quinta-feira, 14 de junho de 2007

UMA COIMBRA DE OUTROS TEMPOS (1)

(IMAGEM DA WEB)


 Corria o ano da graça de 1966, e tinha acabado de concluir o exame da quarta classe. Estava então com dez anos, prestes a comemorar os onze. Como tinha um tio que era cozinheiro num restaurante em Coimbra, escrevera-lhe a solicitar um emprego. Como os meus pais eram agricultores muito pobres, inevitavelmente, eu precisava de trabalhar, mas também porque tinha absoluta necessidade de me ver livre das lides do campo, que detestava. Já me bastava não ter nem domingos nem feriados de folga, assim como, diariamente, depois de vir da escola, ter de ir cortar dois molhos de erva para os gados, ovelhas, cabras e um boi de terça –a terça era um contrato bilateral -nesta época normalmente implementado na agricultura- estabelecido verbalmente entre duas ou mais pessoas, em que o investidor colocava um animal de grande porte (boi ou vaca) no segundo contraente. Este, usando o animal para trabalhos campestres, comprometia-se a engordá-lo e, mais tarde, aquando da venda, a diferença, o remanescente valor acrescentado, entre o valor inicial e o valor final, seria dividido em três partes iguais. Sendo uma parcela para o investidor, dono do animal, e duas para o segundo contraente que houvera contribuído através da engorda para esse lucro.
Como o meu tio respondera positivamente ao meu pedido, passado uma semana entrava pela primeira vez na grande cidade mítica, a Lusa Atenas do imaginário indígena, a Coimbra dos doutores, cantada em fado, aquém e além-mar. Mas também, diga-se, à custa da sua Académica, com os seus grandes jogadores, como Rui Rodrigues, Curado, Rocha, Belo, Néné (que viria a morrer num acidente de automóvel) e tantos outros que, pelo seu elevado talento de equipa, treinados por Mário Wilson, faziam frente ao grande Benfica, do pantera negra, ainda mais notabilizado pelo campeonato europeu. Eram célebres os derbies entre estes dois grandes clubes nacionais.
De saco de pano na mão, lembro-me de ter chegado, na companhia do meu tio, à Praça 8 de Maio e ter ficado extasiado com todo aquele movimento de pessoas junto á Igreja de Santa Cruz, mesmo apesar de ser Agosto, mês de canícula e deslocação a banhos, dos mais endinheirados, para Figueira da Foz. Os velhos eléctricos amarelos, atravessando o canal (Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz), com o seu característico barulho ronceiro, provocado pelo atrito do ferro a arrastar no ferro, andavam permanentemente cheios. Na parte de trás, no gancho de engate, era comum ver vários putos pendurados, tentando não pagar bilhete, para desespero do “pica”, o cobrador de bilhetes. Esta praça, mais parecendo um delta confluente de vários rios, como um entreposto comercial do oriente, o barulho era ensurdecedor. Era o cauteleiro, no seu pregão, tentando desencadear a ambição: “Sábado anda a roda… é a última… é a última. Quem quer estes quinhentos contos?”. Mesmo ao lado, dois ardinas com as suas sacas de ganga azul cheia de jornais, um deles matulão, gritavam: “é o Primeiro de Janeiro… traz as últimas”. Junto a estes um garoto, sensivelmente da minha idade, descalço e com as calças remendadas pelo meio das pernas, mostrava a resistência daquele vestuário à sua idade sempre em crescendo. Era notório que enquanto ele foi subindo na altura, as calças foram minguando e, assim, foram transitando de um ano para os outros. O puto gritava a plenos pulmões, com a sua voz de cana rachada: “é o "Calinas"… compre o "Calinas"… é o jornal dos doutores”. Ali à volta, ouvia-se uma mistura indescritível de vozes desafinadas e pregões bem estudados, era a peixeira, era a vendedeira de hortaliças, com a sua canastra à cabeça. Em frente da igreja, uma fila de táxis esperava pelos clientes e um taxista mais afoito, encostado ao seu carro verde e preto, escutava com atenção o “vendedor de banha da cobra”, e ia vendo com admiração as dezenas de pessoas que se iam juntando em torno do promitente milagroso de pomadas e elixires: "comprem a pomada que cura tudo. É para o pai e para o catraio. Cura reumatismo, artroses e bicos de papagaio”.
