quinta-feira, 19 de outubro de 2017

EDITORIAL: BAIXA, AFINAL, O QUE PRECISAS TU?

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Os jornais diários de ontem, Diário de Coimbra (DC) e Diário as Beiras (DB), em primeira página, faziam referência à reunião de terça-feira promovida pela APBC, Agência de Promoção da Baixa de Coimbra, entre comerciantes e em que estiveram presentes dezena e meia de interessados.
Na sua liberdade editorial cada um salientava o que considerava mais paradoxal. O DB chamava a atenção para “Som exterior no Natal só com comerciantes a pagar metade” - “A Agência de Promoção da Baixa pede ajuda para financiar animação natalícia”. Prosseguindo o desenvolvimento da notícia no DB, “Sem a comparticipação directa dos comerciantes não haverá sonorização das ruas da Baixa de Coimbra durante o Natal. O orçamento para a animação no período natalício vai forçosamente descer, em relação ao ano passado, em detrimento de outros projectos estruturais, como a criação de novas empresas culturais e criativas. O presidente da APBC, Vitor Marques, chamou os comerciantes para lhe prestar contas e orçamento para as actividades da sempre aguardada quadra natalícia. Enquanto, em 2016, foram gastos cerca de 19 mil euros, este ano há apenas disponível cerca de 7.000, assegurado pela APBC. (…) “Como tivemos de fazer opções, deixámos de fora a sonorização das ruas, que tem um custo de 4.300 euros, e que propomos repartir pelos comerciantes”. Sem essa comparticipação dos comerciantes, “não haverá sonorização, porque a APBC não se vai endividar”, garante Vitor Marques. A Agência recebeu um financiamento da Câmara Municipal de Coimbra de 35 mil euros para 2017, sendo que “cerca de 26 mil estão executados até à data, à média de uma actividade por mês”.

20 NOVAS EMPRESAS CULTURAIS E CRIATIVAS

Continuando a citar o DB, “O “projecto do ano” para 2018 chama-se “Indústrias culturais como alavanca do território” e tem “como objectivo final a criação de 20 novas empresas no centro histórico dentro deste sector”. Com uma comparticipação de 85 por cento, o projecto custa 300 mil euros, o que quer dizer que a APBC tem de encontrar “cerca de 45.000 euros para este projecto, que a direcção entende que é estrutural para a Baixa. (...)”

PARAR PARA RESPIRAR

Comecemos por elencar o “Artigo Terceiro” -Objecto” do Regulamento da APBC:

1- A Agência tem como objecto social a promoção e modernização da zona da baixa de Coimbra, visando a requalificação daquela zona e o desenvolvimento da gestão unitária e integrada de serviços de interesse comum;
2- Para a prossecução do seu objecto social a Agência propõe-se realizar, entre outras, as seguintes actividades:

a) Realizar e gerir um plano de marketing e comunicação;
b) Promover e publicitar o conjunto comercial;
c) Definição dos horários dos estabelecimentos;
d) Promover a uniformização da época de campanha comerciais;
e) Garantir a animação da baixa;
f) Fazer estudos de mercado e estudar os hábitos de compra;
g) Editar um boletim informativo;
h) Instalar postos de informação aos consumidores.

INTERVALO PARA PERGUNTAS

Depois de em cima consultarmos o objecto social da APBC, isto é, o seu propósito, a finalidade da sua sua acção, surgem questões:
Pergunta: Terá a APBC vocação para desenvolver o conceito de incubadora de empresas na Baixa?
Resposta: Salvo melhor opinião, não tem. Lendo o ponto 1 verifica-se que o seu âmbito é “a promoção e modernização da zona da baixa de Coimbra, visando a requalificação daquela zona e o desenvolvimento da gestão unitária e integrada de serviços de interesse comum”.
(Requalificar: “conjunto de atividades que visam melhorar uma zona pública a nível urbanístico, ambiental, paisagístico, etc.; revitalização”)
(Desenvolvimento da gestão unitária e integrada: “Desenvolvimento de uma administração visando o (mais baixo) custo unitário (ao conjunto de custos, fixos e variáveis) e integrada (combinação de partes ou etapas que funcionam de forma completa) de serviços de interesse comum.”
E se dúvidas houver sobre a interpretação da sua acção vejamos as alíneas a) b) c) d) e) f) g) h). Todas elas remetem para a prossecução e desenvolvimento da actividade comercial na Baixa, incluindo a animação.

Mas imaginemos que, com outra leitura mais avalizada, até podia mesmo explorar o conceito de incubação de empresas:
Pergunta: É legítimo a direcção de uma entidade que visa a promoção de um sector de actividade afirmar que ““Como tivemos de fazer opções, deixámos de fora a sonorização das ruas, que tem um custo de 4.300 euros, e que propomos repartir pelos comerciantes”. Sem essa comparticipação dos comerciantes, “não haverá sonorização, porque a APBC não se vai endividar”.
Constatação: A APBC não se vai endividar por 4.300 euros para animar as ruas.
Constatação: Vão ser gastos 300 mil euros na incubação de empresas. Esta verba total está assegurada em 85 por cento -255.000 euros- por financiamento europeu. Faltam 45.000 euros. Onde se vão buscar? Para os obter a APBC não precisa de se endividar?
Pergunta tola: Será que a verba que falta não virá directamente dos cofres do município?
Pergunta tola: A APBC não está a ser utilizada para um serviço que caberá por inteiro à Câmara Municipal?
Pergunta tola: Com esta prestação servilista, não estará a prejudicar as suas dezenas de associados e toda a Baixa no seu conjunto?
Pergunta tola: É legítimo estar a financiar pequenas empresas “startups” quando a maioria de operadores comerciais está de corda ao pescoço, afogado em dívidas?

Haveria muito mais perguntas mas, para não ser demasiado longo, fico por aqui.
Valerá a pena pensar nisto?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AI, SENHOR! QUE SORTE A NOSSA!

