sábado, 20 de maio de 2017

FALECEU O "ZÉ" NETO




Foi hoje a enterrar o “Zé Neto”. O Neto, com longa carreira na restauração e com provas dadas no famoso restaurante com o mesmo nome na Rua das azeiteiras, foi um empresário que muito dignificou a Baixa e o Centro Histórico.
À família enlutada, nesta hora de sofrimento e dor, em nome da Baixa, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames.

EDITORIAL: A ANIMADA MARCHA FÚNEBRE COMERCIAL





Eu gosto muito da minha cidade. É uma urbe média, encastrada entre o Porto e Lisboa, com cerca de 100 mil habitantes. Como todas as cidades de dimensão média ou pequena, na sua idiossincrasia, é peculiar. Quase diria que o que se passa na lusa Atenas é transversal às suas congéneres.
Até ao virar do milénio, pela atracção humana que desencadeava sobretudo no consumo interno, era o centro do centro de Portugal. Nesta altura, pelo troar dos passantes em movimento contínuo, a Baixa, nas suas ruas, estreitas ou largas, detinha um barulho muito próprio que lhe conferia uma segunda identidade. Nas vielas mais manhosas onde um odor putrificado a pobreza invadia tudo em redor havia roupa estendida nas janelas a mostrar que mesmo nos antípodas mais esclerosados há sempre vida. Entre os moradores das largas avenidas e ruelas estreitas existia um respeito mútuo não escrito mas declarado num convívio tácito. A Baixa, entre doutores, estudantes e trabalhadores, fervilhava de gente de todos os extratos sociais.
Nesta época, qualquer entrada de porta para instalar um pequeno negócio, pela transmissão, valia milhares de contos. O imobiliário, com um preço fora do bolso comum, era sagrado e quase só alcançável aos mais ricos. Pelas dificuldades monetárias de acesso, ser comerciante não era para qualquer um. Para o ser, maioritariamente, tinha de passar muitos anos a atender público atrás de um balcão como marçano e, calcorreando noites e noites em claro, estar disposto a abdicar do amor da sua família e a dedicar-se por inteiro ao seu cliente.
A partir de 2000, com promessas de uma nova felicidade inscrita numa nova moeda, tudo o que eram coisas simples e vulgares deixaram de ser atractivas e foram perdendo interesse. Era o tempo da substituição do pequeno pelo grande. Era a época das grandes obras faraónicas.
No Comércio a alegada (r)evolução estava em marcha. Ao mesmo tempo que com a mão direita se assinava o licenciamento de muitas grandes superfícies comerciais, com a esquerda, para mostrar equidade e que os deuses, materializados no governo central e local não dormiam, distribuía-se dinheiro a rodos pelos pequenos comerciantes através do PROCOM, URBECOM E MODCOM, programas de ajuda ao comércio com o beneplácito da União Europeia. Com esta medida de política económica, os comerciantes endividaram-se e, para além das muitas remodelações, abriram ainda mais lojas no centro histórico -se não todos, a maioria destes mercadores que contratualizaram estes projectos faliram ou encerraram portas ao longo destes cerca de vinte anos. Foi um definhamento contínuo.
Com muitos e maiores centros de venda, o consumidor da cidade, outrora coesa e equilibrada na oferta e na procura, foi-se espartilhando e dividiu-se pelas várias ilhas comerciais do burgo. Este consumidor, sem ética, egoísta e abutre -que somos todos um pouco-, nada se importa com o que possa acontecer com o futuro da cidade. Por diversão, por comodidade, dará tudo na forma de voto no candidato que esteja disposto a mais proporcionar. Para comprar mais barato, passará por cima de amizades ou laços familiares.
Como um rio a quem alteraram o curso de água, progressivamente a Baixa foi perdendo tudo -e nem a recente classificação de Património Mundial alterou a sua degradação contínua. Desde a beleza natural que o tempo, pelo desgaste natural, pelo abandono, na dinâmica e mudança dos costumes, faz apagar, desde o esvaziamento contínuo de habitantes fixados, que vão morrendo e não são substituídos por mais novos, até políticas de urbanismo catastróficas onde impera o gastar de milhões de euros em obras que para nada servem a não ser encherem o olho, a zona comercial continua a cair aos olhos de todos. Aos poucos, como corpo que se habitua a migalhas, o pequeno/pequeníssimo comerciante foi-se adaptando a este conta-gotas de apenas se alimentar para sobreviver. Por outro lado, o medo de amanhã acordar sem tecto foi fazendo dele um animal acossado e amestrado que, para além de não reclamar do castigo imposto, elogia e ama o seu verdugo. E dá origem a novos falcões.
Hoje, com muitos estabelecimentos encerrados e casas ocupadas por velhinhos ou vazias, um silêncio envolvente tomou conta das ruas estreitas e só é quebrado pelas muitas festas barulhentas que, em muitas iniciativas e cobertas com muitos milhares de euros, são realizadas para desviar as atenções. E a verdade é que os comerciantes batem palmas. Sem esta ovação geral de pantomina a mentira não avança. A Baixa está mesmo a mexer, dizem com ênfase. Ninguém se lembra -talvez por que não lesse- que a mesma técnica de lentamente morrer alegremente foi usada pelos regimes autoritários e fascistas nas décadas de 1930/40 e, passando o exagero comparativo, nomeadamente pelo terceiro Reich, na Alemanha. Seguindo a mesma ilusão de cartilha universal, todos caminham em direcção ao abismo, mas muito felizes e contentes.
Embora em circunstâncias diferentes, como a história se repete, aí estão novos apoios ao empreendedorismo muito parecidos com os distribuídos em finais da década de 1990, PROCOM e outros. A mensagem do embrulho é sempre a mesma: ajudar os pequenos investidores, desenvolver a cidade e criar emprego. Ninguém fala que, o que se pretende verdadeiramente é só retirar a inscrição de desempregados do IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional. Ninguém está preocupado com a vida económica e financeira dos pequenos e pequeníssimos operadores. Nenhum destes vendilhões do templo quer saber se os que aceitarem estes novos pacotes de roupagem velha vão durar ainda menos e, com o seu desaparecimento, vão tornar a Baixa, e a cidade, ainda mais pobre do que já está. Subsidiar o empreendedorismo está (outra vez) na moda. É uma nova vaga, uma nova onda, que, pelas suas boas e generosas intenções, arrasta tudo e todos com objectivos pouco claros. O que se pretende está lá, é preciso é pensar.
Na última última segunda-feira, 15 de Maio, com muita pompa e maior circunstância, em sessão solene camarária, foi apresentado no Salão Nobre Municipal o Coimbra Invest -Regulamento Municipal de Apoio a iniciativas Económicas de Interesse Municipal. Trata-se de um Sistema de Incentivos ao Empreendedorismo e ao Emprego (SI2E) que, articulado através da CIM Região de Coimbra e no âmbito do Quadro Comunitário Portugal 2020, disponibiliza cerca de oito milhões de euros pelas pequenas e micro-empresas, para obras e equipamentos, desde que que os contemplados qualifiquem ou empreguem um ou mais inscritos no centro de emprego. O SI2E apoia investimentos até 100 mil euros desde que que se verifique a contratação de recursos humanos.
A animada marcha continua. Vale a pena pensar nisto? Hum... se calhar não!

OS MENINOS DE HOJE

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



(RECEBIDO POR E-MAIL, SEM INDICAÇÃO DE AUTOR)


