sábado, 23 de setembro de 2017

EDITORIAL: ESTE TEMPO EM QUE O HOMEM NÃO QUER MORRER PARA O MUNDO

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Um novo mundo está em germe, um novo tipo de homem está em gestação. As massas, condenadas actualmente a sofrer mais do que em qualquer outra época, estão paralisadas pelo medo e pela apreensão. Como os seus traumatizados de guerra, as massas retiraram-se para os túmulos que para si próprios escavaram. Perderam todo o contacto com a realidade, excepto no que se refere às suas necessidades físicas. É evidente que o corpo deixou de ser há muito o templo do espírito. É assim que o homem morre para o mundo – e para o Criador. No decurso da desintegração, processo que pode prolongar-se por vários séculos, a vida perde todo o sentido. Uma actividade desenfreada, que se manifesta com igual ferocidade nos esforços dos académicos, dos pensadores, dos cientistas e nos actos dos militaristas, dos políticos e dos salteadores, oculta a presença cada vez mais ténue da chama viva. Esta actividade insólita é, ela própria, sinal de morte próxima.
(…) As nossas leis e costumes dizem respeito à vida social, à nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A verdadeira vida começa quando estamos sós, frente a frente com o nosso eu desconhecido. O que acontece quando nos encontramos com os outros é determinado pelos nossos solilóquios interiores. Os acontecimentos cruciais são verdadeiramente decisivos que marcam o nosso caminho são fruto do silêncio e da solidão. Costumamos dar grande importância aos encontros ocasionais, referi-los como pontos de viragem das nossas vidas, mas tais encontros nunca poderiam ter-se dado se não nos tivéssemos já preparados para eles. Se estivéssemos mais despertos, estes encontros fortuitos seriam ainda mais compensadores. Só em certos momentos imprevisíveis nos encontramos plenamente receptivos, plenamente disponíveis, por isso, em condições de receber os favores da sorte. O homem bem desperto sabe que todos os “acontecimentos” estão carregados de sentido. Sabe que não é só a sua vida a ser alterada, mas que todo o nosso mundo virá a ser igualmente afectado.”
Henry Miller, O Mundo do Sexo, 1940.

Socorri-me destes parágrafos do grande Henry Miller, escritos em 1940, para comparar esses tempos difíceis, com nuvens de guerra mundial onde a política pouco contava, com a actualidade onde por cá, pelo País, pela Península Ibérica, pela Europa, a política soçobra, fazendo submergir a lei e o direito, impondo-se como um espectro de lastro invisível de proveitos e sempre com a conveniência ideológica em pano de fundo social. Neste tempo de entendimento periclitante, cuja razão passou a ser uma contestação omnipresente, individual e subjectiva, em que as premissas “causa” e “efeito” se confundem e a segunda, justificando e abafando a primeira, perdendo toda a coerência, surge como verdade sem contestação, onde a paz, feita por guerreiros com metralhadoras em riste, nunca foi um princípio mas um subterfúgio para alcançar a guerra. Como espectadores fixados no desabrochar de um cataclismo, esperamos a todo o momento o eclodir de um grande conflito mundial encetado por duas super-potências mais interessadas no fabrico de armamento bélico do que assegurar a concórdia do planeta.
Por cá, a uma semana das eleições autárquicas, o ruído nas redes sociais é ensurdecedor. Não há escândalo no futebol nem plágio de um grande cantor que faça abafar o grito de que o meu candidato é melhor que o teu. Quer o concorrente ao cargo, quer o fanático apoiante, um que engana e outro que é enganado, previamente e com conhecimento mútuo, sabem que vão sofrer uma frustração no futuro. No entanto, como se a defesa da mentira constituísse uma afirmação de carácter, juram a pé-juntos a sua absoluta certeza. Pelo pugnar de promessas vazias insultarão tudo e todos quantos ousarem contradizer as suas afirmações convictas.
Por lá, aqui mesmo ao lado na vizinha Espanha, para muitos, nada importa o que se está a passar com a Comunidade Autónoma Catalã. Pouco interessa se o que está em causa é o direito, o cumprimento da carta constitucional e a unidade de uma nação -que por acaso, só por acaso, é nosso vizinho. Para os defensores da realização do Referendo o que conta são os fins e não os meios, como quem diz, a política sobrepõe-se à lei.
Para não ser esquecido, recorrendo a todos os instrumentos possíveis e imaginários, o homem fará tudo para não morrer para o mundo. A lei, a virtude das virtudes, que foi sempre a luz harmónica da justiça e da paz comummemente aceite para dirimir conflitos, já não serve para conter os interesses.

BOM DIA, PESSOAL...

AS EMBRULHADAS DO ESTADO...

Resultado de imagem para hospital de coimbra
(Imagem da Web)


Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra foi penhorado por não pagar IMI”

DEBATE A QUATRO, PELO OBSERVADOR

(Imagem do jornal online Observador)


Quatro dos cinco principais candidatos a Coimbra aceitaram desafio do Observador para fazer debate num autocarro. Três deles querem o Ministério da Saúde na cidade. Todos são contra o novo aeroporto”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CHEGOU O OUTONO

(Imagem da Web)