No canto esquerdo, junto à farmácia Universal, uma cigana, na sua lengalenga, pegava na mão de uma mulher de meia-idade e passava-lhe com a voz embargada e em corrupio, numa mistura de português "arromenado", de que a senhora sofria de amores aziagos, maus-olhados e mal de inveja. No lado contrário, os irmãos Secos não tinham mãos a medir a venderem tabacos e café moído ao quilo. No café Santa Cruz, nessa altura restaurante, um empregado, bem aprumado à paquete, de casaco branco vestido , ia espalhando as toalhas e os guardanapos de tecido imaculado para servir os almoços que a hora do repasto aproximava-se a passos largos.
Chegámos então à Praça da República, ao Café Mandarim. Este café-restaurante, apesar de estar aberto ainda há poucos anos, depressa se transformou numa espécie de catedral da tolerância, imposta tacitamente, em que conviviam tanto o trostskista-anarco-convicto, como o comunista que lia o jornal República, do Raul Rego, como o fascista, orgulhoso defensor do regime vigente, como o estudante revolucionário, que “à surrelfa” espalhava comunicados anónimos a anunciar uma reunião política. E a vigiar todos estes, e sempre alerta, vários agentes da Pide -a sede estava situada então, um pouco mais acima, na Rua Antero de Quental.
Não se sabia exactamente quem vigiava quem. O que se sabia, isso sim, é que todos conviviam serenamente, embora vigilantes, como se estivessem num bar, em Istambul, no tempo da Guerra Fria, em que, presumivelmente, estariam agentes da MOSSAD, do MI-5, do KGB e ainda agentes secretos da STASSI.
O ambiente deste café era indescritível. Era um borbulhar constante efervescente de pessoas a entrarem e a saírem. Era famoso o seu "bitoque" -o célebre combinado número 5- e o bife à Mandarim. Por lá passaram muitos dos actuais políticos e talvez a fina flor da sociedade portuguesa da época que vinham estudar para a Universidade de Coimbra
Curioso, também, o orgulho garboso assumido pelos empregados em trabalharem numa casa de tão alto gabarito e tão identitária da classe estudantil. Notava-se na sua forma de estar, na pose e no porte. Quem passou por lá lembra-se, certamente, no balcão de bar, do Hugo (já falecido), do Fernando, do Joaquim Pardal, com ar de “gentleman”, cabelo preto penteado para trás; dos empregados de mesa, o Abreu, o Manaia e o saudoso Talina (já falecido), que carinhosamente me tratava por batatinha; no balcão da pastelaria, mesmo à entrada, o Mendes, o Fernando, e o Tarrafa que eu fora substituir.
Depois de um ano a trabalhar na cozinha, fui então para o balcão da pastelaria, para andar aos recados e levar os lanches –o galão e a torrada- onde fosse solicitado, aos consultórios médicos, a casas particulares e até ao edifício da PIDE cheguei a ir várias vezes.
A mensalidade que fui auferir foram 250$00 de ordenado fixo, que ia inteirinho para o meu pai. Como estava em casa de uma tia não pagava alojamento. Lembro-me, nesta altura, de um acontecimento marcante: a primeira vez que fui a uma casa de banho. A minha tia, junto a mim, recomendou-me para eu fazer "xixi", como eu nunca tinha visto nem um bidé nem uma sanita, olhei para os dois e, mentalmente, comecei a balançar entre se seria num ou noutro, até que fiz no bidé.
