terça-feira, 11 de abril de 2017

CARTA ABERTA AO CANDIDATO AUTÁRQUICO JAIME RAMOS (E A OUTROS CANDIDATOS SUPERVENIENTES)

(Foto do Diário as Beiras - Luís Carregã)




Meu caro Jaime Ramos, candidato a presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Sem demérito ou desvalorização para os concorrentes já anunciados e outros que vão surgir, tomo a liberdade de me dirigir a si mais em particular por pensar que é o mais bem cotado no ranking da corrida eleitoral local para se bater, taco-a-taco, com o actual presidente em exercício, Manuel Machado.
Pelo que tenho lido, o candidato Jaime Ramos, em périplo, romaria em volta do mesmo espaço central, continua a contactar com tudo o que mexe, que seja poder instalado de facto ou de influência na cidade. É notório que nesta pré-campanha pretende atingir dois objectivos: um, apreender o pulsar dos agentes, decisórios e de influência, outro, ser notícia permanente nos meios de comunicação. Qualquer deles são legítimos e, a meu ver, demonstram inteligência.
Escrevo-lhe esta carta pela sua recente tomada de posição em relação à instalação do IKEA, no Planalto de Santa Clara. Citando o “Notícias de Coimbra”, V. Ex.ª afirmou o seguinte: “Coimbra quer-se jovem e sexy e é tempo de recuperar o tempo perdido e assegurar para Coimbra investimentos como este. Criam valor, fixam populações e asseguram emprego. Ao mesmo tempo, como factor de coesão social, deve ser apoiado o comércio tradicional e promovidas as suas zonas históricas. (…) Coimbra precisa de estabelecimentos deste género, de negócios âncora, como este do IKEA. Se as pessoas vierem a Coimbra, compram na loja, mas também no comércio tradicional, que acaba por ganhar com o investimento.”
Perante esta sua inusitada e incongruente manifestação de amor ternurento pela cidade e pela Baixa, enquanto comerciante na zona histórica, em meu nome pessoal, tenho de lhe dizer que dispenso completamente este seu carinho. Como sabe tão bem como eu, não se pode agradar a todos. Ou seja, enquanto caminheiros, perante duas estradas, por não termos o dom da ubiquidade, temos de escolher apenas uma. E o senhor com esta opção pretendeu estar nas duas ao mesmo tempo, como quem diz, teve a veleidade de ter um pé no Céu e outro no Inferno. Em metáfora, defino “Céu” como o estádio em que os consumidores -massa abstracta, insensível e brutalizada-, sem racionalidade, procuram somente o seu interesse egoísta e o “Inferno” o limbo em que foram empurrados e estão todos os pequenos comerciantes, operadores de serviços, alguma indústria hoteleira, proprietários e inquilinos na Baixa da cidade.
Até consigo compreender que o caro amigo candidato, estando afastado da vida de Coimbra há muitos anos, não sabe o estado empobrecido em que se encontra o comércio tradicional. E saberá por que se encontra depauperado? Entre vários motivos, o que causa directamente mais dano ao comércio de rua é exactamente o excesso de oferta. Diga-me, é preciso ser economista para ver que a oferta na cidade dos estudantes está esgotada? O que me custa mais a aceitar é que tantas conversas já tidas até agora e ainda não deu para ver que a urbe esta cercada por grandes e médias superfícies -a fazer lembrar as antigas torres de menagem da Idade Média- e que o nascimento de outras só pode dar em tragédia? Desculpe mas julgava-o mais inteligente. Erro meu, obviamente.
Assim sendo, explique-me como se eu fosse uma criança: como pode o candidato Jaime Ramos defender a instalação de mais uma grande área comercial que vai provocar ainda mais desgraça nas famílias da Baixa e, ao mesmo tempo, pugnar pelo apoio ao comércio tradicional? Desculpe a pergunta: não está a fazer de nós parvos, pois não? Em comparação, o seu exemplo absurdo faz lembrar as políticas de patrocínio de armamento na implementação de minas terrestres e ao mesmo tempo o custeio de próteses para os acidentados.
Percebo que o candidato Jaime Ramos, representante do PSD/CDS/PPM/MPT, quer conquistar o maior número de votos, venham eles de onde vierem, mas assim não aceito, meu caro senhor. Pouco lhe deve importar -afinal é apenas um- mas, a defender a instalação de mais grandes superfícies em Coimbra, não contará com o meu voto.
Consigo conceber que queira passar a mensagem de querer criar postos de trabalho na cidade. Mas há uma coisa: não se pode gerar emprego a qualquer preço -e estas palavras nem são minhas. Sabe quem as proferiu? Manuel Machado, o seu opositor. Mais que certo para desculpar a sua incapacidade, quer de conseguir desenvolver a cidade no seu todo, quer de retirar o Centro Histórico do marasmo apoplético em que caiu, fruto das suas políticas comerciais expansionistas iniciadas no início dos anos de 1990, com a abertura do Continente, da Makro (1993) e planos em papel para o antigo Dolce Vita e Fórum Coimbra, Retail Parque de Taveiro e Retail Park de Eiras, que viriam a ser concretizados por Carlos Encarnação, assessorado por Pina Prata, ambos do partido de génese Sá-Carneirista, bandeira que o senhor almeja desfraldar na varanda da Câmara Municipal.
O trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio para gerar rendimento para as famílias e, por consequência, bem-estar e felicidade. Se tudo servisse para o proliferar de colocações, legalizava-se o esclavagismo intra-específico, entre humanos.
Se me permite, estou em querer que o senhor vai ter de repensar a sua campanha propriamente dita. Ou se demarca do seu opositor, com propostas sérias, com políticas integradas para conseguir recuperar a Baixa, ou então, nem o candidato Jaime Ramos passará de vereador no executivo a eleger em Outubro próximo, nem esta zona comercial aguentará mais quatro anos.

