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sábado, 1 de maio de 2010

O VELHO CAFÉ DO TEATRO AVENIDA

(FOTOS DO INTERIOR DO VELHO CAFÉ COM O "TAXEIRA" A POSAR PARA O FOTÓGRAFO)


  "Chamo-me Lurdes Almeida. Em 1954, tinha eu então 18 anos, fui trabalhar para o café do Teatro Avenida, em Coimbra. Havia pouco tempo que fora tomado de trespasse pelos meus pais. A minha mãe, Preciosa, era padeira na padaria “Bijou”, na Avenida Sá da Bandeira, quase em frente ao velho animatógrafo.
 Foi tudo um acaso. Quem abriu o café foi o Abraão da Cruz, que era o projector da velha casa de espectáculos, desaparecida no início da década de 1980. Não sei se se lembra dele… andava sempre com um periquito no ombro. Então foi tudo uma sucessão de acontecimentos. Como a minha mãe distribuía o pão de porta-em-porta na cidade, naturalmente, tinha muitos calotes. Como as pessoas ganhavam mal ela ia fiando. Um dos relapsos era o Abraão, que já lhe devia à volta de 20 contos. O negócio do café estava a correr-lhe mal. Estava afogado em dívidas. Já se tentara matar uma vez, mas como era muito gordo e a corda era fina, esta, para sorte dele ou não, rebentara.
 Então, um dia, chegou ao pé da minha mãe e disse-lhe que ela tinha de ficar com o café. Era a única forma de lhe pagar os 20 contos. A minha progenitora, que não percebia nada de hotelaria, ainda tentou resistir ao negócio, mas o Abraão foi taxativo: “se não negociares comigo mato-me”! É claro que a minha mãezinha ficou dividida. Se aceitasse o negócio, por um lado, seria ressarcida e, por outro, também evitaria uma possível tragédia. Sabe-se lá se, desta vez, o experimentador de suicídios não escolheria uma grossa corda?
Então, para não ficarem com a consciência pesada, os meus pais fizeram negócio com o Abraão. Embora já houvesse um compromisso com o “Pinto de Ouro”, que foi entretanto para Santa Clara, logo a seguir à ponte de ferro, que ligava as duas margens, um pouco à frente da “Casa da Ponte”.
A renda do estabelecimento era paga à família Mendes de Abreu.
O café estava uma vergonha. Parecia uma tasca. O lixo chegava ao tecto. Os meus pais limparam tudo, pintaram, fizeram uma renovação completa. Como eu estava desempregada e o meu irmão “Zé” Lopes, que era electricista de automóveis, também, fomos os dois trabalhar para o café, juntamente com os meus pais. Mais tarde o meu irmão “Zé” arranjou emprego na “Guerin” e foi para lá como electricista. Fiquei então ao leme do velho e querido estabelecimento, embora fosse assessorada pelos meus pais.
 Passados dois anos, tinha eu então 20, vim a conhecer o meu marido. Era um espectáculo de homem. Só queria que visse. Era muito culto. Gostava muito de cinema, de fado, de revista e de tudo o que se relacionasse com a cultura. Passados sete meses de nos conhecermos casámos na igreja de São José. Não foi nesta nova… foi na outra velha. Depois de casada eu continuei a trabalhar no café.
 Aquele ambiente era espectacular. Sabe lá! Eram tempos miseráveis, a gente sabe, mas eram outros tempos. Tenho muita saudade! Era muito frequentado por estudantes. Quando havia as trupes, os rapazes das capas e batinas chegavam a dormir lá de noite em cima das trouxas de roupa suja para não serem rapados. Quando saíam logo de manhã, depois de abrirmos o café, era uma dor de alma verificar que a trupe estava cá fora à sua espera. Tinham passado a noite ao relento para estarem à coca deles. Acabavam por os apanhar e “davam-lhes nas unhas”. Estas trupes eram constituídas por um grupo de três ou cinco estudantes já veteranos.
Qualquer universitário podia pedir ajuda. Bastava que um qualquer futrica –não estudante- lhe pusesse um braço sobre o ombro para o rapaz das sebentas ficar imediatamente protegido e não ser rapado. Aquilo era uma violência, você sabe lá? E quando a Académica perdia? Só podiam ser protegidos por familiares. Era a chamada “protecção de sangue”.
 Em frente ao café do Teatro Avenida, do outro lado da Avenida Sá da Bandeira, havia uma casa de estudantes. Então estava lá um sobrinho daquele médico –ai!, como é que se chamava?- que fez um aborto e foi denunciado por uma enfermeira… não está a ver quem era? Bem, agora não me lembro, mas não interessa nada! Sei que o pobre clínico, que era uma alma generosa, por causa do aborto, foi deportado por Salazar para África. Então, por causa disso, o sobrinho era vilmente perseguido pelas trupes. Coitadinho! Tantas vezes o protegi. Até diziam que a Lurdes do Avenida era a sua madrinha.
Lembro-me de tantos actores e actrizes que passaram no velho teatro Avenida. Recordo-me do Henrique Santana, da Laura Alves, do Camilo Oliveira, do Raul Solnado, do Humberto Madeira, da Simone de Oliveira –e até daquela fase em que ela perdeu a voz-, da Hermínia Silva, do Vasco Morgado, do António Calvário... ai este, coitado! No fim do espectáculo, sempre que ele vinha a Coimbra, os estudantes queriam bater-lhe. Como ele se apresentava no palco de camisas aos folhos, rendinhas e de lacinho às bolinhas. Esperavam-no cá fora e, aos gritos, “paneleiro”, vai para Lisboa", não paravam de o apupar. Os futuros doutores eram maus. Eram peste! Pobre homem! Às vezes tinha de sair por uma porta lateral. Eu conheci essa gente toda. Era a minha mãe que fazia o jantar para esses artistas todos.
 Até o “Taxeira” –Raul dos Reis Carvalheira, que viu o seu nome ser perpetuado numa rua da cidade-, que era uma figura típica de Coimbra, andava a vender o “Ardina”. Chegava ao pé dos estudantes e, na sua voz cavernosa, dizia: “moedinha, ó sócio!”. Era uma figura assídua do café. Sempre que ouço falar dele ou vejo a sua fotografia, sou transportada numa longa viagem temporal. Fico sem palavras para aquela imagem. Só me apetece chorar.
 Lembro-me, em 1969, da crise académica. Um GNR, um Guarda Nacional Republicano, muito corpulento, de voz abrutalhada, ordenou-me: “tem de fechar imediatamente. A partir de agora não se sabe o que pode acontecer”. Mas eu mantive o meu café aberto, escondi alguns estudantes da polícia e não aconteceu nada.
 Estive 26 anos no café do Teatro Avenida, em Coimbra. Por volta de 1980, passados poucos anos a seguir ao 25 de Abril, fui chamada por um senhor que trabalhava num banco –que já não me lembro do nome. Disse-me que eu tinha de abandonar o café porque o velho teatro iria entrar em obras. Argumentei que os meus pais tinham pago trespasse, mas ele invocou que não podia ser. Aquele café só estava concessionado. Mostrei-lhe o papel, ele pegou-lhe, disse para o deixar e nunca mais mo entregou. Cheguei a ir falar com a Dona Judite Mendes de Abreu, mas ela também corroborou que o café estava apenas concessionado e, portanto, teríamos mesmo de sair. Olhe, saímos com uma mão à frente e outra atrás. Entretanto foi tudo demolido e o novo projecto deu lugar a um grande centro comercial. Do meu querido café, do amor da minha mocidade, nem uma pedra restou. 
Ainda hoje evito passar lá. Começo logo a chorar. É como se os fantasmas da minha memória, em fluidos, saíssem disparados daquele espaço e me viessem atormentar. Ai que saudade, meu Deus!"


