sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"COMO É QUE FOI? COMO É QUE FOI?" (2)



 Hoje, sexta-feira, no segundo dia de cantar as Janeiras na Baixa pela denominada “Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra” (OMRC) correu ainda melhor do que ontem. Faça o favor de ter calma que eu vou contar tudo. Só lhe peço que não me pressione, que em “stress” não funciono. Só lá vou com calma. Nada de rapidinhas.
Como já deve saber, graças ao cuidado de Emília Martins, presidente da Direcção da Orquestra Clássica do Centro, a nossa madrinha –só espero que não se esqueça de nós nos folares da Páscoa-, fomos simpaticamente recebidos na autarquia pela vice-presidente e vereadora da Cultura, Manuela Azevedo, e pelo assessor da presidência, Miguel Pignatelli, onde cantámos as Janeiras para os dois. Vejam bem que a minha Rainha da Cultura veio de propósito do Paço, da Rua Pedro Monteiro, para nos receber na Câmara. É certo que poderia ter dispensado os funcionários da edilidade durante 15 minutos para assistirem também ao espectáculo, mas, estando nós em crise e sendo esta professora universitária uma querida –que até já vai à bola comigo e lá no átrio até brincou com Miguel Pignatelli: “veja bem Miguel, que o Quintans hoje até vem cantar para nós, nem sequer vem reclamar nada!”- com franqueza, diga-me, leitor, com esta delicadeza toda, como é que eu poderia articular alguma coisa? Um homem, mesmo sendo fraquito como eu, e às vezes querendo parecer forte, até se comove até à alma. É ou não é? Com toda aquela amabilidade, palavra de honra, juro pela minha mãezinha, até lhe dedicava uma serenata só para ela. Estou a ficar mole, não estou? Que querem? É da idade, pronto! Ah, é verdade, até já se me varria, Manuela Azevedo e Pignatelli deram uma nota (de euros) cada um.
Continuando a descrever este segundo dia, dali, da Praça 8 de Maio, partimos para o Mercado Municipal D. Pedro V. Nesta popular praça fomos muito bem recebidos por todos. Alguns vendedores de cara fechada como granito não se abriam nem com a minha promessa de que quanto mais nos dessem melhor sorte teriam em dobro neste 2013. Sei lá, se calhar não acreditaram em mim. Nem percebo bem por quê, se até dizia aquilo muito sério e com convicção. Bom, o que interessou é que, em maioria, todos comparticiparam. Engraçada esta minha constatação: as pessoas de rosto aberto, de olhar brilhante e de felicidade, todas contribuíram. É como se entendessem que, mesmo tendo pouco, ao dividir o seu magro pecúlio, estavam crentes de que a sorte se encarregaria de os recompensar. Pessoalmente, acredito no aforismo de que só cresce quem reparte. Não me perguntem onde fui buscar esta fé, mas creio solenemente nesta máxima. Nesta manhã foi conseguido o dobro de ontem: 140 euros, que foi distribuído por sete músicos –já sabem que eu não alinho em tostões. Quando ganharmos milhões vou ganhar com juros. É só uma questão de tempo.
Hoje, contrariamente a ontem, ninguém nos fez notar que era uma vergonha andar a pedir. Penso que todos acharam graça. Aliás, contrariando o padre João Veríssimo, de S. Julião, paróquia da Figueira da Foz, que afirma no Diário as Beiras de hoje de que “é sempre humilhante estender a mão”, digo que não. A meu ver será inibitório e nunca humilhante. Isto é, o acto de pedir, para quem pede, cria embaraço, gera insegurança, provoca uma sensação de desconforto, no sentido do demérito. A acção de pedir estimula a quem pede uma diminuição da sua igualdade, na condição