quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FIM DE VIDA DO ANO DE 2008






Hoje, dia 31 de Dezembro, é mesmo o fim do ano de 2008. Metaforicamente, pensemos que o tempo que agora acaba está em morte clínica. Os seus sinais vitais já não respondem. Nós, como amigos presentes na hora da despedida, estamos debruçados sobre o “ente” que está prestes a partir.
Muitos dos presentes no leito de morte, aparentemente pessimistas, com receio do que virá a suceder-lhe, parecem fazer tudo para reanimar os seus sinais vitais. Outros, mais realistas, como se tivessem mediunidade e, nos fluidos emergentes vissem o espírito do quase finado a flutuar por cima, querem acabar com este sofrimento depressa. Em surdina, clamam pela legalização da eutanásia. Outros ainda, estes como acusadores públicos, apregoam aos presentes que, à luz das convenções nacionais, pela desgraça criada, antes de morrer deveria ser julgado. Este 2008 deixou muita infelicidade e morte. Quantas pessoas, devido ao seu comportamento autista e insensível ao sofrimento, se suicidaram no país? Quanta dor causou na classe média-baixa? Tanta frustração espalhada ao longo do ano, sobretudo quando, por morte do antecedente 2007, deu a sensação de que iria ser muito melhor. E o que se viu? Dor, miséria e morte. Como político em campanha eleitoral, fez exactamente o contrário do que parecia auspiciar. Por isso, os justicialistas, mesmo no leito de morte deste acabado 2008, não lhe perdoam. Acham que, nestas circunstâncias, para este criminoso, a morte é o melhor que lhe pode acontecer. “Deverias padecer, maldito sejas ó 8 depois de 2000! Já que não podemos impedir a tua morte, ao menos, apodrece no inferno, ano do demo”, exclamam furibundos os desesperados de justiça.
Outros do imenso grupo, presentes na despedida do dois, zero, zero, oito, mais optimistas, tentam acalmar os pessimistas e os justicialistas, e, em tom paternalista, tentam convence-los de que vale a pena aguardar o próximo. “Quem sabe como será? –exclamam, aos gritos para serem ouvidos. “Deixemos morrer este em paz, e que o seu espírito não venha “encostar-se” ao vindouro. Tenhamos esperança no “novo” ano que vem aí”.
-Mas tu não ouves as notícias, ó optimista?, isto está muito mau! –interrompe um dos pessimistas.
-Claro que ouço, como todos vocês, mas, com este discurso negro apregoado e multiplicado até ao infinito, ainda me dá mais força para acreditar que estamos apenas a atravessar um deserto, e, como sabem, tudo é finito, logo, naturalmente, iremos encontrar um oásis para nos refrescarmos desta secura – replica o optimista.
-Eu gostava de ser como tu…”felizes, aqueles que acreditam”…-teima o pessimista –mas só se vê miséria em todo o lado…isto está muito mau! -(é interrompido pelo toque do telemóvel)-…estou, sim sou eu! Sim, claro que está combinado, vou sair dentro de uma hora (…) encontramo-nos no hall do hotel às 20 horas. Até logo.
Seguidamente, despede-se dos presentes com “um bom ano de 2009 para todos”.

NA BAIXA, VALE A PENA SER TEIMOSO



O senhor Rui Silva é o proprietário da papelaria Papyrus, na Avenida Fernão de Magalhães, a dois passos dos Bombeiros Voluntários. Na noite de 2 de Dezembro (já o tinha contado aqui) teve uma tentativa de assalto frustrada. Nessa noite tentaram entrar no pequeno estabelecimento de jornais e revistas, mas, como as grades de protecção são muito fortes e, para além de cadeados têm chaves interiores, não conseguiram entrar.
Mas como o à vontade é tão grande de quem anda no gamanço que vale a pena ser persistente –pessoalmente, ainda que seja uma tese contestável, continuo a pensar que só não há mais assaltos porque há mesmo poucos assaltantes a operar na Baixa. Se houvesse mais, isto seria uma razia completa. Não existe qualquer segurança nocturna por parte da PSP. Os assaltantes, diga-se sem peias, agem completamente em liberdade em qualquer ponto da zona histórica. Eles assaltam cafés, frutarias, roubam presuntos em armazéns, roubam tabaco, louças, jornais e revistas, na mais completa paz dos anjos.
Voltando ao senhor Rui Silva, cujo estabelecimento é na maior avenida da Baixa e com maior movimento e a vinte metros do Quartel dos Bombeiros Voluntários, na noite de 27 deste mês de Dezembro, os ladrões, no mais completo sossego, tentaram arrombar os painéis exteriores do estabelecimento –as marcas estão lá bem visíveis-, mas como não conseguiram, entraram pela porta principal e desta vez rebentaram os cadeados e fechaduras interiores, a grade de ferro que é fortíssima, entraram no pequeno quiosque e levaram tudo o que tinha valor. Ou seja, cerca de 1500 euros em tabaco, louças decorativas, algumas revistas. Teve um prejuízo de mais de 2000 euros. Agora pasme-se: como a máquina registadora estava fechada, tranquilamente levaram-na consigo.
Para azar do senhor Rui o alarme, recentemente adquirido, da SecuritasDirect, com serviço ligado a uma central, de vinte e quatro horas, e recurso a videovigilância por foto, não funcionou.
Pensem um pouco comigo: para fazer tudo isto foi preciso muito tempo. Ora, numa artéria de largo movimento, como é isto possível? Se calhar é porque ninguém se importa com nada, pelo menos se não lhe disser respeito. Para onde caminhamos? Não sei. Sem querer ser pessimista, mas prevejo que a curto tempo as montras de vidro desaparecerão da cidade, e, a ser assim, pensem um pouco, como será andar à noite? Quem vai andar por aqui? Estou a ser um apologista da desgraça? Se calhar estou, mas é triste que quem está à frente da cidade –o presidente da Câmara, o Governador Civil, o Comandante da PSP e o Director da Polícia Judiciária- não vejam isto. Digo “à frente da cidade” porque infelizmente não é apenas um problema da Baixa é de toda a cidade de Coimbra. Para onde caminhamos e que cidade, enquanto ponto social de convergência humana, estamos a construir? Talvez fosse altura de se convocar a sociedade civil para debater este problema. Atribuir culpas aos códigos de Processo e Penal é escamotear a questão no seu essencial. É uma deriva que já vem detrás. Esta busca obsessiva pelos direitos humanos, no sentido da desvalorização do acto contra-ordenatório há-de levar á falência deste modelo societário que estamos a viver. Esperem para ver…

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

BAIXA: COMUNICADOS SUBVERSIVOS



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Lusitaniagás Ensulmeci
Galp energia esphera engenharia


AVISO

A Ensul Meci, S.A. ao serviço da Lusitaniagás, S.A., informa os estimados moradores e Comerciantes, que irá proceder à instalação da Rede de Gás Natural no Vosso arruamento.
Os trabalhos terão o seu início na semana de 05/01/2009 e fim previsto para 31/01/2009.

Agradecemos a Vossa compreensão, pedindo desculpas pelo incómodo causado.

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1-Hoje, de manhã, alguns comerciantes da Rua das Padeiras foram presenteados com comunicados (avisos) que mostro em cima. Com as dificuldades de tesouraria que todos sentem, e uma vez que a época de saldos começou no Domingo, a seu ver, nesta altura, estas obras, a começar agora, serão um verdadeiro atentado à permanência do comércio de rua. A indignação perpassava de boca em boca.
Olhando o comunicado, e conforme se pode verificar, no canto esquerdo, vêm identificados com o logótipo da Lusitaniagás e, no canto direito com a sigla da Ensulmeci.
Segundo este aviso, “A Ensul Meci, S.A. ao serviço da Lusitaniagás, S.A., informa os estimados moradores e comerciantes que irá proceder à instalação da Rede de Gás Natural no Vosso arruamento.
Os trabalhos terão o seu início na semana de 05/01/2009 e fim previsto para 31/01/2009”.
Começando pela forma de comunicação de A Ensul Meci –que, para além de se saber que é uma empresa subcontratada pela Lusitaniagás, ninguém sabe quem é-, esta empresa procede como se a Baixa fosse uma quinta de sua propriedade. Através do aviso é “o quero, posso e mando”. Segundo declarações do presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, “ninguém me comunicou absolutamente nada. A junta não tem conhecimento de quaisquer trabalhos a efectuar na Baixa. Até porque, por lei, são obrigados a comunicar qualquer intervenção que se efectue no centro histórico à junta”.

2-Tendo saber informações, acerca do procedimento a adoptar, e uma vez que o comunicado não indicava qualquer número de telefone, liguei então para a Lusitaniagás para que, enquanto comerciante, legitimamente, me fossem prestados esclarecimentos. Segundo a funcionária desta empresa, “não poderia prestar quaisquer informações porque só a Galp Energia, em Lisboa, através do “apoio ao Cliente” o poderia fazer; depois de me ter facilitado o número de telefone, liguei então para Lisboa: “atendeu-me uma senhora e, amavelmente informou-me que “não senhor, dali não o poderia fazer, o melhore era ligar para Coimbra para a Loja do Cidadão, mas, como não tinha o número de telefone, o melhor era que eu ligasse para uma empresa em Coimbra, a Sotecnigás; depois de me dar o contacto, liguei então para esta empresa: o funcionário que me atendeu, um pouco surpreso, lá me foi dizendo que não sabia responder, quem o poderia fazer era “A Ensul Meci”, a tal firma subcontratada pela Lusitaniagás”. Nesse caso, pedi, por favor, dê-me o contacto. “Eu daria de bom grado, mas estão de férias. O melhor é o senhor voltar a ligar para a Lusitaniagás”; Voltei então a ligar a esta empresa e novamente a funcionária ratificou que o apoio ao cliente era em Lisboa, na Galp Energia; Voltei a ligar a esta empresa, já com outra funcionária, e após muita insistência, advogando o meu direito à informação, a senhora começou a pedir os meus dados. Às tantas perguntei quando me era enviada a informação? “isso não posso responder. Não sei!”;

3-Os comerciantes alarmados, para além de comunicarem aos jornais da cidade a atrocidade que estava prestes a ser cometida, contactaram a ACIC e a APBC, na pessoa do seu presidente, Armindo Gaspar, e o presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, Carlos Clemente.
Graças ao esforço conjunto, às 17,30, já se sabia que as obras tinham sido adiadas para depois de 15 de Fevereiro.
Saliento o bom desempenho das entidades envolvidas, mas muito particularmente do presidente da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, e de Carlos Clemente, que estiveram muito bem e à altura das circunstâncias. É assim, deste modo pragmático, que os comerciantes esperam das entidades que os representam: rapidez e defesa absoluta dos seus direitos;

4-O calcetamento das ruas da Baixa foi feito em calçada portuguesa, há cerca de 8 anos, no âmbito do Procom (Programa de apoio à modernização do comércio). Foram gastos milhares e milhares de euros no embelezamento destas artérias. Admite-se que passado tão pouco tempo se esventre outra vez estas martirizadas ruas? Porque não foram deixadas condutas já para precaver o gás Natural?
Claro que isto acontece aqui porque somos um país rico e até nos podemos dar ao luxo de arranjar, estragar, arranjar estragar. Enfim!, um disparate, da qual já todos nos habituámos. Nem percebo o porquê desta minha admiração.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO


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Anvilfolk deixou um novo comentário na sua mensagem "O FERRO FORJADO EM COIMBRA (1)":

Saudações,

Já há uns bons meses que estou para aqui deixar uma mensagem. Tenho o livro, e realmente é uma obra única. Adorei!

