quinta-feira, 21 de abril de 2016

O FAISAL ENCOSTOU ÀS BOXES





As cidades são portos de confluência onde diariamente aportam novos caminhantes. Uns com vida formada e perfeitamente inseridos, outros, sem eira nem beira, buscam um espaço de convivência como último horizonte. Uns e outros, no essencial, procuram a sobrevivência, passando pelo reconhecimento e salvação. Se os primeiros, os entranhados na sociedade, demandam o mérito numa vida melhor, já os segundos procuram somente acordar e esquecer retalhos de uma memória que, em ambiguidade, os levam à culpa e à redenção. Aos poucos, porque se adaptam ao meio e são pacíficos, vão conquistando o seu espaço e, sem darem por isso, fazem e tornam-se parte do todo societário. Estes, para muitos de nós são “cromos”, personagens diferentes do comum que, pela graça, rebeldia e singularidade, emolduram e transformam as rotinas das grandes urbes. Se no dia-a-dia, em vida, poucos os consideram como gente de nós, pessoas de inalienável direito, já na morte assiste-se a duas manifestações públicas. Se for apregoada através de um meio de comunicação social, como um jornal, não páram as condolências de baba e ranho. Se o seu desaparecimento apenas for notado pelos mais chegados e não houver grande alarido pela sua ausência, o mais certo é o desgraçado até na morte ser ignorado. Em boa verdade, um homem nasce e morre sozinho. E na morte lava-se a alma.
Um dos personagens errantes que vou falar é o Faisal Abadi, senhor do mundo e de liberdade, um simpático natural do Iraque e há mais de vinte anos a viver em Coimbra, depois de ter passado por outros países da Europa. É um amável “vagabundo” destas ruas estreitas, que pela educação –quando não está de grão-na-asa- nos gera afeição e saudade.
O que me levou a escrever esta crónica é que o nosso amigo Faisal, de 58 anos de idade, teve um AVC, Acidente Vascular Cerebral, há cerca de duas semanas. Foi internado nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, e, conforme as suas declarações, em processo de recuperação, dentro em breve terá alta e será instalado e apoiado pela Cáritas Diocesana.
Um grande abraço e votos de rápida recuperação para o Faisal.

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