quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

BAIXA: O HOMEM DO CARTAZ AO PEITO





Tenho órgão avariado. Preciso dinheiro para comer

É quinta-feira deste Janeiro que teima em ser sempre o primeiro mês de outros anos que se irão seguir. Os ponteiros do relógio da cabra, na torre da Universidade, como se estivessem a copular para gerar um novo tempo horário, marcando meio-dia estão encavalitados um em cima do outro. A manhã cinzenta, oscilando entre uma luminosidade envergonhada e uma chuva copiosa e acompanhado com uma aragem fria que se entranha nos ossos, faz-nos taciturnos, introspectos e põe-nos a pensar na vida. Como se percorressem um caminho em busca de um mundo melhor e encontrar o Portugal encantado de que fala o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, os transeuntes, como autómatos, que calcorreiam as ruas da cidade baixa parecem alheios a tudo o que os rodeia e seguem um traçado por si definido anteriormente.
Na esquina da rampa que dá acesso à farmácia Universal, em frente à Câmara Municipal, e paredes-meias com a vetusta Igreja de Santa Cruz, Panteão Nacional onde repousam os nossos primeiros reis, um homem, com um copo vazio de plástico em riste, a fazer lembrar a espada de Dom Afonso I, parece com essa posição afoita e provocatória atentar contra a indiferença de quem passa. Se a performance teatral se resumisse a esta posição de tentar sensibilizar os duros de coração, mais que certo, ninguém repararia no quadro cénico. Era apenas mais um cego a pedir uma moeda para complementar um magríssimo rendimento mensal vindo dos cofres da Segurança Social. Mas não, o pedinte tinha um cartaz ao peito que, escrito a marcador, transmitia o seguinte:
Tenho órgão avariado. Preciso dinheiro para comer
Mesmo assim, apesar do apelo ambíguo poder fazer remeter para outra necessidade masculina que se remedeia com Viagra, ninguém pareceu interessado na mensagem do Luís Cortez, um conhecido músico de rua destes becos e ruelas medievais. Um rosto nosso (des)conhecido.
Por conseguinte, se não há quem ligue a um pedido que foge ao vulgar das palavras soletradas com ênfase “uma moedinha, por amor de Deus, Senhor”, e rematada com o apologético “Deus lhe pague, Senhor!”, ligamos nós. E porque o fazemos? Pode interrogar o leitor. Por sermos bonzinhos da silva? Por procurarmos, com os nossos actos terrenos, garantir uma suite de luxo no Céu? Para procurar impressionar e ganhar protagonismo? Sei lá?!? Se calhar um pouco de tudo isso. Mas uma coisa sabemos, como azimute que aponta o norte, enquanto detentores de um instrumento de comunicação, que é a escrita plasmada no blogue, sem formularmos pré-juízos de valor, temos obrigação de elevar o queixume do desafortunado, do carecente de afecto, e, com a nossa forma por vezes romanceada, desencadear um sentimento público que leve outros anónimos a minorar o sofrimento de quem padece. Por vezes, uma pequena moeda dada com amor pode ser extremamente importante para quem não tem um único cêntimo, nem sequer para beber um café.
Mas, vamos lá ao que interessa. Afinal o que aconteceu ao Cortez para o seu órgão deixar de funcionar? Responde lá. Conta tudo, Luís!
O meu órgão apanhou água e ficou sem conserto. Como o senhor sabe, é o meu ganha-pão. É com os seus acordes acompanhado das minhas cantorias que realizo o complemento da minha reforma por invalidez, que é de 350.00 euros. Sem estas pequenas moedas não consigo pagar a renda da minha casinha em Zouparria do Monte e comer. A minha Fátima está desempregada e recebe apenas 183.00 euros de RSI, Rendimento Social de Inserção. Agora sinto-me amputado dos dois braços -o membro superior esquerdo balouça acima do cotovelo. Precisava que me auxiliassem para poder adquirir um instrumento. Até poderia ser um já muito usado e que esteja arrumado num qualquer sótão esquecido. Não necessita de ser um grande instrumento. Precisa apenas de me ajudar a desempenhar a minha função. O senhor acha que alguém vai me ajudar?”

6 comentários:

www.anildo-motta.com disse...

Sinceramente, impressiona-me uma pessoas como esse rapaz, que vi durante um longo tempo em que vivi em Coimbra tocando e ganhando a sua vida honestamente, não conseguir sensibilizar as pessoas principalmente os comerciante, no sentido de colaborarem para a compra de um simples instrumento que não deve passar dos míseros 150 euros, levando em conta a ajuda que daria a esse ser humano, dando condições para levar uma vida minimamente digna. É inacreditável a assustador saber que essas situações possam ser consideradas banais ao ponto desse rapaz não conseguir realizar o seu desejo que se resume em um simples instrumento e sofrer mais ainda essa falta e humilhação. Não haver instituições que se sensibilize com essas situações. Em fim, se for organizado algum peditório para esse fim, gostaria de ser informado. Obrigado. anildomotta@hotmail.com

Daniela Haudek disse...

Como posso entrar em contacto com o sr? talvez possa ajudar!

Arsénio Facas disse...

Alguém que organize uma colecta que estou na disposição de contribuir.

Unknown disse...

Este tipo, é um autentico atentado gerador de poluição nas ruas de Coimbra. Este tipo é um grande aldrabão, o que ele quer é dinheiro para ele e a companheira alcoólica comprarem pacotes de vinho no mini-preço da baixa e comida no rei dos frangos, não é que eu seja cliente habitual destes locais , mas as poucas vezes que passo por lá é habitual, assistir a este ritual, ....

Isagui disse...

Conhece a história deste senhor?
Sabe como perdeu o braço? Foi a trabalhar...e antes era um músico a quem lhe viraram as costas.

LUIS FERNANDES disse...


Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "BAIXA: O HOMEM DO CARTAZ AO PEITO":


Deserteza k não u kenheces bem nem mal,a pessoa k t refers só pode ser mesmo a miséria da tua mãe ou á porkaria do teu pai desses sim.... Deves ter vergonha ,pois derao á luz um monstro sem kuaraçao k es tu. Em fim ,triztesa....