I
Os meninos não podem sair da nossa beira porque os meninos não podem estar sozinhos.
Os meninos não podem ficar no recreio a brincar quando os professores faltam -são levados para a biblioteca ou para alguma aula de pseudo-apoio. Se os meninos ficassem no recreio a jogar à bola e se por acaso se magoassem, o que seria dessa escola! Os pais poderiam até processar a instituição de ensino!
Os meninos não podem ir a pé ou de autocarro para a escola porque isso pode ser perigoso.
Os meninos não se podem sujar ou magoar -os pais nunca se perdoariam (e fá-los-ia perder tempo que não têm).
Os meninos andam a saltar dos pais para os avós e para a escola e para o atl e para a piscina e para o inglês e para a música e para o karaté e para o futebol e para a patinagem e... Porque os meninos têm de estar sempre ocupados e nunca sozinhos; não saberiam o que fazer com o tempo livre. E os pais têm de ganhar dinheiro para os meninos andarem sempre bonitos e com roupa de marca - caso contrário, os colegas poderiam até gozá-los. E se o colega tem uma coisa, o menino também tem de ter (senão faz birra e com toda a razão). E os meninos têm de ter festas de aniversário espectaculares -e não pode ser em casa só com a família, que isso não se usa. Tem de ser com a turma toda e os amigos e os primos e tem de se alugar (e pagar) um sítio onde tenha muitos brinquedos e escorregas e palhaços e malabaristas e baby-sitters. Algum sítio onde alguém se responsabilize pelos filhos dos outros, de preferência.
Os meninos, coitadinhos, são muito novos para pensar -mais vale nós planearmos a vida deles e dizer-lhes o que fazer. Mas só se eles concordarem, claro. Porque os meninos não têm culpa de nada; se se portam mal, a culpa é da educação que recebem na escola (que é o sítio onde eles devem ser educados).
Os meninos não comem sopa e verduras porque não gostam. Os meninos saem da mesa quando lhes apetece e passam o (pouco) tempo livre entre smartphones, tablets e computadores. Mesmo enquanto comem, coitadinhos, tem de haver alguma coisa para os entreter -e não se fala com a boca cheia. Alguns até comem com auscultadores colocados nos ouvidos -e ainda bem, para não incomodar a conversa dos adultos.
Os meninos só vêem desenhos animados (e a televisão é deles quando eles estão em casa). Porque os meninos querem, os meninos têm. O que não vale é chorar -não gostamos de os ver tristes. Chora chora que a mamã dá mais brinquedos para brincares duas vezes e arrumar a um canto -a casa fica cheia deles; depois compram-se outros diferentes porque os meninos têm de ter sempre mais e mais coisas e mais experiências novas.
Os meninos não ajudam em casa porque são meninos.
Os meninos começam a sair cedo e os papás vão buscá-los onde e à hora que for necessário. Não há meninos burros, arruaceiros, nem medricas, nem preguiçosos, nem tímidos, nem distraídos, nem mal educados, nem maus, nem... Nada disso. Os meninos são todos bons (os melhores) e muito inteligentes. Todos. E todos os anos há meninos finalistas e festas de finalistas e viagens de finalistas e até praxes, do primeiro ao último ano da escola, porque eles são muito inteligentes e importantes, agora que acabaram mais um ano. Que bem, já tens a quarta classe -que orgulho, meu filho. Ah, parece que foi ontem a tua festa de finalistas do terceiro ano...
Os meninos não se podem (nem sabem) defender sozinhos; para isso é que existem os pais e os psicólogos e os professores e até os tribunais. Os meninos têm explicações desde a escola primária porque precisam de toda a ajuda possível para ser os melhores. Se não estão atentos nas aulas a culpa é do professor. Os meninos não levam palmadas -ai se isso acontecer. Podiam ficar traumatizados, coitadinhos. Se os meninos estragam, os papás pagam. Os meninos têm direitos -mais concretamente, têm o direito a fazer o que lhes apetece porque são meninos e não têm de entender as preocupações dos crescidos. Por isso desarrumam a casa e todos os sítios por onde passam; partiu? virou? desapareceu? morreu? Não sei, eu sou apenas um menino.
II
Até que um belo dia os meninos se vêem subitamente fora de casa e da escola e longe de todas as pessoas e coisas que costumam controlar todos os seus movimentos (e até pensamentos). Longe daqueles que lhes disseram sempre que os meninos não são responsáveis nem culpados daquilo que fazem.
E só aí, longe pela primeira vez, começam a aprender a ser pessoas, a respeitar a liberdade e o espaço dos outros (os outros que afinal também existem! Descobrem os meninos nesta altura). Só aí entendem que cada acto tem uma consequência. E torna-se difícil -que a pegada dos meninos agora é grande e os erros notam-se como patas de elefante em cima de nenúfares. Destroem tudo porque têm de aprender e agora é muito mais complicado.
Pensavam que podiam fazer tudo o que lhes apetecesse, mas afinal parece que não. Ninguém lhes tinha dito.
E de repente aparecem ratos que assustam os elefantes. Todo aquele tamanho mas no fundo continuam apenas meninos que agora vivem em corpos de adultos. Ficam muito assustados (pudera) e não entendem.
Voltam para casa e perguntam aos pais: “o mundo é mesmo assim, papás? Não posso atirar colchões pela janela dos hotéis? Não posso ligar extintores e estragar as paredes e camas? Porque não avisaram antes?”
E nessa altura, levam um estalo -a primeira palmada das suas vidas. Deixaram finalmente de ser (e da pior forma) meninos.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

UM CASO PARA REFLECTIR...

China recebe em dividendos um terço do que pagou pela EDP
(Imagem do Jornal de Negócios)


"China recebe em dividendos um terço do que pagou pela EDP"


"Em cinco anos na EDP, a China Three Gorges prepara-se para encaixar 870 milhões de euros ilíquidos em dividendos."Continue a ler aqui o Jornal de Negócios

MATAR O MENSAGEIRO E INDULTAR O VÂNDALO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Ao que parece, na última semana de Queima das Fitas do Porto, ocorrida há poucos dias, uma rapariga foi violada, com introdução de uma mão masculina nas partes genitais, dentro de um autocarro de transportes colectivos no Porto. Este acto, que nos deve fazer pensar a todos, foi visionado pelos passageiros do veículo e filmado pelos colegas do agressor. Pelos vistos, ninguém moveu um dedo para acudir à rapariga -no vídeo não se percebe se o ataque foi, ou não, consentido pela vítima. Aparentemente, pelo descontrolo da mulher, parece não ter sido com consentimento. Mesmo a sê-lo, a passividade dos ocupantes do veículo deve fazer questionar o que está acontecer com a sociedade. Alegadamente, as imagens foram difundidas nas redes sociais.
O jornal Correio da Manhã noticia o facto e colocou o vídeo online salvaguardando as identidades das pessoas envolvidas em causa. Pode o jornal ser acusado de estar a fazer um jornalismo de caserna por difundir o vídeo e fazer disso uma notícia? Pode sim. Nas redes sociais, por muita gente, a direcção do jornal foi acusada do pior, de aproveitamento, e até de patologia mental.
Começo com duas ressalvas. A primeira, só agora visualizei o vídeo -e isto pode até parecer que não o fiz anteriormente para não entrar na classificação de voyeur, mas não é nada disso. Por acaso, escrevi este texto antes de o ver. Quero dizer que ao manifestarmos uma opinião temos obrigação de começar por ler a notícia -ou neste caso ver o vídeo. Depois, se não tivermos hipótese de outro contraditório, tendo em conta os factos apresentados, maturar as premissas até chegar à (nossa) conclusão. Espicaçando o nosso espírito crítico, devemos perguntar-nos se, passivamente, aceitamos a explicação dada, ou seja, se, dentro da ilicitude e prevaricação humanas, nos parece razoável e não entra nos mitos criados nas redes sociais -que faz com que se embandeire em arco em sindroma de carneirada. Na segunda emenda, declaro que não sou leitor diário do Correio da Manhã (CM).
Isto tudo para dizer que, apesar de alguns apregoados erros de informação dados pelo CM -e quem não os dá?-, tenho um enorme respeito por este órgão de informação. Goste-se ou não do género popular (ou populista), é o único meio de informação nacional que está em todas -com o devido exagero, naturalmente. Sabendo todos a acentuada crise que se está a verificar na imprensa escrita -que, na generalidade, só noticiam casos em que se verifiquem mortes ou muito sangue-, o CM é um caso de estudo num país com cerca de 8% de iliteracia pura e dura. Tiro o chapéu a este jornal diário pelo serviço público que presta a Portugal.
Passando ao caso em concreto do vídeo, agora que já o visionei, devemos matar o mensageiro e absolver os vândalos que lhe deram origem? Quem está doente e a precisar de tratamento? O jornal ou a sociedade? Imagine-se que o CM não dava notoriedade a este caso que afronta as mais elementares regras societárias, será que alguma vez este assunto seria ponto de discussão? Por uma questão de pudor social (muitas vezes assente numa elevada hipocrisia) devemos assobiar para o lado e fazer de conta que não se passa nada? Então, entre um DEVER (de escolher as notícias, entre as que não provoquem choque e outras) e um DIREITO público de informar, a seu ver leitor, qual o que deve prevalecer? O DEVER ou o DIREITO?

