quinta-feira, 13 de setembro de 2007

POEMA A UMA FUGITIVA

Se eu pudesse te falar,
da mesma forma que sonho,
quem sabe não te iria amar,
como este poema componho;
Porque foges tu de mim,
meu anjo azul e branco,
corres como uma sombra assim,
vagueias no espaço franco;
Afinal de que tens medo?
Confessa e conta no meu ouvido,
se tudo faço e estou quedo;
Fugires fará sentido?
posso não ser o teu Deus,
nem sequer o teu ideal,
olha só em olhos meus,
para não me sentir mal;
Se eu pudesse ser poeta,
ou talvez um trovador,
gostava de ser a meta,
desse teu louco amor;
Se és tão linda de morrer,
porque estás só meu querubim,
deixa-me ao menos prometer,
que te sigo sempre assim;
Porque me olhas assim,
se pareces não me querer,
és uma tentação para mim,
jamais vou te esquecer;
Podes viver toda esta vida,
e na morte não me querer,
para mim serás sempre sentida,
como o espírito-alento do meu ser.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

O GENOCÍDIO DO ENTUSIASMO DE VIVER

Os leitores de jornais diários, há cerca de cinco anos para cá, são surpreendidos, quase todos os dias, por suicídios. Até há bem pouco tempo era o Alentejo que, nas estatísticas fatídicas, detinha o infeliz recorde de maiores desistências de viver. Por razões sociológicas, já estudadas que terão a ver com o abandono da terra no após 25 de Abril e também pela introspecção anímica e elevada sensibilidade destas simpáticas gentes, que, um pouco por todos nós, têm sido, ao longo do tempo, alvo de jocosas anedotas. Mas se tivermos em conta que apenas se parodia o original e o diferente, logo se compreenderá este permanente olhar trocista e generalista, como se, através de um, fosse possível catalogar o todo.
Há cerca de dois meses, fomos todos surpreendidos pelo massacre colectivo de uma família inteira no Montijo. O homem, chefe de família, em profunda agonia financeira e subsequente depressão eliminou completamente a família e pondo, em seguida, termo à sua própria vida. Deixou espalhado na sala, a cobrir os corpos, cerca de 150 mil euros em notas. Como que a dizer-nos que pela conquista do dinheiro se vive desenfreadamente e por ele, quando nos falta para cumprir compromissos ou satisfazer vícios, de um estilo de vida anteriormente alcançado, se claudica, desistindo, preferindo morrer, sem apelo nem agravo, do que passar pela vergonha da necessidade sofrida.
Ontem, em Viseu, uma mulher de 40 anos matou os dois filhos e seguidamente pôs fim à sua própria vida. Atente-se nos requintes de crueldade e na forma primária como executou os filhos: um menino de oito anos, estrangulou-o; à filha de onze, cortou-lhe o pescoço com uma serra eléctrica de cozinha. Vale a pena pararmos um pouco aqui para reflectir. Uma mãe que extermina de modo sádico, selvático, animalesco e frio, entes que saíram do seu corpo, que eram carne da sua carne, respirar do seu respirar, tinha que estar no limite, no precipício, sabia que andar para trás não podia e a única forma de evitar um sofrimento continuado aos seus pequenos amores era levá-los consigo, e, pondo de lado a sua dor, lançou-se, juntamente com eles, no abismo profundo do desespero. Dizer, depois da acção, que o fez porque estava em profunda depressão, é pouco, é como se todos nós, tentando lavar as mãos da nossa responsabilização, passássemos a culpa para a depressão, porque esta tem as costas largas e assim todos poderemos dormir descansados.
