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sábado, 6 de fevereiro de 2016

EDITORIAL: A BAIXA E A "PENAIXADA" DE CINCO EUROS

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Há dias, porque necessitava de duas “coisitas”, fui a uma antiga loja de ferragens aqui na Baixa –praticamente, estas vendas tão pitorescas desapareceram e as que resistem já se contam pelos dedos de uma mão. Algumas delas, poucas, antecipando o futuro e adivinhando que se continuassem por aqui só restava o fecho de portas, transferiram-se para a periferia da cidade e, naturalmente, com a sua saída contribuíram para a desertificação da Baixa. Os motivos porque abalaram daqui são vários, não vou elencá-los todos. O principal, diria eu na minha ignorância, foi o pagamento de estacionamento público, caro e insuficiente. Mas passemos à frente. Entrei no velho estabelecimento –que agora, pela falta de cheiros a tintas e vernizes, a cal, a cimento, se tornou novo, moderno e estandardizado- e reparei que só o dono, já idoso, estava a atender –já teve vários empregados. Paulatinamente, foram diminuindo, diminuindo, até que hoje só restam o proprietário e um funcionário. Mais que certo e por não ser rentável, ao sábado já não abre. Lembro-me com muita saudade –mas a saudade não alimenta estômagos- que, noutros tempos, ali havia tudo. Era uma grande superfície implantada numa pequena área.
À minha frente havia umas quatro pessoas –todas de meia-idade para cima. O dono da loja estava a atender um casal de velhotes, de cerca de setenta anos. O homem, o cliente, queria uma coisa, a mulher emendava e queria outra. O lojista, onde só as rugas na sua fronte denunciavam a impaciência de que estava tomado, pacientemente andava de um lado para outro até à decisão final. Neste “queremos aquele queremos outro” passaram dez minutos. No fim, na apresentação da conta, reparei que pagaram seis euros. Os clientes que se seguiram fizeram uma despesa de dois, três euros cada um. Quando chegou a minha vez, já tinham passado vinte e cinco minutos, fui atendido e paguei cinco euros. Para quem não estiver entronizado no comércio, provavelmente, dirá que o velho negociante, por estar sempre a facturar, estará de boa saúde. Nada de mais errado. O montante que apura no fim do dia não chega para se manter aberto muito tempo.
Em metáfora, a Baixa, no comércio em geral e na indústria hoteleira, está transformada numa puta que leva cinco euros por cada “penaixada” –se você pensou em foda, o problema é seu. Eu sou bem criadinho, graças ao altíssimo.
Atente-se na generalidade das montras de roupas nesta zona velha: cinco euros, seis euros, sete e meio. Nas sapatarias idem aspas, aspas. Nos restaurantes, veja-se o preço das diárias, o preço comum é de cerca de seis euros.
O Centro Histórico, gradualmente, foi envelhecendo e consigo foi sendo acompanhado por uma clientela antiga e com pouco poder económico. As lojas tradicionais, nos nossos dias, ora servem para remediar a incapacidade de se transportarem até às grandes áreas comerciais –por não possuírem automóvel e no retorno carregarem sacos de compras- ora como consultórios de psicanálise. Estes pontos de venda comunitários estão transformados numa espécie de encontro de velhotes onde, catarticamente e sem pagar, é possível falar das suas vidas.
Passemos para a grande superfície, novamente em figurativo, é uma acompanhante de luxo. Só um simples beijinho custa dez euros. Entrar dentro dela e tocar-lhe tem de se pagar bem. Quem é o “montador”, o cliente, desta “prostituta”? Que tipo de poder financeiro possui?
É óbvio. É novo, bem-parecido, ricaço –nem que seja à custa dos pais-, e gosta de ostentar poder económico. Quer é ser servido, usufruir do prazer de ter, de possuir. E para o ser e ter, paga o que for preciso.
Contrariando o que se pensa, nada na grande superfície é barato. Para exemplo, coma-se uma simples sandes e beba-se um sumo e tome-se atenção à conta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