MORREU A VELHA GINITA, NOVA VIDA PARA A GINITA



Durante cerca de meio-século a Ginita foi a rainha da Rua da Fornalhinha. Na estreita e curta viela de pouco mais de vinte metros da Baixa de Coimbra, com o seu ar ladino e trigueiro, foi no calçar bem que a Ginita sempre se distinguiu. O seu calçado sempre foi de boa qualidade e a preços competitivos.
A Ginita foi criada com muito amor pelo senhor Carlos Abreu, um comerciante falecido em 2011. Nos passados anos de 1980 e princípio de 1990, a Ginita chegou a albergar no seu seio três pessoas a trabalhar. Eram tempos áureos, já se sabe. Nesse tempo qualquer comerciante estava fadado ao sucesso. Nessa época, pela intensa procura e muito dinheiro a circular, era fácil ser-se mercador. Em terra de abastança ninguém passa fome, diz o povo em aforismo.
A Ginita morreu? Se faleceu é porque tinha de ser assim. Tal como outras à sua volta, durante os últimos vinte anos, fenecendo e a balouçar num limbo como a maioria, foi tentando aguentar-se até um dia, esta semana, que alegadamente não deu mais e, como epitáfio sem frases organizadas, os papeis ocupam toda a área de vidraça e, como cruz abstracta e silenciosa, passa a mostrar que naquele pequeno espaço algumas pessoas foram muito felizes. Ali ficam enterrados retalhos de algumas vidas. A resposta à pergunta porque encerrou todos sabem. Todos têm uma palavra a dizer. Basta ler este comentário recebido hoje: “A crise do comércio tradicional na baixa de Coimbra não tem a ver com a saúde da economia ou falta dela, ou do poder económico dos consumidores. Tem a ver, somente, com a falta de atractividade do comércio da baixa”. Ou seja, a culpa reside nos operadores. Claro que ninguém diz, ninguém está disposto a discutir que esta falta de atractividade foi intencionalmente provocada pelo desbragado licenciamento  de grandes áreas comerciais e que, pelo excesso de oferta na cidade, desencadeou a desregulação e a queda a pique da Baixa comercial. Como sempre, a culpa e a consequência recaem sempre na parte mais frágil. A mensagem do aparente crescimento económico, do PIB, Produto Interno Bruto, passa muito bem para o social que acredita no que que lhe dá mais jeito. Mas quem está no terreno, com as mãos a chafurdar na micro-economia, é que sabe quanto lhe custa começar e fechar o dia.
É triste um estabelecimento comercial quando desaparece merecer tão pouca consideração pelos clientes e pelas pessoas em geral. Quem o frequentou depressa esquece a sua história e raramente há uma palavra de conforto para quem, sem forças físicas e anímicas, se vai também. Pouco importa se quem fica sem trabalho, apesar de ser de meia-idade, entra num mar de dificuldades e angústias. O que é preciso é haver outra loja para a substituir, outra vítima que se segue no longo corredor da morte previsível e anunciada. O que é necessário é que a consumidora máquina fria, egoísta e sem sentimentos, continue a ser alimentada. “As empresas são como os animais, nascem, crescem e morrem”, apregoa-se para lavar a alma. Está tudo dito!
Um abraço de solidariedade para a Guida Santos, a última companheira da sapataria Ginita e que lhe fechou a porta nesta morada...

AFINAL, FELIZMENTE, VAI HAVER TRANSFERÊNCIA DE INSTALAÇÕES

Por erro grosseiro de informação, dando credibilidade ao que várias pessoas me disseram, tomei as notícias da vizinhança como certas. Afinal, e ainda bem, o que se passa é que vai haver transferência de instalações. Isto é, segundo Guida Santos, “a sapataria Ginita vai continuar entre nós. O que se passa é que as actuais instalações estão muito degradadas e, dentro em breve, vou passar para uma loja restaurada e em estado novo na mesma Rua da Fornalhinha.”
Licitamente, pode perguntar-se a razão de eu ter dado uma notícia incompleta e a sofrer de inverdade? Pode. Será que pretendi ser intencionalmente alarmista? Por que não fui obter a informação à fonte segura? Em jeito de justificação, a razão é que raramente um comerciante que encerra um estabelecimento me confessa claramente o facto. Fechando-se numa espécie de concha, num completo mutismo, talvez por vergonha do falhanço, raramente está disposto a falar. Os mais simpáticos dizem que vão encerrar para férias ou que vão entrar em obras. Os menos cordiais, com rosto façanhudo, alegam que é um problema particular e nada tenho a ver com isso. Como se calcula, não é fácil escrever sobre um encerramento.
Pode ainda interrogar-se a razão de, levando “pancada”, continuar a escrever? Pode. Sem que ninguém me encomendasse o serviço, entendo que, como missão, em memória dos que partem e, sobretudo, pela história comercial da cidade, devo continuar a fazer este “serviço” social que, na maioria das vezes, não é entendido como tal.
Como no melhor pano cai a nódoa, e errar humano é, cabe-me pedir desculpa à Guida Santos pela incompletude da notícia. Cabe-me também desejar-lhe as maiores felicidades e o maior sucesso para o novo estabelecimento que a breve prazo irá surgir com o mesmo nome de sapataria Ginita, situado na mesma artéria e a poucos metros deste que encerrou agora.


UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "EDITORIAL: UM ESTRANHO CRESCIMENTO ECONÓMICO":


A crise do comércio tradicional na baixa de Coimbra não tem a ver com a saúde da economia ou falta dela, ou do poder económico dos consumidores. Tem a ver, somente, com a falta de atratividade do comércio da baixa. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

BOM DIA, PESSOAL...



Com votos de parabéns a Salvador Sobral pela retumbante vitória portuguesa obtida no Festival da Eurovisão

DECISÕES DEMOCRÁTICAS "À LA PORTUGUESA"


(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Foto de Comunidade Cultura e Arte.

(Recebido por e-mail)

EDITORIAL: UM ESTRANHO CRESCIMENTO ECONÓMICO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




FACTO I
Segundo o Jornal Económico de hoje, “A economia portuguesa cresceu 2,8% no primeiro trimestre deste ano, face ao mesmo período do ano passado, segundo as estimativas rápidas publicadas hoje pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Esta é a taxa mais elevada em sete anos. A economia nacional não crescia a este ritmo desde o quarto trimestre de 2007, quando o PIB expandiu também 2,8%. No quarto trimestre de 2016, o PIB tinha registado uma variação positiva de 2% em termos homólogos.

FACTO II

Nesta última quinta-feira, alegadamente por falta de cumprimento no pagamento de ordenados de vários meses, os funcionários de uma loja implantada há cerca de 30 anos na Baixa abandonaram o posto de trabalho. Como pantomina de um comércio exangue, débil e sem forças, que faz tudo para parecer o que não é, mostrando-se muito forte e em grande crescimento, o estabelecimento, embora encerrado, permanece de montras feitas e como se nada tivesse acontecido.
Tudo indica que, no maior dos segredos, são mais dois funcionários que vão para o desemprego.

FACTO III

No último semestre do ano passado, num grande e histórico estabelecimento, com mais de meio-século de actividade, também com sede no Centro Histórico, cinco empregados abandonaram o posto de trabalho alegadamente por falta de pagamento de honorários.

FACTO IV

Conseguir falar com os intervenientes é impossível. Os primeiros, os credores funcionários, talvez à espera que a situação se resolva por milagre de Fátima, recorrem ao ACT, Autoridade para as Condições do Trabalho, e fecham-se num mutismo incompreensível e da sua boca não se arranca um pio. Dos segundos, os empresários devedores, nada há a declarar.
Que dos últimos, dos patrões em incumprimento, não se fale do que está acontecer nas suas empresas, de certo modo, até se entende pelo sentimento de falhanço e vergonha social, já dos primeiros, dos funcionários, custa a compreender o envolvimento num silêncio de conluio económico. Digo eu, se pensassem menos em si, no seu umbigo, não procederiam assim. Basta perceber que o seu mutismo acaba por beneficiar uma certa ordem económica falsamente implantada de que tudo está a correr pelo melhor e, em vez de se acautelar e partir para a prevenção de casos futuros, nada se faz porque o que não é noticiado não acontece.