de pessoa, perante o outro, mas não humilha. Humilhar, etimologicamente, significa rebaixar, vexar, tratar com desdém ou desprezo alguém –ontem o comerciante ao reagir mal é que humilhou quem pedia. Ora, sendo assim, a obra de pedir, para quem o faz, é apenas uma representação que lhe pode causar incómodo e nada mais do que isso. Mas, atentemos, se pedirmos para outros este sentimento não é sentido por quem solicita algo. Curiosamente, neste caso, a sensação é de conforto, de altruísmo, por sentir que está a ser pro-activo, está a contribuir para tornar mais feliz alguém que precisa e não é bafejado pela graça, divina ou da natureza, de ter felicidade pela lacuna . Por outro lado, já que falo no assunto, faz muita confusão, sobretudo a quem labuta arduamente no dia-a-dia, que o pedir na rua não seja proibido e sancionado legalmente. Vamos por partes, o acto de pedir, para além de ser uma manifestação da vontade, enquanto reflexo humano, é essencialmente um direito natural –não tão profundo como o respirar, por exemplo, mas quase. Logo, enquanto instintivo, nunca poderia ser adoptado. No extremo, para o ser, teria de ser feito um cardápio para a permissão. Por exemplo, um indivíduo que repentinamente sofresse um ataque de pânico poderia ou não pedir ajuda? Por aqui já se verá a dificuldade em interditar um gesto que, acima de tudo, é um paradigma de humildade e, já agora, excluindo os vendilhões do templo, tão repetido na Bíblia e defendido pela religião Católica-romana. No paradoxo, ou nem por isso, deveria ser impedida a fraude –ou seja, quem se faz passar por deficiente e não é-, mas como provar? Então na impossibilidade de probatório, deve optar-se pela liberdade de cada um fazer o que entende -incluindo quem dá- ainda que seja mal-entendido pela maioria. O facto também de as comunidades se terem tornado mais individualistas e perderem o espírito de “reserva mental”, enquanto defesa do todo na condenação de certos costumes arbitrários não ilegais, contribuiu para estes estado de desvalorização do trabalho enquanto tarefa digna para ganhar o sustento e facilitismo para auferir dinheiro através do ócio.
É certo que as ditaduras proíbem a solicitação do óbolo, mas, tal como outras liberdades, é outra questão. Num sistema democrático, de liberdade, no absurdo –ou nem tanto assim, por que há países que o fazem- pode multar-se quem dá. Tenho muitas dúvidas nesta medida. O acto de dar, tal como quem pede, é uma acção da “voluntas”, da vontade, mas intrinca também num direito natural, que é: “quem me pode impedir de distribuir o que é meu por quem me apetece, desde que não prejudique os meus consanguíneos directos?”. É certo que nem sempre a lei caminha paralelamente à moral. Basta lembrar a proibição de alimentar animais na via pública. Estou convencido que nunca houve alguém que se debruçasse sobre esta dissidência e os multados nunca levaram a sua impugnação a instâncias superiores. Se levassem, provavelmente, ganhariam facilmente esta questão. Trata-se de um direito natural. Ninguém pode proibir outro de matar a fome a qualquer ser vivo. Por outro lado ainda, corroborando a minha tese, a lei até obriga o apoio à vítima –e aqui teríamos de entrar nos labirintos etimológicos e, dissecando, interrogar: quem pode ser considerado vítima?
Alonguei-me, não foi? Que querem? O culpado disto tudo foi o senhor Padre João Veríssimo, que não conheço, mas deu-me aqui o “leitmotiv” para explanar a minha via filosófica. Obrigado senhor Padre.