OS VELHOS DO MEU TEMPO



 Não sei por quê –ou talvez saiba-, os velhos caem na minha loja como mosca na sopa. Gosto de ouvir as suas histórias. Em projecção, é como se, neles, eu me revisse de aqui a uma vintena de anos, certamente se por cá ainda andar, já de bengala e arqueado sobre o peso das minhas memórias. Como tenho este bichinho da escrita, é a ouvir as suas compridas narrações que vou buscar o suco para muitas das minhas crónicas. Por muito simples que pareça não é fácil ouvir os velhos. Em muitos casos eles não têm ninguém que os ouçam e possam conversar. Sei isso porque já falei com muitos idosos. Já escutei imensos desabafos pungidos de dor e com muitas lágrimas à mistura. E já sei que qualquer um que se me dirija, por muito ocupado que esteja, tenho de tirar um bocado para ele. Pode até parecer que estou a tentar dar uma de bonzinho, mas não é nada disso. É assim um respeito grande que sai cá de dentro, como se estivesse a reviver alguns que por aqui passaram e me deixaram boas recordações. Vem-me à memória o velho Hébil, o Pinho, ambos pintores, o Fausto, o Luís, o Plácido, o Fernando e outros. Os velhos são como o Natal. Durante o mês de Dezembro o seu espírito estará presente todos os dias, até que passa a data e ausenta-se. Durante anos, meses, semanas um velhote, porque se lhe dermos atenção, nos sente como ancoradouro e visita-nos amiúde. Subitamente, sem se despedir, desaparece para não mais voltar. Umas vezes porque foi institucionalizado num lar, outras vezes, e aqui na maioria, porque morreu. Nos primeiros tempos temos um sentimento de perda, depois paulatinamente vai desaparecendo também porque outros virão ocupar o seu lugar deixado vago.
Dizia eu, e repito, que não é fácil aturar velhotes. Quase sempre são pessoas com feitios muito difíceis de aguentar, muitas vezes ruins de coração duro como pedras e insensíveis à partilha, e, por isso mesmo, as suas famílias se descartam deles. São muito egoístas e chegam a ser cínicos. Pouco flexíveis, raramente aceitam pontos de vista alheios. Por este motivo, quase sempre, estão isolados e sozinhos. Já numa idade avançada, os idosos tornam-se crianças crescidas, sempre a pedir atenção. Perdem a noção de tempo e o espaço que ocupam na vida do outro que o ouve. Às vezes é muito difícil descolar de uma conversa. As narrativas surgem-lhe em catadupa, encadeadas umas nas outras. Tão depressa estão na infância como, logo a seguir, recentemente, há uns anos, e sempre sem intervalo para descansar. Já me tem acontecido dizer que tenho de ir tratar de um assunto para quebrar a cadeia de exposições. Para conseguir os meus intentos, tenho mesmo de sair, fechar a porta, dar uma volta ao quarteirão e voltar. Só assim é possível interromper o ciclo. Actualmente sou ouvinte de dois anciãos, um homem e uma mulher, com quem converso. Rondam os 85 anos de idade. Ultimamente o homem, para minha pouca sorte, visita-me dia-sim-dia-não. Até tremo quando o vejo entrar. Já sei que, no mínimo, duas horas do meu tempo vão à vida. Também é verdade que o poderia despachar com alguma subtileza mas começo a embalar-me nos pormenores e pimba! Estou tramado! Já conheço quase toda a sua vida. Um drama familiar dos grandes. Esse é o problema! Daí eu ir escutando como se estivesse transformado num viciado.
Embora de contornos diferenciados, na mulher é notória a mesma falta de afecto e a necessidade de conversar sofregamente. Já há mais de um ano que, no meio de muitas lágrimas e choros entediados, lhe deu para insistir que tenho de lhe fazer o funeral. Quando me visita, como hoje, lá vem o tema à ribalta: “não esqueça que tem de me fazer o funeral!”. Nunca me pergunta como vou pagar. E eu, tentando despachar a coisa, lá vou dizendo que devemos falar de vida e não de morte. Mas de pouco vale, a lembrança continua. Hoje, para meu espanto e não pude deixar de largar uma gargalhada, disse-me que gostava de ir na última viagem num caixão de cerejeira. Aqui já tive mesmo de lhe perguntar quem ia pagar? Financeiramente, não posso com uma gata pelo rabo, argui. Mas a velhinha, como se eu quisesse transmitir o contrário, ou fosse surda, lá continuava na mesma lengalenga: “não se esqueça que tem de me fazer o funeral!”



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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O TERRÍVEL ANÁTEMA DE SER VELHO