4 comentários:

helena r. disse...

O candidato das Beiraas, Jaime Ramos a Coimbra, tem um ar tão compungido com tanto carinho e afecto pelos comerciantes da Baixa da mesma cidade que é de impressionar. Ele promete que lhes vai arranjar clientes mesmo com a inoportuna loja IKEA.
Conimbricenses abram os olhos, este já mostrou ao que vem como todos os demais, quer o tacho, cuidado, votem naquele/a que não seja comparsa de outros que derivem de partidos políticos, votem num independente como fez e faz o pessoal da cidade do Porto. Se não aparecer alguém honesto não votem em nenhum energúmeno que vos queira 'surpreender'. De 'surpresas' estamos todos fartos.

Mário Martins disse...

Quer o autor do texto quer a comentadora têm o que merecem: Machado, o homem que há 30 anos faz Coimbra andar para trás. Bom proveito. :(

LUIS FERNANDES disse...

RESPOSTA DO AUTOR VISADO

Confesso, meu caro Mário Martins, que durante uns largos minutos hesitei em responder à sua provocação e falta de respeito. Entre morder os lábios, arranhar na cabeça e mandá-lo foder, dei por mim a pensar que, pelo princípio da liberdade de expressão, qualquer asno merece resposta. Afinal, até compreendo bem o ter sentido o meu comentário como se fosse dirigido à sua pessoa. Claro que entendo. Afinal está em causa o futuro de alguém da sua família, por isso mesmo, está perdoado e pode continuar a evacuar o seu azedume e ressabiamento. Prometo por que não vou levar em conta o facto de não me recordar de, enquanto jornalista doutorado, ter lido crónicas acutilantes, assinadas por si, dirigidas contra o actual presidente da Câmara Municipal de Coimbra.
Além de mais, meu caro senhor, não lhe reconheço superioridade moral para me chamar a atenção seja no que for. Se o senhor fosse meu leitor -graças ao Criador que não é, dispenso-, deveria saber que o escriba deste lado da barricada -como quem diz, a minha pessoa-, que oferece o corpo às balas sem qualquer género de interesse, no que escreve é com honestidade moral e intelectual. Por outras palavras, escreve o que pensa em qualquer altura de um mandato eleitoral e não apenas em tempo de campanha.
Aproveito para lhe desejar uma Santa Páscoa. Em nome da santidade dos dias que correm, faça um favorzinho cá ao Toino: vá chatear o Camões.

Mário Martins disse...

Sem comentários.