EM CONCLUSÃO

Apesar dos últimos dados da Nielsen, uma consultora internacional que analisa o consumo, mostrarem indicativos claros que a preferência do consumo pelas famílias começa, em crescendo, a incidir no comércio tradicional -cuja fatia em percentagem vale 8% do consumo total-, a verdade é que as transacções no comércio de rua continuam anémicas e, sobretudo, as casas mais antigas continuam a cair.
Sabemos que os dados apresentados agora do INE incidem sobre o todo nacional e, neste caso, esta entidade não se debruça sobre áreas específicas ou regiões. O que queremos dizer é que a coberto de uma média se pode infringir a maior das injustiças e mostrar-se um quadro nacional que não corresponde à realidade. Como tento descortinar, o que se verifica na prática é uma outra veracidade. E desta ninguém fala, escreve, ou defende.
O que é estranho, ou talvez não, é que, por parte dos envolvidos, não se houve lamentos profundos. Aqui e ali há um ou outro suspiro, mas sempre em surdina. A pergunta que deveríamos fazer é a razão deste nevoeiro, deste apagamento colectivo. Porque acontece?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

UM PAÍS DE JOELHOS

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



O que seria de Portugal sem as “aparições”, ou melhor dizendo, sem as “visões” de Fátima?
O que seria do povo que lavra no rio e transpira a estopinhas para ver serenamente um bom jogo de futebol sem insultar o árbitro?
O que seria das televisões, privadas e públicas, sem os directos de encher o olho de lágrimas, sem estas grandes reportagens para o mundo?
O que seria do Governo sem este 13 de Maio e a ajuda -desinteressada, é preciso dizer- do Papa Francisco?
O que seria do nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sem este encontro com Francisco, o Chefe-mor da Igreja Católica, e sem aquele seu ar compungido de bom samaritano?
Ah grande Portugal! Haverá melhor postal ilustrado para a Europa e para o Mundo do que esta imagem de uma nação humilde e de joelhos?
Ah grande António (Salazar)! Estejas lá onde estiveres, mesmo que não durmas como um anjo, que nunca foste, pelo efeito das setas envenenadas de uns certos anarquistas, descansa em paz! Nunca te sintas frustrado, que a tua obra, perpectuada pela intemporalidade, como cartilha, maternal, paternal e familiar, em Santíssima Trindade, agora convencionada como doutrina oficial de socialistas e comunistas, nunca foi, como agora, tão difundida aos sete mares andarilhos.
E mais, António, não será de admirar se, nuns tempos próximos, pedirem a tua beatificação!
Como diria Teixeira de Pascoais (1877-1952):

Ó Bandarra do amor! Brucho da profecia!
Eu creio, como tu, em Dom Sebastião!
Eu creio, como tu, no seu regresso! Eu creio!
Já seu perfil de encanto
Doira de etérea graça o nevoeiro
Dessa Manhã divina prometida
Pelo canto do Povo e dos poetas.”

UM COMENTÁRIO RECEBIDO E UMA RESPOSTA DADA...




Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "VIDAS SUSPENSAS PELA INDIFERENÇA: UM APELO LANCINA...":


Assim como critico os comerciantes, quando acho que se justifica, também os apoio nestas circunstâncias absurdas. Onde está a fiscalização dos trabalhos pela câmara municipal? não é uma obra particular, mas uma obra que todos pagamos. Eu não encontrei foi a tal página (não oficial) da Câmara Municipal de Coimbra e queria ir lá dizer umas coisas. Não podia pôr um link, sr. Luís Fernandes?



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NOTA DO EDITOR

Começo por lhe agradecer o apoio manifestado aos comerciantes da Rua Simões de Castro. Tenho a certeza que, pelo momento que estão a viver, precisarão de todo o ombro amigo, incluindo do Papa Francisco e, quiçá, até um milagrezinho dos Pastorinhos também vinha a calhar.
Quanto ao link da Página da Câmara Municipal de Coimbra (Não Oficial), no Facebook, aqui fica indicado: https://www.facebook.com/groups/223163873466/
Há um senão: o caro amigo para poder comentar, primeiro, terá de pedir para ser admitido, identificando-se e, aqui é que a porca torce o rabo, com foto de rosto descoberto. É uma norma da administração -lembro que este site é de iniciativa privada cujo único propósito é servir de ponte entre o cidadão e a autarquia. Logo a abrir diz o seguinte:
Caríssimos membros:
É nossa política de administração que a admissão de simpatizantes obedeça a um mínimo de requisitos, nomeadamente, os mais importantes, o respeito pela opinião e a identificação com nome e foto real. Comentar, tomar partido, discutir implica vinculação ao princípio da seriedade. O seu a seu dono. Como quem diz, a responsabilidade cidadã a quem estiver à altura e a merecer. Muito obrigado.


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Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO E UMA RESPOSTA DADA...":


Obrigado, sr. Luís. Eu não tenho dificuldade em meter fotografias no facebook, não deve ser difícil. Tenho é pena que uma página de discussão sobre problemas da cidade seja um grupo fechado, sem que os cidadãos, por exemplo, lá vão ver simplesmente quais os problemas, ver o que se passa na sua cidade, etc, mesmo que não queiram comentar. Acho que nunca vi. Mas pronto.


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RESPOSTA DO EDITOR


Muito obrigado pelo comentário. É assim, vamos aos factos: o site da Câmara Municipal de Coimbra (Não Oficial) foi criado no Facebook há cerca de dois anos por Gonçalo S. Gunty, que creio ser professor universitário. Apesar de não o conhecer pessoalmente, há cerca de um ano, “nomeou-me” co-administrador da página. Aceitando, gostei da gentileza e, sobretudo, prova de confiança, da sua parte, numa pessoa que não conhece minimamente. Tento desempenhar a minha função de co-moderador com seriedade e, sobretudo, tentando ser justo, equidistante e respeitador de todos os credos, ideologias ou outras quaisquer convicções, desde que, todos, sejamos tratados de igual modo. Isto é, sem abusar do meu direito -quero dizer, sem nunca me esquecer que a página não foi criada por mim e que, por isso mesmo, em caso de dúvida sobre qualquer matéria em apreciação, é Gunty que resolve. Pelo que me é dado perceber, este é também o seu modo de estar na vida.
Respondendo agora às questões que levanta, escrevendo de fora -já que não fui eu o responsável pela criação da página-, dá-me a parecer que na sua génese esteve a intenção de criar um fórum de discussão sobre assuntos de e para a cidade.
Dá-me a parecer que o sucesso deste sítio ultrapassou tudo o que era concebível inicialmente por Gonçalo Gunty -daí, penso, "nomear-me" como ajudante-moderador.
A página actualmente tem 4261 membros. Diariamente chegam pedidos de inscrição.
Tentando dar resposta à sua questão de ser um grupo fechado, tenho de declarar que concordo completamente com a política seguida. Se assim não fosse, estou em crer, seria uma rebaldaria onde cada um, a coberto do anonimato, injectava veneno ao desbarato e em quem não gostasse. Repare que sendo um grupo fechado é, ao mesmo tempo, um espaço aberto a todos, independentemente da sua formação ou posição social, quantos quiserem aderir. A única formalidade exigida é que cada um se inscreva, identificando-se com nome próprio e foto de rosto real.
Aqui não se censura quem quer que seja, ou qualquer assunto considerado de direita, centro, esquerda. Qualquer argumento é válido desde que fundamentado e, acima de tudo, não se ofenda deliberadamente o visado. É por isto mesmo que o grupo é fechado, precisamente para poder fazer a triagem.

Há uma ressalva que, embora não a aponte, devo salientar, que é a publicidade. Sei que é um assunto que preocupa S. Gunty e que já tem gerado alguma controvérsia por parte de alguns membros. Aqui escrevo em nome próprio, estou em crer que se os seguidores inscritos aproveitam este espaço semi-público é porque acreditam que é visionado por muitos. Se o contrário acontecesse, como é óbvio, não haveria aqui pedidos de publicação. Na parte que me toca, desde que a publicitação seja de âmbito geral, cultural, social, económica, política, concelhia ou distrital, e desde que não se abuse em postar o mesmo anúncio várias vezes na mesma semana, insiro. Entendo que é uma forma de ajudar a divulgar a cidade.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

BOM DIA, PESSOAL...

VIDAS SUSPENSAS PELA INDIFERENÇA: UM APELO LANCINANTE DE QUEM DEPENDE DO COMÉRCIO E SE SENTE ABANDONADO





(Retirado da Página da Câmara Municipal de Coimbra (Página não Oficial), no Facebook)


Nós comerciantes da Rua Simões de Castro temos as nossas vidas suspensas!

Não sou empreiteiro de obras nem para lá caminho, mas será que os trabalhadores que estão colocados na obra de requalificação da dita rua são suficientes? Não me parece. Todos os dias se vêem só 4/5 e, mesmo assim desse grupo, dois são encarregados (ou seja, trabalhar no duro...).
Fecharam ao trânsito metade da rua, fizeram uma circular onde diziam que iria manter-se assim por 4 semanas... Posso estar enganada mas, se não passou já, está a chegar às 8 semanas.
As nossas vidas estão suspensas!

O Executivo Camarário não se preocupa com isso!

É a loja A que vai fechar. É a pastelaria B que soma prejuízos todos os dias e com uma licença de esplanada paga à Câmara Municipal na qual os clientes não podem usufruir porque o pó é insuportável. É o dinheiro para pagar a 3/4 funcionários que não chega...

