalou fortemente a actividade comercial da baixa”.
Quem vive e trabalha na Baixa sabe que a insegurança existe, embora saliente-se teve o seu pico máximo no verão. Depois do bom trabalho da PSP, a verdade é que continua a subsistir a pequena marginalidade do “gamanço” subtil, ou seja do furto simples. Então, chamar a isto insegurança psicológica é o mesmo que dizer-se agnóstico e crer em Deus. Argumentar com o desfraldar da bandeira do big brother, como o faz João Silva, também já não pega. Há muito que as pessoas, em face da violência em crescendo, abdicaram de um pouco da sua liberdade em troca de mais segurança. Como diz no DC a segurança nas cidades é um factor essencial, é verdade. Para logo a seguir vir com o anátema do “voyeurismo sem sentido”, segundo as suas palavras. Remato que a sua dialéctica é que não faz sentido. Dê pancada no presidente da Câmara, como costuma fazer, mas com coerência e bem consubstanciado, é o que espero das suas crónicas. A meu ver, hoje, quem for contra medidas de segurança interna corre o risco de se sentir desacreditado. A segurança, sendo um direito fundamental, é cada vez mais letra morta plasmada na Constituição.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

UM CAFÉ

Quando me levanto corro para ti…café,
no carro, anseio em tomar-te, o que não farei por ti,
interrogo-me, eu ateu –serás o meu Deus?- serás a minha fé?
Antes de trabalhar, preciso que entres dentro de mim,
estarei viciado? Quero beijar-te, quero sugar-te…café;
Quando vem a minha amada, ficas no meio dos dois,
não sei se és invasor ou um laço de união,
se me acalmas, se me excitas ou, pelo contrário, pois,
sinto que me controlas, pareço uma marioneta, um peão;
Serás uma droga, um analgésico, um efeito placebo…café?
Depois de te lamber até à última gota, sinto-me um guerreiro,
capaz de realizar os maiores feitos heróicos, chorar até,
ajudar uma velhinha, na passadeira, e ao cego dar um dinheiro;
Depois de um bom repasto chamo por ti…café,
como se fosses o meu regulador, o meu digestivo,
a minha esperança, a bóia de salvação, sempre em pé,
a minha reflexão, o meu espírito sempre competitivo;
Antes de me deitar, com a minha amada, chamo-te…café,
retornas para o meio de nós como se fosses a nossa alma,
acariciamo-nos, gritamos, com a tua envolvência, fazemos banzé,
és um afrodisíaco, um estimulante, e a nossa desejada calma.

O TEATRO EM COIMBRA: UM DRAMA SEM FIM

O Teatrão, companhia de teatro sobejamente conhecida em Coimbra, com provas mais que dadas em prol da cultura, apresenta no Museu dos transportes (MT) o seu último espectáculo cénico “O Círculo de Giz Caucasiano”, com encenação de Marco António Rodrigues. Citando o blogue “Questão Coimbrã”, do meu amigo Paulo Abrantes, “tudo perfeito se não fosse a temperatura ambiente do Museu dos Transportes. Frio. Muito Frio. Melhor gelado. O Teatrão teve de pedir cobertores emprestados ao exército para aquecer os seus espectadores. O aquecimento a gás é insuficiente para tornar o MT um espaço habitável para a criação e representação teatral. Esta companhia continua a fazer o seu trabalho em condições miseráveis e pouco dignas para uma companhia profissional; uma pequena sala de administração e outra de ensaio na grande Oficina Municipal de Teatro (OMT) e mostra as suas peças no MT. O MT foi adaptado para servir apenas a Coimbra-Capital Nacional da Cultura 2003 e disponibilizado ao Teatrão, enquanto a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) não resolve o problema cancerígeno que tem com a “Escola da Noite”-Grupo de Teatro de Coimbra, é uma associação sem fins lucrativos, reconhecida como Instituição de Utilidade Pública desde 1998. Enquanto companhia de teatro tem mantido vivo um projecto de criação artística e de teatro profissional para Coimbra –pode ler-se no seu site da Internet.
Continuando a citar o Blogue “Questão Coimbrã”, “O protocolarmente combinado (entre a Escola da Noite e a CMC) foi: a Escola da Noite passar para o Teatro da Cerca e o Teatrão ocupar o MT para, definitivamente, ter condições para içar a sua programação diversa e variada dentro da área teatral.” – Segundo o JN, de 10 de Outubro de 2007, lembro que “o Teatro da Cerca de S. Bernardo, situado no Pátio da Inquisição, foi projectado em 1999, para assegurar a criação de instalações adequadas à Escola da Noite. (…) O Teatro foi concluído em 2006, mas está novamente em obras, em virtude de terem sido detectadas falhas nas portas de entrada e no ar condicionado, entre outras.”
Continuando a citar o “Questão Coimbrã”, enquanto o diferendo não se resolve a grande prejudicada não é só a Escola da Noite. É, com toda a certeza, o Teatrão também.”
Retomando o meu espaço, e deixando de fazer mais citações, assim como também não entrando em juízos de valor, acerca de quem é a culpa, referirei que é inconcebível o que se está a passar no Museu dos Transportes com a nossa muito estimada companhia de teatro Teatrão, obviamente, não excluindo as outras. Devo lembrar que no princípio deste ano de 2007, no shopping Avenida, na Avenida Sá da Bandeira, encerraram duas boas salas de cinema – o contrato de utilização pertencia a Paulo Branco. Estas salas, presentemente, encontram-se encerradas e, devido ao desaparecimento do cinema, este Centro Comercial está moribundo, em morte clínica anunciada, com muitos lojistas a fazerem contas à sua vida futura. Assim sendo, admite-se que o Teatrão esteja naquelas condições? De quem é a culpa? Será que ninguém viu isto? Trata-se de juntar o útil ao agradável. Não quero entrar em condenações fáceis, mas às vezes passamos o tempo a lamentar-nos. Será do fado? Se é, venha o Quim Barreiros. Porra para isto!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

COMERCIANTES-PROLETÁRIOS UNÍ-VOS!

(IMAGEM DA WEB)


  Foi promovido pela Associação Comercial e Industrial de Coimbra, no dia 11 deste mês de Dezembro, um debate sobre a crise do comércio, na sua sede, com a presença do presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), José António Silva. Depois de uma longa e esclarecida explanação, acerca da situação do país, abarcando os sectores, primário, secundário e terciário, a sua brilhante intervenção incidiu então sobre o comércio e serviços, deixando todos os presentes, pela sinceridade imanada do seu discurso, senão petrificados, pelos menos apreensivos e angustiados quanto ao futuro que os espera. Foi um esclarecimento arrasador, em termos de prospectivas, onde, pela descrição de conversas tidas com o primeiro-ministro e secretário de Estado do Comércio, José António Silva mostrou a nu, em retórica, o autismo do chefe do governo e a lei da selva desejada pelo segundo. Só faltou o apelo para que os pequenos comerciantes mudem de actividade –mas para qual?- e emigrem deste país miserabilista.
Depois da intervenção do presidente da CCP, onde apelava à união de todos, os cerca de oitenta comerciantes que estiveram presentes na ACIC, certamente aperceberam-se, por um lado, do clima de desespero e impossibilidade de mudar o que quer que seja que invadiu a sala daquela associação comercial. Foi como uma nuvem negra de pessimismo que se colasse aos presentes. Poucos não terão sentido um arrepio depois do esclarecido discurso proferido pelo orador. Mais claro, conciso e contundente, as palavras de José António Silva, não poderiam ter sido. Por outro lado, no debate que se seguiu, foi palpável o desânimo instalado. Especulativamente e retroactivamente, poderíamos pensar que estávamos 1786, em França, em pré-ruína financeira, em que o Tratado de Comércio entre este país e Inglaterra, abrindo as portas aos produtos ingleses, levou à falência milhares de pequenos industriais e artesãos e em que a pequena burguesia comercial alimentava, através de impostos asfixiantes, dilacerantes e exacerbados, os luxos da classe dominante, a Nobreza, e esteve na génese da Revolução Francesa e do Iluminismo que se lhe seguiu. Seguindo o mesmo raciocínio, também aqui não faltou a recorrência ao absolutismo do nosso governo, onde o primeiro-ministro, analogicamente, seria Luís XVI, onde, comparativamente à França daquela altura, governava com poderes absolutos, controlando a economia, a justiça, a política, e até mesmo a religião. Na similitude histórica, personificando o "terceiro estado", também não faltou a estratificação e a hierarquia da sociedade: no topo da pirâmide social meia dúzia de grandes grupos económicos, os políticos e os gestores públicos. Na base da pirâmide social, os descamisados, em crescente miséria extrema, os camponeses, os trabalhadores assalariados e a burguesia, simbolizada pelos comerciantes e a classe média em desaparecimento acelerado. Sem esquecer, obviamente, os desempregados a aumentarem desmesuradamente.
Ideologicamente, naquela sala da ACIC, sentiu-se a confusão nos valores e princípios instalada entre os presentes. Como se a formação de ideias até aí defendidas, as bases de uma sociedade burguesa e capitalista, entrassem em colapso, no oposto, no caos da ideologia. Como se houvesse uma transmutação do materialismo racionalista setecentista, deixou de se saber quem eram os Girondinos e os Jacobinos. Ou para outra semelhança dividida partidariamente, entre a esquerda e a direita; foi como se os lojistas, que personificam o factor capital, criadores do empreendedorismo e do emprego, de repente, virassem trabalhadores sindicalizados. Ouviram-se alguns comerciantes, confessando-se de “direita” reivindicarem medidas drásticas contra o “Grande Capital”, desde o apelo à greve, o não pagamento à Segurança Social, e até uma longa marcha até Lisboa. E ainda mais: o encerramento de todo o comércio ao domingo.
Alguém, de entre a assistência, com alguma clarividência, a finalizar o debate lembrou que a “guerra” injustamente desigual nas armas empregues pelos dois contendores, travada entre a pequena loja de bairro e a grande superfície, jamais será ganha sem o apoio dos consumidores. Ora, o encerramento ao domingo, para estes, indo contra os seus interesses, será um atropelo aos seus direitos e o efeito será contraproducente, completamente, o oposto do desejado. Insistir nesta tecla é o mesmo que continuar a aceitar que os consumidores considerem o comércio tradicional como anacrónico, pacóvio e atrasado. Uma espécie de comparação entre o comboio a vapor e o TGV, lembrou o tal comerciante. Até porque o encerramento de todo o comércio ao domingo apenas irá transferir as suas compras para o sábado. Não vai resolver absolutamente nada, enquanto se mantiver esta “moda”, que, infelizmente irá durar muitos anos. O que é preciso é evitar, a todo o custo, novos licenciamentos e aberturas de mais megacomércio, quando a quota de oferta é largamente excedentária, comparativamente aos restantes países europeus, rematou o tal comerciante. Ia caindo o Carmo e a Trindade. Nestas assembleias, onde raramente o pensamento diferenciado da maioria tem lugar, e tudo o que vá contra o unanimismo dos presentes é a favor do situacionismo. Então, nada como uma grande vaia, na linha do radicalismo Jacobino: “Morte ao Rei e a quem o apoiar”.