SAÚDE PARA ZACH




Zach Sobiech tem um ano de vida. Foi-lhe diagnosticada uma doença rara. Para se despedir da mãe compôs esta canção lindíssima. Ora ouça!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

LEIA O DESPERTAR



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "CUNHA ROCHA ESTEVE NA BAIXA (1)", deixo também as crónicas "ATENÇÃO PEQUENOS COMERCIANTES"; "PARABÉNS A VOCÊ; e  "REFLEXÃO:2013".



CUNHA ROCHA ESTEVE NA BAIXA (1)

 Numa rara oportunidade de contactar com o artista e a sua obra, Cunha Rocha, porventura um dos maiores aguarelistas vivos, filho nascido e criado em Coimbra e adotado pela Figueira da Foz, conjuntamente com a esposa, Isabel Mora, em bijuteria original de peças únicas, tiveram uma exposição aberta ao público na Praça do Comércio.

Já lá vão 80 anos quando, pela primeira vez, na Rua Fernandes Tomás Cunha Rocha gritou a plenos pulmões, quem sabe se a adivinhar a ingratidão dos homens, que no futuro haveriam de cruzar o seu caminho, se a marcar o seu território e a querer dizer que ali estava uma pessoa íntegra, solidária e amiga do seu amigo. Foi no número 34, da antiga Rua das Fangas, que tudo começou. Era ali, naquela casa humilde que a sua mãe, Florinda da Silva Pratas, amassava, cozia e depois vendia, aos cafés Nicola, Central, Briosa e outros, as melhores arrufadas de Coimbra de todos os tempos. Tinha um segredo bem guardado que pelos ditames do destino, infelizmente, se perdeu. A receita foi passada a uma descendente, irmã do pintor de quem falamos, mas aquela viria a sucumbir num trágico acidente de automóvel e com ela a fórmula secreta. A doçaria da cidade nunca mais foi a mesma.
Em 1944, com 12 anos, começou a trabalhar com o Vasco Berardo. A sua primeira exposição foi em 1956, na desaparecida galeria d’O Primeiro de Janeiro, na Rua Ferreira Borges. Nesta altura, assinava “Achor Anhuc”, que era o seu nome invertido, para lhe dar um certo ênfase estrangeiro. Depois rubricou as suas obras com “António Rocha” e só mais tarde passou a marcar todos os seus trabalhos com “Cunha Rocha”, nome que ficaria para sempre gravado para a posteridade. Outras exibições se seguiram neste salão popular de arte. Recorda com saudade este velho espaço perdido tão importante na formação e apresentação de tantos artistas plásticos. Nesses seus começos no mundo da paleta, um dia quando estava n’A Brasileira chegou junto dele um grande vulto das letras na cidade e disse-lhe: “ó António, fui ali ver a tua exposição ao Primeiro de Janeiro. Queres um conselho? Muda de profissão. Com esta, de pintor, não vais longe!” –era Adolfo Rocha, mais conhecido como Miguel Torga, quem, sem escolher as palavras, lhe atirava um banho de água fria. Não se lembra muito bem, mas é possível que as frases duras do médico-escritor, como chicote em esperança de alguém que nasce, o tivessem marcado para sempre. Ao longo da sua vida artística sonhou sempre com o momento de um dia poder vir a provar a Torga que aquele epitáfio mortífero e destruidor estava errado.


Em 1966, já consagrado pintor de artes plásticas, em busca de uma vida melhor, partiu para o Canadá. Depois de nove anos neste país norte-americano foi para o Brasil. Aqui, na ex-colónia portuguesa, o seu mérito artístico viria a ser reconhecido com uma medalha de ouro e outra de prata. Regressou a Coimbra em 1978. Como pedra de toque, mais uma vez A Brasileira marcaria o seu destino. Neste café de grandes tertúlias, numa mesa estava ele, o Rui Pato e o Joaquim Machado, da Livraria Almedina. Às tantas a conversa vira para o nosso artista e o que tencionava fazer futuramente. Cunha Rocha diz que procurava um apartamento na cidade. Diz Machado: “olha lá, tenho uma casa desocupada na Figueira da Foz. Porque não vais para lá gratuitamente? Até me fazias jeito, está encerrada há tanto tempo!”. E, em namoro de ocasião, foi para a cidade-praia onde, na areia, enterrou o coração em promessa de amor eterno. No sentimento que a própria razão desconhece há formas e cores que lhe dão corpo. Nesta cidade é tratado como um filho querido. Sente-se acarinhado como no seio de uma grande família.


E Coimbra, o que é para o pintor? Interrogo em provocação. Cunha Rocha, baixando os olhos como menino simples, não replicou. Como li a nostalgia no seu olhar também não precisava de falar. Em sua vez, como se viesse em socorro do seu grande amor, respondeu a esposa Isabel: “o António, mesmo agora que está doente –tem um edema pulmonar que lhe atrofia as vias respiratórias-, nunca foi de andar ao “beija-mão”. Nunca pediu nada a ninguém para ele. Pede é para os outros. É incapaz de dizer não a alguém. Não se interessa pelos bens materiais. Embrulha-se completamente nas causas sociais. Sente o sofrimento alheio na sua própria alma. É como se o seu espírito “chibata”, residente na zona do Sousa Bastos, de pessoa modesta estivesse sempre presente na sua mente. Tem um coração enorme, este meu admirado e querido pintor!”
Não estaria na altura da cidade reconhecer publicamente a entrega deste artista à causa das artes? Por que não rebatizar o Beco das Cruzes, junto à casa onde nasceu o pintor, de Beco Cunha Rocha?
(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)

