terça-feira, 3 de julho de 2012

O MENDIGO TURCO



  Foi mais ou menos a meio da manhã quando dei de chofre com ele. Era um homem alto, entroncado, com um chapéu na cabeça que tapava uma cara arredondada, tipo "boxeur", que se fazia acompanhar de duas muletas estateladas no chão da calçada. Estava sentado de pernas cruzadas na Rua Eduardo Coelho, junto à antiga e encerrada sapataria Reis. Com as calças recuadas, as pernas deixavam antever, embora ligeiramente, umas leves cicatrizes cuja idade se teria perdido nos confins da memória. A sua ladainha, num português sem solavancos, era, para mim, sobejamente conhecida: “ajude o pobre desgraçado, senhor!”. Imediatamente, intui com meus botões que estaria perante um excelente “performer” da pedincha, de nota 20. Mas o que me fez parar foi a sua expressão sofrida. Aquele homem era um verdadeiro artista no sentido lato do termo. Era impressionante o contorcionismo da face, com a cabeça a inclinar-se, para conseguir, com grande facilidade, "tocar" os transeuntes. As mãos, em concha, completavam um cenário previamente estudado em longas noites de labuta. E era bem-sucedido. O barulho das moedas a caírem no fundo do pequeno copo plástico era contínuo e musical numa nota de dó maior. Mentalmente, ensaiei o desejo de lhe pedir para tirar uma foto –porém, declinei no propósito uma vez que, se o fizesse, estragaria o seu “negócio”, pensei para comigo.
Quando ele saiu do turno da manhã, certamente para ir almoçar, reparei que andava sem dificuldade. Especulando, tentei adivinhar uns 25 euros nestas três horitas de choradinho. No seu passo ligeiro, as canadianas não serviam para nada e iam penduradas no antebraço. Não resisti em trocar umas impressões com ele. Num português quase correcto, foi-me dizendo que é turco e está em Portugal há mais de uma dezena de anos -os seus dois dentes de ouro atestavam que pelo menos seria de um país de leste. Trabalhou nas obras de construção do Estádio do Beira Mar, em Aveiro, e também no Estádio de Leiria, onde teve um grave acidente e fracturou várias vértebras cervicais. O caso arrasta-se nos tribunais à espera da legítima indemnização. Ficou impossibilitado para trabalhar, diz-me de cara séria para eu acreditar. “Recebo duzentos e poucos euros. Sou diabético, tenho de comprar insulina à minha conta. Diga-me lá, como é que eu posso viver com estas migalhas? Bem sei que sou estrangeiro, da Turquia, mas cheguei aqui cheio de boa saúde e hoje estou inválido. Foi cá que tive o desastre. Um dia quando regressar à minha terra já não serei o mesmo que de lá se despediu há muitos anos. Você entende o que quero dizer?”
Porque tenho uma lata como a dele, e não passo de um desavergonhado, lá lhe fui dizendo, no meio de um sorriso macaco, a brincar, que a construção civil poderia ter perdido um bom servente, mas Portugal ganhou um bom artista, um excelente actor. E o homem riu a bandeiras desfraldadas.
No turno da tarde, na esquina do Largo da Freiria, o óbolo vindo sobretudo de mulheres –digo isto por experiência própria, porque também sou artista e já estive no lugar dele a fazer a mesma coisa-, um trocadilho de notas musicais -sem notas de euro-, misturava-se com a sua lengalenga. Sempre que um novo níquel tocava o fundo do copo, sub-repticiamente, ele olhava para mim e piscava-me o olho, como se dissesse: “ó colega, estes teus conterrâneos são mesmo muito estúpidos. Porque é que tu não mudas de vida e vens para a minha nova arte?”


