domingo, 11 de dezembro de 2011

UM JANTAR DE COMERCIANTES COM CHEIRINHO A NATAL




 Ontem, Sábado, o bonito e enorme Salão Brazil foi pequeno para acolher a gentileza de uma vintena de comerciantes que, num encontro espectacular, largando as imensas preocupações de um ano difícil que se avizinha, numa simplicidade estonteante, todos se sentaram em torno de um objectivo comum: confraternizarem em paz e na esperança de um amanhã melhor.
Quem ali esteve não estava preocupado se o custo de 10 euros pesava no orçamento ou não. Tão pouco lhe importava se o entrecosto era de porco ou de porca. Isso são especulações teóricas de somenos. Estavam ali não pelo jantar, mas pela oportunidade –tão poucas vezes têm acontecido- de conviverem uns com os outros. Ali, naquela imensa mesa comprida -bem assessorada pelo Telmo, o dono do restaurante- ninguém queria saber, em coscuvilhice, se o vizinho  está bem de vida e no próximo ano ainda poderá passar férias nas Maldivas ou está de tal maneira à rasca que paga sempre a factura da electricidade já com aviso de corte. Estavam ali todos juntos da mesma forma que se está num barco a atravessar um rio cheio de jacarés. Todos partilhavam o mesmo sentimento: um por todos e todos por um.
Lá no princípio da mesa, de vez em quando, o Guilherme Pinto coçava a cabeça –já com poucos cabelos, diga-se a propósito. Ao lado, o Armindo Gaspar mexia na orelha. Logo a seguir o Arménio Pratas fazia um trejeito no pescoço. O Pedro –da Xangai, como é carinhosamente tratado por todos- ora içava os ombros, ora os baixava, assim como se lhe estivessem a fazer cócegas. O Hélder remexia a perna. O António Manuel passava a mão na barriga, como se estivesse maldisposto. O jovem Daniel Quintans olhava para o tecto, talvez à espera de lá vislumbrar uma oportunidade futura. O Quirino coçava o nariz. O Francisco Veiga, sem grande dificuldade, ria por tudo e por nada. O Quim “da ourivesaria”, no dia-a-dia sempre hirto e firme, ali estava distendido e de vez em quando até sorria como se lhe tivesse passado ao de leve uma pena num ouvido. O Armando Pereira olhava para um  copo de tinto da mesma forma que um gato olha para um rato: "ai, se te apanho!". O Jorge “do quiosque”, desconfiado de que ali andava coisa, olhava em frente e para o lado.
E de facto andava mesmo –mas só eu sabia. Era o espírito do velho Juvenal que, perante tantos conhecidos não parava quieto de contentamento. Era como se ele, ao fazer tropelias aos visitantes e fazendo-os rir, estivesse a dar as boas vindas e a recordar com saudade os idos anos da década de 1970. Era como se ele, em sussurros, proclamasse: “olha os meus amigos! Há tanto tempo que não vos via! Mas vocês estão velhos, caramba! O que o tempo faz às pessoas! Ainda me lembro quando vocês eram putos e me pediam para fiar um bolo. Coitados de vocês… estão mesmo velhotes!” –e fazia mais umas  cócegas num deles. E eu a topar tudo. Eu seja ceguinho se não me apeteceu ralhar com o raio do velho. Mas, que diabo!, eu fora um dos que ele, há muito tempo, várias vezes me confiara um café e um bolo por não ter dinheiro. Então, como é que eu ia admoestar o velhote? Foi difícil de me conter, lá isso foi, sobretudo quando ele começou a trautear em silêncio: “és tão boa!... és tão boa!”. Claro que eu sei a quem é que o marmanjo estava a dirigir o piropo mas não posso dizer. A muito custo, lá desvalorizei a coisa. Primeiro, porque acho que ele tinha razão, segundo, que diabo, o homem podia ter morrido há muito tempo, mas uma bela mulher até ressuscita um morto, é ou não é? E não disse nada, pronto!

E DISCURSO, NÃO OUVE?

 O tão esperado discurso apresentado pelo Armindo Gaspar, enquanto presidente da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra que convocou o jantar, é que não ouve. Não se sabe muito bem porquê. Das duas uma: ou seria pelas saudades da mulher amada –já que a esposa não estava presente- ou então quererá dizer que não será candidato ao cargo futuramente.

E MÚSICA, OUVIU-SE?

 Como habitualmente –já que este foi o primeiro jantar, não sei se estão a ver- actuou o reconhecidíssimo –sem ninguém conhecer- duo “Luizinho & Armandolas”, um par de músicos muito famosos, sem ninguém saber quem são, aqui no Centro Histórico. Como também já vem sendo hábito, mais uma vez foram traídos pelo som. Como quem diz, má som ter nascido artista aqui na Baixa.
Por um gajo que estava lá na mesa, mas até se me varreu o nome, foi lida também a história do “SENHOR (DES)VENTURA). Que coisa tão sem jeito. Admite-se um gabiru daqueles levar uma coisa triste daquelas para um jantar que deveria ser só de alegrias? Mas que querem, ainda se apanham cenas tristes assim. Mas, nem sei porquê –certamente só por favor, só podia ser-, a verdade é que todos bateram palmas. Vendo bem as coisas, nem entendo esta minha admiração: ovacionaram porque era uma coisa tristonha, está de ver! Quem é que resiste ao fadinho desgraçadinho?

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