sábado, 24 de junho de 2017

EDITORIAL: SERÁ COIMBRA RASTEIRA E MANEIRINHA? É OU NÃO?





Na última quarta-feira, com organização do  Lions Clube de Coimbra e com a colaboração dos Rotários de Coimbra, por volta das 18h00, realizou-se uma tertúlia  no Café Santa Cruz para, em balanço, debater os quatro anos da declaração de Património Mundial da Alta/Sofia.
Na mesa de painel esteve Celeste Amaro, a representar a Direcção Geral da Cultura, Clara Almeida Santos, pela Universidade de Coimbra, Carina Alves, vereadora da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) com o pelouro da cultura, e Pedro Machado, presidente do Turismo Centro de Portugal. Todos doutores, obviamente e como manda a cartilha.
Com a sala do vetusto café repleta por interessados cuja maioria era constituída por membros do Lions e dos Rotários, o moderador, Hélder Rodrigues, com um elogio aos oradores, convidados especiais e à Universidade de Coimbra, dizendo que a palavra seria dada primeiramente à mesa, aos convidados especiais e depois à assistência, a quem quisesse falar, entre sorrisos de pivot que tentava concentrar toda a atenção, deu início à cerimónia.
Como é normal em eventos sérios deste género de debate, a primeira hora é dedicada ao painel, em que cada um, depois de interpelado por um moderador, vai discursando em defesa do lugar que ocupa e das medidas que tomou, e a segunda hora é para o público assistente que, inscrevendo-se por ordem, através de braço no ar, vai colocando as suas questões a cada um dos representados ou a todos em conjunto.
Esta primeira hora de explanação passou depressa com os ilustres mandatários a exporem e a justificarem o seu trabalho à frente das entidades a que eram adstritos e responsáveis máximos. Ainda que envoltos num manto de largo espectro de divindade, aparentemente, pela simplicidade como se apresentavam, o ambiente era leve como uma pluma e prometia uma troca de ideias em família sem grandes constrangimentos.
Veio a segunda hora. O público atento, minado pela ansiedade à espera de intervir, começou a agitar-se. Na sala começou a ver-se braços no ar erguidos ao Céu. Aparentemente sem notar o que se estava a passar, o moderador, como um jogador de futebol a driblar no meio-campo, manobrava e prendia a conversa entre os membros da painel. Vieram as 19h05 e, com um enaltecimento, o moderador entregou o microfone ao médico Fernando Regateiro, presidente do Centro Hospitalar de Coimbra, que se encontrava sentado na primeira fila da assistência e que fazia parte dos quatro “convidados especiais” a que aludira Hélder Rodrigues na apresentação inicial. Tudo indicava que, finalmente, a palavra iria passar para quem assistia. Regateiro, professor universitário mas que conhece bem os problemas da cidade, fez uma boa intervenção, curta e concisa: “será que Coimbra está a capitalizar a classificação com que foi contemplada?”, interrogou. As pessoas que queriam intervir suspiraram e mais uma vez ergueram o braço. “Será que é desta que vamos tomar a palavra?”, pareciam perguntar em silêncio. Como se o moderador tivesse percebido e estivesse ali para contrariar, mais uma vez com teatralização e a demorar demasiado tempo na explanação das perguntas, elencando os problemas de Coimbra, passou a palavra a José Manuel Silva, ex-bastonário da Ordem dos Médicos e candidato às eleições para a CMC em Outubro. Silva, que não deixa créditos por mãos alheias, durante cerca de quinze minutos, como se estivesse em campanha, espalhando ali a sua carta de princípios, foi dizendo que há duas Coimbras com algum conflito entre si, sendo uma cidade de tricas e que nem sempre conviveu bem, e que faz com que, numa psicose maníaco-depressiva ainda não aprendeu a conviver pacificamente. Ao meu lado, uma velhinha comentou em surdina: “porque está cá este candidato e não os outros?”.
Com o relógio a marcar 19h35, já desesperadas e com pouca fé de tomarem a palavra, uma ou outra pessoa, sem reclamar porque, valha-nos Deus, parecia mal, lá levantava o braço para passados minutos, cansada, o baixar. Comigo acontecia o mesmo: ora o levantava, ora o baixava. Eu fora ali com o intuito de, olhos-nos-olhos, interpelar o painel e sobretudo Pedro Machado, o dirigente do Turismo do Centro de Portugal. Começou a germinar em mim uma enorme revolta contra a o que estava a acontecer ali. Prometi a mim mesmo erguer o braço e não mais o baixar até que me fosse dada a palavra. Alheio ao meu teimoso gesto, mais uma vez com um “muito obrigado senhor doutor”, agradecendo a José Manuel Silva, pegando novamente no micro o moderador passou para Fernanda Cravidão, professora universitária. Durante cerca de um quarto-de-hora esta doutora, docente de letras, fez uma viagem pelos efeitos que o turismo estava a causar na cidade. Disse, nomeadamente, que com a distinção da UNESCO é preciso pensar a cidade. Que as viagens organizadas começam na rua larga, vão à Universidade e duas horas depois vão embora. Terminou com a frase: o turista é da cidade mas a cidade também é do turista”.
Faltava intervir a estrela polar da cidade: Miguel Júdice, advogado e dono da Quinta das Lágrimas. Hélder Rodrigues, o moderador, estendendo-lhe a passadeira vermelha de louvação, cheio de sorrisos rasgados perante o causídico que, disse, é um cidadão do mundo, que veio de Lisboa de propósito para estar ali. E entregou o micro a Júdice. Contrariando o moderador, Júdice afirmou que não era um cidadão do mundo mas sim um emigrante. E todos os emigrantes gostam da sua pátria e o que é que fazem? Todo o dinheirinho que ganham investem-no na terra onde nasceram. E que gostava mais da crítica frontal do que do elogio. Enquanto micro-pequeno empresário teve sempre uma excelente colaboração com as quatro entidades ali representadas, Podia garantir que há muitos anos que isso acontecia, disse. Este “convidado especial”, falou de Coimbra, falou, falou e voltou a falar. E sem que o gestor dos tempos de antena tivesse um gesto para lhe fazer encurtar o discurso. Disse ainda Miguel que não sabia o que era o Centro. “O Centro? Que é isso de Centro?” E terminou com a frase: “Desculpem eu ser desmancha-prazeres: eu acho que se está a trabalhar bem. Desculpem lá! É a minha forma provocatória de ver as coisas”. E o povo presente bateu muitas palmas, tantas que até ali ao lado, na igreja, Dom Afonso Henriques estremeceu com tanta lamechice. Apesar do tempo escassear, ainda houve tempo para o moderador lhe atirar que andaram os dois na mesma escola. E o dono da quinta das Lágrimas a dizer que era mais velho do que Hélder.
E eram praticamente 20h00, e sem que alguém da assistência desse uma palavra. Indiferente ao meu braço no ar e ao desejo de outros se exprimirem, o moderador, em acto de contrição, tentando mostrar a sua mais humilde mea-culpa, atirou: “bem, meus amigos, isto está a acabar! Eu tenho imensa pena!...
Foi então que me insurgi com que estava a acontecer ali. Seguindo o meu exemplo mais duas pessoas pediram a palavra.

É PRECISO DIZER: BASTA!

O que se passou no Café Santa Cruz, no fundo, no fundo, para mim não foi uma completa surpresa. Estes eventos começaram em Maio de 2012, no restaurante “Be Fado”. A seguir no Café Santa Cruz. E repetiu. Depois no restauranteA Brasileira”. Foi uma vaga de tertúlias patrocinadas pelo Lions Clube de Coimbra e com Hélder Rodrigues como moderador. Surgiram como cogumelos em terra fértil. Foram sempre em circuito fechado. Eram as tertúlias de Coimbra. Deu para ficar (en)tertulia(do). Talvez porque foram sempre encontros dirigidos a uma elite, a sociedade civil nunca aderiu as estas iniciativas Nessa altura, em 2012, escrevi assim: “a pretensa “tertúlia” de ontem, sem pretender ofender alguém, foi algo de timorato. Foi uma feira de vaidades já recorrente nestes encontros do Lions Clube de Coimbra, onde a bajulice pindérica impera. De tertúlia teve pouco e muito menos debate com o público assistente. Curioso verificar que se esteve presente em face de um paradigma de uma “certa outra cidade elitista” e separada dos “futricas”.
Chegou a recomeçar a iniciativa em 2013 mas foi sol de pouca dura.
Em 9 de Abril do ano passado gerou-se nova partida, mas ficou-se apenas por dois ensaios.
Em todos estes encontros a que assisti, foi um esparramar de melaço onde o elogio fácil e barato aos “doutores” foi uma constante. Era como se estas tertúlias fossem um modelo de serventualismo do regime, uma bajulação de egos, um certo espírito coimbrinha que tanto se fala em exorcizar, mas que ali, num renascimento incomodativo de lesa-cidadania, teimava em vir ao de cimo.
Tal como aconteceu nesta tertúlia do Café Santa Cruz, em todos estes eventos o moderador Hélder Rodrigues funcionou sempre ao sabor da maré. Isto é, sem organização, sem gestão de uma parcela de tempo destinada aos oradores e outra ao público presente. Houve sempre complacência para o senhor doutor e muita exigência para o futrica.
(Graças ao serviço público prestado por Fernando Moura, no site Notícias de Coimbra, pode visionar aqui tudo o que se passou no Café Santa Cruz. Clique aqui em cima)

E A UNIVERSIDADE PATROCINA ISTO?