Depois de dias longos, plenos de luz e cor, prenhes de temperaturas quentes, com muitos incêndios a deflagrarem no horizonte, e vitalidade de mais um Verão que, pelo bem ou pelo mal, por uma recordação qualquer, ficou preso na nossa memória, pé-ante-pé e com sapatinhos de algodão, eis que devagar devagarinho chegou o Outono.
Com as mangas das camisas a descerem, com mais umas rugas no frontispício, sentimos o brilho da luz dos dias a encurtar em noites-após-noites, tornando-os mais pequenos e mostrando que tudo o que é longo, inevitavelmente, se tornará pequeno. Impondo uma progressiva temperatura tépida, a declinar para um ambiente mais gelado, como a sensibilizar-nos para a necessidade de tomar atenção de que os calores não são eternos, tomará lugar entre nós meigamente. A mostrar que a seguir a um pico virá um baixio, assentará como se fizesse parte da família. Depois de um período “caliente”, inexoravelmente, virá um frio de rachar e, gostemos dele ou não, teremos de o aceitar com um sorriso.
Aí está o Outono. Depois de um revestimento de verde, como plumas a cobrir uma ave exótica, as árvores do nosso encantamento vão ficar despidas. Iremos, quase sem querer, numa qualquer avenida, chocar com uma folha amarelecida que, antes de outras que se lhes irão seguir, tendo-se desprendido de um qualquer ramo de um qualquer plátano, esvoaça ao vento, ziguezagueando por entre transeuntes, uns mais apressados, outro nem tanto, outros ainda que irão pontapeá-la ou pura e simplesmente ignorá-la, e nós, feitos poetas de ocasião, segui-la-emos no seu rodopiar. E nela, prendendo o nosso olhar entre o subir e o descer, ao sabor do vento e de um tempo imprecisos e ocasionais, gostávamos de nos deixar ir.
As andorinhas, feitas viajantes pela força da natureza, começarão a fazer as “malas” e, deixando desgostos ou frustrados desenganos, quem sabe amores mal resolvidos, abandonarão os beirais que, durante escassos meses, foram os seus lares e ali assistiram ao nascimento dos seus filhos. Nestes ninhos deixarão mil recordações mas mesmo assim, aceitando esta partida como natural e símbolo de partilha, irão levar aos povos do norte de África o mesmo chilrear e a mesma alegria, viva e sonora, que nos presentearam os dias. Para a próxima Primavera, sem pungentes lamentos, num eterno retorno, aí estarão elas, novamente, pujantes de força e refarão os berços para os seus novos filhos e comporão as suas existências.
Assim é a nossa vida. Tão cheia de calor, como um Verão solarengo. Sem o poder evitar, teremos períodos frios mas, como na natureza, em vai e vem, as temperaturas quentes retornarão. E se por motivos imponderáveis nos tornámos andorinhas de trouxa às costas, aceitemos como desígnio, com a mesma naturalidade com que os passarinhos acolhem o seu destino fatalista. Não tenhamos medo de voar em frente. Quem sabe se no norte não estará um outro futuro sorridente. Avessos ao risco e acomodados ao certo nunca conheceremos a imprevisibilidade e o sabor doce das coisas novas. Porque haveremos de ter medo do desconhecido e de abandonar o nosso beiral? Serão apenas as recordações que nos prendem? Valerá a pena continuarmos no aconchego cómodo do ninho, mesmo não nos sentindo amados e pouco reconhecidos, só porque tememos os ventos estranhos da incerteza? Porque não voarmos até outras paragens? Por que não nos deixarmos caminhar para norte? Se não nos dermos bem, com a mesma garantia de que amanhã será outro dia e no próximo ano haverá outra Primavera, como as andorinhas a gozar o prazer da mudança, começaremos de novo, de palha-em-palha, a construir um outro lar, uma outra casinha.
A natureza é tão pródiga nos ensinamentos. E nós, como folha solta que somos, a esvoaçar ao vento e sem saber onde vai cair e que quando tombar vai desaparecer em pó, continuamos a teimar que controlamos o destino e somos donos de tudo e de todos. Esquecemos que somos somente a possível soma entre a nossa determinação e outras vontades indeterminadas pelos escolhos do caminho. Como “invisuais” que vêem mas não querem ver… não vemos! O resultado desta cegueira é uma tragédia para a humanidade.
Passemos a olhar tudo à nossa volta com indulgência, sempre com a noção de que antes de desculpar os outros temos de nos perdoar a nós mesmos.
Tal como este período de acalmia que a Natureza nos proporciona, tomemos o silêncio e introspecção que se aproxima como um bálsamo para a nossa convivência tantas vezes complicada.



BOM DIA, PESSOAL...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

BAIXA: MEDIDAS DESPENALIZADORAS E A FAVOR DA REVITALIZAÇÃO (20)





Tendo em conta a continuada situação de aproveitamento político, de empobrecimento e desalento que as actividades comerciais tradicionais da Baixa de Coimbra atravessam, diariamente e até às próximas eleições autárquicas de 01 de Outubro, vou sugerindo medidas que, se houvesse vontade política, poderiam servir para atenuar a queda e o encerramento de mais espaços mercantis.
Estou a escrever p'ro boneco? É o mais certo.


    É urgente recuperar o Mercado Municipal D. Pedro V procurando novas valências, incluindo serviços municipais, para aquele espaço público. Tomando o exemplo de outras cidades, é preciso avaliar se, de facto, a gestão pública até aqui será o melhor para a sua regeneração e não se deverá pensar na concessão a uma entidade privada para a sua exploração.

Há cerca de dez dias fomos surpreendidos pela publicação nos jornais de uma Carta Aberta escrita por Paulo Dinis, presidente da Associação do Comércio dos Mercados de Coimbra (ACMC). Nesta missiva, Dinis acusa Manuel Machado, actual presidente da edilidade, de, enquanto órgão associativo, não os receber em quatro anos e interroga: “onde está o investimento que anunciou numa reunião camarária, num mês de Agosto, dentro deste seu mandato, que iria fazer neste Mercado Municipal e que estava estimado no valor de 600 000 euros?”
Antes de prosseguir vamos a factos que nos possam ajudar a analisar melhor o que se passa com o antigo mercado tão querido para tantos de nós.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Contando um pouco de história desta “praça” popular, depois de uma acentuada degradação que já vinha desde o princípio do século XX, quando, em 1911, “as impróprias vedações em madeira foram substituídas por muros de pedra e cal”, com a imprensa a pedir a sua transferência para outro local pela expansão da cidade “o mostrengo que hoje ainda ali se encontra, não deve continuar por mais tempo, para brio e lustre dos que dirigem os negócios do município conimbricense e para bom crédito e honra da cidade" –Gazeta de Coimbra, de 4 de Abril de 1914 e fonte-, proclamava-se uma solução para o Mercado. Ou a sua transferência ou obras de fundo para o existente. 
Foi assim que, sob a orientação de Manuel Machado, na altura e actual presidente da Câmara Municipal de Coimbra, o camartelo iniciou a sua demolição em Outubro de 2000 e um ano depois, em 17 de Novembro de 2001 e ainda a tempo de fazer parte da campanha eleitoral para a reeleição do promotor, com pompa e muita circunstância, seria inaugurado um bonito edifício a fazer lembrar uma moderna grande superfície comercial. Machado viria a perder as eleições para Carlos Encarnação.