sábado, 15 de dezembro de 2007

NATAL DE ESPERANÇA

Todos os anos, nesta altura,
vejo as luzes a piscar,
já sei que é Dezembro,
o Natal está a chegar;
São campanhas de jornal,
meninos pobres na televisão,
quero o Natal todo o ano,
só em Dezembro…não;
Façam guerra à pobreza,
que as balas sejam de pão,
que não haja fome, concerteza,
que não haja sede…não;
Será justo ver crianças,
com um rosto sofredor?
tirem os canhões, façam alianças,
apertem as mãos… com amor;
Mas, onde está a verdade,
qual dos dois terá razão?
quem será a vítima –a fraternidade?
quem é o opressor então?
Quando ambos chamam por Deus,
qual o Deus que chamarão?
será um Deus vingador –só meu?
será um Deus de amor …ou não?

CANÇÃO DA BOA-NOVA

O sino tocou na torre,
toda a aldeia acorreu,
todos questionavam,
o que foi que aconteceu?
Vieram pastores de longe,
estava escuro como breu,
muitos viajantes,
viram a estrela no céu;
Era uma luz brilhante,
como um raio de luar,
vinha de tão distante,
porque logo aquele lugar?
Um grito cortou ao meio,
o silêncio de morfeu,
um anjo cantarolava:
o menino já nasceu!;
Como milagre de Deus,
em noite celestial,
todos se abraçaram,
na santa paz do Natal.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A ESPERANÇA NA TERRA DO NUNCA

Ontem o telemóvel tocou. Era o meu amigo Eufrásio. A dez dias do Natal, pensei ir receber mais uma mensagem natalícia, própria desta quadra. Antes dele falar o que quer que fosse, ou ouvir a sua voz, comecei logo por lhe chegar ao seu “calcanhar de Aquiles”, dizendo cobras e lagartos do seu clube de coração, o seu amado Sporting. Sem a resposta a que me habituara, no outro lado, este homem chorava desoladamente. Com frases lancinantes, entrecortadas por soluços desesperados de dor, quase sílaba a sílaba o meu amigo repetia-se, como um velho gramophone com disco riscado: “levaram-me tudo…só deixaram a cama o fogão e pouco mais…”
-Mas levaram-te tudo, o quê? Estás a brincar comigo?!
Ele repetia, incessantemente, -levaram-me tudo, pá!... As máquinas de lavar roupa, de lavar louça… a televisão, a mobília da sala, os sofás…o relógio grande, que tinha na sala…os quadros, o computador…”
Comecei a aperceber-me de que algo de grave se passara e tratei de mudar o meu tom de voz, rapidamente passei do ar de gozo para a compreensão complacente. Intuí imediatamente de que estava perante um gravíssimo drama.
-Ó Eufrásio, desculpa esta minha entrada desabrida, conta-me, o que aconteceu aos teus móveis. Foste assaltado, foi isso?! Infelizmente, é cada vez mais o prato do dia, tentei amenizar a conversa com este discurso condescendente. Calma! Accionas o seguro e, embora não recebas tudo, e muito menos o valor afectivo que tinhas às tuas coisas, mas pelo menos vais poder substituí-los. Não te preocupes vão ressarcir-te. Calma, pá! É Natal, não se acabou o mundo. Vão-se os móveis, salvaste-te tu. Isso é que interessa. O resto pouco importa, são bens substituíveis. Tudo se resolve. Podes contar com a minha ajuda e também com a tua família; sabes que podes contar connosco numa altura destas, rematei em jeito de consolação, embora soubesse que não havia nada que apagasse a sua dor, e muito menos palavras. Esta nossa mania de quando uma pessoa está afogada em lágrimas num rio de mágoas, incompreensivelmente, ainda a encharcamos mais com palavras que, a nosso ver, são de “levantar o moral”, mas, tantas vezes, têm efeito contrário, o melhor que devíamos fazer era estar calados e deixar-nos envolver pelo silêncio. Ao julgarmos estar a fazer um dever de solidariedade, com palavras circunstanciais de estímulo, reparamos que do outro lado, em cima de toda a dor sentida em chaga ferida por seta, a pessoa a quem nos dirigimos é que acaba por nos fazer o favor de nos estar a ouvir. Foi este o caso, até que fui interrompido bruscamente pelo meu amigo Eufrásio.
-Ó pá, podes calar-te e ouvir-me? Ou liguei-te para te ouvir a ti? –Reclama, quase em fúria, como um direito reivindicado legitimamente.
-Foi o Tribunal, pá! Dívidas que eu tinha –e desata mais uma vez aos soluços.
-O Tribunal?! –Lembrei-me então que há muito suspeitava que a vida do Eufrázio não era aquela que ele, a tudo custo, queria aparentar. Mas, bolas, estamos a dez dias do Natal. Será moralmente justo privar-se uma família dos bens que lhe fazem falta? E, neste caso, o Eufrázio tem mulher, dois filhos e dois netos pequenos. Um dos filhos está casado e ficou a viver lá em casa. Moralmente não é justo, mas a lei poucas vezes caminha ao lado da moral. A lei é racional e fria, quanto muito tenta preservar os bons costumes –talvez também se deva a isso a venda nos olhos de Têmis ou deusa romana Iustitia. E o meu amigo Eufrásio falhou o pagamento de uma dívida a um credor que desconheço, mas que foi reconhecida, em título declarativo, pelo tribunal e foi executado. E quanto ao direito legítimo de um credor cobrar uma dívida, isso não se discute. Filosoficamente, poderíamos avocar as razões, em contraditório, que levaram o meu amigo a não poder cumprir a sua obrigação, mas isso não interessa. Ou interessaria muito aqui, se as invocássemos, uma por uma, e que estão na base do seu incumprimento
Especulativamente, de uma forma romântica, se vivêssemos num mundo perfeito, em Dezembro, mês da paz, da concórdia da reunificação da família, vulgarmente apelidado de mês de Natal, paravam as guerras em todo o mundo, as quezílias dentro e fora da família, fora de portas e discussões entre vizinhos. Não se prendia ninguém, as dívidas executivas não eram cobradas neste mês, os ladrões faziam folga, não assaltavam, e os polícias, em vez de caras carrancudas, substituíam-nas por sorrisos abertos. Neste mês, em vez de todos darmos, obrigatoriamente, uma prenda supérflua, daríamos realmente o que as pessoas precisassem mesmo, e, no limite, se pouco pudéssemos dar, oferecíamos um sorriso. Não será o menos custoso? Continuamos a fazer do Natal um festim consumista, parco em humanidade e farto em individualismo narcisista. Quando começamos a pensar em mudar de rumo e proporcionar um pouco de felicidade às pessoas que nos rodeiam? Todos juntos, mesmo com grandes acções, não mudamos o mundo inteiro, mas, paradoxalmente, sozinhos, com um pequeno gesto, podemos mudar o que está à nossa volta, não podemos?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