Peço que me perdoem esta publicidade descarada, mas criei há algum tempo um fórum online em português, cuja temática é a do ferro forjado. Está muito vazio, tanto por falta de utilizadores como por falta de tempo minha para tentar o dinamizar mais - mas espero através desta mensagem cativar mais alguém. São todos bem-vindos! Podem aceder a ele no seguinte endereço: www.ferroforjado.org/forum/

Caro Lapa, que coincidência! Deixou a sua mensagem precisamente hoje, e nem sei o que me fez vir aqui depois de tanto tempo. Se me puder dizer, o que faz o Zé Chaves? Continua a arte do avô?

Adoraria entrar em contacto com a família de Lourenço Chaves de Almeida, e se possível arranjar uma cópia do Album de Trabalhos tantas vezes referido no livro. Seria algo absolutamente fantástico para colocar no fórum mencionado anteriormente, para que tenhamos todos algo a que aspirar!

Agradeço qualquer resposta!

Tenham umas boas entradas no ano novo!

sábado, 27 de dezembro de 2008

UM CHUMBO NA ORTODOXIA LABORAL



Em Portugal, habituámo-nos a aceitar as decisões institucionais como dogmas inquestionáveis, axiomas, verdades sem contestação. E se estas instituições estiverem erradas? E se a sua composição estiver viciada ideologicamente, poderão as suas deliberações serem isentas na procura do bem comum?
Podemos interrogar, em tempo de crise de valores e princípios, porque há-de a doutrina ideológica, assente numa cúpula, defender, petrificada e acerrimamente, os paradigmas sociais que, paradoxalmente, nada têm a ver com os dias que vivemos, e comportar-se como um elefante numa loja de porcelanas?
Como certamente já viram estou a escrever sobre o recente chumbo do Tribunal Constitucional sobre o alargamento do período experimental para a generalidade dos trabalhadores de 90 para 180 dias.
Metaforicamente, e, sem ofensa, perdoem-me os visados, o estúpido exemplo a que vou recorrer: faz-me lembrar as Testemunhas de Jeová deixarem morrer um seu membro porque, por princípio, são contra as transfusões de sangue. A sociedade se, por um lado, não deve perder de vista os seus valores e princípios –eles serão os fios condutores da nossa fundamentação e orientação na nossa forma de agir- por outro, se não tivermos em conta a dinâmica da vida, considerando-os eternamente estáticos e petrificados além-tempo, tornando-nos escravos deles, passamos a ser marionetas dessa mesma doutrina ou de quem a apregoar. Os valores e princípios –não são a mesma coisa: por analogia, os “valores” serão os vasos sanguíneos, e os “princípios” serão as artérias principais no corpo humano- deverão ser como a cultura, vão mudando conforme o tempo vai passando, embora, diga-se, a propósito, que os princípios são mais arreigados à comunidade e, por isso mesmo, mais difíceis de mudar.
Voltando ao veto do Tribunal Constitucional, a larga ovação de toda a classe política, ainda que de forma hipócrita, sobretudo o partido da oposição (o PSD), de todos os sindicatos, e ainda da maioria das associações patronais, exceptuando a CIP, Confederação da Indústria Portuguesa, todos bateram palmas à medida daquele órgão de soberania.
O que será melhor para o país, será continuar a manter pessoas sem trabalho, sem nada ganharem, ou, pelo contrário, mesmo a título precário, durante seis meses, terem ocupação? Porque será que se tem tanto medo do trabalho flexibilizado? Será porque se a lei se tornar mais dinâmica e extensível à “praxis”, o que passa a contar é a dedicação e o esforço que cada um desenvolve em prol da empresa onde labora?
O que acho estranho é todas as correntes partidárias centro-direita estarem de acordo de que a nossa legislação laboral é estática e antiquada e condutora de mais desemprego pelo elevado proteccionismo, porquanto essa mesma protecção concorre para o desinteresse, o abstencionismo e a falta de produtividade do empregado, e, perante este chumbo do Tribunal Constitucional todos mostrarem um sorriso de hiena.
O grave é a falta de visão, de uns, que exercendo clausulas-barreiras, condicionam o futuro de uma sociedade, sem ter em conta que vivemos no século XXI, um tempo pragmático, que não se contenta com orientações do passado, e de outros, que, sabendo que só defendendo o indefensável, através da manipulação colectiva, continuarão a existir.

A ACIC E A APROVAÇÃO DA MEDIA MARKT NA BAIXA




Segundo o Diário de Coimbra de ontem, “(…)na reunião da Comissão Regional que aprova os licenciamentos (que integra a Direcção Regional de Economia, a Câmara Municipal de Coimbra e a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, entre outros), (…) foi dada luz verde à instalação da Media Markt na Avenida Fernão de Magalhães, nas instalações hoje ocupadas pela Auto-Industrial. (…) Este processo teve o voto negativo da ACIC. Aquela associação representativa dos comerciantes da cidade tem assumido a necessidade de se efectuarem estudos de mercado para se saber da real necessidade de colocar grandes unidades comerciais nos centros urbanos, pelo que enquanto este tipo de processos não for acompanhados de estudos justificativos, o seu voto será negativo em defesa do comércio tradicional”.
Tenho de abrir com uma conclusão interrogativa: porque será que os sindicatos e associações patronais em Portugal pararam no tempo? Agem sempre com o mesmo discurso: ou seja, a defesa intrínseca dos seus associados, que, aliás, era o mesmo tipo laudatório há cerca de dois anos. Acontece que de há um ano para cá, na economia, muita coisa mudou para pior, e, assim sendo, seria previsível que estas instituições tivessem uma dissertação de acordo com os ventos que correm. O que se lhes pede é que percam a sua forma estática e petrificada e, aqui sim, no verdadeiro interesse dos seus associados, saiam das suas secretárias e se tornem mais flexíveis. O que se lhes é solicitado nem é muito, é apenas que mudem o seu ponto de observação, desçam à terra, e defendam não a ortodoxia dos discursos anteriores, tipo cassete, em que já ninguém acredita, mas sim o verdadeiro interesse colectivo e nomeadamente dos seus filiados.
Voltando à posição da ACIC e ao seu veto na Direcção Regional, parece que esta associação não anda por aqui. Parece uma entidade nefelibata, que anda nas nuvens, e ignora o verdadeiro estado do comércio na Baixa.
Há um ano para cá encerraram largas dezenas de lojas, entre elas algumas com histórias de quase um século de vida comercial. Hoje, em consequência destes encerramentos, está a assistir-se à desertificação de várias ruas e praças na zona histórica. Há artérias que quase já não têm movimento pedonal pela falta de estabelecimentos comerciais. E mais: como a partir do cair da noite começam a ser frequentadas por prostitutas e toxicodependentes, os poucos comerciantes resistentes estão a encerrar as suas lojas às 18 horas com receio do que lhes possa acontecer.
Se até há um ano atrás faria algum sentido empregar a velha máxima, em representação mental, de que era preciso salvar o comércio de rua para manter e, do mesmo modo, salvar a Baixa, hoje, em face dos encerramentos consumados e que se avizinham, contrariamente, faz perfeito sentido mudar o conceito: neste momento é preciso salvar a Baixa para preservar e defender, os que vão tentando aguentar-se. E é aqui, escolhendo o mal maior, que a posição da ACIC é errada. Até porque, no caso do Media Markt, sendo de componentes electrónicos e electrodomésticos, não vem prejudicar o ramo congénere. E porquê? Porque simplesmente este tipo de loja desapareceu nos últimos anos. Tendo em conta que ainda existem alguns, poucos estabelecimentos na Baixa, aceitar aquela média-superfície, enquanto pólo dinamizador, olhando o futuro colectivo, é escolher o mal menor.
Além de mais, esta zona monumental precisa de lojas-âncora, que para além de estarem abertas até quase à meia-noite, contribuindo para a segurança nocturna, tragam pessoas para esta parte velha da cidade. Ao que parece o centro comercial aprovado para as instalações da antiga Triunfo está em “banho-maria”. Para este empreendimento, para além de lojas, estavam planeados cinemas interactivos e outros projectos lúdicos. Ora, é o que a Baixa precisa e é uma pena se não for concretizado.
Ninguém pense que a luta contra os grandes centros comerciais instalados na periferia da cidade pode ser feito, "taco-a-taco", pelo comércio de rua. Nem pensar! Nem com milagres de S. António. O consumidor, abstractamente, é um “ser” frio, sem coração, que age apenas pelo seu comodismo e interesse. Pouco se importa se consome estrangeiro ou nacional, o que lhe interessa é o preço mais barato. Para se combater estas mega-superfícies, desviando os consumidores, só utilizando a sabedoria popular de que “mordedura de cão se cura com pêlo de cão”. Ou seja, é preciso abrir nos centros históricos médias superfícies para desviar os consumidores das suas semelhantes da periferia da cidade e, naturalmente, por inerência, trará uma nova vida ao centro e aos comerciantes que resistirem. Segundo alguns estudos económicos, as mega-estruturas comerciais, no país –exceptuando Lisboa- atingiram o pico máximo de exploração, estando já algumas em declínio e saturação -como é o caso das de Coimbra- o que quer dizer que basta uma estratégia inteligente para que a médio prazo as grandes marcas retornem aos centros históricos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL





Dito assim, parece mais uma mensagem circunstancial igual a tantas outras. Bolas!, mas não é isso que eu quero. Vocês, leitores deste blogue, que têm tido a paciência de ler o que eu escrevo, merecem mais do que uma simples mensagem do tipo: toma lá e vai-te embora. Não é esse tipo de “encomenda” que vos quero entregar.
Tenho que dizer duas coisas em relação ao Natal. Por um lado, não gosto deste período. É um tempo triste e depressivo. Psicologicamente tem uma explicação, sei o motivo porque não gosto, mas não vos vou contar, que isso, para aqui, é irrelevante.
Socialmente, este tempo “santo”, para mim, deixa algo a desejar. É o Dezembro do “feliz Natal”, quase por obrigação recíproca. A prendinha dada quase da mesma forma. É a preocupação a termo certo com os mais pobres e carenciados. É como se durante este mês caísse uma nuvem social de boa vontade e depois, quando ela desaparece, lá para Janeiro, tudo volta à normalidade. Não queria ser demasiado duro, mas é um tempo que tem acoplado muita hipocrisia.
Mas uma coisa é certa, mesmo retirando toda esta carga nublada, acho que o Natal, igualmente a outras datas que pretendem chamar a atenção, são importantes. Ainda que durante pouco tempo, como bandeira de armistício, salienta o que de melhor existe dentro de nós: a paz, a solidariedade, a bondade, o respeito pelo outro e a preocupação social.
Quando tenho dúvidas em relação a qualquer coisa, tenho por costume fazer a aferição entre o mal maior e o mal menor. É assim uma espécie de balançar entre custos e proveitos. Quando chego à conclusão de que o mal menor é a opção, como quem diz, que os proveitos para a sociedade são maiores que os prejuízos (custos) não tenho nenhuma dúvida em embarcar no mesmo cruzeiro social. E é o que penso em relação ao Natal, mesmo com todas as premissas que enunciei, e na impossibilidade de o prolongar, é bom existir um Natal por ano.
Boas festas a todos e muito obrigados pela pachorra que têm tido ao “visitar-me” diariamente. O meu sincero obrigado, e, neste tempo de tristeza económica, em que parece não haver luz no horizonte, façam os possíveis por serem felizes e não percam a esperança. Não esqueçam que o sol todos os dias nasce. Nos momentos mais tristes pensem nos passarinhos, que nada tendo materialmente, continuam no seu chilrear de alegria. Sorriam o mais que puderem, por enquanto não paga imposto.
Um grande e apertado abraço a todos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O CULTO DA IMAGEM?



Eu, provavelmente contra a sua opinião, acho que a cidade de Coimbra é esquisita. Ou melhor dizendo, dentro do todo nacional é o melhor paradigma do pacovismo lusitano. Quem percorre as ruas da cidade, como fotógrafo ocasional, olha um rosto ali, outra expressão acolá, vai-se apercebendo de alguns cromos sociais que existem cá no burgo. Claro que também me incluo no lote.
Lá vou eu falar outra vez do filósofo José Gil e do seu livro de 2005 “O país da não-inscrição”. Desculpem lá!, mas, para além de eu não conhecer muitos filósofos, este, quanto a mim, com três pinceladas, é o que melhor retrata, duma forma caricatural, as nossas gentes.
E porque fiz eu esta introdução, interroga você? Olhe, há cerca de dois meses, quatro dezenas de comerciantes foram à reunião do executivo lamentar o estado de abandono em que estavam votados e cujas consequências têm sido imensos assaltos durante a noite aos seus estabelecimentos. Logo a seguir vieram as duas instituições representativas dos comerciantes, a ACIC e a APBC, no Diário de Coimbra, desmentir: “que não senhor, não era verdade dizer-se que a Baixa estava a sofrer uma vaga de assaltos, o que se passava aqui era igual ao resto do país”. Digam lá se não é estranha esta tomada de posição? No mínimo, levando em conta o bom senso, o que se esperava destas entidades é que se colocassem ao lado dos comerciantes lesados. Era, ou não era? Vamos lá nós entender isto!
Mas há mais: no mesmo jornal um comerciante, proprietário de duas ourivesarias na zona histórica, contrariando os factos provados, afirmava, preto no branco: “não senhor, não havia insegurança nenhuma. Podiam contar-se pelos dedos as casas assaltadas na Baixa”. Como se fosse pouco, ainda dizia mais: “a Baixa é tão segura que eu chego a transportar, durante o dia, ouro dentro de pastas entre os meus estabelecimentos”. Lindo! Este desapego, arriscando, com as suas declarações, ser assaltado um dia destes, é simplesmente sublime.
Na segunda-feira, dia 22, o Diário de Coimbra, em primeira página, noticiava com foto em grande plano, que um comerciante tinha sido bafejado com a sorte. No caso em análise, tinha ganho 300.000 euros na lotaria do Natal. Por coincidência também dono de uma ourivesaria na Baixa. Bonito! Com este gesto altruísta, este homem merecia ganhar mais uma medalha.
Digam-me lá, se fosse convosco, se tivessem ganho um prémio chorudo, expunham-se assim? Pois não! Aí é que se vê a fibra deste comerciante.
Outro caso ainda e, por coincidência, também dono de ourivesarias: quem entra em Coimbra de norte para sul, na Casa do Sal, próximo da Estação de Coimbra B, é surpreendido com o cartaz que reproduzo. E o que tem o cartaz de especial, interroga você? Não sei, há qualquer coisa no cartaz que não bate certo. Olhando o “outdoor” publicitário verificamos que, para além de fazer publicidade a várias marcas de relógios, naturalmente foca também a ourivesaria que os vende. Até aqui, quanto a mim, tudo normal. A fotografia em grande plano do proprietário é que não entendo. Você entende? Se calhar, com o meu habitual mau-feitio, lá estou eu no corte. “É inveja”, pensa você. Se calhar até tem razão. Às tantas é isso mesmo!
Mas uma coisa é certa, há aqui qualquer coisa que não bate certo. Será que os seus egos serão tão grandes que não cabem numa cidade “não-inscrita” como Coimbra? Farto-me de matutar e não chego a nenhuma conclusão.
Uma coisa garanto, e serve de ressalva de interesses: eu não tenho nada contra os vendedores de ourivesaria da cidade. Palavra de honra. Juro pela minha avozinha.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

FOI APROVADA A VIDEOVIGILÂNCIA



Segundo a TVI, “finalmente, foram aprovadas 12 câmaras de videovigilância para a cidade de Coimbra, que começarão a funcionar a partir do próximo mês de Janeiro”. Como se subentende esta aprovação foi consignada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados. Segundo o Rádio Clube de Coimbra irão funcionar das 20 às 8 horas. Ou seja, funcionarão apenas durante a noite.
Lembro que inicialmente foram aprovadas 17 câmaras para a Alta e para a Baixa da cidade pelo executivo municipal de Coimbra.
Contra o parecer do “camarada” Gouveia Monteiro, aquando da aprovação em sessão do Executivo Municipal, em 31 de Março de 2008, que na altura afirmou: “trata-se de uma ideia que não tem a minha simpatia. Esta instalação deve-se à pressão exercida pelos comerciantes da Baixa”. O “barão vermelho” logo poderia ter formalizado a que comerciantes se referia –seria a todos? Por outro lado, também nessa altura, ficámos a saber que o seu amigo edil de Almedina afinal era permeável. Engraçado, e nós comerciantes da Baixa a pensar que o homem é frio como o gelo que está na Praça Velha.
Também, na altura, João Silva, ex-vereador do PS no mandato de Manuel Machado, em 20 de Dezembro do ano passado, no Diário de Coimbra, desancava Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, acerca deste ter intenção de aplicar na Baixa o sistema de videovigilância. Argumentava o “Pacheco Pereira” do partido Socialista na cidade dos estudantes que o perfeito da Praça 8 de Maio, com esta demanda, “se associou a uma campanha de insegurança psicológica –que abalou fortemente a actividade comercial da Baixa”.
Com um discurso tão parecido, entre vereadores do PS e PCP, é caso para perguntar porque será que a esquerda tem tanto medo da videovigilância? No limite até se poderia interrogar: se não gostam das câmaras o que fizeram para pugnar pela segurança física dos comerciantes, nomeadamente reivindicando protecção da Polícia de Segurança Pública? Eu respondo: nada! Para estes senhores –que diga-se a favor da verdade são elementos inseridos na dita “esquerda”, mas não representam a facção no seu todo, embora se saiba que, infelizmente, esta é a posição ideológica da esquerda radical e “light”- vale mais a total liberdade individual do que os haveres de quem trabalha. É que, no fundo, nas suas cabeças, os comerciantes, metaforicamente, ainda continuam a representar o “grande Capital”, mesmo que estejam mais “lisos” que qualquer indigente que “trabalha” nas ruas da cidade.
Mas, já agora, a talhe de foice, o que representam estas 12 câmaras de videovigilância para o comércio da Baixa, na opinião de um comerciante?
Pouco, muito pouco ou nada! Esta medida securitária não passa de atirar areia para os olhos dos profissionais de comércio. Não vai remediar absolutamente nada. Vamos fazer um pequeno exercício de retórica: imagine que você e eu somos ladrões (já agora de classe) e queremos dar um bom golpe –é óbvio que não vou contar aqui o plano, isso é connosco. Ora, se sabemos onde estão colocadas as câmaras o que teremos de fazer primeiro? Isso mesmo. Eliminá-las, ou então, logicamente, iremos encapuzados.
Continuando a falar no lugar de um comerciante, ainda lhe digo mais: este sistema só será parcialmente aproveitável –na prevenção e jamais na eficácia- se tiver agentes a vigiar continuamente os ecrãs. Se assim não for, e se o objectivo é gravar as ocorrências, ficamos na mesma. Só se vai actuar depois do facto consumado.
Uma coisa tenho a certeza, contra a insegurança devemos agarrar todos os meios ao nosso alcance. Porém, não pense o poder político, de esquerda ou de direita, que com este rebuçado (provavelmente envenenado) vai calar os protestos de quem se considera vilipendiado e ofendido, naquilo que é o mais sagrado fruto do seu trabalho. Se pensam que com esta artimanha vão dispensar o polícia de giro nocturno tirem o cavalinho da chuva.
Se me perguntar se esta aprovação constitui uma vitória perante a insegurança nocturna da Baixa, dir-lhe-ei que é uma vitória…mas de Pirro (se é vitória, foi obtida por um alto preço para os comerciantes, com demasiados assaltos contra o património). A ver vamos…como diz o cego.

"NÃO HÁ PRESÉPIO QUE RESISTA...EM COIMBRA" -E O QUE É QUE RESISTE PARA ALÉM DA INÉPCIA E DO DEIXA CORRER?