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O CONTRATO FALHADO




"Dez mil famílias e empresas arrastadas para a falência no primeiro semestre"


"Número de insolvências no país subiu 83% entre Janeiro e Junho, alcançando um ritmo de 53 por dia. Falências de particulares mais do que duplicaram e já pesam 65% do total. Nas empresas, o sector mais afectado é o imobiliário". LEIA AQUI O PÚBLICO


 Nenhum Estado, na sua contratualização social, que deixa cair um anormal número de famílias na miséria poderá persistir no tempo. Em face do que se apreende, é um Estado falido que está condenado ao seu próprio desaparecimento. Convém lembrar que o Contrato Social, de 1762, elaborado pelo suíço Jean Jaques Rousseu (1712-1778) preconizava que o cidadão condicionava a sua liberdade, isto é, depositava na outra parte contratante, o Estado, para que este, como bom chefe de família, justo equidistante em relação a todos, distribuísse de forma equitativa os direitos e obrigações por igual. Assim seria na SAÚDE –que só viria a acontecer, embora timidamente, a partir de da década de 1930, com o advento da Social-democracia e a criação do estado social de bem-estar; na JUSTIÇA, onde este Estado patrocinaria a sua administração e se encarregaria de a aplicar a todos os indivíduos de forma igual, embora tendo em conta as diferenças de cada um; na HABITAÇÃO, onde este patrono chamaria a si políticas de desenvolvimento que conduzissem a que a cada família ou indivíduo correspondesse uma habitação condigna; na EDUCAÇÃO, em que seria facilitado a todos o acesso a um conhecimento literato e de modo a que, para além de todos saberem ler e escrever, o ensino universitário fosse acessível universalmente por igual; no TRABALHO, criando, quer, através da iniciativa púbica e dos serviços necessários à sua própria máquina administrativa, e tributando todos com alguma contenção, quer através dos privados, políticas de fomento empresarial e de modo a que economia floresça e, pelo seu desenvolvimento contínuo, gere empregos.
Ora, o que se constata no dia-a-dia e aqui em modelo no anúncio do Público? O ressurgimento de um estado falhado, que não cumpre com a sua parte o que se obrigou perante o seu citadino e, de uma forma fria e insensível, deixa cair os seus “filhos” na mais abjecta miséria.
A onde vai conduzir este inadimplemento (incumprimento), no desligamento das condições sociais, propiciando a apenas a alguns os direitos que caberiam a todos? Naturalmente a novos paradigmas sociais. Como está, perante o reiterado incumprimento desta entidade a que chamamos Estado, não será possível continuar. Em consequência, iremos assistir a movimentos sociais que, provavelmente, na turbulência, gerará um novo modo de viver em sociedade.


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"Uma liberdade feita à medida"
"O alarme social"
"Um novo contrato social com o mercado"
"A queda dos mitos"
"A intolerância"
"O que é que os políticos querem fazer das cidades?"
"O Cristo negro da maracha"
"Cortar os braços e as pernas aos comerciantes"
"Uma função pública disfuncionada"
"O estado da justiça..."
"Tempo de antena do provedor"
"Cavaco: o populista homem do leme"
"Estes políticos que nos governam"
"Metro, Uma reunião de consensos"
"A aplicação cega da lei"
"A dívida deve ser paga a todo o custo?"
"Uma anunciação com crista"

BOM DIA PESSOAL...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

VOU MAS É DAR UMA VOLTA...

TENHAM DÓ DESTA POBRE ALMA...