NOVO CICLO, VELHOS DEFEITOS

Fosse pela queda política do “pai”, pela alteração radical do edificado, pela mudança dos costumes, ou talvez mais certo pelos licenciamentos e aberturas da Makro e do Continente, em 1993, e muitos outros shopping's que lhes sucederam, a verdade é que o “novo” mercado municipal progressivamente foi perdendo o interesse da população conimbricense. Tal como em muitas cidades do país, nos nossos dias e na mesma linha do comércio tradicional, esta praça de produtos populares começou a arrastar-se pelas ruas da amargura e com os seus vendedores a tentarem sobreviver. E a ser um lugar de agonia. Conheci bem o velho mercado antes das obras.
Ainda no consulado de Carlos Encarnação, as queixas dos operadores eram mais que muitas. Em final de 2010 Encarnação abdica para Barbosa de Melo. Este forma equipa com João Orvalho, este como vice-presidente e super-vereador responsável por vários pelouros, entre eles, como das finanças, recursos humanos, educação e mercados. Apaixonado por fazer obra, e sobretudo coisas novas, depressa Orvalho abraçou a revitalização do Mercado D. Pedro V como desígnio. Mas as guerras de capoeira rapidamente tiraram o tapete a Orvalho e de acumulador de pelouros depressa ficou sem um único. Homem de trato fácil, vejam bem, ousou criticar a gestão do todo-poderoso Manuel Oliveira, nesta altura, homem forte nos transportes, na autarquia e no PSD. É claro que a corda tinha de quebrar pelo mais frágil. Resultado desta quebra, como é lógico, a demissão no primeiro semestre de 2012 e com ele um grande ante-projecto já concebido para a revitalização do mercado municipal onde passava por transformar totalmente a praça do peixe em restauração de excelência e aberta até à meia-noite.
Não é preciso dizer que o pó do esquecimento envolveu o popular mercado e tudo continuou igual como dantes.

VELHOS DEFEITOS, NOVO CICLO

Em 2013 Barbosa de Melo perde a Câmara Municipal para Manuel Machado. Este, certamente sem esquecer que fora o mestre e responsável pelas obras do mercado D. Pedro V, prometeu em campanha eleitoral a revitalização e reconversão da tradicional praça.
É nesta regência de Machado que entra Paulo Dinis, presidente da Associação do Comércio dos Mercados de Coimbra (ACMC), com maior acutilância na reivindicação de melhoramentos. Talvez porque já estivesse cheio de promessas vazias ou se desse melhor com o anterior executivo, sei lá?!? Tentando ser isento, não sei qual dos dois terá pior feitio para a diplomacia. Quem souber que responda. O que sei é que os (poucos) encontros entre os dois representantes deram sempre em discussão grossa e com Machado a fugir de Dinis como o diabo da cruz.
Em 17 de Agosto de 2015, em reunião do Executivo, foi aprovado um projecto de reconversão para o mercado municipal. Segundo o Diário de Coimbra do dia seguinte, “Câmara quer restaurantes a dar nova vida ao mercado – Autarquia inspira-se em modelos de sucesso e conta investir meio milhão de euros para acolher novas actividades no Mercado D. Pedro V.”
Perante um texto que escrevi a enaltecer a iniciativa, logo acorreu Paulo Dinis a questionar-me: “Por acaso sabe em que moldes querem fazer essa reconversão do mercado municipal que o senhor tanto elogia? Tem a certeza que esses mercados-tipo a que se refere em Lisboa e Porto são assim um sucesso tão grande? Por acaso já visitou alguns deles e falou com os operadores desses Mercados? Não acha que a Baixa de Coimbra tem restauração a mais para a clientela da mesma? (…) Meio milhão de euros não será dinheiro a mais para gastar num Mercado com pouco mais de 10 anos? Cuidado a política é muito traiçoeira.”
Estamos em 2017, em vésperas de eleições. Constatamos que o Mercado D. Pedro V continua na mesma, igual à sua inauguração em Novembro de 2001, e os dois interventores, Machado e Dinis, continuam de candeias às avessas. Ou seja, se se olharem ao espelho, qualquer deles não pode disparar acusações na direcção oposta. Um, Machado, porque não levou em frente o que prometeu aos conimbricenses, outro, Dinis, porque perante o anúncio do projecto em 2015 tratou logo de discordar de tudo e pôr o pau na roda.
O que se extrai disto? Se queremos mesmo que a revitalização da velha praça avance, provavelmente, o melhor seria seguir o exemplo da Câmara de Vila Nova de Gaia, que concessionou o Mercado Municipal da Beira-Rio a um privado por 30 anos.
Vale a pena pensar nisto?