(Imagem da ZAP aeiou)

Governo de Passos investigado por suspeitas de corrupção no projecto do TGV”

ACABARAM AS TRÉGUAS POLÍTICAS ENTRE MARCELO E COSTA

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Foto de Mais Estado? Não Obrigado.
(Imagens da Web)





Com o discurso, ontem, do Presidente da República, ficou provado que Marcelo Rebelo de Sousa é um “animal” político que sabe muito bem quando deve saltar fora de um alinhamento que o pode arrastar para a lama. Se, por um lado, é certo que procura a salvação individual e não ser chamuscado pelo fogo, por outro, ficou sublinhado que não quer ocupar o lugar para parecer “corta fitas” ou fazedor de fretes ao Governo, como se chegou a temer. Ficou claro, bem claro, que Marcelo quer o seu espaço de intervenção bem definido e bem separado da esfera do executivo liderado por António Costa. Marcelo, ao içar a bandeira de alerta geral para a classe política e pedido de intervenção da Assembleia da República, de dedo em riste, disse sem dizer que os partidos que apoiam o Governo não estiveram bem nesta questão dos incêndios que assolou Portugal e, quando deveriam exigir responsabilidades, calaram perante as tragédias de Junho e de Outubro por calculismo político. Foi devido ao “ralhete” do Presidente que António Costa demitiu -ou forçou a sua demissão- a Ministra da Administração Interna. Tal como Passos fez com Relvas no passado, Costa perdeu tempo e muito capital político ao querer levar até ao impossível a solidariedade camarada.
Ontem foi o corte entre o “antes” e o “depois” de Marcelo. De aqui em diante nada vai ser igual. Tudo indica que, com o aviso à navegação, a trégua institucional entre o Governo e a Presidência da República acabou. Ficou claríssimo que Marcelo, se as condições meteorológicas se agravarem, é “muito menino” para repetir um traço da história recente quando Sampaio demitiu Santana Lopes, alegadamente por incompetência e por não ter sido eleito, e abriu caminho à eleição de José Socrates, em 2005.
Num eterno retorno, tudo parece indicar que ou Costa se alinha, dando ouvidos à direita, representada por Cristas, ou temos o caldo entornado.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

AMANHÃ HÁ DEBATE SOBRE A BAIXA...




Caro Colega,

A Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, à semelhança do ano passado, vem agendar um encontro de comerciantes para apresentar algumas propostas e ouvir as  sugestões para melhorar a actividade comercial na Baixa de Coimbra , entre elas a época natalícia.
Este encontro terá lugar no Salão Brazil no próximo dia 17 de Outubro (terça-feira), pelas 19h30.
Solicitamos que caso estejam interessados em participar nos informem até ao próximo dia 16 de Outubro de 2017, por telefone (239 842 164), telemóvel (914872418), ou por email (apbcoimbra@gmail.com).
A V/colaboração é fundamental, atenciosamente,
O Presidente da Direcção da APBC
Vítor Marques”

--
APBC - Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra
Rua João de Ruão, 12 Arnado Business Center, piso 1, sala 3
3 000-229 Coimbra
Tel. 239 842 164  Fax. 239 840 242 Tel. 914872418
apbcoimbra@gmail.com
www.facebook.com/baixadecoimbra/
www.baixadecoimbra.com

NO APROVEITAR SE ACUMULA O GANHO...


TUDO IGUAL COMO DANTES...

Foto de 1001 Receitas Fáceis.
(Imagem furtadita da Web)

EDITORIAL: AS MESAS DE VOTO ENTREGUES A QUEM?

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(Imagem da Web)




Ficámos a saber que, após recontagem dos votos por uma Assembleia de Apuramento Geral, foram “detectadas muitas irregularidades nas eleições”, in Diário de Coimbra da última sexta-feira, 13 do corrente.
Prosseguindo a notícia do periódico, “Do apuramento geral de votos, já concluído, resulta desde já a redução de deputados socialistas na Assembleia Municipal de Coimbra – passa dos 13 eleitos directos para 12- e a entrada de mais um da CDU, que fica com seis elementos (quatro eleitos directos e dois autarcas). Mas outras consequências podem advir, tendo em conta que a Assembleia de Apuramento Geral, presidida pela juíza Paula Cristina Pereira, detectou várias irregularidades, que vão constar de acta e denunciadas junto de entidades com competência contra-ordenacional e, se caso disso, criminal.
Sobre este assunto, o movimento Cidadãos por Coimbra (CpC) manifestou repúdio contra este processo, pelos vistos, viciado -e com toda a razão, até porque foi esta agremiação que, pedindo a recontagem de votos, desencadeou a descoberta de manigâncias que, em nome do bom senso, da cidadania e da dignidade dos eleitores, não se admitem nem podem continuar a verificar-se. Em nota de imprensa, alertou o CpC para situações de “desleixo e incompetência”.
Segundo o jornal Campeão das Províncias, “Em 16,50 por cento das 139 mesas do referido acto no concelho de Coimbra foram validados e atribuídos a uma das listas concorrentes votos reconhecidamente nulos, assinala CpC, fazendo notar que, “felizmente, não houve qualquer padrão de favorecimento a uma das forças políticas”.
Neste contexto, Cidadãos por Coimbra lastima que a lei não permita à Assembleia de Apuramento Geral proceder à anulação de tais boletins.”

TUDO IGUAL, COMO DANTES

No início da década de 1990, quando a prestação às mesas era considerado um serviço cívico, como quem diz não remunerado, fui nomeado algumas vezes delegado à mesa. Depois deste desempenho começar a ser pago não mais fui solicitado para estas funções. Ao referir esta mudança de procedimento não quero dizer que tivesse ficado ressabiado. Nada disso. Quero dizer é que a mudança, porventura, pelos resultados obtidos e verificados agora, não teria sido bem sucedida.
Lembro-me também na altura de ter sido nomeado sem qualquer preparação prévia -e esta percepção era extensível aos colegas de mesa. Sempre que surgia um problema de maior, para o resolver, era com recurso a um pequeno livro editado pela Comissão Nacional de Eleições ou pela unanimidade de todos os delegados.
Pelo vistos, passados mais de vinte anos, o processo de nomeação para as mesas continua igual, isto é, sem preparação prévia de todos os escrutinadores. Quero dizer com isto que, nas alegadas falcatruas detectadas, pode estar sobretudo a omissão por desconhecimento e o amadorismo de quem está a supervisionar esta acção de tão grande responsabilidade. É engraçado que os agentes políticos, na generalidade, apenas se preocupam com a abstenção e, durante a campanha eleitoral até à exaustão, apelam ao cidadão para votar. Ou seja, preocupam-se com o acto efectivo e pouco com a logística. Como diria um amigo meu: “é à portuguesa! É cultural e ninguém leva a mal!”
De tal modo parece ser assim que até a lei eleitoral, ao não contemplar a anulação dos votos irregulares após o sufrágio, lhe dá cobertura. Dá para perceber que o legislador está cada vez mais focado no resultado final e cada vez menos atormentado com os meios como são conseguidos. Por outras palavras, se é que alguma vez as eleições tiveram as características da consciencialidade, da espontaneidade, e da liberdade, dá para ver que -numa espécie de vou ali descarregar o caderno eleitoral e volto já- o que conta mesmo é o eleitor lançar o voto numa urna e nada mais. O que vier a seguir já entra num campo obscuro que pouco importa analisar.

sábado, 14 de outubro de 2017

FALECEU O JOÃO MONTEIRO (DA JOANINHA)

