sexta-feira, 30 de setembro de 2011

AMOR QUE FOSTE UM DIA

(IMAGEM DA WEB)






Quando te vi a odiar
qualquer gesto adulador,
pensei não acalentar
qualquer esperança de amor;

Senti-me numa carruagem,
viajante a sonhar,
eras aí a minha aragem,
e que te estava a abraçar;

De repente acordei,
não estavas ao pé de mim,
foi então que acreditei,
nunca foste um querubim;

Sempre foste como a Lua,
quatro caras num cartão,
uma delas é muito crua,
outras derretem paixão;

Já não sei o que fazer,
seja lá para te agradar,
não consigo entender,
esse teu modo de amar.




ARTESANATO URBANO NA BAIXA






O Artesanato Urbano ou Contemporâneo, para uns, não passa de uma moda, para outros é uma arte que só poucos realizam com qualidade. No entanto é uma actividade em expansão a nível nacional e internacional. Define-se como uma expressão artística de trabalho manual com um traço de modernidade e um carácter mais urbano do que o artesanato tradicional. Aposta em vários materiais, do feltro ao ferro, do vidro ao papel, assim como em novos conceitos criativos, explorando a diferença, a originalidade e a inovação.

O objectivo desta Feira é oferecer a possibilidade de os artesãos mostrarem os seus trabalhos, promover as artes e, ao mesmo tempo, “colorir” as Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges da cidade de Coimbra."

OS NOVOS TROFÉUS DE CAÇA

Jornal de Notícias


"ISALTINO NA CADEIA"

 Quando um jornal faz gáudio com um título destes, podem crer, temos mesmo uma sociedade doente e uma imprensa amortalhada. 
Em metáfora, é como há mais de duzentos anos, quando os Índios, no Oeste americano, no tempo de Búfalo Bil, cortavam a cabeça dos brancos e, enfiando-as numa lança, percorriam a pradaria para que todos vissem o troféu.
Sejamos claros, sou a favor da justiça, enquanto órgão assertivo e responsável. Não sou partidário desta justiça-espectáculo propagandeada, transformada em caça às bruxas. É o circo mediático que está em movimento para fazer desviar as atenções daquilo que verdadeiramente interessa a todos. 
Uma tristeza, meus amigos!

PROPOSTA DE JORGE NEVES APROVADA POR UNANIMIDADE



 O nosso amigo comum Jorge Neves, vogal independente na freguesia de São Bartolomeu, ontem, na assembleia, levou à votação umas propostas que foram aprovadas por unanimidade. Veja aqui no seu blogue o resumo em desenvolvimento.

CARTA PARA O EX-COMANDANTE XANANA

(IMAGEM DA WEB)


“Anda baik, pria?”, estás bom, pá? –em indonésio. Como é que vais, meu caro José Alexandre “Kay Rala Xanana Gusmão”?
Passaste cá por Coimbra, há dois dias e nem me vieste dar um abraço, pá. Esqueceste-te de mim, foi?
Estás diferente, camarada, tudo mudou na tua pessoa. Até o teu falar, a cantar –assim como o nosso ministro das finanças, Vítor Gaspar-, já não é o mesmo. Lembro-me de ti quando foste entrevistado por todos os meios de informação internacionais, aquando do massacre do cemitério de Santa Cruz, em 12 de Novembro de 1991, a pedir atenção para o caso Timor.
Consegues visualizar aquela ideia maluca do Rui Marques, em 1992, quando fretou o “Lusitânia Expresso” para a “Missão Paz em Timor", e colocou novamente a tua terra na agenda internacional?
Recordo quando foste preso pelos indonésios em 1992 e estiveste encarcerado sete anos na prisão de Cipinang, em Jacarta –lembras-te quando foste visitado na prisão pelo Mandela?
Bem sei que são interrogações a mais, mas sabes porquê, camarada? É que com esta visita a Coimbra fiquei com a sensação de que esqueceste tudo o que passaste. Não gostei do que vi, meu amigo –já nem sei se posso tratar-te assim. Estava à espera de rever um homem simples, cujo passado de luta, de sofrimento, tivesse deixado marcas indeléveis no seu carácter, e o que vi foi uma pessoa arrogante, vaidosa e que perdeu a sensibilidade perante os mais fracos –não faças essa cara de surpresa. Sabes bem do que estou a escrever. O que tu fizeste há dois dias na Faculdade de Direito de Coimbra é inconcebível para qualquer primeiro-ministro, quanto mais para ti, camarada, tendo em conta tudo o que passaste.
Então, depois de receberes o grau de doutor “honoris causa” atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, quando num encontro com conterrâneos teus aqui a estudar em Portugal, só porque um timorense, que vive no nosso País há 30 anos e que por acaso até é mestrando em Ciências Jurídicas, afirmou que “os discursos de ocasião são muito bonitos, mas o que é preciso é uma política de educação”, de supetão, abandonaste a sala? “Apa tambang Anda?”, qual é a tua, meu? –novamente em indonésio.
Ainda por cima, deixando uma centena de timorenses a falar sozinhos, saíste com o argumento de que “não estavas ali para ouvir políticas”. Ai não? Então estavas lá para quê? Para seres venerado? Para te darem mais uma comenda, quem sabe uns queijinhos do Rabaçal, ou prestarem vassalagem e mais umas loas?
Foi muito mau, camarada. Acabaste por dar razão ao teu compatriota. Quem diria? Depois de um discurso que proferiste na Sala dos Capelos, tão pungente? Acredita, quando te ouvi, até as lágrimas me vieram aos olhos. Bonito discurso, sim senhor! Sobretudo quando disseste que “o mundo perdeu o rumo … porque só age por reflexo e perdeu a subtileza de ser humano, e se tornou refém da padronização do seu activo íntimo, que é o acto de pensar, de conhecer, de entender… para inspirar acções. (…) O mundo necessita de coragem para romper com as barreiras dos interesses que, pretensamente globais, conduzem a actos de injustiça”.
E então, depois destas palavras de ouro –cá para nós que ninguém nos ouve: não foste tu que escreveste, pois não?-, logo a seguir tens uma atitude daquelas?
Sabes, meu amigo, o que mais lamento? É que da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tão lesta a atribuir doutoramentos “honoris causa” –assim como outras faculdades-, sobre este assunto nem uma palavra. Aliás, devo dizer-te que se não fosse o Diário de Coimbra a noticiar este assunto, ninguém saberia. Que eu saiba, mais nenhum jornal da cidade referiu esse teu gesto, no mínimo, incompreensível. Mas tu sabes do que escrevo. Afinal conheces bem Coimbra, é uma cidade “lambe-botas” –desculpa o termo. Sabes bem do que falo. Não esqueças que a Faculdade de Direito concedeu-te o estatuto de aluno “ad eternum” sem prescrição. E, acredita em mim, este dobrar da espinha vai continuar. E então, se por acaso, para além de umas grandes empresas portuguesas, pudesses comprar parte da nossa dívida pública, ah!, então, poderias contar com um lugar cativo no Mosteiro dos Jerónimos. Um dia, está de ver.
Bem sei que não ligas nada ao que escrevo –afinal até sou um anónimo qualquer, que nem sequer conta para o universo político-, mas se fosse a ti, pelo menos, uma coisa fazia: retratava-me com um pedido de desculpas público aos portugueses e mais particularmente a todos os timorenses que estão em Portugal.
Se acaso te passar pela cabeça em devolver o título de “honoris causa”, não faças isso. Não vale nada. Pela forma continuada como continua a ser atribuído, está transformado numa vulgaridade.
“Pujian untuk Keluarga. Hal ini juga memelukku ketika Ramos Horta" –novamente em indonésio, e, como sabes, quer dizer o seguinte: Cumprimentos à família. Dá também um abraço meu ao Ramos Horta. Diz-lhe também que, embora já tenha um doutoramento do Porto, não fique invejoso com a tua menção honrosa. Daqui a uns dias será a vez dele cá em Coimbra.