 O homem, todo curvado sobre duas bengalas fortes de madeira, dirige-se-me: “quanto custa aquela peça?”. Respondi, mas não fiquei com a certeza de ele ter percebido. Não era pelo facto de ouvir mal, e até ter um aparelho no ouvido direito, nada disso. Ao velho que estava à minha frente pouco lhe interessava o preço daquele artigo que lhe lembrava a sua meninice por volta da década de 1920. “Nasci em 1922. Já vivi muito. Estou muito velho”, confidencia-me com embargo na voz.
Sempre que posso converso com idosos. Gosto de os ouvir. Tenho a certeza que é pelo facto de eu gostar de escrever. Vou buscar muita coisa a estes diálogos. Não faço mesmo nenhum sacrifício. Na minha loja, onde trabalho, já conversei com dezenas, talvez centenas. Não é “conversar” apenas por “conversar”. É ouvir com atenção as histórias que me querem contar. Sem grande enfado, escuto e tomo notas. Mais tarde escrevo parte da conversa, ou um pequeno trecho que me ficou na memória.
Já conversei com pintores que morreram de velhice. Lembro-me por exemplo de um que me marcou profundamente o velho Hébil. Morreu há cerca de uma década. Aprendi muito com ele. Era uma figura carismática. Com um ego maior que a torre da Universidade. Cheio de ratice –normalmente, os artistas para o negócio são uma lástima. Pois, a contradizer todos, o Alberto Hébil, para além de “ser o maior pintor do mundo”, como me dizia com ênfase, era um comerciante de excelência. Conhecia o género humano como ninguém. Todas as suas fragilidades e pontos fortes. Defendia teses que ninguém acreditava nelas a não ser ele próprio, ou, se calhar, nem ele mesmo. Passei muitas tardes a conversar com ele, sempre que o meu trabalho o permitia.
Os velhos querem apenas alguém que os escute. Eu sei isso. Quando hoje, na loja, entrou o senhor Fausto –como disse chamar-se- a perguntar um preço, pela minha experiência, sabia que ele apenas queria conversar com alguém. E não me enganei, era mesmo isso, confessou-me mais tarde. “Tenho 87 anos. Passo dias que não converso com ninguém. Os meus amigos já morreram todos. Hoje as pessoas mais novas não conversam…não têm tempo para os mais velhos. A minha mulher está ali, naquela clínica, está a ver? Coitada! Mal me conhece, já não profere uma palavra. Só os seus olhos “falam” quando me vê. Todos os dias vou vê-la. Fui muito feliz com esta mulher. Uma pena estar assim –e as lágrimas saltaram-lhe daqueles olhos claros. Sabe, não tenho vergonha de o dizer, choro muito. Estamos casados há 27 anos. Foi o meu segundo casamento. Do primeiro não fui feliz. O remédio foi mesmo separar-nos. Mas este segundo casamento foi tudo. Foi o paraíso em folhas-soltas de vida. Foi lindo. Sinto tanta falta dela em casa. Daqui a pouco vou vê-la, estou lá cerca de uma hora, e depois vou para casa. É lá que passo a maior parte do tempo. Se não fosse o meu amor não viria para a Baixa. Custa-me muito andar. Eu moro lá em cima…na Alta da Cidade…está a ver? É na rua que vai do largo até à Cruz, já viu onde é, não já? Pois! É essa mesma. Se não fosse a minha saúde e a da minha mulher, até estaríamos bem. Não tenho filhos. Nem deste nem do anterior casamento. Dinheiro não é o nosso problema. O que temos dá para viver desafogadamente. Sempre vivi bem. Conheço quase toda a Europa. Paris, então, foi a minha segunda pátria. O meu pai foi fulano, conheceu? O meu avô, foi beltrano. Um homem muito culto. Deu muitos livros para o museu Santos Rocha, na Figueira da Foz, em 1904. Ainda guardo o original da carta de agradecimento do museu. Quer ler? Um dia destes trago-lhe uma fotocópia.
Vivemos tempos complicados –está a ouvir-me não está?-, todos se sentem com direitos e ninguém com deveres. Mas, olhando para trás, afinal, nem é de surpreender. Somos um povo esquisito. Está a ver aqueles prédios ali na avenida Fernão de Magalhães, junto à Segurança Social? E aqueles na Rua António José de Almeida, junto ao Ténis e Sport? E aqueles ali na Rua Gomes Freire? Foram todos construídos na década de 1950/60 pelo Filipe. Veio da América riquíssimo. Era um tipo muito cordato e humilde. Conheci-o bem. Tinha cinco filhas. Todas casaram bem. Pois, olhe, quando ele chegou a Coimbra e começou a mandar construir vários prédios aqui na cidade, sabe como lhe chamavam em surdina? O “Ganster”. Pobre gente miserável. Não podem ver uma camisa lavada a um qualquer. Se estiver vestida num pobre, é porque este a roubou. Se estiver vestida num rico é porque este matou para enriquecer. Sempre fomos assim. É a inveja que , como maldição, nos há-de arrastar pelo mundo. Nunca passaremos da cepa torta. É uma pena, não é?”, interroga-me, ao mesmo tempo que se levanta para ir então visitar a esposa.
Com as mãos ocupadas nas duas bengalas, arqueado para a frente, levanta a cabeça e, num misto de agradecimento, interroga: “posso voltar outro dia?”

