



Há várias formas de ver um problema. É
evidente que não vou esmiuçar todas, mas olhando para esta foto -do senhor
Adolfo Reis, que com todo o respeito a insiro aqui- haverá pelo menos estas que
enuncio:
-Se formos críticos do sistema –que é o mais
fácil e é onde milita a maioria-, diremos que isto não deveria acontecer: “este
homem deveria ser “varrido” daqui. Dá mau aspecto à cidade”;
-Se tivermos consciência, mas não queremos
entrar em grandes catarses de análises psico-antropológicas, diremos: “isto
não deveria acontecer. De certeza que este homem está a receber o RSI,
Rendimento Social de Inserção. Logo, não pode ser permitido estar aqui. É uma
ofensa à moral pública. É por esta e por outras…”;
-Se formos devotos de Nossa senhora das
Doroteias, diremos: “ai coitadinho do senhor. Esta sociedade é profundamente assimétrica,
gera estas injustiças sociais" –e abre a carteira, se for senhora,
revolve tudo de trás para a frente, pega nos papéis todos, no pó-de-arroz, no
batom, no telemóvel –“onde raio pus as moedas? Ainda
agora fiz um pagamento”-, até que finalmente lá encontra um euro e
deposita-o com muita solenidade na mão do indigente. Fugazmente olha para ó
céu, como se dissesse: “estás a ver, não estás? Eu até sou
boazinha… não te esqueças…”
-Se formos Comunistas (do PCP, que somos o
leste do paraíso democrático, falhado pragmaticamente, mas filosoficamente
sempre actual), diremos: “este capitalismo selvagem tem rebentado com
a sociedade. Está aqui a prova. Estes governos de bloco central, de índole
fascista, só geram pobres…”
-Se formos Socialistas (do PS, que é a face
reversa do PSD –uma espécie de irmão bastardo, filho da mesma mãe, mas de pais
diferentes), diremos: “o senhor vota? Não se esqueça de votar em
nós, no próximo dia 27 de Setembro. O senhor recebe RCI não recebe? Sabe quem
foi o grande mentor desta grande obra social, sabe? Ai não sabe?... Oh… oh… então
não foi o camarada Guterres? ...Não se esqueça de votar em nós no dia 27…”
-Se formos Sociais-democratas (do PSD, que é a
face reversa do PS –uma espécie de irmão bastardo, de cor diferente), diremos:
“o
senhor quer trabalhar? Mas quer mesmo? O que sabe fazer? Que pena não o poder
ajudar! O senhor sabe porque é que está aqui a pedir, sabe? –antes que
o homem possa responder- É por causa dos Socialistas. Eles deram cabo
disto tudo. Olhe, vote em nós no dia 27, que nós aumentamos-lhe o subsídio para
o dobro. Não esqueça… é aquela sigla das setas, está a ver qual é, não
está?...”
-Se formos do Bloco de Esquerda (que não se
sabe muito bem se é de ideologia comunista, marxista, maoista, socialista, albanês,
trotskista, ou outra coisa qualquer dentro da esquerda), diremos: “Isto
é uma vergonha! Isto é o estropício da alma humana. Estes governos do “centrão”
só tem gerado iniquidades. Dirigindo-se ao senhor Adolfo: “olhe, no dia 27,
vote em nós. Somos o único partido que defende os pobres e excluídos do país. O
senhor conhece-nos, não conhece? Não? Ora bolas! O senhor costuma votar? Não?
Porra!, estive eu aqui a perder tempo…”
-Se formos do CDS-PP (que também não se sabe
onde cai a sua ideologia. Sabe-se que é híbrida, mais ou menos, entre o antigo
MIRN e o actual PSD), um bocado afastado do senhor Adolfo para ele não ouvir,
diremos: “isto não pode continuar! Este homem –apontando o senhor Adolfo- de
certeza absoluta que recebe o RCI. É preciso acabar com os
subsídio-dependentes”.
Agora já junto ao senhor Adolfo: “então
o senhor quer trabalhar? Ainda bem. É isso que o meu partido defende. Olhe, no
dia 27, vote em nós. Não esqueça, não? Vamos arranjar-lhe um emprego. Pode
contar…mas tem mesmo de votar em nós…”
Engraçado! O senhor Adolfo Reis está a sorrir.
De que rirá ele?
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