(TEXTO ENVIADO PARA CONHECIMENTO AO SENHOR PRIMEIRO-MINISTRO DE TIMOR-LESTE, KAY RALA XANANA GUSMÃO)

O VÍDEO DO DIA...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

COMÉRCIO: HAJA FÉ E TRABALHO





 Antes de ontem, com organização da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, realizou-se no Teatro da Cerca de São Bernardo um seminário sobre o lema “Estratégias de Marketing para o Comércio Tradicional. À frente do painel estiveram os formadores Ana Tralhão e Patrik Mendes.
Perante uma plateia de mais de 60 pessoas maioritariamente comerciantes e alguns funcionários, cerca das 20h00, Armindo Gaspar, presidente da APBC, deu as boas vindas aos presentes. “Muito obrigado por terem vindo. Tenho a certeza de que darão por bem utilizado o tempo de mais ou menos duas horas que aqui estaremos nesta formação. Com este projecto, com a visibilidade que a Baixa começa a ter, começa a fazer sentido seguir em frente com outras armas.
Gostaria de lembrar que fazemos o que podemos. A direcção esforça-se por fazer cada vez melhor, mas terá de se ter em conta que trabalhamos por “amor à camisola”, gratuitamente. Gostaria também de dizer que somos, no País, a única agência de promoção que vingou. Exactamente porque, enquanto as direcções de outras ganhavam, nós não recebemos absolutamente nada.
Vamos ficar em boas mãos, com a Dr.ª Ana Tralhão e o Dr. Patrik Mendes” –rematou Armindo Gaspar.

ANA APRESENTA O COLEGA

 Certamente para gerar empatia com a plateia, Ana Tralhão começou por apresentar o colega Patrik e vice-versa.
Depois de momentos de descontracção passaram à tática: “Mudança e Inovação”.
Começou-se por saber qual o número de estabelecimentos representados por ruas, largos e praças da Baixa.

E QUEM É QUE FOI AO JOGO?

 Das Ruas Ferreira Borges/Visconde da Luz estiveram presentes 9 representantes de outras tantas lojas.
Da Rua da Sofia apenas 1
Rua Eduardo Coelho 12
Rua da Louça 9
Rua Sargento-Mor 6
Rua das padeiras 10
Rua João de Ruão 4
Rua Adelino Veiga 2
Rua do Corvo 3
Largo da Freiria 1

E QUEM NÃO FOI E FOI NOTADA A AUSÊNCIA?

 Foram muito notadas as cadeiras vazias da Praça do Comércio e da Praça 8 de Maio. Porquê? Bom, não foi explicada a razão à assistência, mas, avento, talvez por estas praças terem igrejas famosas e muito antigas, sei lá! Também poderia ser, especulo, porque, por exemplo, na Praça do Comércio já se comercializa desde a Idade Média, o que quer dizer que, em princípio, deveria haver aqui um interesse redobrado talvez pela representação da classe mercantil.

E QUEM É QUE PRECISA DE VIAGRA?

 Neste seminário havia um representante de uma loja com mais de 50 anos; outro de uma com mais de 40; havia 6 com mais de 30; de lojas com mais de 20 anos havia 8; havia 4 representantes de outros tantos com mais de 10 anos de labuta; com mais de 5 anos havia 7 representantes.

E QUEM MAMA NO BIBERON?

 Com menos de 5 anos de existência comercial havia 6 representantes na sala. Havia também dois comerciantes que abriram este ano os seus negócios.

