quinta-feira, 20 de abril de 2017

NA COMPANHIA DO CANDIDATO (JOSÉ MANUEL SILVA)

Foto de SomosCoimbra.




Poucos minutos passam das 10h30 desta última quarta-feira. O Sol, como a espalhar esperança a todos os seres vivos, resplandece e faz reflexo nas montras das lojas. A Baixa, como um velho aposentado que se levanta tarde por nada ter para fazer, tarda em pôr-se em movimento. Apesar de haver um vaivém notório de transeuntes nas ruas largas e Praça 8 de Maio, os lojistas, como pescador que lançou a rede e espera com paciência, estão às portas à espera de quem não prometeu vir. Para uma classe de profissionais cansada e envelhecida que, recordando outros tempos de grande azáfama comercial que não voltarão mais, agora se habituou a (sobre)viver a conta-gotas, qualquer primeiro cliente, mesmo que seja de uma venda de cêntimos, que lhe inaugure o dia e o transforme em memorável, será recebido com todo o carinho.
Encontrei-me junto à Câmara Municipal com o Arménio Pratas e José Manuel Silva, médico e ex-bastonário da Ordem dos Médicos, agora candidato à Câmara Municipal de Coimbra. Eu fora convidado pelo Pratas, amigo do concorrente à edilidade, para os acompanhar numa visita ao Mercado Municipal D. Pedro V onde seriam recebidos pelo presidente da ACMC, Associação do Comércio de Mercados de Coimbra, Paulo Dinis. Pela amizade e consideração que detenho pelo Arménio, aceitei. Afinal, é sempre uma oportunidade para tomar o pulso ao candidato e medir a a tensão ao cidadão comum.
Em passo ligeiro, com José Manuel Silva a comandar o pequeníssimo pelotão com toda a convicção de quem sabe para onde quer ir, depressa calcorreámos a centena de metros que dista a mais antiga praça popular da cidade. Enquanto percorríamos o caminho, Silva, sem perder a oportunidade de captar mais um voto, interrogou: “já é amigo da página “Somos Coimbra”?
Poucos minutos depois transpusemos os portões do mercado municipal, o mercado da agonia. Como se tivéssemos entrado num enorme teatro sem espectadores e as pessoas presentes fossem somente os artistas, deparámo-nos com um enorme espaço de vendas, com muitas bancas desocupadas, e vazio de compradores. Os vendedores, alguns deles de braços cruzados e rosto fechado ou a trocarem conversa de circunstância, eram muitos. Apesar da disponibilidade, parecendo não conhecer o candidato, não houve grandes manifestações efusivas.
Depois das apresentações e cumprimentos da praxe, fomos encaminhados para uma sala da ACMC, Associação do Comércio de Mercados de Coimbra, onde Paulo Dinis, o presidente, acompanhado de dois membros da agremiação, Paula Grade e Clara Marisa, se prontificaram a ouvir e despejar as mágoas e frustrações que carregavam na alma.

UM CANDIDATO TODO “ELÉCTRICO”

