Vivemos todos presos a
estereótipos, a apriorismos, a frases que apanhamos nos outros e as tomamos
como verdadeiras, nossas, sem pensar.
Ontem foi inaugurado o som musical
nas ruas da Baixa. Trata-se de uma feliz iniciativa da APBC, Agência para a Promoção
da Baixa de Coimbra, no sentido de tornar as artérias mais alegres, uma vez
que, por vários motivos e sobretudo a crise, se encontram tão tristonhas e desertificadas.
O que eu não imaginava é que a propagação sonora em todo o quarteirão formado
pelo Largo da Portagem, Ferreira Borges, Visconde da Luz, Sofia e demais ruas e
becos estreitos, poderia ser fatal para uma actividade: a dos músicos que tocam na
via pública.
Logo a seguir, e ainda ontem, o Paolo Vasil, acordeonista romeno, e o Lourenço Pina,
tocador de viola e cantante Cabo-verdiano, ambos músicos da recente formada “Orquestra
de músicos de Rua de Coimbra”, vieram ter comigo muito preocupados e a suplicar: “ó senhor Luís, a música nas colunas está
muito alta. Assim não podemos tocar. Como é que vamos ganhar a vida? Se o
senhor pudesse falar com quem manda nisto para baixar um bocadinho do volume…”. A seguir
o Lourenço disse uma coisa que me colocou em choque: “ó senhor Luís, na
segunda-feira eu preciso de ganhar 2,50 euros para ir comer à Cozinha
Económica. Assim, com o som tão alto, não posso tocar e também não posso comer…”
Sem entrar em grandes tiradas
reflexivas, gostava de chamar a atenção para este caso. Este homem,
diariamente, aufere na rua o seu sustento. Mais: bastam-lhe dois euros e meio
para aguentar esta vida nesta terra tão desgraçada para tantos e prometida para
ele. Era bom que todos pensássemos nisto quando nos lamentamos porque não temos
isto e aquilo.
Felizmente, falei com o Armindo
Gaspar, presidente da APBC, e, numa compreensão digna de louvar, o som foi
baixado para o mínimo. Penso que amanhã já todos os músicos de rua, naquelas
artérias, estarão mais felizes com um simples gesto de rodar um botão.
São tantas as vezes que pensamos
que estas pessoas ganham fortunas diariamente –e acredito que haverá quem ganhe
de facto muito- que até nos esquecemos daqueles que pouco auferem. Talvez valha
a pena pensar nisto.
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