E QUE RAMOS ESTAVAM ALI REPRESENTADOS?

 Estavam ali 15 profissionais de vestuário; 10 de sapataria; 4 da restauração; 3 de recordações/lembranças; 2 de decoração; 2 de livraria; 1 de perfumaria; 4 de material eléctrico; 1 do ramo de saúde; 2 de “Groumet”.

E QUAL É O OBJECTIVO DISTO?

 Os objectivos são “analisar o comércio tradicional; identificar estratégias inovadoras para o seu negócio”; “caracterizar o atendimento de excelência”.

E QUE FORÇA É ESSA AMIGO?

 Que força tem o comércio de Coimbra?

-Localização
-Relação personalizada
-Clientes fidelizados
-Experiência
-Custos de operação reduzidos
-Imagem de Credibilidade
-Conhecimento do Produto

E QUAL É O TEU CALCANHAR DE AQUILES?

 Naturalmente que o comércio tradicional terá muitas fraquezas. Quais são?

-Clientela envelhecida
-Horário de funcionamento
-Estacionamento
-Tesouraria
-Segurança
-Acessos
-Comércio ineficaz
-Falta de acção conjunta
-Referenciamento muito esporádico e não sistemático
-Resistências ás novas tecnologias e novos conhecimentos
-negócios obsoletos

QUANTOS SÃO? QUANTOS SÃO?

 As ameaças para o comércio são imensas. Vamos conhecer algumas.

-Poder de compra
-Desertificação
-Concorrência das grandes superfícies
-Concorrência de baixo preço e baixa qualidade
-Margens reduzidas
-Comércio electrónico
-Encerramento de lojas
-Degradação da Baixa de Coimbra

UMA OPORTUNIDADE, POR FAVOR

 Há muitas oportunidades à mão, basta apenas conseguir vê-las. Eis algumas:

-Permanência de estudantes
-Desenvolver a zona de lazer e de animação
-Associar eventos, como por exemplo, “Dia Mundial do Turismo”
-Intensificar a relação com a APBC –a união faz a força
-Intensificar a relação com o Turismo
-Intensificar a relação com organizações estudantis
-Articular várias campanhas, de modo a concentrar os custos

E QUE TAL, GOSTARAM?

 De um modo geral, com os comerciantes com quem falei, gostaram. Acharam que é pouco tempo. Perde-se muito com conversas transversais. Todos referiram que voltarão à segunda sessão. Disseram também que gostaram dos formadores. Oradores de boa dicção e de boa comunicação.
Acharam que era preciso realizar um encontro de comerciantes para dar possibilidade de cada um expressar o que lhe vai na alma.

FRASES SOLTAS

“Eu trabalho 365 dias por ano. Tenho as minhas lojas abertas todos os dias. O futuro constrói-se com trabalho. Só assim conseguiremos ultrapassar a grave crise que nos atormenta” –Isabel Silva, com várias lojas de artesanato na Baixa.

“As rendas são elevadíssimas. É um ultraje a quem quer trabalhar. As câmaras podem e devem utilizar uma ferramenta que têm à mão: o IMI. Para obrigar certos proprietários, que mantêm vários estabelecimentos encerrados durante vários anos a pedirem rendas abusivas, devem as autarquias sobrecarregarem estas lojas com um elevado Imposto Municipal sobre Imóveis” –não consegui a identidade deste orador.

“Há muitos espaços desocupados, mas, genericamente, são de pouca área. A “Apple” andou por aqui, pela Baixa, à procura de um espaço para os seus produtos de electrónica, mas, pelos vistos, não conseguiu” –Armindo Gaspar.

“Vejo com muito gosto a Baixa a ser ocupada com estudantes. Ainda há movimento nas ruas à 1h30 da manhã” –Lurdes, da sapataria “Angels”.

UM CHEQUE POLÉMICO...

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)


"A Ordem dos Médicos vai assumir o pagamento de 10 prémios de mérito a alunos do ensino secundário, depois da decisão "polémica e incompreensível" do Ministério da Educação de suspender esta forma de estimular a dedicação ao estudo". Leia aqui.


 Tenho para mim que é um contra-senso premiar pecuniariamente os melhores alunos de uma qualquer escola secundária ou superior -a serem distinguidos, deverá ser com simples menção honrosa. Porém, qualquer instituição -e mais se governamental- está obrigada ao cumprimento de uma promessa. Bem sei que, pelo incumprimento sucessivo dos anteriores e deste executivo, até já estamos habituados, mas não deixa de ser incompreensível. Queriam acabar com esta medida, que como disse não concordo, mas primeiro pagavam e depois revogavam.
É mais grave do que parece. É mais uma lesão profunda no princípio da confiança, que deve estar subjacente a todas as nossas acções diárias. Com que impressão ficarão estes alunos -certamente amanhã professores, juízes, políticos- acerca do cumprimento da palavra dada?


É BOM QUE O GOVERNO SE PREOCUPE COM A SÚDE DOS PORTUGUESES

Jornal de Notícias

 Segundo o JN, são precisos "20 anos só para pagar a dívida da Refer, seis anos para o Metro de Lisboa e dois anos para o Metro do Porto", é bom que o Governo comece a dar mais atenção à saúde dos portugueses...

O VÍDEO DO DIA...

UMA PEDRA NA CALÇADA



Sou uma pedra na calçada,
esticada no calçadão,
sinto-me abandonada,
por todos sem reacção,
desde a carrinha amassada,
até ao luxuoso carrão,
passam por mim na calada,
pisam-me sem um perdão,
às vezes sou abusada,
até pelo mijo de um cão,
outras vezes maltratada
por homens sem coração,
mulheres de vida danada,
todos me calcam no chão.