ATENÇÃO PEQUENOS COMERCIANTES

 Como se sabe, embora ainda ande muita confusão no ar, a partir do primeiro dia de Janeiro, para todas as transações comerciais –repito, para todas, mesmo de valor irrisório-, é obrigatória a emissão de um documento comprovativo no ato da compra e venda. Necessariamente, no mês seguinte o comerciante terá de enviar para a autoridade tributária o movimento realizado no seu estabelecimento.
Ao que parece, sendo um pequeno operador do “regime simplificado” e com um volume de vendas anual inferior a 100 mil euros, em escolha aleatória, há três meios para estar em conformidade com a lei:

-O primeiro será adquirir um programa certificado para computador –atenção a este pormenor importante da certificação- e, estando ligado à Internet, a comunicação é imediata;

-O segundo é adquirir uma máquina registadora que emita faturas, mas neste caso o comerciante no mês subsequente terá de enviar para as Finanças todo o movimento realizado no mês anterior;

-O terceiro poderá optar pela “Fatura Simplificada” manual. Neste caso terá de, com urgência, mandar fazer numa tipografia vários livros de “Faturas Simplificadas” e sempre que efetue uma venda emite o documento à mão com a descrição do bem. Também neste caso o comerciante se obriga a comunicar no mês seguinte o que movimentou no período mensal antecedente.

Se ainda não optou por qualquer um dos dois sistemas, programa de computador ou máquina registadora, repito, sugiro-lhe que procure uma tipografia e mande fazer um ou dois livros de “faturas simplificadas”. Assim, depois do dia 1 de Janeiro, estará dentro da lei e não terá qualquer problema. Por outro lado, mesmo que opte pela automatização, ter um livro à mão é sempre necessário em caso de avaria, por exemplo. Volto a lembrar que é obrigatório e as anteriores denominadas “Vendas a Dinheiro” já não servem.
Ainda, insistindo, interpretando o espírito da lei, gostava de sublinhar que, para a autoridade fiscal, o que está em causa é a passagem imediata de documento e não a forma da emissão, eletrónica ou manual. Ou seja, quem quiser, uma vez que os equipamentos se encontram esgotados e na pressa os “pintos podem nascer carecas”, até decidir calmamente o que fazer, pode escolher a fatura manual. Não deixe é de o fazer. As coimas são agravadas e podem comprometer o futuro de cada um.


PARABÉNS A VOCÊ

 O pequeno estabelecimento do Luís Duarte está para a Rua das Padeiras como a Igreja de Santa Cruz está para a Praça 8 de Maio. São “instituições” que marcam o sítio em que se inserem. Embora não fosse para falar do negócio, um bocadinho de publicidade nunca fez mal a ninguém, no entanto o que nos traz à colação é o aniversário do Duarte. A semana passada o Luís fez 56 anos. Muitos parabéns! Naturalmente que a efeméride passou desapercebida porque, a partir do meio-século, psicologicamente, a constatação de mais um ano passa a ser um peso na alma, no sentido de que se fica mais velho e próximo do fim, e perde-se a sensação de bem-estar que deveríamos ser tomados pelo facto de estarmos vivos. Apesar desta especulação, o Luís não deixa créditos por mãos alheias e enfatiza que é uma pessoa muito feliz. “Tenho saúde, muitos amigos e uma família maravilhosa, que me dá um apoio extraordinário. Achas que devo pedir mais alguma coisa?”