TEXTOS RELACCIONADOS

FALECEU O "BASILIUS"

(Imagem do Campeão das Províncias)




Segundo o jornal Campeão das Províncias online, “Joaquim Vieira Basílio, conhecido por interpretar a personagem de um mendigo em diversas feiras medievais, morreu, hoje, aos 82 anos.
O conimbricense tinha estado internado devido a um problema no coração, contudo, segundo Francisco Andrade, amigo próximo, a morte ocorreu em casa, durante a madrugada”. Continue a ler clicando em cima.
Teria sido há cerca de quinze dias que o Joaquim Vieira Basílio passou aqui e nos cumprimentámos. Embora de aspecto débil, nada fazia perceber o triste desenlace deste extraordinário “performer” que, pela entrega nas suas actuações pelo país fora, muito honrou Coimbra.
À família enlutada, em nome da Baixa, em nome de Coimbra, em nome do país, um enorme abraço de solidariedade neste momento de enorme sofrimento.
Para o “Basilius”, que mais que certo com aquele seu ar triste mas resignado partiu em paz, uma grande salva de palmas.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

NO APROVEITAR SE ACUMULA O GANHO...

EDITORIAL: É PRECISO ACREDITAR DE FACTO OS CANDIDATOS AUTÁRQUICOS

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




É público que os dois candidatos acreditados pelos dois maiores partidos à Câmara Municipal de Coimbra, no caso Jaime Ramos, em coligação PSD/CDS/PPM/MPT, e Manuel Machado, pelo PS, se não vencerem as eleições não tomarão posse como vereadores na oposição.
Se é certo que não estamos totalmente perante um fenómeno novo -o actual presidente da edilidade Manuel Machado tomou este mesmo comportamento em 2001, quando perdeu a cadeira para Carlos Encarnação-, a verdade é que se estranha como é que as duas maiores agremiações políticas do país prossigam na cobertura de candidatos turbo. A lei dá cobertura a estas bombas de fumo, já se sabe, mas, pelo respeito mútuo, esta forma de vazio institucional de incumprimento nos cargos políticos, não pode continuar a acontecer. Não se pode crer que estes cabeças-de-lista apenas são bons como mandantes. Não vencendo o pleito, como se não tivessem vocação para o contraditório na oposição, logo não estão disponíveis para o debate de enriquecimento de ideias e contribuição para a argumentação e dialética, através do raciocínio em diálogo.
Um concorrente que se auto-propõe -no sentido de servir a causa pública- e é credenciado por uma organização pública, por si mesmo e pela segunda, e sendo avalizado por um colégio eleitoral, deveria estar preso a um compromisso de cumprimento total do mandato. A não ser assim, estamos todos a colaborar numa fraude e, cada vez mais, a esvaziar de sentido a política enquanto a mais nobre das virtudes humanas. Quem ainda acredita que a política é o único modo pacífico de resolver os problemas, em face desta publicidade enganosa, desta intrujice, sente-se ludibriado pelo embrulho lustrado e com laçarote. O resultado, como se calcula, é um divórcio acentuado com repercussão na abstenção, uma desconfiança notória, entre o eleitor e o programa de acção dos candidatos. A técnica de venda não difere muito de uma grande superfície comercial. Ou seja, anuncia-se uma grande campanha com um nome sonante do “show business” a dar autógrafos, por exemplo, e os clientes, como galináceos em busca de milho, vidrados pela fama do artista, acorrem em massa. No fim do acto cénico o "performer" evapora-se e os presentes, como se ficassem defraudados pela nuvem de fumo, vão exaurir as suas angústias em compras nas lojas em redor.
É também certo que em Coimbra, para além de Manuel Machado em 2001, nos anos subsequentes foi um continuar de desistências. Começou com a célebre cadeira vazia na Assembleia Municipal, pelo projecto falhado de Pina Prata, em 2009. Em 2010 Carlos Encarnação abdicou a favor de Barbosa de Melo, no Executivo. Ainda no rol de desistências seguiu-se Maló de Abreu e Helena Freitas, em 2011, na Assembleia. Mais recentemente todos assistimos ao forró de resignações dos eleitos pelo movimento Cidadãos por Coimbra, no Executivo e na Assembleia Municipal de Coimbra. Nesta cidade do não reconhecimento, poucos estão interessados em resolver os problemas dos cidadãos. Alegam outros princípios, mas, no fundo, no fundo, estão mais interessados na sua vidinha.
A bem do futuro que se espera da política, pela dignidade que lhe é imanente, pelo acreditar num projecto que visa mexer no colectivo, pelo contrato social que se estabelece entre eleitor e candidato de organização política ou independente, esta vergonha escandalosa não pode continuar a aceitar-se como se o fugir ao cumprimento de um dever fosse a normalidade. Não é. Não pode ser!
Vale a pena pensar nisto?

ANDA TUDO DOIDO... SÓ PODE!

(Imagem do JN)



Qualquer pessoa com mais de 16 anos deve poder mudar de sexo e alterar a sua identidade no cartão de cidadão.”

Este é o teor de um projeto de lei que o Bloco de Esquerda entregou no Parlamento, no qual se fixa que o Estado deve garantir os procedimentos médicos necessários para a mudança de género, nem que tenha que contratualizar com o privado”.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

VOTE E CONTRIBUA PARA A SUA FELICIDADE E A DE TODOS

Resultado de imagem para eleições
(Imagem da Web)