“Já não bastava o desaparecimento, nas duas últimas semanas, da imagem do Menino Jesus e da manjedoura. Ontem de manhã, quem passou na Praça 8 de Maio e olhou para o presépio da autoria de Cabral Antunes ter-se-á deparado com um acto “condenável”. O vereador com o pelouro da cultura, Mário Nunes, não consegue entender as razões que levam alguém “a destruir uma obra de arte feita com gosto e que pertence à cidade”, in Diário as Beiras de hoje.
O senhor vereador Mário Nunes (que tenho estima e conheço bem) é licenciado em história de arte. Ora, vamos por partes, não é preciso ser licenciado em sociologia para verificar que os atropelos foram cometidos pelo desleixo em torno da segurança das obras de arte. O que, a ser assim, aconselho o senhor vereador a comprar com urgência uns óculos, porque anda mesmo a ver mal.
Mais ainda: está de ver que quem surripiou o menino, fê-lo, pura e simplesmente, para pôr a nu a incapacidade da PSP em vigiar o que quer que seja. Lembro que, segundo os jornais, para além da personificação do nascimento de Cristo estar colocado a 30 metros de uma esquadra, nessa noite estava um agente a fazer serviço de "gratificado" a uma exposição de queijos mesmo ao lado do presépio. O que quer dizer que o furto do menino e o vandalismo serão actos cometidos por pessoas diferentes.
Acerca do primeiro -o furto-, e tendo em conta que o seu peso era de cerca de 50 quilos, segundo um amigo meu bem colocado, nem é difícil saber onde está o “mal-amado" filho de presépio maltratado. Basta pensar. Mas como isto é uma cidade de estudantes, cheia de vícios desculpabilizantes, tudo está bem, mesmo num caso de furto. Ninguém quer fazer ondas. Aposto cem escudos dos antigos em como o Menino, dentro de dias, vai aparecer como milagre de Nossa Senhora. E o mais engraçado é que não vão ser constituídos arguidos. Foi tudo uma brincadeira…numa cidade que ninguém leva a sério.

ENTÃO COMO É QUE É SENHOR COMANDANTE DA PSP?




Como se sabe, no dia 4 de Novembro, alguns comerciantes e as duas instituições que dizem ser representativas de classe, nomeadamente a ACIC e a APBC, foram recebidos pelo senhor Governador Civil Henrique Fernandes, e onde estava presente o senhor Comandante da PSP, Intendente Bastos Leitão, para que fosse encontrada uma solução para a vaga de insegurança que varre a Baixa durante a noite. Tal facto, no entender dos comerciantes presentes, –saliento o entendimento contrário das duas entidades citadas-, deve-se fundamentalmente à inexistência de policiamento nocturno a cargo da PSP. Nesta reunião, Bastos Leitão reiterou que “não era verdade, a Baixa era bastante policiada. Até de mais, se tivermos em conta o índice de participações feitas pelos comerciantes na Polícia de Segurança Pública”.
O caso que vou contar aqui contraria as afirmações do senhor Comandante da PSP: O senhor Rui Silva é o proprietário da tabacaria Papyrus, na Avenida Fernão de Magalhães. No dia 2 de Dezembro, cerca das 8 horas da manhã, quando se preparava para abrir o seu estabelecimento, constatou que tinha todos os cadeados da grade de ferro rebentados e barras forçadas. Como para além dos loquetes têm ainda fechaduras interiores os “ amigos do alheio” não conseguiram os seus intentos. Mesmo assim, para que a tentativa de assalto constasse nos índices, imediatamente ligou apara o 112 e este serviço transferiu a chamada para os serviços de coordenação da Polícia de Segurança Pública. Segundo o senhor Rui Silva, o agente que o atendeu, perante o “auto de notícia”, respondeu-lhe: “agora não temos pessoal, logo que seja possível passamos para ver”. Até hoje ninguém mais lá passou na tabacaria para indagar o que quer que fosse.
Como não gostou da postura dos serviços da PSP, “a semana passada voltei a ligar para saber da razão da omissão. Pedi para que me passasse a chamada a um superior hierárquico, mas o agente estava reticente em me fazer a vontade. Dizia que eu é que devia ter insistido na reivindicação. Só quando ameacei com o “livro de reclamações” é que me foi transferida a comunicação. Depois de falar com este superior hierárquico (penso), foi então que me pediu desculpas pelo facto de ninguém dos serviços, atempadamente, ter atendido o meu pedido”.

sábado, 20 de dezembro de 2008

UM NATAL ALEGRE



Vagueio pela cidade,
olho rostos sem idade,
à procura de um sorriso;
Daqueles de antigamente
que dando alegria à gente,
lembravam a Pasta Couto;
Que tempos de mocidade,
até me deixam saudade,
daquela alegria louca;
sorrir não era favor,
antes um acto de amor,
nunca uma obrigação;
Mas porquê esta tristeza,
lavrando na incerteza,
para onde foste alegria?
Parece que não há esperança,
perdeu-se a temperança,
não se acredita em nada!;
Mesmo sendo mês de Natal,
parece que está tudo mal,
dentro destes corações;
Até roubam o Menino,
mesmo sendo pequenino,
pr’a provocar emoção;
Quero apenas um sorriso,
daqueles de pouco siso,
que mo dê o Pai Natal;
Mas para isso tem de ser louco,
que de juízo tenha pouco,
só os loucos riem assim.

A LOJA TRADICIONAL E A CRISE QUE ANDA NO AR




Nos dias que correm só se ouve falar da crise económica e das suas consequências. No que se vê e ouve, esta recessão (ou depressão), metaforicamente, é assim uma espécie de basófias –assim era designado o rio Mondego no tempo das grandes cheias- nos seus velhos tempos de grandes enchentes em que a força das águas levava tudo à frente. Só quem estava mais preparado, pelo costume dos anos antecedentes, pondo a salvo os seus haveres, transferindo-os para zonas altas, conseguia fazer face à intempérie da natureza. Claro que muito se perdia e, depois da tempestade vinha a bonança, isto é, segundo as crenças populares, os campos do Mondego ficavam muito mais fertilizados e produtivos. Há quem diga que a degeneração destes celeiros agrícolas, conjuntamente com o abandono dos campos, ocorreram também devido ao “desvio da natureza”, sobretudo, depois da construção da barragem da Aguieira e do controlo do caudal do rio. Claro que, por volta dos anos de 1960, com as ruas completamente alagadas, havia sempre alguém a espreitar o furo, como quem diz, ganhar dinheiro à custa de uma nova necessidade criada em torno da locomoção. Era assim que surgiam sempre, por esta altura, os barqueiros a transportar as pessoas de uma rua para um qualquer largo na zona da Baixa.
Por analogia, se hoje nesta crise continuam a haver alguns “barqueiros”, no dia-a-dia, há muito mais colectivamente. Ou seja, o consumidor, sempre atento às notícias, que duma forma obsessiva matraqueia o mais duro de ouvido, aproveitando bem esta maré depressiva, está transformado num sádico empedernido, que, sem peias de sensibilidade, não se importa de “calcar” um qualquer vendedor.
Então no comércio tradicional é de mais. Como as notícias que se ouvem, de que o comércio está muito mal e em desaparecimento, o comportamento do consumidor, nos pequenos estabelecimentos, hipoteticamente, tem o mesmo efeito devastador de um conhecimento prévio no Japão, antes de serem largadas as bombas atómicas: vender antes que desapareça tudo. Alguns clientes do comércio de rua, entram numa loja, e sem disfarçar, olham para o comerciante como o coitadinho, o indigente futurista. Chegam a perguntar, num tom de voz misturado entre a “caridadezinha” e o sádico: “o senhor não vende nada, pois não? “. Para logo a seguir, interessando-se por um qualquer artigo, oferecer metade do que estiver marcado e rematar: “sabe que não há dinheiro, isto está muito mau?!". Como se o profissional do comércio de rua não soubesse como está a economia. Há casos pouco agradáveis de descrever. E se o conto aqui é porque tenho conversado com comerciantes que me dizem exactamente a mesma coisa. “Às vezes tenho mesmo de ser desagradável. Tenho de dizer que para hoje ainda tenho para o jantar, volte amanhã, porque pode ser que, nessa altura, esteja mesmo cheio de fome e, nesse caso, já vendo a qualquer preço “, exemplifica um comerciante.

NEM O CEGO ESCAPA...






Hoje, o Luís Cortês, um invisual músico que ganha a vida a animar as ruas da Baixa e costuma estar colocado junto à Loja do Cidadão e na Rua Adelino Veiga, junto ao Saul Morgado, foi assaltado em pleno dia. “estava a tocar e à minha frente colocou-se um individuo bem vestido –segundo a vizinhança que deu conta do furto- durante largo tempo. À medida que as pessoas iam deixando as suas dádivas o fulano, sem vergonha, baixava-se e, tudo o que era moeda branca, desviava-as para o seu bolso. Como eu estava a cantar e a tocar e (infelizmente) como sou cego não me apercebi. Sentindo a sua presença, até pensei que ele permanecia aí porque estava a gostar de me ouvir. Afinal o malandro estava a fazer de meu “contabilista”. Já viu isto?! Este caso até de via ir para o Diário de Coimbra, já viu ao que chegámos?!”, queixa-se indignado o Luís Cortês.
Ao que parece a vizinhança, quando se apercebeu do golpe do tal fidalgote, ainda correram atrás dele, mas, debalde!, conseguiu escapar.
É uma historieta, sem dúvida, mas demonstra até que ponto os valores estão mesmo a cair na sarjeta. Pode dizer-se que é a crise económica que contribui para isto, mas não é só, é muito mais do que a necessidade financeira de cada um, é a pouca vergonha, pura e simplesmente! Dá-me impressão que temos de ir a Fafe, para aprender como se faz a justiça por lá. Segundo dizem, parece que a “pedagogia do porrete” é eficaz lá na zona.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

LADRÃO PRENDADO SÓ ROUBA FRUTA DE QUALIDADE




No último fim-de-semana, de 14 de Dezembro, a frutaria da senhora Teresa Santos, ao fundo da Rua Direita, a fazer esquina para o Terreiro da Erva, foi assaltada. “Levaram-me 40 abacaxis (fruto parecido com o ananás), frutos tropicais, frutos secos, kiwis grandes, embalados em caixa, mangas, papaias, olhe que se deram ao luxo de escolher os melhores frutos. Os de pior qualidade deixaram. Isto é que é uma vida! Quem é que aguenta esta situação?”, parece interrogar-me, sabendo que não tenho resposta para o seu apelo.
“Mas olhe que não é só: anteontem, durante a noite voltaram cá e, mais uma vez, escolheram a melhor fruta, revolveram tudo e até umas prendas que tinha dentro de uns sacos para dar aos meus filhos levaram”.
Segundo as suas palavras, misturadas num mar de lágrimas, os ladrões estavam à vontade. “Estacionaram um carro junto aos portões de madeira do estabelecimento, rebentaram os cadeados e fechadura e escolheram calmamente como se andassem numa grande superfície às compras. Eram 1,38 horas da madrugada quando o meu vizinho da frente, ouvindo o barulho, ligou à PSP e contou que mais uma vez o meu estabelecimento estava a ser assaltado. O agente que o atendeu ao telefone disse-lhe que “vou ver se temos algum carro disponível para lá ir “. Pelos vistos, não deveria haver porque não apareceu ninguém da polícia. Foi o meu vizinho que me contactou e registou a hora da comunicação à PSP “.
“Como é que vou conseguir trabalhar assim, já viu isto?”, interroga-me, em pergunta de retórica. “Olhe que estou aqui há 26 anos e, até há dois anos, nunca tive problemas nenhuns, agora, há dois anos para cá, já fui assaltada umas dez vezes. Sinceramente até já lhe perdi a conta. Porcaria de vida!, e “estala” a chorar mais uma vez.
“Foi desde que veio para aí essas instituições (AMI, no Terreiro da Erva) que nunca mais tivemos parança, tanto roubam de dia como de noite. Há umas semanas atrás, durante o dia, levaram-me um saco de castanhas quase cheio. O meu marido ainda foi atrás deles, mas, quando deu conta, já as tinham vendido. Diga-me, senhor, como é que podemos trabalhar assim. Diga-me!”…

AO QUE ISTO CHEGOU!!