MEMÓRIAS MELÓMANAS



 Sempre gostei muito de música. Não um melómano normal no verdadeiro sentido do termo. Isto é, desde pequeno, sempre gostei de inventar as minhas próprias melodias.
Como qualquer musicómano, sempre gostei de ouvir ritmos compostos e tocados por outros, e faço delas, muitas vezes, as minhas companheiras diárias. Engraçado e estranho, ao mesmo tempo: nunca consegui decorar uma letra inteira de uma qualquer harmonia. Às vezes pergunto-me porquê. Posso adorá-la, mas não passa disso. Não irei ver o concerto ao vivo do meu cantor preferido, nem jamais lhe dispensarei uma gaveta no memorial do meu cérebro, mesmo até a minha eleita. Mas o êxtase, o meu prazer supremo foi sempre fazer composições minhas. Ao longo dos anos arquivei, em registos magnéticos, em cassetes, talvez centenas de segredos meus, cantados e tocados à viola. Sempre que via algo que me tocasse fundo, compunha. O estranho é que nunca consegui tocar nada meu em público, para além da minha família e dois ou três amigos. Nos últimos tempos, deixei mais os versos e a viola e passei-me mais para a prosa.
Lembro-me, por volta do início da década de 60, teria eu então 8 anos, frequentando a 2ª classe da escola primária, de, na minha casa da aldeia, estar a estudar na varanda e a trautear uma canção. O meu tio Ernesto –um tio daqueles que nunca mais esquecemos na vida, pelo seu ar bom, sempre bem-disposto, permanentemente com um sorriso nos lábios, de bonomia paciente e pachorra coladas na face- me interrogar como era possível eu estar a estudar e a cantar. Não me lembro o que respondi, mas sei que era usual eu fazer isso, e a verdade é que esta dispersão de concentração nunca me afectou.
Quando quase todas as casas portuguesas tinham há décadas um aparelho retransmissor, e na minha aldeia algumas delas, lembro-me da primeira telefonia que foi adquirida lá para casa, por volta de 1962. Foi, para mim, um acontecimento quase único, só igual a outro passado mais tarde, já trabalhava há cinco anos, tinha então eu 15 anos: a compra da minha primeira bicicleta.
Era um pequeno rádio a pilhas, um Philips, de cor azul-esverdeado. Pela escassez financeira, a electricidade ainda não pudera entrar na casa dos meus pais. A luz nocturna era rebuscada em candeeiros alimentados a petróleo. Como hipnotizado por aquele aparelho mágico, dava voltas à cabeça como era possível sair som daquela caixa. Estariam as pessoas dentro dela? Imaginava-me a cantar lá dentro também.
É certo que já havia uma televisão na “venda”, a única taberna e mercearia da aldeia. O televisor estava colocado num cubículo das traseiras do estabelecimento. Estava transformado, à época, numa sala de cinema. Os bancos eram corridos, em várias filas. Como quem diz, eram tábuas, em bruto, pregadas nuns pés em forma de “W”. Pagava então cinquenta centavos de alpaca para ir ver o Henrique Mendes no pequeno ecrã a preto e branco. Mas só excepcionalmente ao Domingo, porque cinco tostões eram muito dinheiro para quem nada tinha.
A “minha” música sempre me acompanhou. O meu sonho era ser cantor. Sonhava com isso noite-e-dia. Vivia do sonho e para o sonho. Imaginava-me um Elvis a cantar num conjunto. Lembro-me de uma história engraçada, acerca disto, em que mostra que era um ideal comum no tempo para miúdos da minha idade: tinha 16 anos e estava a trabalhar como empregado de mesa, durante a época de verão, num café na Figueira da Foz, mais propriamente em Buarcos, no Café Beira-mar, onde, na altura, o autocarro dava a volta ao Largo. Travei conhecimento com dois amigos da mesma idade, com o mesmo sonho em tocarmos num conjunto, que trabalhavam em dois cafés ao lado, um era o Pena Branca e outro era o da Varina (hoje é uma geladaria), salvo erro chamava-se mesmo Café Varina. Trabalhávamos todos os dias até ás 2 horas da manhã, só com intervalo para as refeições –normalmente não tínhamos folga semanal, porque ganhávamos à percentagem, 10% sobre qualquer serviço prestado de alimentação ou bebida. Então uma noite, depois das 2 horas da manhã, saímos os três juntos e parámos junto a um prédio. A conversa, como de costume, ou ia para as miúdas ou para a música. Nessa noite calhou falarmos na composição do conjunto. Eu era o vocalista, o "Zé Manel" da Lousã era o viola-solo, e o "Quim Zé" era o baterista. Ora se havia elementos, porque não ensaiarmos? A falta de instrumentos não era problema perante a nossa indomável vontade e toca a ensaiar. Não sei se a senhora do segundo andar, do prédio contíguo, reprovou a minha má interpretação como vocalista, a fazer-me passar por John Lennon, se seriam os gemidos saídos da boca do "Zé Manel", a imitar o Jimi Hendrix na “guitarra” que não lhe agradaram, ou então, sabe-se lá, abominou o bater das baquetas nos pratos da bateria do "Quim Zé" a imitar Phil Collins. A verdade é que a senhora não esteve com meias medidas, e lá das alturas, atirou um penico cheio de mijo para cima de todos nós e sentenciou ali mesmo o fim do show e do futuro conjunto musical.
Durante uns anos, quando nos encontrávamos, relembrávamos esta história e fartávamo-nos de rir. Hoje não faço ideia onde param os meus ilustres colegas e frustrados músicos como eu. A vida difícil, da época, não permitiu que nenhum de nós seguisse a vocação a que legitimamente deveríamos ter direito. Os nossos filhos nunca darão valor às oportunidades que lhes concedemos e que eles, quase provocadoramente, não aproveitam. Enfim…

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AS MULHERES DE COIMBRA

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)




 Eu gosto de Coimbra. Tenho com ela uma relação conflituosa de amor-ódio. Critico-a, critico-a, chego a odiá-la, mas não posso viver sem ela. É assim uma espécie de casamento de conveniência. Ela dá-me segurança financeira, eu, em troca, dou-lhe carinho, ou “pancada” com amor, quando calha. Sim, “casamento”, disse bem, porque ela, sendo feminina, podia perfeitamente ser mulher. E se o fosse seria certamente uma prostituta de luxo. Basta lembrar as intensas misturas da sua intimidade em relações afectivas que meio Portugal já teve com ela. Hoje saudosista e entradota na idade, mas ainda cheia de vigor e com muito amor para dar. Sempre foi muito melancólica, com um choradinho meloso, muito trinado no seu fado. Sempre foi muito promíscua e devassa. Basta ver que nos postais ilustrados aparece sempre com três homens: um a soletrar-lhe versos de amor e dois com o instrumento na mão (uma viola e uma guitarra). 
Depois, de uma forma provocadora, não pára de falar na tradição –que tradição?, de “menage-à-trois”?-, e, mesmo sabendo que o seu tempo passou, continua a dizer que é uma lição –lição?! Lição em quê? É só aparência, para inglês ver. É profundamente conservadora. Embirro com ela por dizer continuamente “que é dos doutores”. É dos doutores porquê? Será que estes no leito têm melhor prestação e são melhores que o futrica? Embirro com isto, pronto! É pura discriminação. 
O raio da velha, tipo Lili Caneças, continua a armar-se em boa, como se com a sua provecta idade, já avozinha, pudesse escolher com quer ir para a cama. Depois, quando está inspirada, com veia poética, fala do Choupal até à Lapa. Deixa-me rir! O Choupal já foi. Actualmente não passa de um conjunto de árvores velhas, tipo Amazónia, pouco virgem e violado por milhares. E a Lapa, como eira em decadência, sem milho, sem malho, nem cereais para secagem, hoje, está entregue à Guarda-Fiscal.
É certo que há muitos, muitos anos era quase única, devido ao seu colo e saber monástico. 
Dizem os livros escritos por quem aqui passou e a amou profundamente, desde o Camões, ao Eça, até ao Trindade Coelho, que no amor era única. Beijava como ninguém. Que a sua língua, chamada de Mondego, lambia qualquer amante de cima a abaixo. Imagino-a toda torneada, tipo garrafa de Coca-cola. E quantos milhares de amantes lhe passaram pela alcova. E pelos vistos todos gostaram. Mesmo, nos nossos dias, quando partem, todos a levam no coração, é como se ela fosse o seu primeiro amor, e com ela perdessem os três vinténs. É claro que não passa de um amor platónico, tipo de usar e deitar fora. Amaram-na enquanto estavam dentro dela, quando saíram do seu âmago, já mais homens, mais másculos, apenas se lembram dela pela sua boémia orgiática. Falam desta Coimbra como aquela, a “tal”, a “puta” com quem passaram bons momentos.
Vem isto a propósito do Jornal “24 horas”, de 29 de Novembro último, acerca de um estudo sobre os hábitos sexuais dos portugueses, realizado pela Revista “FHM”,afirmar em grades parangonas que “em Coimbra elas não param”. Continua o Jornal, “que as coimbrãs são as que mais fazem sexo”. Isso é que é uma admiração, depois do que disse em cima, é normal que as mulheres de Coimbra sejam “danadas para a brincadeira”. Elevando a sua prestação sexual, o jornal até diz, quanto à regularidade das relações, que as mulheres de Coimbra têm 5,25 vezes por semana –curioso, quais serão os dias de abstinência? Será o sábado à tarde e o domingo, como o comércio tradicional? Mas, mau, há qualquer coisa que não bate certo. O jornal vai mais longe ao compará-las com as da capital. Estas mulheres, da grande metrópole, fazem apenas sexo 3,38 vezes por semana. Complementa ainda que as lisboetas, sexualmente, se satisfazem sozinhas –fogo, isto é grave! Se eu fosse mulher lisboeta, corria para o psicoterapeuta sexual e começava a praticar mais sexo. Está visto que em Lisboa não se safam, por isso venham para Coimbra –é uma opinião!
Das Bracarenses, diz o jornal que adoram pornografia. Bolas, isto na terra dos arcebispos, só pode ser castigo divino. “O mundo está perdido”, diria o Diácono Remédios.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

"SALAZAR: MUSEU OR NOT MUSEU?"