Dentro de duas semanas cada um de nós é chamado a contribuir para a escolha dos seus eleitos locais. Para os que não querem saber e, para se justificarem, dizem ter desistido do processo, as desculpas são variadas e ao sabor da imaginação de cada um. Desde o afirmar-se que votar é uma perda de tempo, que os que se apresentam não prestam, até que não sabe o seu número de eleitor, tudo serve para descarregar a consciência no laxismo.
Aqui não se aconselha o voto em qualquer candidato ou força política em especial. O que reiteramos é que se deixe de vazios argumentos bacocos e, pela sua vontade, interfira directamente no acto eleitoral. Não deixe que outros decidam por si. Sabe-se que o concorrente em quem depositamos a nossa confiança pode não ganhar. Não importa. São as regras do jogo. O que conta é que participámos no pleito eleitoral e, enquanto cidadãos cumpridores, não nos mantemos à margem das grandes decisões para o futuro da nossa região, do nosso país.
Como já tenho alguma idade, ainda me lembro da primeira eleição em que votei (para a Constituinte) e, todo janota, de peito-cheio, o quanto me senti bem por saber que era um do todo e que tinha “voto na matéria”, isto é que, com a minha cooperação, estava a participar numa escolha que, legitimamente, também era minha e não deixava que outros decidissem no meu lugar. Ainda hoje, passados mais de quarenta anos, no dia do sufrágio levo comigo uma sensação de importância majestática pelo facto de o direito individual a votar ter sido uma conquista da Democracia e muito difícil de obter. Até por isso mesmo merece um respeito suplementar. Bem sei que para os mais novos, que não sentiram a discriminação, a dificuldade, e não sentiram a experiência negativa, pouco lhes diz a história, mas os mais velhos não têm mesmo álibi para se escusarem.
O sistema tem defeitos? Claro que sim, sobretudo pela sensação de que unicamente com o nosso boletim individual pouco poderemos fazer para alterar seja o que for, mas como dizia Churchill, ex-primeiro-ministro inglês, de todos os menos bons, este, porventura, será o menos mau. Está a precisar de alterações? Certamente.
A bem do combate à abstenção, diz muita gente que é necessário deixarmos de votar numa lista com um reconhecido cabeça-de-cartaz e, pelo Método de Hondt, modo de converter um número de votos em mandatos em que os elegíveis vão subindo progressivamente e chamados a ocupar o lugar, passarmos a votar directamente nos nossos escolhidos, em Círculos Uninominais,círculos eleitorais, ou seja, limitações geográficas que definem qual o conjunto de eleitores cujo voto determinará qual o representante escolhido para exercer funções no parlamento”. Como se vê, embora esta alteração constitucional apenas esteja preconizada para a Assembleia da República e até agora os partidos tradicionais fujam dela como o diabo da cruz, quem sabe, um dia, possa vir a ser também alargado para as autarquias? É bom? É pior do que este que temos? Não sei. Só vendo e experimentando os resultados.
Voltando ao próximo 1 de Outubro, quantos mais participarmos na votação maior será a exigência que estamos a impor aos eleitos- eles sentirão isso mesmo- e a escrutinar a eficácia no seu desempenho futuro. E mais, o que ganhar, já que foi uma escolha da maioria, mesmo que o detestemos, devemos reconhecê-lo como o nosso maior representante político-partidário, social e económico do nosso Concelho, e aceitar o resultado como um desígnio colectivo.
Para não ir votar, e se desculpar para si e para quem o rodeia, por não saber o número de eleitor, a Comissão Nacional de Eleições facilita-lhe a vida. Basta seguir o seguinte procedimento:


Envie um SMS para o n.º 3838, com a seguinte informação:
RE (espaço) nº de Cartão de Cidadão (espaço) data de nascimento (AAAAMMDD).
Logo de seguida receberá a confirmação do nome do eleitor, o nº de eleitor, a cidade e freguesia, local de voto e nº da secção de voto. (Serviço Grátis)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A DISCUSSÃO QUE VAI APAGAR TUDO: CARREIRA É PLAGIADOR?

ENCERROU O BE TOWER?







Depois de cerca de um ano em funcionamento, tudo parece crer que encerrou o BE 51 -denominação que viria a ser alterada para BE Tower- na Praça do Comércio, junto à igreja de São Tiago.
Colado no vidro, um lacónico bilhete informa : “Reabre Brevemente c/nova gerência. Obrigado.
Segundo um vizinho, que pediu o anonimato, acerca da passagem de gerência, disse o seguinte: “Sim, deve ser verdade! Já há cerca de uma semana que o estabelecimento não abre.
Até ao momento não foi possível confirmar a informação, mas, tomando em conta a missiva colada no vidro, tudo indica ser verdade.

O CANDIDATO EM CAMPANHA E O GRITO DO MERCADOR





Pouco passava das 19h00 de ontem, estava o sol a pôr-se no horizonte, quando chegou José Manuel Silva, o líder do movimento “Somos Coimbra”, ao pequeno largo da Rua Sargento-mor, em pleno coração da Baixa de Coimbra. Alguns membros da sua lista conjuntamente com moradores, comerciantes e hoteleiros aguardavam a sua chegada com ansiedade. Segundo o que fora divulgado, tratava-se de um encontro para ouvir as pessoas. Como a sabotar a acção onde estaria programado o evento, um jipe permanecia (mal) estacionado no meio do pequeno espaço. Ao longo de cerca de uma hora, e perante uma vintena de pessoas, a palestra do concorrente à Câmara Municipal de Coimbra (CMC) foi várias vezes empurrada para os cantos para deixar passar várias viaturas em direcção à Praça do Comércio.
José Manuel Silva começou por se dirigir aos presentes arguindo a ausência de estacionamento e parqueamento público na cidade. Em seguida falou da necessidade de trazer para a Baixa pessoas para morar e sobretudo famílias. Disse ainda que com o publicitado superavit camarário vinte milhões deveriam ser aplicados na recuperação de 400 fogos para trazer pessoas para o Centro Histórico. Prosseguiu Silva, “é preciso que a CMC não crie dificuldades aos munícipes. Não há planos para a Baixa, não há um projecto integrado que ajude a trazer pessoas. Vai-se fazendo a gestão corrente das dificuldades.”

E TEM A PALAVRA...

A seguir falou Ana Maria Bastos Silva, candidata a vice-presidente na lista do “Somos Coimbra”. “Tudo tem que funcionar integralmente. Primeiro temos de dar para depois tirar. Devemos recuperar edifícios devolutos para utilizar como silos-auto”, enfatizou Ana Maria.

E FALAM OS MORADORES

Um dos moradores queixou-se do elevado ruído desenvolvido na Praça do Comércio, depois da meia-noite, por um estabelecimento, e até às tantas da matina; outro sobre o lixo urbano que nos há-de acompanhar até ao último suspiro; outro, ainda, sobre o fluxo de tráfego e estacionamento anárquico na zona da Praça do Comércio.