UMA RUA COM BURACOS NA CALÇADA



 Ontem, cerca das 11h30, um homem com cerca de 70 anos, alegadamente, por ter tropeçado num buraco da calçada em frente antiga sapataria “Os Carlos” e agora “Bull's”, feriu-se com alguma gravidade.
Segundo a Liliana, funcionária da referida sapataria, “ o idoso ficou com as mãos cheias de sangue. Ficou branco como a cal da parede. O meu receio é que lhe desse ali mesmo qualquer coisa. Ainda quis chamar a ambulância ou os seus familiares, mas o senhor declinou. Certamente para não criar alarme lá em casa, não sei, penso eu!”
Quando interrogo a Liliana acerca de saber se já lá caíram mais pessoas, diz-me que sim. “Já muitas, porque o buraco, que nem é muito grande mas já está assim há cerca de um mês”, enfatiza.
Saliento que esta Rua das Padeiras, ao longo dos seus cerca de duzentos metros, tem várias covas no empedrado.
Já por várias vezes fiz comunicações à Câmara Municipal sobre assuntos deste género e, quase sempre, a resposta foi rápida. Ultimamente, sobretudo a partir de Agosto –talvez por falta de pessoal- as soluções têm tardado mais.

ASPIRAR TUDO, ATÉ O QUE NÃO SE DEVE


 Enquanto a Liliana falava comigo sobre a queda do idoso, no Café Pruri, na mesma Rua das Padeiras, o senhor Jorge, o proprietário deste simpático espaço, lançou à discussão uma teoria que faz todo o sentido. “Andarem por aqui pela Baixa com um super-aspirador é completamente ilógico. Se você reparar bem a maioria da calçada nesta e noutras ruas tem as pedras com grandes espaços entre si. O que acontece é que o aspirador suga as areias soltas e as pedrinhas ficam muito mais desamparadas. Mas isto é evidente. Só não vê quem não quiser. Deveriam arrumar o aspirador e o funcionário que o conduz, em troca, deveria passar a trazer aquele carro de duas rodas, que se usava antigamente para o lixo, e uma vassourinha.”
A verdade é que fiquei surpreendido com esta hipótese. De facto o desamparo da calçada em muitas ruas estreitas é mesmo uma evidência.

(ESTE TEXTO FOI ENVIADO À CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA)



CARTA DE UM AGENTE DA PSP

(IMAGEM DA WEB)



"Sr. Primeiro-Ministro
Sr. Ministro de Estado e das Finanças
Sr. Ministro da Administração Interna

Exmo.(s). Senhor(es)

Na qualidade de cidadão português e na qualidade de profissional que pertence aos quadros da Polícia de Segurança Pública, nobre instituição centenária, garante da segurança de pessoas e bens e um dos pilares da democracia e do estado de direito;Venho por esta via, dirigir-me a V/Ex.ª, dada a realidade política,social e a minha condição sócio-profissional que atingiram proporções inimagináveis.

Sou agente da Polícia de Segurança Pública desde 2000, entrei para esta instituição com espírito de dever e desde dessa data, desenvolvo as minhas funções com profissionalismo e dedicação. Mas também entrei com uma legítima perspectiva de carreira e de estatuto profissional.

Desde a data que me encontro na instituição P.S.P., passaram vários governos, vários ministros, vários responsáveis, aplicaram-se vários modelos, várias políticas, várias alterações, mas todas com um denominador comum, reflexos negativos do ponto de vista profissional e consequentemente reflectidos no aspecto motivacional, o que aliado às políticas gerais, provocaram também reflexos em termos sociais.

Durante os onze anos que me ligam à instituição P.S.P, investi num curso superior, em diversas formações internas e externas, para valorização pessoal, mas também profissional.

Estes onze anos que me ligam à P.S.P ficam marcados por congelamentos, por cortes, por limitações, por alterações de regras, com a implementação de regras penalizadoras, em promoções e progressões, que culminou numa perspectiva de carreira totalmente gorada.

Neste mesmo período, as condições de trabalho pioraram, em instalações, em meios, em viaturas, em higiene e segurança no trabalho que nesta instituição nem tão pouco existe.

Encontro-me inserido numa instituição onde o mérito não é valorizado,onde a dedicação não é reconhecida, onde a formação de nada serve, onde as qualidades não são aproveitadas, onde não existe um modelo uniforme de trabalho, onde as leis não são cumpridas, onde impera a teoria da superioridade “artificial”, onde a comunicação interna é adulterada, onde os níveis de responsabilidade são aplicados desproporcionalmente, onde os regulamentos são aplicados mediante pessoas ou interesses, onde ninguém assume responsabilidades, onde não há “líderes”.

A P.S.P. é uma instituição sem estratégia, sem uma visão de futuro, que vive apenas o dia-a-dia, é uma instituição desprovida de camaradagem, refém do poder político.

Direi ainda que é o reflexo da sociedade portuguesa ao momento.

Nestes onze anos, vi as exigências de serviço aumentarem, vi a prática do crime mais sofisticada e perigosa, vi uma desvalorização da minha profissão, vi um poder judicial que demonstra não conhecer o trabalho operacional, vi governos que encaram a segurança interna com objectivos meramente produtivos, criando modelos de repressão rodoviária, com intuitos contra-ordenacionais.

Nestes onze anos, vi o custo de vida aumentar, vi para os polícias e pessoas que vivem do rendimento de trabalho, cortes e mais cortes, vi sectores da sociedade com aumentos brutais de lucros e rendimentos, vi injustiças sociais e sacrifícios muito mal distribuídos.