Se, a si leitor, lhe fizessem esta pergunta de chofre o que responderia? Poderemos especular que a sua resposta teria sempre em conta várias variáveis: factor-mor, a sua idade; no caso de ser nascido antes de Abril de 1974, se militou ou era, ideologicamente, simpatizante da esquerda ou direita e se nasceu depois de Abril. Ou então, sendo independente politico-partidariamente.
Se nasceu muito antes de 74, por volta da década de 50, era simpatizante de esquerda e até hoje não passou para o reviralho, com trejeito de ofendido, com “cara de pau”, interrogará: “sinceramente , isso é pergunta que se faça? Vê-se logo que você é facho. Claro que sou contra! Eu não fui preso pela PIDE, mas o meu vizinho, o Manel Tiago, que Deus tenha em descanso, foi. Esteve em Peniche com o camarada Álvaro. Até o ajudou a escrever o livro “Cinco dias, Cinco noites”, e até emprestou o seu nome para servir de pseudónimo ao camarada Cunhal. Admite-se uma coisas dessas, um museu ao “Botas”? Uma elegia a um ditador e a tudo o que lhe está associado? Desde a Igreja católica, com o Cerejeira a servir-lhe de muleta? Por isso é que sou ateu. Nunca mais pude ver padres. Claro que você, sendo facho, quer um santuário, tipo Fátima, para se promover o fascismo. Nem pensar! Sou completamente contra. Isso é pergunta que se faça? Se vivêssemos no tempo de Estaline bem sei para onde você iria seu saudosista de merda. Desculpe, não pude evitar, fico fora de mim, é que há perguntas que não se devem fazer. Se me perguntasse se eu era a favor do movimento “não apaguem a memória”, isso é diferente. Claro que sou! Trata-se de relembrar a história de antifascistas. Isso sim, é uma verdadeira causa nacional”.
Se lhe fazem a pergunta e você nasceu logo a seguir à 2ª Guerra e era simpatizante de direita, responderá: “claro que estou de acordo que António Salazar tenha um museu. É um direito meu amigo. Foi o único político sério que não se locupletou com bens do Estado. Depois dele foi o princípio do caos. Fez de um país na bancarrota uma nação rica. Cometeu erros? Pois cometeu, como todos. Ele foi o resultado dos movimentos ideológicos do seu tempo, baseados no autoritarismo ditatorial (como Franco, Mussolini e Hitler) e contra os ventos vermelhos de leste de 1917, contra o Lenine, esse comunista desgraçado, que além de mandar matar milhões ainda comia criancinhas ao pequeno-almoço. É inadmissível esta polémica em torno de Salazar, até faço a pergunta: quem tem medo da sua ressuscitação? Aos comunas tudo é permitido, desde movimentos de “não apaguem a memória” até serem perpetuados em ruas e praças. Isto é complexo, complexo de inferioridade, meu amigo, pode crer…”
Se lhe fazem a pergunta, a si que nasceu muito depois de 1974, pode acontecer responder: “claro que sim, não tenho qualquer dúvida, Salazar deve ser perpetuada num museu. Por tudo o que tem feito por este pais além-fronteiras, no “prêt-a-porter”, na moda, levando o nome de Portugal aos confins do mundo".
Se é independente, apartidário e pensa que a história não se constrói isoladamente e cada acto presente tem sempre a ver com o antecedente, contrariamente às placas tectónicas, assenta num continuum, uma sequência continuada de actos inseparáveis entre si e é constituída por atrocidades e gestos de boa-vontade de homens, que no seu tempo, mesmo não escolhendo o melhor, julgaram fazer a melhor opção, responderá que é legítimo que Santa Comba Dão tenha o seu museu. É uma questão de honestidade intelectual. A sua concretização evitará o dispersar de inúmeros documentos históricos, que permitirão o seu estudo, enriquecerá o berço de António de Oliveira Salazar e sobretudo o nosso país. Alguém disse um dia que um povo sem memória é um povo sem identidade e sem futuro. E que quem tem medo de fantasmas vai à bruxa, acrescento eu.

"A ACIC REÚNE PARA DISCUTIR COMÉRCIO EM CRISE"

Em protesto contra novo regime de licenciamento, vai a Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC) levar a efeito, na próxima terça-feira, dia 11 do corrente, pelas 21 horas, na sede, na Avenida Sá da Bandeira, uma reunião de comerciantes associados e outros.
Aproveitando a presença de José António Silva, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), esta entidade sendo membro do Conselho Permanente da Concertação Social, deve levar de Coimbra um recado de completo repúdio para o governo pela forma como estão a ser tratados. Espera-se que todos os empresários do comércio descontentes com a actual situação, votados ao ostracismo e esquecimento, compareçam e, massivamente, demonstrem o descontentamento e apreensão quanto a um futuro que, infelizmente, não se augura próspero e se esperam situações de completa indigência.
Lembra-se que este executivo de José Sócrates, em completo autismo, prepara-se para pôr em prática um novo regime de licenciamento ultraliberal de novas grandes superfícies, num momento de profunda crise económica, em que é notório o excesso de oferta, e, em consequência, se vive e sente uma completa asfixia do pequeno comércio.
“É necessária uma entidade Reguladora” –palavras de Paulo Mendes, presidente da ACIC- para evitar a mais completa lei da selva, onde a força do mais forte impera sobre o mais fraco. Também os horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais serão debatidos. Lembro que os horários praticados pelo pequeno comércio são vistos pelo consumidor como o paradigma anacrónico do estatismo. Acontece que perante o actual regime laboral para o comércio, o Contrato Colectivo de Trabalho, não é fácil ir para além dos horários estabelecidos. Pelo menos para quem tenha funcionários antigos. Com um horário de 40 horas semanais e petrificado além-tempo, só é possível alterar horários com o acordo do trabalhador e recorrendo a horas extraordinárias. Ora, como se calcula, num momento dificílimo para este sector, é óbvio que não é fácil mudar. Muitas vezes, o consumidor pensa que é apenas uma falta de vontade dos comerciantes. Para um estabelecimento familiar, sem pessoal, é possível desde que exista vontade de cooperar, mas para quem tiver vários funcionários tal mudança é pouco exequível em rendibilidade. Muitas vezes este anátema cai no lojista como se esta mudança dependesse apenas da sua vontade pura e simplesmente. Mas, diga-se em abono da verdade, não depende apenas da sua disposição. Estando em dificuldades financeiras, como poderá ele pagar horas extraordinárias? E não pode porque o retorno de pessoas à Baixa, para além dos horários conhecidos (diariamente depois das 19 e sábados depois das 13) vai demorar. Claro que é a teoria da pescadinha de rabo-na-boca, só o tempo permitirá inverter esta tendência. Mas o comerciante, em completa asfixia financeira, não pode dar largas ao tempo, precisa de cortar despesas imediatas a todo o custo.
Com muito respeito que os funcionários mais antigos do comércio merecem, assim como os seus direitos adquiridos noutros tempos. Mas, hoje, prevendo-se 100 mil desempregados nos próximos quatro anos, onde a precariedade, os contratos a termo, os (falsos) recibos verdes vieram para ficar –e refiro-me, como é óbvio às grandes superfícies, onde estas fazem “gato-sapato” das pessoas com necessidade de trabalhar-, faz sentido a recorrência a “direitos adquiridos” no comércio tradicional? Com a liberalização da economia de mercado, com a natural dinâmica dos valores e a mudança acelerada dos costumes, fará sentido hoje classificar o trabalho de sábados, Domingos e feriados como extraordinário no comércio? A verdade é que este óbice, ainda que vá de encontro às reivindicações da APED, Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, estou convencido que acaba por ser muito mais pernicioso para o comércio de rua, pois funciona como garrote, desmotivador da vontade de mudança e contribui para o imobilismo dos horários. E lembro, a talhe de foice, que noutros serviços, como por exemplo a hotelaria, tal premissa restritiva há muito que foi banida.
Se avaliarmos bem, há um comportamento egocêntrico por parte do comprador que não é coerente. Por um lado o consumidor –que somos todos, é bom não esquecer-, duma forma ditatorial, legitimamente pugna pelo máximo de comodidades, querendo o comércio aberto Sábados, Domingos e feriados; por outro lado “exige” comprar nesses dias ao mesmo preço que em dias e horários considerados normais, esquecendo-se que essa prestação é paga ao trabalhador em dobro. É evidente que o grande operador, através de vários subterfúgios, consegue rodear esta questão, artimanha que o pequeno comerciante não pode. Até porque o funcionário mais antigo, pura e simplesmente escusa-se a colaborar.
Outros garrotes que afogam o comércio poderiam aqui ser citados, mas como este apontamento já vai longo, ficarei por aqui.

sábado, 8 de dezembro de 2007

"O INDIVIDUALISMO E INDIFERENÇA NAS ATITUDES ESTUDANTIS"

(IMAGEM DA WEB)


  Elísio Estanque, reconhecido sociólogo do Centro de Estudos Sociais da FEUC, em 25 de Novembro do corrente ano de 2007, publicou no Diário de Coimbra (DC) a primeira parte de um estudo sociológico, em forma de diagnóstico, no âmbito de um projecto realizado pelo CES, Centro de Estudos Sociais , da Universidade de Coimbra. Presumo que, correndo a possibilidade de errar, que a segunda parte tarda em ser publicada no DC, provavelmente, como estratégia, à espera do livro “Do Activismo à indiferença –movimentos estudantis em Coimbra”.
Já naquela data li o artigo com atenção e a verdade é que não me provocou reacção. Todos constatamos estas atitudes de mergulho no “individualismo quotidiano autocentrado no interesse individual” no dia-a-dia. Até vou mais longe: afinal, não se passará o mesmo com a sociedade no seu todo?
Recuemos um pouco no tempo. O individualismo como filosofia económica começou no século XVIII, com Adam Smith, ao preconizar um ideal político em que o desenvolvimento assentava na iniciativa privada e o Estado, tendo apenas uma função de árbitro, não deveria se imiscuir na actividade económica. Dando início ao “laissez faire, laissez passez”. Com avanços e recuos, a verdade é que chegámos ao século XXI e o pai da moderna economia, que muito contribuiu para a ciência económica, estava longe de prever que a riqueza mais distribuída, verticalmente, elevando o bem-estar, daria origem a outro movimento, com o mesmo “ismo”: o narcisismo individual, desprovido de qualquer sentimento de solidariedade para com o próximo, o pensamento centrado apenas no individual, na sua própria pessoa. Não deixa de ser paradoxal, porque o ter mais, o viver melhor, deveria, em principio, criar um subsequente desejo de dividir e ajudar o próximo. Mas já se viu que em face da abastança, o homem quanto mais tem mais quer. Assim como, à medida que, obsessivamente, caminha em direcção ao mirífico mundo novo do bem-estar, transversalmente vai perdendo a sua capacidade reivindicativa e, em consequência, cada vez se torna mais apático em relação às causas sociais. O curioso é que o seu desinteresse pelo colectivo, como boomerang, virá, inevitavelmente, a médio prazo, a tocá-lo no (seu) individual. Como especulação, poderemos ser levados a intuir, no limite, que se é no dissenso social que germina a evolução do sociedade, poderemos pensar que o futuro será “muito mais do mesmo”, talvez para pior, e muito menos daquilo que fomos habituados a conquistar, com especial incidência no último século, através da reivindicação e das lutas sociais. Ou seja, a abastança e a fúria desenfreada pelo “ter” a qualquer jeito, sem olhar a meios para atingir os fins, acabou por apagar a chama do “ser”, que assentava num “devir” de transformação, sempre em movimento, sem esquecer a afirmação individual, mas cujo objecto era o político-social, enquanto interveniente no espaço público.
Voltando ao estudo de Elísio Estanque, os estudantes universitários, penso, não serão muito diferentes do homem-sócio-cultural, enquanto resultados de uma cultura social em que estão inseridos. Claro que poderemos afirmar que as revoluções sociais começaram sempre nos jovens, enquanto contestatários a um “status quo” implantada quase autoritariamente e displicentemente pelos mais velhos, normalmente conservadores e alheios a mudanças.
E aqui, inevitavelmente, vou chegar onde queria: pode uma universidade velha, conservadora, como é a Universidade de Coimbra -e não me refiro obviamente à sua vetusta idade, desde 1537 que se instalou de vez em Coimbra- incutir nas gerações mais novas um espírito reivindicativo e de intervenção social?
Evidentemente que tenho a minha opinião e conhecimento de causa, mas deixo isso à especulação alheia.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