O que se lamenta é que a Universidade de Coimbra, num amadorismo que não se entende, dê cobertura a um evento que deveria ser bem organizado e decorrer, por exemplo, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra. O que assisti foi a uma coisa desqualificada, sem jeito, comezinha.
Quem mais saem prejudicadas são as entidades ali representadas. Não se pense que o munícipe se importa com alguma coisa. Há muito tempo que o cidadão foge destas palhaçadas como o diabo da cruz. Não participa porque, por um lado, não percebe o que ali se diz e, por outro, não quer ser humilhado.
Para quem esteve no Café Santa Cruz, deu impressão que havia ali um acordo tácito entre o painel e o moderador para que não houvesse interpelação por parte da assistência -confesso que, no imediato, foi esta a minha interpretação. Pensei que aqueles representantes estavam ali para debitar opiniões sem quererem ser questionados e contestados pelo cidadão-comum. Depois, tendo em conta o antecedente, cheguei à conclusão de que a pretensa construção da barreira invisível de protecção foi somente o resultado de um evento medíocre e sem ordem organizativa. Mas, mesmo assim aos meus olhos, não deixou de representar uma vergonha. A Universidade de Coimbra, mesmo por omissão, enquanto centro de universalidade, não pode contribuir ainda mais para o aumento de um divórcio litigioso entre a sociedade civil e as instituições.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

COIMBRA VÊ PASSAR OS COMBOIOS E CENTRALIZA TUDO NA UNIVERSIDADE...

(Foto do jornal Observador)



A Câmara Municipal do Porto já identificou as primeiras lojas históricas que passarão a estar protegidas no âmbito do programa “Porto de Tradição”. De uma lista inicial de mais de 80 espaços foram escolhidos 37, entre livrarias, cafés, mercearias, farmácias, restaurantes e ourivesarias.”


UMA ACTUALIDADE DESACTUALIZADA





A edição do Campeão das Províncias desta semana, na página 8 e com o título “ACTUALIDADE”, traz uma reportagem sobre “Rapariga viveu durante dois meses na praça do Comércio”.
Acontece que esta notícia tem pouco de actualidade. Já passaram três meses que aqui no blogue, com o título “o estranho caso da mulher acampada”, foram escritos vários textos descritivos e de apelo, incluindo jornais, televisões e até ao Presidente da República, para que esta situação fosse resolvida. E ouvimos o grito de revolta dos seus progenitores. Num estranho prolongamento, nem de um único órgão de comunicação social recebi qualquer nota. De Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente do Estado português, a mesma apatia. Fosse com a ajuda do nosso esforço e da Câmara Municipal de Coimbra, do pelouro da Acção Social e Família, ou não, a verdade é que a Sónia Monteiro foi internada e tanto quanto julgo saber pela sua mãe, Elza Monteiro, está a recuperar bem.
Alegando que tinha lido a notícia no blogue, há cerca de um mês e pouco fui contactado por Diana Batista, jornalista do Campeão das Províncias, a pedir-me os contactos dos progenitores. Naturalmente que ajudei em tudo o que pude.
É então que, hoje, passados três meses do acontecimento e cerca de trinta dias depois da nossa conversa, vejo a reportagem impressa no semanário. Não é completa surpresa verificar que nem uma referência é feita ao blogue. De certo modo já estou habituado à indiferença por parte da imprensa local -só o Diário as Beiras, algumas vezes, tem furado este silêncio opressivo de falta de camaradagem e dever deontológico de citar a fonte -salvo indicação desta em contrário.
Estou aborrecido com esta omissão? Ora, ora! O blogue Questões Nacionais, com mais de mil visitas diárias, é um sítio gratuito de liberdade de criação, expressão e divulgação. Não tem necessidade de publicidade, mas, como quem não sente não é filho de boa gente, fica o reparo.
E mais: é rara a semana que o Campeão, na rubrica Vinagretas, não mande alfinetadas contra a concorrência alegando a falta de referência a notícias dadas em primeira-mão neste semanário.
Bem prega Frei Tomás...

BAIXA: CLASSIFICAÇÃO UNIVERSAL EM BALANÇO DE QUATRO ANOS





Ontem, pelas 18h00, no Café Santa Cruz, estava anunciada uma tertúlia/debate para, em balanço, se analisar os efeitos para a Alta e Baixa da classificação de Património Mundial da Humanidade.
Inserida no programa “Sons da Cidade”, promovido pela Universidade de Coimbra e que está a decorrer entre 17 e 24 de Junho, foi uma organização do Lions Clube de Coimbra e com a colaboração dos Rotários de Coimbra. Em vez de um debate de ideias saiu uma conversa vazia em caixa fechada de auto-elogio. Um lamentável espectáculo anti-democrático patrocinado pela Universidade de Coimbra que, em modelo continuado que já vem de longe e que todos conhecemos bem, só pode redundar em divórcio entre as instituições e a sociedade civil. Foi um execrável exercício de cidadania. Uma vergonha, foi assim que escrevi a crónica sobre esta tertúlia falhada.
Sendo os operadores comerciais os mais beneficiados com esta distinção mundial, que ocorreu em Junho de 2013, fui para a rua ouvir o que significou para os seus negócios esta declaração pela UNESCO.
Foi boa? Foi assim assim? Foi má?
A todos, com quem falei, fiz as mesmas interrogações. Como é de calcular as respostas são variadas. As perguntas foram:

-O que significou para o seu negócio a declaração de Coimbra património Mundial da Humanidade?
-Foi melhor nos dois primeiros anos? Como foi no ano passado? E este ano?

Comecei no LARGO DA FREIRIA

Restaurante Padaria Popular. Falou o Sérgio Ferreira:

Para o meu negócio, e sobretudo para a hotelaria em geral, foi muito positivo. As vendas têm vindo a subir. Antigamente o movimento era entre Julho e Setembro. Agora, depois da classificação, começa na Páscoa. Logo a partir desta quadra nota-se muito turismo sénior. Para além disso, passou a ver-se por aqui muitos visitantes de leste.
Este ano, em jeito de balanço, está igual ao ano passado. Para mim, o Maio deste ano foi melhor, mas já o corrente Junho está a ser pior”.

RUA EDUARDO COELHO

Célia Neto, responsável pela sapataria “Hush Puppies” declarou o seguinte:

Certamente resultado da classificação, os dois primeiros anos foram muito bons. No ano passado já foi fraco. Este ano está a ser péssimo. Os turistas entram e vêem mas acham tudo caro. Este ano, desde Janeiro para cá, o negócio tem vindo sempre a cair”.

Modas Veiga. Falou Francisco Veiga:

Para o meu estabelecimento, a classificação não trouxe nada de acrescento em termos de vendas. Para a cidade, pelo grande aumento de visitantes, foi muito bom sobretudo para a hotelaria. Na minha loja, ou no meu ramo, não compram nada. Este ano o meu negócio está mais ou menos igual ao ano passado. Embora, como disse, é feito com portugueses”.

Casa das recordações. Elisabete Cravo disse o seguinte:

O turismo para a cidade, no geral, foi muito bom. Para o meu negócio foi bom nos dois primeiros anos. No ano passado já foi pior. Este ano está a ser fraquíssimo. Este ano está muito mau. Os turistas oferecem metade do valor pedido. Eles não têm dinheiro para gastar em recordações. Adquirem o mais barato possível”.

PRAÇA DO COMÉRCIO

Uma loja de artigos de “souvenir”. Pediu o anonimato:

A classificação de Património Mundial foi boa para a cidade. No geral, trouxe mais turismo. Os dois primeiros anos foram melhores. O negócio no ano passado foi relativo. Este ano há muito turismo mas gastam muito menos nesta zona da baixinha. Os guias turísticos não trazem os visitantes para aqui. O maior volume de transacções são feitas entre o Largo da Portagem, Arco de Almedina e Universidade. Sinto-me muito prejudicada. Já assisti várias vezes aos grupos quererem descer as Escadas de Santiago e a serem imediatamente desviados para o Largo da Portagem”.

Restaurante Praça Velha. Falou o Victor Silva:

A classificação foi boa para a cidade. Passámos a ter muito mais turismo na época baixa, que não havia. Este ano, em relação ao ano transacto, está mais fraco. As pessoas procuram o barato. E outras nem procuram. Se calhar nem comem. Este ano está pior, embora, saliento, ainda é cedo para fazer o balanço”.

LARGO DA PORTAGEM

Café Toledo. Manuel Marques contou assim:

A classificação para a cidade foi boa, mas relativamente. Quero dizer que o turismo que temos é muito pobre. É um turismo que gasta pouco. É um turismo arrebanhado (de pastores) com a bandeira ao alto, mas sempre a andar. Este ano está fraco. Mas já no ano passado foi igual. Temos um turismo de meio-dia. Param o autocarro junto ao Hotel Astória e desaparecem rumo à Universidade. Quase sem tempo, mal páram para beber um café. É muita parra e pouca uva. Há de facto muita gente mas não consomem nada ou pouca coisa. Não é um turismo que interesse muito à Baixa.