Foto de Ana Monteiro.
(Foto retirada abusivamente da sua página do Facebook)




Durante décadas, até Setembro de 2008, o João Manuel Morais Monteiro foi nosso companheiro diário a percorrer estas pedras milenares. Vencido por doença incurável, deixou-nos ontem aos 66 anos de idade. Morreu desta vida existencial, mas a sua memória ficará para sempre ligada à Baixa, ao seu comércio, ao seu desenvolvimento social e económico.
Com a loja de brinquedos Joaninha, em frente à Câmara Municipal de Coimbra, durante muitos e largos anos, sendo um comerciante garboso e de brio, contribuiu para que muitas crianças, através de brincadeiras, pudessem sonhar e evoluir intelectualmente. Foi neste grande estabelecimento que adquiri muitos dos divertimentos para os meus filhos e conheci o Monteiro. Certamente, quem faz o favor de ler o que escrevo, teria sido lá também que tantas vezes teria comprado imensos passatempos para os seus miúdos e descendentes.
Mas foi em 1998 que vim a conhecer mais profundamente o João. Juntamente com outros colegas comerciantes, fizemos parte de uma direcção da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, e então, sim, vim a conviver mais e, tornando-nos amigos, a reconhecer melhor o Monteiro. 
Homem de profundas convicções ideológicas, que acreditava na justiça e que a política era missão séria para quem a praticava como múnus em direcção ao bem comum, acabou por se tornar uma vítima dessa (in)justiça e, com esse acto de distrate,  um céptico e profundamente descrente com o futuro do nosso país. Resultado de jogadas eleitorais em torno do Metro Ligeiro de Superfície e também de opções erradas por si tomadas, infelizmente a vida comercial não lhe correu bem e a mágoa desse falhanço, porventura, tê-lo-á acompanhado até ao último suspiro. Se o João Monteiro, agora finado, já acertou contas, outros, aqueles que, em lugares de poder, na altura, ajudaram ao seu afundanço, inevitavelmente, pagarão também pelos seus erros. Ninguém pense que se livra do julgamento natural. A Natureza não perdoa, corramos para onde quer que seja, não estaremos livres do seu braço justiceiro.
O corpo do saudoso extinto encontra-se em câmara ardente na capela funerária da Igreja de São José. O funeral será amanhã, Domingo, pelas 12h00.
À família enlutada, nesta hora de intenso sofrimento, em meu nome, em nome da Baixa, se posso escrever assim, os nossos mais sentidos pêsames. Até sempre João! Descansa em paz!

ENCERROU UM CAFÉ NO MEU BAIRRO




Escrevi este texto em 2013. Ainda que seja feio a
auto-citação, decidi voltar a postar a crónica dos
tempos passados mas tão presente na actualidade.


Há cerca de vinte anos encerrou a primeira mercearia no meu bairro. Eu não me importei com isso. Para além de não ser merceeiro, em boa verdade eu julgava haver demasiadas vendas do género. E mais, de vez em quando o senhor Mendes, o tendeiro, até embirrava comigo quando lhe pedia um quilo de açúcar fiado. Isto para mais de já estar farto daqueles móveis antigos e sempre acompanhados daquele cheiro intenso a bacalhau. A seguir foi a loja de ferragens do Ganilho, do Augusto Neves e outras. Também não quis saber. De certo modo até me senti vingado. Os filhos da mãe abusavam no preço do quilo dos pregos e, para mim, eram antipáticos. Não me importei. Afinal até havia outras lojas de ferro cá na zona. Depois foi o supermercado Colmeia que eu frequentava, ali na rua principal. Não me deu grande abalo. Aliás, até interiormente fiquei contente, os gajos carregavam à bruta no custo da fruta. Outros seguiram o fenéreo. E depois? Tivesse eu dinheiro, que não faltava onde o gastar e pequenos mercados para fazer compras.
Passado um tempo, na rua dos bazares, uns a seguir aos outros, começaram a fechar todos os estabelecimentos de brinquedos. Sei lá, o Bazar do Porto, de Lisboa, de Coimbra. Foi tudo à vida. E que me importava isso a mim? Ora, ora! Era certo que lá comprei quase todos os divertimentos para os meus filhos mas agora eles já estavam crescidos. Aqueles museus interactivos de brincadeira infantil não faziam falta nenhuma, e não me importei.
O velho café, aquele das tertúlias, o Arcádia, encerrou e passou para um pronto-a-vestir. Não deixei de dormir por causa disso. Eu nem lá ia! Até digo mais, com o seu desaparecimento até fiquei aliviado. Nunca fui à bola com os tipos que o frequentavam. Tinham a mania da superioridade. Até pareço estar a vê-los: erectos, pêra e barbicha, grandes bigodaças e pêlo na benta. Sempre me irritou aquela maneira altiva dos doutores. Já antes tinham fechado os cafés Internacional, a Brasileira, a Central e outros ainda. Eu tinha alguma coisa com isso? O tempo foi passando e reparei que o quiosque onde comprava o jornal diariamente encerrou. Não dei grande importância ao assunto. Sinceramente até andava a pensar em deixar de comprar periódicos. Para que ando eu a encher o cu aos tipos da imprensa que, em pagamento de martírio, estão sempre a bombardear-me com más notícias? Além de mais, se esta tabacaria fechou havia outras certamente. Aquilo não me causou dores na carapinha
Soube depois que claudicou a mais importante livraria cá do burgo, a Atlântida. Não sei bem, mas creio que já durava há uma catrafada de décadas. Não me importei nada. Raramente compro um livro! Para quê? São caríssimos! E depois é cada tijolo que até me apetece mandá-los à cabeça da minha sogra. Cerrou portas aquela e outras que foram na fila? Não liguei patavina. Não me faziam falta nenhuma. Há sempre outras e outras ainda que, depois da morte desta, nascerão. Fechou o estabelecimento de artigos decorativos o Neves & Companhia, na rua de cima. Eu nem perdi um segundo a pensar nisso. Depois foram atrás a Crislex, o Saul Morgado e a Casa Bonjardim. Não me faziam falta nenhuma. Havia comércio a mais! Eu queria lá saber disso?! Até era bom para os que ficavam. Começaram a desaparecer as casas de artigos eléctricos cá do bairro e eu comecei a ter alguma dificuldade em encontrar um componente para o meu computador. Mas também não me causou engulho. Em qualquer altura pego no meu popó e vou comprar ao centro comercial mais próximo.
Reparei que começaram progressivamente a encerrar todas as casas de música, que vendiam discos e cd’s. Não quis saber. Eu até fazia uns download’s gratuitos na Internet. Que tinha eu a ver com isso?
Esta semana encerrou o meu café, aquele onde ia beber a bica todos os dias. Era lá que ia comer e saborear o meu bolinho ao lanche e ler o jornal à borliú. Era o café da rua estreita, não sei se conheciam este pequeno estabelecimento... Se calhar não! Quase de certeza de que não! Foi então que comecei a ficar preocupado. De repente, constatei que não tenho mais nenhum bar com aquelas condições familiares na minha zona. Mas agora é tarde para começar a ralar-me. O proprietário já lá vai e nem quer que lhe falem da sua (má) experiência na hotelaria.
Será que ainda vou a tempo de evitar que encerrem outras casas comerciais cá no meu bairro? Sim, o melhor é começar já. É que lembrei-me agora: eu também sou comerciante e provavelmente irei a seguir.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HOJE É SEXTA-FEIRA 13