Em termos profissionais e pessoais, constato que o actual governo, prossegue com a mesma prática política, os mesmos modelos de sempre, inclusive anulando um estatuto profissional e o seu conteúdo por razões orçamentais, congelando uma vez mais o meu ordenado, congelando possíveis concursos, colocando-me estagnado e barrado em termos de carreira, onde me encontro desde 2005, retirando metade do subsídio de natal, retirando-me percentagens no meu ordenado e suplementos.

Por tudo isto, demonstro respeitosamente, a minha profunda desilusão, desânimo e desmotivação, por ter sido mal tratado pelos sucessivos governos do meu país e por continuar a ser.

Respeitosamente."

(RECEBIDA POR E-MAIL SEM ASSINATURA DO AUTOR)


UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




joão josé cardoso deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA NOITE SEM HORÁRIOS": 



 Luís Fernandes, eu não vou pedir o anonimato. Isto ultrapassou o inimaginável. Não passou de um assalto selvagem ao direito mínimos de cidadania de quem vive na Baixa. Ainda mais vergonhoso, porque nunca teria sucedido se o Presidente da Câmara que foi eleito tivesse terminado o seu mandato. É preciso explicar porquê. Ou agora só podemos dormir se tivermos um autarca como vizinho? 


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Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA NOITE SEM HORÁRIOS": 



 Concordo com os eventos dos estudantes na Baixa, mas, dai, serem até quase às 6 da manhã já é outra coisa. É preciso respeitar os moradores e também os comerciantes. 

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Ermelinda Adelino deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA NOITE SEM HORÁRIOS": 




Todos os dias venho a este blogue.
Penso até que já se tornou um vício, mas dos bons.
Na maior parte dos temas estamos em 
sintonia. Hoje tenho que lhe dar os parabéns.
Muito obrigada, companheiro! 


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

UMA NOITE SEM HORÁRIOS




 Esta noite, última, de terça para quarta-feira, na Praça do Comércio, o Núcleo de Estudantes de Economia da Associação Académica de Coimbra promoveu a “Noite dos Horários”.
Segundo o Diário de Coimbra de ontem, as entradas custavam 2,50 euros, com direito a uma bebida. Para além disso havia animação com dois dj e do coral da tuna da mesma faculdade de economia.
Vamos por partes, e antes de entrar nas declarações de um comerciante, de um hoteleiro e dois moradores. No meu entendimento é bom que os estudantes comecem a frequentar a Baixa. São bem-vindos a esta zona histórica. Porém, nesta agora “recepção ao caloiro", há vários pontos que ressaltam.
Começo por dizer que todo aquele aparato de montar uma tenda gigante e rodear a vetusta Praça do Comércio por uma noite com grades de arame tem notoriamente qualquer coisa que atenta contra a dignidade de edifícios da Idade Média, como é o caso da Igreja de São Tiago. Mas, sublinho, que nem que fosse por uma semana faria sentido. Há nesta praça uma nobreza, uma honra, a defender. Não pode ser tratada, por exemplo só para comparar, como a Praça da República, que é ampla e não tem edifícios de grande historial.
Continuando na minha pretensa análise, fará sentido, mesmo por uma noite, coarctar o direito de acesso a alguém e contra o pagamento de uma portagem? -que era o que se verificava quem quisesse descer as Escadas de São Tiago.
Há também o eterno problema do ruído que se prolongou pela noite fora, mas, nas declarações, isso vou deixar para os moradores.
Outro ponto ainda, será lógico vir ocupar um espaço público gratuitamente, a coberto de uma tradição, para fazer negócio? Sim, porque este evento foi um negócio para o núcleo de estudantes.
Que viessem para a Baixa e consumissem os serviços da hotelaria que por aqui labutam até faria todo sentido. E até se admite que os preços pudessem ser negociados previamente. Agora, virem espetar uma lança em África sem terem qualquer respeito pelos nativos é uma acção questionável a todos os níveis. Para ser mais claro, é um desrespeito por quem aqui trabalha e ganha a vida.
Se é certo que, louve-se, não houve excessos que provocassem danos aos locais -excepto a violação do direito ao descanso-, nomeadamente a quebra de vidros de montras, como já tem acontecido. Salienta-se também a limpeza de toda a zona envolvente. Hoje de manhã estava tudo impecável. Contrariamente a outros eventos já realizados aqui e em que, durante vários dias, permaneceu o chão todo conspurcado. Há, no entanto, uma pergunta que terá de ser feita: quem paga o serviço prestado pelo pessoal da higiene? Sim, porque este evento, mesmo sendo de estudantes, tendo por objecto o lucro de uma determinada associação, não deixa de ser particular. Seria público, isso sim, se a entrada fosse livre e o seu fim revertesse para a comunidade.
O que entendo é que a autarquia de Coimbra, deixando-se embalar no canto do rouxinol, continua a colocar-se de cócoras perante uma qualquer associação de estudantes da Universidade de Coimbra.
A Baixa é de todos. Permitir que se continue a fazer o que se fez ontem é uma ilegalidade. É uma violação ao direito de circulação de qualquer um de nós.

E O QUE PENSAM OS QUE CÁ TRABALHAM?

 Um hoteleiro, que tem um estabelecimento numa destas ruas e pediu o anonimato, taxativamente disse: “é uma parolice da câmara licenciar uma coisa destas. Que interesse terá uma festa destas para a Baixa se fica tudo concentrado lá na praça e as ruas estreitas continuam desertas?
Um comerciante, com loja e que também pediu o anonimato, disse o seguinte: “coisas deste género, para a Baixa, nem aquece nem arrefece. Aliás, se calhar até arrefece, porque estamos sempre à espera de ver uns vidros partidos. Por acaso até correu bem, mas podia não ser assim. A APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, fez muito bem em demarcar-se deste evento. A autarquia apoiar uma festa onde o álcool corre a rodos… só aqui, em Coimbra!” –e bateu com a mão na testa.