Então, depois da apresentação destes dois casos como modelo, vamos todos tentar dissecar e analisar as razões objectivas que levarão estas pessoas a cometer estes actos tresloucados. Começaria pela observação antropológica do homem: o suicídio será um sentimento primário intrínseco, imanente à existência humana, como é o furto, a violência, o assassínio. Quem de nós, num determinado momento amargo da vida não pensou nisso que ponha o dedo no ar. Claro que, como nuvem negra em movimento e passageira, imediatamente é empurrada para os confins da mente e logo um pensamento positivo advém, assim com o a castração e auto condenação de nos termos, mesmo por segundos, deixado tocar pela desistência da vida. Não será por acaso que a religião católica-romana condena o suicídio, assim como as várias formas de aborto ou obstaculação de práticas que levem à limitação de gerar vidas. Ainda que nos custe a entender esta radicalização, parecendo que esta religião parou no tempo, a verdade, temos de constatar, é que a sua linha é pró activa da vida, em contraste absoluto com o desprendimento da pessoa humana seguido na ortodoxia Islâmica e muçulmana.
Depois desta análise antropológica passemos à política e social. A partir de 1986, ano da adesão de Portugal à então CEE, pelos imensos milhões em forma de subsídios, todos nós, mesmo sem o querermos, mudámos de um comboio periclitante e paupérrimo, de pouco consumo interno, para um trem de luxo em que nos habituámos a todas as mordomias e, pela abastança vinda de fora, a adquirir tudo o que nos desse na real gana. Uns chamaram a este comboio o trem do progresso e felicidade, outros, poucos, chamaram-lhe a longa marcha da utopia, ilusão de óptica ou quimera materialista. Os políticos partidários, embevecidos e apenas preocupados na sua eleição, todos empurravam o comboio. Na porta deste, era vê-los, de sorrisos rasgados, a convidarem o “Zé pagode” a entrar na viagem até ao oásis dourado. É claro que, como todos sabemos, não há almoços grátis, e hoje, duma forma cínica, fria e selvagem, são esses mesmos políticos, com cara de pau –para não dizer cara de cu, porque parece mal- que vêm pedir restrições e sacrifícios, quando, durante esses anos de purpurina dourada e rasca, gastaram à tripa fora e incentivaram o endividamento colectivo das famílias.
Julgá-los na urna do voto popular é pouco. Deveria ser criado um tribunal plenário, com processo sumário, para julgar estes malfeitores, deste genocídio colectivo, da alegria, do bom-viver e da felicidade. Se pensarmos nestas ofensas económicas e de gestão danosa de um país começamos a entender melhor as causas deste aumento assustador de suicídios. E, estou convencido, que não é maior porque o valor “honra” perdeu terreno a favor do “laissez-faire-laissez-passez”. Que não se culpe mais a desgraçada depressão, caso contrário, esta, no cúmulo, pode entrar em estado depressivo e…suicidar-se.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