(Imagem da Web)



Eu não sou supersticioso,
nem sequer vou em cantigas,
chego a ser muito amoroso,
trabalho como as formigas,
às vezes sou meio manhoso;
Já li o livro de São Cipriano,
de trás para a frente e de lado,
preguei dez ferraduras num ano,
continuo liso e desajeitado,
a minha sorte é o desengano;
Dizem que quem não tem amor
no jogo consegue ganhar,
mas se eu não sou jogador,
nem na mesa nem a amar,
como vou ser ganhador?;
Já comprei uma galinha
de cor preta tão retinta,
só me falta uma santinha,
uma oração, uma finta,
para ter uma queridinha;
Já mandei ler o cobranto
numa velha com ventura,
disse que não sou santo,
que isto era uma tortura,
o que me falta é encanto;
Já fui a uma bruxa marada
para me tirar o encosto,
disse que não era nada,
eu precisava de um posto,
ou então de uma fada;
Encontrei uma cigana,
parecia uma guitarra,
pedi para me ler a sina,
era meio desajeitada,
como era linda a menina;
A sorte é como o destino,
dois pratos, uma balança,
a pender para o desatino,
à procura duma esperança,
num sorriso de menino. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

UM QUASE ACIDENTE, QUASE QUASE, NA RUA EDUARDO COELHO





Seriam para aí umas 15h00 de hoje na torre sineira da Igreja de São Bartolomeu. Apesar do dia estar a meio, o silêncio sepulcral na Rua Eduardo Coelho era apenas quebrado pelo abrir de portas de uma ou outra loja mais tradicional que ainda segue a cartilha universal dos velhos costumes, ou pelo bocejar de um outro comerciante que, fazendo contas ao dia, se sentia molengão e ensonado. Nos beirais, por cima e onde o olhar se perde a caminho do céu e em direcção aos santos milagreiros, os pombos, uns numa merecida sesta, outros a catar a pulga no penacho, outros ainda a ensaiar uma descarga de dejectos para cima do primeiro papalvo que se colocasse a jeito, tomavam banhos secos.
Sem nada premeditado para abalar a pacatez de uma ruela simples e modesta como modestos são os lugares singelos, foi então que a meio da antiga rua dos sapateiros, com frente para a artéria das mulheres que outrora cozinhavam pão e ali vendiam como tremoços, alguém ouviu dois homens, um invisual e outro quase cego de braço dado, depois de atestar e ligarem os motores de arranque, a dirigirem-se a pé, em correria, para o Largo do Poço. Diz quem viu que a velocidade naquele curto troço de calçada praticada pelos dois, cego e quase cego, estaria muito próxima dos 100 à hora, isto, claro está, numa zona de trânsito condicionado e onde a calma marca a hora e a quilometragem não deve exceder os 20. Para complicar a coisa, diz quem viu, ao que parece os dois condutores de si mesmo -ou melhor, o menos cego que pilotava o mais cego- presumidamente levavam um grão na asa, como quem diz, excesso de álcool no sangue -sublinho o “presumidamente” porque não se realizaram exames toxicológicos. Numa aritmética simples, está de ver que juntando as duas premissas, excesso de velocidade e mais álcool, o resultado da adição é igual a acidente. E foi mesmo o que aconteceu. Ouvindo-se o ribombar de vidros, o plim pim pim de objectos a beijarem as pedras, o som oco de dois corpos embarrilados a caírem no asfalto sem protecção, e toda a gente veio espreitar para ver o que estava a acontecer. Teria um qualquer santo caído lá de cima e vindo aos trambolhões por aí abaixo? Ter-se-á questionado em solilóquio.
Os sonâmbulos acordaram de repente, os pombos, alvoraçados pelo susto, levantaram voo e procuraram novo abrigo mais pacífico, o dono da loja, perante os estragos, alegadamente arranhou na cabeça e teria proclamado: “o que é que eu faço com isto?
Como conheço bem o lesado e afirmo ser uma pessoa de bem, de boa paz com o mundo e de muito respeito alheio, como não falei sobre a avaliação dos danos nem na vontade a seguir, adivinho que está tudo perdoado e nada vai ser alterado. Ou seja, a Rua Eduardo Coelho vai continuar na modorra habitual, os dois cegos vão continuar desiguais, um mais cego do que o outro, a tasca da zona vai seguir o mesmo ritmo na venda de tintolas de fazer estalar a língua, os mercadores vão continuar às portas de olho meio-aberto, meio-fechado, e o dia, inevitavelmente, caminhará para o seu fim. Valha-nos Santa Engrácia, protectora dos acasos que quebram as rotinas da cidade.




terça-feira, 10 de outubro de 2017

EDITORIAL: ESTE PSD ESTÁ ASSIM PORQUÊ?

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(Imagem da Web)




