segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O ENCERRAMENTO DA FEIRA DAS CEBOLAS, VISTO PELO "OLHO DE LINCE"




 Estava eu descansadinho no Sábado na fila do cinema. Deveriam ser para aí umas 20H50, quando toca o meu telemóvel. “ó diabo! Quem ligava aquela hora só poderia ser para me chatear”, pensava, enquanto calmamente retirava o invasor de privacidade. Até porque, fosse lá quem fosse, estava aborrecer-me duplamente. É que estava concentrado naquela cota, boazona, que estava mesmo ao meu lado. Aquilo era mesmo um monumento. Por acaso, a talhe de foice, não percebo esta moda de andarem para aí a classificar tudo como “Maravilhas da Natureza” e ninguém se lembra da suprema beleza, como esta mulher que eu apreciava, quase a babar-me todo…ai, Jesus! O meu Criador que não se esqueça de mim nestas horas de aflição! Ai, meu Salvador, que se me atormenta cá com uns calores!
 Tirei então o telemóvel –acho muita graça. Hão-de reparar: se estivermos num aglomerado de pessoas e tocar um portátil, é um gozo ver toda agente a apalpar os bolsos e as carteiras a pensarem que é o deles que está a ritmar. Não sei se estão a ver aquele anúncio de há anos, quando o pastor, rodeado de um grande rebanho, recebia um telefonema. Perante o toque, as ovelhas ficavam todas em sentido. Depois o pastor dizia: “ É p’ra mim! Estou “xim!”. Quando me acontece receber uma chamada, e em que estou rodeado de pessoas, e estas agem num seguidismo igual às ovelhas, naquela cara de parolo, só me apetece abrir os braços e exclamar: “é p’ra mim!”.
 Bom, continuando, tiro então o telemóvel do bolso, miro o visor e olé!, olha quem é ele: o director do blogue, o Luís Fernandes. Mau, mau! Atendo.
-“Olho de Lince”? Daqui fala o seu director…
-Eu vi chefe. Para começar, boa noite! Eu tenho o seu número gravado…infelizmente. Mas qual a razão de não me ter enviado um bip? É pá, se calhar é bom sinal. Para estar a utilizar o telemóvel, deixe-me ver, isso significa que já há dinheiro e que posso contar que me vai pagar os 12 meses que me deve de ordenados em atraso…
- Ó “Olho de Lince”, por favor, tenha maneiras. Deixe-se de merdas que não interessam nada para aqui. Preciso que você vá fazer a cobertura noticiosa à “Feira das Cebolas”. Hoje é o encerramento…
-Ó chefe, vamos lá com calma que isto não é “chegar e encher”. Primeiro, estou para ir ver um bom filme. Segundo, não ficou assente, ontem, que era você que iria fazer a reportagem?
-Pois foi. Lá isso foi, mas acontece que depois da carta que escrevi no Diário de Coimbra, a dizer que esta feira é uma vergonha, não sei se está a ver, posso ser recebido com má vontade…
-Estou a ver, chefe: você está é com medo que lhe cheguem a roupa ao pelo…
-Ó “Olho de Lince”, tenha educação, que falta de respeito é essa? Eu estive no Ultramar, está a ouvir? Eu lutei, corpo-a-corpo, contra cinco pretos…
-Está bem abelha! Poupe-me, ó chefe, eu já ouvi essa história 599 vezes…
E pronto, depois de mandar o filme às malvas –que remédio?!-, cheguei à feira das cebolas eram para aí quase 22 horas. As poucas cadeiras que foram colocadas em frente ao palco estavam todas ocupadas. Bom, como sempre, já estou habituado, não há respeito pela imprensa. Lá vou ter que ficar em pé. Estava eu a rebater estes pensamentos, quando vi chegar a vereadora do pelouro da Cultura, Maria José Azevedo, acompanhado com um senhor já entradote na idade, que parecia o meu avô Crispim. Foi então um corrupio de pessoas a trazerem umas cadeiras  brancas de plástico para a comitiva cultural se acomodar na primeira fila. Enquanto ajeitava a minha máquina de “bonecos” ia pensando que a nossa imprensa local não liga nada à presença da nossa mais que tudo na cultura. Como hei-de dizer? A nossa Mona Lisa do museu da Praça 8 de Maio. Sim, porque a vereadora da cultura, não fica a dever nada à beleza da mulher da Renascença e pintada por Leonardo da Vinci. Aliás, se querem saber até gosto mais do sorriso sem o ser, assim a meio rir, da nossa vereadora. Nem sei se, atentando bem, se a “Gioconda” não será mesmo uma cópia da Maria José. Bom mas essa discussão, para aqui não interessa nada. Dizia eu que perante um membro do governo local na Baixa –que é um acontecimento extraordinário-, não deveria ser obrigação da imprensa cá da terra estar a tirar uns flashes à entrada da Maria José no recinto? Era ou não era? Pois era…mas não foi. Ninguém lhe liga. Isto é a reacção, ou melhor, a oposição a manobrar os cordelinhos…só pode! Claro que a mim, que sou como a voz de trovão do Alegre, ninguém me cala ou detém. Ah, pois! Isso é que era bom!
