sábado, 9 de abril de 2016

TERTÚLIA “COIMBRA E O MUNDO" (2)





O relógio da torre da Universidade, a cabra, tinha acabado de bater as onze badaladas (23h00). O tempo, esse espaço virtual que divide o eventual em efeito real, tinha escoado como um suspiro. No agradável espaço do Recordatário da Rainha Santa Isabel, aquelas quase duas horas, a ouvir “histórias de vida” contadas na primeira pessoa, tinham passado a correr. O tema era, relembro, “Coimbra e o Mundo – Perspectivas em debate”. O excelente painel constituído por quatro eméritos cidadãos de Coimbra, respectivamente, Américo Santos, Armando Braga da Cruz, Francisco Andrade, Arnaldo Baptista e pelo anfitrião convidado para presidir à sessão José Simão, foi um doce para os ouvidos dos presentes. A apresentação, muito bem desempenhada, esteve a cargo de Hélder Rodrigues e Isabel Garcia.
E foi anunciado o final da primeira parte com a leitura de um poema de Pitty Tavarela, com o título “Estudante”. A seguir abriu-se o leque para perguntas e desabafos intimistas, na mesma linha do ambiente nostálgico e romântico. Estava aberto o confessionário com acesso ao muro das lamentações.
Foi dada a palavra a uma senhora sentada no canto direito. Como introdução, agradeceu a realização da tertúlia e a seguir atirou a matar: “as nossas instituições são quase impenetráveis para o cidadão”. Virando-se para Arnaldo Baptista, da Praxis, rematou: “o empresário em Coimbra não é reconhecido nem acarinhado por contribuir para o desenvolvimento da cidade.
A Estação Velha é para mim um frenesim. Está melhor. O cidadão de Coimbra tem ideias megalómanas. Não tem de ter a Estação do Oriente (Lisboa), tem é de estar limpa. A Hidráulica (Agência Portuguesa do Ambiente) é um problema –referindo os muros em mau estado que marginalizam o Mondego. O encerramento da linha da Lousã foi um roubo aos cidadãos”. E continuou na plangência, “para refazer um muro que já existia tive de entregar 40 requerimentos. Quando me pediram o 41º desisti. Coloquei uns taipais e uns arames.
Tenho reclamado para os Monumentos Nacionais sobre o estado decadente da porta da Igreja de Santa Cruz. Há tempos fui lá. Estive imenso tempo para ser recebida. Quando veio o arquitecto, depois de lhe apresentar o problema, disse que não se podia fazer nada porque era um Monumento Nacional. Ofereci-me para colocar óleo a minhas expensas. Não senhor! Não podia, disse. As instituições não ouvem nem servem o cidadão.”
Porque conhecia o problema do muro particular, pegou na palavra José Simão. “Quero falar da freguesia de Santa Clara!”, impôs a frio. “Nós temos cá um habitante muito antigo, com cerca de 1800 anos. Foi descoberto nos Alqueves por Santos Rocha, em finais do Século XIX. O Convento de São Francisco foi uma batota do Governo. Foram lá descobertas trezentas e tal ossadas. Não sei onde páram. Até hoje não me deram explicações. Há coisas que acontecem em Santa Clara! Agora está melhor porque a cidade já não pode crescer mais em altura e então só pode crescer para as margens. O quartel tem sido vandalizado. Não tem um único fio de cobre. Roubaram tudo!”
Atrás de mim, outra senhora estava ansiosa para exaurir e limpar a alma. “Sobre o fado, em vez de ser apresentada a canção de Coimbra na Casa da Escrita, numa sessão em que estive, foi apresentado o fado de Lisboa.
Tenho um prédio na calçada dos Gatos. Contíguo ao meu edifício, tem andado lá a decorrer uma obra. Tinha andaimes. Era uma obra ilegal. Eu avisei para terem cuidado. O homenzinho respondeu: “nós temos de morrer!”. Ontem caiu e não se sabe como está. Os andaimes, depois do homem ter caído, desapareceram logo. Isto é tudo assim!”
A seguir falou um ex-funcionário da desaparecida Poceram –fábrica de Cerâmica de Coimbra, liquidada por insolvência em 2010 com 150 empregados para o desemprego. “Na década de 1990, a certa altura era preciso fazer remodelações na casa. Já havia quatro milhões cabimentados em subsídios a fundo perdido. As autoridades locais não deram andamento. Foi para a Figueira da Foz. O Santana Lopes fez tudo num mês, e uma parte da fábrica foi para lá.”
Outra senhora, agora do lado esquerdo, pediu a palavra. “O que é que o nosso poder local fez?” –interrogou. E prosseguiu, “não vamos para lado nenhum. Continuamos abandonados. Como é que os políticos estão a desenvolver a cidade? Nós, a zona de Santa Clara, somos Marrocos. Já cá estou há meio-século. Coimbra é mesquinha, pequenina, porque os políticos assim o querem. Porque é que temos uma cidade envelhecida? Porque é que os jovens passam cá e não ficam?”
Um homem em frente a mim disse: “a Universidade, o Hospital e a Câmara Municipal são os pilares do emprego em Coimbra!”. E continuou, “De que modo é que isto ajuda os empresários? Pelo condicionamento (do elevado peso do emprego público na cidade), talvez esteja aqui a razão de Coimbra não progredir.
Vitor Costa, artista plástico e ex-presidente da Junta de Freguesia de Almalaguês, pediu para explanar. Virando-se para Braga da Cruz, questionou: “já se falou que os projectos aqui nascem, não se desenvolvem, e florescem noutras cidades. Que proposta tem a comunicação Social?”