O Partido Social Democrata (PSD), com a anunciada não recandidatura de Passos Coelho, está à deriva. Se é certo que, nesta agremiação política social-democrata, o desnorte já vem de longe e esta não-inscrição de Passos é apenas mais um episódio num percurso de pouco mais de quatro décadas, é também correcto afirmar que se está perante uma oportunidade de renovação e não uma fatalidade, um percalço num longo caminho cheio de clientelas.
Antes de prosseguir, apresento uma ressalva, vou escrever na primeira pessoa. Não é que este modo verbal altere ou dê alguma importância de maior, mas somente por uma questão de facilitar a minha exposição de cidadão comum.
Embora me sinta independente de todas as forças partidárias, é com o PPD-PSD que, desde a primeira eleição nacional, em 1976, para o Parlamento, me sinto mais identificado ideologicamente. Curiosamente, depois da morte de Sá Carneiro, em Dezembro de1980, progressivamente fui-me afastando e só esporadicamente votei nas suas listas para as legislativas.
Depois do desaparecimento de Sá Carneiro foi eleito Pinto Balsemão, reinando entre 1981-83. A seguir foi Nuno Rodrigues dos Santos em 1983-84; depois Carlos Mota Pinto entre 1984-85. Destes presidentes, que ocuparam o cargo por curto espaço de tempo, para além de figurarem na história do partido, nenhum deles marcou profundamente a sua passagem.
Em 1985, depois da célebre viagem até ao congresso da Figueira da Foz, entrou em cena Cavaco Silva. Durante vários mandatos, até 1995, foi o que foi, ou seja, um conservador cinzentão à frente de um partido que nasceu como reação contra o corporativismo de estado; uma linha Social-Liberal, ligada à Social-Democracia defensora da democratização do Estado Novo e ligada ideologicamente à ‘ala liberal’ e, finalmente, uma linha Tecnocrática-Social, com preocupações mais ligadas ao desenvolvimento económico, privilegiando mudanças sociais e culturais como meio determinante de promover e alargar a democracia”.
Talvez se deva a Cavaco o que Portugal é hoje, ou seja um país periférico, improdutivo na agricultura e dependente em cerca de oitenta por cento das importações, que só agora, embora com dificuldade e com políticas envergonhadas, está renascer e a fazer recuperar o primeiro sector.
A seguir, em 1995, na mesma linha de Cavaco, foi eleito Fernando Nogueira que se manteve no cargo até ao ano seguinte. Em 1996 foi eleito Marcelo Rebelo de Sousa (actual Presidente da República) e manteve-se no cargo até 1999. Neste ano tomou assento Durão Barroso, que, depois de ganhar as eleições legislativas e ser nomeado primeiro-ministro em 2001, se manteve até 2004. Após três anos à frente do governo, trocando a chefia do executivo por um ordenado de 25 mil euros à frente da Comissão Europeia, entregou o partido e o comando do governo a Pedro Santana Lopes. Num acto muito duvidoso, este seria demitido do governo por Jorge Sampaio, mas manter-se-ia ao leme do PSD até 2005. Entrou Luís Marques Mendes e liderou o partido até 2007, ano em que seria substituído por Luís Filipe Menezes, que esteve até 2008. Manuela Ferreira Leite, a “dama de ferro”, tornando-se na única mulher-presidente esteve até 2010. Para além de sustentadas teses económicas a indicar o caminho do descalabro nacional liderado por José Sócrates, pouco ou nada acrescentou ao PSD. No fundo, na linha programática de Cavaco Silva, foi mais um timoneiro a contribuir para envelhecer ainda mais um agrupamento político que estava cada vez mais afastado das suas bases populares, que assentavam “numa adesão a um conjunto de valores e opções fundamentais, cuja consagração e respeito considera indispensáveis para a construção e consolidação de uma sociedade mais justa e mais livre.
Depois de várias tentativas falhadas para aceder ao poder, em 2011, entrou como presidente do partido Pedro Passos Coelho. Por demissão de José Sócrates, viria a assumir o cargo de primeiro-ministro até 2015.
Se até este ano de 2011 o PSD era já uma manta de retalhos onde, na mesma onda sucessória de outros partidos políticos, a “grande família” ocupava lugares e bons empregos na função pública, com a eleição de Passos Coelho os verdadeiros sociais-democratas ficaram com um líder que, desprezando a social-democracia, apenas buscava o poder a qualquer custo. Ao actuar no âmbito do ultra-liberalismo, no radical, mas sempre em nome do liberalismo, destruiu completamente a bondade de uma tese social de convivência humana e a matriz de um partido que outrora fez parte do seu programa.
A meu ver, Passos foi talvez o comandante laranja que mais mal fez à super-estrutura ideológica do partido.
Quem vier a seguir -imagino que Rui Rio- vai ter um trabalho dobrado. Se quiser recuperar muitos dos antigos apoiantes, o cidadão comum, o trabalhador assalariado, o pequeno e pequeníssimo empresário, vai ter de começar por fumigar e expulsar o “caruncho” que corrói o vigamento da estrutura há décadas. O PSD precisa de se reinventar. Necessita de um líder acima de tudo sério, que seja um exemplo para a sociedade -lembremo-nos por momentos o escândalo da Tecnoforma e da Segurança Social, de Passos. Que seja justo, quer com os fracos, quer com os fortes. Quem for eleito em Janeiro próximo, para além de ter de ser um homem desvinculado do aparelho, sem rabos-de-palha, terá de mostrar que é um político de verdade, não de circunstância mas para o futuro.

O QUE FOI O LIBERALISMO?

Sabemos todos que o liberalismo germinou na Revolução Francesa, em 1789, na tal trilogia “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Ganhou personalidade logo no princípio do século XIX –por cá, no sobe e desce, implantou-se em 1820. Com as premissas revolucionárias de “eleições democráticas”, “liberdade de religião”, “liberdade de imprensa”, “livre comércio” –com mais iniciativa privada e menos Estado-, “direitos civis” -o cidadão como centro do universo, com direitos e prerrogativas sociais- e defesa intrínseca da “propriedade privada” –descentralização da terra e respeito absoluto pela pertença individual- desenvolveu-se e atingiu a celebridade por volta de 1850 e arrastou-se até finais do mesmo século XIX.

A SOCIAL-DEMOCRACIA

A social-democracia, enquanto ideologia política, surgiu no final do século XIX. De certo modo como evolução do liberalismo mas para suavizar a filosofia Marxista. No fundo pretendia combater a ortodoxia Marxista. Esta, denegando a acção política, entendia a supremacia económica num determinismo planeado. Por outro lado, Marx defendia que a mudança social só era possível em corte horizontal, com uma revolução. O conceito de social-democracia, embora sendo de esquerda, preconizava que, através do reformismo, era possível a transição para o Socialismo gradualmente, tornando a sociedade mais igualitária, sem golpes transversais.
Com a Primeira Grande Guerra a decorrer, após a revolução bolchevique, em 1917, com milhares de mortos, que derrubou a autocracia russa e elevou ao poder Lenine, estava criado o vírus pandémico de temor para a Europa e para a necessidade de um novo conceito de social-democracia. A crise de 1929 veio mostrar a indispensabilidade de criar o Estado de bem-estar Social para proteger e defender a população de grandes cataclismos naturais, sociais, e económicos garantindo o mínimo de dignidade social, desde o nascimento até à sua morte. Com o sucesso da Social-Democracia nos países do Norte da Europa logo a seguir ao final da 2ª Guerra Mundial, após a queda dos regimes ditatoriais e autoritários, os países do Sul, incluindo Portugal, por alturas de 1970, adoptando a Democracia, transformando-se em estados de Direito, aplicaram a mesma fórmula de Estados Providência dos países nórdicos. Porém, com enormes diferenças. Lá, nas nações escandinavas, retirando os pilares estruturantes como educação, saúde e justiça, só é distribuído pelo Estado o que cada um, proporcionalmente, contribui ao longo da sua vida. No Sul da Europa, mais essencialmente em Portugal, fez-se o contrário. Num igualitarismo exacerbado, entendeu-se que, pelo simples facto de serem cidadãos, todos tinham direito a receber, mesmo sem contra-prestação. Para piorar, os directores-gerais, outros e políticos de carreira, com as suas subvenções e reformas milionárias e outras benesses que chamaram para si e para as suas famílias, para além de erros crassos na administração (sobretudo com a crise bancária) elevando até ao infinito a dívida pública, fizeram com que, em consequência, o que resta hoje da matriz social-democrata seja um esqueleto.