REFLEXÃO: 2013

 Com a certeza de que o Novo Ano chegou e com ele, naturalmente, muitas nuvens negras, estamos todos de prevenção. Mas, como não há nuvem no céu que sempre dure nem sol na eira que não acabe, tenham a absoluta convicção de que, inevitavelmente, teremos boas abertas para o período que se aproxima embora alternando com temporal. Sempre foi assim ao longo da história do Homem. A Natureza mostra-nos isso mesmo todos os dias, durante todo o ano dividido em quatro estações tão antagónicas ente si. Basta lembrar a diferença entre verão e inverno. Tenhamos esperança no futuro. Não desanimemos. Não baixemos os braços perante a adversidade. Não nos deixemos contagiar pelo nevoeiro envolvente. Lutemos com todas as nossas forças. Pensemos nos nossos pais e avós e na vida difícil que tiveram. Sobreviveram e, a nós filhos  e netos por vezes quase uma dezena, criaram-nos e fizeram mais do que podiam para fazer de nós pessoas de bem. Pela sua memória, lutemos. Esta é a nossa terra. O chão sagrado que viu nascer toda a nossa identidade e sangue lusitano. Batamo-nos por eles e sem pudor. Como mortos antes de morrer, não permitamos que nos enterrem vivos como mostrengos sem valor. Como guerreiros em defesa do seu território, não admitamos que atentem contra a nossa dignidade de alma lusa, demos as mãos aos nossos vizinhos e, todos juntos, defendamos os ideais em que sempre acreditámos. Na hora da tempestade unamo-nos e façamos um círculo contra a desventura do tempo por obra e graça humana. A bonança chegará. Caminhemos em frente, em direção ao horizonte, em busca do Monte de Sião, segundo a Bíblia, a fortificada cidadela de David, a cidade de Deus.





BOA NOITE PARA SONHAR COM UM DIA LINDO, GENTE DE ESPERANÇA...

"COMO É QUE FOI? COMO É QUE FOI?" (1)



 Hoje, entre as 10h00 e o meio-dia, a denominada “Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra” (OMRC) cantou as Janeiras no eixo entre o Largo da Portagem, passando pelas Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, e a Praça 8 de Maio. Quem lhe deu corpo foi o Paolo, o Lourenço, o Armando, o Emanuel, o Luís, a Fátima, a Celeste e este vosso escriba.
Antes que você faça a tradicional pergunta “como é que foi? Como é que foi?”, antecipando-me, digo-lhe que, tirando uma pequena nódoa, correu bem a dois níveis. No primeiro, enquanto espectáculo cénico e musical, decorreu benzinho. As pessoas paravam e ficavam assim um pouco para o especado a olhar. Nos seus rostos eram patentes traços de admiração; era como se interrogassem: “quem são estes malucos?”. O seu torpor introspectivo era interrompido pela Celeste Correia, a relações públicas para as questões financeiras da OMRC, “pode dar uma moeda por favor? É para ajudar os músicos de rua”. E o transeunte, como hipnotizado, sem tirar os olhos dos “8 magníficos malucos da melodia”, metia a mão no bolso e retirava uma moeda de euro e colocava-a no pequeno saco de pano, e que outrora serviu para ir ao pão. E a Celeste, ansiosa por cantar, que é o que mais gosta de fazer, corria a juntar-se ao grupo e ia apanhar a “canção das Janeiras” a meio, já no refrão: “Somos os Reis cá da terra, vassalos e sem peneiras, cantamos canções de amor, na tradição das Janeiras”.
No segundo nível, no tocante à verba conseguida, também não foi mau. Naquelas duas horas foram conseguidos 70 euros, que, divididos pelos sete –eu só passarei a receber quando formos famosos e ganharmos milhões-, rendeu 10 euros a cada um. Penso que sempre foi melhor resultado do que se estivessem a tocar sozinhos no mesmo tempo e na mesma rua. Houve um comerciante que ofereceu 10 euros e outros dois 5 cada um.
Continuando na descrição, a meio da Rua Ferreira Borges um grupo de turistas aproveitava e tirava fotos. A guia, como maestro em banda ensonada, bem tentava captar a sua atenção para um alçado de um prédio mas debalde. Os nipónicos não tiravam os olhos dos músicos do barrete vermelho.
Em frente ao café Nicola um conjunto de uma dezena e meia de crianças de um qualquer infantário, acompanhados por monitores, parou e as crianças ficaram a apreciar os modelos de “Pai Natal” que certamente lhes teriam sido induzidos lá em casa ou através da televisão.
E a música continuava, agora com outra melodia que se intitulava “Uma moeda com amor” e que rezava assim:

Não me dêem uma moeda,
sem um sorriso também,
sem alegria não passo,
sem dinheiro passo bem

Não me atirem uma moeda,
sem alguma humanidade,
afinal não sou pedinte,
sou um artista na cidade,
que precisa da moeda,
mas que traga dignidade,

Não me dêem uma moeda,
sem um sorriso também,
sem alegria eu não passo,
sem dinheiro passo bem,

Não me joguem uma moeda,
como se eu fosse alguém,
insensível ao amor,
e que não ama também,
sem amor eu não passo,
sem dinheiro passo bem.

