quinta-feira, 14 de outubro de 2010

BAIXA: ANTES E DEPOIS DO EDUARDO CAUTELEIRO





 Já aqui falei de Eduardo Martins Moreira. Começou em Julho, último, a vender lotarias na Baixa. Depois deste vendedor de cautelas ter irrompido com o seus pregões populares, que nos fazem viajar no tempo para umas décadas atrás, o Centro Histórico nunca mais foi o mesmo.
Se até Julho esta zona de antanho era triste, sem vida, e nada que a diferenciasse de uma rotineira modorra, depois da vinda do Eduardo, com os seus gritos de esperança, “quem quer a taluda? Anda hoje à roda! Tenho aqui o vinte e nove!”, toda esta zona comercial ganhou uma nova animação. É interessante pensarmos como é que um ruído invasor, quase provocador, pode alterar todo um situacionismo que já era aceite por todos como o certo, o correcto, aquilo que é melhor para toda a comunidade.
Mas a cidade enquanto conglomerado de vivências, é muito mais do que a rebuscada bonomia do silêncio. É um sentir de sentimentos em conflito. É o mesmo que o homem, combatente de tantas guerras, correndo atrás da paz, enquanto objecto final da sua existência, depois de a encontrar e entrar nela, constata que, afinal, precisa da belicosidade, do bulício, dos barulhos de afiar as espadas, dos cheiros a carne assada nas brasas, das cores do arco-íris.
Nos últimos vinte anos, à procura de um paraíso de ilusão, formatou-se a cidade. Num corte profundo, como se quisesse começar do zero e reescrever a história, acabou-se com tudo o que cheirava a velho nas ruas estreitas. Nos ruídos que nos faziam companhia diária nesta zona velha, pela desertificação, deixámos de ouvir a menina Licas, na varanda do 31, para a confinante Isménia: “ó vizinha, empresta-me um ovo?”.
Nos pregões engraçados, progressivamente, fomos vendo desaparecer o cauteleiro –ainda há três na Baixa-, a vendedeira de marisco da Figueira da Foz, a vendedeira de queijos do Rabaçal.
Nos odores, correndo atrás de uma cidade asséptica e sem identidade olfactiva, em nome de uma saúde securitária elevada ao radicalismo, perdemos o cheiro intenso de louro e alho das bifanas e do carapau frito. Pela perda das pequenas mercearias, deixámos de ser contemplados com o intenso odor a café arábico e acabado de moer. Aos poucos fomos vendo desaparecer os vendedores de castanhas –felizmente, ainda resta um casal na Praça 8 de Maio.
Nas cores, a cidade foi-se tornando matiz de falta de vida. Pela imposição de padrões amorfos, transformou-se em avenidas de cemitérios de almas sem ânimo desfocadas pela cor forte que incute acção. No edificado fomos optando pelo branco e bege para não agredir, diz quem manda. Pelas taxas exageradas, vão desaparecendo os toldos tão identificativos de uma zona comercial que marca todo o nosso imaginário, referencial de um histórico comércio de rua. Numa estupidez crescente, proibiu-se o reclamo de néon a piscar com as suas cores vivas e a puxarem pela nossa alma tantas vezes tristonha. O correcto, na visão destes tecnocratas, insensíveis às pequenas coisas que nos alimentam no dia-a-dia, é o reclamo chapado a ferro preto ou em cores aprovadas previamente.
Em nome de critérios duvidosos do ponto de vista financeiro, continua-se a exigir janelas e portas em madeira para estas zonas antigas. Sabendo todos que hoje existem materiais de longa duração no mercado a imitar a madeira, por que razão, sem que ninguém se questione, se continua a exigir materiais provindo das árvores sabendo que são de pouca dura? Mais: uma vez que estão a desaparecer marcenarias –o que encarece o preço das madeiras- e que os metais serão menos lesivos para o ambiente, o que move esta gente que manda?
Quando ouvirmos os espectaculares pregões do Eduardo, se não pudermos comprar-lhe um bilhete, vamos todos dar-lhe um sorriso?

2 comentários:

Anónimo disse...

Confesso que o sr.Eduardo ao inicio irritava-me!Mudei de opinião e a baixa precisa destas personagens e «cromos».Força sr.Eduardo e felicidades.
Marco

LUIS FERNANDES disse...

É isso mesmo, Marco. Numa primeira fase, começa por nos irritar -penso que tem a ver com a tal cidade de silêncio que nas últimas décadas quase nos impuseram. Depois, no segundo dia, terceiro, quarto, começamos a achar graça e a lembrarmo-nos que a urbe, noutros tempos, já foi assim. E sorrimos. E, quanto a mim, é neste sorriso que damos por ganho o dia.
Abraço.