Na próxima semana dizem que vão avançar para a outra metade da rua onde o comércio é realizado na base de artigos de decoração (o meu é de iluminação e decoração). Como vamos conviver com o pó no dia-a-dia? Como vamos conseguir que não fiquem artigos danificados? Como sabemos, o pó entranha-se em todo o lado...

Acredito que com a requalificação a nossa rua vai ficar melhor. Com a rotunda não concordo de todo!

A mim, o que me enerva é a falta de mão-de-obra e a inércia que se vê. Uma obra destas, como está ser feita? Não é devagar, é devagarinho! Como é possível?
Nesta altura do ano, às 6h00 da manhã já se vê bem; às 20h30 ainda se vê bem!
Por que não criaram turnos de duas equipas? À sexta-feira só trabalham até ao início da tarde (15h30/16h00). Ao fim-de-semana, em que o transito é menos, as lojas estão fechadas … na obra não se trabalha!

E assim vamos continuando... com as nossas VIDAS SUSPENSAS. Mas o IRC e os custos fixos como as rendas, água, electricidade, comunicações, ordenados, estes, não estão suspensos...”
Zita Alex

quarta-feira, 10 de maio de 2017

BOM DIA, PESSOAL...

O(S) SALVADOR(ES) DE TODOS NÓS

(Imagem da Sapo Mag)



Quando há cerca de um ano Portugal foi Campeão Europeu de Futebol ninguém ligou o feito a um milagre dos Pastorinhos de Fátima. Apesar dos últimos Censos de 2011 mostrarem que 75 por cento de portugueses são católicos, a verdade é que, pela não ligação do nexo de causalidade entre o terreno e o metafísico, ao colocar o facto para detrás das costas e a declarar preto no branco que somos maioritariamente cristãos não praticantes, divididos entre o cepticismo e a conveniência, demonstrou-se ao mundo que o país é absolutamente herege. E mais: que é mal agradecido.
Nem mesmo quando os milagres estão à vista de todos e à mão de semear, são poucas as vozes que se levantam em defesa da verdade suprema sem contestação. De pouco vale ver-se um governo socialista, de esquerda e laico, converter-se ao catolicismo apostólico romano. Para esta cambada de fariseus sacrilégios é pouco e não chega. Para quem não acredita e tudo serve para protestar, de pouco interessa o gesto magnânimo e tão cristão do executivo em dar tolerância de ponto aos funcionários públicos na próxima sexta feira para que todos, em conjunto, possam ir ver e rezar com o Papa Francisco.
Mas Fátima, com o seu incomensurável poder temporal, não dorme e está atenta. E para provar que não se brinca com a sua força, deu-nos mais um milagre: levar à final do Festival da Eurovisão uma canção que, não tendo grande rasgo de originalidade -facilmente confundida com uma composição de Rodrigo Leão-, pode muito bem sair vencedora. E mais: não é por acaso que o nome do intérprete é Salvador, Salvador Sobral de seu nome. Se fosse um acaso do destino, está de ver, chamar-se-ia António ou Manuel, que são os nomes identificativos deste país à beira-mar plantado. Levar à final um Salvador é mostrar ao mundo que há sempre um salvador espiritual que nos salva em todas as situações.
Ninguém se admire se, no futuro próximo, assistirmos a outros milagres dos Pastorinhos. Por exemplo em Coimbra, nas próximas eleições autárquicas, que vão decorrer em Outubro, como está tudo ao contrário -e o que parece não é-, é bem possível que Manuel Machado, recandidato pelo PS, se mantenha no cargo mesmo contra a vontade de muitos seus correlegionários que, a ser verdade, vão engolir um frasco de óleo de fígado de bacalhau.
Ninguém se abespinhe contra os santos que vão ser canonizados se não houver surpresas na Praça 8 de Maio e o executivo, em função partidária, se mantiver quadripartido -uma força perderá a sua representação e a sua cadeira será substituída por outra.
Mas haverá muitos mais prodígios por obra e graça dos Santos Pastorinhos. Que ninguém se ria se, nas próximas eleições presidenciais, Marcelo Rebelo de Sousa, o actual Presidente da República, que esteve sempre ligado ao PSD, Partido Social Democrata, e chegou a ser seu secretário-geral, for apoiado pelo PS, Partido Socialista, e o PSD lhe fizer um manguito.
Fátima vela por todos nós, herege povo humilde de Portugal.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

EDITORIAL: ESTADO LAICO (OU LOUCO)?





Na última quinta-feira, nos campos do Bolão, com muita pompa e circunstância, foi inaugurado o Centro Municipal de Apoio aos Caminhantes. Segundo o Diário de Coimbra (DC), “O espaço dispõe de vários lava-pés, lavatórios, casas de banho e arrumos e vai, até 11 de Maio, ter a presença diária de voluntários que assegurarão a quem passar, além do apoio ao nível de saúde, água e comida, tudo gratuito. Findo este período de maior afluência provocado pelas celebrações em Fátima do 13 de Maio e o centenário das Aparições com a presença do Papa, o centro vai manter-se aberto no resto do ano, até porque se trata de um espaço que pretende servir tanto os peregrinos de Fátima como os caminhantes de Santigo. “Que os peregrinos levem daqui uma imagem marcante, que sejam acolhidos com conforto, desejou ontem Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra (...)”, noticia o DC de hoje.
Citando o Notícias de Coimbra, jornal online, “Mas o cuidado da CMC na realização deste espaço não se limitou ao interior do imóvel. Na sua envolvente, foi instalada uma pérgula, uma fonte, bancos, árvores e arbustos, que por certo proporcionarão aos caminhantes agradáveis momentos de repouso. Dada a proximidade deste espaço com a ciclovia, colocou-se ainda uma estrutura para estacionamento de bicicletas. (…) O edifício que agora acolhe o Centro Municipal de Apoio aos Caminhantes é um protótipo “Quickbuild”, desenvolvido pelo ITeCons, em colaboração com três empresas, e que teve apoio de fundos comunitários do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN)”. transcrição de parte da notícia do site Notícias de Coimbra.
Nem um nem outro meio de informação noticia quanto vai custar anualmente aos cofres do município esta iniciativa.

Em virtude da vinda do Papa Francisco a Fátima, o Governo (de esquerda, socialista e laico) decretou tolerância de ponto para os funcionários públicos no próximo dia 12, véspera da visita do sumo pontífice.

Assumindo-se devoto de Fátima, Marcelo Rebelo de Sousa disse que “enquanto Presidente da República Portuguesa a dimensão é complementar, a ideia de Fátima como forma de projeção de Portugal no mundo”.
Sou católico, sou cristão, só depois é que digo que sou português”.
Claro que tenho necessidade de rezar para decidir sobre grandes opções.”
Sou Mariano. Nossa Senhora é mediadora entre nós, os deste tempo e daquele, e Deus”.
Eu, por acaso, acredito em Fátima. Não há incompatibilidade entre ser Presidente da República e ser cristão.”, apanhados das declarações do actual Chefe de Estado no programa da Rádio Renascença “Conversas com Deus” (antes de ser eleito).


A RELIGIÃO E A FILOSOFIA

A religião é o ópio do povo”, frase atribuída a Karl Marx mas, segundo a história, o seu criador foi Hegel, na sua Crítica da Filosofia do Direito, em 1844. Marx contextualizou assim:

"É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de facto a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o Homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu “point d'honneur” espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.
A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.
A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola.
A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em tomo de si mesmo.
Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política.", retirado da Wikipédia.


POR CÁ, UM APOIO DESINTERESSADO QUE JÁ VEM DE LONGE

A Carta Constitucional da “Monarchia Portugueza”, de 1826 e que vigorou até à Implantação da República, em 1910, no seu artigo 6.º prescrevia o seguinte: “A religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Reino. Todas as outras Religiões serão permitidas aos estrangeiros com o seu culto domestico, ou particular, em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior de templo.