Cerca do meio-dia estávamos na Praça 8 de Maio, junto à Igreja de Santa Cruz. Não fora as palavras segregacionistas de um comerciante e tudo teria corrido lindamente. É óbvio que há sempre uma ovelha negra num rebanho. Não há volta a dar-lhe. Faz parte da natureza. Aquelas frases insultuosas, sem contento e próprias de uma besta ao ser abordado pela Celeste para contribuir. Eram bem desnecessárias e até mereceriam uma lição, mas, pensando melhor, nem vale a pena. Seria perder tempo. “Burro velho não aprende línguas”. Como quem diz se não aprendeu a respeitar o seu semelhante na devida altura, não será agora, que está de pés para a cova, que vai aprender. Vale mais fazer-lhe uma oração de despedida. Quem não ficou pelos ajustes foi a Celeste: “já viste, ó Luís? Aquele estafermo a perguntar-me se não tínhamos vergonha de estar a pedir junto a uma igreja? Olha, disse-me das últimas que se possa imaginar! Referindo-se a todos nós, até disse que esta gente fosse lá para a terra deles pedir. Sabes o que é? Aquele animal irracional confunde um músico de rua com um pedinte. Filho da mãe! Olha que conseguiu irritar-me! Acreditas?”
Amanhã, se não houver alterações de última hora, entre as 9h30 e as 11h30, estaremos no Mercado Municipal D. Pedro V.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

BOM ANO NOVO, GENTE DE ESPERANÇA....



BOM ANO NOVO? COMO?

 Ora cá está o Novo Ano. Espero que gostem dele, sinceramente. Aviso já que, contrariamente a todos os bens novos, não tem garantia bi-anual, nem sequer de um ano. Não podem reclamar. É comer e calar! Juro-vos pela minha mãezinha -que Deus tenha em boa guarda e me dizia tanta vez: “ai Toino, Toino, és um tolo, rapaz!”- que se não ficarem contentes não tenho nenhuma responsabilidade neste produto enganador. Bem sei que estamos perante uma enormíssima iniquidade. Então não sei? Claro que sei! Admite-se termos de gramar uma coisa contra a nossa vontade, neste caso um ano, se não gostarmos dela? É um escândalo, diria eu completamente fora de mim e já a deitar fumo pelas narinas e ouvidos. Já basta uma pessoa estar agarrada a um "anus" que só dá porcaria e, como se fosse pouco, temos de aguentar outro? Fosca-se para a nossa sorte! Olhando para a sua cara, acredito que está descontente. Pudera! Deixe lá, não está só. Cá o “Je” também! E depois, quer saber minha alma gémea sofredora, ainda vem a maioria, assim numa espécie de disco riscado e em presente repetido, desejar "bom Ano Novo"? Bom ano, como? Se todos sabem que é um raio de um conjunto de doze meses que não interessa nem ao Menino Jesus? Isto é a endémica hipocrisia nacional a funcionar! É ou não é? Pois é!
Mas já agora, ficando a dançar na esperança de ser, e se não for? Como é que é? Sim, como é que é? Vamos pedir responsabilidades a quem? Ao Totta? Claro que não. Já nem existe! Tem outro apelido qualquer, que já nem lembro. Mudam tudo nesta terra. Quer dizer, mudam só o nome, porque fica tudo na mesma. É assim uma espécie de mexer a massa com os mesmos ingredientes. O que é muda no sabor? Ora, está de ver: nada! É como esta agora de passarem o nome ao Instituto Meteorológico para Instituto de qualquer coisa que tem a ver com a atmosfera e o mar. Isto interessa para alguma coisa? Sei lá, é assim o mesmo que mudarem o nome à Ponte Salazar para 25 de Abril. Ganhou-se alguma coisa com isto? Nada, a não ser gastar dinheiro em água-benta para o baptismo, papelada e nada mais. Até aposto que lá no Inferno –é para aqui que vão os ditadores, não é?- o homem até ficou aliviado com a retirada do seu nome.
Não pense que me desviei do essencial deste Novo Ano, que pode até ser para todos horrível, intencionalmente e passei para o acessório. Nada disso. Quero deixar aqui gravado nestas pedras virtuais que estou profundamente descontente. Bem sei que ninguém me liga, mas também não me importa nada. Já estou habituado!