*TEXTO ESCRITO PARA A "FÁBRICA DE HISTÓRIAS" SOB O MOTE "PALAVRAS PARA UM A IMAGEM".
http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/47477.html

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O TEATRO EM COIMBRA: UM DRAMA SEM FIM

O Teatrão, companhia de teatro sobejamente conhecida em Coimbra, com provas mais que dadas em prol da cultura, apresenta no Museu dos transportes (MT) o seu último espectáculo cénico “O Círculo de Giz Caucasiano”, com encenação de Marco António Rodrigues. Citando o blogue “Questão Coimbrã”, do meu amigo Paulo Abrantes, “tudo perfeito se não fosse a temperatura ambiente do Museu dos Transportes. Frio. Muito Frio. Melhor gelado. O Teatrão teve de pedir cobertores emprestados ao exército para aquecer os seus espectadores. O aquecimento a gás é insuficiente para tornar o MT um espaço habitável para a criação e representação teatral. Esta companhia continua a fazer o seu trabalho em condições miseráveis e pouco dignas para uma companhia profissional; uma pequena sala de administração e outra de ensaio na grande Oficina Municipal de Teatro (OMT) e mostra as suas peças no MT. O MT foi adaptado para servir apenas a Coimbra-Capital Nacional da Cultura 2003 e disponibilizado ao Teatrão, enquanto a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) não resolve o problema cancerígeno que tem com a “Escola da Noite”-Grupo de Teatro de Coimbra, é uma associação sem fins lucrativos, reconhecida como Instituição de Utilidade Pública desde 1998. Enquanto companhia de teatro tem mantido vivo um projecto de criação artística e de teatro profissional para Coimbra –pode ler-se no seu site da Internet.
Continuando a citar o Blogue “Questão Coimbrã”, “O protocolarmente combinado (entre a Escola da Noite e a CMC) foi: a Escola da Noite passar para o Teatro da Cerca e o Teatrão ocupar o MT para, definitivamente, ter condições para içar a sua programação diversa e variada dentro da área teatral.” – Segundo o JN, de 10 de Outubro de 2007, lembro que “o Teatro da Cerca de S. Bernardo, situado no Pátio da Inquisição, foi projectado em 1999, para assegurar a criação de instalações adequadas à Escola da Noite. (…) O Teatro foi concluído em 2006, mas está novamente em obras, em virtude de terem sido detectadas falhas nas portas de entrada e no ar condicionado, entre outras.”
Continuando a citar o “Questão Coimbrã”, enquanto o diferendo não se resolve a grande prejudicada não é só a Escola da Noite. É, com toda a certeza, o Teatrão também.”
Retomando o meu espaço, e deixando de fazer mais citações, assim como também não entrando em juízos de valor, acerca de quem é a culpa, referirei que é inconcebível o que se está a passar no Museu dos Transportes com a nossa muito estimada companhia de teatro Teatrão, obviamente, não excluindo as outras. Devo lembrar que no princípio deste ano de 2007, no shopping Avenida, na Avenida Sá da Bandeira, encerraram duas boas salas de cinema – o contrato de utilização pertencia a Paulo Branco. Estas salas, presentemente, encontram-se encerradas e, devido ao desaparecimento do cinema, este Centro Comercial está moribundo, em morte clínica anunciada, com muitos lojistas a fazerem contas à sua vida futura. Assim sendo, admite-se que o Teatrão esteja naquelas condições? De quem é a culpa? Será que ninguém viu isto? Trata-se de juntar o útil ao agradável. Não quero entrar em condenações fáceis, mas às vezes passamos o tempo a lamentar-nos. Será do fado? Se é, venha o Quim Barreiros. Porra para isto!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

LEIA O CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS...



Leia aqui o CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS desta semana.

Na página "OLHARES... POR COIMBRA E PELO PAÍS", na rubrica "NÓS POR CÁ..."  leia  o texto "SEGUNDO ESTUDO PRÉVIO PARA ELÉTRICOS EM PRESPETIVA" e "COIMBRA, CIDADE MADRASTA PARA FEIRAS".
Na rubrica "OLHAR PARA SUL..." pode ler a crónica "O CINEMA DE LUTO E O RENASCIMENTO DO TEATRO"


"NÓS POR CÁ..."


SEGUNDO ESTUDO PRÉVIO PARA ELÉTRICOS EM PRESPECTIVA

No dia primeiro de abril, Dia das Mentiras, escrevi este texto no blogue. Embora com um certo ar zombeteiro, nesta crónica contava que, juntando a um primeiro estudo anunciado e com percurso para a margem esquerda, iria ser discutida a possibilidade de haver um novo itinerário a abranger toda a Baixa e apanhando o lado direito do Mondego. Por entender que fará sentido abrir esta discussão, tomo a liberdade de o publicar mesmo, antecipadamente, dando a conhecer o seu teor irónico.
Segundo fonte idónea, a título extraordinário e sob proposta de Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, o executivo camarário vai reunir hoje, dia primeiro de abril, durante a tarde, para aprovar um segundo estudo prévio e de impacto ambiental para a criação de uma linha de elétricos turística entre a Rua da Alegria, Avenida Navarro, Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, Praça 8 de Maio, Rua da Sofia, Rua João Machado, Avenida Fernão de Magalhães junto à Auto Industrial, Rua do Arnado –atravessando a linha férrea-, Avenida Cidade de Aeminium, Ponte de Santa Clara, Avenida João das Regras, Rotunda do Portugal dos Pequenitos, Rua Augusto Gonçalves, Rotunda das Lages e retorno pela Avenida Inês de Castro e novamente pela Ponte de Santa Clara.
Lembro que foi aprovado um estudo prévio para implantação de uma linha que ligaria a Rua da Alegria até à Rotunda das Lajes, na margem esquerda do Mondego.
Tentando saber mais alguma informação sobre o que estaria por trás deste segundo estudo provoquei o meu interlocutor: diga-me lá, será que o Machado teve insónias de segunda para terça-feira e deu-lhe para pensar que o itinerário proposto no último executivo é uma asneira de palmatória sobretudo pela pouca ambição do projeto?
Respondeu o meu depoente: “até poderia ter sido, mas não. O que aconteceu foi que ontem, terça-feira, atrasamo-nos na autarquia e saímos cerca das 14h00. O Reis, o dono do restaurante Cantinho do Reis, não parava de ligar ao presidente a dizer que o arroz de cabidela assim ia ficar seco. Às tantas o Machado, como se estivesse a falar sozinho, enfatizou: “é pá se o elétrico passasse aqui chegávamos muito mais rápido ao Terreiro da Erva, carago!”
Ficámos todos a olhar para ele –porque, seja eu franco consigo, é o que ele gosta- e, de repente, bateu com a mão aberta na testa e exclamou: “Caraças, como é que eu não me lembrei disto? O elétrico deve passar aqui à frente da câmara!”
O José Reis, do Cantinho dos Reis, sem o saber, acabou a fazer história. Se não fossem os seus persistentes telefonemas teríamos um roteiro que, por ser curto de vistas, não interessa a ninguém”, divagou o meu amigo.