O único fotógrafo credenciado a fazer uma foto foi cá o rapaz –que por acaso, até tirei de longe, para não chamar a atenção do problema que acabei de falar. É que apesar da vereadora da cultura não me ligar nenhuma eu gosto dela, pronto. Faz-me sempre lembrar as duas horas que estive na fila, no Museu do Louvre, para ver a pintura do Leonardo.
 Então, já passava praticamente meia-hora das 22 horas –hora a que presumivelmente deveria ter principiado-, cá atrás já se formava uma grande molhada de pessoas em pé, foi então que se começou a ouvir uma voz: “estamos prestes a começar o espectáculo, houve uns pequenos problemas…”. Só queria que vissem, toda gente a esticar o pescoço para ver se viam o mensageiro da mensagem de desculpas, não sei se estou a ser claro. Mas qual quê? Do apresentador nada. Eu, que até sou um repórter vivido, comecei a ficar arrepiado, assim com pele de galinha. Queres ver que é um espírito? Comecei a interrogar-me. Mas, por acaso, até fiquei mais descansado, comecei logo a ver que, às tantas, era o “Espírito do Carvalho” –não devem conhecer, mas é um nosso colaborador mediúnico que, como andou por cá em vida de jornalista, agora que as finanças do blogue estão mais rotas que uma sola gasta, sempre que é necessário, ajuda a cobrir eventos.
Foi então que vimos que o apresentador era o acompanhante da vereadora da Cultura, aquele que eu disse que parecia o meu avô Crispim. Foi um momento único, aquele. Quando as pessoas descobriram que era um humano que estava a apresentar, na velha praça ouviram-se exclamações de contentamento. Não sei se estou a conseguir ser claro, mas foi assim um arfar colectivo…”ahhh…ahhh”. Foi como se a Virgem decidisse aparecer ao vivo e a cores junto à igreja de São Bartolomeu.
Então o homem falava, falava…mas de costas para o público. Ai mas que lindo! Foi espectacular esta nova forma de apresentar um acto alegórico! Aqui é que se vê originalidade.
 Então, já depois de meia-hora de espera, e de pacientemente se ouvir a explicação do apresentador, lá entrou em palco um grupo de folclore espanhol, mais precisamente da zona de Toledo. Mais uma vez assistimos à tradução da língua de Cervantes para português, feito por um jovem dos “Camponeses de Vila Nova”, e também com este de costas para o público. Espectacular! Esta nova forma de apresentação, de certeza absoluta, vai fazer história no futuro.
 Quando o rancho típico da Estremadura espanhola terminou a sua actuação, para lhe apresentar um agradecimento público, subiu ao palco o apresentador. Ficámos então a conhecer o detentor da “voz” –“the voice”, como se diz em americano, acho eu- e também a saber que se tratava do ensaiador dos “Camponeses de Vila Nova”. E veio então o segundo momento da noite. Lindo, lindo, lindo.
