sexta-feira, 22 de março de 2019

EDITORIAL: O TEMPO DO FAZ-DE-CONTA QUE APAGA A REALIDADE

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)






A Baixa de Coimbra, na sua natureza de inalterabilidade, é constituída por quatro segmentos estruturais: a residência temporária, entendendo os novos projectos de alojamento local (AL), hotéis e antigas pensões, indústria hoteleira, compreendendo os cafés e restaurantes e tabernas, serviços, na sua função de prestação, a habitação de médio e longo prazo, integrando o núcleo familiar e estudantil, e comércio fixo, entendendo o comércio de rua. 
Como estabilidade natural de placas tectónicas no centro da Terra, se uma destas estruturantes entrar em colapso tudo entra em desequilíbrio e se desmorona.
Acontece que, sobretudo por carência de políticas de compensação, camarárias e governamentais, a habitação de médio e longo prazo e o comércio fixo estão em completa falência técnica. Esta falta de apoio da administração - ou melhor, o esquecimento a que foi votada nos últimos vinte anos -, está a mandar o Centro Histórico, na parte baixa da cidade, para o charco. Como navio em alto mar sem leme, a Baixa está completamente sem rumo. O comércio de rua, na sua grande maioria, não gera valor para se manter. Em consequência, com os novos estabelecimentos comerciais a durarem um ano de vigência, em média, na maior tranquilidade, sem que isso aflija minimamente os responsáveis, continuamos a assistir ao capitular de vários projectos, sonhos de uma vida -nos três meses deste ano já encerraram 7 lojas. No ano passado foram 32.
Sendo uma constatação aos olhos de todos, no entanto, desde há mais de uma década que escrever sobre o declínio que paulatinamente se abateu sobre esta parte velha foi sempre um problema. Embora já me habituasse de certo modo a ser apelidado de catastrofista, a verdade é que, aos poucos, fui deixando de perorar sobre o declínio que se abateu sobre a zona histórica.
Ora, para enganar os menos atentos e fazer calar os que gritam por socorro e fazer de conta que a Baixa está a mexer e a nadar em desenvolvimento, o que está a fazer o executivo do Partido Socialista com assento na Câmara Municipal? Fazer de um pequeno evento uma grande festa e trazer ministros e secretários de estado para os inaugurar. Com toda a comunicação social a noticiar e a publicitar qualquer pormenor sem importância, a mensagem de que está tudo bem e nunca como agora esteve assim passa e apaga qualquer protesto ou clamor contrário.
Nos seis meses que se aproximam, ninguém espere outra coisa a não ser descerrarem placas com grandes discursos de ocasião e foguetório com muito visual. Entretanto a Baixa, com imensos problemas para serem resolvidos, vai continuar igual a si mesma, ou seja, abandonada e em declínio.

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