quinta-feira, 21 de abril de 2016

PEDRO FREITAS, O “VAN GOGH” PORTUGUÊS



O pintor mais célebre da Baixa de Coimbra Pedro Freitas, de nomenclatura completa Pedro Duarte da Silva Freitas, está muito mal de saúde. Internado nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, desde Fevereiro último, onde entrou muito frágil, físico e psíquico, já com as defesas naturais descompensadas, viria a apanhar a bactéria multi-resistente aos antibióticos.
Desde essa altura que, alegadamente, o seu estado tem vindo a agravar-se –escrevo “alegadamente” já que me estou a socorrer da minha apreciação subjectiva. Muito magro, já sem voz, o Freitas é hoje uma sombra encolhida de há um ano atrás.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Freitas tem obras espalhadas pelo mundo inteiro. Filho do grande escultor Silva Freitas, o Pedro transporta nos genes a criação artística do seu progenitor. Desde muito cedo, sabe-se lá o porquê, enveredou por caminhos de dependência que, mais tarde ou mais cedo, conduzem à perdição. Em 2009, quando o encontrei pela primeira vez na Baixa, dizia-me: “A vida nunca me foi fácil. Às vezes, neste labirinto existencial, tomei por caminhos que não devia. Mas olhe que eu sou um bom pintor. Se for à Internet e clicar “Pedro Duarte da Silva Freitas”, você verá toda a minha obra”, aconselhava-me em apelo.
Voltou a Coimbra em Abril de 2015, e assentou arraiais na Baixa.
Homem de semblante profundamente triste, onde a solidão e a tristeza se podem pegar em braçadas, mostra uma sensibilidade única de génio criativo. Tal como Vincent Van Gogh as suas obras nunca foram muito valorizadas por quem lhas adquiriu –e falo de mim também. É bem natural que o seu percurso, de vida e morte, vá ser muito parecido com o do pintor universal dos girassóis.

TRATADO COMO INDIGENTE

A primeira vez que fui visitar o Freitas ao hospital foi em Fevereiro. Nessa altura, embora já vulnerável, onde a visita já implicava equipamento especial de doença infecto-contagiosa, ainda eram audíveis as suas palavras. Perguntei no gabinete médico da enfermaria se algum familiar já o tinha visitado. Disseram-me que uma sua irmã, de Lisboa, já o tinha ido ver. Por uma questão de prevenção, deixei o meu número de contacto para o caso de ser necessário algo transcendente.
Em meados do mês passado, de Março, voltei. Já pior, falando eu pelos dois, ainda conversei com ele.
A semana passada, numa manhã, recebi um telefonema de uma assistente social dos HUC. Depois da introdução, referindo o facto de lá ter deixado o meu contacto, continuou a funcionária, “estou a ligar-lhe, senhor Quintans, por causa do Pedro. Como deve calcular, ele não pode continuar aqui no hospital. É necessário transferi-lo para uma Unidade de Cuidados Continuados. Lá está melhor do que aqui. Então precisava de lhe pedir um pequeno favor. Coisa simples. Sabe o que é? Para o transferir dos HUC precisamos da assinatura de alguém próximo dele. Então lembrei-me do senhor…”
Interrompi para lhe perguntar a razão de não convocar a irmã, de Lisboa. Respondeu a técnica de acção social: "sabe, ela está longe e só precisamos mesmo de uma assinatura. É apenas um conhecimento e que não implica qualquer responsabilidade. É apenas para sermos rápidos a solicitar a unidade de cuidados continuados. Já agora, senhor Quintans, pedia-lhe que fosse à enfermaria de Cirurgia pedir uma cópia do Cartão de Cidadão do Freitas”.
Como? Interroguei. Então a senhora está dentro do hospital e está a pedir-me que vá à sua instituição pedir um documento? Anuiu a senhora de que faria isso, mas para eu não deixar de ir à unidade hospitalar assinar. Eu disse que sim.
Depois de desligar o telefone comecei a ver que alguma coisa não batia certo e liguei para o gabinete de acção social para voltar a falar com a senhora. Como não estava, deixei recado para me telefonar. Não ligou. Só ao cair da tarde, por insistência minha, consegui entrar em contacto. Nessa altura disse-lhe que não estava certo ser eu a assumir um encargo que é, por obrigação, da família. Que ligasse para a irmã e, no caso de ela não aparecer, então faria eu a substituição. Disse-me a funcionária: “mas eu já falei com a senhora. Ela não se importa que seja o senhor!” –torci o nariz. Imaginei que estava a ser enganado de uma forma vil. Mesmo assim, ficou combinado que se ela não respondesse, esta semana iria assinar o documento.