MÚSICOS DE RUA CANTAM AS JANEIRAS NA BAIXA



 Amanhã quinta-feira, sexta e sábado, entre as 9h30 e as 11h30, a Baixa comercial será inundada de música cantada ao vivo alusiva à tradição das Janeiras pela denominada “Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra”. Cerca de oito músicos amadores, com letra e música originais, irão cantar e apelar a todos os frequentadores desta zona de antanho uma pequena contribuição que os ajude a enfrentar este Novo Ano. Se a crise já custa a todos, sobretudo os que têm uma vida organizada, imagine-se estas pessoas pobres com dificuldades cujo sustento e rendimento auferidos provém apenas da prestação exercida na via pública.
Este evento, que de certo modo serve para mostrar este conjunto musical ao comércio, vem no seguimento de uma primeira apresentação que se realizou no Dia de Natal, no Pavilhão de Portugal e sob a égide e apadrinhamento generoso da presidente da direcção da Orquestra Clássica do Centro, Emília Martins.
Mas afinal o que é isto, de “Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra”? Em especulação, pareceu-me ouvi-lo interrogar. Bom, trata-se de uma ideia original –parece-me- de juntar vários músicos que actuavam na rua isoladamente. Como o mentor deste projecto, que por acaso sou eu, é também um músico “falhado”, no sentido de que sempre adorou música, e, em tempo preciso não teve hipótese de poder explanar esta sua vocação, é auto-didacta, lembrou-se de juntar o útil ao agradável. Isto é, se eu ao longo das últimas décadas, compondo e musicando largas dezenas de composições, fui gravando imensos temas que, para além da família, ninguém conhece, por que não juntarmo-nos todos e mostrarmos o que fazemos? Se eu toco viola e tenho as músicas –que podem até nem valer um costelo, mas são originais e nunca ninguém ouviu- se me juntar a outros executantes, instrumentistas e cantores, poderemos fazer algo de positivo e que a todos dê prazer. Ou seja, numa convergência de intenções comuns, eu retiro da gaveta as minhas criações, prescindindo de direitos autorais, e com a ajuda destes músicos, todos juntos, poderemos fazer um trabalho profícuo. Não é mais do que isto. Há aqui um interesse que atravessa todos. Não há cá aquele sentimento de “caridadezinha” tão normal e que aparece sempre por alturas do Natal. Nada disso. Se houver alguma ilação a retirar, no máximo, é que juntos somos uma “orquestra” e separadamente, individualmente, não passamos de partículas anónimas na cidade. Ninguém dará por nós. E isso interessa? Volta você, leitor, a perguntar. Claro que interessa. Quem gosta de música, que toca um instrumento e compõe, tal como outro qualquer criador, precisa de mostrar o que faz. O público que aprecia o seu talento, enquanto examinador, passa a ser a sua reserva de oxigénio que mantém o coração a pulsar. Naturalmente que este sentimento é transversal a toda a arte; na pintura, na escultura, na encenação, etc. Sem esta dualidade crítica do público –algumas vezes injustas e nefastas e que podem condenar ao efémero um talento auspicioso- a arte dificilmente terá futuro enquanto obra do artista. Sem apreciadores mais tarde ou mais cedo o criador desistirá de continuar a trabalhar para o “boneco”.
Continua você com a mesma curiosidade e questiona-me outra vez: “isso quer dizer que você ainda sonha em ser artista?”. Não senhor. Embora em aforismo filosófico se diga o contrário, “que estamos sempre a tempo”, no calendário ilusório do fado que está destinado a cada um, tudo tem um tempo preciso para acontecer. A minha época passou. Se é certo que para as letras e pintura, por exemplo, a revelação pode sempre ocorrer ao longo da vida, na música não há a mínima hipótese, pelo menos como executante. Quanto muito, a suceder, só se for na escrita e nada mais.
Como sempre, alonguei-me nas explicações. No entanto, em suma, em nome de todos os músicos de rua que vão aparecer amanhã nas artérias do Centro Histórico, se puder, para além de "olhar com olhos de ver e ouvir", contribua com uma moeda. Obrigado.


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