segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O BAILE (UMA CRÓNICA ANTECIPADA)







É sexta-feira, 18 deste mês corrente. O relógio da torre sineira da igreja de São Bartolomeu, seguindo o tempo determinado pelo meridiano de Greenwich -contrariando o da torre da Universidade de Coimbra, que estancou nas 07h45 e só está certo duas vezes ao dia- marca 21h15. Na Rua Simões de Castro, junto ao Pavilhão da Palmeira, tendo em conta o hábito em horas e dias iguais, o movimento de pessoas é extraordinariamente anormal. Até dá para pensar que vai haver inauguração de uma qualquer obra pública recentemente realizada, como, por exemplo, o Terreiro da Erva, ali a dois passos. Mas não. Àquela hora da noite, pelo costume, não se cortam fitas. A haver corte, só se for na casaca de alguém.
Pelas roupas esmeradas e intenso cheiro a brilhantina, há no ar cinzento de Outono uma certa atmosfera de festa. Nos homens, embora menos formais com uma ganga aqui e acolá, nota-se uma certa ansiedade festivaleira e nas mulheres, algumas de saia comprida e echarpes cintilantes, pressente-se um glamour de beleza existencial. Como formigas em carreiro, todos se encaminham para o interior do centro de desportos da Baixa.
Transpondo o portão de entrada em forma de túnel, estamos agora no recinto dedicado ao desporto de bola em tabela alta. Na lateral, num palco construído para o efeito, os membros do conjunto musical “Casting” afinam os instrumentos. Tudo indica que, dentro de poucos minutos, o grande baile solidário a favor do Centro Cultural e Social 25 de Abril (CCS25A), com sede na Rua da Sofia, vai começar.
O Travolta, o maior dançarino da Baixa e arredores, acompanhado da Felisberta, dama de muitas virtudes, em movimento curto de pés, ensaia um passo doble.
Perante uma moldura humana já saliente apesar da noite ainda ser uma criança para o espectáculo, Sandra Campos, a directora técnica da instituição que dá apoio a mais de 120 crianças entre os três e os 12 anos, parece o mestre-obras a encaixar pessoas nos lugares-chave para que nada falhe e ofusque o sucesso da festa.
Junto ao guarda-mão em ferro, a um passo da bancada, está o José Cruz, o presidente da direcção do CCS25A. Todo esticado como um fuso, a começar pela barriga -que encolheu substancialmente graças uma dieta de emagrecimento dirigida sobre as ordens da herbalife, na Rua Martins de Carvalho-, o “”, todo engravatado, com um sorriso de orelha-a-orelha, como anfitrião oficial, estende a mão às personalidades mais badaladas da urbe que vão chegando.
Num instantâneo, agora, perante quem se aproxima, o Cruz não consegue disfarçar a estupefacção que lhe inunda o rosto. Abre os braços em leque e a titubear, balbucia um agradecimento: “muito... obrigado, doutor, por ter vindo. Obrigado, mesmo”. E deu um enorme aperto-de-mão a Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, que, pelo movimento abrupto e desengonçado, até pareceu ter deslocado o ombro ao chefe da edilidade. Fosse por isso ou não, a verdade é que Marta Brinca, esposa de Machado e médica, tratou de suavizar a omoplata do marido com uma pequena massagem.
Atrás do homem do leme da cidade, em fila indiana, está Carlos Cidade, de braço-dado com a mulher Ana Rosa, e Carlos Clemente, adjunto de Machado, e que nunca mais dançou na Baixa desde que saiu do comando da Junta de Freguesia de São Bartolomeu. A seguir, Francisco Queirós, da CDU e a sua senhora, creio. Na mesma linha de direcção vai Luís Marinho, presidente da Assembleia Municipal. Avista-se também o ex-presidente Barbosa de Melo, do PSD, agora no contra. E como se fossem beijar a mão ao Papa, muitos vereadores e deputados, da cor do executivo e da oposição, esperavam a sua vez. Ferreira da Silva, vereador eleito pelo movimento Cidadãos por Coimbra, com o seu inconfundível chapéu de abas largas, dando provimento a um sorriso rasgado, mostrava que ali, naquele evento solidário, o que contava mais era a presença de todos e menos “guerras” políticas fratricidas. Pouco importava se estávamos a menos de um ano de eleições autárquicas ou não. Interessa ainda menos se em relação à abertura da Avenida Central, ali próxima e cuja discussão está em cima da mesa, cada partido político tem a sua opinião.
Ali, no Pavilhão da Palmeira, comissários políticos em representação das suas agremiações, embora estivessem a fazer política-partidária, o que os movia era algo mais profundo do que a egoísta captação de votos. Com este seu gesto a favor da filantropia, mostravam aos conimbricenses que estavam atentos ao que se passa na cidade e tanto se sentam numa cadeira do Convento de São Francisco a ouvir a Marisa como numa bancada fria, simples e sem veludo de honrarias.
E o agrupamento musical “Casting” atirou a primeira nota para a primeira dança. José Cruz dirigiu-se ao casal Machado, presidente da Câmara Municipal e esposa, e convidou-o a abrir o baile. Com o rodopiar do representante eleito na Praça 8 de Maio, ouviu-se uma enorme salva de palmas. O povo gostou da generosidade do “Manel da pêra”. Atrás de mim, o Almerindo Abrolhos, um reconhecido observador e comentador de tudo o que mexe na Baixa, atirou: “Ó Luís, já viste que o gajo está mais humilde? Estou a gostar. Sim, senhor! Ainda dizem que as pessoas não mudam...!

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