O ULTRALIBERALISMO

O ultraliberalismo, também chamado de neoliberalismo, embora absolutista, é inspirado na corrente social-democrata da segunda metade do século XX no Norte da Europa mas com diferenças radicais e autoritárias. O liberalismo/social-democracia defendia a livre concorrência e a livre iniciativa mas sempre com o Estado a regular a economia, evitando as assimetrias económicas, acautelando que o grande capital mundial, pela sua força aglutinadora, não submergisse a pequena economia. Por outro lado, garantindo os direitos dos trabalhadores, regulando as leis do trabalho, e, ainda e sobretudo, que as grandes empresas nacionais estruturantes se mantivessem na sua posse. O ultraliberalismo veio derrubar todas estas antigas premissas de equilíbrio entre o Estado e cidadão e entregar de bandeja as nações, o seu povo, ao grande capital, selvagem e sem pátria.
Pode afirmar-se sem possibilidade de erro que em Portugal começou com José Sócrates, em 2005. Com o “crash” de 2008, tornou-se viral e com a motivação substantivada na razão para o endurecimento de medidas cada vez mais cerceadoras dos direitos e aflitivas para o cidadão. Com Passos Coelho a usar e a abusar da mesma fórmula baseada na crise, desvalorizando o valor do trabalho no custo da produção e com a quebra de direitos levando-nos ao empobrecimento colectivo, aproximamo-nos cada vez mais dos países emergentes. O que resta hoje da Social-Democracia versus Liberalismo é uma mera sombra. É um projecto inscrito num livro empoeirado que repousa no sótão da nossa esperança.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A SÍNDROME DA GUERRA QUE ACABOU MAS CONTINUA NA CABEÇA DE ALGUNS

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Na Página da Câmara Municipal de Coimbra (não oficial), pelos vistos, para muitos membros, a campanha eleitoral para as eleições autárquicas em Coimbra, apesar de ter terminado há uma semana com a eleição de Manuel Machado, continua na sua cabeça. E continua mal, sobretudo com insultos a outrora candidatos, alguns deles eleitos e outros não. Quando o opróbrio não é dirigido a estes concorrentes, de forma grosseira e agressiva, vai para quem manifesta discordância.
Meus senhores, sem qualquer intenção de paternalismo, superioridade, ou expressão de afirmação, preciso de vos alertar que já chega!
Já o escrevi aqui, parabéns e glória aos vencedores! Respeito, honra e dignidade para os vencidos.
Uma disputa eleitoral não é igual a um qualquer torneio. Num processo eleitoral, eleitos e não eleitos, todos contam para o resultado final. Vencidos e vencedores contribuíram para trazer à liça problemas que, mesmo num clima aguerrido e às vezes exagerado, ajudaram a consciencializar de que existem problemas e precisam de solução.
Já passou uma semana. Há um tempo para tudo. Há um espaço para o luto, para a discussão dos resultados e, naturalmente, a seguir vem o tempo da aceitação, ou -embora não sejam sinónimos- tolerância. Estamos no período de enterrar os “mortos”, cuidar dos “feridos”, e, globalmente, encaminhar todos os vivos para uma vida melhor. Para aqueles que, por trauma ou síndrome, não conseguem ultrapassar recomendamos a psicoterapia.
Um processo eleitoral democrático, como se sabe, não é uma guerra entre partidos, movimentos, ou pessoas. No máximo pode ser classificado como uma competição entre projectos que visam transformar a polis, a cidade, a vida social, entre pobres, remediados e ricos, para melhor.
O facto de chamarmos a esta prova democrática significa que os resultados finais, mesmo que não correspondam individualmente aos nossos desejos mais profundos encravados na convicção ideológica, enquanto cidadãos bem-intencionados, justos e respeitosos, aceitamos de boa fé a sua consequência.
Estamos no tempo de embainhar as espadas e, através da dialética construtiva, mesmo criticando com afinco, deixarmos de insultar seja quem for.
Vale a pena pensar nisto? Estou em crer que vale mesmo! Vamos lá?

*Moderador

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

JANTAR CULTURAL “ANOS 20”





Amanhã, quando o relógio da torre sineira da igreja do bairro do Brinca bater as 19h30, as portas da Escola Secundária D. Dinis começarão a abrir-se para dar passagem às muitas dezenas de pares que, vestidos de forma revivalista e a fazer lembrar os loucos anos de 1920, irão abrilhantar o grande baile cultural no salão da popular escola. Antes dos primeiros passos de dança, onde não faltarão o tango e a valsa, será servido um suculento jantar acompanhado com imensas surpresas. A música de encantar estará a cargo da BANDA BOHÉME, talvez a mais importante orquestra de baile da zona centro e cujo desempenho musical conheço bem e recomendo vivamente.
O custo para ter acesso a tanta alegria e emoção será de apenas 15 “culturas” por pessoa, como quem diz, 15 euros.
Este evento é organizado pelo GFEBRINCA e terá o apoio de várias entidades privadas e públicas, entre elas a Câmara Municipal de Coimbra.
As inscrições prévias podem ser feitas para os seguintes contactos:

93361407 - 917853836

terça-feira, 3 de outubro de 2017

BOM DIA, PESSOAL...

RESULTADOS ELEITORAIS EM COIMBRA: PORQUÊ ASSIM? (VISTO DA MINHA JANELA)

(Imagem da Web)




Como é público nas notícias, Manuel Machado, recandidato pelo PS, ganhou a Câmara Municipal de Coimbra com 35,46% e conseguiu eleger 5 vereadores.
Antes de prosseguir, parabéns e glória ao vencedor. Durante os quatro anos que se avizinham, quer se tivesse votado nele ou não, para todos os efeitos legais e de respeito pela cidadania, Machado é o nosso presidente.
Continuando, tentando dar explicação a várias questões, nomeadamente entender os resultados, comecemos pelo vencedor: Manuel Machado.
E nada melhor do que formular a primeira pergunta:

Sabendo-se que, enquanto timoneiro neste últimos quatro anos à frente do município, o seu desempenho foi tudo menos unânime, porque ganhou este candidato com tão folgada margem sobre o segundo contendor, Jaime Ramos, o pleito eleitoral?