BAIXA: O PAI NATAL DA DISCÓRDIA



 Esta semana, do romper de Dezembro, a Baixa de Coimbra, onde os dias correm demasiadamente pachorrentos para a quadra natalícia que atravessamos, com pouca gente nas ruas e, desta, pouquíssima a comprar, comparativamente a anos anteriores quando nesta época era um fervilhar de gente, foi recheada de dois acontecimentos que provocaram algum alvoroço nos comerciantes e foi conversa obrigatória de mesa de café.
O primeiro caso, logo na 2ª feira, dia 3, começou com uma longa entrevista a Paulo Ramos ao DC –este empresário, com vários estabelecimentos na Baixa, foi, em 2002, numa reunião de comerciantes, numa assembleia da Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC), o mentor da semente que viria a germinar na hoje constituída Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC).
Nesta longa entrevista, este empresário, duma forma clara e implacável, fugindo ao politicamente correcto, àquilo que estamos habituados –que é os comerciantes dizerem em público o contrário daquilo que pensam ou dizem em surdina- verberou corajosamente tudo o que lhe ia na alma, ou seja, o que muitos pensam mas não têm coragem para o afirmar em público. Para uns “ é um exagerado, um “bota-abaixista”, um individualista, que só quer dar nas vistas e, se o deixassem, duma forma ditatorial, faria as coisas à sua maneira sem ouvir ninguém”. Para outros um homem com ideias, que foge ao “stablishement” e que muito pode vir a dar, através da sua forma de estar na vida, com o seu empenho, ao comércio de rua tão necessitado de vozes dissonantes que bradem, sem “papas na língua”, que o rei vai nu, e, contrariamente ao que se pensa, a maioria dos comerciantes vive apenas de aparências, vestidos de uma pobreza envergonhada de meter dó.
O segundo acontecimento surgiu de boca-em-boca na terça-feira à noite. Como rastilho aceso em mecha em direcção à detonação, o “diz-que-disse” correu célere entre ruas e vielas do centro histórico: “o Góis deu de “frosques”, como quem diz fugiu, ao compromisso assumido anteriormente ao presidente da APBC, Armindo Gaspar”. Lembro que em 20 de Novembro, numa longa entrevista a este jornal, o presidente da APBC, entre outras explanações, declarava que “durante a época natalícia, vamos ter na Praça 8 de Maio um projecto muito interessante. Propusemos à ARCA (EUAC –Escola Universitária de Artes de Coimbra) que nos criasse algo que tivesse impacto. Trata-se de um Pai Natal de grande dimensão, com cinco metros de altura, que será colocado na fonte da praça. É um projecto financiado pelo empresário Carlos Góis (…)”.
Posteriormente, para uns, “este gesto era uma pedrada no charco. Ainda bem que havia um comerciante com visão, altruísta, felizmente, bem sucedido, que, neste procedimento, mostrava que não eram uns míseros 2.600 euros que impediam a concretização de uma obra escultórica de grande qualidade e traria à lembrança um Natal melhor para uma Baixa anémica e que atrairia muitas mais pessoas”.
Para outros, inevitavelmente, os frustrados do costume, sempre do contra, as chamadas línguas viperinas, aqueles aquém o sucesso incomoda, exclamavam em surdina:” pois, fez aquilo para dar nas vistas, apenas pela publicidade, ele não dá ponto sem nó. No fim veremos se passa o cheque”.
Ontem, dia 5, em conferência de imprensa, junto ao Café Santa Cruz e com a escultura alegórica ao Pai Natal em fundo, o presidente da APBC, ladeado pelos presidentes das juntas de freguesia de Santa Cruz e de São Bartolomeu e pelo director da ARCA sem nunca citar o nome do empresário Carlos Góis, afirmou que “depois de um comerciante ter garantido que iria suportar o seu custo, anteontem o acordo foi quebrado (…)”.
Ora, em face destas declarações, e até pelo respeito que o empresário Carlos Góis merece dentro da classe a que pertence, é imperioso que este comerciante venha a público dizer o que efectivamente se passou. Caso não o faça, de bandeja, estará a dar razão aos seus detractores que antes deste “qui pro quo” afirmavam que ele apenas estaria interessado na publicidade extraída neste gesto e jamais passaria o cheque a que se comprometera.
Evidentemente, que tenha ou não razão para o seu rompimento –trata-se apenas do esclarecimento público, para o caso é irrelevante- é obrigação de todos os comerciantes da Baixa estarem ao lado da APBC e contribuírem para o pagamento desta belíssima obra. Pelo seu tamanho ou não, sobressai em beleza e obra de arte, nesta polémica de polichinelo.
Parabéns à ARCA.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O MITO E A UTOPIA DOS ALMOÇOS GRÁTIS

Passados 21 anos depois da adesão de Portugal à então CEE, hoje Comunidade Europeia, começam a vislumbrar-se alguns custos da modernidade. Evidentemente que, como em tudo, é inevitável a ponderação entre custos e proveitos. Como resultado de uma adição de variáveis, a média desta incursão num projecto europeu à partida utópico –Tratado de Roma de 1957- é, pelo menos por agora, ainda, positivo, embora comecem a surgir dúvidas. À custa desta adesão, em 1986, a partir daí, pelo menos até 2000, atingimos um patamar notável de bem-estar, um índice de desenvolvimento nunca antes alcançado: uma maior esperança de vida à nascença e mais longa longevidade, uma maior taxa de alfabetização e de escolarização (93,8% dos adultos sabe ler e escrever) e um PIB (Produto Interno Bruto) dentro da média dos restantes países da Comunidade.
O problema é que o que antes foi alcançado e foi sentido e vivido no nosso contentamento, hoje assistimos ao regredir dessas conquistas económicas. Como um reverso da medalha, como se estivéssemos apagar com juros elevados esse patamar alcançado. Então, num exercício de retórica, perguntamos: de quem foi a culpa? Dos nossos políticos que dentro duma certa ingenuidade, sem visão estratégica de futuro, inebriados pelos milhões, não souberam alertar de que tudo é pago e não existem almoços grátis, ou, pelo contrário, esta adesão, sendo um contrato de interesses, não será mais do que um negócio bem engendrado e altamente lucrativo para os países mais ricos? Seria então uma falácia, um sofisma com intenção de enganar ou, pelo contrário, um paralogismo, em que não havia intenção predefinida e os nossos (maus) resultados de hoje são resultado de factores e variáveis endógenas, alheias à doutrina comunitária que lhe serviu de base?
Reportemo-nos à década de oitenta, ao Portugal subdesenvolvido, em que o sector primário (agricultura, pescas, recursos florestais, etc.) ocupava mais de metade da população portuguesa. Pouco mecanizada e sobretudo braçal, em que o factor trabalho era aplicado em detrimento do factor capital, sendo, em rentabilidade, pouco competitiva com o exterior. Sem esquecermos um período conturbado e quente, com a tomada de terras, a chamada Reforma Agrária, a verdade era que o país, na alimentação, era auto-sustentável nos bens que produzia, desde o azeite ao sal.
Com a assinatura do Tratado, em 1986, foi aplicado o chamado teorema das vantagens comparativas –cada país deve apenas produzir os bens que lhe são mais favoráveis, em custos de produção, e, portanto, de menor custo final; o que lhe permite vender a outros que produzam os mesmos bens com custos mais elevados. É assim, à luz desta filosofia económica, que entendemos os subsídios recebidos para aposentar, na altura, muitos agricultores, com o ónus acrescido do arranque de várias espécies arvorarias, entre elas a videira, a oliveira e o começo do abandono da terra e a desertificação do interior do país; bem como o abate da nossa frota pesqueira, arrastando consigo a construção naval, e subsequente reforma de muitos homens do mar.
Com a abertura à economia de mercado a nossa indústria (sector secundário), sobretudo pesada, ficou também à mercê dos outros países mais desenvolvidos e, por isso mesmo, impossível para nós competir com um nível mais industrializado, onde o factor capital era preponderante em máquinas, e, onde os custos dos factores de produção eram menores, e, por isso, com produtos iguais aos nossos mas mais baratos. Nem mesmo os milhões recebidos para modernizar este sector evitou a sua quase completa capitulação. Por inépcia ou por externalidades, entre elas a mão-de-obra barata da China, a verdade é que a consequência foi a falência e o encerramento de várias fábricas e envio de muitos milhares de operários para o desemprego.
Com o comércio (sector terciário), o mesmo choque económico: tínhamos um comércio conservador, disperso, ainda que concentrado nos centros das cidades, assente quase exclusivamente numa estrutura familiar, onde a pequeníssima empresa era preponderante, e sem ligações entre si. A filosofia económica vigente, reflectida, num comerciante quase iletrado e feito empiricamente à força do subir a corda a pulso, onde prevalecia o trato pessoal, assente numa clientela geracional e fidedigna, era vender o máximo ao maior preço possível. O lucro não assentava em rácios médios, não estava dependente da quantidade vendida, incidia individualmente no bem alienado.
Com a década de 90, vieram as grandes superfícies. Com uma nova filosofia comercial, neoliberal, arrojada, desprovida de conceitos morais para a concorrência –arrasar para reinar- quase paradoxal ao comércio de rua, concentraccionista e, por isso, com maior racionalidade de custos operacionais, o seu lema era vender o máximo ao menor preço possível, mesmo até praticando “dumping”, vendendo com prejuízo, tendo apenas em conta o rácio médio anual de lucro. Pondo em prática uma nova ciência comercial; criando, no cliente, a ilusão de uma liberdade plena em adquirir os produtos, projectando-o como peão dentro da superfície comercial, onde os seus passos eram estudados ao milímetro, fazendo desta um labirinto, sem que aquele nunca se aperceba que está a ser usado como marioneta e a fazer exactamente aquilo que foi anteriormente programado ao pormenor pelo operador. Aplicando subterfúgios discutíveis do ponto de vista ético, num jogo de espelhos onde ressalta o interesse, levam o consumidor a adquirir produtos considerados por este anteriormente desnecessários. Inevitavelmente, também neste sector, várias pessoas são obrigadas a mudarem de vida e outros reformados compulsivamente à força das circunstâncias.
Como ponto de balanço circunstancial, até à adesão de Portugal à Comunidade Europeia, é notório o profundo atraso na modernização destes três sectores. Entre prós e contras, salienta-se o quanto foi importante a entrada para o clube dos 12, em 1986, para o desenvolvimento destas actividades económicas.
Como elementos positivos comuns nesta época e indirectamente ligados no aperfeiçoamento destes três sectores, deveremos considerar: o embaratecimento dos produtos, tornando-os mais acessíveis a um maior universo de consumidores, a democratização do consumo; a democratização do ensino superior; O crescimento económico do país; universalidade dos cuidados de saúde e o elevado poder aquisitivo das famílias.
Como elementos negativos comuns, consideraria o abandono da terra e das pescas como extremamente deficitários para o país, colocando-nos, economicamente, à mercê do exterior e com o continuado aumento do défice da Balança de Pagamentos; o elevado número de pessoas empurradas para a aposentação; o aumento desvairado do desemprego; diminuição de impostos sobre o trabalho, recebidos pelo Estado, por força de aposentações forçadas, de desemprego e de falências de agentes económicos; aumento brutal da Despesa Pública, não só com estes encargos, como também com a criação do Rendimento Mínimo Garantido, dado, em forma de subsídio, sem contrapartidas obrigacionais.
Em consequência, no continuado aumento do défice, conclui-se o fim inevitável do Estado-Providência, a cessação deste modelo social; inicia-se a morte anunciada do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social e a privatização de quase todos os serviços do Estado. Aumento brutal de impostos.
Começo de uma nova era “Sul-americanizada”, desconhecida e de custos imprevisível para nós no futuro, ou o pagamento de juros sobre juros sobre um desenvolvimento anunciado como mensagem messiânica, prometido pela Comunidade Europeia a Portugal e que poderá vir a tornar-se num logro?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

