As vinte e duas badaladas na torre da Igreja
de Santa Cruz imaginavam-se. Já há muito que o seu badalejar desapareceu da
rotina de uma cidade antiga que também vive dos ruídos e deixou de contribuir
para um acompanhamento sonoro de nostalgia.
A sala do velho café, que já foi muita coisa
desde armazém até capela, com o mesmo nome da igreja ao lado onde repousam os
primeiros Reis de Portugal, estava parcialmente cheia e o público presente,
constituído por turistas nacionais e estrangeiros, esperava para ver o que iria
acontecer. Ao fundo, onde há mais de um século teria sido a zona do altar, uma
mesa com microfones prontos e um projector espetava na parede a imagem de um
mosaico, onde estava escrito “50 cafés
históricos de España y Portugal”, respirava-se espectativa.
Vitor Marques, um dos jovens sócios do mítico
espaço de recordação e de encantamento da Baixa, abriu a cerimónia. “Estamos aqui para apresentar em Coimbra o
livro sobre os cinquenta cafés mais importantes de Portugal e Espanha. Foi uma
ideia engraçada. O livro foi apresentado em Santiago de Compostela, em
Dezembro. Estive lá no lançamento e convidei os nossos amigos espanhóis para
fazer o mesmo em Coimbra, já que o Café Santa Cruz faz parte deste roteiro de
cafés com memória. Estivemos hoje na Escola de Hotelaria onde foi realizado um
“workshop” sobre o café de saco e depois, durante a tarde, mostrei-lhes espaços
emblemáticos da cidade como, por exemplo, na Alta, o Museu Machado de Castro, a
Biblioteca Joanina e a Universidade. Na Baixa, visitámos também a Torre de
Almedina, a Rua da Sofia e outras desta zona. Tivemos o apoio da Câmara
Municipal de Coimbra, da Universidade de Coimbra, do Museu Machado de Castro e
Escola de Hotelaria. Estou muito agradecido a todas estas entidades pelo apoio
manifestado.
Ao lado do anfitrião e mandatário do vetusto
estabelecimento hoteleiro estava sentado o autor do livro, Fernando Franjo, que
tomou a palavra. Começou por referir o gosto que sentia por estar em Coimbra e,
sobretudo, na magnífica catedral de cafetaria e de uma riqueza patrimonial
incomensurável e a seguir tratou de mostrar como produzir um café de saco de
qualidade ímpar. “O café de saco é como a
máquina do tempo. Hoje, sem lhe tomar o gosto, vivemos tudo muito rápido na
vida e deixamos passar as coisas boas.
Os cafés históricos são marcas de um tempo de bonomia, de conversa e de acalmia
interior”, referiu. Depois das devidas explicações como fazer um bom café,
passo-a-passo, –a lembrar o tempo da nossa avó- foi dado a provar o Arábica
Robusta e sendo servido a todos os presentes.
Mais uma vez Vitor Marques tomou
a palavra e chamou à colação George Steiner –poeta e filósofo da cultura
ocidental. Citando o escritor europeu e lendo passagens da sua literatura a
defender que a “Europa é feita de
cafetaria, dos cafés” que marcaram gerações. É preciso preservar estes
lugares para o futuro, como o Café Santa Cruz, enquanto recintos de uma riqueza
patrimonial ímpar. “É um património que é
de todos, e todos devem participar”. Anunciou ainda Marques que tinha sido
apresentado um projecto à Fundação EDP e à Revista Visão sob o mote “Que ideias podemos ter para melhorar o
nosso Bairro?” e com a Rota dos Cafés
a ideia foi aprovada. Por isso mesmo, “consultem
comunidade.edp.pt e votem na nossa iniciativa”, apelou ao público presente.
O QUE TRATA O LIVRO?
Com excelentes fotografias em papel especial é
contada a história de cada um dos 50 cafés escolhidos pelo autor. De Espanha,
através de imagens, são mostrados 39 estabelecimentos e de Portugal 11. De
Lisboa são cinco, respectivamente, Café A Brasileira, Café Nicola, Café
Martinho da Arcada, Confeitaria A Nacional e Pastéis de Belém. Do Porto são
três os eleitos: Café Magestic, Café Guarany e Café Ancora d’Ouro. De Braga
mereceram fazer parte do livro dois: Café A Brasileira e Café Vianna. Coimbra
apenas tem um espaço representado: o Café Santa Cruz. Como apontamento de
somenos lamenta-se o facto de todo o livro, incluindo os referentes
portugueses, estar escrito na língua de Cervantes.
E DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA É IGUAL?
Na fase de perguntas à mesa por parte da assistência, alguém interrogou Fernando Franjo, espanhol e autor da brochura,
para saber se em Espanha, tal como em Portugal, os poderes públicos se
mantinham alheados desta enorme riqueza patrimonial e turística, mormente,
tendo um instrumento de preservação como a classificação de imóveis e bens de relevante Interesse
Municipal? Respondeu Franjo que lá, tal como cá, o poder local não tem
sensibilidade para a importância histórica destes espaços.
E ONDE ESTAVAM OS APOIANTES?
Quem faz o favor de me ler já deveria ter
visto que tento ser os olhos do leitor, uma espécie de consciência crítica. Sem
cair num negativismo endémico e viciado, com honestidade e na minha
subjectividade, tento exaltar o que entendo por bom para todos e criticar o que
entendo menos positivo para a colectividade. Apreendo que nesta cerimónia de
apresentação e declaração de um lugar que faz parte de nós e nos honra a sua
continuidade, pelo menos, deveria ter marcado presença um vereador da Câmara
Municipal de Coimbra. Pelo mais, cada um dos apoiantes do projecto, nomeadamente
da Universidade, da Escola de Hotelaria e do Museu Machado de Castro, poderia
muito bem ter mandado um representante para assistir ao lançamento. Ou não? Bom,
convenhamos, às tantas poderiam não terem sido convidados para o efeito. É
verdade mas, pelo conhecimento prévio e tendo em conta que se tratava de um
acto político, estas entidades, enquanto pólos dinamizadores da cidade, e do
seu turismo, deveriam aparecer para mostrar que estão atentas –e quiçá preocupadas-
e, no mínimo, para demonstrar aos munícipes e empresários que querem mais o cara-a-cara, na envolvência
directa, e menos o despachar de
secretaria.
Se calhar, com o veneno que, para alguns, me
caracteriza, não faz sentido esta minha reportação. Ou fará?
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