ELEGIA A UMA ONDA

Ó minha onda salgada,
dá-me a força do teu querer,
deixa-me entrar e mais nada,
que depois posso morrer;
Quero ser imperador,
desse reino de encantar,
quero sentir o amor,
dentro do peito a pulsar;
Quero beber do teu sal,
dessa vida, pois então,
nunca me leves a mal,
por eu ter esta paixão;
Se um dia não me amares,
diz-me ao menos a razão,
vou procurar nos altares,
promessas de solidão;
Se tu és tão infinita,
vais-me querer sempre a teu lado,
para mim, serás sempre bendita,
sem a tua luz fico apagado;
Ó minha onda ateia,
não acreditas em nada,
sabes que bates na areia,
e danças como uma fada.

A INSEGURANÇA NA BAIXA DE COIMBRA

No dia 5 de Junho passado, decorreu na Câmara Municipal, com a presença do presidente Carlos Encarnação, uma sessão, no salão nobre, sobre o tema: “A baixa de Coimbra: que futuro? Estratégias de revitalização comercial”. Neste debate, a determinado momento, foi aflorado o problema da insegurança, quer dos transeuntes à noite, quer dos estabelecimentos comerciais. Claro que, porque é politicamente correcto, logo saltaram alguns defensores para calarem tamanha afronta: “que disparate, a Baixa não tinha problemas de insegurança”. O facto de –na altura- acontecerem demasiados pequenos furtos, -através da técnica do arame, que consiste na introdução de um fino fio metálico por entre portas ou montras e, com ele, surripiar, desde ouro a uma bela camisola- tal demanda não seria, nem preocupante, nem indiciadora de que a segurança iria descambar. Apesar de alguns comerciantes presentes mostrarem preocupação por tal anomalia, tal inquietação não teria razão de ser. Seria pura especulação. Até porque eram poucas as queixas chegadas à PSP. Acontece que, infelizmente, os profissionais do comércio estavam certos: hoje, a Baixa, durante a noite, está transformada num território sem ordem, onde impera a lei do arrombamento, o roubo e do pequeno furto qualificado. Nestes últimos 3 meses largas dezenas de lojas foram assaltadas com recurso a violação de portas e arrombamento de grades de protecção. Esta mesma noite última, de 9 para 10 de Setembro, cinco casas comerciais foram violentadas. É rara a manhã em que alguns comerciantes não sejam presenteados com esta realidade dolorosa. Ser assaltado passou a ser uma espécie de roleta russa: apenas se espera que não seja em breve, mas intui-se que, pelo andar da carruagem, tal inevitabilidade é fatal como o destino da única bala sair disparada.
Há duas semanas, numa destas ruas do centro histórico, durante amanhã, em pleno horário comercial, uma jovem, filha da proprietária do estabelecimento, foi abordada por um indivíduo, que, com o maior à vontade, a apalpou e tentou beijar. Talvez porque ela tivesse resistido ao estupro e começasse a gritar, o individuo, com a maior descontracção abandonou o estabelecimento e a vítima. Passados menos de trinta minutos, como se estivesse no seu território e agisse impunemente, voltou novamente à loja, arrastou a rapariga para uma zona pouco vísivel e novamente tentou forçá-la a manter com ele relações sexuais forçadas. Novamente valeu o sangue-frio da menina que, quase já seminua, lhe aplicou uma joelhada no “calcanhar de Aquiles” do homem, ou seja, entre pernas. Apesar da queixa na polícia, o meliante passeia-se calmamente nas ruas da baixa e vai ao desplante –pasme-se- de mandar beijos, gestualmente, à violentada.
Em jeito de balanço, tentando chegar a uma conclusão, acerca desta anormalidade, começarei por atribuir aos comerciantes muita responsabilidade, sobretudo ao serem negligentes e pensarem que o facto de terem grades de ferro no estabelecimento, bastará esse artefacto de segurança para dormirem descansados –e refiro-me, nomeadamente, também a mim, porque também senti na pele o ter sido visitado pelos amigos do alheio…porque não liguei o alarme. Há também muitos comerciantes –vá-se lá saber porquê- que não denunciam os furtos, nem admitem que se fale dessa ocorrência anómala passada com o seu estabelecimento
Depois e, sem cair na demagógica tese de atribuir culpas à PSP, a verdade é que durante a noite a zona histórica não é policiada por esta polícia. Desde que o comando desta polícia de segurança pública foi transferida para a Solum é notório a falta de efectivos para prevenir a delinquência e fazer face à criminalidade cada vez mais notória, quer seja de dia ou de noite.
Uma coisa é certa: tudo indica que o recurso ao pequeno furto, ao arrombamento e ao roubo qualificado irá aumentar. Basta atentar no cenário económico, na conflituosidade nacional, ao nível do desemprego. Bem pode o ministro da Administração interna continuar a pregar a confiança…aos peixes.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