LOBÃO CONTEMPORIZADOR

Perante o manifesto desencanto dos residentes presentes, Manuel Lobão, candidato a presidente da União de Freguesias de Coimbra -juntas agregadas de São Bartolomeu, Santa Cruz, Sé Nova e Almedina-, ia aproveitando o momento para capitalizar dividendos políticos e disparar umas setas envenenadas à oposição: “vocês têm que ser exigentes com esta gente. O actual presidente da União de Freguesias de Coimbra ganha quase 2000 euros por mês e ninguém o conhece por aqui. Nós temos que acreditar nisto (no projecto “Somos Coimbra”). Por isso é que somos independentes. Eles (os actuais políticos indigitados) têm de vir falar convosco. Eles têm que saber ouvir e levar os problemas à Assembleia Municipal. Mudamos isto ou não mudamos? Se não mudarmos, vamos todos embora. Eu gosto de ir à missa a São Bartolomeu. Já há muito tempo que deixei de vir porque não tenho onde deixar o carro.”

E O CASO DO DIA


João Rodrigues é o proprietário do restaurante Pepe Kebab, nas Escadas de São Bartolomeu. Com perceptível desalento, aproveitou para, segundo o seu testemunho na primeira pessoa, levar ao candidato a sua impotência perante o arbitrário e injusto tratamento por parte de uma fiscal da autarquia. Vamos ouvir João:

Ocupo um espaço com esplanada há vários anos que é propriedade privada, no caso, é por cima de um posto de transformação da EDP. A funcionária de fiscalização passou lá e alertou-me que eu tinha de ter licença de utilização de espaço público pela ocupação do terraço. Argumentei que aquele recinto era privado e pertença da EDP. Ela manteve e afirmou que eu tinha de pagar e obter licença para o usufruir. Levei a Planta de localização e fui à Secção de Atendimento da CMC e expliquei ao funcionário o que se estava a passar. Ele disse-me que, uma vez que a área ocupada era privada, não tinha de pagar nada nem ter licença. Foi chamar o chefe dele e este também corroborou dizendo que não havia nada na lei que me obrigasse a pagar. Eu vim embora descansado e a pensar que estava tudo bem.
Passados uns dias, passou lá outra vez a fiscal. Quando lhe disse que tinha ido ao serviço de atendimento e a interpretação tinha sido pelo oposto, ela disse: “todos têm de pagar espaço. Porque não fez o que eu lhe disse? Vou autuá-lo!”
Passados uns dias recebi uma notificação para pagar uma coima de 2500 euros. Ela agiu assim por vingança. Está no advogado. Vai ser resolvido em tribunal.
É por estas e por outras que está tudo a fugir daqui (da Baixa). É tudo a pagar! Está como está porque só sabem licenciar hipermercados.
Este senhor -referindo Manuel Machado-, se lá continuar, vai acabar com isto. Assim, vai tudo embora! Andamos para aqui para um lado e para o outro. Estamos com a corda ao pescoço. É impossível trabalhar nestas condições. Nós aqui, na Baixa, não sabemos para onde caminhamos”, rematou João Rodrigues.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

EDITORIAL: O QUE É QUE SE PASSA NA REDE?

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Faltam pouco mais de quinze dias para as eleições autárquicas. Nas redes sociais, em defesa dos seus candidatos ou simplesmente na salvaguarda dos seus pontos de vista ideológicos-sociais, as pessoas parecem ter enlouquecido. Quem os contradiz, sem mais e no mínimo, é logo apelidado de parasita, besta, comuna.
Há dias, numa página que sigo de política nacional, visando a greve da Autoeuropa e sobre as declarações de um jovem engenheiro que trabalhou na grande empresa portuguesa de capital alemão, um comentador postava o seguinte: “Este "Menino" Copinho de Leite , talvez quisesse que um Funcionário da Auto Europa ganhasse tanto como um Alemão ou como ele que emigrou para o Estrangeiro!”
Porque tinha lido a opinião do ex-funcionário da Volkswagen, entendi que o que se escrevia sobre o ex-empregado, para além de injusto, era violento e despropositado. O meu comentário foi assim: Este "menino" copinho de leite, como diz, trabalhou na AE, sabe do que fala, sabe do que escreve, sabe do que lê nas redes sociais. Eu, como não trabalhei lá, leio o que se vai escrevendo e, ao mesmo tempo, as posições políticas partidárias, abstenho-me de tomar uma posição -sobretudo radicalizada. Quer queira quer não, por muito que o desgoste, a opinião dele vale mais do que a sua, a de outros, a minha. Ele teve as mãos na massa, ele esteve lá, repito.
A resposta do visado não se fez esperar. Para além de outros insultos variados, levei logo com “comuna, vai dar banho ao cão!”
Em outra página sobre política local, há dias, numa discussão sobre o lixo na cidade, estabeleceu-se uma tal confusão que, em insultos baratos desde “ressabiada” até “parasita”, já valia tudo.
Hoje o Facebook está transformado numa espécie de saco de boxe onde cada um vai dar uns virtuais murros para descarregar a adrenalina ao mesmo tempo que solta uns vitupérios onde, para alma ficar aliviada, o insulto, a injúria e o ultraje devem carregar o máximo de veneno.
Nos nossos dias, as redes sociais substituíram as igrejas. Antigamente entrava-se numa catedral para, no silêncio das pedras milenares, através da introspecção se procurar um encontro com o “eu”. Fosse ou não pela espiritualidade concentrada nos templos frequentados por milhares de humanos, quem acreditava (e acredita), numa espécie de expiação de culpas, saía mais leve, mais puro, mais limpo do espírito e melhor consigo mesmo.
A teocracia foi substituída pela tecnocracia. Perdeu-se o enigma do que está para além de nós, do que nos transcende. Hoje, aparentemente, somos filhos da razão directa, pura subjectividade, onde não se pensa na causa e efeito. Onde para chegar à conclusão é necessário avaliar as premissas. Sem abstracção, pensa-se nos fins sem ter em conta os meios. Estamos transformados em máquinas humanas onde a injustiça está presente na maioria dos nossos actos.
Estamos melhores? Penso que não. Estamos todos com menor desumanidade e maior falta de compreensão pelos erros e deslizes do “outro”, o nosso amigo, o nosso opositor.
Valerá a pena pensar nisto?