RUA FERREIRA BORGES

Casa Malabar. Fala Isabel Silva:

A declaração universal feita pela UNESCO, para o meu negócio, não significou nada. Há muita gente. É tudo com dinheiro contado. Gastam pouco. Em minha opinião, eles nem sabem que Coimbra foi classificada como património mundial. É um turismo fraco, e nem se esforçam para falar português. Nós temos de falar várias línguas, eles não.
Este ano o meu negócio está melhor do que no ano passado -também é certo que tenho mais uma loja. Já são oito. Quero dizer que, naturalmente, pelo maior número de estabelecimentos, tenho de vender mais. Digamos que subiu um bocadinho. Mas podia ser bem melhor se a Câmara Municipal não estivesse a fomentar o “saco azul”. Ou seja, ao patrocinar cada vez mais feiras sem que os vendedores paguem alguma coisa, está a prejudicar o meu negócio. Quer dizer, eu faço aqui uma qualquer venda tenho de dar um talão de caixa e quem vende na rua não dá uma prova de pagamento? Estará certo o que a autarquia está a fazer?

Ourivesaria Costa. Falou José da Costa.

Acho que esta declaração universal foi muito boa para a cidade. O turismo subiu brutalmente. Sinto nas ruas um estado de alegria constante. Vejo passar muita gente com sacos com o logótipo da Universidade. Pode nem haver muita diferença no meu negócio mas existe. Ao ver passar gente na rua, sinto-me outro. O turismo tem vindo a decrescer nas compras. Este ano sinto uma ligeira melhoria. Em relação ao ano passado, a diferença é pequena. Talvez seja mais uma questão psicológica, pela satisfação de estar aqui. Antes da classificação, eu tinha dias em que, pelo pouco movimento de pessoas, sentia muita tristeza. Agora sinto um certo estado de excitação pelo facto de estar aqui. Do alto dos meus 85 anos, estou muito satisfeito com esta distinção que a cidade recebeu. Há mais gente a passar na Baixa, embora, tenho de dizer, não seja muito expressivo nos números de caixa.”

Loja de recordações “Coimbra na bagagem”. Fala Tânia Pinto:

Para a cidade, no geral, foi muito boa esta distinção. Nos dois primeiros anos, após a classificação, não tivemos grande variação nas vendas. Este ano está igual ao ano passado. Na comparação com os dois primeiros achamos que temos vindo a melhorar.
A Universidade devia estar mais interligada connosco. Isto é, devia estar do lado de todos os operadores e não está. Parece que nos quer fazer concorrência.”

Papelaria Cristal. Fala José Reis:

O negócio na minha loja nos primeiros dois anos foram fracos. No ano passado foi assim assim. Este ano está melhor.”

RUA VISCONDE DA LUZ

Pronto-a-vestir Estrela Verde. Fala Américo Oliveira:

Este ano, noto que há muitos estrangeiros. Alguns compram, outros não. No que adquirem é essencialmente artigos em promoção. Este ano, comercialmente, é o pior. É para esquecer. No ano passado já foi fraco, mas este ano... é mesmo para esquecer!

PRAÇA 8 DE MAIO

Pronto-a-vestir Sansão. Fala Horácio Mendes:

No conjunto dos quatro anos, em termos de negócio, não foi bom. Há muitas queixas de quem nos visita a lamentar as obras em todos os sítios. E também que não há estacionamento gratuito.
Em termos de negócio, este ano está muito pior do que no ano passado. Em 47 anos de actividade comercial nunca vi uma coisa assim. E, parece-me, está para acentuar. Estou na Praça 8 de Maio há 65 anos. Tenho 80 anos. Tenho dois empregados que já estão reformados, mas continuo a a pagar a sua Segurança Social. Não consigo ter lucro. Não vale a pena continuar.

RUA DA SOFIA

Tabacaria Estrelinha da Sorte. Fala Luísa Beja:

Com a classificação não notámos nada nas vendas. Muito menos gente. Está cada vez a fazer-se pior negócio. Este ano, então, está muito fraco. Agora, há certas partes do dia sem gente. Nunca me aconteceu. Chego a estar duas horas sem ninguém. A Rua da Sofia, por ter sido classificada ainda veio prejudicar mais. As igrejas continuam fechadas. Sinto-me muito desanimada. Chego aqui às 06h00 e encerro às 20h00... Para quê?”

Café Sofia. Fala Aguinalda (Guida) Simões Amaro:

Em termos de negócio para a Rua da Sofia, esta classificação não trouxe nada. A Rua da Sofia continua vazia. Ao longo destes quatro anos vi passar três ou quatro grupos de turistas com guias, mas nunca páram.
Este ano o negócio está muito pior que no ano passado. Estou muito desanimada com tudo isto. Esta rua tem um potencial bruto e ninguém liga. Só tem uma igreja aberta. As políticas respeitantes ao turismo estão a prejudicar a Rua da Sofia.

Pronto-a-vestir Sofimoda. Fala Arménio Pratas:

No ano de 2013 (ano da classificação pela UNESCO) o negócio foi relativo. A partir daí foi sempre a cair. Este ano de 2017 é o pior de sempre. Estou a entrar numa curva que não sei onde vou bater. O turismo não chega à Rua da Sofia. Após quatro anos de classificação como Património Mundial da Humanidade os monumentos continuam fechados. Os turistas isolados -como está tudo encerrado- passam aqui como cão em vinha vindimada.


E encerra-se aqui este longo inquérito aos representantes de várias actividades cujo turismo é nuclear para a sua sobrevivência. As declarações, “ipsis verbis”, são as que foram proferidas e ficam para quem lhe entender dar tratamento adequado. A ideia foi, com estes depoimentos, poder contribuir de algum modo para a análise de quatro anos de classificação. Aos comerciantes e hoteleiros, que fizeram o favor de me aturar, o meu muito obrigado.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A INDECOROSA “TERTÚLIA” SOBRE OS QUATRO ANOS DE PATRIMÓNIO MUNDIAL




VERGONHA

Hoje, organizado pelo Lions Clube de Coimbra e com a colaboração dos Rotários de Coimbra, cerca das 18h00, iniciou-se no Café Santa Cruz uma anunciada Tertúlia para, em balanço, debater os quatro anos da declaração de Património Mundial da Alta/Sofia. Contando no painel com representantes da Direcção Geral da Cultura, Universidade de Coimbra, Câmara Municipal e Turismo Centro de Portugal.
Como se assistisse a uma partida de pingue-pongue, durante cerca de duas horas a conversa, entre lá e cá, girou entre doutores. Ou seja, entre a mesa e quatro digníssimos e ilustres personagens da urbe assistiu-se a um jogo de espelhos, a uma feira de vaidades, a um derramar de egos inflamados para cada um, na sua subjectividade, tentar justificar o que de melhor tem sido feito na cidade.
Na assistência, ansiosos por darem a sua opinião, os braços iam-se levantando e pelo cansaço baixando sem que o moderador manifestasse a mínima intenção de dar a palavra ao público.
Porque sou teimoso, talvez por ser rústico, talvez por não alinhar nesta vergonha, fui insubmisso e durante cerca de quarenta e cinco minutos mantive o braço no ar. Mesmo assim o moderador deu por encerrada a sessão. Azar seu. Invocando o direito à livre expressão, denunciei a mediocridade do que estava acontecer naquele nobre espaço. Foi então que me foi dada a palavra e, olhos-nos-olhos, disse a cada membro do painel o que tinha a dizer.
Foi a última vez que participo neste tabuleiro de mediocridade, neste lesa-expressão democrática, neste faz-de-conta que se vai discutir para só falarem os interessados. Como disse lá, este foi mesmo o paradigma da relação entre as entidades que ali representavam o Estado Português e o cidadão comum. Coimbra no seu pior. VERGONHA!

terça-feira, 20 de junho de 2017

UM COMENTÁRIO E UMA RESPOSTA DADA...

(Imagem da Web)




Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "CARTA ABERTA A PEDRO MACHADO, PRESIDENTE DO TCP":

Bem, eu já visitei outras cidades no estrangeiro e outros postos de turismo e juro que nunca vi nesses postos de turismo folhetos de anúncios de todas as casas comerciais, mesmo só as dos centros históricos. O que lá vi foram informações e folhetos daquilo que distingue a cidade. No caso de Coimbra, foi aquilo que levou à sua classificação como património mundial: o fado, os monumentos, museus, etc. Mas a sua ideia não deixa de ser muito original. Mas, já agora, para que servem as associações comerciais e industriais?
Em relação aos mapas, parece-me que tem razão.


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RESPOSTA DO EDITOR

Começo por lhe agradecer o ter comentado e ter respondido a estas questões, caro anónimo conhecido.
Vou então, ponto por ponto, responder:

Bem, eu já visitei outras cidades no estrangeiro e outros postos de turismo e juro que nunca vi nesses postos de turismo folhetos de anúncios de todas as casas comerciais, mesmo só as dos centros históricos.