COIMBRA, CIDADE MADRASTA PARA FEIRAS

Pelo Diário das Beiras, em título no interior, ficámos a saber que a “Autarquia recusa subsídio à Feira Popular”. Continuamos a ler e “O presidente da Câmara de Coimbra recusou ontem o requerimento dos vereadores do PSD para que fosse atribuído um subsídio para a Feira Popular, que tem lugar, habitualmente, por ocasião das Festas da Cidade. Manuel Machado disse que a proposta para atribuição de subsídios à União de Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, que realiza o certame, “não tem fundamento”. Salienta-se, e também é referido no jornal, que a Feira Popular vai ter isenção de taxas de funcionamento no valor atribuído de 9672,00 euros.
Comecemos pelo argumento de Manuel Machado, presidente da edilidade conimbricense, de que a “atribuição de subsídios à União de Freguesias, que realiza o certame, não tem fundamento”. A meu ver, na forma Machado tem razão. As juntas de freguesias agregadas têm verbas atribuídas pela autarquia e, por isso mesmo, em princípio, não fará grande sentido haver uma segunda cabimentação já que gera um precedente extensível a outras. Acontece que só na forma tem fundamento. Na substância Machado perde completamente a razão. A Feira Popular, pelo ambiente de memória que nos transporta para a infância, pela grandeza –são 17 dias de animação- e pelo historial de importância para a cidade, é diferente de outro qualquer evento –só encontro analogia com a romaria do Espírito Santo, embora em menor grau já que se estende por uma semana. Por isso mesmo, em nome dos cidadãos e pela responsabilidade que lhe cabe em manter esta alegoria, o executivo tem obrigação de fazer tudo para a manter. Não há dinheiro para ser patrocinada? Mas há um ano atrás foram atribuídos 52 mil euros para organizar um torneio de futebol juvenil em honra de um desaparecido ex-vereador do Partido Socialista.
Esta atitude em negar subsídio, para além da aselhice política, cheira a esturro. O que ressalta e dá impressão é que a Feira Popular é o “leit motiv” para a guerra partidária –já que José Simão, presidente da Junta de Santa Clara e  agora agregada em união, concorre pelo do PSD. Curiosamente, relevo que mesmo no tempo da Coligação por Coimbra, anterior a este executivo socialista, sobretudo com a falecida Empresa Municipal de Turismo de Coimbra, já havia problemas. Dizia-se que a extinta empresa municipal queria “roubar” a organização a Simão.
Uma coisa é certa, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), quer seja com este presidente quer com os anteriores, nunca fez nada para manter eventos que estão gravados na nossa memória e constituem a alma da cidade –basta lembrar a CIC, Feira Industrial e Comercial de Coimbra, que precisamente por ser da responsabilidade da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, houve sempre uma guerra surda e silenciosa de protagonismo entre as duas entidades. O resultado final, num esticar de corda, de tudo ou nada, entre a ACIC e a CMC, sabemos no que deu: acabou a engrandecer a de Cantanhede. Não será de estranhar que, mais ano menos ano, a Feira Popular tenha o mesmo destino.
Dá a impressão que somos uma cidade de galos e de poleiros. Para além disso, parece que temos uma aversão generalizada a tudo o que seja velho. Mas isso não importa nada! O que interessa mesmo, porque é a grande moda nacional, é criar novas ideias de negócio.

"OLHAR PARA SUL..."


O CINEMA DE LUTO E O RENASCIMENTO DO TEATRO

Morreu Manuel de Oliveira, o mais antigo cineasta em exercício. O cinema, pela perda deste grande realizador português, está de luto. Pela teoria da compensação, de que a seguir a um dano segue-se um benefício, o teatro português está a renascer das cinzas. Basta ver as imensas peças na arte cénica que, acompanhadas de lágrimas de crocodilo, estão a surgir de todos os quadrantes políticos. Grandes desempenhos, sobretudo da direita já que esta ideologia adora os bons profissionais que, apenas imbricados na sua arte, não se metem na política e que não fazem ondas. A ala conservadora ama este modelo de português “santo da casa não faz milagre” em que é menosprezado cá dentro e venerado lá fora. E sobretudo pela projeção identitária: porque vindo do mudo –como tantos personagens partidários que conhecemos bem- transforma-se num ícone do sonoro. Igualmente como estes figurantes, que até entrarem na política tinham uma vida a preto e branco e depois passaram ao arco-íris, até nisso Oliveira é o seu ídolo. Além de mais, a direita gosta da Etnografia, do “Pintor e a Cidade”. A recompensa por tanta similitude é todos os que não levantam cabelo serem trasladados e repousarem eternamente no Mosteiro dos Jerónimos.
A esquerda, porque não alinha muito em contos de meninos milionários e talvez porque os dez dias que Oliveira esteve preso pela Pide não fazem do indivíduo um revolucionário do contra, não vai muito na ilusão. Além de mais o homem da câmara de filmar colaborou na revista de cinema Movimento ligada à Mocidade Portuguesa Feminina: Boletim mensal. E também por que, entre o “passado e o presente”, não alinha muito bem com a memória histórica já que lhe traz à recordação trocadilhos mal digeridos, não se mostra muito esfuziante com este ressurgimento abrupto do teatro e prefere manter-se “nim”. Por “O Acto da Primavera” só conhece a Primavera de Praga. No entanto, “Aniki-Bobó” deixa que pensar no fascismo dos anos trinta e transversal à Europa e, com o tempo, até pode ser que venha a idolatrar o grande cineasta. Teatro nem com “Sapato de Cetim”. A esquerda odeia “Canibais”, mormente o grande capital. Mas vamos com calma!
O conservadorismo em Portugal está de parabéns. Pelo manifestado esgar de dor e contorcionismo está a mostrar ao povo que a tradição ainda é o que era. Sim senhor! Pelo menos durante uns dias e umas noites, coincidindo com a Páscoa, esquecemos o estertor do senhor dos Passos, n”A Caça” e o aventureirismo do Costinha, da “Canção de Lisboa”. Durante três dias –dois de luto nacional- vamos todos assistir numa televisão perto de nós às mais pungentes manifestações teatrais de sofrimento e angústia plasmadas em máscaras sofridas de nada vezes nenhum. Nestas coisas, e como manda o costume, o povinho na sua habitual hipocrisia e “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, agora também não esquece os imensos filmes que (nunca) viu de Manuel Oliveira. Ah grande Nação! Lá diz o povo, há males que sempre vêm por bem. Valha-nos o “Quinto Império”!




sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DA CÂMARA MUNICIPAL DA MEALHADA RECEBI...