quarta-feira, 13 de abril de 2011

UM COMÉRCIO TRADICIONAL NO DIVÃ PSICANALITICO

(FOTO DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)




 Há bocado fui contactado por dois jornalistas da SIC, andavam a fazer uma peça sobre o comércio tradicional e pediam-me ajuda para lhes indicar no Centro Histórico um negócio que estivesse em franca ascensão e outro, sobretudo um estabelecimento, que estivesse em coma profundo e com um pé no encerramento.
Depois de pensar, de repente deu para ver que na Baixa não existirá nenhum comércio de referência que não esteja mal. Todas as grandes lojas de reputação da nossa memória ou já encerraram ou estão em vias de o fazer. As que persistem arrastam-se neste longo caminho de agonia em morte lenta.
Há cerca de dois anos foram as Galerias Coimbra, o Traje e a Casa São Tiago –três marcas da mesma empresa e que nos últimos 50 anos deram cartas nesta zona antiga. Há pouco tempo fechou a Casa Ramiro, e, menos de um ano, desapareceu o Saul Morgado, líder em louças e vidros com cerca de oito décadas de existência, e os Armazém Americano e a Habitus.
Nas últimas décadas, nas modas, encerraram o Último Figurino, a Nova Paris, a Casa das Gabardinas, a Casa Ferreira, a Topal, as Modas Veiga, na Rua Adelino Veiga, o Infinito, na Rua da Sofia, a Pantera, na Rua da Louça.
Então, na conversa com os jornalistas, à pergunta insistente se não haveria mesmo nenhum ajustado em crescimento –tirando a venda de droga e sexo-, deu-me para ver que, mesmo nesta nuvem negra de crise, medra o comércio chinês –não sei bem ao certo, mas creio que já estarão aqui implantados mais de uma dúzia de estabelecimentos do oriente e com perspectiva de abrirem mais- e lojas do mesmo género e que vieram substituir as antigas de “300”. Ou seja, o que floresce é cada vez mais um comércio sem identificação nacional e sem grande qualidade, o que, inevitavelmente, vem afundar ainda mais este outrora centro de oferta e procura a céu aberto. A meu ver, a única casa de modas identificada com o paradigma de memória dos velhos idos anos de cinquenta e que continua aberta será a Loja das Meias, com o proprietário, o senhor Carvalho, de 85 anos ainda à frente das vendas e de boa saúde mental e física. É lógico, como quem diz, que tem lá um herdeiro para continuar a sua obra e estará bem entregue ao filho Luís Filipe.
Ainda continuando na conversa com os jornalistas, dei por mim a classificar os estabelecimentos desta zona de antanho como substitutos de psiquiatras. Hoje, sobretudo as pessoas mais velhas, com mais de meio século, entram nestas casas de comércio tradicional sobretudo para conversar. Não querem comprar nada. Apenas querem ser ouvidos e ter alguém com quem possam trocar impressões.
Há também outro tipo de freguesia que pouco conta para manter estes espaços abertos: os imensos sem-abrigo a pedirem “amigo, uma moedinha, por amor de Deus! Só dez cêntimos…pode ser?”.
No meu caso, e pela experiência adquirida, tenho dias que chego às 20 horas –hora de encerramento- com a cabeça feita em água. Estas duas classes de visitantes mandam-nos para o inferno do cansaço espiritual. O problema é que é difícil arranjar defesas sem entrar no despedimento breve. Tenho dias, em que atinjo tal grau de saturação, que me apetece gritar: “pare, vá-se embora. Já não posso ouvi-lo!”. Mas, se por um lado é difícil fazer isso, tendo em conta a compreensão perante a necessidade de quem fala, por outro, quem se quer fazer ouvir não terá noção do quanto está a importunar quem o escuta.
Enfim, este texto, para mim, também serviu de catarse, uma purificação em descarga emocional do espírito.


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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

POR ONDE ANDAS, MEU AMOR?




