(Retirado da Web)
o sábado, o penúltimo dia da semana, o ilusório apeadeiro do tempo que, dentro da vida agitada que vivemos, devendo servir de paragem num ciclo de duração imprevisível, na aparência das coisas, corre mais veloz que o vento. O tempo, no modo como o olhamos, corre a par da nossa existência, da nossa idade, do estado de saúde, desde o momento do nascimento, até ao último suspiro. Quanto mais depressa atingirmos o envelhecimento mais nos apercebemos que a nossa vida foi uma oportunidade perdida, no “carpe diem”, no aproveitar o dia num gozo a raiar o bem-estar, a felicidade, vivendo intensamente o presente, sem nos preocuparmos com o futuro.
Sobretudo na Europa ocidental, elegendo o materialismo, ter e mais ter, como zénite e desvalorizando a moral nos princípios e valores, como viciados sem controle sobre a vontade, vivemos focados no progresso tecnológico e na ambição de ter um conforto incontrolável, que nos atrofia e nos torna escravos de um devir. Quando somos novos, sem pensar no tempo que foge, no apogeu, arrogamo-nos ter o mundo na mão e, quase de forma provocadora, deixamos que a movida de fruição nos fuja por entre os dedos. Quando somos velhos, no epílogo da existência, valorizando cada minuto que passa, revemos um passado que não volta mais.
Quanto mais alto atingirmos o Desenvolvimento, mais nos afastamos da mensagem que nos forma o intelecto e nos religa subrepticiamente uns aos outros, da solidariedade, da caridade e repartição, da justiça enquanto virtude universal.
Como nunca aconteceu, a comunicação, enquanto sistema de ligação virtual entre humanos, tomou conta do Mundo, no entanto, pasme-se, num individualismo feroz, vizinhos mal falam entre si, na aldeia, no bairro, na pequena cidade. Cada vez mais o Ser Humano, buscando incessantemente algo que preencha o buraco e o vazio na alma, tornando-se associal e solitário, é menos considerado que um animal de quatro patas.
O desrespeito pela dignidade, o desvalor pelo Direito, Liberdades e Garantias é cada vez mais o dia-a-dia, mesmo em instituições que deveriam ser o azimute.
Depois de divagar sobre o etéreo, vou recomeçar sobre o que me levou a escrever.
Razão terão os judeus em guardar o Sábado como dia semanal sagrado e de santificação. Desde o pôr-do-sol de Sexta-feira até ao pôr-do-sol de Sábado. É um dia para parar de trabalhar, focando-se na oração, família e estudos da Torá (Livro Sagrado do Judaísmo).
Foi num destes Sábados, juntamente com a minha mulher, estávamos sentados no café da cidade que frequentamos, pelo menos, um dia por semana. Era uma hora de acalmia. Só três ou quatro mesas estavam ocupadas com clientes.
Uma mulher, nova, declaradamente de Leste, e com uma barriga demasiado pronunciada a indicar ser fingida, com saia comprida e lenço na cabeça, depois de entrar, dirigiu-se à nossa mesa, estendeu uma das mãos em concha e com a outra fez um movimento junto à boca – a querer indicar que a moeda se destinaria a colmatar a fome. Convidámo-la a comer uma sandes ou um bolo. Recusou. Com gestos e arremedos de espasmo, mostrou que só o dinheiro dava jeito. Negámos, e ostensivamente virou-nos as costas, Seguimo-la com o olhar. A resmungar, dirigiu-se a uma outra mesa onde estava sentada um senhora de cabelos brancos. Comentei com a minha mulher que a “pedincha”, provavelmente, iria ali dar o golpe. A anciã, que estava a tomar o pequeno-almoço, curvou-se para retirar o porta-moedas. A mulher de leste curvou-se também e entornou um copo com café e leite sobre a mesa. A cliente, um pouco atarantada, chamou o empregado e, dando uma moeda à prevaricadora, pediu outro galão.
A intrusa, fitando-nos com ar de vitória ao roçar a nossa mesa, transpondo a porta de saída, desapareceu na rua, que a engoliu numa mistura de gentes de várias cores.
Mais tarde, ficámos a saber que, como arte de mágica bem ensaiada, a anciã viu desaparecer 200,00 € que tinha acabado de levantar no Multibanco.
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