E QUEM CÁ MORA?


 Uma senhora que mora na Praça do Comércio, e que pediu o anonimato, perante o ruído realizado, manifestou-se assim: “olhe, nem tenho palavras para descrever a revolta que tenho cá dentro. Até às 5h00 da manhã foi um barulho infernal. Não consegui dormir nada. Será que a Câmara, ao licenciar um evento destes, se esquece que temos de trabalhar? Será que quer fazer da Baixa o mesmo que se está a passar na Alta? Isto parece que anda tudo doido!”
Uma outra senhora que reside na Rua de Sargento-Mor, perante a minha interrogação sobre como tinha passado a noite, disse o seguinte: “olhe, sei que os prédios abanavam com tanta vibração. Até às 5h00 foi impossível de ignorar todo aquele ruído. No entanto lá me tentei defender o melhor que pude, corri as portadas e embrulhei-me a cobertores e lá consegui dormir alguma coisa.”


MARIA E AS PONTES DE SALVAÇÃO

(IMAGEM DA WEB)



 Antes de plasmar o meu pensamento, ressalvo que posso ser injusto com quem se entrega de alma e coração à causa da solidariedade. Conheço algumas destas pessoas. Ao escrever este texto, não sei se consigo, mas pretendo tão só fazer pensar um pouco sobre a temática dos sem-abrigo. Também não tenho por objecto “armar-me aos cucos” e querer parecer que sei muito, ou sou melhor do que qualquer um. Aliás, tenho pouca experiência sobre estes “sem-casa”. Volto a repetir, a intenção é apenas fazer pensar.
Sabe-se que associadas a esta pobreza de rua estão sempre patologias como o alcoolismo, a droga, o desenraizamento familiar, a perda de normas sociais de disciplina, e, em resultado destas premissas, a insanidade galopante.
Trabalhar com estas pessoas é extremamente penoso e difícil. Costumo dizer, em metáfora, que quem acompanha estes indivíduos deveria trazer numa mão um crucifixo –simbolizando a solidariedade humanitária- e na outra um porrete –a mostrar  a obrigação de cumprimento do dever de mudança. Nesta questão social divido-me muito entre o dar por dar sem nada exigir e o necessário cumprimento de uma obrigação para se alcançar a dádiva. Acabo por me inclinar para a segunda.
É um problema complexo e não se pode nunca generalizar, mas conheço algumas pessoas que recebem o Rendimento Social de Inserção num dia e no seguinte já não têm um cêntimo. Ora, não é preciso ser licenciado em Serviço Social para ver que dar dinheiro a estes sujeitos é um completo desperdício. A sensação que se tem é que a política social de ajuda seguida nos últimos anos é majorada no sentido de lhes ser transmitido de que não precisam de fazer nada porque tudo recebem gratuitamente.
Por outro lado, bem sei que vou escrever um disparate, mas mesmo assim, continuo. Tenho ideia que para muitas associações no País a ajuda aos sem-abrigo será um grande negócio. Por isso mesmo, no dia-a-dia ou noite após noite, limitam-se a visitá-los deitados num qualquer cartão, de uma qualquer esquina, dando-lhes comida como se faz a um qualquer animal, e pouco se preocuparão em contactar as famílias e retirá-los daquele charco.
É mais que natural que, se por um lado, muitos técnicos bem intencionados se comovam até às lágrimas pela frustração de não conseguirem arrumar a vida destes desabrigados da sorte, por outro, haverá muitos que, sem o sentirem, com o tempo foram ficando insensíveis à dor e petrificados na sua função. Diz quem sabe que todo o técnico, com o tempo, se transforma em tecnocrata.
Por outro lado, assiste-se todos os dias a isto: quem quer verdadeiramente trabalhar para sair da imundice da miséria, para além de ser pouco ajudada, ainda é explorada por todos, incluindo as próprias instituições com a sua insensibilidade. Só para exemplificar vou contar esta história verdadeira.

A HISTÓRIA DE MARIA

 Maria, vamos chamar-lhe assim, é uma mulher pequenina, de cerca de um metro e meio. Pelo rosto de menina, parece ter 20 anos. Se falarmos com ela, imediatamente, constatamos várias coisas: que os seus olhos brilham de inteligência, mas, certamente, pela circunstância dos seus 27 anos de vida amarga, é muito ignorante.
Como a pobreza atrai pobreza, para fugir à má sorte juntou-se com um rapaz há mais de meia-dúzia de anos. Para além de por duas vezes lhe encher a barriga com dois filhos –um agora com 6 e outro com 3 anos-, ainda lhe vergastava o corpo com cada malha de porrada que parecia uma coisa do outro mundo.
Maria acabou numa instituição de apoio à vítima, onde, durante três anos, permaneceu até há cerca de 3 meses. Como se tivesse arranjado um trabalho temporário foi “convidada” a sair da instituição. “Embora eles soubessem bem que era um trabalho temporário de apenas um mês, assim que este terminou, aproveitaram logo para eu partir de vez. Já andavam há muito tempo a dizer que eu tinha mesmo de ir embora”, enfatiza.
Maria viu-se na rua com duas crianças nos braços e sem qualquer rendimento. Entretanto arranjou uma casa que partilha com outra colega na mesma situação e pagam 280 euros.
Como o trabalho a prazo terminou, Maria tratou de arranjar ocupação o mais depressa possível. Os meninos tinham de comer todos os dias. Encontrou um serviço de limpezas, das 8h30 às 10, ali num café próximo da Praça da República. Mas como tinha de entregar os filhos no infantário e na escola até às 9 horas teve de largar este trabalho. Esteve nesta casa um mês e 3 dias e até ao último dia 13. A partir daí, tem feito caminho de Seca e Meca para lhe pagarem e não há maneira. Levou sempre os filhos com ela para verem que precisa de ajuda, mas nem assim lhe pagam. Umas vezes dizem para vir no dia seguinte, outras referem que não têm dinheiro. E Maria, como bola de pingue-pongue, anda assim a ser jogada. Tem arranjado uns trabalhos precários aqui pela Baixa, mas não chega para as suas necessidades. Ela quer ansiosamente trabalhar. O seu medo é que lhe tirem os seus amores, a sua única riqueza que a liga a este mundo profundamente injusto.
Como a má sina atrai a má sorte, Maria não tem ninguém a quem se apoiar. Há cerca de meio ano, num terrível acidente de motoreta, os pais morreram ali para os lados de Condeixa.
Para concluir esta “estória” desgraçada sem história, a instituição onde esta rapariga se acolheu durante 3 anos continua a receber os abonos dos dois miúdos. “Respondem-me que sem ordem do tribunal não me podem entregar o abono. É que preciso mesmo, senhor Luís. 35 euros pode não ser nada para a maioria, mas para mim é uma ponte para saciar a fome aos meus filhos”.