“Todas as manhãs, quando acordo, lembro-me de ti. Todos os momentos do meu dia, não consigo te esquecer. Diz, meu amor, o que é que eu faço para não me lembrar do teu abraço. Eu preciso de te esquecer. Entro no meu carro e ligo o rádio, uma canção traz-me a recordação. Tudo o que eu vejo de bonito é parecido contigo. Diz, meu amor, o que é que eu faço? Eu preciso de rebentar de vez os laços que me prendem a ti!” –extractos da letra da canção “todas as manhãs”, de Roberto Carlos.
Sempre que algum conhecido, que não me vê há muito tempo, insiste em querer saber de ti, por onde andas, sem entrar em grandes planos de pormenor, tento dizer que está tudo bem. Que estás bem. Penso para mim que, como no Outono, quando a folha se desprende e, lentamente, tocada pelo vento, esvoaçando no ar tépido a desenhar piruetas rugosas no vazio, até chegar à terra firme, a saudade de toda uma vida fica impressa na curta distância entre a árvore que fica mais pobre e envelhecida e o chão que a vai receber de braços abertos para lhe servir de tumba. Se a folha, agora amarelecida, pudesse voltar atrás será que voltaria? E mesmo que o fizesse nada seria como dantes. A árvore, mesmo debilitada, está pronta a receber uma outra folha. Não se pode alterar o curso do tempo. Como num ciclo, a queda contínua e eminente de um corpo é a razão directa para o nascimento de outro e base da revitalização perene da Natureza. Tudo o que se abate é sempre substituído.
Confesso, tenho muita saudade de ti. Contigo a envolver-me sentia-me pujante e nada me derrubava. Julgava-me um Átila, um conquistador do mundo, um cavalo selvagem a calcorrear a pradaria, uma onda do mar que teimosamente bate na rocha simplesmente para mostrar a sua força. Como um bilhete-postal escrito em brevidade, aos poucos, sem que eu fizesse nada para o evitar, foste anunciando a tua partida mas eu, tão distraído e embrenhado na minha eternidade, não ligava. Achava que, sendo tão belo, com músculos tão salientes, fazias parte de mim e que, num privilégio só teu, me darias valor e jamais me deixarias. 
Vendo a imagem reflectida no espelho e que, em traços sumidos de outra época, julgo vagamente conhecer, pergunto-me obsessivamente se serei mesmo eu. Agora, que já não estás comigo, olhando permanentemente para trás e recordando momentos tão íntimos e só nossos, sei que te deveria ter dado mais atenção. Fazer-te só minha. Viver-te, gozar-te e amar-te. Num grande egoísmo sem perdão, aproveitando-me de ti para labutar e satisfazer a minha ambição, para além de te cansar, não viajei, não saí do meu canto. E tu, concedendo-me uma oportunidade única que não soube aproveitar, por que não estavas para suportar a minha imbecilidade, naturalmente deixaste-me. De pouco vale chorar lágrimas sobre o meu envelhecido rosto.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

PRECISA-SE DE APOIO PSICOLÓGICO

(IMAGEM DA WEB)



 A mulher que está à minha frente terá quarenta e poucos anos. O seu rosto tem um ar sofrido. Debaixo dos olhos, sem brilho e carregados de solidão, são patentes uma olheiras acastanhadas e acompanhadas com rugas estriadas. Pergunta-me: “pode comprar-me estas peças?” –Trata-se de uns objectos sem valor comercial. Tendo em conta o momento que vivemos, em que tudo perdeu interesse, em que tudo perdeu valor, mesmo assim, se estivéssemos na época áurea do apogeu comercial, aqueles artigos não valeriam nada. Respondi que não podia, porque também estou com dificuldades em vender. A mulher que antevi amargurada, como a dar-me razão na avaliação subjectiva, deu um profundo suspiro audível. Por momentos esperei, em quadro de Rembrandt, que aquela face de sofrimento se desfizesse em mil prantos de desespero.
Não é a primeira vez que acontece e já escrevi muitos textos aqui sobre este assunto, mas, nos últimos tempos, começa a ser recorrente este quadro de miséria. Estes cidadãos, para além da falta de dinheiro, têm fome. É preciso encaminhá-los. Era bom que a autarquia de Coimbra pensasse em criar na Baixa um gabinete de apoio psicológico. Normalmente, quando me apercebo da extrema gravidade destas pessoas, que me parecem a balouçar num limbo, entre o continuar nesta vida de desespero e um possível suicídio, peço ajuda à equipa da Associação ERGUE-TE, no Largo das Olarias. Mas esta associação, tal como outras, tem poucos meios para acudir a tantas solicitações. Ora então será que a Câmara Municipal de Coimbra, tendo em conta o momento terrível de aflição que tantas famílias estão a viver, não deveria criar, com urgência, um gabinete aqui na Baixa de interajuda a quem mais precisar? Podem deixar de se construir umas rotundas, ou menos uns painéis publicitários, mas salvam-se vidas, Esse, verdadeiramente, é o papel institucional de um executivo municipal.