MEGACOMÉRCIO: O MITO DO DESENVOLVIMENTO

(IMAGEM DE BRAGA PINHEIRO)


  Neste último fim de semana, de 25 de Novembro, ficámos a saber, quer pelo “Expresso”, quer pelo “Diário de Notícias”, que o patrão dos patrões, o presidente da Confederação do Comércio Português, José António Silva, ponderava a hipótese de, conjuntamente, com o presidente da CGTP, Carvalho da Silva, de aderir a uma greve geral, em face do crescente aumento de falências e subsequente desemprego no comércio, quer de pequenos empresários, quer de funcionários. Ficou-se a saber que a partir de 2004 este sector perdeu 250 mil empregos. Prevê-se, também, que para os próximos quatro anos desapareçam mais 100 mil postos de trabalho.
Não vou pronunciar-me se, sendo uma medida inédita, é a mais indicada ou outra qualquer –sabe-se, agora, que foi fumo sem fogo, uma vez que o presidente da Confederação veio desmentir e afirmar que tudo não passou de um mal-entendido. Uma coisa é certa, José António Silva ficou numa posição periclitante, muito fragilizada, e, das duas uma, ou avança com medidas reivindicativas ou então dever-se-á demitir. Caso não o faça deverão ser as diversas associações comerciais do país a pedir a sua cabeça. Depois deste "mal-entendido”, penso, iniciou-se um processo sem retorno que não pode parar mais e o “big boss” do patronato tem de mostrar que está à altura do lugar que ocupa. Criou expectativas nos operadores, agora, alguma coisa terá de fazer para chamar a atenção do governo perante este continuado empobrecimento de um sector, o pequeno comércio, que foi um dos maiores empregadores do país. Hoje, corre-se o risco, caso não se tomem medidas drásticas de salvação de todos, de assistirmos ao seu desaparecimento, e, no caso concreto, se se concretizar o anteprojecto do novo licenciamento das grandes superfícies, que liberaliza ainda mais a abertura de hipermercados e centros comerciais.
Bem sei que o consumidor comum está perfeitamente de acordo que abram mais grandes superfícies e, se possível, que estejam abertas 24 sobre 24 horas. Egocentricamente, acha até que esta guerra não é sua, diz respeito apenas aos comerciantes, a quem considera atávicos e anacrónicos, que não conseguiram modernizar-se e adaptar-se aos novos tempos, sobretudo, tendo em conta os horários praticados hoje; iguais há 50 anos atrás. Se levarmos à letra a doutrina neoliberal desta desbragada liberalização, que nos é impingida, e aceite pela maioria, como um mito do desenvolvimento, esse acto legislativo, levará a uma maior concorrência entre as grandes superfícies e, no limite, a um embaratecimento dos produtos. Aparentemente, no curto prazo, assim é. Mas a médio prazo todos pagaremos bem caro este excessivo laivo de concorrência, esta falta de limites. Basta atentar no abandono dos Centros Históricos. -Chamei-lhe mito, porque, a meu ver, mesmo produzindo impacto sobre a sociedade, na sua constante repetição, nunca deixará de o ser e jamais se tornará uma verdade sem contestação. O desenvolvimento implica uma concertação de factores –como a saúde, a educação, a habitação, o emprego, etc.- e sustenta o crescimento económico do todo social, bem como o político e até o filosófico. O desenvolvimento é um progresso de um estado a outro, de tal modo que o seguinte é sempre mais perfeito que o anterior, mas sempre, verticalmente, devendo ter em conta a maximização da sociedade no seu todo, atingindo-se um nível de vida razoável. Como se vê facilmente, no caso da extinção do comércio de rua, apenas uma franja, ainda que elevada, consegue obter um melhor nível socio-económico, mas esse patamar é alcançado à custa do esmagamento de milhares de pessoas e de uma classe (os comerciantes). Então pergunta-se, quem vai sustentar estas pessoas, empresários e funcionários, empurradas para o desemprego? É óbvio que serão os nossos impostos, aumentando a despesa no Orçamento Geral do Estado. Diga-se a propósito, presentemente, por parte de alguns comerciantes com menos de 60 anos, está a assistir-se a uma corrida desenfreada às pré-reformas. Mesmo com as penalizações associadas é preferível receber pouco do que ter de pagar sem se ganhar para isso.
O Estado, tendo apenas em meta o racionamento económico, a concentração, espalha a crença na sociedade de que o mito do desenvolvimento assenta na grandiosidade dos fins, sem ter em conta os meios, no presente e no futuro. Tudo se sustenta na mega estrutura: é a mega superfície comercial, é o mega transporte em alta velocidade (TGV), é o mega aeroporto (OTA, ou outro), é o mega hospital, é a mega maternidade. Pouco importa que no futuro a população média esteja impossibilitada de usar estas estruturas, por falta de suporte financeiro. O que interessa é construí-las hoje, em nome do desenvolvimento de amanhã.
Todos sabemos que os consumidores (que somos todos) são agentes privados que exercem livremente os seus direitos de adquirirem os bens de consumo ao mais baixo preço. Até porque o estado da economia nacional empurra-nos a todos para os produtos de menores dígitos, mesmo sabendo, antecipadamente, que serão inferiores a outros, comparativamente. O problema é que ao escolhermos o mais barato, normalmente, é importado, e, em bloco, numa cegueira continuada, estamos todos a contribuir para o encerramento de estabelecimentos e produtores nacionais. 
Valerá a pena pensar nisto?