 Na última terça-feira escrevi o texto "O LUSO DO MEU (A)GOSTO" e remeti-o para conhecimento à Câmara Municipal da Mealhada.
Hoje, numa gentileza do Senhor Vereador Júlio Penetra, e a quem agradeço, recebi a resposta da autarquia:


Mealhada, 19 de Agosto de 2011

À atenção de,
Sr. Luís Fernandes

Exmo. Senhor,

Acusamos a recepção dos seus comentários e reparos expressos no blogue “Questões Nacionais”, que agradecemos e aos quais demos a melhor atenção.

Naturalmente, teríamos preferido que o destaque a aspectos menos positivos tivessem sido feitos directa e restritamente a esta autarquia, pelas consequências negativas que sempre têm na imagem do Luso, na defesa da qual, não duvidamos, todos estamos empenhados.

Embora não sendo munícipe na Mealhada, percebe-se a sua forte ligação afectiva ao Luso e ao concelho e o seu interesse na melhoria dos serviços que são prestados a quem aqui vive e a quem nos visita.

Daí que, para nós, autarcas com responsabilidades directas em parte significativa dessa oferta, sejam importantes os contributos de quem se interessa pelo concelho.
Particularmente daqueles que detêm sentido crítico e de observação associados a capacidade de expressão pública de opinião, como é o seu caso.
Porém, é importante que o faça na posse do máximo de informação, em cooperação de esforços, só possível conhecendo mais de perto as nossas realidades e limitações actuais, mas também as nossas ambições e projectos futuros.

Assim, ficamos disponíveis para o receber, no sentido de conhecermos outras impressões e sugestões de melhorias, que eventualmente recolha nas suas visitas ao nosso concelho.

Possibilitar-nos igualmente a oportunidade de lhe dar a conhecer o que foi feito no Luso com investimento público nos últimos anos, como são exemplo o conjunto Piscina Pública e Restaurante/cafetaria que visitou, o Pavilhão Polidesportivo e os Campos de Ténis que integram o mesmo Parque do Lago, o Parque de Campismo, o Centro de Estágios, a modernização do Mercado Paroquial, etc..

Mas, sobretudo, tomar conhecimento da estratégia de desenvolvimento para a Vila Termal de Luso e o Buçaco, e os projectos em curso que a suportarão, nomeadamente o novo Centro Escolar, a requalificação urbana já iniciada na zona central e nas suas vielas, a aquisição e requalificação da Quinta do Alberto, a implantação do Parque do Vale junto à Igreja, a aquisição e reconversão do antigo Cine Teatro Avenida, a remodelação da Avenida do Castanheiro, o plano de requalificação das aldeias da freguesia que começará brevemente em Várzeas, o Pólo Industrial de Barrô, a modernização do Campo “Jorge Manuel”, o Centro de Formação de Jovens Atletas apoiado no Centro de Estágios, entre outros sem esquecer a ampliação e remodelação da própria Piscina Municipal de Luso, que deteve parte da sua atenção.

Com os melhores cumprimentos,
Júlio Penetra – Vereador da C. M. Mealhada



sexta-feira, 23 de março de 2012

OS EXCESSOS DA MAIORIA

Greve Geral: Um detido e três feridos em manifestação em Lisboa 
Greve Geral: Um detido e três feridos em manifestação em Lisboa 



 Quem faz o favor de ler o que escrevo, certamente, já se apercebeu da minha moderação na avaliação de uma qualquer situação. E o que quer dizer ser moderado, pelo menos no meu entendimento? Pode você interrogar? É olhar para um qualquer quadro, retirando ilacções, e não se deixar ficar petrificado na primeira impressão sobre o que se vê. É imaginar o que estará por detrás do facto, sendo este consequência de algo que o gerou.
Antes de emitir uma opinião, a frio, tento fazer exercícios mentais de modo a colocar-me no lugar do “vilão”. Tenho para mim que nada é o que parece. Para além da primeira verdade evidente e notória, há outra segunda verdade menos visível, mas que se tornarmos esta despicienda a primeira será sempre um resultado falacioso. É mais que certo que, na maioria das vezes, falho redondamente, mas fica a tentativa.
No caso das agressões de ontem, em Lisboa, da Polícia de Segurança Pública (PSP), sobre os manifestantes e, sobretudo, sobre mulheres e jornalistas, à luz da introdução deste texto, o que apreendo acerca da actuação da PSP?
Primeiro, dá para ver que os 150 manifestantes, onde estavam incluídos os membros da “Plataforma 15 de Outubro” que desfilaram da Avenida Almirante Reis até ao Rossio, ao arremessarem ovos às instalações bancárias e a transeuntes, tinham por propósito provocar desacatos com a polícia –e aqui já dá para constatar que resultaram em pleno. Ou seja, os agentes da PSP, ao não manterem a calma, caíram numa armadilha. Dá para ver também que o derramamento de sangue sobre os protestantes e, mais notoriamente, sobre os jornalistas foi ouro sobre azul para os reivindicantes.
Não alinho muito nos comentários infelizes de Marinho e Pinto, Bastonário dos Advogados, que, como sempre, se excede no que observa –colocando-se sempre em 1969, na crise académica, e esquecendo que ocupa um lugar que exige alguma assertividade e sobretudo equidade, e defesa das instituições, na análise de todas as partes-, mas uma coisa ele terá razão quando afirma que “os polícias têm de ser bem preparados e não pode ser qualquer pessoa a ir para polícia”.
Dá também para ver que os ministros da Administração Interna do PSD, contrariamente aos do PS, lidam mal com manifestações de rua –lembremos as ocorridas na vigência de Cavaco Silva, na ponte, e em que um assistente ficou paraplégico. E já agora, ainda não se ouviu o ministro da pasta. Não tem responsabilidade política? Quem vão ser as vítimas deste incidente? É mais que certo cair sobre os agentes que carregaram sobre os indefesos jornalistas. Estará certo? E as chefias? Não lhes acontece nada? É que estamos perante um erro crasso de avaliação sistémico na segurança interna.
Dá também para antever que este derramamento de sangue foi a gota necessária para que, em futuros eventos, os manifestantes, mais provocadoramente, se sintam legitimados a fazerem o mesmo e de modo a encherem o copo com mais derramamentos.
Uma coisa é certa, nestas alturas, temos todos de usar alguma ponderação nas análises. Com isto não quero dizer que esteja bem bater em mulheres indefesas e jornalistas, como se vê em vários vídeos, mas, acima de tudo, é preciso estarmos atentos e não nos deixarmos envolver passando do fundamental para o acessório. E ao estarmos a concentrar toda a nossa atenção nas agressões a dois profissionais da imprensa, esquecendo o que lhe deu origem, estamos todos a fazer o jogo de uma facção de portugueses que procura apenas sangue, desordem e nada mais. O que buscam é somente a anarquia. Ora é nestas alturas que, mesmo sem o sermos, temos de fazer um esforço para ser justos e não criarmos uma onda de azedume contra a PSP –mesmo se eventualmente se culpabilizarem os dois agentes, estes, não representam esta prestigiada polícia no seu todo. Tenho para mim que, neste momento, com tudo o que subjaz, ser polícia é uma profissão de alto risco, mal paga, mal reconhecida, e injustamente maltratada.
Só para que não se pense que eu não sei sobre o que estou a escrever, em 1969, aquando da crise académica, eu trabalhava no café Mandarim e assisti à GNR a entrar nesta desaparecida catedral de paz e concórdia. Lá dentro vi este corpo de polícia de intervenção bater indiscriminadamente sobre homens e mulheres. Algumas destas, estudantes, corriam para dentro dos balcões e a GNR, perseguindo-as, entrava e batia a bom bater. Isto aconteceu ao meu lado. Eu vi, ninguém me contou. Em resumo, não defendo o mesmo, mas é preciso separar o trigo do joio. Com isto não quero dizer que os manifestantes não tenham razão. São jovens e outros mais velhos sem futuro que se vislumbre no horizonte. Porém, de um lado e de outro, é preciso alguma calma e, sobretudo, não provocar vítimas inocentes, porque ou me engano muito, ou vai mesmo acontecer.
Acima de tudo, mesmo sentindo todos que os nossos direitos de cidadania diariamente estão a ser espezinhados e cada vez mais somos escravizados por este Estado ditatorial, temos de saber o que queremos. E o que queremos é o mesmo que há meses vimos passar nas televisões na Grécia, quando, perante a passividade da polícia, uns bandos de jovens destruíam e roubavam tudo à sua passagem? É isto que queremos em Portugal? É que ainda estamos no princípio. E se agora, com base numa pequena escaramuça, não tivermos o bom senso de não maltratar demasiadamente a polícia o que vai acontecer dentro de breve tempo é assistirmos à ruína completa do que construímos, e perante a passividade da PSP –isto se o Estado não provocar entretanto a nossa total miséria.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