(TEXTO ENVIADO PARA CONHECIMENTO À CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA)

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ERGUE-TE DÁ UMA MÃO NESTE NATAL



O projecto “ERGUE-TE”, um movimento que tem por missão ajudar mulheres em situação de risco, desestruturadas da família e em contexto “prostitucional”, que além de defender a sua dignidade e fomentar uma nova filosofia de vida, gratuitamente, presta apoio social, psicológico e jurídico a quem o solicitar.
Com sede no Edifício Azul, no Largo das Olarias, junto à Loja do Cidadão, desde ontem e até 16 de Dezembro, está a realizar uma venda de Natal no rés-do-chão do mesmo edifício onde está implantado. A funcionar entre as 10 da manhã e as 19h00, um sorriso espera quem transpõe a porta. Quer pela causa nobre que desencadeia fenómenos de partilha e solidariedade, quer por serem artigos muito baratinhos, a verdade é que a procura está a exceder a oferta. Até parece que a austeridade não existe para quem entra no salão de exposição. Mesmo com a crise que se vive é interessante verificar a afluência em busca de uma prendinha. Tentar justificar esta atracção é o mesmo que acreditar que quem compra um pequeno artigo, por um ou dois euros, misturando egoísmo e alteridade num forte abraço, sente que está a colaborar para uma causa humanitária de largo espectro social.
Aproveitei a presença de uma senhora de meia-idade que estava a pagar. Sob anonimato, aceitou dar-me umas palavras. Pelas roupas simples, notava-se, era de origem humilde. Por cerca de 10 euros, levava para casa uma sacada de artigos, uns manufacturados pelos imensos voluntários, outros doados por gente que quer participar. Coloquei-lhe a seguinte questão: o que a levou a vir à loja da “ERGUE-TE” e adquirir esta mercadoria?
“Todos os anos venho cá e, embora tenha dificuldades, deixo o meu contributo. Sei que este projecto faz um bom trabalho de interajuda ao próximo. Uma pessoa sente-se bem a colaborar. O bem é um sentimento que nos transcende e se propaga até ao infinito. O bem traz o bem. Entende? Conheço uma rapariga que, há vários anos, andava aí na rua a prostituir-se. Começou a frequentar um dos vários cursos desta instituição de solidariedade, reconquistou a dignidade, e agora luta com uma força incrível. Só gostava que visse o brilho novo e intenso dos seus olhos!”


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"Aceita um abraço?"

sábado, 16 de julho de 2011

UM HOMEM NO SEU CASTELO

(IMAGEM DA WEB)



 “Entre, entre! Obrigado por ter vindo. Sabe que nunca recebo ninguém em casa? Vivemos tempos perigosos. Entende, não é? A gente sabe lá o que vai na cabeça das pessoas? Praticamente não vejo televisão e jornais só mesmo de vez em quando, mas apercebo-me do que se passa à nossa volta. Por cinco euros mata-se uma pessoa. Nunca a vida humana valeu tão pouco. 
A conversa é como as cerejas, ainda há dias li sobre a condenação dos dois polícias da PSP que foram condenados a quatro anos de prisão efectiva. Fiquei preocupado, sabe? É evidente que eu não sei o que se passou. Não sei se as agressões ao alemão teriam sido como contam, mas fiquei a pensar nesta condenação. Terá de haver muito cuidado ao sentenciar agentes. É que, não havendo sensibilidade, qualquer dia os polícias não querem mesmo saber de nada. E tenho de lhe confessar, perante este julgamento, se eu fosse polícia, acho que diante de uma qualquer ocorrência na rua me encolhia. Mas entre… entre… não fique à porta. 
Está a olhar para esse desenho? Sabe de quem é? É de mestre Júlio Resende. É belo, não é? E esta tela, sabe quem a pintou? Carlos Ramos… é espantosa, não é? Ora afaste-se um pouco. Veja agora. Olhe esta beleza. Era um “espatolista” de categoria. Olhe a mistura de cores. É uma maravilha, não é? Olhe este prato de faiança portuguesa. É bom não é? É um “aranhões”, do século XVIII. Olhe esta estampa, está a ver? É antiga… olhe ali a data… 1819… está a ver? Olhe este pote chinês antigo… é lindo não é? Olhe, trouxeram-mo de Macau, poucos anos antes de perder a administração portuguesa. Olhe aqui este prato “Companhia das Índias”. É maravilhoso, não é? Está a gostar? Obrigado por ter vindo. Sabe, converso com pouca gente sobre arte. Não se pode confiar em ninguém. Olhe este livro… é um manuscrito. Veja aqui a data…”Coimbra, 1795”. Espantoso, não é?!
Tinha muito mais coisas. Então louças?! Nem lhe conto. Tinha várias peças de Estremoz. Antigas, claro. Mas divorciei-me há poucos anos e então disse à minha mulher: escolhe o que quiseres! E ela escolheu as melhores peças. Mas eu não me importei. Somos amigos. Isso é que interessa. Vivemos muitas décadas juntos. Essas recordações são o que ficam no nosso coração. As boas memórias são o sal da nossa vivência enquanto por cá andamos.
A arte, esta arte que eu tanto amo, é muito importante, mas são objectos, são coisas. Qualquer dia morro e isto fica tudo. Não somos donos de nada. Somos apenas usufrutuários das coisas. Não estou a maçá-lo, com a minha conversa, pois não?
Olhe aqui esta máquina de encher garrafas de champanhe. Já viu alguma assim? Olhe era de umas caves dali de Anadia. Faliram e então comprei-a a um funcionário que a recebeu como pagamento, uma vez que já não havia dinheiro. Mas depois fiquei a pensar e sabe o que fiz? Liguei ao dono das caves e disse: eu tenho uma máquina de encher champanhe, muito antiga, que era da sua adega. Comprei-a a um seu ex-funcionário. Calculo que esteja muito ligado a ela… o senhor quere-a? Vendo-lha pelo mesmo preço que comprei. Não quis. Agradeceu-me muito o gesto. Respondeu-me que ficasse eu com ela. Estava em boas mãos. Fiz bem, não fiz?
Sabe, apesar do que disse atrás, que os objectos são coisas, a verdade é que, quando somos velhos como eu, são muito mais do que isso. É a nossa existência espelhada neles. É como se a nossa vida estivesse retalhada em bocados. Cada peça conta um bocadinho de nós. Olhe esta garrafa de vidro. É linda, não é? É Murano. Comprei-a em Itália, há mais de 20 anos. Fui com a minha ex-mulher. Ainda me lembro do hotel onde ficámos. Éramos tão felizes?!... Enfim… tudo passa!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O ÚLTIMO TRIBUTO A FAUSTO ROSA