UM CORDEIRO NO MEIO DOS LOBOS

Foi por acaso que fui dar à sua página, no Netlog, aqui na Internet. Quando me apercebi pelo retrato, em que aparece de vestes eclesiásticas, a minha curiosidade, como mola comprimida, saltou imediatamente em direcção à satisfação do meu desejo de ver, in loco, o que escrevia este mensageiro de Cristo. Numa primeira impressão, poderemos facilmente interrogar-nos acerca do que faz um sacerdote num site onde predomina a conquista amorosa. Porém, seguidamente, se tivermos em conta que os chats da net, hoje, são a única janela de pequenos cubículos difusos, sem luz, de gente só, em profunda solidão, que se abre para o mundo, então, facilmente entendemos a razão de ser e de estar deste pároco pertencente à diocese de Aveiro. E, sem discurso encomiástico, naturalmente subjectivo, posso afirmar que este inato comunicador o faz de uma forma extraordinariamente simples e de linguagem acessível e compreensível por todos os extractos sociais que viajam na Internet.
Com o seu vídeo semanal no YouTube, este sacerdote e professor de Religião e Moral, disserta sobre casos que lhe tropeçam no dia-a-dia. Com uma linguagem simples, a sua comunicação, acompanhada gestualmente, chega facilmente ao receptor. Sem a habitual carga moral, normalmente associada na mensagem católica-romana, mas apelando a uma introspecção reflexiva, estes vídeos são facilmente aceites como recados para pensar. A racionalidade deste padre, a meu ver, contrasta com uma profunda ortodoxia existente demasiadamente vincada na Igreja Católica. Confessando não entender, mas aceitar temas emergentes, como a homossexualidade, o pregar ao “desbarato” pelas praias, em tempo de férias, da religião cristã e o livre arbítrio de Deus nas coisas terrenas, nomeadamente na amputação de um membro inferior de uma linda jovem, o padre Júlio Grangeia, sem pregar intencionalmente os dogmas da fé, dá um bom testemunho e convida a aceitar-se, sem discussão, essa mesma fé.
Ao abrir os seus temas sempre com o vocativo, e várias vezes intercalado no meio da conversa: “amigo cibernauta” e a terminar, inevitavelmente, com o vocábulo:”já agora e porque não?...Até para a semana.” , facilmente, por analogia, poderíamos entender estas suas brilhantes extrapolações como a parábola de Júlio aos fariseus, considerando que quem viaja na Internet, não é naturalmente membro de nenhuma seita religiosa, nem cumpre estritamente a sua ortodoxia, mas, pelo contrário, embora não sendo necessariamente falso ou hipócrita, também não estará muito aberto a questões religiosas. Mas, essa é a verdade, e talvez a lição, a forma ligeira, despretensiosa, deste homem capta a atenção. É como se pescasse à linha, com uma cana rudimentar, num oceano industrializado e materialista, onde grassa a pesca de grande calado e de ponta.
Parabéns padre. Oxalá assim seja entendido pela hierarquia da Igreja. Um grande abraço de profunda admiração.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O ABROLHOS E A EDUCAÇÂO