RESTA-NOS O BOM SENSO DOS TRIBUNAIS

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)


Tribunal absolve Livraria Barata de pagar coima à ASAE


Ministério Público criticou exorbitância das coimas aplicadas aos pequenos comerciantes por "entidades administrativas esfomeadas de dinheiro"

A Livraria Barata foi condenada a pagar uma coima de 4 mil euros pela prática de uma contra-ordenação, depois de uma fiscalização da ASAE às instalações da livraria na Avenida de Roma, em Lisboa, em Agosto de 2007.
Mas a livraria decidiu impugnar judicialmente a decisão. Na semana passada, a Pequena Instância Criminal de Lisboa considerou procedente o recurso de impugnação e absolveu a Livraria Barata de pagar qualquer coima. O tribunal considerou o montante excessivo e decidiu aplicar-lhe simplesmente uma pena de admoestação. A livraria sai com o aviso, mas não vai ter de pagar um cêntimo.
(Leia aqui a notícia no jornal i)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A SOLIDARIEDADE SIMPÁTICA



 Para Émile Durkheim –1858-1917, considerado um dos pais da sociologia moderna- a solidariedade na organização social dividia-se em dois estádios: mecânica e orgânica. A primeira, a mecânica, de grosso modo, será a oriunda das sociedades primitivas, e dos países em vias de desenvolvimento. Consiste numa solidariedade por semelhança. Quer dizer que os indivíduos diferem pouco entre si. Comungam do mesmo pensamento, aderem aos mesmos valores e quase sempre ao mesmo sagrado. Nesta forma de solidariedade mecânica há pouco pensamento crítico e o que houver será sempre olhado pela maioria com desconfiança. Naturalmente que o sistema político onde estiver implantado aproveita para combater ferozmente este espírito analítico.
Já a solidariedade orgânica, em contraposição com a anterior, pressupõe uma liberdade individual inerente ao ser vivo. Isto é, cada um, com uma consciência marcadamente individualizada, desempenha uma função própria, diferente dos demais, mas intrinsecamente assente na sua liberdade de escolha. Naturalmente que a sua opção é profundamente influenciada pelo meio e pelos sentimentos colectivos.
Utilizei este preâmbulo para expor um pensamento que me atrofia o cérebro. Desde que me conheço que sempre tive uma opinião marcada sobre determinados passos da vida social. Como sempre gostei de escrever, quase sempre como “sniper”, atirador furtivo, agi sempre sozinho. Não sou um assertivo confluente de massas, nem muito simpatizante de aglomerados reivindicativos de comícios. Quando me indignava uma qualquer situação escrevia para os jornais locais e esperava que as autoridades, depois de lerem, interviessem. Não sei quantas vitórias obti –nem isso para aqui interessa- , mas tenho para mim que alcancei muitas.

A FORÇA DO CIBERESPAÇO

 Há quatro anos passei a interessar-me pela Internet e comecei a escrever no Netlog, um site muito parecido com o Facebook. Aqui, como o acesso e a publicação eram muito mais fáceis, progressivamente, fui escrevendo todos os dias. Quis o acaso que uma amiga –já falecida-, no começo virtual, começasse a ler os meus textos. Então, passou a comentar os meus desabafos. Um dia disse que eu deveria ter um blogue para continuar a escrever. Como eu não sabia minimamente criar um, veio de Castelo Branco de propósito fundar a minha página online. Onde quer que esteja, que descanse em paz. Foi muito importante para mim este empurrão.
A Internet, como tudo nesta vida, é um instrumento fantástico de desenvolvimento intelectual. Passei a ter muito mais acesso à informação e a poder intervir onde achava que o deveria fazer. Embora com algumas ligações a forças vivas da cidade, ainda que mais virtual do que pessoal, continuei a agir sozinho. Algumas vezes, sobretudo através do Facebook, contactei estes sujeitos detentores de poder, e, particularmente chamando-lhes a atenção através da sensibilização, consegui resolver algumas dificuldades de pessoas que me rodeavam.