(IMAGEM DA WEB)


 A última vez que o vi, embora não tenha certeza, teria sido por alturas do pretérito Natal. Veio oferecer-me uma garrafa de bom vinho. “É do melhor que tenho em casa”, confidenciou-me. “Já não irei beber nem uma pequena parte do que arrumei ao longo da vida”, prosseguia. “Embora beba apenas um copinho à refeição, sempre gostei de comprar um bom néctar!”.
Pelo menos duas vezes por semana vinha visitar-me. Pela mesma hora, sempre por volta das 16h00, já o conhecia pelo ruído das duas bengalas em que se ancorava a baterem no chão de pedra da minha entrada. Então o cumprimento, na sua voz bem timbrada e cristalina, era sempre igual: “boas tardes, senhor Luís Fernandes –nunca me esquecerei do seu nome, tive um grande amigo, já desaparecido do mundo dos vivos, que se chamava assim. Olhe, cá está o chato do costume. Não o estou a aborrecer, pois não?” –às vezes era mesmo chato. Quantas vezes fazia um sacrifício danado para o ouvir. Muitas vezes falava sozinho…acompanhado comigo sem pachorra para o escutar. Lá tentava disfarçar para que ele não desse por isso.
Arranjava-lhe uma cadeira, ele sentava-se e continuava então numa introdução repetida e já minha conhecida: “ acabei agora de almoçar ali no restaurante Mondeguinho, ali na Rua dos Oleiros, está ver onde é? Nem lhe digo…come-se lá muito bem. Olhe que pago 6 euros com tudo incluído. É barato, não é? Mas se visse como se come lá bem?! Já não tenho paciência para fazer comer. Agora estou aqui um bocadinho consigo a conversar…não o aborreço pois não? É que, sabe, já não tenho ninguém com quem trocar umas palavras. Os meus amigos já morreram todos. Sabe que já tenho 88 anos? Nasci em 1922. Depois, quando sair daqui, vou então ver a minha mulher, está internada ali na clínica Fernão Mendes Pinto…já lhe disse não já? Coitada da minha querida. Sabe que não fala, não se mexe, mas quando fito os meus olhos nos dela até parece que os seus olhos sorriem? Todos os dias vou vê-la” –e as lágrimas saltavam daqueles olhos expressivos e derramavam-se sobre os sulcos lavrados do rosto como água a correr  pela encosta abaixo da cercania. “Desculpe…desculpe…não tenho vergonha de o dizer…choro muito. Fui muito feliz com esta mulher. Foi o amor da minha vida. Foi o meu segundo casamento. Do primeiro não fui, mas deste, senhor Luís Fernandes, fui um homem completo. Quando morrer, um dia, levarei sempre esta mulher atravessada no meu coração. A minha alma transbordará sempre de felicidade. Cada um de nós terá sempre na terra o seu anjo da guarda. Esta mulher foi o meu. Não tive filhos, sabe?! Já casámos muito tarde, em 1981. O meu grande amor tem filhos, mas do anterior casamento. Um deles você até conhece, de certeza…é o “Tó Zé”…está a ver quem é? Bom, como sempre, foi muito agradável conversar consigo, mas está a chegar-se a hora da visita lá na clínica. Um dia destes voltarei…posso vir, não posso?”
Como deixou de visitar-me há já vários meses, hoje fui à clínica Fernão Mendes Pinto. À funcionária do balcão interroguei se conhecia o senhor Fausto Rosa, um senhor que tinha ali a esposa acamada.
-Sim, conhecia! O senhor Fausto morreu!
-Morreu?! Interroguei um pouco incrédulo. Parecia estar tão lúcido e, tirando as pernas, bom de saúde?!
-Pois…mas é assim a vida…faleceu?!
-E a esposa? Perguntei.
-Um momento –e clicou no computador. Faleceu também.
Não perguntei, mas não me admira que tivessem morrido na mesma altura e um logo a seguir ao outro. Há amores ligados em cordão umbilical que quando um dos extremos se apaga o outro vai a seguir.
Onde quer que esteja, senhor Fausto Rosa, descanse em paz na companhia da sua amada. Até sempre meu amigo. Gostei de o conhecer.