A Lena é uma simpática mulher, viva, esforçada que, através do muito querer, torceu a sua própria vida e moldou o destino que lhe estava ensaiado para uma filha de mãe de uma dúzia de filhos criados na pobreza, nas ruas da amargura de uma cidade madrasta para os pobres. Claro que foi há mais de quarenta anos, num tempo em que não havia subsídios à pobreza e quem não tivesse e quisesse comer teria de pedir ou roubar. Tempos desgraçados que quem lá passou só lembrar deprime.
A Lena, habituada ao trabalho duro, instigada desde sempre pela matriarca da casa, a sua mãe, lutou sempre por uma vida melhor. É uma optimista. Quem frequenta a sua tabacaria na rua dos Oleiros sabe bem que não exagero se disser que a Lena que é mesmo uma pessoa especial. A Lena é daquelas pessoas que poderiam ser apelidadas de baterias de recarga anímica. Chegamos ao pé dela com cara carregada com um problemazito, mas quando vemos aquela mulher “mignon” quebrar o ambiente com um sorriso em estardalhaço, pensamos para nós se realmente teremos razão para andar tão tristes. Aquela mulher é uma luz na depressão colectiva que alastra nesta cidade.
Ultimamente anda muito triste. Parece um sol deprimido sem luz e a tremer de frio. Ou metaforicamente, um candeeiro à média luz, como se tivesse perdido aquela vontade férrea de levar tudo à frente.
Quando lhe pergunto a razão de tanta tristeza, como se estivesse à espera da pergunta, responde: “ olhe, já passei muito na vida, já comi o pão que o diabo amassou, mas nunca perdi a coragem, mas agora, perante o que se está a passar, não sei o que fazer: voltei a ser outra vez assaltada!”.
No dia 4 deste mês de Dezembro, durante a noite, a sua tabacaria foi assaltada e roubaram mais de mil euros em tabaco. Anteontem, de quarta para quinta-feira, passavam poucos minutos depois da meia-noite, voltaram a quebrar o vidro da porta e a forçar a entrada na tabacaria. Só não entraram porque um vizinho do mesmo prédio, apercebendo-se do barulho, acendeu todas as luzes e chamou o elevador. Perante o receio de serem descobertos os energúmenos fugiram. Embora não levassem nada materialmente da tabacaria, a verdade é que, com mais este golpe, parecem ter levado a alma da Lena. “começo a não ter forças para lutar contra estes bandidos. Valerá a pena lutar assim? “, interroga-me em súplica, enquanto uma lágrima balança no seu lindo rosto de mulher. “Veja ao que chegámos!, agora todos os dias arrumo tudo antes de ir embora e coloco este papel na porta”.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

DEPOIS DO FALHANÇO DE FRIEDMAN, KEYNES SERÁ RESSUSCITADO?




Antes de começar este texto, como declaração de interesses, ressalvo que não percebo nada de economia. Claro que você pode interrogar-se: “e quem percebe?”. Então e eu sei lá?! Quanto a responder por mim isso posso: tento compreender, investigando, mas não sei nada. Claro que pode voltar a interrogar: mas se não percebe porque escreve? Olhe, porque tenho de escrever alguma coisa e, afinal, se outros, que dizem perceber, não acertam “uma para a caixa”, quem sabe se eu não percebendo mesmo nada, numa espécie de lotaria, possa acertar em qualquer coisa? No mínimo vou voando sobre o ninho da economia.
Claro que você já está a perguntar-se: mas afinal o que quer este tipo? Calma!, eu vou já directo ao assunto que me trouxe até aqui.
Ontem o Jornal Público publicava um a longa carta, com data de 20 de Novembro, de Paul Krugman, prémio Nobel da Economia 2008. O que achei mais interessante foi a sua acérrima defesa das teorias de John Maynard Keynes. Como se sabe este brilhante economista inglês (1883-1946) esteve por detrás da recuperação económica dos Estados Unidos, aquando da “grande depressão” de 1929, através de uma série de programas económicos (New Deal –Novo Acordo) entre 1933 e 1937. Contrário às teorias de “laissez faire, laissez passez” (deixai fazer, deixai passar), de Adam Smith e David Ricardo, que defendiam a auto-regulação do mercado pelo próprio mercado e a favor do mercado livre nas trocas comerciais e contra o proteccionismo, ou seja, as bases do liberalismo económico, Keynes defendia a intervenção do Estado no relançamento da economia, através de grandes obras públicas, com implicações directas no emprego (Teoria Geral do Emprego, juro e moeda, de 1936).
Voltando ao Público de ontem e a Krugman, dizia então o laureado pelo Nobel de 2008 que “o que o mundo precisa neste momento é de uma operação de salvamento. (…) e para conseguir isto, os decisores políticos à volta do globo têm de fazer duas coisas: colocar de novo o crédito a circular e estimular o consumo. (…) o que está por trás das restrições ao crédito é uma combinação de pouca confiança e capital pulverizado nas instituições financeiras. As pessoas e as instituições, incluindo as financeiras, só querem lidar com quem tenha um capital substancial para garantir os seus compromissos, mas a crise esgotou o capital em toda a parte. A solução óbvia é injectar mais capital. (…) em 1933, a administração Roosevelt usou a companhia de Reconstrução Financeira para recapitalizar os bancos, comprando acções preferenciais (…). Em todos estes casos a cedência de capital ajudou a restaurar a capacidade dos bancos para efectuar empréstimos e desbloqueou os mercados de crédito.”
Continuando a citar Krugman, “(...) O próximo plano deve concentrar-se em manter e expandir os gastos governamentais –manter através de ajudas às administrações locais e estatais, expandir com gastos em estradas, pontes e outros tipos de infra-estruturas. (…) Se a despesa pública for estimulada a uma velocidade razoável, deverá chegar muito a tempo de ajudar –e tem duas grandes vantagens relativamente a benefícios fiscais. Por um lado, o dinheiro seria efectivamente gasto; por outro, algo de valor (por exemplo, pontes que não caiam) seria criado. (…) A fase definidora da economia é suposto ser “Não há almoços grátis “; quer dizer que os recursos são limitados, que para termos mais de uma coisa temos de aceitar menos de outra, que não há ganho sem sofrimento. No entanto, a economia de depressão é o estudo de situações em que existe um almoço grátis, se conseguirmos perceber como pôr as mãos em cima dele, porque existem recursos ainda não utilizados que podem ser postos em acção. A verdadeira pobreza no mundo de Keynes –e no nosso- era assim, não de recursos, ou mesmo de virtudes, mas sim de compreensão. (…) Há quem diga que os nossos problemas económicos são estruturais, sem possível cura rápida; mas eu acredito que os únicos obstáculos estruturais importantes para a prosperidade mundial são obsoletas doutrinas que confundem as mentes dos homens”.
Certamente já viu porque publiquei extractos da carta do grande economista. Como sabe esta é a teoria económica defendida pelo Primeiro-Ministro José Sócrates para o nosso país, isto é, relançar a economia através de grandes obras públicas, tais como o TGV, o aeroporto, construção de novas auto-estradas e também o relançamento do consumo pelas famílias –que, a propósito, não se sente- com o apoio aos bancos em grandes operações financeiras.
Depois de ouvirmos Medina Carreira, no programa da SIC Notícias, dizer que ressuscitar as teorias económicas de Keynes em Portugal era um verdadeiro disparate, tendo em conta que somos um país que se abastece no estrangeiro e que não é auto-sustentável. Disse ainda (com muita lógica) que se se relançar o consumo das famílias através da injecção de crédito, para além da inflação disparar, a receita gerada vai direitinha para os nossos fornecedores além-fronteiras.
Depois da “morte” recente e enterrada das teorias económicas neo-liberais de Milton Friedman, quem tem razão? Eu cá não sei. Limitei-me a transcrever as opiniões de quem diz saber, porque, se calhar, você está tão perdido nestes labirintos como eu. Apenas tentei acender um fósforo nesta noite escura.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

VENHA À BAIXA E VÁ AO TEATRO DE BORLA



A Companhia de teatro A Escola da Noite, numa campanha promocional com o título “O Teatro Voltou à Baixa”, tentando ajudar a trazer vida a esta parte monumental da cidade, até 20 de Dezembro, de terça a sábado (18,30 e 21,30), está a oferecer ingressos gratuitos para o seu espectáculo “700 máscaras à procura de um rosto ou um artista da fome”, no Teatro da Cerca de São Bernardo, junto ao Pátio da Inquisição. O espectáculo é para maiores de 12 anos e tem a duração de 45 minutos. A instalação teatral é de António Jorge e o texto é de Franz Kafka.
Para isso basta entrar numa das muitas lojas do centro histórico e pedir um Vale para o teatro. A seguir telefone para os números 239 718 238 ou 966 302 488 e reserve antecipadamente o seu lugar.
Vou indicar-lhe alguns estabelecimentos onde pode solicitar gratuitamente o ingresso: O Encanto da Freiria, no Largo da Freiria; Ricarlina, no Largo da Maracha; Sapataria Charles, na Rua Ferreira Borges; Perfumaria Pétala, na Rua Visconde da Luz; Florista Tulipa Negra, na Rua Eduardo Coelho; Livraria XM; Lusalar, na Rua Simões de Castro; Tecidos de Coimbra. Na Rua das Padeiras; Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio; Bar Quebra-Costas, nas Escadas de Quebra-Costas; Mercado Municipal; etc.
Parabéns à direcção d’A Escola da Noite por esta meritória iniciativa.
Para terminar, deixo-lhe uma perguntita pequenina, daquelas de bolso: há quanto tempo não vai ao teatro?

