terça-feira, 2 de agosto de 2011

"OS OUTROS... OS OUTROS"...





 À hora do almoço, na Rua Eduardo Coelho, em frente a vários estabelecimentos, estava um monte de dejectos de animal que, certamente, por tantas vezes ter sido pisado pelos transeuntes, acabou por conspurcar uma área de cerca de vinte metros e a própria entrada da Rua do Corvo. Se este facto já por si mesmo denota um desleixo absoluto dos comerciantes por quem transita à volta deste triste espectáculo, o que mais ainda chamava a atenção era uma folha branca em cima do “buseiro”. Ou seja,  no meu entender, aquela folha branca simbolizava o marimbar-se para tudo o que nos rodeia, mas não só.
Exceptuando a irresponsabilidade do dono do animal que uma vez que não foi apanhado em flagrante aqui pouco contará, perante esta pequena anomalia visual, estas pessoas ligadas ao comércio, que deveriam cuidar do espaço em frente ao seu negócio como um jardim em frente à sua casa, são tomadas de pelo menos dois pensamentos. O primeiro é: “a limpeza das ruas é da responsabilidade dos serviços de higiene da Câmara Municipal de Coimbra”. Depois desta ideia vem a seguinte: “eu até limpava isto, que por acaso até parece mal, mas porquê eu? Porque não o meu vizinho “Manel”, Rogério, Filipe, Rosa e Maria? Ora… ora! Eu não sou criado deles! Isso é que era bom!”.
E aquilo que poderia ser resolvido com um gesto simples de um balde com água e detergente perpetua-se durante um dia ou vários até que ou venha um funcionário da edilidade ou a chuva se encarregue de lavar.
E, já agora, a talhe de foice, não posso deixar de juntar aqui uma conversa. Hoje, durante a manhã, quando estava cortar o cabelo, atirou o barbeiro, meu conhecido:
-Há dias reparei como a Lena falou consigo, por causa da tampa de saneamento aqui da rua. Às vezes as pessoas nem as pensam…
-Falou, como? Interroguei.
-Assim, rispidamente. Eu estava ao lado e não gostei. É muita boa senhora, mas quando lhe chegam os azeites…
-Ah… já me lembro! Foi por causa daquela tampa de saneamento em que caíram várias pessoas, retorqui.
-Isso mesmo. Aquilo estava uma miséria. Vieram logo arranjar…
-Claro. Foi o que disse à Lena. Vocês estão a vinte metros da autarquia. Basta até telefonar. Posso garantir-lhe que este serviço funciona bem.
-Pois é, mas passam aqui na rua tantos funcionários da Câmara… será que eles não vêem?
-Ó meu amigo, estamos inseridos num sistema em que todos se esforçam o máximo para fazer o mínimo –disse eu. Logo, é preciso que cada um de nós participe na resolução dos pequenos problemas que nos afligem. O senhor ao participar uma qualquer ocorrência está a obrigar o serviço a responder, no sentido em que fica um registo dessa participação.
-Está bem, mas eles ganham para fiscalizarem, não acha?
-Não, não acho! Tenho a certeza de que se todos fizermos o mínimo qualquer solução se torna mais simples.
O senhor pode ter a certeza de que este tempo em que nós vivemos, atidos a que os serviços públicos respondam a todas as nossas solicitações, acabou. Daqui para a frente, o senhor irá ver os serviços a responderem cada vez menos e pior. Teremos de ser nós a fazer pequenas tarefas, porque os serviços não irão responder. Olhe à sua volta. Veja na saúde, nos transportes, que ainda hoje subiram cerca de 15 por cento e irão subir ainda mais. Não há volta a dar-lhe. O que devemos é exigir maior racionalidade, evitando desperdícios, e que os administradores não ganhem balúrdios.
-A nossa cidade é uma porcaria. Estas ruas cheiram mal. Ainda ontem passei na Rua da Sofia, estava lá um contentor a largar um líquido viscoso para o chão. Porque é que não colocam os bombeiros durante a noite a lavar as ruas, ou até os que recebem o RSI, Rendimento Social de Inserção, a lavarem?
Eu estive num país que dá gosto viver. Nas ruas não se vê uma beata no chão…
-Foi na Suíça? Interpelo.
-Sim foi na Suíça…
-E diga-me, lá os cidadãos colocam papéis ou beatas para o chão?
-Não. Tem razão. Lá é outra gente. Muito mais educada…


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