ENGANAR O POBRE TOLO

Ontem de manhã recebi um telefonema da funcionária dos HUC. Exageradamente simpática, apelando à minha compreensão e humanidade, pediu por todos os santinhos que fizesse este gesto pelo Pedro. “É só mesmo assinar o documento, mais nada! Os documentos ficam à sua espera na Cirurgia”–enfatizou a mulher depois de eu ter concordado.
À hora do almoço fui ao hospital. Na enfermaria disse ao que ia. Trouxeram-me os documentos e, apenso, mais duas folhas para preencher com os dados do Freitas, para pedir o internamento e pensão social de invalidez, e para entregar na Segurança Social. Passei-me! Se há coisas que me tiram do sério é aldrabarem-me e fazerem de mim parvo. Fiquei fora de mim e quem ouviu foi a chefe da enfermaria.
Com apelos à calma pela profissional, comecei a pensar que se não fizesse o necessário quem iria apanhar por tabela seria o Freitas.
Hoje, na Loja do Cidadão, na Segurança Social, perdi parte da manhã. Fiquei a saber que muito do que fui lá fazer é da responsabilidade da técnica de acção Social. Ou seja, podem tirar-se duas conclusões. A primeira é que a familiar do Freitas não quer saber dele. A segunda, é que a funcionária, tentando passar a bola e desonerando-se da sua obrigação social, moral e ética, valendo-se da minha aparente ingenuidade, está a descuidar os cuidados a um doente que não pode responder por si.

MAS HÁ MAIS FAMÍLIA

Passei o dia a tentar chegar à identidade e à fala com a irmã, de Lisboa. Não consegui. Mesmo na enfermaria, escudando-se atrás de uma impossibilidade legal de ceder o contacto, não foi possível. O argumento é que “é uma questão de justiça”. “Se a senhora não quer saber do irmão é um direito dela”, foi-me dito assim mesmo! Perante a minha total impaciência e irritação. Não tenho mesmo pachorra para certos idiotas.
No entanto, de ramo em ramo, hoje, consegui saber que o Pedro Freitas tem três filhos. Dois maiores, a viverem em Lisboa, e um menor, a viver em Arganil.
A pergunta que fica é: porque não tentou a assistente social investigar os seus descendentes? Em especulação, porque não lhe interessa! O que está em causa é despachar uma “coisa” o mais depressa possível. É muito triste o que se está a passar nos HUC com um homem que, pela obra deixada, ficará para sempre ligado à arte.


14 comentários:

dasilva disse...

E será que o "pintante" Pedro Freitas alguma vez FOI pai ou irmão de alguem? Pela aragem parece-me bem que não, daí o estar a recolher os frutos da seara que semeou. Por que é que não teve a coragem de se eutanasiar a tempo e horas. Que carga de trabalhos certidões e assinaturas se poupavam.

Shankara disse...

Isto é horrendo! Eu conheci-o e tenho grande carinho por aquela alma vagabunda que no fundo apenas busca amor e aceitação, mas a sua ingenuidade e rebeldia o fazem um marginal na sociedade... vi suas obras a serem criadas (até lá tenho em casa) nelas se reflecte os seus desejos e medos... Espero que este não seja um adeus... E que ainda haja um final mais digno para Pedro!

Mónica Gomes de Sá disse...

Deprimente. Tenho um quadro do Pedro. Chama-se Talisman. Fiquei comovida por saber que se encontra doente e só... Parabéns pela sua attitude perante a situação, e por divulgar ...

Ana Neto disse...

Quem responde assim não pode ter qualquer tipo de sentimentos, lamento a falta de sensibilidade.

Anónimo disse...

Lamento o seu estado de saúde. Dei alojamento ao Pedro em 2007 e em 2014,tenho algumas obras dele e ele falou-me algumas vezes numa irmã e que a mesma desempenhava funções de relevo numa universidade em Lisboa mas,me lembro em qual. Também conheço alguém que o tentou ajudar no ano de 2014 e posso tentar falar com essa pessoa.Meu endereço elétronico:casamiramar@hotmail.com

Anónimo disse...

Lamento que o Pedro esteja doente.Tenho algumas obras dele.Dei-lhe alojamento no ano 2007 e em 2014 e ele comentou que tinha uma irmã a desempenhar funções bastante relevantes, numa universidade em Lisboa mas,mas não me ocorre qual. Também conheço alguém que o tentou ajudar em 2014.

ING Daniel Pimenta disse...