UM PERGUNTA DESESTABILIZADORA

Estava no final e tudo a correr tão bem -como quem diz na paz dos anjos. Não sei se Deus estaria a tomar notas no seu imenso caderno social onde apontará as frustrações e as vaidades do mundo. O que sei é que eu, sentado na minha cadeira de espectador, enquanto escrevia, numa espécie de balanço existencial entre o ser e o parecer, estava dividido entre o ir embora na concórdia do Senhor e não dizer nada sobre o que estava a assistir -já repetidamente visto vezes de mais- e plasmar o que pensava. Se partisse sem um pio, não voltaria a mais nenhuma tertúlia igual, pelo tédio causado pela falta de consequência prática, mas ficava bem visto –já que conhecia a maioria dos presentes. Se falasse –porque já estou acostumado a ser assim- todos voltariam os olhos para mim e, numa  unânime condenação intelectual,  pensariam: “o que quer este gajo? Só veio cá para desestabilizar!”
E pumba! Como se lançasse uma granada na encantadora sala protegida pela santa, atirei o mote e a pergunta: o tema da tertúlia é:Coimbra e o Mundo – Perspectivas em debate –de que modo é que o que se passou hoje aqui sai para o conhecimento de Coimbra?
Numa primeira fase, notei o incómodo mas aguentei. Numa segunda, em raciocínio lógico, pareceu-me que perceberam e acomodei-me melhor no assento. De pouco vale contar bonitas histórias e lamentos carpidos dos munícipes se circularem em circuito fechado. O resultado é, como diria José Gil: a não-inscrição. Se não chegar aos receptores visados não existe. A ser assim, será sempre uma acção sem qualquer prestabilidade. Não passará de uma conversa de café. Tenho notado isto mesmo nos últimos tempos em Coimbra. Deste problema gravíssimo, da irresponsabilidade da comunicação social na vida comunitária, ao não dar ênfase aos eventos decorridos na cidade, falarei em outro texto.
Vá lá! Saí inteiro do Recordatário. Não sei se por todos os presentes serem da minha faixa etária se por obra e graça da Rainha Santa Isabel.


1 comentário:

Victor Costa disse...

Amigo Quintãs obrigado pela intervenção, pelo agitar das águas, pela racionalização e frieza.
Também subscrevo a sua perspetiva, é preciso que das tertúlias as questões e as preocupações as ideias e as proposta, saiam das salas e dos seus participantes cheguem à urbe.
A cidade, os outros e a autarquia, precisam delas ter conhecimento.