Iniciemos a resposta com uma apreciação geral sobre Manuel Machado. No tocante à avaliação profissional, pelo pouco que sabe uma pessoa que nunca trabalhou com ele, este representante do PS é um economista sério e que coloca o rigor diariamente nas suas contas. Já no desempenho político, no tocante a concursos directos atribuídos a correlegionários e apoiantes, muito há a (mal)dizer. Ainda que tudo dentro da legalidade, a verdade é que os socialistas de coração, justos e de boa fé, torceram o nariz a esta prática discutível do ponto de vista ético e a sua nomeação para segundo mandato não gerou consensos.
Machado, de semblante carregado e sorriso contido, é um homem apagado. Alheio a grandes manifestações populares, detesta agrupamentos e, em recolhimento, abriga-se no silêncio de um gabinete. Como todos os solitários, é um perfeccionista eficiente. Céptico, só acredita no que vê, por isso mesmo delega pouco e gosta de examinar tudo antes da assinatura de despacho.
De voz grossa e bem colocada, falando pausadamente, usa o timbre como arma de dominação e tenta impressionar quem o ouve.
Homem culto e de larga experiência política, conhece Coimbra como poucos. Apesar de detestar o contraditório, pelo conhecimento global, facilmente contradiz alguém que contrarie a sua opinião. Embora tenha perfeita noção da hipocrisia à sua volta, gosta da subserviência de quem o rodeia. O poder é o seu mundo e sem ele sente-se um náufrago.
Tal como em 2013, quando ganhou a edilidade ao PSD/CDS, foi candidato por exclusão de partes. Ou seja, em Coimbra, o PS não detém grandes quadros de nome sonante que possam competir com a oposição laranja. Por isso mesmo, nessa altura e tal como agora, foi um candidato de recurso, uma reserva para grandes conflitos, já a acusar algum desgaste e cansaço. Perante o número de votos contados, ganhou a Câmara mas não conquistou nem seduziu o eleitorado citadino.
Devido a um superavit anunciado -lucro do exercício, em que as receitas são maiores que a despesa-, distribuindo milhões a IPSS´s e relvados sintéticos a clubes de futebol na área da cidade e realizando obras de conjuntura, soube cativar o eleitorado suburbano.
Tendo como principal opositor o médico Jaime Ramos, inteligente, carismático de obra feita em Miranda do Corvo mas “estrangeiro” em Coimbra, facilmente fez troar o toque a reunir pelas trompas às tropas socialistas em torno de Machado.
O declarado bom desempenho económico do Governo Nacional, mesmo em espírito de agregação, acabou por influenciar o eleitor e beneficiar o actual vencedor da cadeira municipal.

E sobretudo para a Baixa? Foi bom ou mau este resultado eleitoral?

Tendo em conta a elevadíssima falta de popularidade de Machado na Baixa da cidade, por incrível que pareça, ganhou o candidato que mais pode fazer pelo futuro da zona histórica e retirá-la do apagamento letárgico em que se encontra. Com várias obras estruturantes iniciadas e prometidas, desassoreamento do rio, abertura total da denominada Avenida Central, conclusão do metro ligeiro de superfície sobre pneus, prometido pelo Governo, Machado está preso à conclusão de pelo menos estas três obras públicas.

E OUTRO GRANDE VENCEDOR É...?

O troféu do segundo melhor, sem dúvida, vai para José Manuel Silva, do movimento independente “Somos Coimbra”. Partindo da rectaguarda de todos, o ex-bastonário, arguto e inteligente, soube perceber com facilidade as fragilidades dos dois maiores contendores, Machado e Ramos, e foi capaz de retirar dividendos da guerra aberta.
Como diria um conhecido, a vingança serve-se fria. Lembro que Silva chegou a ser badalado para cabeça-de-lista do movimento Cidadãos por Coimbra (CpC), que não foi aceite por, alegadamente, ser social-democrata e que levou a uma série de demissões. Como se sabe, o movimento escolheu outro candidato: Gouveia Monteiro, que não foi eleito.

E OUTRO, NEM VENCEDOR NEM VENCIDO, É...?

A taça para o “nem sim nem não”, vai para Francisco Queirós, representante da CDU, e que no anterior mandato, servindo de muleta ao PS, ocupou a vereação da Habitação no executivo municipal. Perdendo votos em relação a 2013, sendo agora nomeado novamente à justa, dá para ver que o eleitorado não gostou muito do seu desempenho. Que se cuide para 2019. Se continuar na mesma linha de pouca demarcação partidária, a CDU corre o risco de perder o assento. Ficou o aviso intercalado entre as cores vermelha e rosa.

E OS GRANDE DERROTADOS SÃO...?

O maior vencido deste pleito eleitoral, sem margem para dúvida, foi Jaime Ramos, candidato em representação da coligação “Mais Coimbra”, PSD/CDS/PPM/MPT.
Seguro, confiante, de sorriso fácil, utilizando o charme como arma de convencimento, Ramos, médico, empresário e empreendedor social, é um pragmático, prático e eficiente, que nesta batalha pela conquista do castelo conimbricense levou uma lição para contar em Miranda do Corvo. Nunca o título do seu livro “Não basta mudar as moscas” foi tão a propósito. Deu para ver que antes da mudança vem o namoro dos apoiantes. E foi o que Ramos não soube fazer. Talvez por excesso de confiança, usando um parafraseado verbal um pouco para o truculento, conseguiu hostilizar os seus prováveis eleitores e criar anticorpos. Para piorar, na abertura de uma creche em São Martinho do Bispo sem licença de utilização, pareceu mostrar que o cumprimento da lei é para os outros.
Para complicar ainda mais a sua caminhada autárquica, aceitou Passos Coelho na campanha sabendo-se que o actual presidente do PSD, em vez de constituir uma mais-valia, é um activo tóxico em potência.
Tal como Machado está para o PS, Ramos serviu o PSD como “última reserva” já que também este grande partido -excluindo Barbosa de Melo, ex-presidente camarário- não tinha mais ninguém pronto a ser crucificado na cruz. O médico de Miranda serviu como “carne para canhão”, infantaria para abater. Passos Coelho usou Ramos. E com este acto arrumou para sempre a ambição política de um homem que sonhou um dia conquistar Coimbra.
Especulando, quem teria ficado com dores de barriga de tanto rir na noite das eleições, foi Barbosa de Melo, ex-presidente da edilidade por renúncia de Carlos Encarnação em 2011 e que viria a perder a cadeira para Machado em 2013.

OUTRA CAIXA DE LENÇOS VAI PARA...?