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

NATAL

É Dezembro,
a chuva cai,
o inverno espreita,
o sol não sai,
o mar agita-se,
a tristeza é uma maleita,
parece que nos atrai,
ficamos enviesados,
deprimidos em solidão,
a saudade que aí vai,
parecemos transviados,
um aperto no coração,
apetece chorar e dizer ai,
mas nós somos soldados,
mercenários de geração,
e um duro nunca cai,
não fungamos, mesmo apertados,
mas dói ver o pobre em abstracção,
de mão estendida, sem fazer mal,
à chuva e ao frio enregelado,
só a neve lhe enche a mão,
e talvez por ser Natal,
condoídos, damos um trocado,
envolvidos em emoção,
no lado sentimental,
como um sol enfocado,
aquecemos um coração,
e sentimo-nos menos mal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A OBSESSÃO DO ESTADO PELA NORMALIZAÇÂO

Encontrei o meu amigo num destes Domingos ao comprar o jornal no mesmo Quiosque. Já não o via há uns tempos largos. Somos, sensivelmente, da mesma idade: cerca de 50 anos. Palavra puxa palavra e, inevitavelmente, caímos na malfadada crise económica. Quase sem o querer, relembramos os velhos tempos em que, juntos, íamos fazer uma semana de férias ao Algarve e, nos últimos anos, praticamente, pela necessidade financeira, nem encerrar os estabelecimentos podemos, quanto mais ir para as terras do sul. “Velhos tempos”, exclamamos em uníssono, como barítonos de um coro conhecido.
Achei-o muito apagado, uma estrela sem luz. “O que tens? Não andas bem… para além da subida em crescendo do petróleo, será que a tua tensão arterial também teima em subir?” Interrogo, tentando adivinhar uma depressão iminente.
Ele tem um pequeno café onde trabalha conjuntamente com a sua mulher há muitos anos. É o seu ganha-pão diário. Foi de lá, através do esforço conjunto dos dois, que formaram os dois filhos. Como uma mola contida e que de repente dispara, perante a minha pergunta acerca do seu estado anímico, o seu rosto transformou-se: parecia uma máscara com esgares de granito. Até bufava. Estava indignado, entre um misto de tristeza e revolta. Ao falar revolvia os braços no ar, como tentando atingir os seus invisíveis opressores, ou então para melhor expurgar a fúria que o dominava interiormente. “Não vale a pena continuar, pá! Isto é lutarmos contra forças invisíveis, superiores às nossas posses anímicas. Estamos perante um Estado absolutista, insensível às necessidades de cada um, que actua a mando de uns burocratas, assentes em Bruxelas, que, sem terem conhecimento das características e especificidades de cada país membro, emana directivas como se fôssemos todos ovelhas da mesma espécie. Vou fechar o meu estabelecimento”. Notei que arfava de uma espavorida indignação.
A esposa tinha participado numa formação patrocinada pela ASAE, no sentido de tentar ir ao encontro das novas obrigações substantivadas pela directiva comunitária de Abril de 2004, e chamada HACCP, traduzido para o direito português como Sistema de Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos. Durante a formação, e perante um esclarecimento de um agente daquela polícia da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a consorte do meu amigo descai-se com este lamento: “ó senhor agente, como podemos continuar a exercer a nossa actividade perante tantas exigências, num momento em que estamos completamente descapitalizados, e em que até recorrer ao crédito para obras de beneficiação é difícil?”.
-Não dá…feche! –Respondeu o agente sanitário com alguma rispidez, segundo o relato do meu amigo.
“Diz-me, interroga-me o meu amigo, achas que isto é postura perante um agente económico? Nós que trabalhámos toda a vida, somos tratados como “coisas” imprestáveis, sem ter em conta as diferenças de cada um? Pouco importa se sou coxo ou paralítico, as obrigações são iguais para todos. Mesmo sem poder, se tiver uma perna amputada, tenho de correr como os outros. Que Estado é este? As exigências são modernizar, modernizar até ao absurdo, como se a modernização fosse a panaceia de todas as doenças que grassam por aí. E, se não modificar para os parâmetros exigidos, tenho de encerrar. Acredita que lhes faço a vontade. Ai é isso que querem?!. Vão ver! –Exclama o meu amigo em fúria.
“Que vai ser dos nossos pratos e produtos típicos, que exigem ser confeccionados nos dias anteriores, como, por exemplo, a chanfana? E certas açordas, com receitas dos nossos ancestrais antepassados. Acaba-se tudo e passamos a comer só congelados? Será que está tudo doido? Para onde nos querem conduzir? Acabaram com o bom vinho de pipa, com o bom bagaço, com os “jaquinzinhos”, com as laranjas e com tudo o que não seja normalizado. Isto é obsessão, pá! Já viste esta nova lei para proibição de fumar nos recintos pequenos? Agora querem extractores de fumo. Dá impressão que querem é salvar alguma fábrica de extractores”.
“Não tardará muito entramos na normalização dos povos europeus, na eugenia –aplicação racional das leis da genética à reprodução humana, com o fim de obter melhoria das estirpes, tanto do ponto de vista físico como mental e da qual, de triste memória, foi Hitler um percursor. Quem nos defende?”
Mas será que não vêem que é impossível tornarem iguais países, nas pessoas dos seus nacionais e nos seus costumes, que são geneticamente, e pela força da sua história, diferentes entre si, numa amálgama esteriotipada e fabricada num parlamento composto por políticos que pouco contacto têm com o povo?”
“Para onde caminhamos?”. Sei lá! Respondi, encolhendo os ombros…

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

"A EXCELÊNCIA E A DIFERENÇA"

“Após 25 anos a pregar no deserto, decidi, há um ano, abandonar definitivamente o ensino, porque me convenci de que era completamente impossível introduzir no sistema qualquer medida que fosse minimamente inteligente. Com efeito, o sistema só está preparado para adoptar medidas estúpidas e irracionais, as únicas que colhem o aplauso das nossas elites. É bom não esquecer, a título de exemplo, que a academia de futebol do Sporting só consegue excelentes resultados porque pode seleccionar os melhores praticantes a nível nacional. Se fosse obrigada a receber todos os praticantes do concelho de Alcochete e a aguentá-los lá até aos juniores, os resultados não seriam os mesmos. Obviamente. Por muito boas que sejam as instalações, por muito bons que sejam os treinadores, por muitos treinos que tenham, não se consegue fazer um Figo ou um Cristiano Ronaldo de um “perna-de-pau”. Sem matéria-prima não há resultados. O mesmo se passa nas nossas escolas.
Ora, quem é a favor da escolaridade obrigatória não pode ter um discurso do género “quem sabe passa, quem não sabe chumba” em que está subjacente uma ideia de exigência, excelência e de rigor que é a negação pura da escolaridade obrigatória, porque pressupõe a existência de objectivos para cada disciplina antecipadamente fixadas para cada ano de escolaridade.
As pessoas, em geral, e as nossas elites, em particular, confundem escolaridade obrigatória com a obrigação de ir à escola. São duas coisas completamente diferentes. A escolaridade obrigatória, ao contrário da obrigação de ir à escola, impõe que a escola se adapte ao tipo de alunos que recebe (…). Na escolaridade obrigatória, não pode haver objectivos antecipadamente fixados. Os objectivos têm de ser fixados tendo em conta cada aluno em concreto, consoante as suas capacidades, aptidões, nível de conhecimentos e ritmo de aprendizagem.
Ser exigente não é impor uma fasquia igual para todos os alunos. Não se pode exigir a um aluno aquilo que ele não pode dar. (…) Mas é precisamente isso que se faz nas escolas. E depois admiram-se de que haja abandono escolar. (…) Além disso, a colocação de fasquias de conhecimento por anos de escolaridade, com base no aluno médio, tem um efeito perverso, uma vez que elimina precocemente indivíduos cujas capacidades ainda não desabrocharam completamente. Com efeito, é totalmente falsa a ideia de que as qualidades e as capacidades dos alunos podem ser comparadas nas mesmas idades, ou seja, o facto de um aluno brilhante e outro da mesma idade ser um idiota não significa que aos 18 anos as posições não se possam inverter completamente. (…) Agora não se pode é atirar o desgraçado para um canto da sala, porque o professor não tem tempo para lhe dedicar, uma vez que só tem duas horas de aula por semana, tem um programa a cumprir e a maioria dos alunos da turma está numa fase muito mais adiantada. (…) No entanto, por aquilo que eu leio e ouço, a maioria dos professores e as nossas elites são contra a escolaridade obrigatória. Defendem, antes, uma escola onde todos devem ser obrigados a ir, mas onde só devem ficar aqueles que correspondam às expectativas do aluno médio tipo. Os restantes deverão reprovar tantas vezes quantas necessárias até se convencerem de que o seu lugar não é ali. Acontece que as reprovações acabam por provocar o efeito precisamente contrário ao pretendido.
Com efeito, as reprovações dos alunos com menos aptidões, para além de não resolverem o problema destes alunos (…), só servem para desestabilizar, por completo, a turma onde irão ser integrados no ano seguinte, tornando-a ainda mais heterogénea e qualitativamente pior. Com a agravante de os alunos reprovados, por serem mais velhos, acabarem por liderar a turma, com toda a carga negativa que isso tem (…). As reprovações na escolaridade obrigatória têm o mesmo efeito numa turma que as pedras num carrinho de mão: quanto maior for a carga de pedras, mais dificuldade tem o professor de andar com o carrinho.”

(Texto extraído, com a devida vénia ao seu autor, Santana-Maia Leonardo, inserido no Jornal Público na edição de 13 de Novembro de 2007)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