COIMBRA VISTA DA MINHA JANELA






ESCRITO A QUATRO MÃOS.
POR MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES 


Pujante, cheia de alegria, vivi a minha infância na Baixa onde podia não haver muitas iniciativas mas certamente havia mais movimentação de pessoas.
Hoje vemos uma zona com muitos prédios degradados e quase vazia de moradores, a essência que constitui o fulgor, a vida de uma comunidade.
Também por parte dos comerciantes deste bairro comercial há muitas culpas por se ter chegado onde chegou. Pela passividade e deixa-correr, pela falta de coragem em dar a cara e incapacidade de sublevação, as mais apontadas são o fecho do trânsito nas Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges e a abertura de centros comerciais. Ao longo dos últimos quinze anos, os negociantes têm aceitado todas as decisões políticas como desígnios de Deus.
Coimbra até ao final da década de 1980 foi uma cidade parcialmente industrializada. Só para referir algumas grandes empresas desaparecidas, tivemos a Fábrica da Cerveja Topázio, a Triunfo, a Estaco.
O fecho destas indústrias, pelo desemprego criado e penúria financeira, levou a que menos pessoas consumissem na zona comercial.
Depois foi o progressivo encerramento de serviços, pontos de atracção que obrigavam as pessoas a vir e a movimentar-se no Centro Histórico. Um dos mais recentes, há poucos anos, foi o Correio do Mercado –em criança, como num bailado bem ensaiado, lembro-me do corrupio de pessoas a entrar e sair do bonito edifício. O seu desaparecimento foi mais uma seta envenenada a contribuir para o empobrecimento da Baixa e do Mercado Municipal D. Pedro V.
Outro foi o Arquivo Municipal. Outro ainda, foi o posto número um, de saúde, na Avenida Sá Bandeira -diziam na altura que, por falta de obras, estava em risco de colapso. A verdade é que detinha poucas condições mas, na realidade, abandonado e sem utilidade, ainda lá está de pé. Outro serviço ainda foi a Manutenção Militar. Quando era pequeno via lá soldados, não sei se ainda está activa, mas é raro ver lá alguém.
Também pela deslocalização do antigo hospital, na Alta, em 1980, paulatinamente, vimos abalar os consultórios médicos. Caminhávamos pelas ruas largas e dávamos de frente com as placas médicas penduradas nas varandas dos prédios. Víamos também anúncios de advogados, de cabeleireiros, de fotógrafos e até escritórios de grandes firmas, já que, pela intensa procura, o exercício comercial não se limitava ao rés-do-chão. De muitos outros, são apenas alguns exemplos de serviços públicos e privados que desapareceram e davam dinamismo a esta zona.
De grandes firmas comerciais como, por exemplo agora, a Coimbra Editora que, perante a nossa impotência encerram, nem vale a pena um grito. Morreu? Paz à sua alma!
Na mesma enxurrada foram os cinemas, como o Tivoli, o Sousa Bastos, o antigo Avenida e até o Teatro Académico de Gil Vicente, que até à década de 1980 passou filmes na sua espectacular sala. Antes da chegada dos Multiplex nas grandes superfícies ainda se experimentou cinema, com duas salas, no novo Centro Comercial Avenida e no Centro Comercial Girassolum. Nesta luta entre o grande poder económico das grandes distribuidoras e os independentes, naturalmente, os segundos tinham que morrer. Tudo se resume a uma questão de força em que está transformada a economia nacional. Como está tudo encadeado, o desaparecimento dos cinemas da zona da Baixa, a par de outros serviços, é apenas a amostra de uma grande tragédia oculta nos subterrâneos da razão. Com um poder político hábil a disfarçar as desgraças como se remendasse uma camisa velha, procurando capitalizar a calamidade em proveito próprio ou partidário, tornamo-nos animais amestrados, e habituaram-nos a justificar tudo em nome do progresso. Tudo o que é tradicional, passado de costume arreigado popular, cheira a mofo e deve ser trucidado em nome da inovação. Transformamo-nos em coveiros da nossa memória. Os optimistas continuam a achar que na natureza nada se perde, tudo se transforma, mas a verdade é outra: tudo se perde e se transforma em algo absurdo e que não se vislumbra a utilidade social. Quando se destroem pilares citadinos que constituíram a nossa identidade colectiva e, em substituição, surgem postes de remedeio que ninguém reconhece, é evidente que, enquanto colectividade, estamos ameaçados e o resultado social, inevitavelmente, é o desastre. Como autómatos, sem dignidade nem personalidade, passamos a caminhar em direcção a nada, sem objectivo, e somente em busca da sobrevivência.
Valerá a pena pensar nisto?


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

RUA COM GENTE, PORQUE ME DEIXAS ALEGRE?



Repare-se no ar concentrado e seguro, algo místico, do senhor Mendes.  Este homem é um dos muitos figurantes que diariamente percorrem as pedras do Centro Histórico. Quase nunca damos por eles. Só têm direito a manifestações pungidas de dor no dia da notícia do seu desaparecimento, da sua morte física. São figuras típicas das cidades, pitorescas, que me encantam. De todos eles já contei parte das suas histórias tantas vezes imaginadas por eles mesmos. E isso, considerando que seja mentira, interessa para alguma coisa? Esta é do meu "afilhado" "Fura-mundos".