RESPOSTA:

Lendo por inteiro e retirando as devidas ilacções ao que escreveu, quando afirma “juro que nunca vi nessses postos de turismo folhetos de anúncios de todas as casas comerciais...”, deve depreender-se que não viu de todas mas viu de algumas.
Meu caro senhor a ideia de que todos os operadores comerciais colocarão cartões no posto de Turismo é uma falácia. Aliás, este mesmo argumento foi-me ontem apresentado pela responsável. Embora a permissão deva ser aberta a todos quantos o requeiram, restaurantes, cafés e lojas comerciais, estou em crer que só alguns se vão dar a esse trabalho. Penso que só os mais interessados optarão por esta via, nomeadamente as galerias de arte da cidade (que se contam pelos dedos de uma mão) as casas de velharias e antiguidades da cidade (que se contam pelos dedos das duas mãos), as lojas de artesanato da cidade (que, contrariamente ao que se pensa, são pouco mais do que os dedos de duas mãos), os estabelecimentos antigos e de relevância municipal (que neste momento nem me lembro de nenhum, por já terem encerrado todos) e alguns cafés e restaurantes de renome.
Embora eu já o referisse na carta aberta, não deixa de ser interessante a obsessão pela neutralidade. Ou seja, há uma preocupação intensiva em não aconselhar alguém para não ser acusado de favorecimento, mas depois, no oposto, enveredando pela indiferença, desconhece-se completamente sobre o que faz parte do comércio, o que existe e o estado em que se encontra. Tem-se uma ideia algo baseada em dogmas e mitos. Assim numa espécie de balanço entre culpados e inocentes -que, aliás, segue o mesmo pensamento igual ao cidadão comum. Naturalmente que os inocentes são os monumentos, muitos deles encerrados, e o fado local que, pelos vistos, só agora se abriu ao mundo e merece respeito e consideração. Não entendem que perseguindo um escrupuloso dever de isenção, têm (deveriam ter) outro de maior amplitude: o cumprimento de um dever de lastro social. O facto de encerrarem casas históricas na Baixa de Coimbra isso não diz respeito ao Turismo de Portugal? O encerramento de um estabelecimento numa aldeia que servia de motor de revitalização ao lugar não diz nada ao Turismo de Portugal? No fundo e contrário ao que deveriam desenvolver no país, com este alheamento e, especulando, secreto prazer ante a desgraça alheia do desmoronamento comercial, procedem como as multidões humanas perante os espectáculos de miséria e tragédia: nada fazem para o evitar e quando acontecem, ou correm a doar um euro para uma conta especial de ajuda ou carpem lágrimas de crocodilo.
É lamentável que certas instituições, que são pagas para dinamizar, se tornem ortodoxas, fechadas hermeticamente na sua concha de impunidade, e não percebam que um lugar habitado está todo encadeado entre coisas e pessoas. Olhando o Céu e com a fé em Deus, fecham-se na sua capelinha e, dormindo descansados na paz dos anjos, seguem os mandamentos da sua cartilha doutrinal. Parafraseando Anatole France, para certas instituições “a justiça é a administração da força”, apenas isto e nada mais, e ponto final e parágrafo. Para além da lei escrita não há mais mundo. Não existe interpretação, reflexão, consoante as variáveis. Num novo positivismo jurídico, tudo é seguido com a mesma régua e esquadro, tomando tudo e todos por igual.

O que lá vi foram informações e folhetos daquilo que distingue a cidade.

Uma cidade, ou qualquer outro lugar habitado, do ponto de vista turístico, é (deve ser) apresentada (ou vendida) ao visitante sempre sobre duas premissas: história e cultura. História: mostrando o passado, através da sua universalidade de séculos, falando de todos quantos contribuíram para a sua construção e o seu enriquecimento, da monumentalidade, da arquitectura, das vias de comunicação (ruas, becos e ruelas), do paisagismo natural e construido. Cultura: mostrando os hábitos e costumes das gentes, a sua música autóctone, no caso fado e folclore, o seu comércio local, sem esquecer os estabelecimentos antigos, as profissões e artes desaparecidas, falando de uma outra cidade comercial que antecedeu a actual, pequenas indústrias de tradição, a agricultura, não esquecendo que o Mondego continua a ser um celeiro agriculturado.
De forma ligeira e sintética, meu caro, a cidade, enquanto pólo de pessoas a interagir, é muito mais do que defende. Ou por outra ainda, a urbe deve e pode ser muito mais do que se pensa através de ideias pré-concebidas e feitas. Se (todos) queremos salvar a Baixa socialmente, habitacional, comercial e industrial, temos todos de criar um contrato social com urgência, e, deixando cair as ideias sem contestação, experienciar novas valências, rumo a um ordenamento que urge fazer.

No caso de Coimbra, foi aquilo que levou à sua classificação como património mundial: o fado, os monumentos, museus, etc.

Sem ser especialista na matéria, permita-me discordar completamente. O que escreveu é um completo absurdo. Os critérios de classificação da UNESCO assentam sobre várias alçadas, sobretudo o factor humano, na sua heterogeneidade, que envolve os edifícios distinguidos. O que está por detrás desta escolha é a preocupação em preservar para o futuro, mas sem perder de vista a humanidade.
Os museus não precisam de ser classificados porque contêm já uma mística, uma apologia de conservação a servir de ponte entre o passado e o presente e a projecção no futuro. Embora, em Coimbra, os museus também se abatem.
O fado, a canção de Coimbra, enquanto espécime regional e local, não foi personalizado como Património Imaterial da Humanidade. O que foi classificado foi o Fado Nacional. Isto é, creio, considerou-se que o fado de Lisboa é, em amostragem, representativo de Portugal. Embora diferente, esta diferença não chega para o singularizar. É muito parecido com o de Coimbra e Porto.
Não posso deixar de dizer que essa sua forma maniqueísta de ver não é exclusivo da sua pessoa. Há cerca de dois meses, em Abril, o Diário de Notícias, na rubrica “país positivo”, acerca da efeméride de 727 anos de existência da nossa universidade, como uma das mais antigas do mundo, entrevistou Luís Menezes, vice-reitor para o turismo da Universidade de Coimbra. Foram duas páginas de reportagem sobre os últimos quatro anos de turismo em Coimbra. Adivinhe quantas vezes este vice-reitor referiu a cidade na entrevista? Quantas é que disse? Engano seu: zero. Este senhor, num descarado umbiguismo e auto-elogiamento apenas falou na Universidade de Coimbra, no aumento de visitantes, e todos os seus monumentos. A transversalidade da riqueza turística para a cidade, no seu todo, não interessa nada. Aliás, já o tinha feito num debate sobre turismo em Coimbra e em que estive presente.

Mas, já agora, para que servem as associações comerciais e industriais?

Meu caro arguente, vejo que desconhece completamente o que se passa na cidade. Mas, como não é único, perdoo-lhe. Com passado na defesa das suas aspirações, os comerciantes não têm nenhuma associação representativa de defesa dos seus interesses. A única que existiu na cidade foi a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, que, a simbolizar o respeito pela nossa história, com cerca de 170 anos, entrou em insolvência e desapareceu.
Embora, refira-se, nos últimos anos surgiu o NERC, Associação Empresarial da Região de Coimbra, com Horácio Pina Prata, ex-presidente da ACIC, como líder. Que representatividade terá entre o universo de comerciantes? Isso não sei. Porque não consegue entrar no ramo? Estou em querer que haverá várias razões, entre elas a crise financeira que os operadores comerciais atravessam.

Em relação aos mapas, parece-me que tem razão.

Como raramente tenho razão, já me dou por satisfeito estar apenas certo aqui, na questão identificativa dos mapas. Se está mal, quanto antes, a bem da Baixa, a bem da cidade, altere-se!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CARTA ABERTA A PEDRO MACHADO, PRESIDENTE DO TCP

(Imagem da Web)




Meu caro Pedro Machado, presidente do Turismo Centro de Portugal, começo por me apresentar: Luís Fernandes, um pequeníssimo comerciante da Baixa de Coimbra a tempo inteiro e nas horas vagas um modesto escriba que plasma no blogue Questões Nacionais as suas aflições e a de outros colegas. Neste caso, ampliando os seus queixumes, concedendo-lhes um atendimento personalizado e um melhor entendimento público, e, como mensageiro, levando os seus anseios a quem de direito, como quem diz, a quem detém capacidade decisória para, se for o caso, poder alterar as injustiças latentes.
Não é a primeira vez que me dirijo aos serviços que V. Ex.ª superintende para lhe falar de turismo. Oficialmente nunca recebi uma resposta, mas não é por isso que desisti de conversar consigo. Talvez na esperança que lesse o que pensa quem vem de fora e aporta à cidade.Tenho de confessar que o que me fez avançar hoje com esta esta carta foi ter tomado conhecimento da divulgação do evento “Sons da Cidade” e a tertúlia que vai ocorrer na próxima quarta-feira, 21 de Junho, pelas 18h00, no Café Santa Cruz, sob o mote “COIMBRA, PATRIMÓNIO DA UNESCO. QUATRO ANOS DEPOIS”.
Conforme o anunciado, em princípio, V. Ex.ª vai estar presente para dissertar e, digo eu, responder a questões relacionadas com o turismo na cidade de Coimbra e sua região em balanço de quatro anos.
A ser verdade, que vai estar pessoalmente neste reputado estabelecimento, embora pouco importante esta informação que toca a minha pessoa, gostaria de lhe revelar de que estarei lá também. Mas não é só: olhos-nos-olhos, vou questioná-lo acerca de pequenos detalhes que se verificam no posto de turismo do Largo da Portagem. Ora, pretendendo jogar limpo, para que o senhor não seja apanhado de surpresa, vou deixar-lhe aqui algumas questões que considero relevantes para a Baixa comercial da cidade. Sendo V. Ex.ª filho de comerciantes que passaram a sua vida activa a labutar na zona histórica, estou certo, vai entender melhor o que ambiciono com as minhas perguntas. Assim sendo, com a minha humildade possível, sugiro-lhe que tome informação sobre o que está acontecer e que, já consubstanciado, de aqui a dois dias me responda claro sobre as premissas que abaixo enumero:

1 – Sabia que em cima do balcão do Turismo do Largo da Portagem apenas são permitidos cartões publicitários a monumentos, a guias turísticos, a eventos municipais a realizar e a sessões de fado pagas?
Vou ajuda-lo a perceber melhor: se um qualquer gerente de estabelecimento comercial, de "interesse municipal" ou não, ali quiser depositar cartões para sugerir o seu espaço para turista pegar não pode. O argumento apresentado é que o posto de turismo tem de se manter independente em relação a todo o comércio existente na Baixa. Antes de avançar, adianto que até teria alguma lógica se esta prossecução da imparcialidade conduzisse a um processo que redundasse em algo de bom para todos. Acontece que, salvo melhor opinião, esta obsessão pela neutralidade remete para uma gritante indiferença perante um sector que agoniza todos os dias e, obrigatoriamente, deveria merecer mais consideração pela entidade Turismo do Centro -”um país dentro do País”, conforme reza a publicidade à sua instituição.

2 – Como entender que ali se aceite fazer publicidade a fado com sessões pagas em restaurante e a outros em que não se onera a entrada não seja possível?

3 – Sabia que a carta denominada de “Mapa da cidade de Coimbra”, em medidas de 45x33, distribuída aos visitantes que demandam o Turismo é incompleta e enviesada? Na página principal, com letra perceptível ao olhar comum, podem ler-se apenas os nomes de alguns largos e ruas principais como, por exemplo, a Rua Visconde da Luz, a Praça do Comércio, o Largo da Portagem, o Largo da Sé Velha, a Sé Nova e, naturalmente, a Universidade e o Jardim Botânico, estes em grande plano. As ruas estreitas, becos e ruelas da Baixa nem uma é identificada.
Mas ainda mais: no verso, num espaço de 15x16 centímetros, com uma letra miudinha e apenas legível com lupa de aumento, é mostrada a área da chamada baixinha. Sabia que neste pequeno quadro não constam algumas ruas e largos desta zona de protecção classificada como Património Mundial? Quer exemplos? Entre outros, a Rua da Fornalhinha e Largo da Freiria não constam.

4 – Terá V. Ex.ª noção de que com esta informação deficiente está a discriminar e a contribuir para o afundamento de uma importante parte comercial de Coimbra?
Ou, como me foi dito hoje no Turismo, para quem visita a cidade o importante não é o seu comércio mas antes os seus monumentos e o fado. Concorda? Se convictamente respeita esta tese maniqueísta, a preto e branco, se permite, faça um favor aos seus progenitores: não lhes diga nada.
Na próxima quarta-feira lá estamos no Café Santa Cruz. Espero que não falte!

A CIÊNCIA FAZ BEM À SAÚDE – APOIO NA VOTAÇÃO

Resultado de imagem para exploratório de coimbra





A deslocação a um hospital ou a outro serviço médico é, quase sempre uma situação de alguma ansiedade e stress, agravando-se fortemente se o paciente for uma criança ou jovem. O Exploratório Centro Ciência Viva de Coimbra, desde há cerca de 1 ano, tem vindo a colocar módulos que procuram criar situações de aprendizagem em que através de uma interação simples, se desencadeiam fenómenos e se colocam questões de natureza científica no Centro de Cirúrgico e no Hospital Pediátrico de Coimbra. Após um processo de avaliação, verifica-se que a sua presença contribuir fortemente para a diminuição dos níveis de stress dos mais jovens, contribuindo para melhorar substancialmente o bem estar pré consulta. A proposta consiste em aproveitar esta experiência e tentar divulga-la pelos Hospitais do país, iniciando este processo pelos com valências pediátricas. A estadia dos módulos nos hospitais deverá ser de 3 a 6 meses, tempo a partir do qual deverão rodar entre os hospitais abrangidos no projeto de forma a variar a oferta. orçamento 85800€ duração 18 meses.”

APOIO NA VOTAÇÃO


N
o Exploratório Centro Ciência Viva de Coimbra (ECCVC), junto à rotunda das Lajes, na margem esquerda da Lusa Atenas, temos um projeto nacional de divulgação em que se pretende levar módulos de ciência aos hospitais e, com este acto, se procura baixar níveis de ansiedade nos doentes mais jovens. Para a concretização da ideia a favor de uma melhor saúde através do conhecimento e do entretenimento, o ECCVC necessita do seu voto e se possível apoio na divulgação.
Se você afirma, tantas vezes, que gosta da cidade e está pronto a defender as suas instituições com amor e carinho e, porque não?, com saudável bairrismo,
acredito que vai votar neste projecto social destinado a todos quantos amam os seus filhos, netos, amigos, vizinhos e querem para eles o melhor. É muito simples: basta clicar em cima do link abaixo e escrever o número do seu Bilhete de Identidade ou Cartão de Cidadão.
Eu já votei.
Se o fizer, é possível passar de um simples pano para a concretização de um grande projecto comunitário.
Em nome de todos quantos precisam deste trabalho, muito obrigado!

sábado, 17 de junho de 2017

EDITORIAL: A CARA DE PAU DOS POLÍTICOS DA NOSSA TERRA






Ontem, sexta-feira, alegadamente, Manuel Machado, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, acompanhado com séquito, e naturalmente em pré-campanha eleitoral, andou a percorrer as ruas estreitas do Centro Histórico.
Um reconhecido comerciante destas ruas esquecidas da Baixa da cidade escreveu a seguinte mensagem no Facebook: “A ver se eu entendi:
As autárquicas são de 4 em 4 anos, não é? E serão este ano, certo?
O que se passa é que há 4 anos o nosso presidente da câmara e também da Associação Nacional de Municípios passava aqui na Baixa dia sim dia sim, sempre muito sorridente e cumprimentoso. Depois desapareceu e durante os últimos 4 anos não foi visto nestas paragens. De repente...
Milagre! Voltou hoje! Sorridente e cumprimentoso como convém.
Adivinhem porquê?...”
Concordo completamente com a mensagem do meu colega de ofício. Durante os últimos quatro anos contam-se pelos dedos das mãos as vezes que o actual ocupante da cadeira do poder da Praça 8 de Maio andou pelos becos e ruelas. Para quem não sabe, a Câmara Municipal de Coimbra está implantada no casco velho desta zona protegida e parte dela classificada como Património Mundial da Humanidade . O que, no mínimo, torna a situação caricata. Mas não se pense que a oposição é melhor. Nada disso, seguindo o exemplo do presidente do executivo, aqueles que deveriam primar pela diferença, pelo contacto de porta-a-porta com os eleitores, fizeram a mesma coisa. Raramente neste quadriénio alguém viu por aqui, apresentando-se como tal, os deputados da Assembleia Municipal de Coimbra. Já para não falar nos eleitos que agora compõem a União de Freguesias de Coimbra. Quem são eles? Aposto que poucos saberão. A política local está transformada numa sensaboria, numa coisa insípida, sem sabor, sem utilidade prática, pelo menos, visto sob o olhar da comunidade.
O resultado de tudo isto, sabe-se, é a cada vez maior abstenção e desligamento da colectividade em participar na vida pública. Eles, políticos, importam-se alguma coisa com este divórcio? Claro que não, digo eu, até agradecem. Se é certo que, por um lado, quantos menos cidadãos participarem no acto eleitoral o partido que representam receberá menos, mas, por outro, os cabeças-de-lista e mais dois ou três que lhe seguem serão sempre eleitos, e como prémio: a possibilidade acrescida de arranjarem empregos para familiares e amigos.
A política autárquica, pela irresponsabilidade em gerir a coisa pública, sobretudo fazendo investimentos sem retorno, nomeadamente esbanjando dinheiro a esmo em período eleitoral, está transformada numa actividade criminosa. A coberto da lei, feita à medida por um Parlamento tendencioso, ninguém põe cobro a este escândalo que tão de perto toca uma comunidade cheia de dificuldades. É uma vergonha para todos não haver um tribunal superior ou outra instituição de fiscalização capaz de colocar termo a esta bandalheira.
Em Coimbra, os exemplos estão aí à mão de semear: a mais que discutível construção de uma rotunda e repavimentação das zonas adjacentes que custarão mais de 600 mil euros. Para trazer Ney Matogrosso ao Convento de São Francisco a edilidade, alegadamente, pagou 52,890.00 €. Sabendo-se que, embora esgotado uma semana antes, deu enorme prejuízo aos cofres camarários. A ser discutido em reunião próxima do executivo várias decisões, na mesma linha perdulária vão ser tomadas: nomeadamente a oferta do relvado a três clubes de futebol da periferia que vai orçar em 554 mil euros e o financiamento de 70 mil euros a um festival elitista que só o nome dará aval e justificação. Pergunta-se: o que faz a oposição no executivo? Faz de moldura? Que falta de vergonha, meus senhores!
Sem pretender manipular seja quem for, cada um responde por si, confesso que, perante o situacionismo que fere, este actual executivo gastador jamais levará o meu voto. Mas digo mais: perante o quadro que se apresenta sinto-me completamente perdido. Não sei ainda em quem depositar a minha confiança política. Tenho para mim, que, chegados a 2017, sem tirar de uns para pôr noutros, os candidatos que em alternativa se apresentam ao sufrágio são do mais fraco que se viu até hoje.
O que me resta? Provavelmente, pela primeira vez na minha história de vida, é não ir votar.