Outro grande perdedor foi o movimento Cidadãos por Coimbra, que largou a mão do único vereador eleito que detinha no executivo.
Por manobras ideológicas de controlo do poder e fé numa esquerda identitária que nem sempre move moinhos, destruiu-se um projecto que poderia ter sido uma grande alternativa na cidade.
Embora pareça mal rir perante a desgraça de alguém, em face deste fracassado plano, com gritos histéricos a ecoar, presumivelmente, haverá muita gente de sorriso de orelha-a-orelha e, mesmo sendo ateus, em longa lucubração, adivinha-se, a cogitar que Deus escreve direito por linhas tortas. Desde o anterior vereador, Ferreira da Silva, passando pelos deputados à Assembleia Municipal, até ao agora eleito José Manuel Silva, e ainda Norberto Pires, todos, à sua maneira, alegadamente, renegados e maltratados.

domingo, 24 de setembro de 2017

FALECEU PEDRO OLAYO (FILHO)

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(Imagem da Web)



Segundo o Diário de Coimbra de hoje, faleceu Pedro Olayo (filho). Reconhecido pintor de artes plásticas, porventura um dos maiores espatulistas, foi na Baixa que nasceu e desenvolveu toda a sua criação artística. Filho de peixe, como soe dizer-se, impreterivelmente, teria de ser um grande nadador. Seu pai, Pedro Olaio, e também seu avô foram grandes pintores.
Homem simples, cordial e de trato acessível, Pedro Olayo (filho) deixa uma vasta obra espalhada pelo mundo. É um dos grandes obreiros pictóricos que parte e deixa a cidade mais empobrecida nas artes.
Para a família, em nome da Baixa, em nome da cidade, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames nesta hora de grande sofrimento e perda.
Uma grande salva de palmas para o Mestre. Um grande eferreá para o senhor Pedro Olayo (filho)! 

sábado, 23 de setembro de 2017

EDITORIAL: ESTE TEMPO EM QUE O HOMEM NÃO QUER MORRER PARA O MUNDO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Um novo mundo está em germe, um novo tipo de homem está em gestação. As massas, condenadas actualmente a sofrer mais do que em qualquer outra época, estão paralisadas pelo medo e pela apreensão. Como os seus traumatizados de guerra, as massas retiraram-se para os túmulos que para si próprios escavaram. Perderam todo o contacto com a realidade, excepto no que se refere às suas necessidades físicas. É evidente que o corpo deixou de ser há muito o templo do espírito. É assim que o homem morre para o mundo – e para o Criador. No decurso da desintegração, processo que pode prolongar-se por vários séculos, a vida perde todo o sentido. Uma actividade desenfreada, que se manifesta com igual ferocidade nos esforços dos académicos, dos pensadores, dos cientistas e nos actos dos militaristas, dos políticos e dos salteadores, oculta a presença cada vez mais ténue da chama viva. Esta actividade insólita é, ela própria, sinal de morte próxima.
(…) As nossas leis e costumes dizem respeito à vida social, à nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A verdadeira vida começa quando estamos sós, frente a frente com o nosso eu desconhecido. O que acontece quando nos encontramos com os outros é determinado pelos nossos solilóquios interiores. Os acontecimentos cruciais são verdadeiramente decisivos que marcam o nosso caminho são fruto do silêncio e da solidão. Costumamos dar grande importância aos encontros ocasionais, referi-los como pontos de viragem das nossas vidas, mas tais encontros nunca poderiam ter-se dado se não nos tivéssemos já preparados para eles. Se estivéssemos mais despertos, estes encontros fortuitos seriam ainda mais compensadores. Só em certos momentos imprevisíveis nos encontramos plenamente receptivos, plenamente disponíveis, por isso, em condições de receber os favores da sorte. O homem bem desperto sabe que todos os “acontecimentos” estão carregados de sentido. Sabe que não é só a sua vida a ser alterada, mas que todo o nosso mundo virá a ser igualmente afectado.”
Henry Miller, O Mundo do Sexo, 1940.

Socorri-me destes parágrafos do grande Henry Miller, escritos em 1940, para comparar esses tempos difíceis, com nuvens de guerra mundial onde a política pouco contava, com a actualidade onde por cá, pelo País, pela Península Ibérica, pela Europa, a política soçobra, fazendo submergir a lei e o direito, impondo-se como um espectro de lastro invisível de proveitos e sempre com a conveniência ideológica em pano de fundo social. Neste tempo de entendimento periclitante, cuja razão passou a ser uma contestação omnipresente, individual e subjectiva, em que as premissas “causa” e “efeito” se confundem e a segunda, justificando e abafando a primeira, perdendo toda a coerência, surge como verdade sem contestação, onde a paz, feita por guerreiros com metralhadoras em riste, nunca foi um princípio mas um subterfúgio para alcançar a guerra. Como espectadores fixados no desabrochar de um cataclismo, esperamos a todo o momento o eclodir de um grande conflito mundial encetado por duas super-potências mais interessadas no fabrico de armamento bélico do que assegurar a concórdia do planeta.
Por cá, a uma semana das eleições autárquicas, o ruído nas redes sociais é ensurdecedor. Não há escândalo no futebol nem plágio de um grande cantor que faça abafar o grito de que o meu candidato é melhor que o teu. Quer o concorrente ao cargo, quer o fanático apoiante, um que engana e outro que é enganado, previamente e com conhecimento mútuo, sabem que vão sofrer uma frustração no futuro. No entanto, como se a defesa da mentira constituísse uma afirmação de carácter, juram a pé-juntos a sua absoluta certeza. Pelo pugnar de promessas vazias insultarão tudo e todos quantos ousarem contradizer as suas afirmações convictas.
Por lá, aqui mesmo ao lado na vizinha Espanha, para muitos, nada importa o que se está a passar com a Comunidade Autónoma Catalã. Pouco interessa se o que está em causa é o direito, o cumprimento da carta constitucional e a unidade de uma nação -que por acaso, só por acaso, é nosso vizinho. E se fosse connosco? Para os defensores da realização do Referendo o que conta são os fins e não os meios, como quem diz, a política sobrepõe-se à lei. Acontece que um Estado de Direito detém mecanismos que, discutidos e aprovados num parlamento por uma maioria, simples ou de dois terços, podem alterar qualquer prerrogativa e, como neste caso da Catalunha, será ali que todos os anseios de unidade territorial ou maior auto-determinação terão de ser avaliados e aprovados.
Para não ser esquecido, recorrendo a todos os instrumentos possíveis e imaginários, o homem fará tudo para não morrer para o mundo. O Direito, o conjunto de normas de conduta para regular as relações sociais, que foi sempre a luz harmónica da justiça e da paz comummemente aceite para dirimir conflitos, já não serve para conter os interesses.