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O Onzeiro” 

quarta-feira, 25 de março de 2015

O "POPEYE" FOI "ENCARCERADO"



O António Simões da Silva, conhecido por “Tónio Bombeiro” e apelidado de “Popeye” foi internado num lar ali para os lados do Areeiro, segundo dois seus grandes amigos, o Jorge Martins, do Quiosque Espírito Santo, na Praça 8 de Maio, e Olímpio Ribeiro, proprietário da barbearia Santa Isabel, na Rua Direita, e cognominado de “Engenheiro”.
OTónio” é um daqueles figurantes carismáticos que pululam na Baixa. Pessoas como ele são uma espécie de flores silvestres que nascem e vivem numa área habitacional. Pela forma desligada, na diferença, em consequência da sua leve demência imprimem uma marca inconfundível e, talvez sem o notarem, são amados pela colectividade. Contudo, e aqui reside a ambiguidade, enquanto deambulam pelos becos e ruelas das cidades parecem ser ignorados. Quando se ausentam do meio habitacional, ou por velhice, doença ou morte, todos parecem sentir a sua falta e mostram espasmos de dor pelo seu desaparecimento. Já constatei este procedimento social várias vezes aquando do sumiço de outros “cromos” que nos deixaram na última década.
Por conseguinte já se entende a preocupação do Jorge Martins ao pedir-me que escrevesse sobre o “encarceramento” do “Tónio Bombeiro”. “Tens de escrever sobre isto. A administração do lar onde está internado o “Popeye” tem de ser sensibilizada para o deixar vir à Baixa de vez em quando. Se assim não acontecer, ele vai morrer rapidamente. Sempre aqui viveu. Aqui é o seu mundo.”
Olímpio Ribeiro, o “engenheiro, vai mais longe, “Até entendo a decisão tomada pelo primo –pessoa responsável pela sua administração, creio. Ele fez bem em retirá-lo para uma instituição onde cuidem dele. Ele sozinho não estava bem e, além disso, às vezes, bebia de mais. Mas o “Tónio” faz falta à malta! É uma figura típica e carismática. Ele fazia recados para toda a gente desta rua. O “Tónio” é super-sério. Espero bem que o deixem vir de vez em quando à Baixa. Ainda só foi há dias e já sentimos a sua falta.”


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O Onzeiro” 


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"CROMOS" QUE CONHECI



Neste filme, retirado do YouTube e rodado por volta de finais da década de 1970, podem ver-se o Daniel "Tatonas", o "Taxeira", Raul dos Reis Carvalheira, e o "Fernandão", o Fernando Cardoso.
Curiosamente, a todos conheci bem. O "Tatonas" e o "Taxeira" andavam sempre pela Praça da República em volta dos estudantes como abelha em torno do pólen de uma flor. O segundo, o "Taxeira", para além de andar sempre a cravar uma moeda, com a expressão "ó sócio, dá-me uma moeda" -tratava sempre todos por tu-, vendeu também jornais, como o Sete, o Pónei e a República, a Capital, o Popular e o Diário de Lisboa. Foi de todos os "castiços" que passou por nós o mais peculiar. De tal modo, para que se saiba, que até tem o seu nome perpetuado numa rua da cidade -creio que ali para os lados de São Romão.
O "Fernandão", encadernador e que morava na Rua José Falcão, no prédio do "Pratas", era uma figura imponente. Alto, muito alto, quase sempre a falar sozinho, de ar intelectual, a sua imagem metia medo a quem não o conhecesse. Todas estas pessoas desapareceram do nosso mundo dos vivos por volta de finais de 1980. O "Fernandão", creio, foi o último.
Aparece também no filme um senhor que tomava conta do campo de Santa Cruz e dos equipamentos da Académica. Salvo erro, chamava-se Freixo.
Hoje, na cidade, há outros "figurões" como estes. Quer se queira quer não, estes personagens são importantes para a urbe. No fundo, é graças a eles que as ruas se tornam mais humanas -no sentido de que eles são imunes à formatação e à mudança. É graças à sua forma de estar ou falar que toda a envolvência à nossa volta é menos corriqueira. Digamos que, apesar de às vezes serem um bocado "melgas", são um corte com a rotina do quotidiano.

Deixo aqui o texto que acompanha este filme no YouTube: "Ó sócio, olhó Popular. Hoje traz um filme comigo, o famoso Táxeira, mais o Tatonas, mais o Cardoso (encadernador). O Edgar Canelas (hoje na Antena 1), já ao tempo treinava entrevistas difíceis.
Quem segura a placa que anuncia o fim deste vibrante filme é o malogrado Hipólito.
Filmado em 8mm. A câmara pertencia ao FAOJ, que funcionava onde hoje se encontra a Universidade Aberta. Idos de 1978, 1979, mais ano menos década...

Visite-nos em www.mediatico.com.pt, www.youtube.com/mediapolisxxi e em www.youtube.com/fotographarte



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"O VELHO TEATRO AVENIDA"