A TERESINHA, QUE TODOS CONHECEMOS, MORREU






Durante cerca de vinte e cinco anos a sapataria Teresinha, dando luz, cor e agitação, fez parte activa da Rua Eduardo Coelho. Até há volta de cinco anos, três empregados mal chegavam para dar vazão à clientela. Depois de um deles atingir a idade da reforma, ficaram duas funcionárias. Paulatinamente o negócio em toda a Baixa da cidade, como a líbido de homem velho, foi caindo, caindo e, pelo que se via no movimento da loja, parecia que eram demais. Dizia-se que a sede da empresa, presumivelmente no Norte e que chegou a ter muitas dependências espalhadas no todo nacional, pela crise instalada no país, entrou também em dificuldades económicas e financeiras. Constava-se por aqui que, perante os funcionários, estava em incumprimento com os salários. Uma coisa é verdade, há cerca de um mês as duas funcionárias deixaram o estabelecimento com montras feitas e não voltaram a abrir. Junto das empregadas da sapataria Teresinha, ainda tentei obter a confirmação da falta de pagamento e que estaria na justificação do abandono do posto de trabalho, mas elas, alegando que era um assunto do seu foro privado, não me passaram confiança. O mensageiro é sempre mal-visto. Durante um mês, como corpo sem vida, a loja, com tudo no sítio, ali permaneceu alheia a todas as críticas que pudesse ocasionar. Provavelmente poucos deram por isso. Hoje a morte de um estabelecimento já não é assunto para ninguém. É simplesmente uma montra que se apaga na cidade. É a continuada Marcha fúnebre.
Nesta última quarta-feira, a mostrar que o insucesso não assenta bem a ninguém, quase furtivamente, uma carrinha carregou tudo e, comparando que a história das coisas não difere assim tanto do desaparecimento das pessoas, a montra, como fantasma a pairar na antiga rua dos sapateiros outrora cheia de vida e agora com 8 lojas encerradas, ali ficou abandonada e a desafiar a imaginação de um qualquer escritor.
Uma grande salva de palmas para este estabelecimento que nos deixou. Que descanse em paz.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

BAIXA: A PRAÇA 8 DE MAIO TREME...




Todos sabemos, no nosso bairro, na nossa rua, no nosso pátio, as cidades, as vilas, aldeias ou qualquer outro lugar habitado, na sua cultura, na sua forma de ser, como bandeira desfraldada ao vento, numa distinção baseada em escolha natural, consoante se tornem mais notados, serão pessoas mais individualizadas, todavia mais representativas dos que lá vivem. Nunca são notícia nos jornais, revistas ou televisão. A sua empresa resume-se a elas mesmas enquanto pessoas simples e encadeadas num tecido pouco observado à lupa. Não criam emprego, mas, pelo seu exemplo, dão força anímica e alimentam um exército. São heróis anónimos. Por isso mesmo, pelo seu redutivismo, não são homenageados com a Cruz de Santiago, pelo Presidente da República, ou com uma simples medalha da cidade onde labutam e projectam a sua luminosidade. Como embaixadores de boa vontade, ou o contrário, alguns habitantes mais peculiares, como se todos fossem iguais, acabam em representantes da colectividade. São o sustentáculo que, em amostra, identificam o meio. Sem darmos por isso, pela convivência diária, transformam-se em alicerces da nossa própria existência. São o oposto do cagão oportunista. Numa espécie de último reduto contra o individualismo feroz que conduz a humanidade desenvolvida à solidão, são estes pilares da comunidade que na massa heterogénea recebem quase em exclusivo os bons-dias, as boas-tardes e até, por vezes uma graçola de humor quando nos cruzamos com eles.
Enquanto elos de uma sociedade sempre dinâmica mas presa a princípios e valores, somos seres sociais e associais, tanto precisamos de estar sozinhos, por vezes, como acompanhados. Se quanto à primeira, estar só, não é problema, já no segundo, estar com alguém fisicamente, com quem falar e que nos ouça, é cada vez mais problemático. A justificação é sempre a falta de tempo. Acontece que o tempo é sempre igual, a sua gestão é que pode variar consoante as necessidades de cada um.
Esta semana a Praça 8 de Maio, na sua segurança psico-social, ficou mais afectada e vulnerável. Duas vigas de cerne, que nas últimas décadas, pela resistência ao atrito da vida, têm sido o apoio diário de todos nós, recolheram ao “estaleiro” para restauro e revitalização da estrutura óssea.
A primeira, a Lena, do Quiosque Espírito Santo, foi internada nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, onde se encontra em observação, por declarado excesso de trabalho que, segundo o marido Jorge, “se manifestava em tremores, tonturas e falta de alento para encarar o dia”.
A segunda, a Adelaide, a “última tremoceira” como a “baptizei”, de 93 anos de idade e que, até agora, se apresentou sempre, quer fizesse sol ou chuva, em frente ao Café Santa Cruz a vender pistáchios, amendoins e pinhoadas, fracturou o fémur em dois lados e também está internada nos HUC onde foi submetida a uma intervenção cirúrgica de urgência. Segundo o genro, Carlos Falcão, “na última terça-feira, por volta das 19h15, quando a minha sogra, apoiada nas duas bengalas, se dirigia a pé para casa, na Rua Corpo de Deus, quando passou junto de uns sacos de lixo depositados na via pública, talvez por areias ou viscosidade no chão, escorregou, desequilibrou-se e partiu a perna, junto à anca, em dois lados. Foi operada na quarta-feira e, felizmente, encontra-se bem em convalescença. Apesar deste percalço, continua com a força-toda. Ainda ontem me dizia para eu manter os produtos bem resguardados que, quando sair do hospital, quer voltar a vender.
A estas duas grandes lutadoras, exemplos de grande coragem na luta diária projectada num “serviço público” onde se pressente uma transcendência que foge à lógica comercial, em nome da Baixa se posso escrever assim, desejamos, todos, que recuperem rapidamente a saúde e voltem depressa por que, pelo lugar que ocupam na colectividade, fazem falta. Sem as suas presenças, a Praça 8 de Maio está mais sombria e silenciosa.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

FECHOU PORTAS A F(PH)ARMÁCIA NAZARETH


IMAGEM E EDIÇÃO DO VÍDEO: ALEX RAMOS
LOCUÇÃO E REALIZAÇÃO: LUÍS FERNANDES



Encerrou esta semana a Farmácia Nazareth, na Rua Ferreira Borges, o mais antigo estabelecimento da Lusa Atenas. Esta vetusta botica, que abriu portas em 1815, foi a primeira distribuidora para Portugal de artigos para revelação de fotografia e material radiológico. Estamos a falar dos primórdios do retrato, por volta de 1860, das placas de vidro de gelatino-brometo. Nos clientes célebres da farmácia de artigos radiológicos, entre muitos, contavam-se os falecidos médicos Moura Relvas e Adolfo Rocha, o escritor Miguel Torga. Embora o final já estivesse anunciado, pensa-se sempre que o destino, se houver vontade, pode ser alterado.
Sem prantos de lamúria melosa e esparramada pelo seu desaparecimento, sem que se conheçam esforços para manter em actividade este ícone da cidade, em especulação inventiva, só vai restar uma espécie de epitáfio silencioso na memória colectiva: “Durante mais de dois séculos, aqui existiu um boticário que atravessou a Monarquia e a República. Pelo desleixo e mal-agradecimento dos homens, que não preservam a história de Portugal, morreu abandonado em Junho de 2017. Paz à sua alma comercial.
Como curiosidade, salienta-se que este bicentenário estabelecimento, contrariando os habitantes da urbe, os guias turísticos da cidade e as autoridades municipais ligadas à cultura que nunca lhe deram os devidos valores utilitário e museológico e sempre passaram ao lado, é referido no Guia Michelin com uma menção honrosa, apontando o bom exemplo de conservação do património comercial, e a aconselhar a sua visita como de interesse municipal.
Hoje, nos vidros das montras pode ler-se: “Estamos nas novas instalações Farmácia Nazareth Avenida Afonso Henriques n.º 42 (ao lado do Café Avenida) OU AQUI AO LADO Farmácia Rodrigues da Silva (em frente ao Café Nicola).
O que quererá dizer este aviso? Será que o museu farmacológico, com todo o acervo, e tectos pintados sobre gesso, se transferiu para novas instalações? Nada disso. Pelas leis da física o imóvel não poderia ser trasladado para outro local. Quanto aos ancestrais móveis, que destino lhe será dado? Quanto ao uso futuro daquele magnifico espaço de recordação que tanto enriquecia a Baixa, o que vai acontecer? O que se sabe é que o alvará da Farmácia Nazareth foi adquirido pela gerência da congénere Rodrigues da Silva, que dista menos de uma centena de metros na mesma rua, e, na sua posse exclusiva de autorização legal, abriu hoje uma nova farmácia na Avenida Afonso Henriques. Como declaração de interesses, fica escrito que nada opomos contra esta transacção comercial legítima e de acordo com a lei.
Como já é hábito, numa pergunta incómoda, interrogo: a Câmara Municipal de Coimbra, pelo pelouro da cultura, fez alguma coisa? Isto é, através de magistratura de influência junto do proprietário do edifício, tentou pelo menos que aquelas instalações tenham um futuro digno ligado à farmacopeia nacional e mundial?