Meu amor está a morrer,
na clínica da avenida,
parece nem querer saber,
da dor por mim sentida;
Tanta falta que me faz,
sempre, a todo o momento,
nunca mais fui capaz
de recuperar o alento;
Casei já entradote,
tinha já 60 de idade,
ela foi o meu escadote,
para a nossa felicidade;
Ao vê-la ali acamada,
onde só fala o seu olhar,
ao ver-me, fica encantada,
meu coração fica a chorar;
Tenho 87 anos de viver,
27 de luz, de tanto amar,
só gostava de poder
dar a vida, contigo trocar;
Chego a casa, está vazia,
o silêncio é ensurdecedor,
nada ali tem alegria,
falta lá o meu amor;
De que me vale a riqueza,
se me faltas, adorada,
só queria ter a certeza
de que não te falta nada;
Porque casei já velhote,
nunca chegarei a saber,
se foi o destino em sorte,
ou a sorte de te conhecer;
Meu amor, tanto prazer,
me deste no nosso lar,
valeu a pena viver,
para sempre te recordar.



(COMPUS ESTE POEMA EM 2009 E OFERECI-LHO COM DEDICATÓRIA)



Pode ler aqui textos relacionados com Fausto Rosa:


sábado, 1 de março de 2014

HISTÓRIAS CURTAS E MARCANTES

(Imagem da Web)


“De tempos a tempos apercebia-me de que do lado de fora da montra da minha loja ele olhava para mim, que estou dentro, atrás do balcão e à espera de quem não prometeu vir, e nada dizia. Não era um olhar igual a outro qualquer. Era um raio de súplica. Um grito surdo que parecia querer soltar-se das amarras. Como se aquele vislumbre quisesse dizer alguma coisa e desistisse a meio do caminho. Mas eu sou mulher e, em minha defesa calculista, fazia que não notava. E ele voltava novamente outro dia qualquer e permanecia com os olhos fixos na minha imagem. Até que há tempos reparei na sua vacilação, entre o falo ou não falo? E então cumprimentou: “bom dia!”. Cordialmente, respondi da mesma forma. É um homem sozinho, de meia-idade. Veste com simplicidade e reside por aqui, num qualquer quarto da Baixa. Certamente, carrega sobre os ombros o peso de muitos sonhos idealizados e algumas realizações falhadas. Imagino que a sua auto-estima, depois de subir a montanha e atingir o pico, desceu e estabilizou no sopé. Volta e meia passa aqui e, como sempre, saúda. Sinto cada vez mais que a pequena lojeca de bairro, como a minha, é muito mais do que um ponto de compra e venda. É um candeeiro de luz que ilumina corações tristes. É um centro de relações humanas. 
Agora, que já venceu a inibição, se, para além de mim, não estiver ninguém no estabelecimento ele entra e fala da sua vida: “desculpe incomodar, mas não tenho com quem conversar. Sinto-me só, sabe? Já tive tudo, já fui rico, muito rico, e agora vagueio por estas ruas e ruelas como cão escanzelado e sem dono. Gostava que a minha única filha, que está no estrangeiro e não me liga nenhuma, me olhasse pelo que sou, enquanto pessoa, e não pelo que já fui e deixei de ser. É muito triste a solidão!”


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