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O SISMÓLOGO





 A informação chegou-me em forma de apelo pelo dono do café Puri, aqui próximo, na Rua das Padeiras e um dos muitos correspondentes deste blogue. Dizia-me o senhor Jorge: “você tem de entrevistar o nosso grande sismólogo Francisco Machado!”.
É claro que, perante esta informação, fiquei em pulgas. Para quem não sabe, a Baixa é assim uma espécie de incubadora Pedro Nunes. Com uma diferença, este instituto faz nascer empresas como cogumelos. A Baixa, como ninho multiplicador de espécie, faz nascer talentos. Há ainda outra diferença, no Pedro Nunes tudo o que mexe tem direito à informação pública, aqui, no Centro Histórico, só graças a este fora de série, extraordinário, invulgar, singular, estranho blogue é que o mundo conhece esta grande multiplicidade de obreiros desconhecidos da grande plateia mundial. Só graças ao altruísmo e desligamento do jornalista desta página –que por acaso sou eu, obrigado- é que o Universo pode enxergar histórias como o “O dia do Armagedon”; “O Euleutério ensandeceu e ninguém sabe”; “O Furamundos”; “O Anjo Cinzento de Deus”; “O Onzeiro”; “Perdido entre a Carneirada; “Um amor para toda a vida”; “O Homem que papava livros”; “O velho café do Teatro Avenida”, e tantas outras que, por agora, não quero mais maçá-lo. 
Como nada acontece por acaso, é de supor que este serviço será um desígnio do sobrenatural, assim um instrumento a utilizar por algo metafísico. Mesmo que não seja, e, antes pelo contrário, se for resultado não de coincidências mas meramente de uma decisão racional, tendo em conta que isto é uma “fábrica de escrita”, não acha que deveria ser subsidiada? Não pense que me estou a bater, nada disso, mas tendo em conta que a minha profissão de comerciante já foi, agora é mais de mendicante…não sei se me consigo fazer entender.
Assim sendo, seja pelo casco, seja pelo produtor do vinho, você, que é cliente deste jornaleco, considere-se um eleito. Para ler literatura desta, você só pode ser, aliás, você é especial… só pode ser… alma de Deus!
Bom, continuando, perante o alerta do nosso correspondente na Rua das Padeiras, como caçador de insólitos, competia-me ir à procura do grande sismólogo do Centro Histórico, Francisco Machado. Tal como Sherlock, enfiei a carapuça, ajustei as lunetas, e toca de ir para o interior da selva urbana. Como quem diz, para a barriga destes becos e ruelas em formato de interstícios, onde o Sol raramente lambe o chão, ficando apenas pelos preliminares dos telhados e beirais.
Afinal nem foi preciso correr mundos e fundos, ou melhor, calçadas e pracetas esconsas, para dar de caras com o nosso futuro entrevistado. Estava ele a segui as pisadas de um aranhão, que se preparava para fazer uma teia ali na ombreira da “Telha Amiga, na Rua Velha. Parece que não tem utentes velhinhos e a porta abre raramente.
-Bom dia, senhor Chico. Como vai? Então está a observar o aranhiço?
-Pois estou! Saberá o amigo que através da teia de um aranhão é possível prever um tremor de terra?
-Não, por acaso não sabia, senhor Francisco. Aliás, com toda a franqueza, sou ignorante de mais. Até irrito uma simples formiga. Mas conte-me como é que consegue prever?
-São muitos anos de experiência, meu amigo…
-Que idade tem o senhor?
-72 anos… nasci em 1939. … É só mesmo fazer as contas…
-O senhor nasceu cá em Coimbra?
-Sim, nasci em São Martinho do Bispo.
-E desde sempre, que se conhece, deu conta desse seu talento de prever sismos?
-Sim, desde sempre. Estudei em Lisboa, no Laranjeiro, numa cooperativa de ensino, e tive lá um bom professor, o José Ernesto, que é presidente da Câmara de Évora… conhece?
-Não, não conheço, senhor Chico. E então, diga-me, estudou até que ano?
-Até ao 10º…
-E o que fez ao longo da sua vida?
-Trabalhei sempre como pintor da construção civil. Estive em França na década de 1970…
-E como é que se apercebe que vai haver um tremor de terra? Quais são os sinais?
-Há muitas maneiras, mas a mais comum é quando sinto comichão nas partes baixas…
-E mais? Que outros sintomas conhece?
-Olhe, por exemplo, se a minha cabeça começar a latejar como um relógio… assim a fazer “tic… tac”… já sei que vai acontecer um sismo no estrangeiro…
-Isso quer dizer que o senhor previu antecipadamente o grande sismo do Japão?!
-Claro…claro que sim…
-E então não alertou as autoridades?
-Como é que eu ia fazer isso? Eu até previ o da Indonésia  em 2007…
Este do Japão estava tudo previsto…
-Interessante…
-O ser humano dá sinal através do iodo da atmosfera. Os animais passam os sinais através das ondas sonoras…fazem uma algazarra que até arrepia; as aves também prevêem tempestades.
Quando vejo os humanos a enervarem-se muito, olho para Júpiter, faço uma relação com o “mapa-mundi” e sei logo qual é a placa no centro da terra que se vai mover e o país que vai sofrer o abalo…
-E vai haver proximamente algum sismo?
-Vai vai, já este mês…
-E onde? Em que país?
-No estrangeiro…ainda não sei bem. Tenho de fazer uns cálculos.
O inverno vai ser muito rigoroso em Portugal. Vai haver muita chuva. Lisboa e Porto vão ter chuvas torrenciais e ventos fortes.
Morre muita gente antes de se dar os tremores de terra…
-Ai é? Conte-me, como é que acontece?
-É assim, há seres humanos que não aguentam uma picada forte no coração, por isso dá-se a morte súbita. Quando se está para dar um sismo, um tremor de terra, um terramoto destrutivo ou um maremoto…
-Mas isso não é tudo a mesma coisa?
-Não senhor. Depende da picada no coração do ser humano…
-Sou mesmo ignorante, senhor Chico. E quem se pode aperceber dessas picadas?
-Muitos… até o médico, através das doenças, pode prever sismos, tremores de terra ou terramotos destrutivos…
-Ai sim? Como?
-Através das doenças crónicas, que é doente mental, do paciente cardíaco, do doente nervoso, o médico pode prever que se vai dar um sismo, um terramoto, um tremor de terra destrutivo, ou um maremoto…
-Interessante…
-A lua no Quarto-Crescente é a fase mais perigosa…dá origem a terramotos destrutivos…
As luas são lunares; as montanhas na Lua são lunares…
-Interessante…
-Pela caliça que cai das paredes também é possível saber se vai dar um sismo, um terramoto, um tremor de terra destrutivo, ou um maremoto, ou um tsunami…
-Muito obrigado, pela entrevista, senhor Francisco João Machado…
Já agora pode dizer-me se nos próximos dias iremos ter, por aqui, algum terramoto?
-Olhe, vou ver o rio Mondego. Se a água tiver manchas… é limpinho. Depois lhe digo…


(HISTÓRIA REAL E BASEADA NAS DECLARAÇÕES DO RETRATADO)

terça-feira, 23 de abril de 2013

O FURAMUNDOS



 Os centros urbanos, em metáfora, são um lago onde convivem harmoniosamente todas as espécies piscícolas, Há os peixões, aquelas castas que, residindo em luxuosas cavernas do fundo, descendem de grandes famílias que sempre governaram a mancha de água já desde pelo menos um século para trás. Quando emitem sons todo o universo local se coloca em sentido e a maioria bate barbatanas às suas manifestações sonoras, mesmo que anedóticas e patéticas. Lá no tanque, encontramos os seus apelidos na universidade da biodiversidade, na biblioteca de algas marinhas, nos funcionários do paço regedor da vida animal e que gere os destinos da peixaria.
Depois há os peixitos, aquele grupo que só conta enquanto alimento e mão-de-obra para os peixões. Como formigas em verão de estio, atrelados com alguns filhos, vêmo-los esfalfados a atravessar o lago de um lado para o outro, num rodopio incessante em busca de alimento. Algumas vezes rebuscando as migalhas caídas dos opíparos repastos da classe soberana. Para além de serem os primeiros a cair no arrasto, aquando da faina dos predadores, porque estão mais expostos, este agrupamento também serve para votar e eleger sempre os mesmos na autocracia da mancha líquida de história retorcida e sem narrativa reconhecida.
E no meio destas duas classes há então os híbridos, aqueles que, para além de andarem permanentemente de boca aberta como se estivessem continuamente a pedir comida, não servem para nada. Não trabalham, não votam, não bajulam. Mesmo desprezados por todos, pela classe dominante e pela classe dominada, como tábua de mandamentos, prestam apenas para marcar as fronteiras entre a senilidade e o bom senso e o remedeio e a miséria. Apelidados por todos de loucos, estranhamente são livres. Não conhecem horários, dormem em qualquer recanto das profundezas do lençol de água, mesmo que imundas, e, ainda mais extraordinário, sorriem, sorriem como recém-nascidos livres de preocupações.
Estranhe-se também como é que eu querendo escrever sobre o senhor Mendes, personagem de mistério e que apelidei de Furamundos, dei uma volta ao figurativo interior da terra apenas para dizer que pessoas como ele, cromos e projecções de nós, e que existem em todas as comunidades, têm um encanto natural. Dificilmente conseguimos passar ao lado das suas interessantes formas de estar e (com)viver a pulular pela cidade, nem que seja, pelo menos, com um olhar fugidio.