UMA RESSALVA E UMA DECLARAÇÃO DO “CORVO”

Como ressalva, tentando adiantar-me a certos comentários jocosos, declaro solenemente que, apesar de lidar bem com a morte, não tenho jeito para cangalheiro. Quero dizer que, embora faça de anjo da desgraça ao anunciar aqui os enterros de muitas superfícies comerciais tradicionais que nos deixam sem um “ai que já foste”, a intenção é, por um lado, para que a sua passagem entre nós não fique nas brumas do silêncio, por outro, em vão, para tentar alertar para a hecatombe, para o extermínio comercial que está acontecer na cidade. Consigo alguma coisa com isso? Obviamente que, para além da sensibilização de quem faz o favor de me ler, pouco ou nada.
Em palavra de honra, o que posso afirmar é que sobre o que plasmo é com total honestidade intelectual. Então sobre assuntos da cidade, que dizem respeito a todos os munícipes, não escrevo por encomenda, nem para agradar a esta agremiação política de esquerda ou aqueloutra de direita. O meu partido é a Baixa -enquanto cá trabalhar e habitar. Sobre assuntos de sociedade, já escrevo há mais de quatro décadas. Até há cerca de três anos, entre a “Página do Leitor” e colaborador semanal, escrevi para os jornais da cidade. Há dez anos que criei este blogue Questões Nacionais. Aqui, até hoje, já espreitaram 1.212.518 visitantes.
Se, como escrevi em cima poucos ligam aos meus desabafos, pode interrogar-se: porque persisto? Por factores vários, entre eles e principais, por um lado, por ser comerciante e estar imbricado na mesma massa da maioria, por outro, já que detenho esta facilidade em me exprimir, exteriorizo o que sinto e divulgo, ampliando e dando eco, às preocupações que apreendo em conversas cruzadas e que algumas vezes, pela lacuna de “editoriais” ou “reportagens” da comunicação social local, seria impossível analisar de fora através de uma crítica fundamentada. Por outro lado ainda, tendo noção que estou no mesmo paralelo de aflições dos meus colegas comerciantes, levo muito a sério a letra do poema de Bertold Brecht (1898-1956):

Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse"

Mas há mais: em jeito de expiação confesso que devo ser masoquista. Só pode! Se assim não fosse como entender que, levando pancada a montante e a jusante, continue a escrever?
A montante pelos políticos que ocupam a cadeira do poder da Praça 8 de Maio, que, se por um lado, num alheamento intencional acabam a respeitar o que faço pro bono, por outro, numa relação complicada, não conseguem disfarçar o ostracismo a que sempre me votaram -e isto já vem desde há décadas. A independência paga-se cara, digo eu.
A jusante vem a reacção negativa daqueles que mais teriam a ganhar pelo conhecimento de certas situações: os operadores comerciais. Muitos deles, num enterrar a cabeça na areia, ainda levam a mal ou manifestam-se em surdina venenosa que se escreva sobre o Apocalipse, em exposição e revelação, do que está acontecer às actividades comerciais na cidade.
Para os dois grupos vou deixar uma declaração: como comerciante com loja aberta, se as coisas me correrem bem, conto andar por cá pouco tempo. De modo que, pedindo mais alguma paciência, quando me for embora e deixar de escrever sobre a Baixa, acredito, todos ficarão melhor. Pelo menos faço votos para que assim seja.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

BAIXA: MAIS UM HISTÓRICO CASTELO QUE CAI







A histórica Casa do Castelo - Editora, na Rua da Sofia, mais que certo fechou hoje. Depois de ter encerrado a Livraria 115, na Praça 8 de Maio, em 2012, vai agora o que resta da sociedade: o armazém na Palheira e a loja na Rua da Moeda, esta dedicada a artigos mais virados para “o faça você mesmo”, em bricolage, tintas e pincéis para artes decorativas. Ou seja, dois estabelecimentos vão desaparecer na Baixa e outro armazém na periferia. Falei na sexta-feira com um responsável ligado a esta antiga livraria de Coimbra que me disse que encerrariam por estes dias. Hoje, segunda-feira, estava encerrada. Conclui que o processo já está em curso. Mas pode acontecer não ser assim e ainda abrir temporariamente durante mais alguns dias próximos. O que sei, pelo que me foi dito, é que o fecho deste popular estabelecimento é irreversível.
Diz quem sabe, que esta reconhecida empresa situada na Baixa da cidade chegou a ter 21 funcionários, e a facturar um milhão de euros por mês. O que aconteceu? Poderá ser uma das interrogativas? Uma vez que são vários os factores que contribuíram para o seu declínio, correndo o risco de estar a ser injusto, apontava apenas alguns: a queda do livro, enquanto instrumento de conhecimento através da leitura em papel; a selva em que se transformou este mercado, por um lado, com as grandes editoras a centralizarem a distribuição, por outro, com o livro a ser vendido em qualquer lugar; e por outro ainda, a desertificação do Centro Histórico, com uma procura muito residual, e as políticas de abandono que se verificam por parte da Câmara Municipal para com o comércio local, sobretudo a partir de 1995.

E A FEIRA CULTURAL É UM ESTRONDOSO ÊXITO...

Entretanto nos jornais locais e nacionais lemos que a edição deste ano da Feira Cultural de Coimbra, sucessora da Feira do Livro, que encerrou hoje depois de dez dias em actividade, foi um sucesso gigantesco. Citando o Diário de Notícias, “do programa do certame destaque também, designadamente, para o evento '24 horas culturais', em 09 e 10 de junho, evento que leva ao Parque Verde "manifestações culturais e recreativas ininterruptas", durante o qual terá lugar a iniciativa 'Acampar com histórias', organizada em colaboração com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). (…) "Projeto pluridisciplinar que a Câmara Municipal de Coimbra criou para todos, reflexo de uma política cultural integradora e diversificada, expressa no cruzamento de áreas que vão desde a literatura, ao artesanato, à gastronomia, à música, às artes plásticas, à cultura e criatividade e à animação", a Feira Cultural de Coimbra conta, este ano, com 196 representações, equivalentes a mais 19 instituições do que no ano passado e mais 38 do que em 2015, sublinha a autarquia.
(…) A área do livro foi uma das que mais cresceu" entre 2016 e este ano (aumentou de 51 para 57 representações), respondendo assim ao principal objetivo do evento que é "valorizar o livro e a leitura", sublinhou Manuel Machado,  referindo que a gastronomia e o artesanato também aumentam as suas representações. "Ainda há quem pense que Coimbra não é uma cidade cosmopolita", afirmou o presidente da Câmara, considerando que o modelo adotado pela autarquia, há três anos, e a resposta de operadores, de agentes culturais e da população em geral contraria aquela ideia, que é errada. (…) Para a edição deste ano, a Câmara de Coimbra investe cerca de 170 mil euros, mais perto de 40 mil euros que o ano passado.

MAS A FEIRA É MESMO UM SUCESSO? PARA QUEM?

O que os jornais não dizem é que esta alegoria, do ponto de vista económico, é um desastre e não traz nada de bom para Baixa. Pelo contrário ao apregoado aos sete ventos de andarilho, prejudica a maioria dos operadores que por cá, durante o ano inteiro, lutam para sobreviver. O que os meios de informação noticiosos não escrevem é que este certame é o paradigma do tiro-no-pé. Que à custa do erário público está-se a fazer a festa, a deitar os foguetes e a deixar a apanha das canas para os contribuintes. É pura gestão danosa -no sentido de que, uma vez que não há retorno no investimento, tendo por objecto o festivaleiro vazio, provoca dano nas públicas finanças locais. Ficou confuso? Vou explicar melhor:
Do total de 196 expositores, uns do concelho e outros de várias partes do país, nenhum deles pagou um cêntimo para vender os seus produtos em Coimbra. E mais: quem se deslocou a mais de 60 quilómetros da cidade para estar presente, alegadamente, pelos serviços camarários foi-lhe pago alojamento.
Já está aperceber melhor? Então vou continuar. Isto é, gastando 174 mil euros à custa do dinheiro que é de todos, a Câmara Municipal de Coimbra pagou a forasteiros para vir vender na nossa terra sem levar em conta que há muitos comerciantes dos ramos ali representados que se fossem convidados a preencher os lugares, mais que certo, estariam presentes. Acontece que, tanto quanto julgo saber, os convites aos locais foram poucos e direccionados apenas a alguns. Por conseguinte, com uma lógica completamente virada para encher o olho da populaça, sem olhar a custos, está-se a promover a concorrência desleal e selvagem a todos quantos, estabelecidos com lojas ou “vendedores ambulantes”, exercem a sua actividade comercial -e até industrial.