 Aos meus amigos do Facebook queria pedir um favorzito –tenham calma que nem é dinheiro nem uma cunha para um empregozito para um familiar, nada disso! É o seguinte: estou fartíssimo de receber pedidos de aplicações em “Cafeland”, outras tretas, outros jogos, e, agora, quase todos os dias, estou a ser martelado para uma outra de “confirmação de amigos”. São tantas, tantas, que juro pelas Alminhas que se continuo nesta empreitada tenho de contratar uma assistente –quer dizer, até me dava jeito… já estou a imaginar uma gaja boa, com um  bruto decote, generoso, assim daqueles que fazem ressuscitar um morto, e uma saia com um palmo e meio. Juro que a minha ansiedade e o meu vacilante estado de espírito, entre a efusiva alegria e a tristonha depressão, desaparecia logo. Mas quem não tem dinheiro não tem vícios, e eu não tenho para lhe pagar ordenado –bolas, desculpem lá, mas de repente, por falar em vícios, até me lembrei de uma coisa: praticar sexo deveria ser comparticipado pelo Estado, assim na mesma filosofia do SNS, Serviço Nacional de Saúde. Além de mais, até era muito bom, porque, para já dava emprego a muitas raparigas que eu conheço aqui na cidade, e que, às vezes, procuram tanto o trabalho, tanto, que até chego a encontrá-las ali na avenida em plena noite escura. Vê-se bem que se esforçam imenso. Por outro lado, já viram bem o que se poupava em antidepressivos? Esta gente do Governo não percebe nada. Andam para aí a encharcar mulheres de meia-idade, boas c’mo milho, e velhinhos arrebitados, que ainda fazem uma perninha longa, com medicamentos e mais medicamentos. Carago! Dêem-lhes sexo, porra!
Bom, desculpem lá que, com estes maus políticos que não tomam atenção às necessidades básicas de cada um, até me passo. Só se preocupam com a alimentação física. E a espiritual? Como é que é? Pois, mandam-nos para as igrejas, não é? Mas estas, em todas as confissões, também nunca mais aprendem. Continuam a apostar em homens! Porque é que não abrem concurso para mulheres? Digam… digam? E depois vem lá o senhor bispo, não sei de onde, de Setúbal, ou outro lado qualquer, mandar-se ao bofe do Governo por causa do desemprego. Cá para nós, que ninguém liga às asneiras que estou para aqui a escrever, esta gente é um bocado “falseta”, é ou não é? Bolas, abriam lugar para as mulheres ao priorado… com franqueza!, mas isto não é lógico? Até já estou a imaginar-me, todos os dias a ir à missa à igreja de Santa Cruz, três vezes ao dia. Depois queixam-se que os fiéis estão abandonar a igreja. Claro, com velhos feios, como o senhor Bispo de Setúbal –sem ofensa, é claro!-, querem o quê?
Então, dizia eu, por amor de Deus, não me enviem, no Facebook, notas com pedidos. Façam o contrário, mandem-me umas notitas de 5 euros, que eu sou modesto e com pouco me contento. Obrigadinho, sim?!

domingo, 1 de julho de 2012

UMA FLOR DE PAPEL

(IMAGEM DA WEB)