sábado, 9 de setembro de 2017

O INDIGENTE

Resultado de imagem para o miserável
(Imagem da Web)




Conheço o António Manuel Seabra há mais de 30 anos. Tem agora 52 anos. Até há cerca de dois anos morou sempre na Alta da cidade. Também até há pouco mais do que isso e durante décadas trabalhou na Universidade de Coimbra. A Alta e a Baixa, passando pelas Escadas do Quebra Costas, foram sempre o seu teatro de paz existencial.
O Seabra é parente de grandes famílias -um seu familiar foi Ministro da Educação. Embora o meu conhecimento com ele fosse sempre um pouco distante -assim do género: bom dia, António. Estás bom?-, habituei-me a considerá-lo como se trata um vizinho sem grande intimidade. Entre nós houve sempre um respeito recíproco -pelo menos até há poucos anos. Foi sempre um homem calmo que, pressinto, mais que certo nunca levantou a voz para ninguém. Desde que me lembro dele, ainda moço, que intuí na sua forma de estar na vida alguma inadaptação à sociedade. Talvez porque andasse sempre acompanhado com “amigos do copo” fui formando a ideia de que o António era mesmo disfuncional, ou seja, codependente e incapaz de tomar as rédeas da vida com as suas mãos.

HÁ TRÊS ANOS A VIDA DESCAMBA...

Funcionário da Universidade de Coimbra de pleno direito, há cerca de três anos deu-lhe para fazer asneira da grossa e remível com cadeia. Sem pretender desculpabilizá-lo, talvez fruto de más companhias e de uma existência de prodigalidade com gastos maiores que os seus rendimentos, acabou a ser julgado no Tribunal de Coimbra há cerca de um ano. Certamente por não ter antecedentes, creio, apanhou pena suspensa. A consequência maior foi ter sido irradiado da função pública.
Hoje, de roupas sujas e sapatos gastos pelo tempo, passa as noites onde calha. Às vezes embriagado, é normal encontrá-lo a dormir durante o dia num banco junto à Loja do Cidadão ou na Praça do Comércio. O seu rosto, coberto de barba hirsuta, envelhecido e avermelhado, mostra que o álcool, como veneno ingerido diariamente, está a fazer a sua parte.
Encontrei-o ontem e, como de costume, interroguei como ia a sua vida. “Mal, muito mal! Durmo em entradas de prédios -esta noite dormi na Avenida Sá da Bandeira. O problema maior é a fome...”, respondeu-me. Perguntei: então não vais comer à Cozinha Económica? “Não, não vou! Como posso ir se tenho de desembolsar 1,70 € e nem um cêntimo tenho no bolso?”, enfatizou.
Depois de lhe pedir autorização para escrever sobre a sua história, fiquei a pensar que a sua narrativa pode estar mal contada, isto é, já estar sinalizado por uma assistente social e não ser bem assim. Mas e se for mesmo assim como ele conta?

UMA RESSALVA

Gostaria que este texto não fosse levado para a caridadezinha. O que pretendo dar eco é que um homem de 52 anos apenas, abandonado, sem eira nem beira, percorre estas pedras milenares da Baixa de Coimbra. E uma das várias instituições de apoio social que por aqui desenvolvem o seu trabalho devem sinalizá-lo e, primeiro, ver se de facto está a passar fome e, depois, tentar a sua ressocialização.
Provavelmente os mais duros de coração vão achar esta crónica comezinha e cheia de lamechice e dizer que ele está a apanhar os frutos que semeou. É verdade! Mas não foi julgado? E não está já a sofrer em dobrado o seu descaminho? Mais, sendo ele um desenraizado, um homem sem ânimo e incapaz de levantar um braço para pedir auxílio, uma alma perdida nos labirintos sociais, não teremos nós, eu, você e outros, obrigação de, no mínimo, pedir ajuda? O que vier a seguir, imagine-se que não quer mesmo ser ajudado, isso já nos transcende.
Este texto pretende apenas isso: uma mão estendida para ajudar o António Manuel Seabra.

(Texto enviado para a Divisão de Acção e Família, da Câmara Municipal de Coimbra)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

BAIXA: MEDIDAS DESPENALIZADORAS E A FAVOR DA REVITALIZAÇÃO (19







Tendo em conta a continuada situação de aproveitamento político, de empobrecimento e desalento que as actividades comerciais tradicionais da Baixa de Coimbra atravessam, diariamente e até às próximas eleições autárquicas de 01 de Outubro, vou sugerindo medidas que, se houvesse vontade política, poderiam servir para atenuar a queda e o encerramento de mais espaços mercantis.
Estou a escrever p'ro boneco? É o mais certo.


Repensar a actual recolha de lixo na cidade de modo a acabar com o abandono de detritos na via pública a qualquer hora do dia.