A EXTINÇÃO DO MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA

  No início de Fevereiro de 2008, tomei conhecimento de que o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), na Rua dos Coutinhos, na Alta da cidade, ia ser desmantelado. Como nessa altura, mais exactamente em 20 desse mesmo mês, estava programado um grande debate sobre a Cultura em Coimbra e que partira de um grupo de intelectuais, tendo como base uma petição na Internet sob o lema “Pelo direito à Cultura e pelo dever de Cultura!”
Então, lembrei-me de no referido debate apresentar a defesa do MNCT. E aqui comecei logo a apreender a primeira experiência: ninguém, sem nome e anónimo, por mais que uma causa seja fundamentadamente justa e importante, quer moral quer social, consegue levar a sua avante.
Neste citado debate, apesar da extrema importância cultural, poucos me deram importância. Que me lembre, só Reis Torgal, um emérito professor universitário, saltou em defesa do meu ponto de vista. Todo o auditório de 400 pessoas ficou embrulhado num mutismo. A cultura deles era outra.
Nos dias subsequentes, com ajuda, coloquei uma petição pública online. Também aquele movimento, dos “amigos da cultura”, tinha colocado uma no espaço virtual. Eles, em defesa de uma cultura etérea, conseguiram 1150 assinaturas. A que postei para defesa do MNCT, até hoje, conseguiu… 85.
Continuei a acreditar que, com o tempo, os cidadãos de Coimbra acabariam por entender que era uma estupidez deixar desmantelar um dos mais ricos museus do País. Escrevi vários textos que foram publicados no Diário de Coimbra; fui várias vezes à Assembleia Municipal; mais do que uma vez fui ao executivo camarário e o resultado foi o mesmo. Ou seja, Coimbra, por falta de envolvimento em assuntos importantes para a cidade, deixou desbaratar um acervo incalculável.

E PARA O CHOUPAL NÃO VAI NADA?

 Por interferência da minha filha, fui um apoiante da Plataforma do Choupal. Tal como outros membros deste movimento trabalhámos para evitar que se fizesse um corte cego na já tão depauperada Mata Nacional. Coimbra nunca apoiou esta acção popular. Saliento que, neste grupo, havia várias tendências ideológicas, no entanto, creio, o que ficou é que foi um exercício do Bloco de Esquerda.
Esta plataforma multipartidária ganhou esta batalha por mero acaso circunstancial, e de conjuntura financeira do País.
Pessoalmente, e como todos os restantes militantes desta causa, entreguei-me de alma e coração. Até compus um “Hino ao Choupal”.

E O METRO ANDARÁ UM CENTÍMETRO?

 Em Janeiro deste ano, por minha iniciativa, juntei-me ao movimento de reposição da linha da Lousã. Achei uma indecência o que o anterior governo PS fez às gentes de além-Ceira e até Serpins, ao mandar desmantelar a velha linha centenária e com a promessa de construir uma nova via para o metro ligeiro de superfície. Depois do levantamento dos velhos carris verificaram que afinal não havia dinheiro. Isto só mesmo em Portugal. Entreguei-me à causa com muito prazer. Para além de comparticipar em manifestações populares, compus o hino “Trem Fantasma”.
Depressa me comecei a aperceber que o que movia as pessoas, contrariamente ao que se possa pensar, não era o sentimento de repúdio, pela agressão intrínseca, mas tão só a reputação do líder do movimento, Jaime Ramos. Este homem médico, que teve um percurso político notório na cidade –chegou a ser Governador Civil-, é, acima de tudo, uma pessoa com muita influência em Miranda do Corvo. Daí se perceber que, no princípio da exaltação popular, havia uma grande congregação de forças. Como se começou a misturar política partidária com o interesse real das gentes locais, provavelmente –e infelizmente-, é mais uma acção não concretizada por falta de ligação umbilical à cidadania, à honra maculada, e ao proveito legítimo dos povos.
Na parte que me toca, deu para ver o interesse genuíno das gentes de Ceira, Miranda, Lousã e Serpins, quando, mais uma vez, compus outra canção, “Serenata ao Metro”.
Em 20 de Fevereiro, último, através da imprensa, foram convocadas todas as pessoas lesadas para comparecerem na Praça 8 de Maio, às 18h00.
Da parte afectada pelo corte da linha, estiveram presentes um habitante de Serpins e acompanhado da filha. Está bem que o cantor não valia um “tchicharo”, mas, que diabo, o que deveria contar ali era a ligação à causa.
E porque não compareceram os utentes da linha da Lousã no espectáculo? É certo que chovia muito, mas, a meu ver, as pessoas não participaram porque o líder Jaime Ramos não esteve presente.

MONTEIRO, ÉS FOLEIRO?

 Desde Maio que ando escrever no blogue acerca de um pária que calcorreia a Baixa de Coimbra e que dá pelo nome de Anildo Monteiro. Este homem, negro de nascença como negra parece ser a sua sorte, pouca indignação tem conseguido reunir por parte dos transeuntes que diariamente dão de chofre com ele.
Se atentarmos nos comentários do blogue, e mesmo agora que parece ser um assunto emergente com possibilidade de solução nesta cidade adormecida, facilmente se verifica que são poucas ou quase nenhumas as manifestações de revolta. Onde está a “esquerda”, que pretensamente terei tantos amigos virtuais, e tão sensível às causas sociais? Onde estará a direita, igualmente com alguns potenciais amigos, sempre também tão preocupada com o bem-estar social?
Então em resumo, porque não se importam com os Anildos desta urbe e concretamente com este Anildo Monteiro de que falo? Não me digam que é por ser negro? Não, isso não, que ninguém discrimina ou segrega ninguém! –dizem com ênfase. Então o que é que se passa?
No meu entender, e foi por isso mesmo que citei Durkheim, é que hoje, para além da solidariedade mecânica e da orgânica, pratica-se uma nova solidariedade por simpatia. Ou seja, quanto maior for o estatuto e reconhecimento do mentor da causa, maior será a adesão popular. Onde fica o sentimento intrínseco que nos causa indignação? Bom, isso não sei, mas também não importa nada. O que interessa é que o desencadeante do protesto veja que estamos lá… não vá amanhã precisarmos dele.