
Não sei se já se aperceberam que ultimamente se vêem cada vez mais pessoas com audiofones nos ouvidos. Passam por nós na rua como zombies que não pertencem a este mundo. Nalguns a música está tão alta que, para além de incomodar, tendo de a “gramar”, é invasora do nosso espaço individual.
Se entrarmos num qualquer transporte público, e um lugar estiver vago, embora os outros estejam completos e até algumas pessoas viajem de pé, só quando nos sentamos naquele lugarzinho guardado para nós, percebemos a razão de ninguém o querer. É que o barulho é ensurdecedor. Estoicamente, lá aguentamos para que ninguém olhe para nós. Não vão os outros pensar que somos fracos e que é um qualquer “ruidozeco” que nos derruba.
Confesso que já me falta a pachorra. Começa-me a saltar a tampa, sobretudo quando alguém tenta falar comigo com as palas –como os burros- nos ouvidos. Começo por dizer que não estou a ouvi-lo. Se a coisa persiste, passo-me e digo-lhe: olhe lá, não se importa de falar comigo sem essa coisa nas orelhas? “Ai desculpe!, até me tinha esquecido”, tenta safar-se o meu interlocutor.
O que me chateia mais é que até pessoas de meia idade –onde normalmente pensamos que reside a virtude, a reserva moral da Nação- estão a embarcar na viagem de “pés-na-terra e cabeça-no-céu”. Isto é que é uma sorte! Parecem bandos de marcianos descarregados por acidente no solo terreno.
O problema é que começa a ser grave. Há três semanas, uma senhora da Europa de Leste, de trinta e poucos anos, morreu trucidada por um comboio, em Coimbra, porque levava nos ouvidos o tal “cabresto”.
Não sei se esta moda é consequência ou não da crise económica e existencial –devido às constantes ameaças de pandemia que nos atropelam. O que sei é que parece uma droga. Com cada vez mais aderentes, todos querem “isolar-se”, fugir de qualquer maneira, desta realidade que parece ficção, do meio em que estão “agarrados” e é impossível desligarem-se.
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