O PAÍS DA NÃO-INSCRIÇÃO





Se o ridículo desse felicidade, hoje em Coimbra andávamos todos felizes. Refiro-me, obviamente, à notícia do Diário de Coimbra (DC) em título de última página: “adiada abertura do Mosteiro de santa Clara-a-Velha”.
Prosseguindo a prosa do DC, “A falta de disponibilidade de agenda das individualidades ditou o adiamento da inauguração oficial do “novo” Mosteiro de Santa Clara-a-Velha para Janeiro ou Fevereiro de 2009”.
"(…) Contactado pelo DC, o director regional da Cultura, António Pedro Pita, justificou que a abertura ao público deste sítio arqueológico “está a preparar-se com muito cuidado” tendo em vista a “reabertura protocolar, que poderá ocorrer em Janeiro. “Precisamos de uma avaliação geral da situação e achou-se que era preferível, só isso”, limitou-se a dizer António Pedro Pita”.
Continuando a citar o DC, “À semelhança do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, também o Criptopórtico do Museu Nacional Machado de Castro tem a sua inauguração adiada, neste caso para Janeiro de 2009, “em data a anunciar”.
Nestas questões de inaugurações, e transversalmente a todos os partidos no poder, já vimos de tudo. Já vimos inaugurar edifícios sem estarem acabados, outros sem estarem começados; já vimos inaugurar troços de estrada sem ligações intercalares a outras vias; já vimos também obras concluídas com inaugurações adiadas “sine die” à espera de período de eleições; já vimos também inaugurar uma obra que já há muito estava a ser utilizada. O que nunca tínhamos visto é ser anunciadas duas inaugurações e na véspera cancelar a alegoria por falta de oportunidade protocolar. Tanto é que a maioria dos jornais nacionais publicitam a abertura dos dois espaços museológicos.
Perante este facto, no mínimo caricato, vem-me à memória o filósofo José Gil e “o país da não-inscrição”, de 2005, quando lançou no prelo o “Portugal Hoje, o medo de existir”. Ou seja, com este acto de “não-inscrição”, Coimbra mostra ao restante país que realmente fazemos história não fazendo, ou melhor, fazemos a notícia, mas… logo a seguir desfazemos. E como reagimos perante este não-acontecimento? Quanto muito perante esta falta de respeito pelos conimbricenses limitamo-nos à exclamação do apresentador do telejornal: “É a vida!”, mostrando a resignação e a desvalorização cultural empírica, perante actos atentatórios da razão, mas consumados de uma forma ligeira e irresponsável, e no qual o filósofo se amparava para mostrar a nossa vencida forma de estar e de existir.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

UM SUSPIRO DE ALÍVIO



“CONTRIBUINTES A RECIBO VERDE LIVRES DE MULTA APÓS RECUO DAS FINANÇAS”

“AS COIMAS DE 248 EUROS A CERCA DE 200 MIL TRABALHADORES JÁ NÃO VÃO SER APLICADAS.
A DECLARAÇÃO FISCAL EM FALTA PODE SER ENTREGUE ATÉ JANEIRO”, IN JORNAL PÚBLICO DE HOJE.

*********ENSAIO PARA UM PORTUGUÊS MAIS CLARO**********

AS COIMAS DE 248 EUROS, ANUNCIADAS PREVIAMENTE PELA DGF, DIRECÇÃO-GERAL DE FINANÇAS, JÁ NÃO VÃO SER APLICADAS AOS CERCA DE 200 MIL TRABALHADORES RELAPSOS.
A DECLARAÇÃO FISCAL EM FALTA PODE SER ENTREGUE ATÉ JANEIRO.

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A (DES)UNIÃO (DES)FAZ A FORÇA




“SECRETÁRIO DE ESTADO DO COMÉRCIO DEFENDE FUSÃO ENTRE ASSOCIAÇÕES”

“O comércio em Portugal tem “uma organização associativa muito numerosa”, alertou ontem o secretário de Estado do sector, Fernando Serrasqueiro, que defende fusões das estruturas existentes. “Eu contacto com 150 associações”, em todo o país, referiu o governante, à margem de uma cerimónia sobre o programa de Modernização do Comércio, em Castelo Branco. “Quando partilho isto com os meus colegas europeus, eles ficam surpreendidos como é que em Portugal há tantas associações comerciais”, destacou Serrasqueiro”, in Diário as Beiras de hoje.
Continuando a citar o jornal e o secretário de Estado, “Não se compreende que nalguns distritos haja uma associação por concelho, cada uma com despesas correntes, sede e técnicos, mas provavelmente sem receitas para uma boa intervenção”.
Mesmo na “mouche” senhor secretário de Estado. Aí está uma verdade sem contestação. E o grave é que essa dispersão de forças resulta em fraqueza da (não) representatividade do comércio. Claro que esta criação de capelinhas faz parte da cultura portuguesa e, se pensarmos um pouco, já todos estivemos envolvidos na elaboração de um qualquer projecto do género. Mesmo o governo, ao criar, dentro do Prime (Programa de Incentivo à Modernização da Economia), as UAC’s (Unidades de Acompanhamento e Coordenação), que são estruturas que têm como objectivo essencial o acompanhamento e gestão de projectos de urbanismo comercial, embora, saliente-se a boa-fé que esteve na sua génese, a verdade é que esta medida legislativa mais não fez do que gerar pequenas “unidades associativas”, cuja eficácia a nível nacional é muito discutível. Para além da criação do “Gestor do Centro Urbano”, em que a lisura da sua nomeação fica muito aquém. Como é um lugar apetecível, com um vencimento muito acima da média, pensa-se que, no quase todo nacional, a sua nomeação tenha muito a ver com a sua cor e filiação partidária.
Uma das UAC’s mais conhecidas, nas grandes cidades, serão as Agências de Promoção que visam a revitalização do seu comércio tradicional.
Mas, e atalhe de foice, diga-se a propósito que o problema de excesso de representatividade não reside apenas nas associações empresariais. A nível sindical é o mesmo. Basta lembrar a representação dos professores, com uma Federação Nacional de Sindicatos (FNE), com cerca de 10 sindicatos, salvo erro, e ainda uma Federação Nacional de Professores (Femprof); lembremo-nos dos sindicatos da Polícia, salvo erro com 9, e por aí adiante.
Esta multiplicação da representatividade faz parte do povo, talvez porque não acredite na sua defesa intrínseca a nível de chefia única. Se por um lado existe uma desconfiança confirmada, por outro, também é verdade que as cúpulas, no caso as confederações, no seu desleixo, interesses próprios acima dos associados e, muitas vezes, conluio com o poder, contribuem para a instalação desse clima de falta de confiança.

UMA BOA NOTÍCIA PARA A BAIXA




“PAPELARIA MARTHAS EM REGIME DE OUTLET”
“Em virtude da grande adesão às promoções da Papelaria Marthas, na Praça do Comércio, a administração da empresa Marthas SA decidiu prolongar por tempo indeterminado as acções de promoção de artigos de papelaria, consumíveis de escritório, canetas, isqueiros, entre outras” –in Jornal as Beiras de hoje.
Continuando a citar o diário, “A administração decidiu, principalmente numa altura de grandes dificuldades económicas para o país e também para a cidade de Coimbra, continuar a dar um pouco mais de animação à Praça do Comércio, e oferecer excelentes oportunidades de compra ao público de Coimbra”.
Lembro que, inicialmente, tinha sido anunciado o encerramento no passado Outubro deste estabelecimento que para além de ser um ícone do comércio tradicional é também dos mais antigos na cidade, com a vetusta idade de mais de oito décadas.
Um gesto sem precedentes da administração que vem no seguimento da frase de Kennedy: “Não perguntem ao país (neste caso à cidade) o que poderá ele fazer por vós, antes perguntem a vocês mesmos o que poderão fazer pelo país".
Uma grande salva de palmas à administração dos Marthas SA.
O velho Marthas, um dos maiores comerciantes de Coimbra do pretérito século, onde quer que esteja, certamente, com o anterior anúncio de encerramento, estaria a dar voltas no túmulo, agora, tenho a certeza, descansará em paz.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

COMÉRCIO: UMA TENTATIVA DE, A PARTIR DO PASSADO, ADIVINHAR O FUTURO (3)






  Entramos então no século XXI. O Comércio tradicional começa já a mostrar “falta de cálcio nos ossos”. A sua arteriosclerose múltipla começa a mostrar cada vez mais uma debilidade maior. O Governo de António Guterres, prevendo o que iria acontecer, com a ajuda europeia lança o primeiro pacote de ajuda ao comércio, o Procom.
Entretanto em Coimbra, a norte, abre o Retail-Parque de Eiras, a seguir, a sul, abre o de Taveiro, depois, a este e oeste, o Centro Comercial Dolce-Vita e o Fórum-Coimbra. Ou seja, a cidade fica rodeada de grandes catedrais de consumo. Sem contar com várias médias superfícies espalhadas dentro da urbe.
A título de dado histórico, surgem os estabelecimentos chineses que, para além de outros negócios, “rebentam” com as lojas de “300”.
Como se sabe, a partir de 2002, com o “discurso da tanga”, de Durão Barroso, começa a maior crise económica de que há memória. Contrariando todos os princípios económicos –de que quando a procura diminui a oferta segue-lhe o mesmo passo-, as grandes superfícies continuam a aumentar a oferta. E aqui, nesta oferta em barda, começamos a assistir a uma nova variação de fluxos: começam a ser construídos grandes e médios espaços de consumo nas cidades em redor, como por exemplo Viseu, Guarda, Castelo Branco, Cantanhede, Mealhada. Assim como nas vilas em redor da Lusatenas, como por exemplo, Lousã, Miranda do Corvo, começam a ser construídas médias superfícies. Ou seja, se por um lado estas aberturas localizadas rebentaram com o que restava do comércio local nestas localidades, por outro lado, do mesmo modo, assistimos a um fenómeno curioso: hoje as pessoas destas zonas não se deslocam a Coimbra por causa das suas grandes superfícies. Se vêm à cidade será por questões médicas ou outras, e, neste caso, vêem directamente ao centro histórico.
Então o quero dizer com isto tudo? Muito simples: hoje, tendo em conta que a demografia da cidade não cresceu, antes pelo contrário, é fácil de chegar à conclusão de que há em Coimbra demasiada oferta comercial no tocante às grandes superfícies. Estou convencido que os próximos cinco anos irão ser demolidores para estes mastodônticos centros de consumo.
Os seus custos de manutenção irão ditar a sua morte. Claro que se poderá perguntar: e quem, nos cascos históricos, aguenta mais cinco anos? Essa é a questão. Uma coisa é fácil de adivinhar, todo o centro histórico vai sofrer uma profunda metamorfose. Metade das lojas de sapatos e roupa, inevitavelmente irão desaparecer, dando lugar a negócios alternativos de vanguarda, como por exemplo, artesanato, livrarias, antiguidades, galerias de arte e muitos estabelecimentos de hotelaria, como cafés-concerto, pequenas tasquinhas típicas. Todos estes ramos de negócio estarão abertos pela noite dentro.
Claro que nada disto se fará sem a ajuda interessada da autarquia, sobretudo no repovoamento desta zona histórica, mas tudo indica que as pessoas irão regressar ao centro pelos seus baixos custos de mobilidade. Por isso “prevejo” um prazo de cinco anos. Em 2013 será ano de eleições e, politicamente, acredito que muita coisa vai mudar para melhor no país.
Não sei se o que escrevi fará algum sentido para si. Olhe, se não faz, deixe lá! Esta consulta de tentativa de presciência (adivinhação) foi de borla. Uma coisa lhe digo: o que escrevi foi com profunda convicção. Acredito mesmo.