A meu ver, um dos maiores incumprimentos apontados por parte dos cidadãos a este actual executivo municipal será, porventura, a sujidade das ruas e recolha de resíduos urbanos -e de tal modo é assim que na última terça-feira, no debate entre os concorrentes autárquicos no Teatro da Cerca de São Bernardo, uma senhora do público questionou directamente Manuel Machado, actual presidente em exercício e recandidato, sobre a incipiente apanha de lixo na cidade. Ora, estranhamente para mim, o que respondeu Machado à senhora assistente? Simplesmente isto: “é verdade!”. Ou seja, quando todos esperavam que o candidato a repetente negasse o facto e defendesse o vereador do pelouro Carlos Cidade, Machado confirmou de forma linear, sem apelo e com agravo para o seu colega do executivo, a argumentação.
Por silogismo, se sem pestanejar confirmou e disse que é verdade, é porque é mesmo uma veracidade dobrada, um axioma, uma verdade sem contestação. Mas, passando por cima da palavra honrada e da certeza absoluta do presidente da Câmara Municipal, será mesmo assim? Não, não é de todo. O que Machado fez naquele auditório foi proferir uma mentira condescendente. Ou porque não estava inspirado para procurar argumentos, ou, querendo dar uma ideia de humildade ao público presente, enveredou no facilitismo de confirmar uma falsa verdade.
Antes de continuar, relembro que sobre esta mesma questão um dos candidatos afirmou que onde houvesse lixo deveria haver um funcionário para limpar. Não é preciso ser economista -basta ser trolha- para reconhecer que, em face deste absurdo, estamos perante um disparate do tamanho de um comboio.
E agora directamente para a questão da sujidade na cidade. Começo por escrever que até há cerca de quatro anos a limpeza, leve e pesada, estava consignada à ERSUC, Resíduos Sólidos do Centro, S.A. -sistema multimunicipal de tratamento e valorização de resíduos sólidos urbanos do litoral. As queixas sobre a imundície nas ruas eram mais que muitas. 
Com o argumento de que a quase centena de trabalhadores da Divisão do Ambiente era insuficiente e por impossibilidade legal de poder contratar mais trabalhadores, em 2014, por ajuste directo, foi contratada a empresa Recolte, de Lisboa, para a limpeza das ruas. Entrou esta firma mas, apesar da aplicação dos seus funcionários, os queixumes por parte dos munícipes continuaram a aumentar.
Em Agosto de 2015, Com o vereador Carlos Cidade a admitir na reunião do executivo que “duvido que se vá melhorar o serviço”, apeando a Recolte, o trabalho foi adjudicado à SUMA, S.A., empresa ligada à Mota-Engil. Como se Cidade fosse adivinho, as reclamações subiram de tom e chegaram ao zurzido de todos a apontarem a limpeza como o calcanhar de Aquiles do regime machadista.
Já se vê que o problema do lixo está a montante, na distribuição descuidada, anárquica, por parte dos munícipes e não a jusante, na recolha por parte das empresas encarregues de varrer. Sejam lá quais forem os números de funcionários ou de empresas a operarem em Coimbra, com alguns, muitos, demasiados, dos citadinos a comportarem-se piores que porcos num pátio, jamais se conseguirá manter a cidade limpa. A distribuição de lixo fora de horas convencionadas na via pública deve ser equiparada a vandalismo. E sem esquecer o cocó de cão. É certo que quem vem de novo morar numa zona habitacional não sabe os horários porque não há preocupação de os avisar. E como? Por exemplo, sempre que se faça um novo contrato nas Águas de Coimbra deveria ser entregue um folheto com direitos e obrigações a que o proponente esteja adstrito na sua zona de influência.
E o executivo anterior, que esteve na autarquia desde 2001 a 2013, não sabia do diagnóstico e do tratamento? Claro que sabia, mas, para não se chatear, nunca fez aposta na formação cidadã. Coimbra já era uma urbe conspurcada. Nessa altura, a multa para um infractor apanhado a colocar lixo na via pública fora do horário regulamentado era de 30 euros. Tanto quanto julgo saber, poucas teriam sido aplicadas ao longo de mais de uma década. Nunca se deu importância a esta sociedade do entulho. Ou comunidade do desperdício onde a fartura impera e não se dá valor às coisas.
Em 2013 entrou este executivo PS. Tal como o anterior, continuou frouxo e pusilânime a agir contra os prevaricadores. Mas no faz-de conta consegue ser pior. Repare-se neste exemplo: em 25 de Novembro foi publicado no Diário da República o novo Regulamento de Recolha e Transporte de Resíduos Urbanos e de Limpeza e Higiene Públicas do Município de Coimbra. No seu artigo 59.º, pasme-se, as contraordenações passaram a ser de 250 euros para singulares e 1250 euros para pessoas colectivas (empresas).
Mais, de Janeiro a Março andou um funcionário da Divisão do Ambiente a correr todos os espaços habitados e lojas comerciais a sensibilizar para o cumprimento do horário da deposição dos excedentes na via pública. Resultado desta correria? Zero. Sem tolerância zero, os detritos continuam a ser depositados na rua a qualquer hora do dia. Quantas coimas foram aplicadas? Tanto quanto julgo saber, zero! Estamos em tempo de eleições e o problema do lixo pode esperar.
Vale a pena pensar nisto?


TEXTOS RELACCIONADOS

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A HIPOCRISIA DO COSTUME. A CONCESSÃO...





Desde o século XVI que os governos, quando lhes convém, reprimem a produção interna mas, ao mesmo tempo, estabelecem concessões de produção no país em regime de monopólio estrangeiro. A História de Portugal está prenhe destes episódios, sobretudo para os ingleses.
Nos nossos dias, por dá cá aquela palha, como quem diz, por dá cá duas ou três plantas de canábis de produção caseira prendem-se e levam-se a julgamento cidadãos. Ou, no oposto, varrem-se os toxicodependentes para debaixo do tapete. Agora, ficamos a saber que uma empresa canadiana estima investir em Portugal cerca de vinte milhões de euros na produção de canábis para fins medicinais.
Mas não é a primeira vez que isto acontece. Em 2014 foi autorizada uma empresa inglesa a, nos mesmos termos, a operar em Portugal.
A perguntas que ficam no ar são: se fosse uma empresa portuguesa seria autorizada?
Como é que se entende que, cá dentro, se prendam pessoas por uma hipocrisia considerada indignidade social?