Como o tempo voa, já estamos em Setembro, parece que ainda ontem foi o Natal. Daqui a dias vamos ter aí o Outono, com todas as folhas secas a esvoaçarem ao vento. As pessoas voltaram quase todas de férias. Como não tenho nada para fazer, vagueio lentamente por estas ruas estreitas da cidade velha de Aeminium. Vou observando os rostos, todos de tez morena, vê-se bem que passaram uns diazitos na praia. Observo cada um e vejo alguma serenidade, como se cada cara transportasse uma contemplação etérea. Não vejo sorrisos rasgados. Daqueles sorrisos que nos prendem, que apetece roubá-los e torná-los nossos. E tanto faz que seja uma pessoa nova ou mais idosa. Não importa que seja muito gorda ou um manequim, ali o que importa é aquele sorriso, parecido com a imanência brilhante saída de um Cristo apaziguador desenhado nos velhos catecismos do Estado Novo.
Lembrei-me disto, não porque tivesse visto hoje um destes sorrisos, antes pelo contrário, porque vi ali um rosto que –meu Deus- parecia carregar toda a infelicidade do mundo. Quase senti vontade de me meter com a mulher e perguntar-lhe se podia ajudar nalguma coisa. Palavra de honra. Era impressionante. A senhora deveria ter há volta de 45 anos. Quase que, olhando aquela solidão extremosa, aposto que foi maltratada ou foi preterida em relação a algum irmão, na infância pelos pais. Esta mulher deveria ter nascido no princípio da década de sessenta. Os primogenitores das décadas de 50 e 60, provavelmente, nunca tomarão consciência do quanto foram responsáveis pela infelicidade que estas gerações carregam no rosto e sentem no dia-a-dia. Sabemos que os seus actos anti-educacionais foram herdados dos seus pais; eles também filhos de um deus menor resultado de tempos de fome e, sobretudo de carência de afectividade – vale a pena estudar rostos, através de fotografias, de finais do século XIX e princípios do último. Neles é comum apercebermo-nos de semblantes hirtos, fechados e tristes. Também eles resultados de uma educação pretoriana, assente no mais profundo autoritarismo patriarcal ou matriarcal. Para eles a criança nascia livre até ao momento em que exalava o primeiro grito. Mesmo este, quantas vezes, já era resultado de uma redundante bofetada no rabo. A partir daí, estas crianças seriam moldadas à força de pancada e de mãos agressivas, em vez de servirem para afagarem e darem amor. Entendia-se que, embora a criança nascesse livre, era através de uma educação austera que ela seria moldada opressivamente, à custa de muita violência física e verbal, para se inserir nos costumes e respeito valorativo da sociedade destas épocas. Não eram questões novas, elas foram trazidas para a luz filosófica através de Hobbes e Rosseau, nos finais do século XVIII e introduzidas no espírito da Revolução Francesa de 1789. Um defendia que o homem nascia livre e era a sociedade que o conspurcava, tornando-o mau, insensível e moldado no sistema. Outro defendia o contrário: que o homem nascia selvagem, sem sensibilidade; amoral e que seria a sociedade, através de uma educação indutiva, que o levaria a alcançar a perfeição e a reintroduzi-lo em normas societárias convencionadas.
Bolas! No meio das minhas conjecturas filosóficas, até me esqueci que ia beber um café com o Almerindo Abrolhos ao Café Santa Cruz. Já vos falei dele não já? Acho que sim. Eu não faço outra vida. Creio que toda a gente o conhece. Não paro de falar dele. Adoro este homem pela sua originalidade. Que querem? Desculpem, sei que deveria ser mais contido. È um tipo bacano. Não acreditam? Ai não?! Então espreitem, vejam daqui: é aquele personagem pessoano que está ali sentado na esplanada. Reparem naquele porte e classe. Aqueles gestos cuidados, quase como se estivesse sempre a representar. Vejam como se apresenta: calça vincada, pólo Lacoste e pullover sobre as costas atado no pescoço. Vejam bem o penteado: cabelo negro todo penteado para trás, ao estilo de Errol Flynn. Só lhe falta o bigodinho. Sempre bem perfumado. É um gosto estar com ele. Vou falar-lhe.