Tenho varios quadros do Pedro ele e uma pessoa muito cultivada bem educado tem os seus defeitos como muitos artistas mas tenho muita pena de estar longe e nao poder ajudar quando eu estava em portugal pedia me alguma ajuda e em volta pintave me um quadro sem eu pedir nada de volta so quem nao o conheçe é que pode falar desparates um grande homem cheio de bondade ING DANIEL PIMENTA

ING Daniel Pimenta disse...

O Pedro é um grande artista e amigo como todos artistas tem os seus defeitos tenho varios quadros dele uma pessoa honesta cultivada e bem educada sem maldade nenhuma pena eu estr no estrangeiro e nao poder ajudar ING Daniel Pimenta

ING Daniel Pimenta disse...

Tenho varios quadros do Pedro grande artista e amigo cultivado e bem educado sem maldade tenho pena de estar no estrangeiro e nao poder ajudar ING Daniel Pimenta

Miguel Dias disse...

Hipócritas. Quanto pagaram pelos seus quadros? O suficiente para uma dose???

SuperFebras disse...

Amigo

Coitado do DaSilva.
Estava eu aqui ja' de dente afiado quando me apercebi do desperdicio que seria caso julgasse tal alma impludida.
E' que nao seriam mais que as minhas manchas se por mim julgadas as suas fraquezas. Encontra mais que as minhas seria e e' humanamente impossivel. Sabe amigo, quem isso me doutrinou conhece o daSiva tao bem!
Para que semear ventos se sei que colherei tempestades.
E odio? Que ripa um homem que espalha o odio?

Receba um abraco de quem teme ser julgado irmao e pai bem pior que o Sr. Freitas
Alvaro Jose da Sila Pratas Leitao

Anónimo disse...

O Pedro tem 4 filhos de 4 mulheres diferentes. Um filho está na Jugoslávia, é treinador de basquetebol na principal liga jugoslava. Tem mais dois filhos em Lisboa e um em Arganil. A família de Arganil é a única que ainda lhe mantinha alguma ligação. No entanto, a sua ex-mulher de Arganil, faleceu há dois anos. O filho, a formar-se em engenharia informática, suspendeu os estudos na altura para tomar conta da mãe. Desde então, o Pedro afastou-se da família que lhe restava por se culpabilizar pelo sucedido.
Parece que, infelizmente, o passado de toxicodependência do Pedro tem feito com que ninguém na família o reconheça. Para quem não sabe, já lá vão 20 desintoxicações e 3 comas fruto do consumo de heroína.
Por mais que custe, parecd que o Pedro, muito infelizmente, terá um fim solitário.
Mas, dando toda a razão ao Miguel Dias, a admiração e a amizade da maior parte das pessoas pelo Pedro teve sempre apenas como fim ter quadros em troca. 20, 30 ou 50€ por um quadro não é de quem o admira, é de quem não se importa de o ver matar o seu próprio vício em troca de poderem ter um quadro dele.
A hipocrisia de muitos assenta-lhes que nem uma luva.

Otilia Santos disse...

Caros humanos:

Indignada é pouco para tanta falta de Sensi. "Bater no ceguinho" é fácil, não é?... pois, no que depender de Mim: farei de TUDO para resgatar o Ser Maravilhoso que é o mestre Pedro Freitas. "Atire a primeira pedra quem não..." Vá: atire!!!

O mestre Pedro Freitas é um Resistente. Vai resistir. Vai. Li nos seus olhos brilhantes de quem já esteve no lado de lá. Mas é Cá que o quero a Brindar-me com as suas obras. È cá. O mestre vai voltar. Tenho a certeza. Regenerado e afastem-se Abutres e aves Agoirentas. Bem-vindos os que querem o mestre Pedro Freitas de volta ao calor de quem sabe que Asas não servem a(penas) para voar...

Saudações Humanísticas...
Tila Santos

e então ?.. disse...

Não vamos culpar ninguem pela situaçao do Pedro a toxicodependencia é um problema que requer da parte de todos uma reflexão. Não o vamos condenar nem ninguem se devia ter aproveitado da situação dele.Não sei se a liberalização seria uma soluçao ele ter aquela dose certa e ser acompanhado tagoralvez tenha faltado conhecer as causas as vezes tratam se os sintomas mas nao se vai as causas. O Pedro tem um curriculum muito rico pessoalmente reconheço muita qualidade e conhecimento tecnico embora nao me identifique com o trabalho dele. Quero dizer que ele era um bom ser humano e que a vida foi o que ele quiz que fosse agora nós vamos daqui para a frente fazer o melhoe