CARTA-RESPOSTA AO DIRECTOR DO CENTRO HISTÓRICO

Li com atenção, no Diário de Coimbra (DC), as declarações de Sidónio Simões, Director do Gabinete do Centro Histórico da Câmara Municipal de Coimbra, enquanto convidado para falar sobre a “Área central da cidade de Coimbra –Potencialidades e debilidades ao nível do comércio e serviços”.
Confesso que não me surpreende a sua posição demolidora em relação aos lojistas e, em particular, ao apelidá-los de individualistas. Eu já o tinha constatado, há cerca de dois meses, aquando da apresentação da nova direcção da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Também aí, nessa apresentação, tal como agora ao ler as suas declarações no DC, fiquei com uma dúvida: O senhor engenheiro, enquanto funcionário, representa apenas a autarquia? É que nessa reunião do Salão Nobre, em minha opinião, em face do seu exagerado protagonismo, este senhor defendia acerrimamente a ACIC e a Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra. Ora bem, enquanto parte interessada no futuro da Baixa, é legítimo que defenda estas instituições. O problema é quando as suas intervenções vão ao ponto de substituir e apagar completamente o presidente do Agência, senhor Armindo Gaspar, e o presidente do Sector Comercial, Senhor Arménio Pratas, ambos presentes nessa noite, no Salão Nobre. E isso aconteceu realmente.
Mesmo aqui, nas declarações prestadas no Colóquio enunciado e transcritas no DC, é notório a invasão e extrapolação em áreas fora da sua competência, sobretudo quando afirma que “a ACIC fez uma proposta de cursos, que foram um êxito noutras cidades, aos comerciantes, mas só dois é que se inscreveram; temos (sic) curso de vitrinismo para arrancar, mas precisamos, no mínimo, de oito pessoas e só temos quatro”.
Vamos por partes: É verdade que os comerciantes são profundamente individualistas. Já o escrevi neste jornal e concordo. Porém, não é por esse facto, como parece querer transparecer, que se lhes pode assacar todas as responsabilidades da falência dos Centros Históricos e nomeadamente o de Coimbra.
Comecemos pela pouca aderência ao projecto da Agência para a Promoção da Baixa: esta ideia foi apresentada, em 2002, numa assembleia, na ACIC, por Paulo Ramos, da Românica. A partir daí, começou a ser trabalhada dentro daquela Associação Comercial, com a participação directa do seu criador. Passando à frente alguns episódios que não interessam aqui, passaram 5 anos de gestação, e resultados do Condomínio da Baixa continuam a não ser visíveis. O único facto saliente são umas bandeirolas pregadas ao lado dos estabelecimentos aderentes. Como quererá o senhor Director que os comerciantes acreditem neste projecto, sabendo que os dogmas estão em declínio, se nada se vê em concreto? Acusa-os de não ajudarem? Ajudarem como? Saberá o senhor Director as dificuldades porque passam os comerciantes? E irão continuar, ainda hoje o Diário de Notícias refere que até 2010 estão projectados 90 novos “shoppings”. Todos assistimos impávidos ao “genocídio” do comércio tradicional.
Em relação a um estudo que refere que a Baixa tem mais potencialidades que a Solum; tem (teria) se fossem explorados convenientemente os seus recursos, tais como o património religioso e laico, e se fossem desenvolvidas políticas e acções coerentes com o interesse do Centro Histórico. Acontece que não são. -Este estudo foi apresentado no Salão Nobre da autarquia, em 5 de Junho, deste ano, por Henrique Albergaria, do Instituto de Estudos Regionais e Urbanos, sobre o lema “Baixa de Coimbra que Futuro? Estratégias de Revitalização Comercial” e inserido num projecto comunitário “Urbe Viva”, em que engloba várias cidades, como Bolonha, Pádua, Veneza, Patras e Santa Cruz de Tenerife. Este programa comunitário surgiu da necessidade de revitalizar os centros das cidades, em face do seu acelerado declínio.
Só para lhe dar um exemplo de políticas contrárias à revitalização do Centro Histórico: há vários prédios entaipados há mais de um ano, com obras embargadas sob a alçada do IPPAR, agora IPHAN.
A falta de residentes é outro problema que refere. Indirectamente, o senhor Director sabe que os PDM’s em diarreia têm sido um dos factores da diáspora. Assim como os continuados Regimes de Arrendamento Urbano anacrónicos, com rendas de miséria, têm contribuído para o abandono do edificado e para este esvaziamento. E as Câmaras Municipais, nomeadamente a de Coimbra, não podem, depois do mal feito, agir em contraciclo? Podem, e não o têm feito. Em 2005, foi feito pela Universidade de Coimbra um Estudo de Diagnóstico (SIGURB), que consistia num estudo exaustivo de todos os prédios da Baixa, incluindo as suas patologias. Custou à autarquia um milhão de euros. Ou seja, a autarquia , possuindo todos os dados referentes ao edificado do centro histórico deveria envolver-se directamente, contactando, caso a caso, os proprietários das casas vazias, no sentido de os convencer a arrendarem os seus locados. Deveria discriminar positivamente o IMI, à taxa zero, todas as casas de arrendamento no Centro Histórico para trazer novos residentes. Tudo continua na mesma como a lesma.
Se a CMC estivesse verdadeiramente interessada em trazer novos locatários para a baixa, poderia disponibilizar os projectos de obras e licenciamento gratuitamente. Há imensas casas vazias na baixa, por cima das lojas, sem acesso exterior aos estabelecimentos. Outrora eram armazéns dos comerciantes. Ora, só com a implicância directa da autarquia, no sentido de facilitar, se pode e deve resolver este problema, aparentemente sem solução. Actualmente, o único facto palpável que se vê é a oferta das tintas para pintar as fachadas. É muito pouco.
Se permite a opinião, em vez de direccionar a sua frustração nos comerciantes, talvez em catarse, porque não se questiona se tem feito tudo o que deve e o que está ao seu alcance para os ajudar e, todos juntos, revitalizarmos o Centro Histórico? Sem o esforço de todos não é possível manter os centros das cidades vivos. Concordo consigo que o interesse individual terá obrigatoriamente de dar lugar ao interesse colectivo, porque só no âmbito deste é possível salvar o individual. Ora esta mudança de mentalidades não é possível sem a parte coerciva do Estado, neste caso das autarquias, ao onerar as casas e lojas vazias com um IMI elevado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O PRESIDENTE DA ACIC NA TELEFONIA

(IMAGEM DA ACIC)


 Na sexta-feira, 10 de Novembro, Paulo Mendes, presidente da Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC), depois da sua tomada de posse, em 18 de Outubro último, deu a sua primeira entrevista radiofónica à Rádio Regional do Centro, no programa “Dois Dedos de Conversa”, com o patrocínio das Ourivesarias Góis. 
Ouvi com atenção as suas declarações, desde o princípio ao fim, com perguntas de Carlos Gaspar e Carlos Góis. Confesso que gostei. Cultivando um compreensível “low profile”, esteve sereno, demonstrou conhecimento dos problemas angustiantes que os comerciantes do comércio de rua atravessam e, naturalmente, também as dificuldades financeiras da ACIC –de tesouraria, como lhe chamou. Soube evitar as polémicas respeitantes aos seus antecessores, sobre a utilização indevida da Associação como trampolim político/partidário, nomeadamente Pina Prata e Paulo Canha. Quanto à metodologia que vai impregnar neste seu mandato e no futuro, pouco disse. Embora tivesse ouvido da sua parte que o momento associativo, a nível nacional, passa por momentos de “assembleias vazias” devido à “alguma idade, desinteresse e desmotivação dos empresários”, gostaria de ter ouvido que, neste seu mandato, através de reivindicações vincadamente políticas -como por exemplo um justo subsídio de desemprego para comerciantes insolventes e um Fundo de Solidariedade para o Comércio, prometido no Acordo de Concertação Estratégica de 1996-1999- irá tentar motivar esta classe, outrora tão empreendedora e dinâmica e hoje deprimida, amorfa e estagnada, devido, essencialmente, à crise económica sem antecedentes nos anais económicos, como também referiu. Entre outros factores, o facto de 2008 ser o ano da total liberalização da entrada de têxteis chineses na Europa, penso que o próximo ano será o ano de todas as batalhas para as associações, e especificamente as comerciais; das duas uma, ou os seus executivos convencem e motivam os seus associados através de pragmáticas medidas de força, de manifestações públicas, mostrando o total descontentamento do "modus vivendi e operandi" actual, ou então, a meu ver, cavarão a sua própria tumba. A curto prazo desaparecerão do mapa social representativo. Tome-se o modelo de Carvalho da Silva, da CGTP, ele é o grande obreiro, responsável pela manutenção e manifestação do sindicalismo vivo em Portugal. Ora, quanto a mim, os presidentes das associações empresariais deveriam ver nele o paradigma a seguir –ainda que possa provocar algum prurido avermelhado de repulsa- e, ou lhe seguem os passos, procurando um carisma próprio, uma linguagem reivindicativa de afrontamento determinativo, abandonando as infinitas reuniões de gabinetes, ou, inevitavelmente, serão enterrados pelos seus associados sem direito a epitáfio. Voltando à entrevista de Paulo Mendes ao Programa “Dois dedos de conversa”, declarou este que 82% dos associados da ACIC são comerciantes. Mais uma razão para entender que muito há a fazer pelo comércio tradicional e nomeadamente pelo seu Centro Histórico. As suas carências estão sinalizadas, é preciso é passar à acção. Exigir a revitalização do tecido urbano nos Centros Históricos, através de uma legislação excepcional acoplada ao Novo Regime de Arrendamento Urbano. Acabar com rendas de 5 euros e estabelecer rendas mínimas de 150 euros, que é o preço de um quarto, sem recorrer às complexas CAM (Comissões de Avaliação Municipal). E isto vale para habitações e lojas comerciais. É preciso acabar com rendas de miséria, lado-a-lado com rendas astronómicas. É urgente mobilizar as autarquias para, por um lado, simplificarem as obras de restauro nas imensas casas sem ninguém, implicando-as directamente, aconselhando e fornecendo gratuitamente os projectos de alterações necessários, como por exemplo uma entrada independente para os andares superiores por cima das lojas comerciais, agora sem utilidade. Por outro lado, depois de facilitar a acessibilidade ao crédito, obrigar os proprietários a arrendarem as casas, impondo às habitações vazias um IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) elevadíssimo –este tema foi muito bem apresentado, de forma clara, em 27 de Outubro, no Salão Brazil, por Jorge Carvalho, no âmbito das jornadas “Vamos falar sobre Habitação (em Coimbra)”, promovidas pela Pro Urbe e Plataforma artigo 65. 
Acrescento também as várias dezenas de lojas vazias na Baixa que se lhes deve ser aplicado o mesmo princípio coercivo. O direito legítimo individual à propriedade deve incluir a obrigação desta, através de um lícito e necessário uso, contribuir para o enriquecimento do todo, devendo conter uma premissa ética, e, mesmo não se concordando com ela, cabe ao Estado fomentar, através de impostos e taxas e no limite a expropriação, a revitalização do conceito de propriedade, ainda que vá contra o espírito da Revolução Francesa e se aproxime das teorias Marxistas. Só reformando urgentemente, com medidas draconianas, o comércio, impondo novos horários, e a habitação com novos moradores –estas duas premissas são as paredes-mestras dos centros históricos- se evitará o declínio continuado que levará à miséria milhares de comerciantes em Coimbra e no país.