COMÉRCIO: UMA TENTATIVA DE, A PARTIR DO PASSADO, ADIVINHAR O FUTURO (2)





  Estamos, portanto, em 1982, em que para além de assistirmos a várias desvalorizações cambiais do Escudo, também, por força de empréstimos vultuosos no exterior, e para que estes fossem concedidos, autorizámos o FMI a intervir na economia portuguesa impondo regras pretorianas.
Apesar de uma inflação elevadíssima e de falências em catadupa na indústria, o comércio de rua, fruto da sua concentração “aguentou-se” bem e até, curiosamente, abriram alguns “shopings” dentro da cidade. Embora houvessem insolvências, comparativamente, foram raras. Chegamos então a 1986, em que, juntamente com Espanha, foi assinado o tratado de adesão à então CEE (Comunidade Económica Europeia), passando a fazer parte de doze países membros da futura Comunidade Europeia, hoje com 27 Estados-membros.
É então, fruto desta adesão que traz milhões em subsídios para o país, que começa o espartilhamento do comércio de rua. Se por um lado aumenta o consumo, por outro, assiste-se à descentralização dos centros de venda. Até esta data, falando de Coimbra, todas as aldeias, vilas, como por exemplo Lousã e Condeixa, e cidades em redor, como por exemplo, Aveiro, Viseu, Guarda e Leiria vinham abastecer-se em Coimbra. Como, progressivamente, começam a abrir vários estabelecimentos de moda em tudo o que era aglomerado de pessoas, a cidade, inevitavelmente, foi perdendo importância estratégica como baluarte comercial.
No aspecto residencial, o centro da cidade, resultado do apogeu comercial, uma grande maioria de comerciantes, proprietários de prédios com lojas no rés-do-chão, tinham transformado os seus andares superiores em armazéns de apoio ao estabelecimento térreo. Mais grave ainda: tinham suprimido as entradas individuais de acesso.
Por sua vez, como a maioria da habitação no centro histórico (Alta e Baixa) era decrépita, de má qualidade, e muitos dos locados nem casa de banho possuíam, a autarquia, utilizando verbas de programas de fomento à habitação social, foi autorizando e construindo bairros que deslocalizaram muitas centenas de pessoas para a periferia. Ao mesmo tempo ia esvaziando o centro histórico de automóveis e, servindo cada vez pior de transportes colectivos, ia impondo a ditadura do pedonal. Numa política calculada, “semeava” parquímetros em tudo o que fosse espaço para estacionar.
Em 1993 abrem em Coimbra duas grandes superfícies comerciais: o Continente e a Makro. Com estas aberturas comerciais, no centro da cidade, começa a razia de encerramento indiscriminado das mercearias e lojas de electrodomésticos. Por esta altura, em 1994, resultado da assinatura de Portugal à Organização Mundial de Comércio, começam a surgir as lojas dos “300”, que, a par das duas grandes superfícies, “rebentam” com muitos estabelecimentos quase centenários de artigos decorativos e lojas de ferragens.
Por outro lado, com abertura destas duas mega-superfícies, assiste-se à criação de novas centralidades e, residencialmente, há uma nova vaga de deslocalizações. Consequentemente assistimos a uma nova variação de fluxos e afluxos à cidade de Coimbra: por um lado, o consumidor da loja de rua, até aí fidelizado, começa a mudar-se para os novos mega-centros de consumo. Por outro lado, a periferia, já autosenstável comercialmente, através dos seus novos estabelecimentos, pela novidade e preços, desvia o cliente das suas pequenas lojas para estas novas catedrais de consumo. Ou seja, este consumidor das zonas limítrofes da cidade, ao deixar de comprar nas suas terras, empobrece o seu pequeno comércio nativo em favor do emergente. Mas, curiosamente, nesta deslocação, também não vem favorecer a cidade enquanto coração do pulsar comercial, uma vez que o seu trajecto é directamente planeado entre a sua residência e a superfície de compras. E naturalmente, perante este cenário de deserção, o centro histórico vai ficando cada vez mais esquelético e solitário. E entra o novo século XXI.
Se vos quero fidelizar a ler o que estou a escrever, tenho de fazer uma paragem para um pequeno café…pode ser no Santa Cruz, na Baixa de Coimbra, você conhece. Já volto a seguir.

COMÉRCIO: UMA TENTATIVA DE, A PARTIR DO PASSADO, ADIVINHAR O FUTURO (1)






  Como já vem sendo hábito, o Rádio Clube de Coimbra pede-me que comente alguns temas. Hoje as perguntas que me foram propostas era se considerava que os consumidores iriam preferir as grandes superfícies em detrimento do comércio tradicional e, no seguimento da minha explanação, se acreditava que o comércio de rua teria futuro.
Para não maçar, vou transcrever o que disse em relação à segunda pergunta, ou seja, se acreditava que o chamado comércio de proximidade teria futuro. Embora, aproveitando o “escrever ao saber da pena”, contando um pouco de história, vou dizer aqui muito mais. Como é costume, e correndo o risco de ser uma melga, vou então esvoaçar sobre o comércio dito de tradição:


 Para melhor se entender, vou recuar até aos anos de 1950. Por esta altura o comércio estava todo implantado no centro da cidade. Coimbra industrialmente era uma cidade forte. Com imensas grandes indústrias, logo, por inerência, havia dinheiro para gastar, sobretudo numa classe média financeiramente possante, constituída sobretudo por industriais, advogados e médicos. A classe trabalhadora, tal como em todo o país, vivia com dificuldades. Os comerciantes estabelecidos, muitos deles que começaram como marçanos, eram pessoas esforçadas e muito exigentes para com os seus funcionários. À noite, para encerrar os estabelecimentos não havia hora pré-definida e para cada cliente que entrasse nas suas lojas exigiam aos seus balconistas que correspondesse a uma venda. Quando tal não acontecia, isto é, se o cliente não comprava, depois do freguês virar costas, o melhor que poderia acontecer eram uns insultos verbais, desde “camelo”, “incapaz”, “que não prestava nem para guardar porcos”. Porque o pior que poderia acontecer eram umas caneladas e até umas vergastadas que o patrão irado descarregava no seu “criado” de balcão. Pode parecer exagero mas era assim. E, como tal, o pobre empregado, diariamente, vivia dividido entre o pensamento “ai Deus queira que este compre!” e o sermão consequente em caso de falhanço. Só quem por lá passou sabe o esforço titânico que um marçano fazia para vender. Estas pessoas, para além de possuidores de uma argumentação demolidora eram uns “contorcionistas” natos e mestres na psicologia social. Um pequeno exemplo: um cliente queria um pulôver vermelho. O empregado, que era obrigado a saber toda a existência da casa onde laborava, sabia que não tinha aquela cor –tinha azul, amarelo e castanho-, então, com uma desfaçatez de fazer corar o mais púdico, de uma forma arrogante, sem grandes preocupações de delicadeza, numa espécie de ataque em frente, de tudo ou nada, abria logo as hostilidades ao interrogar o freguês desta forma: “vermelho?... Não faça isso! Primeiro, este ano não se usa essa cor; segundo, já viu o tom da sua pele (um pouco avermelhada)? A tonalidade ideal para si é o azul... olhe como lhe fica bem!” –encostando a camisola ao peito do cliente em frente ao espelho. Eram poucos aqueles compradores que resistiam a todo este charme de argumentação. Claro que devemos ter em conta que estamos falar de um cliente pouco esclarecido e pouco exigente. Isto foi assim até início da década de 1990. 
Embora, esclareça-se, mesmo assim tudo começou em 1974, com o 25 de Abril, porque até aí era muito pior.
Em virtude da Revolução dos Cravos os ordenados, por imposição legal, passaram de mil escudos para três mil e, como tal, havia dinheiro a “rodos”. De tal maneira era o poder de compra que não havia artigo para entrega imediata. Tudo se vendia. Até finais da década de 1980 foram anos loucos para o comércio de rua. Muitos foram os comerciantes em Coimbra que, nesta altura, enriqueceram de uma forma abrupta e desmesurada. Numa completa incoerência, chegavam a abrir várias lojas na mesma rua e exactamente com o mesmo artigo comum a todas elas.
Evidentemente que a economia do país tinha de pagar com juros este acto económico tresloucado. Se o Conselho de Revolução obrigou todas as empresas a triplicar o salário sem contrapartidas de aumento de produtividade, não é preciso ser economista para adivinhar o desfecho: aumento da inflação para vários dígitos, juros impensáveis e, o mais grave, falência de múltiplas empresas, sobretudo industriais. Só para se entender melhor, em 1982 os juros estavam a 38 por cento e postecipados à cabeça. Ou seja, quem, nesta época, teve a sorte de ser bafejado com um crédito –porque era muito difícil e só com grandes garantias-, tinha de deixar imediatamente os juros do empréstimo no banco. Para se entender melhor: aquele a quem foi concedido um empréstimo de mil contos (hoje 5.000 euros) a um ano, levava apenas para casa seiscentos e vinte contos (3.100 euros). Em face das taxas de juro de hoje, o que estou a contar parece uma anedota, mas é a mais pura das verdades.
Como já me alonguei vou ter de dividir este tema em capítulos, caso contrário nem um único leitor chega ao fim.