TEXTOS RELACIONADOS

O dia do Armagedon”; “O Euleutério ensandeceu e ninguém sabe”; “O Anjo Cinzento de Deus”; “O Onzeiro”; “Perdido entre a Carneirada; “Um amor para toda a vida”; “O Homem que papava livros”; “O velho café do Teatro Avenida





sexta-feira, 10 de outubro de 2008

CHORAI, CROCODILOS, CHORAI!, COIMBRINHAS, COIMBRÕES E OUTROS VENDILHÕES


(FOTOS RETIRADAS, COM A DEVIDA VÉNIA, DO BLOGUE "NATUREZA NATURADA")




 Segundo o Diário as Beiras, de hoje e com o título “Aviões na Avenida”, coadjuvado com uma foto de um avião e acompanhado por elementos fardados da Força Aérea, pode ler-se: “Para as pessoas que, anteontem de manhã, passaram na Avenida Afonso Henriques, o cenário não podia ser mais surpreendente: aviões em miniatura saíram de uma garagem e foram carregados em viaturas militares, da Força Aérea. Afinal, tratou-se da entrega ao Museu do Ar, em Alverca, de aeronaves que até agora estiveram à guarda do defunto Museu Nacional da Ciência e da Técnica”.
Com algum conhecimento de causa eu corrijo o jornalista. As aeronaves em causa não estavam à guarda do defunto Museu Nacional da ciência e da Técnica. Estes aviões eram propriedade, tinham sido doados e faziam parte do acervo do Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva, agora defunto (como escreveu o jornalista), enterrado, decepado, desprezado, ou escandalosamente desmantelado e o seu espólio furtado à cidade para ser distribuído por outros museus nacionais.
Sem me alongar muito, porque, sinceramente, é tão grande o meu escárnio, a minha indignação, que até me faltam as palavras. Mas, para o leitor compreender, tenho mesmo de pedir um pouco da sua paciência.
Em Fevereiro, deste ano, como, profissionalmente, estou ligado a artes, alguém me contactou e me fez a seguinte interrogação: “Olhe lá, sabia que o “recheio” do encerrado Museu Nacional da Ciência e da Técnica vai ser vendido para a sucata? Porque é que você não compra este valiosíssimo espólio?”. Perante o meu cepticismo –eu só podia achar que aquela pessoa estava a brincar comigo- o indivíduo insistia que era verdade o que afirmava.
Porque conhecia relativamente o museu e quase todos os seus funcionários, no dia seguinte fui ao colégio de S. Gerónimo, nos hospitais velhos, e, in loco, verifiquei que apenas algumas peças museológicas se encontravam nos claustros sujeitas à intempérie. O restante acervo, distribuído naquele colégio, na Rua dos Coutinhos, na Avenida Afonso Henriques, na antiga estrada de Lisboa e na Malaposta do Carqueijo, constatei que estava bem protegido. Conheci então o drama de sete funcionários daquele museu que, embora a receber, estavam “emparteleirados” há cerca de dois anos, isto é, como o museu estava encerrado há esse par de anos, directamente ninguém lhes dava que fazer no dia-a-dia, nem sabiam nada acerca do futuro que os esperava. Compareciam ao serviço e depois, ao longo do seu horário, cada um tratava de arranjar ocupação. Uns fotografavam peças, outros limpavam o pó, etc.
Nesse mesmo Fevereiro, num debate sobre cultura no Teatro de Gil Vicente, promovido pelos denominados “amigos da cultura”, denunciei o abandono da obra do grande físico Doutor Mário Silva, acto que considerei um escândalo numa cidade que se diz de cultura e, ainda por cima, quando um grupo de intelectuais gera um reivindicador programa unificado em torno da cultura (que não se faz) na cidade.
Dos oradores presentes, entre eles o pró-reitor para a cultura da Universidade de Coimbra, e também subscritor do movimento, José António Bandeirinha, recebi um “nin”, como quem diz nada respondeu. O único presente na sala do Gil Vicente que se manifestou, e que pegando nas minhas palavras de agastamento, foi o professor Reis Torgal.
A partir daí, como alma penada, tentei sensibilizar os cidadãos de Coimbra para o eminente desmantelamento de um grandioso acervo e falta de vergonha para a memória de uma pessoa que tanto sofreu, através das perseguições da Pide, para concretizar o seu sonho de ter um museu da ciência e da técnica na cidade, que foi o Doutor Mário Silva.
Escrevi nos jornais da cidade; fui à Assembleia Municipal da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), fui à reunião do Executivo, passei a mensagem ao coordenador da RTP-Coimbra, que gentilmente enviou uma jornalista a entrevistar todos os envolvidos, desde o presidente da Câmara, ao Reitor da Universidade, a figuras de renome como Carlos Fiolhais, e realizou um sério e belíssimo trabalho radiofónico na "Antena 1". Fui duas vezes ao Rádio Clube de Coimbra, e, para além disso, um amigo, que não conheço pessoalmente, Victor Ramalho, do Blogue “Alma Pátria”, propôs-se a elaborar uma petição na Internet a favor da continuação deste extraordinário museu.
Sabe quantas assinaturas recolheu a Web até hoje para manter o MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA DOUTOR MÁRIO SILVA aberto ao público na cidade de Coimbra, e com todo o seu extraordinário acervo na cidade-berço dos estudantes? Não se ria que o caso é sério. Apenas subscreveram a petição online…79 pessoas!
Só para comparar, a subscrição dos “amigos da cultura”, também na Internet, que, quanto a mim, era um movimento político-partidário, de agitação política, cujo único fim era degradar a imagem do vereador da cultura da CMC, Mário Nunes, sabe quantas pessoas se indignaram? 1183! É ilustrativo, não acha? Quer dizer um texto reivindicativo de uma cultura virtual tem o apoio de mais de um milhar de pessoas. Um acção material de lesa-cultura, que para além de denegrir a homenagem que deveria ser merecida dum reconhecido físico mundial, Doutor Mário Silva, que chegou a trabalhar com o casal Curie, em Paris, e tanto fez por uma disciplina quase inexistente em Portugal, a isso, os coimbrinhas, os coimbrões (e outros cabrões, que até me provocam repulsa) encolheram os ombros.
Pois meu leitor amigo, aí está o resultado. Agora foram as avionetas para Alverca, amanhã outras peças valiosíssimas seguirão para outros museus no país. O restante, não será difícil de adivinhar, o seu destino, provavelmente, será a sucata. Afinal o meu amigo, que me alertou para a compra, em Fevereiro, estava mesmo certo.
Estou tão irritado, por fazer parte de uma cidade assim, que nem uma dúzia de asneiras, em chorrilho, me alivia a dor. Fico-me numa exclamação firme mas suave: MISERÁVEIS.