Para além disso tinha as gorjetas, auferidas no transporte dos lanches e nos trocos remanescentes do tabaco –um Português Suave sem filtro custava 4$20- que iam direitinhos para a compra de roupa usada, que era lavada de noite para tornar a vestir no dia seguinte. Os sapatos, do mais barato que havia -custavam cerca de 80$00-, da marca “Campeão Português”, em que aparecia o Óscar Acúrcio, na televisão, a dar dois saltinhos, andavam nos pés até ficarem completamente com as solas rotas. Lembro-me, que o meu maior sonho, na altura, era ter umas calças de ganga LOIS, uma camiseta LACOSTE, e uns sapatos de luva. Porém, havia um senão. Cada uma destas peças custava à volta de 250$00. Ou seja, eu estava tão longe de ter um destes ícones da moda, como quase ir à lua. Um dia, eu mandara pôr meias solas nuns dos tais sapatos baratuchos no senhor “Chico”, sapateiro, à entrada da Rua Tenente Valadim. O tempo foi passando e o profissional de calçado nunca mais me entregava as alpercatas. Passados cerca de dois meses, fui então à sua oficina perguntar pelos sapatos. O homem, meio atarantado, esquecera o meu calçado. Então, vira-se para mim e diz: "engraçado, não me lembro dos teus sapatos. Vê aqui se os reconheces”. Em frente a mim estava uma longa prateleira com todos, todos, os sapatos já prontos. Adivinham quais os sapatos que escolhi? Pois claro… uns de luva, é óbvio. Mas havia um pequeno senão, ao calçá-los, estavam apertadíssimos. Mesmo assim não foi por isso que não caminhei orgulhosamente com eles. Durante meses foram o meu sonho tornado realidade.
No pequeno balcão da pastelaria o senhor Mendes era o chefe supremo daquele pequeno principado. Fazia tudo para me ensinar, a cuidar dos pasteis, a expor as caixas de bombons, como só ele sabia fazer e, sobretudo o trato com os clientes, essa era a sua principal preocupação. “não te esqueças, sempre que vejas um senhor de capa e batina ou vestido de fato e gravata, diriges-lhe, obrigatoriamente, sempre com trato especial: "faz favor de dizer, senhor doutor?”.
E assim fazia. Até que um dia, um homem bem posto e todo "apessoado", de fato e gravata, chegou ao balcão, e eu, naturalmente: faz favor de dizer, senhor doutor?...”ó rapaz… estás a gozar comigo, ó quê? Eu sou o motorista do doutor Pais Ribeiro! Não me chames nomes… ouviste? –reclamou irritado e aos berros o homem da gravata.
Poucas pessoas se lembram mas, nesta altura, para usar isqueiro era preciso licença. Então essa limitação tornava aquilo, que para nós hoje é “lana caprina”, num objecto de desejo, quase impossível de descrever. Passava a vida a rogar ao doutor e ao "futrica" um isqueirinho por favor.
Outro caso curioso e digno de ser estudado pela antropologia e sociologia: o senhor Antunes, homem de cerca de sessenta anos, o proprietário do Mandarim, era uma pessoa respeitada e aceite por toda a gente. Homem bom, acessível e sempre pronto a trocar um cheque pré-datado ou mesmo a emprestar dinheiro a qualquer estudante menos endinheirado. Mas tinha um gosto especial, quase escandaloso para a época -não fora a sua importância estatutária na sociedade conimbricence e poderia ter sido o cabo dos trabalhos. O senhor Antunes era casado e com mulher… até aqui tudo bem e normal. O que vem a seguir é que já não é: este empresário de hotelaria tinha duas amantes com pelo menos vinte anos menos cada uma em relação às suas seis décadas. Uma vivia na Rua das Flores e outra na Rua Corpo de Deus. O mais curioso, constava-se, é que ambas sabiam da existência de uma e outra. Como faria ele para “assistir” três mulheres? Nunca se saberá, mas posso afirmar que, individualmente, as tratava com muito carinho. Eu assisti algumas vezes a essas efusões de amor, certamente, ou pelo menos, uma terna protecção.
E como já vai muito longa esta crónica e, acredito, que poucos chegaram até aqui, vou interromper. Voltarei ao tema com toda a certeza, um dia destes.

1 comentário:

carlos freitas disse...

Nascido Alfacinha sou hoje coimbrinha de alma e coração. Frequentei o Mandarim, miúdo tinha então ido estudar para a então Sidónio País e, depois, no Colegio Alexandre Herculano. Acredite que este é um dos meus prazeres na blogosesfera: ler as antigas memórias dos habitantes desta cicade eterna. Estas foram das mais deliciosas, porque me recoradaram um tempo e uma outra cidade. Obrigado.