-Boa tarde, Abrolhos, há quanto tempo?! ...Dá cá um abraço. Por onde tens andado que já não converso contigo há uma semana? –amando-me, para cima dele, com os meu braços abertos e aperto-o contra mim.
- Ó “meu” que é isto? Já te disse que não gosto dessa tua forma de me abraçares. “tas-te” a passar ó quê?. Será que não vês que podes pôr em rico a minha reputação? Eu sou muito homem, ouviste “meu”? Que mania! Ó “meu” apertas-me a mão e chega . –irrompe o Almerindo, bastante irritado. Bolas tenho mesmo de ser mais comedido.
-Ok! Ó pá desculpa, não voltará acontecer. Não sabia que tinhas complexos desses. Está bem! Vamos mas é ao que interessa. Que novidades me contas? Queres falar de educação? -Interroguei o Almerindo porque ele está a ler o jornal “Público” e tem plasmado na primeira página que cerca de 45 mil professores não foram colocados.
-Ó “meu” eu falo do que quiseres. Sabes bem que para conversar estou por aqui. Eu sei tudo o que se passa aqui à volta e tenho uma cultura acima da média. -responde o Abrolhos, fingindo uma grande modéstia, vocábulo que ele nem conhecerá, tal é o estado normal do seu ego.
-Ó pá, claro que sei. Por isso gosto de conversar contigo. Tu és um poço de cultura. –penso para mim que às vezes apetece-me mandar o Abrolhos para o outro lado. Chego a irritar-me com tanta prosápia. Mas, como não me posso enervar com ele, mentalmente exclamo: está bem…abelha!
-Ah …assim está bem! Isso é outra conversa. Falemos de educação. Puxa aí “meu”…
-Ó pá estava a ler esse título dos professores no jornal. Hoje deve ser muito difícil ensinar. Com a falta de autoridade que os professores têm na sala de aula. Já viste que desde o 25 de Abril tem-se vindo a assistir a um crescendo de desautorização contínua, a um esvaziamento de poder formativo necessário e hierárquico na sociedade? Como por exemplo, os professores, os polícias, os juízes e até os próprios pais? Verifica que estes nem uma palmadinha no momento certo a podem dar. Se o menino se queixa ao SOS criança, temos aí um grande problema. Parece quase que houve uma intencionalidade de transmutar todo o poder –tornando-o vazio e balofo- concentrando-o na classe dirigente política e económica de topo? Interrogo, com ar de grande cultura.
-Ó “meu”, vamos esclarecer uma coisa: a autoridade conquista-se, não se impõe. Ou seja, ela tem de sair de dentro para fora e nunca de fora para dentro. Toda a autoridade imposta, mais tarde ou mais cedo ruirá. Porém, depois desta ressalva, tenho de dizer-te que concordo contigo. –responde-me o Almerindo com o habitual espírito de frade conventual.
-Concordas comigo? Ó pá estou admirado, o que é que vai sair daí? -levanto queixo e fixo os olhos no Abrolhos.
- Ó “meu”, passámos do oito para o oitenta. Enquanto no passado era tudo à força de cinto, hoje é tudo à força de beijinhos e abraços e mais prendinhas para o menino e para a menina que os paizinhos têm de os compensar de alguma forma pela falta de tempo que têm para lhes dispensar. Então enchem-nos de bens materiais. Os criadores de falsas necessidades agradecem. Depois lá estão os professores para aturarem os monstroszinhos. –Refere o Almerindo com grande solenidade e começando a levantar-se.
-Ó pá, tem calma! Já vais? –interrogo.
-Olha “meu” desculpa lá, mas vi ali passar o professor do meu neto, e tenho umas coisas para lhe dizer, não pense ele que o miúdo lá por não ter o pai presente –que é um gandulo!- que lhe pode puxar as orelhas à vontade ou pô-lo a varrer o pátio da escola. Isso é que era bom!
Como sempre, fiquei sem palavras. A (in)coerência deste homem deixa-me sempre a pensar.

sábado, 1 de setembro de 2007

UM ABRAÇO SOLIDÁRIO

Nesta hora de torpor,
balanceia a recordação,
soçobram lágrimas em dor,
pensamentos em solidão;
Tristeza por ver partir,
da minha carne, meu irmão,
a frustração de sentir,
chorar o meu coração;
Lembrar aquele tão grande abraço,
tão fraterno companheiro,
aquelas tropelias do laço,
fazias rir o mundo inteiro:
Só quem sofre se sente só,
abandonado e tristonho,
mesmo sabendo que somos pó,
custa ver acabar o sonho;
Mas se da terra nós nascemos,
filhos de um Deus de crer,
se sabemos que morremos,
porque estranhamos morrer?