E VEIO A PRIMEIRA REPÚBLICA

A instauração da República em 5 de Outubro de 1910 reacendeu a questão religiosa aberta no século XVIII pelo Marquês de Pombal e retomada ao longo de Oitocentos pelos liberais que levaram a efeito uma política secularizadora concretizada numa diminuição da influência social da Igreja católica. A partir de 1880 assistiu-se, no País, a uma intensa propaganda republicana, socialista e anarquista que visava a laicidade do Estado, da cultura e das consciências. Desta forma, se o movimento republicano empolava a questão do Regime no sentido da substituição da Monarquia pela República não deixava também de ter como objectivo a realização de uma transformação cultural através da substituição da mundividência católica pela paradigma positivista e cientista. A elite livre-pensadora desenvolveu toda uma actividade de militância laica e, através dos comícios políticos, das conferências e de outras actividades culturais popularizou a cultura republicana especialmente em Lisboa. Com a abertura do ciclo republicano assistiu-se à publicação de um vasto conjunto de leis em matéria religiosa que eram a concretização das ideias republicanas sustentadas nos últimos três decénios da Monarquia Constitucional. Como vértice desta actividade legisladora do Governo Provisório surge a lei da Separação do Estado das Igrejas de Afonso Costa que encontrou fortes resistências no episcopado ultramontano, em Roma e na maioria do clero. Por outro lado, não podemos esquecer a lei do registo civil obrigatório que laicizava os principais actos da vida (o nascimento, o casamento e a morte). Estas transformações, que levaram a uma refundação do Estado (passou a ser laico), traduzia o projecto elitista dos livres-pensadores que não deixava de colidir com o sentimento religioso das comunidades muito marcadas pelo ruralismo e analfabetismo e bem enquadradas por um clero numeroso e reaccionário. Daí o surgimento de uma guerra religiosa em todo o território nacional, mas especialmente no norte e no centro, que se manteve acesa até ao Sidonismo (1918).
(…) Logo após a implantação da República iniciou-se a política laicizadora do Governo Provisório. A 8 de Outubro foi publicado o decreto que punha em vigor as leis pombalinas contra os Jesuítas e a lei de Joaquim António de Aguiar que extinguira as ordens religiosas em Portugal, a 12 de Outubro foram laicizados os feriados religiosos, a 18 do mesmo mês seria abolido o juramento religioso, a 21 o bispo de Beja foi suspenso das suas funções depois de ter fugido para Espanha com receio do anticlericalismo popular assanhado pelos republicanos desta cidade, a 22 foi publicado o decreto que suprimiu o ensino da doutrina cristã nas escolas primárias e nas escolas normais, a 23 foi extinta, de facto, a Faculdade de Teologia e abolido o juramento dos lentes, alunos e restante pessoal da Universidade de Coimbra, assim como o juramento da Imaculada Conceição, a 26 todos os dias santificados pela Igreja, com excepção do domingo foram considerados úteis e de trabalho, a 28 os governadores civis eram autorizados a substituir as mesas, ou corpos administrativos das irmandades e confrarias por novas comissões da confiança dos governantes, a 3 de Novembro surgiu a lei do divórcio desde há muito reclamada pelos republicanos (e republicanas) e a 25 de Dezembro foram publicadas as leis de família, que definiam o casamento como um contrato celebrado por duas pessoas de sexo diferente.5 Deu-se, assim uma ruptura política, pois o Estado dispensava qualquer legitimação de índole religiosa.
Neste quadro reformador seria publicada, em 20 de Abril de 1911, a lei de Separação do Estado das Igrejas, texto radical de Afonso Costa, ministro da Justiça e Cultos do Governo Provisório. Este diploma punha fim ao catolicismo como religião de Estado, afirmava a plena liberdade de consciência para todos os cidadãos portugueses e para os estrangeiros residentes em Portugal, autorizava as confissões minoritárias, deixava de subsidiar o catolicismo, abolia as côngruas paroquiais, autorizava a prática religiosa nos edifícios com aspecto exterior de templo, previa uma punição para os que injuriassem ou ofendessem os padres, mantinha o beneplácito e remetia a religião para a esfera da vida privada.
(…) A Constituição de 1911 veio legitimar a Separação rompendo com os textos constitucionais anteriores. Assim, punha-se termo às "ligações perigosas" entre a religião e a política. Limitado à vida privada, o catolicismo perdia a sua influência política, cultural e simbólica. Desta forma, a Lei da Separação originou uma verdadeira guerra religiosa, pelo menos até 1918”. Extractos retirados da revista Seara Nova.

E SURGE A SEGUNDA REPÚBLICA

Com o golpe militar de 1926, que deu origem à Ditadura Militar e mais tarde, em 1933, ao Estado Novo seria reposto o catolicismo como a religião do regime.
Fernando Rosas, historiador, em Agosto de 1982 aquando da visita do Papa João Paulo a Portugal, numa crónica com o título “A Igreja em Portugal nos anos 40” na revista História escrevia o seguinte (era interessante ouvir de novo, hoje, à luz do novo cenário político, este historiador):

A visita do Papa João Paulo II a Portugal proporcionou o desenvolvimento de uma larga campanha dos meios governamentais, eclesiásticos e mesmo de outros que desses se não reivindicam tendente, no lastro das mobilizações pias, a trazer à ordem do dia os velhos princípios da “nação cristã” e do carácter pretensamente nacional da Igreja Católica portuguesa, uma vez que essa seria “a religião professada pela maioria dos portugueses.
(…) Sintomático é que essa ideia, constitucionalmente consagrada em 1933, seja agora reactivada (e alguma vez foi desactivada?) com a colaboração dos diversos sectores políticos-parlamentares a propósito da vinda do Papa; que à sombra dela se preparem concessões privilegiadas à Igreja Católica e que, por exemplo, a doutrina e acção dos seus órgãos tem sido publicamente invocados como inspiradores da intervenção presidencial e de outros órgãos do Estado.
(…) É aliás extremamente curioso constatar como o acentuar do recurso ao chamado milagre de Fátima e a sua creditação pelas próprias autoridades religiosas acompanha a par e passo a evolução da situação política portuguesa desde o 28 de Maio, passando por todo o período de consolidação do Estado Novo.
(…) Nesse mesmo mês e ano (1930), o Papa Pio XI, tão próximo da Alemanha hitleriana e da Itália de Mussolini quanto protector das “visões” de Fátima, concede indulgências aos peregrinos.
(…) Cerejeira, a troco de garantias firmes de intervenção da igreja na “reforma” do ensino então projectada, é entronizado cardeal-patriarca em 1929. Desde aí, a Igreja Católica assume-se pública e activamente como a principal força da legitimação ideológica do regime, como “esteio moral da Nação e do Império.
(…) A classe dominante, explorando (e mantendo) a fundo o atraso e o obscurantismo, justificava com o catolicismo esta “nova ordem”. Considerava o Estado Novo, como no passado o Portugal dos “heróis do mar”, o depositário da mesma missão de “defender a dilater a fé”: ontem contra a mourama, hoje contra os operários e os comunistas.
(…) Tal como em Portugal a Igreja Católica se constituíra no instrumento ideológico fundamental de defesa da ordem interna, também em África, e contrariando em proveito do Estado português a concorrência de que a Propaganda Fide era instrumento a soldo de outros apetites, a Igreja Católica portuguesa seria -e duradouramente- um instrumento decisivo da preservação do domínio colonial. Uma Igreja de Estado e uma religião de Estado que irão ser usadas pelo regime como arma essencial nas grandes lutas políticas de massa que vão pontuar, durante os anos 40, a primeira grande crise do fascismo.
(…) E a cruz parte à frente da espada.
(…) Em 1942 Fátima volta à ordem do dia. Na altura em que o exército nazi está às portas de Moscovo e a vitória do Reich na guerra parece iminente nas diversas frentes, o cardeal Shusten, arcebispo de Milão na Itália mussoliniana, “revela” em primeira mão as duas primeiras partes do “segredo de Fátima”, em que muito oportunamente se anuncia que “a Rússia se converterá e terão a paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja... O Santo Padre consagrar-me-á à Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. (…) E é precisamente a 31 de Outubro, “a pedido da vidente Lúcia”, que Pio XII dirige uma rádio-mensagem em língua portuguesa desde o Vaticano em que “consagra o mundo ao Coração Imaculado de Maria...”
(…) Aliás, vivia-se a fobia de um “milagre” que desse público testemunho da protecção divina do salazarismo e fosse coadjuvante do outro “milagre” que seria a salvação do regime. (…) É então que nos jornais e na oratória de Cerejeira surge o “milagre das pombas” (…) na mensagem de Natal de 1946: “Caso estranho para o nosso olhar míope de criaturas carnais foi o das pombinhas que recentemente estabeleceram morada aos pés quase escondidos, sob a túnica da branca imagem de Nossa Senhora de Fátima, entre flores."
(…) O grande actor da nova festa (imitação de rebotalho das comemorações de 1940, expressão serôdia de um regime decrépito e em crise, em que o folclore, a marchinha, o manjerico e o populismo mais reaccionário cedem o passo à “imponência” do “ano áureo”) é de novo a Igreja Católica nesta nova versão da luta contra os infiéis.
(…) E novamente com Fátima: a 13 de Maio de 1951 o Ministério dos Negócios Estrangeiros português (!) anuncia que o Papa Pio XII se dignara permitir que as solenidades de encerramento do Ano Santo para o estrangeiro se fizesse, a 13 de Outubro, em Fátima. E manda para cá para o efeito um “cardeal legado”, pomposa e solenemente recebido pelos mais altos dignatários do regime -o cardeal Tedeschini- que na homilia em Fátima revela que Pio XII vira nos jardins do Vaticano, em 30 e 31 de Outubro e em 1 de Novembro de 1950, o mesmo “milagre do sol” que se “dera” em Fátima em 1917! Era de facto o milagre que faltava para saldar a reposição da ordem”...