 Encontraram-se, por acaso, na entrada do grande restaurante de self-service. Ambos estavam sozinhos. Ela teria cerca de 45 anos. Era uma mulher muito bonita. A sua silhueta dava nas vistas. Cabelo preto pelos ombros, óculos escuros incrustados num rosto oval amendoado em imagem de perdição. Uns lábios carnudos, com leve toque de batom, prometiam o céu. O peito estava revestido com uma camisete branca com leve decote, pouco pronunciado, onde se adivinhavam dois seios pequenos, seguros e túrgidos. Uma calça de ganga bem ajustada ao corpo mostrava umas ancas bem torneadas onde confluía um traseiro imaginado num carnaval do Rio de Janeiro. Ela atrasou os óculos escuros para a nuca e deixou ver uns maravilhosos olhos verdes.
O homem, de meia-idade, pensando para com seus botões, tentou adivinhar o que faria profissionalmente a mulher; pelo porte formal, deveria ser professora. Com redobrado interesse, olhou e, como ficasse hipnotizado perante um misterioso fluído ou perfume libidinoso, segui-a sem a largar mais. Parecia um cão pisteiro da GNR atrás de um odor suspeito. Ambos, um atrás do outro, pegaram no tabuleiro e em direcção ao balcão onde escolheram e apanharam o prato selecionado do almoço. Ela, como se deslizasse sobre nuvens de algodão, movimentando-se como folha tocada pelo vento em outono invernoso, alheia, a toda a vigilância do perseguidor, parecia não dar conta da cobertura de todos os seus passos. Ele, com meticulosa espera, ia atrasando o seu serviço para que ela o ultrapassasse e para ver o lugar em que ela se sentaria. Como se fosse um casal, ambos confluíram para a caixa de pagamento ao mesmo tempo, um atrás do outro.
Com ele atrás, ela dirigiu-se para a zona de mais luminosidade e onde o sol beijava e acariciava todos sem pedir licença. No canto da sala, um plasma debitava imagens de notícias sem som. Colocando a carteira ao seu lado, sentou-se e começou a comer. O homem, depois de a ter seguido como cachorro atrás de fêmea, acomodou-se na mesa ao lado. O olhar dela, triste, de grande sofrimento, impregnava um ar santificado e metafísico. Parecia alheia a tudo o que a rodeava e como se não reparasse no assédio do companheiro do lado que, com o seu olhar buscando o dela, parecia querer envolver aquele brilho baço num abraço de enleio. Nem uma só vez os seus olhos se encontraram. O galã, como farol na noite escura, insistia em varrer a área mas a traineira em direcção ao horizonte, em piloto automático, não dava acordo de si e mareava para um infinito perdido e por si programado. Quanto mais o homem insistia num mirar de súplica mais ela, de forma elegante, altaneira e garbosa, como driblando o adversário com grande perícia, fugia ao encontro de olhos nos olhos. A meio da refeição, como se precisasse de uma paragem para abastecer e retomar forças, puxou do telemóvel e, sem cuidados em baixar a voz, falou para alguém conhecido acerca de uma reunião escolar. Era professora, pensou o homem para si, tinha mesmo razão ao intuir o “metier” da diva. Acabou a conversa e avançou para a refeição.
O observador continuava preso naquele rosto carregado de nostalgia e solidão. Mentalmente ia traçando cenários hipotéticos de causa-efeito. Que homem, sem sentimentos, seria capaz de magoar assim uma deusa, Afrodite, daquela maneira. Por momentos uma ruga atravessou a sua fronte. Afinal, quem vê caras não vê corações. Não tinha ele essa experiência em casa? Não era a sua esposa uma bela mulher? No entanto, para si, era agressão personificada. Um meio sorriso invadiu a sua face: tudo o que se viveu foi bonito de recordar. Mas, como todas as coisas, as relações têm prazo de validade, princípio, meio e fim. Mas por que tem de ser assim? Pareceu ele interrogar, desviando o seu ponto de atenção e, como se pedisse ajuda, colocando os olhos em riste no tecto branco. Porque é que antigamente os casamentos eram longos e agora não? Bom, também é certo que a maioria, numa infelicidade atroz, resistia apenas como painel pintado em cenário teatral. Mas, mesmo assim, no meio de tanta hipocrisia, havia muitos pares felizes, onde, apesar da carência de quase tudo, a concórdia, a paciência e a tolerância reinavam. Para onde foi tudo isso? Porque, como inimigos figadais, como se nunca se tivessem visto, agora, se agridem tanto os casais? Será que o desenvolvimento dos povos, a abastança no modelo de bem-estar, as opções desenfreadas, o "usar e deitar fora", conduzem inevitavelmente ao narcisismo e a um identitário individualismo na família? E a religião? Que papel tem o “re-ligar” das coisas terrenas com o transcendente? Será mesmo que, nestes nossos dias, quem a pratica, quem vai à igreja, saberá para que serve a mensagem de Cristo? Se não se tiver abertura aos ensinamentos, em reflexão, tendo o coração escancarado para aceitar, a Sua palavra não servirá para nada e, como chuva em solo gretado e árido, perder-se–á nos confins do desconhecimento. É preciso partir do recado do bem-fazer para a prática do “fazer bem sem olhar a quem”. Parecia pensar o homem sentado a reflectir.
O homem olhou para a sua musa, para a mesa ao lado, estava quase a concluir. Calmamente, retirou um guardanapo de papel e, como mestre de coisa nenhuma, rasgando aqui, torcendo acolá, começou a fazer uma flor. A mulher levantou-se e, sem nunca olhar o seu admirador, caminhou em direcção à porta. Ele seguiu-a com o objecto alegórico à rosa na mão. A meio das escadas interpelou-a: “e, se de repente, um desconhecido lhe oferecesse uma flor de papel, aceitava?”
A mulher, como se estivesse à espera daquilo mesmo, sem surpresa, abrindo o seu lindo rosto num imenso sorriso de luz, exclamou: “claro que sim. Muito obrigado!”

BOM DIA PESSOAL...