quarta-feira, 16 de novembro de 2016

EDITORIAL: BATE A GOTA COM A PERDIGOTA (MAS É PRECISO CHEGAR LÁ)






Ontem, o INE, Instituto Nacional de Estatística, fez anunciar que, face ao trimestre anterior, o PIB, Produto Interno Bruto, cresceu 0,8% no terceiro trimestre deste ano. Em comparação com o período homólogo de 2015, a riqueza produzida no país cresceu 1,6. Afirma ainda o INE que uma das razões é o aumento das exportações -em detrimento das importações. “O consumo privado também deu uma ‘perninha’, mas em menor dimensão, graças a um aumento das compras de bens não duradouros e serviços, enquanto que a venda de bens duradouros desacelerou, o que ajuda a manter as importações a crescer menos que as exportações neste período.
Pelo que se interpreta, aumentou o consumo privado de bens não-duradouros (que são destruídos após a utilização, como o pão, a comida e as bebidas) e diminuiu o consumo dos duradouros, como exemplo, electrodomésticos e automóveis e, embora não se faça a divisão, presupõem-se, que neste grupo estão incluídos os semi-duradouros, como sapatos e roupas.
Ouvindo ou lendo as notícias a frio, parece que a economia, no seu todo, está a crescer. Acontece que não é assim. O que se entende é que, de facto, apenas aumentaram as exportações e, internamente, o consumo da "paparoca" -o que pode significar que as pessoas passaram a comer mais e talvez melhor.
Ora, em balanço, num país cuja economia assenta essencialmente no consumo interno, estas notícias não são assim tão positivas quanto parecem ser.
E comecei com esta introdução para ver se as contas batiam certas. Como quem diz, conseguir explicar as dificuldades do comércio tradicional, sobretudo na Baixa de Coimbra.
Nos últimos três meses encerraram 7 lojas -quatro este mês- e abriram 3.
Pressente-se no ar uma ambiência de tragédia. Falar com alguns comerciantes -com aqueles que, com elevada coragem, mostram a verdade- toma-se pulso ao desespero que, como nuvem negra, se abate sobre o comércio de rua. Escrever que, quer a nível local, camarário, quer sobre o âmbito governamental, alguma coisa deve ser feito, por já estar cansado de malhar em ferro frio, quase não vale a pena. Seja o executivo da Câmara Municipal de Coimbra seja o Governo nacional, ambas instituições decisórias de poder, continuam a assobiar para o lado e a fazer de conta que não se passa nada.
Como ilustração, publicadas ontem no Facebook, vou transcrever uma carta de uma senhora lojista e outra de uma senhora proprietária de um café, ambas a trabalhar na Baixa da cidade:

Em menos de uma semana encerraram 3 lojas a poucos metros de distância da minha. Falarei da primeira, que tive conhecimento deste triste desfecho e que de alguma forma me tocou quando numa das minhas passagens me deparo com surpresa com o papel na montra a informar que a loja encerraria no fim do mês. Admito, fiquei um pouco transtornada pois este casal de comerciantes abriram o estabelecimento com diferença de uma semana do meu, mas recordo as nossas conversas, as nossas aspirações, projectos. Enfim, algumas vezes tirávamos dúvidas e é com pena que de cada vez que passo na rua (...) me deparo com uma loja que apesar de ter estado aberta apenas 3 anos houve muita luta deste casal. Aquelas paredes, com certeza, terão vida e muitas dores, muitas e longas histórias de acertos e desacertos. A este casal só posso mesmo desejar que a vida lhes sorria melhor do que tem sido.
Logo ali perto de mim encerrou uma outra loja com roupa de baptizados. De repente, apareceu tudo tapado com papéis, e a funcionária, que lá estava a trabalhar, nem sequer teve conhecimento do facto. Só depois de consumado soube que o patrão tinha aberto insolvência.
Hoje passei na Rua Adelino Veiga e deparei-me com mais duas lojas encerradas a juntar às demais daquela rua, que parece uma rua fantasma
(esta artéria passa a deter o record de 16 lojas fechadas). A Valise de carteiras e a outra loja Valise de sapatos também encerraram.
Só na Rua Eduardo Coelho, antiga rua dos Sapateiros -assim denominada porque outrora eram só sapatarias- estão 3 encerradas e a viabilidade de reabrirem é quase nula. Depois temos ainda mais duas na mesma rua que brevemente, se não encerrarem, mudarão de gerência. E depois ainda, a poucos metros, sem que tenha dons, prevejo para tal o fecho eminente de uma outra loja.

Hoje pensei: vou fazer as montras de Natal. Mas... fiquei-me pelo pensamento e nada fiz. As ruas estão desertas e nós comerciantes estamos desgastados. Agora sim , acredito, a Baixa acabou e, sem querer ferir susceptibilidades, houve quem contribuísse para que tal acontecesse. Agora já é tarde, e realmente foi uma pena. Coimbra tinha tanto potencial. E houve uma altura em que surgiram novos investidores que viram na Baixa de Coimbra uma oportunidade para brilhar. Tal como acontece noutras cidades em que a câmara local investe no comércio tradicional. Em Coimbra pedem-nos dinheiro para fazerem algo alusivo ao Natal (dinheiro que não dou pois estou falida). Se não quiserem pôr um pinheiro à minha porta já pouco me importa.”

Outro desabafo de uma  senhora proprietária de um café:

(...) É triste para quem passa e para quem queria e não pode. ..É triste ver a Baixa escura, triste, vazia. Nós tentamos economizar de todas as maneiras e proporcionar o que temos aos clientes e a quem passa. Quando a Câmara Municipal nos faz pagar 22 euros por ter um vaso à entrada, mais 22 para o menu. Já não falo dos toldos, esplanada, reclames. ...Como poderemos contar com ela para nos ajudar?
(…) Neste momento, muitos comerciantes quase não ganham para pagar a luz que precisam para o dia quanto mais para ter as luzes acesas toda a noite. Eu falo por mim. Infelizmente tenho que andar sempre a pagar a luz às prestações.
(…) Chego à Baixa às 06h45 da manhã. Eu não vejo nada. Muitas vezes já apagaram as luzes. Eu tenho medo de passar pelas ruinhas, mas não posso evitar. ...Tenho que trabalhar. Muitas vezes o rapaz do jornal fica à porta até eu entrar no meu estabelecimento. Muitas vezes com o meu filho de 5 anos. Não me sinto nada segura às sete da manhã na minha rua.”

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