sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

3 – HISTÓRIAS AO VIRAR DA ESQUINA: A ÚLTIMA PORTAGEIRA





Durante muitas décadas, tantas que já lhe perdemos a conta, foi a “portageira” de serviço diário nos acessos que dão entrada e saída para a Rua Visconde da Luz. Nos doze meses do ano consecutivamente, Maria Adelaide, com um lugar cativo de relevo marcado a fogo na nossa memória colectiva, conquistou para sempre a nossa reverência e simpatia. Na Primavera e Verão, como diligente funcionário público, sempre sentada no lancil de pedra em frente ao antigo BES, a sua função era vender tremoços, amendoins, pinhoadas e pistachos. Durante o Outono e Inverno, por entre nuvens de fumo e aroma de desencadear apetite, ali a dois passos, comerciava castanhas assadas na Praça 8 de Maio.
No decorrer da sua longa vida experienciada em fatias de contrariedade, o tempo tornou-a azeda e resiliente e fez dela uma mulher teimosa, daquelas pessoas que faz sempre o que lhe dá na real gana sem aceitar ordens para se render de quem quer que seja. Sempre com a espada de Dâmocles a balouçar sobre a sua cabeça em representação da miséria, que tão bem conheceu ao longo dos três primeiros quartéis do século XX, a labuta, numa entrega obsessiva existencial, foi sempre o azimute para não cair nas suas garras. Como tantos nascidos da sua geração, talvez sem se dar conta transformou-se numa viciada em trabalho. O estar permanentemente ocupada era a a doença e a terapia.
Maria Adelaide nasceu em Março de 1925, ano de grande penúria onde a fome marcava os dias neste Portugal esconso e atrasado, estava a “Revolta dos Generais” lá para os lados de Lisboa a ser planeada para reivindicar os interesses dos militares. A bancarrota instalada desde 1892, que abriria a porta a António de Oliveira Salazar como ministro das finanças no ano seguinte, em 1926, atirara o país para o desamparo económico numa espécie de “salve-se quem puder”.
Até 2016, quando Adelaide comemorou 92 anos, com o corrimão de pedra improvisado a servir de assento e montra de especiarias, manteve-se firme no seu lugar de vendedeira inveterada junto ao Café Santa Cruz. Não fosse uma queda infeliz, que ocasionou duas intervenções cirúrgicas no ano seguinte, em 2017, e ainda hoje poderia estar no seu posto de sempre a linguarejar entre curvas e contracurvas do impropério. Com o seu desaparecimento, assim como outros, vai um pouco de nós.
Sem se dar conta, pela elevada idade, pelas rugas profundas que sulcavam um rosto envelhecido, sem se subjugar às dores persistentes que atormentavam o frágil corpo, transformou-se em ícone, uma figura sagrada, e a sua imagem, como embaixadora de produção contínua, estará espalhada pelo mundo inteiro. Entre nós, para sempre, fará parte da nossa galeria de notáveis "Rostos Nossos (des)conhecidos".
A começar pelo campesino que lavra esta leira de prosa, que a retratou em largas dezenas de fotos e outros tantos textos narrativos e poéticos, quer turistas do mundo, quer passantes locais, todos nos “servimos” da sua imagem disponível e peculiar. Até quando, em 2012, foi apanhada pela Polícia Municipal a vender baralhos de cartas e bugigangas. Como estava licenciada para comerciar apenas produtos para alimentar o estômago - e o jogo e os cacarecos são para a alma – foi-lhe levantado um auto, cuja coima ia de 50 a 90 euros. Foi assunto que serviu para abalar as calmas águas políticas do burgo.
Por ter sofrido há dias uma nova queda, fracturando a perna esquerda, Maria Adelaide está agora, novamente, internada na Unidade de Trabalhos Continuados Fernão Mendes Pinto – Unidade de Saúde de Coimbra, quarto 121, na Avenida Fernão de Magalhães. Quando a visitei ontem estava muito tristonha e sofrida. Muito bem tratada e acarinhada pelo pessoal da instituição de saúde, parece ter tratamento VIP. Embora com falta de ouvido e a ver menos, tendo em conta os seus quase 95 anos, a nossa mulher-resistência está muito bem. Comecei por lhe perguntar se me reconhecia. Em resposta automática, estendeu os braços e, no meio de um choro de saudade, exclamou: “O meu amigo!


1 comentário:

Anónimo disse...

E a D.Teresa Pena, sabe alguma coisa dela?
Provavelmente terá já falecido, pois encontrei-a em Dezembro de 2017, já bastante debilitada, também numa unidade de cuidados continuados em Telhado.