E DESPONTA A TERCEIRA REPÚBLICA

A primeira versão da Constituição da República Portuguesa (CRP) de 1976 era bem clara na relação entre liberdade de consciência, religião e culto. Na altura tinha 5 artigos, posteriormente foi revista e, para além de alterações em alguns deles, foi acrescentado mais um.
Na CRP que se encontra em vigor, com última revisão em 2005, o texto constitucional que refere a laicidade do Estado português perante a separação e liberdade de culto, tal como a primeira versão, é bem explícita. Atentemos no artigo 41º, “Liberdade de consciência, de religião e de culto”, no ponto 4, que prescreve o seguinte: “ As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.”
Como se disse em cima, citando Fernando Rosas, do ponto de vista de enquadramento histórico, sobretudo para os mais velhos, podemos recuar até ao tempo da discriminação de outras confissões, nomeadamente a Evangélica e a Jeová, que sofreram na pele essa segregação.
Entre 1933 e 1974 foi um regabofe em torno da instrumentalização social, sobretudo na divulgação das aparições em Fátima, e no entretenimento de desviar atenções para o futebol e o fado, daí o aforismo “Fado, Futebol e Fátima”. Será que hoje será diferente? A ser, mais que certo, a discrepância reside no aumento de possibilidades de distracção social que conduzem à indiferença e alienação.
Por tudo o que se diga, o povo, enquanto massa abstracta e representativo de uma comunidade, será sempre o resultado entre duas parcelas interligadas: o que o sistema lhe dá a conhecer e o juízo critico que é feito a esse conhecimento. Isto é, se aceitamos passivamente a informação oriunda do poder e não a questionamos, pensando o assunto e decompondo as premissas, estamos a contribuir para a formatação de uma sociedade arregimentada, cada vez mais inculta, e desonerada de obrigações.
Sobretudo quando é preciso ler um testamento destes, valerá a pena pensar nisto? Se tenho noção que esta crónica é imensa, demasiadamente grande, talvez intragável, porque teimo em apresentar uma coisa assim? Tenho de confessar que, de forma egoísta, faço isto por mim. Para escrever tenho de ler, investigar e raciocinar. Se chegou até aqui, tenha paciência comigo.

sábado, 6 de maio de 2017

PROVAVELMENTE, POUCOS CONSEGUIRAM DORMIR ESTA NOITE NA BAIXA





Se não tivesse acontecido às 23h47 de ontem, até facilmente poderia ser acarretada a culpa do intenso barulho desta noite para o sismo de magnitude 3.5 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 20 km a Sudoeste da Figueira da Foz.
Esta noite a Baixa esteve envolta em completo estardalhaço provocado por estudantes. Foram gritos estridentes ao longo da madrugada, foram pancadas fortes em objectos públicos e, para completar o cenário de vandalismo arruaceiro, às 5h45 uma besta mandou um enorme coice nas chapas de protecção da ourivesaria Mondego, na Rua Eduardo Coelho, e accionou o alarme.
Para quem cá habita, pois ano-após-ano a recorrência repete-se, já nem vale a pena gritar “Ó DA GUARDA”, porque, por um lado, alegadamente estamos numa cidade de paz e nada acontece que quebre a pacatez rotineira, por outro, os agentes mal chegam para supervisionarem os recintos da festa. É ver a coisa a descambar e comer e calar.
Pensar que este continuado rebuliço pode afectar o turismo nem vale a pena. É óbvio que os passantes em trânsito pela cidade adoram não poderem dormir e terão a maior complacência por uma semana de autêntico desvario. É a Queima das Fitas em todo o seu fulgor! Isto basta!
Muito mal vai um sistema, desequilibrado, quando se deixa tomar por um dos lados prevaricador. Adivinha-se o resultado disto tudo quando os lesados não conseguem mostrar que estão a ser pisados por uma horda de vândalos que não respeita ninguém e muito menos quem autoriza e os licencia para as suas investidas animalescas. Como é natural, mandar esta gente toda, mandantes e mandados, para um lado que todos sabemos mas não dizemos é pouco. Mas é o tempo que vivemos! Onde a anomia, a desordem, o caos, tomou conta de uma ordem que ninguém vê mas que a aceita passivamente.
Vale a pena pensar nisto? Acho que não. Não há tempo para perder com detalhes. O problema será o resultado final para o futuro. Como quem interroga: o que se espera deste desvario de carneirada?

quinta-feira, 4 de maio de 2017

quarta-feira, 3 de maio de 2017

HUMOR COM HUMOR SE PAGA...

Foto de Rebanda Amândio Rebanda.


"E SE A AUTARQUIA DAS CALDAS SE LEMBRA DE ENCOMENDAR UMA OBRA À JOANA VASCONCELOS?"
(Frase retirada, com a devida vénia, do Facebook)

A SORTE DE VIVERMOS NUMA CIDADE DE PAZ

(Imagem de arquivo)




CENA I

Ontem, terça-feira, pouco passava das 21h00 na Praça 8 de Maio. O tempo estava ameno, sem brisa fria a correr, fazia lembrar uma noite de verão. O antigo Largo de Sansão estava composto com algumas pessoas sentadas no lancil do lago central e instalado em frente ao Panteão Nacional. A esplanada do Café Santa Cruz tinha vários pares de estrangeiros a tomar uma bebida e à sua volta, em moldura humana, algumas pessoas, entretidas a ver a paisagem, estavam acomodadas no corrimão de pedra que serpenteia o espaço ocupado com mesas e cadeiras.
Um casal de estrangeiros já curvados sob o peso dos anos, com ar molengão e despreocupados, em passo lento de passeata, quando passava em frente à Igreja de Santa Cruz foi abordado por um indivíduo novo, esguio e de cerca de uma trintena de anos, cabelo rapado e com aspecto de toxicodependente. Em inglês pedia uma moeda ao par de turistas. No percurso de vinte metros, entre o patim da igreja e a rampa que dá acesso à Rua Visconde da Luz, o assédio foi subindo de tom. Quando os três chegaram ao prédio do desaparecido BES, perante a calma dos ingleses, o energúmeno, inclinado e muito irado, já gritava a plenos pulmões: “give me a coin... CARALHO!”. E prosseguia: “CARALHO... CARALHO!, estão a ouvir ingleses de merda?
Ao lado, no banco de pedra onde costuma estar sentada a Adelaide a vender pistáchios, um grupo de de três malfeitores iguais e com o mesmo tipo de rosto façanhudo, talvez a darem cobertura à besta, gozavam a cena. Encolhidos sobre si mesmo, mais que certo tentando fazer do medo forças hercúleas, caminhando na direcção do Café Santa Cruz em busca de ilusória protecção pela molhe humana, as únicas palavras que se ouviram dos viajantes em trânsito pela cidade foi: “we do not speak English” (não falamos inglês).
Com a 2.ª Esquadra escondida pelo edifício da Câmara Municipal, a pouco mais de cinquenta metros, nem um agente da PSP se avistava nas redondezas.

CENA II

Ontem, em Coimbra, realizou-se a comemoração do 139.º aniversário da PSP . Segundo o Diário de Coimbra, “A cerimónia solene, que decorreu no Convento São Francisco, foi encerrada por Isabel Oneto, com a governanta a centrar atenções nos desafios que se colocam às forças policiais.
Continuando a citar o jornal, “A melhoria de condições passa, notou o superintendente Pedro Teles, “pelo reforço e qualidade dos equipamentos e também, de uma forma especial, por conferir funcionalidade e dignidade às instalações, quer em Coimbra (2ª Esquadra e Esquadra de Trânsito), quer na Figueira da Foz.
E ainda no desenvolvimento da notícia, Manuel Machado, presidente da autarquia, “assinalou uma acção policial “que tem contribuído para caracterizar Coimbra como uma cidade de paz -o que motiva a visita, a actividade económica, a cidadania, e conforta a vida aos cidadãos”.