O ensaiador começou por agradecer a prestação de “nuestros hermanos”. A seguir disse: “e agora, chamo aqui a senhora vereadora da cultura para dizer umas “coisitas” sobre a feira”. Sublime esta forma simples de declamação. Continuou o homem: “houve umas pequenas escaramuças sobre a feira, que não causaram qualquer efeito. Cada um é livre de expressar a sua opinião” –aqui, desculpem lá mas não pude deixar de esfregar a minha barriga de regozijo. Esta farpa era endereçada directamente ao Luís Fernandes. “Bem feito! Repeti eu mentalmente até à exaustão”. Eu seja ceguinho se não me apeteceu levantar os braços e gritar: “dá-lhe aí, Silvano! Dá-lhe com força, “catano”!”. Gostei mesmo deste momento. Ai se gostei! Quem manda o raio do “magano”, do director Fernandes, andar para aí a escrever contra a feira? Se toda a gente diz que está bem é porque está mesmo bem. Por que raio anda o caramelo a dizer o contrário? Eu não sei bem, mas cá para mim, este gajo é comunista. Ai de certeza absoluta. E mais: não era o Salazar que espalhava que os vermelhos comiam meninos ao pequeno-almoço? Pois! Ora este gajo, este Luís, anda a comer a Rosete –é uma jornalista estagiária cá do blogue… uma menina! Querem maior prova? O salafrário come a menina ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar. Este gajo tem mesmo de ser comunista…sei lá! Se calhar, por esta forma sôfrega de comer tudo, deve ser também comodista, canibalista, assim no género.
Por acaso adorei esta parte. O ensaiador estava carregado de razão. Porra! Não é com vinagre que se apanham moscas. Não é a reivindicar que se mama. Aquilo foi uma lição de vida! O que eu não percebi foi a Maria José, a vereadora: então não é que em vez de cascar lá no banditote Fernandes, assim naquela voz de solista renascentista, foi dizendo “a feira precisa de inovação…necessita de se renovar”. “C’um caraças, esta não percebi -mas também quem é que percebe um político partidário?-, então a senhora da cultura não deveria ter aproveitado para calar estas bocas que só dizem asneiras como o Fernandes? Até tive alguma pena do apresentador. Porra!, isto não se fazia! Bom, mas lá vai. Continuando, mais uma vez naquela simplicidade que adoro, disse o ensaiador, para o grupo: “e agora a vereadora vai entregar a vocês uma “lembrancita”. Isto não é lindo? Ai, pois é!
 Chegou a vez do rancho “Rosa do Lena” entrar em palco. Tudo muito bem acertado, e com um visual fantástico. O problema é que o ensaiador deste grupo da zona de Leiria começou a jogar pingue-pongue com o mestre das danças do rancho “Camponeses de Vilanova”. Foi lindo. Com a raquete, num ataque de lisonja bem puxado, dizia o primeiro: “esta obra grandiosa, este espectáculo, deve-se ao meu amigo Silvano”. Este que também estava ali para ripostar, não era de modas, puxa da raquete e toma lá, que aqui vai disto: “o meu amigo do “Rosas do Lena” é um exagerado…ele é que é bom!”. E ali ao lado, a Maria José, a vereadora da Cultura, assistindo a este driblar de encómios, ensaiava um bocejo finíssimo, como só um político sabe.
Estavam então todos os espectadores concentrados, ora nas danças do rancho do Lena, ora no pingue-pongue entre os dois ensaiadores, quando, de repente, pareceu que caiu um ovni ali na calçada. Só se viam os homens a virarem a cara para o lado. E os dois ensaiadores, sem se aperceberem do que se estava a passar lá continuavam na ladainha. Só se viam as mulheres a puxarem por um braço de todos os seus acompanhantes, mas qual quê? Lá queriam eles saber da música do rancho ou das mensagens dos mestres. O que estavam a presenciar era um milagre único da natureza. Aquela mulher de negro, abraçada a um tipo de chapéu, prendeu toda a atenção. Cabelos compridos, uma carita assim assim –que nos casos destes prodígios o rosto pouca interessa-, uma saíta que deveria medir pouco mais de um palmo, deixando ver umas pernas melhores que a Sharon Stone, no filme “Atracção Fatal”, ainda antes desta se ter transformado numa múmia, não sei se estou a ser claro. E não era só isto, a montra, meu Deus!, era complementada por dois melões que pareciam virgens e colhidos há pouco em Almeirim.
Entretanto, começou a ouvir-se um estardalhaço de copos partidos, em frente ao restaurante “A Taberninha”, não se sabe se teria sido algum matulão que se colocou à frente do homem, e que estava a tapar as vistas para aquela Vénus de Milo, a verdade é que ele ficou irritado. Nunca se tapa um cenário destes, porra!
Ainda está para se saber se foi por causa disso, mas, às tantas…

1 comentário:

Jorge Neves disse...

Sem duvida, para mim os jornais locais estão amordaçados.