"S. BARTOLOMEU HOMENAGEOU A VIDA NA BAIXA"




"A homenagem a António Luís Barradas Figueiras, ex-presidente da Assembleia de Freguesia de S. Bartolomeu, falecido recentemente, foi o ponto alto da sessão onde foi distinguido um conjunto de individualidades que de alguma forma estão ou estiveram ligados àquela freguesia da Baixa”, in Diário de Coimbra (DC) de ontem 14 de Dezembro.
Continuando a citar o jornal, onde estiveram presentes o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Mário Nunes, o vereador da Habitação, Gouveia Monteiro, e o Governador Civil, Henriques Fernandes, foram homenageados diversos operadores comerciais que desenvolvem a sua actividade na Baixa, entre eles, falou Mário Nunes, a Coimbra Editora, fundada em Agosto de 1920”.
Dos comerciantes da Baixa distinguidos “foram o Restaurante Porta Larga, a operar desde 1946, e o Bar Navarro, desde 1957, tal como a ourivesaria Marialva. Antes foram homenageados dois dos moradores mais antigos da freguesia: Afonso Alegre, membro da assembleia de freguesia no pós-25 de Abril, e Gabriela da Conceição. O médico Alexandre Leite da Silva, que durante anos atendeu gratuitamente os moradores mais necessitados, também mereceu uma distinção, a título póstumo”, informa o DC.
Quem leu o meu anterior “post”, com o título “Os Comerciantes e a ACI(R)C(O)", certamente estará a perguntar-se se esta iniciativa da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu não será uma cópia a papel químico da alegoria levada a cabo pela ACIC.
Tenho de confessar que gosto da forma de ser e estar de Carlos Clemente enquanto presidente da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu. É um homem activo, sabe estar sempre em “cima do acontecimento”. É informado, é corajoso e frontal, e, para além de saber tudo o que se passa com os seus fregueses, na hora em que eles necessitam do seu apoio ele está lá. Para além disso, é interveniente na Assembleia Municipal, duma forma acutilante, como compete a um presidente de junta que todos idealizamos e ambicionamos.
Mas é então aqui, neste episódio das homenagens, em colagem, que interrogo as intenções do autarca de São Bartolomeu. Concorrer a futuro presidente da ACIC? A ser incluído nas próximas listas do PS à autarquia? Eu sei que é um homem “politicus”, no sentido lato da palavra, e daí entenda algumas iniciativas meritórias, tais como bailes à moda antiga, feiras de gastronomia e artesanato na Praça Velha, que, remando contra a maré, visa dar vida à Baixa.
Outras há que entendo menos, como por exemplo levar os velhinhos da freguesia em passeio excursionista. Mas, enfim, acabo por compreender, afinal não se apanham moscas com vinagre. Já em relação a estas homenagens, tal como afirmei em relação à ACIC, escrevo o mesmo em relação a esta iniciativa da freguesia de S. Bartolomeu, com uma diferença: como não houve repasto, logo não houve pão, então foi apenas e só circo.
Acredito que esteja a ser demasiado austero e pragmático, mas continuo a afirmar: a Baixa precisa de mais acção e menos festa. A Baixa está moribunda. E quem disser o contrário, não sabe nada do que se passa aqui nesta zona comercial.
A baixa precisa urgentemente de um plano de salvação para evitar o encerramento em massa de muitas lojas de comércio a curtíssimo prazo. Com consequências gravíssimas para esta zona comercial; para os poucos comerciantes que restarem que verão as suas ruas transformadas em artérias de ninguém, com um comércio cada vez mais empobrecido; com um futuro negro para aqueles que claudicarem porque partem forçadamente sem nada –perderam tudo nesta aventura- e olham o seu amanhã sem qualquer esperança; para os poucos residentes idosos que, com o encerramento em massa dos estabelecimentos, verão a sua segurança nocturna cada vez mais ameaçada.
Eu sei que não consigo disfarçar um pessimismo elevado, mas não posso concordar com festas, festinhas e festarolas que têm unicamente por objecto tornar maior a notoriedade de quem as faz. Para estes peditórios não dou, e mais: serei tão chato como uma mosca, quanto for possível ser neste cenário pré-eleitoral, e, como pouco mais poderei fazer, escreverei aqui tudo o que me vai na alma. Só tenho alguma pena –é uma forma de dizer- de quem lê os meus textos, que apanha uma seca do comprimento de um comboio. Mas aceitem as minhas desculpas por compartilhar convosco os meus desabafos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

OS COMERCIANTES E A ACI(R)C(O)





Como se sabe, e hoje os jornais diários da cidade noticiaram, a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, realizou ontem no pavilhão da Relvinha um grande jantar de gala pelos seus 145 anos de existência, que, segundo o Diário de Coimbra (DC), “foi o culminar de uma série de iniciativas levadas a cabo ao longo do ano”, com uma homenagem a várias empresas com mais de 25, 50 e 100 anos e, a título póstumo, a Adolfo Roque, empresário, recentemente falecido, que foi o presidente da Mesa da Assembleia-geral daquela associação durante quatro mandatos, de 1995 a 2007.
Confesso, tenho alguma dificuldade em analisar este jantar à luz do que aparentemente parece transparecer. Ou seja, olhando as duas fotos do DC, em que numa se vêem várias dezenas de empresários no repasto, que parece fazer crer que para os comerciantes e industriais presentes tudo está bem nas relações interactivas com a sua associação representativa de classe.
Como declaração de interesses tenho de confessar a minha “pedra no sapato” contra a política sectorial comercial seguida pelos actuais membros directores da ACIC. Durante quase cinco anos (1998-2003) fiz parte do mesmo grupo, tornámo-nos amigos pela luta na defesa intrínseca do comércio de rua. Hoje, depois de me ter desvinculado de associado, em discordância pela (não) tomada de posição perante o poder político local, em face da crise que os comerciantes vivem, sinceramente, não sei se ainda o sou. Aposto que não. Quase garanto que sou considerado pessoa “não grata”. Embora esta designação, ou ser amigo ou não ser, pouco me preocupe, a verdade é que, a ser assim, até os entendo bem. Eu escrevo frontalmente o que a maioria pensa mas não diz, ou se o disser é em surdina e apenas perante uma pessoa, não várias, que é para não haver testemunhas.
Com franqueza, gostava de embarcar no “politicamente correcto”, como a maioria faz. É o mais fácil, não se arranjam dissensos, não se provocam inimigos, e, como se é um “gajo porreiro”, têm-se sempre amigos em todo o lado. Mas eu não sou assim. Sou um instigador assumido. O que, consequentemente, para além de me provocar permanentes dissabores, me provoca conflitos interiores é que tenho a consciência de que, exceptuando a frontalidade, nem sou muito melhor do que aqueles que critico, enfermo das mesmas fragilidades humanas e, com essa acutilância, pouco mudo ou nada. E a ser assim, naturalmente, questiono-me, muitas vezes, se vale alguma coisa dizer o que se pensa.
Passando esta ressalva, não posso deixar de estranhar (ou talvez não) que um repasto e uma homenagem a umas tantas quantas empresas sirva para calar a pouca interveniência política no tecido comercial do distrito de Coimbra. Todos sabemos que é assim, mas nunca é demais relembrar que para se calar um descontentamento nada melhor do que pão e circo.
É importante homenagear e saber que existem três empresas com mais de um século em Coimbra; é bom saber que há 13 empresas no distrito com mais de 50 anos; dá algum ânimo saber que, perante a hecatombe comercial e industrial, há 35 empresas com mais de 25 anos que vão resistindo em Coimbra e cercanias.
Mas, para mim, considero mais importante que uma associação empresarial saiba quantas empresas encerraram portas há um ano para cá; saiba as que estão em vias de encerrar e, neste caso, estas firmas tenham um acompanhamento de ajuda; saiba as empresas que, nos últimos anos, foram assaltadas e, perante esta violência, saiba reivindicar medidas de segurança; saiba quantos funcionários perdeu o comércio tradicional depois da abertura das grandes superfícies; saiba aconselhar condignamente os seus associados na opção de investimento no ModCom (incentivos à modernização do comércio), quando, tendo em conta o momento que se vive, todas as associações nacionais sabem que a pseudo-modernização das lojas apenas as conduz ao endividamento. O comércio de rua não está em crise de desaparecimento pela falta de modernização das lojas –isso é uma panaceia-, está em dificuldades porque, por um lado, na sua dinâmica, o conceito de compra de um novo consumidor emergente, mais económico, mais esclarecido, mais comodista e exigente, aliado a novos costumes, mudaram, e, por outro, fruto de políticas suicidas de arrendamento e planeamento harmonioso das cidades, levaram os seus centros a este estado calamitoso de desertificação. Os cascos das cidades têm um diminuto movimento de pessoas. O pouco que vai havendo é feito, num fluxo intermodal, pelos trabalhadores que exercem a sua actividade nestas zonas. Continua-se a verificar, sem qualquer sensibilidade por parte dos poderes autárquicos, a deslocalização de serviços para a periferia e que deveriam permanecer nestas zonas para fazer a confluência de pessoas.
Continuando a salientar a pouca reivindicação das associações na defesa do comércio tradicional, o que se vêm assistindo nos últimos anos é que estas pessoas colectivas sem fim lucrativo estão transformadas em “firmas” de festas de rua. São “noites-brancas”, são palhaços, Pais-Natal e outros investimentos vultuosos de duvidosa rentabilidade. Erradamente, acham que a solução para fazer retornar as pessoas é através de alegorias localizadas. Depois, e mais grave, é que os subsídios a programas que deveriam ser canalizados directamente para a ajuda aos comerciantes vão para estas iniciativas e para custos com pessoal, que, toda a gente sabe, duma maneira geral, com ordenados vultuosos e de pouca rentabilidade laboral. Chega a haver na mesma associação dois advogados, estando um a desempenhar funções não compatíveis com a sua formação.
Hoje, as associações, como é o caso da ACIC, vive (ou sobrevive) da luz que sua aura de antiguidade espalha em redor. Por analogia comparo-a com a Universidade de Coimbra e nomeadamente a sua Faculdade de Direito. Institucionalmente a proclamação dos seus nomes têm um peso enorme na cidade, mas, na prática, todos reconhecem que estão fora do contexto da modernidade e desadaptadas dos novos confrontos necessários aos tempos modernos. Mas como, na hora do convívio e da homenagem todos comparecem e ninguém tem coragem de lhes dizer que o rei vai nu, continuam a pensar que são os maiores, quando, todos sabem que a nível nacional, hoje, têm o mesmo peso e a mesma projecção de uma qualquer instituição pública da província.
São organizações pesadas no seu funcionamento e com pouca capacidade de adaptação aos tempos correntes. São instituições que vivem de dentro para dentro de si mesmas.