CENA III

Imagina-se o casal de turistas incomodado pelo pedinte malfeitor a chegar ao Reino Unido, todo feliz e contente, a espalhar na sua comunidade as poderosas palavras securitárias do superintendente Pedro Teles e Manuel Machado, o presidente da Câmara Municipal.

terça-feira, 2 de maio de 2017

UMA PROPOSTA DE RESOLUÇÃO DO PCP SOBRE O COMÉRCIO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar

Projeto de Resolução n.º /XIII/2.ª
Propõe a concretização de um programa de desburocratização e apoio às micro, pequenas e médias empresas

Há muito que o PCP tem vindo a sublinhar a necessidade de apoio às micro, pequenas e médias empresas como elemento indispensável na resposta aos graves problemas económicos nacionais e tem apresentado soluções concretas para que esses problemas possam ser ultrapassados.

Décadas de política de direita traduziram-se no desmantelamento do aparelho produtivo e na deterioração da capacidade produtiva, bem visíveis no encerramento de empresas, em resultado da dominação monopolista, dos constrangimentos da União Europeia, da política de direita, prosseguida pelos sucessivos governos, reforçada pelo anterior do PSD/CDS e a intervenção da troika que agravaram ainda mais os problemas com a enorme queda do poder de compra das famílias, a drástica diminuição do investimento público, a subida brutal da carga fiscal, o brutal acréscimo do custo de diversos fatores de produção, da energia às comunicações e ao custo do crédito.

Na situação que o País vive, a questão da necessidade de uma política para aumentar a produção e a atividade económica tem uma atualidade e urgência incontornáveis. É indispensável uma política dirigida à defesa, modernização e desenvolvimento do aparelho produtivo do País, de apoio e defesa das micro, pequenas e médias empresas, acompanhada de uma política que inverta a injusta distribuição Rendimento Nacional.

Portugal precisa de investimento para promover a produção e a produtividade, o crescimento, o emprego e o bem-estar social e precisa de ganhar margem de manobra para afirmar o seu projeto soberano de desenvolvimento, o que exige a libertação dos constrangimentos externo e do euro. Precisa de investimento para reforçar a inovação, a investigação e desenvolvimento na produção. Aproveitar os grandes projetos públicos para dinamizar setores produtivos e, resolutamente, apoiar as pequenas e médias empresas a subir na cadeia de valor e à melhoria do seu desempenho em geral e de medidas para assegurar a sua competitividade, nomeadamente garantam a aproximação dos preços da energia elétrica, gás natural e combustíveis à média europeia.

Recentemente, têm vindo a ser aprovadas algumas propostas apresentadas pelo PCP que se revestem de grande importância para as MPME. É o caso de propostas que 2 permitem a redução de parte dos custos energéticos, nomeadamente na eletricidade, no gás de garrafa e nos combustíveis utilizados na pesca e na agricultura. É o caso também da redução do Pagamento Especial por Conta, que já está a beneficiar de forma importante os pequenos e microempresários, e que tem agora a extinção definida para 2019 – fruto da proposta e da persistência do PCP.

Os micro, pequenos e médios empresários identificam como os principais fatores limitativos do investimento e do consequente crescimento e desenvolvimento económico e social, o fraco poder de compra da população portuguesa e a débil procura pública (Administração central e Autarquias Locais) a par dos custos da produção decorrentes dos elevados preços dos fatores produtivos, como a energia, telecomunicações, transportes, os custos administrativos e fiscais, as dificuldades de acesso ao financiamento que a generalidade das MPME enfrenta.

De acordo com o testemunho de muitos micro, pequenos e médios empresários, ainda não se regista uma recuperação económica significativa, sobretudo no comércio, restauração e serviços. Nesta matéria, o aumento do poder de compra é decisivo, já que a esmagadora maioria das micro e pequenas empresas laboram para o mercado interno nacional. O domínio monopolista sobre sectores estratégicos – energia, comunicações, crédito, etc. – e a carga fiscal imposta às MPME, desigual face aos grupos económicos, são fatores que continuam a ser incontornáveis para a capacidade de reanimação da economia.

Os microempresários deparam-se muito frequentemente com novas obrigações vindas da Autoridade Tributária, da ACT, da ASAE, num labirinto de medidas, muitas de última hora, que nem sequer os seus contabilistas ou outros consultores especializados, muitas vezes, conseguem resolver. Coloca-se a necessidade de uma atitude exigente, mas transparente por parte destas entidades, em particular junto das micro, pequenas e médias empresas.

A Banca impõe todos os dias pesados encargos às MPME com comissões, despesas de manutenção de conta e outros custos administrativos, sem qualquer razoabilidade e sujeitando as empresas a situações de ainda maior dificuldade e constrangimento. Como dizem muitos empresários, hoje já se paga à Banca para ter dinheiro depositado. O problema é complexo e vasto e a exigir iniciativa política que trave este saque.

Sobre os Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, no quadro comunitário designado por Portugal 2020, os critérios de acesso, os regulamentos (aprovados pelo anterior Governo PSD/CDS) continuam complexos, burocratizados, inacessíveis para a imensa maioria dos micro, pequenos e médios empresários. Tal situação coloca em maior desigualdade as condições de acesso das empresas, entre a capacidade técnica e económica dos grandes grupos económicos e a maior dificuldade das MPME. Tal como 3 era relatado em dados recentemente vindos a público, 96% das empresas estão fora do Portugal 2020.

Torna-se indispensável e inadiável prosseguir esse caminho de apoio às micro, pequenas e médias empresas, com medidas concretas que respondam aos problemas sentidos e identificados pelos empresários, desde logo na simplificação administrativa e eliminação de opções burocráticas desnecessárias e que são uma barreira, na facilitação do acesso ao financiamento e aos apoios ao investimento nomeadamente pelos fundos comunitários.

Nestes termos, ao abrigo da alínea b) do artigo 156.º da Constituição e da alínea b) do n.º 1 do artigo 4.º do Regimento, os Deputados do Grupo Parlamentar do PCP propõem que a Assembleia da República adote a seguinte resolução:

A Assembleia da República, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomenda ao Governo a concretização de um programa de desburocratização e apoio às micro, pequenas e médias empresas, que determine:

a) A criação de um regime de conta-corrente entre as micro, pequenas e médias empresas (MPME) e o Estado que alivie a tesouraria das empresas e que, no caso de serem detentoras de crédito sobre o Estado, permita o acerto das suas obrigações tributárias;

b) A atualização do valor previsto no Código das Sociedades Comerciais que sujeita as empresas a revisão legal de contas, assegurando a isenção de revisão legal de contas às pequenas empresas que não sejam sociedades anónimas;
    c) A adoção de medidas para que as linhas de crédito para as MPME anunciadas pelo Governo (Linha “Micro e Pequenas Empresas”; Linha “Fundo de maneio”; Linha “Plafond de tesouraria”; Linha “Investimento geral”; Linha “Investimento de projetos 2020”) sejam concretizadas com o acompanhamento do IAPMEI em articulação com o IFP, quer na resolução de possíveis obstáculos à sua contratualização pelas empresas quer no controlo das condições, prazos e juros exigidos pela agências de crédito, que devem traduzir de forma efetiva o volume de fundos públicos disponibilizados para a sua bonificação;
    d) A adequação do Quadro Comunitário Portugal 2020, no âmbito da sua reprogramação, considerando programas específicos, com plafonds próprios e exclusivos, para as micro e pequenas empresas;
    e) A definição de um programa de valorização das MPME, estabelecendo a sua prioridade, no âmbito da contratação pública e funcionamento das Centrais de Compra do Estado;
    f) A urgente concretização do anunciado Cheque MPME, obrigando à determinação dos impactos e custos (fiscais, administrativos, de mercados, etc.) em todos os processos legislativos e normativos dos poderes públicos; 4
    g) A intervenção junto do sector financeiro, junto do Banco de Portugal e por intermédio do banco público, Caixa Geral de Depósitos, no sentido do estudo e promoção de uma substancial redução dos encargos das MPME com comissões, despesas de manutenção e outros custos administrativos aplicados pela banca comercial;
    h) A criação no âmbito do IAPMEI de um Serviço de Apoio aos Micro e Pequenos Empresários, estrutura dedicada com o objetivo de resolver, orientar e sistematizar dificuldades, estrangulamentos e problemas das micro e pequenas empresas na sua relação com serviços da Administração Central, nomeadamente no acesso a programas públicos para o sector;
    i) A criação no âmbito dos programas da Administração Central para a promoção da eficiência energética de um programa específico e de apoios majorados para as MPME, em simultâneo com o desenvolvimento pelo IAPMEI, DGEG e ADENE de um balcão próprio para a sua concretização.

    Assembleia da República, 27 de abril de 2017
    Os Deputados,
    BRUNO DIAS, JOÃO OLIVEIRA, FRANCISCO LOPES, CARLA CRUZ