José Manuel Silva abriu a dissertação com a frase: Coimbra está assente em dois pilares estruturais, a Universidade e os HUC, Hospitais da Universidade Coimbra. Continuou Silva, acontece que, devido ao défice demográfico, a Universidade de Coimbra corre sérios riscos de no futuro não ter alunos. Por outro lado, os HUC, sendo um dos maiores polos hospitalares portugueses, detém uma cabimentação orçamental das mais baixas do país, o que, a médio/longo prazo vai criar problemas de eficácia na assistência de saúde pública.
Ainda José Manuel não tinha acabado a introdução e Já Dinis estava engatilhado a refutar: “pois esse é mesmo o problema! A cidade não pode estar dependente dessas duas entidades!”. Apaziguou o candidato que não estavam em contradição, o que quisera dizer fora exactamente isso o mesmo.
Prosseguiu Dinis, “o Mercado Municipal precisa de investimento. Há tantas grandes superfícies que até estorvam”.
(Referindo um antigo ante-projecto de João Orvalho, vereador dos mercados no tempo de Barbosa de Melo) “um projecto de hotelaria não serve para revitalizar este espaço comercial. Eu fui ao mercado de Campo de Ourique e vi o que se passava. As compras para os restaurantes que lá estão dentro não são feitas lá.”
Quase aposto que a câmara está a pagar arrendamentos de lojas na cidade. Este espaço é camarário. Porque é que não são colocados aqui serviços? A loja do Cidadão, por exemplo, porque não transferi-la para aqui?”
(Com amargura na voz e corroborado pelas suas colaboradoras) Admite-se estar ali aquele edifício dos correios ali abandonado e vazio? Olhe que ainda hoje há pessoas que puxam as portas a pensar que ainda está aberto.”
Parecendo não ter percebido, adianta o médico: “quando eu era miúdo vinha para aqui vender catos mais o meu irmão reitor da Universidade de Coimbra, e vendia tudo. Eu tenho uma ligação de afinidade com este mercado.
Atira Dinis: “eu nunca vi Coimbra tão em baixo como está actualmente.
(Referindo as obras do Metro) Pagou-se para levar as pessoas da Baixa. Hoje nem temos obras nem pessoas!”
As obras do Terreiro da Erva foram a pior asneira que se podia ter feito. Retiraram um estacionamento do centro da cidade.”
José Manuel não perde a oportunidade para jogar ao ataque: “por isso mesmo, em “mainstream” (para ser uma corrente dominante de ideias), vou ser o próximo presidente da câmara. E continua: “a Rua da Sofia precisa de uma paragem de autocarros. A Baixa precisa de se ligar ao rio.”
Há 30 anos que os HUC estão com o problema do estacionamento. A câmara trata mal os cidadãos com as permanentes multas da Polícia Municipal. Até agora, porque não conseguiu construir um silo para o estacionamento? Isto é o que eu chamo multas de sangue” -e puxou de um texto seu escrito no JN.
Prosseguiu Dinis: “é preciso realizar uma hasta pública para as lojas, mas a preços convidativos. O que se fez na última (no tempo de Barbosa de Melo e João Orvalho), com os preços praticados, afasta qualquer possibilidade de reanimar o mercado.
A meia-hora que se oferece no estacionamento não funciona. É para as pessoas irem tratar de coisas à Baixa. Não é para os clientes do mercado.
Manuel Machado, nestes quatro anos, nunca nos recebeu” (referindo a associação a que preside).
Já há muito que deviam ter retirado as bancas de madeira. Se tiver de entrar aqui uma maca do INEM não passa!
De supetão, atira José Manuel: “diga-me, o senhor não quer ir para a Assembleia Municipal?”. Durante a conversa, que demorou cerca de uma hora, o candidato voltaria a repetir a mesma interrogação. E por duas vezes Dinis disse não estar interessado.

A DESCRENÇA DO CIDADÃO

Embora o candidato independente por “Somos Coimbra” fosse recebido com simpatia e cordialidade, ficou bem patente a dificuldade em conseguir passar a mensagem. Não por sua culpa, obviamente, mas pelo estado psicológico dos comerciantes, em negação, que, nos últimos dezassete anos ouviram promessas e mais promessas e tudo continuou para pior.
Embora as ideias de José Manuel Silva fluíssem com a mesma naturalidade que uma fonte debita um caudal certo e harmonioso, a verdade é que os ouvintes, talvez pelo desânimo de verem os seus negócios caírem a pique, pareciam imunes a qualquer tentativa de sensibilização.


1 comentário:

Anónimo disse...

Sr. Luís Fernandes, vai-me desculpar, não leve a mal, mas já deve ter percebido que isto do comércio tradicional em Coimbra é uma tragicomédia a que o resto da população assiste com espanto, se não com indiferença, pior ainda. Já temos as queixas dos comerciantes da baixinha, os mesmos que têm horário de abertura e fecho que ninguém percebe e não abrem aos sábados à tarde, e agora temos uma associação dos comerciantes do mercado que quer mudar para lá a loja do cidadão, que é o que ainda dá vida aos seus colegas da baixinha, e recusa que existam actividades hoteleiras no mercado, uma prática comum em qualquer bom mercado do mundo. Está bem, está. Eu nem sequer sei ainda em que vou votar, mas nenhum deles substitui o próprio esforço e imaginação dos comerciantes… Ou isso, ou fecham de vez as grandes superfícies, para irmos comprar à baixa. Bons tempos, aqueles em que íamos comprar os legumes ao mercado e as mercearias mais finas ao Colmeia da Rua Ferreira Borges. Está lembrado? Eu estou, porque até nasci aí. Pois é transmitir ao sr. representante dos mercados que, para além das boas intenções, tem de puxar um pouco pela imaginação, porque as coisas mudaram entretanto um pouco.
Já agora, quanto ao estacionamento que se perdeu no Terreiro da Erva, segundo o senhor representante, deixe-me brincar, mas perdeu-se ainda mais estacionamento na Praça do Comércio e parece que em breve ainda se vai perder mais… a falta de estacionamento é uma queixa comum nos comerciantes da baixa? É que o bota abaixo está cheio dele.
Deixe lá quem eu sou, ou deixo de ser. Sou de Coimbra e consumidor como qualquer outra pessoa, ainda por cima com uma ligação sentimental à baixa, onde nasci e vivi uma parte da minha vida.