O QUE É DADO NÃO É AGRADECIDO

O que é mais estranho, ou nem tanto, é que, sendo tudo gratuito, quem esteve a vender deveria estar muito satisfeito. E ficaram? Claro que não, por que, diz o povo, o que é oferecido sem esforço de merecimento é sempre pouco e não é agradecido.
Quem leu o Diário de Coimbra (DC) de ontem e o Diário as Beiras (DB) de hoje recebe uma surpresa. No DC, referindo uma banca de Seia, que “vende sandes de presunto entre outras iguarias para confortar o estômago até ao almoço”, “foi um pouco mais caldo do que no ano passado (…) dando a entender uma menor afluência de visitantes à feira deste ano.
Prosseguindo com o DC em outras declarações de vendedores, “No que toca à organização, elogia a distribuição de espaços de restauração ao longo do parque e, numa próxima edição, sugere a criação de sombras para os stands que não beneficiam da natural sombra das árvores.
Outro expositor vindo de Castelo Branco desabafou o seguinte: “lamenta não ter conseguido montar a sua esplanada e teve o azar de ver a sua “barraquinha” escondida por outras. A fazer contas à vida, dificilmente regressará para o ano.
Passando para a página 7 do DB, encimada com a declaração “Mais uma vez uma edição de sucesso”, diz a vereadora”, entre vários, podemos ler um comentário de um alfarrabista de Braga: “Achei a feira fraquita e ficou aquém das expectativas. Muito público, mas poucas vendas. Isto promete, estava bem organizado, tirando o facto de a luz estar sempre a ir abaixo.
Outra crítica de um senhora vendedora de artesanato, vinda de Viana do Castelo, “Já venho desde a primeira edição da feira. Este ano, acho que está pior do que o ano passado. A feira foi um bocadinho adiantada no tempo, o que terá afastado algumas pessoas. Noto que há menor poder de compra, pelo menos entre os visitantes portugueses.“

TANTO, TANTO SUCESSO, DIZ VEREADORA

Continuando a citar o DB, “Para Carina Gomes, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, esta “é mais uma vez uma edição de sucesso. Estamos na 4.ª edição da Feira Cultural e creio que a satisfação de expositores e visitantes tem vindo a aumentar ao longo das edições”. A responsável lembra que esta “foi uma aposta que assumimos, de transformar a velha Feira do Livro, que entendemos estava a definhar e não tinha condições para continuar. Decidimos implementar este novo modelo, que é uma feira pluridisciplinar, com vários atractivos”. Estamos perfeitamente convictos que este é o modelo certo, que tem vindo a funcionar cada vez melhor em Coimbra”, acrescenta.

COIMBRA, A PRIMEIRA CAPITAL

Já escrevi muito sobre este assunto. Tenho para mim que há actividades fixas e ambulantes, sobretudo ramos e profissões em desaparecimento, que devem (com urgência) merecer uma atenção especial por parte do Governo. São ícones de uma cidade. No caso de lojas antigas, deveria levar-se à prática uma ideia do fim dos anos de 1980 que era a protecção do “estabelecimento de tradição”. No caso de vendedores de feiras, como é o caso de algum artesanato -não todo, não se pode generalizar-, a mesma coisa. Mas há um detalhe importante: esta classificação deve ser rigorosa e feita por uma independente entidade pública sediada em Lisboa. Isto para evitar o habitual olhar enviesado local. Às autarquias apenas deveria calhar o papel de parceiro interessado, mediador na ajuda, e proporem a classificação. Tomando a não discriminação, para os contemplados, como direito, haveria subsídio através do IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional, como obrigação, no caso dos criadores de artigos feitos à mão, deveriam estar obrigados a representar um determinado número de certames no país, no caso de estabelecimentos imóveis, para além de obrigatoriamente se manterem abertos, deveriam ter acoplado a prestação pública ao serviço da cidade, vila ou aldeia.

MAS A CÂMARA DE COIMBRA NÃO ESTÁ A ANTECIPAR-SE?

Já todos sabemos que, certamente pela vigília da Universidade, a Lusa Atenas anda sempre à frente. Porém, sempre mal. Num certo chico-espertismo, sem levar em conta que para beneficiar uma minoria prejudica a maioria. Por exemplo, no caso de “estabelecimento com tradição”, tanto quanto julgo saber, já há pelo menos um contemplado -sublinho que, pelo bom trabalho, merece a distinção. O mal até nem viria ao mundo se tudo fosse feito às claras. O problema é que não é. É tudo feito no segredo dos deuses e por simpatias políticas. E, é claro, para quem sabe de certas coisas e pensa, dá um certo enjoo, uma certa repulsa. É certo também que há outros que recebem às claras, mas destes, já que serão objecto de fiscalização pela oposição no executivo, pouco há a dizer ou a remediar. É o já que está (mesmo mal), e já que está, deixa estar!
Portanto, voltando à Feira Cultural de Coimbra, se for levado como certo o que escrevi, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), ao pagar alojamento a quem vem de longe, sobretudo no artesanato, e dar-lhe espaço para vender os produtos gratuitamente na cidade, no fundo, está antecipar-se ao Governo, isto é, aparentemente, está a fazer o que deveria ser política governamental. Certo? Não, errado. Uma edilidade é sempre de âmbito concelhio, local, e não nacional. Uma autarquia, através de políticas económicas ou sociais, não se pode nunca substituir ao Governo. Por que se o fizer, como é o caso em análise, corre facilmente o risco de discriminar negativamente os autóctones. Cada macaco em seu galho. Repare-se que se fizesse uma feira direccionada aos produtores e comerciantes do concelho ainda vá que não vá -embora, repito, um espaço público onde se faz negócio não deve ser nunca gratuito.
E de tal maneira é assim que, por exemplo, os “vendedores ambulantes” (fixos) estabelecidos na Praça do Comércio, com uma licença provisória, pagam cerca de 12 euros por mês para ali permanecerem a tentar vender alguma coisa -é também certo que, pelo abandono a que estiveram votados nos últimos 16 anos, aos poucos vão desaparecendo e, digo eu, muitos deles já nem pagarão. E a CMC, nas gentes que a comanda, que nem serão maus de todo completamente, e sabendo que dando a mão aos infelizes terão sempre um lugar no Céu, sabem e sentem que cobrar àquelas pessoas a laborar em condições miseráveis é uma tremenda injustiça, digo eu outra vez, vão fazendo de conta que tudo está bem.
E a corroborar o meu argumento de que na Baixa, para estabelecimentos fixos, se procede de modo diferenciado, no ano passado os hoteleiros com espaço público ocupado com esplanadas, até ali gratuito, sem aviso prévio, foram intimados a pagar balúrdios.
Já com os lojistas comerciais -por que, seguindo a doutrina marxista-leninista, representam o Grande Capital- o procedimento segue a mesma bitola da hotelaria. Estes, numa espécie de saco de boxe, sem levar em conta que a maioria está falida, têm de pagar tudo com língua de palmo -que é para poder distribuir pelos outros. Alguém tem de ser sacrificado neste mundo de loucos.

COIMBRA, CAPITAL DO EXTERMÍNIO DO COMÉRCIO LOCAL

Certamente que nenhum expositor que se queira instalar na Feira de Cantanhede estará à espera de ser à borla. Quem vende em feiras de velharias em todo o país, sabe muito bem que os espaços cedidos são pagos. E bem pagos, por exemplo em Aveiro os preços, consoante a área ocupada, podem ultrapassar os 200 euros.
Então, seguindo este raciocínio, por que raio é que em Coimbra, com três certames mensais, nada se paga?
Por que é que, mensalmente, se realiza uma Feira de Artesanato Urbano numa rua onde proliferam lojas deste ramo com rendas elevadíssimas e os que vendem na via pública ninguém paga um cêntimo? Porquê? A propósito, fez algum sentido ontem realizar esta feira com outra a decorrer  a escassa centena de metros, no parque da cidade? Claro que as respostas já as dei em cima: a edilidade está a espalhar o bem... olhando a quem. Ou seja, num egoísmo exacerbado, fazendo a festa aproveitando-se da fragilidade dos operadores e à custa de dinheiros públicos, procurando as palmas dos eleitores, sem pudor em humilhar os que cá trabalham, sem escrúpulos nem mágoa, vai destruindo o tecido económico da Baixa.
Escrevi tanto que até me esqueci: o que tem tudo isto a ver com o encerramento da Casa do Castelo - Editora?