quarta-feira, 5 de novembro de 2008

DIÁRIO DE UM DESEMPREGADO RECENTE



José, vamos chamar-lhe assim, trabalhou toda a vida no comércio dito tradicional. Apesar de parecer ter menos, tem 48 anos de idade. Começou cedo nas lides comerciais. Tinha então 13 anos. Ao longo de trinta e cinco anos de actividade laboral, apenas conheceu dois patrões. O primeiro, durante nove anos, foi o “Carlos Camiseiro”, ali na Praça Velha, em Coimbra. Nessa altura, até ao princípio de 1980, os mais velhos lembram-se deste grande comerciante que, para além de ter uma casa emblemática, era o grande financiador da então Académica, através de publicidade nas camisolas.
Como no início dessa década essa grande casa comercial foi vendida para outro grande comerciante. José, como bom elemento que era, um funcionário esforçado, daqueles cuja obrigação não depende do relógio, transitou imediatamente para o novo adquirente, onde esteve durante 26 anos de actividade ininterrupta.
Há dias a “sua” casa comercial encerrou. O seu segundo ninho, onde os sonhos soçobraram, afogando mil planos idealizados, perdidos pelos labirintos da vida, com a realidade a mostrar a sua frieza, como a dizer-lhe que a sorte de poder realizar as suas fantasias não é para todos. Para além do choque de ver fechado o seu horizonte da razão do seu viver, o objecto da sua rotina diária, o sol que vislumbrava ao fundo do longo caminho diário entre a sua casa familiar e o seu trabalho, muito mais ainda, para piorar, José, não recebeu os ordenados relativos ao último ano. Não é o único, diz-me com a voz embargada pela dor, também os seus restantes colegas diários de trabalho, para além da alma, lá deixaram o justo ressarcimento de um ano de entrega laboral a uma causa perdida. E das legítimas indemnizações, a mesma coisa, nem vê-las.
Hoje encontrei o meu amigo José, arqueado, de olheiras profundas, passo errante e arrastado pelas ruas da calçada. “Que vou fazer à puta da minha vida, Luís? Tenho a casa para pagar, a minha mulher ganha pouco, estou completamente endividado”-olhando os seus olhos macilentos, eu pressentia que a qualquer momento se iam inundar de lágrimas. “Eu não merecia isto, Luís! Dei a minha vida por aquela firma, e o que trouxe? Nada!, absolutamente nada!”, mostra-me as mãos estendidas em concha, como se eu não acreditasse e fosse necessário este gesto. Foi então que as lágrimas contidas, amarradas tão a custo, se desprenderam como águas libertas na brava cercania inclinada. E o José, homem maduro, ali à minha frente, chorou como uma criança desamparada de tudo e todos.
“O que mais me custa é acordar às 7.00 horas, como sempre fiz, e de repente, sinto uma dor, como um murro no estômago, percebo que não tenho para onde ir. Não tenho trabalho! Ao longo da minha vida, nunca tinha sentido esta sensação. É uma impressão de inutilidade, como se, de repente, me tornasse numa coisa imprestável. Nestes dois dias, em que estou desempregado, já fui a uma série de entrevistas de emprego. Sabes o que é entrar numa sala e estarem dezenas de pessoas à espera, como eu, sendo a maioria mais novos? Quando chega a minha vez de ser entrevistado, quando digo a minha idade de 48 anos, o meu jovem entrevistador, provavelmente psicólogo contratado pela empresa, engelha a cara sem disfarçar. Bem lhe tento dizer que sou “pau para toda a colher”, que já “comi as sopas que o diabo amassou”, que os horários para mim nunca contaram, mas aquele jovem, provavelmente recém-iniciado na vida, olha para mim como se eu fosse um bicho raro, com um olhar dividido entre o espanto e a comiseração, parecendo não acreditar. Ou então porque, aos candidatos anteriormente ouvidos, já “engoliu” esta história mil vezes. Já viste, Luís, para aquilo que uma pessoa estava guardado?!”, interroga-me o José, sabendo antecipadamente que não queria qualquer resposta.

ENCERROU A MECA DO COMÉRCIO TRADICIONAL





  As “Galerias Coimbra” e o “Traje” estavam para o comércio tradicional da Baixa como está Meca para os muçulmanos. Estas duas casas comerciais simbolizavam o padrão, a infra-estrutura de uma fé que a racionalidade não explica.
A firma José dos Santos Coimbra, Lª, a que pertenciam estes dois estabelecimentos tem (tinha) cerca de cinquenta anos de existência nesta zona histórica da cidade. Estavam implantados na Rua Eduardo Coelho, junto à Praça do Comércio. Tal como Maomé nasceu em Meca em 570, e, nesta cidade, fundou uma religião das mais importantes do mundo islâmico, também, por volta de 1950, o senhor Coimbra praticamente “renasceu” para a vida comercial e criou um exemplo a seguir para o desenvolvimento da cidade. Homem controverso, de vontade indomável –que conheci muito bem e fui seu empregado durante 9 anos-, começou de marçano e criou uma fortuna completamente a pulso. Finou-se no virar do século, em 2000. Chegou a ter 38 empregados. As suas casas comerciais foram, para a maioria de comerciantes estabelecidos hoje na cidade, a grande faculdade empírica comercial. Foi ali que começaram o “bê-à-bá” e de lá saíram formados para a vida.
Em 2004, com a firma já na posse dos seus filhos, tinha 25 empregados. Actualmente tinha 8 funcionários.
Na segunda-feira, 3 de Novembro, foi descerrada a lápide numa história de sucesso empresarial. Se escrevesse um epitáfio, escreveria: o sonho faz nascer, a audácia e o trabalho faz crescer, a morte, como sorte ou castigo, faz desaparecer.
Dizer-vos que este “apagão” é uma perda irreparável para a Baixa é muito pouco. Neste momento, em que sentimos, nestes encerramentos, ir-se um pouco de todos nós, é triste, muito triste mesmo. Só quem, como eu, por lá passou, sente a tristeza que me vai na alma.
Podem crer: a Baixa está de luto e muito mais pobre. Morreu o “ícone” paradigmático da sua “religião”.

"REPÓRTER ESTRÁBICO": O PRESIDENTE DA ACIC NA RÁDIO




Recentemente chegado dos “states”, onde, quase durante um ano, fez campanha por Obama, Paulo Mendes, presidente da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, foi direitinho para os estúdios da 101.7 FM para ser entrevistado acerca da instabilidade nocturna que se vive na Baixa. “É necessário um trabalho conjunto no sentido de combater os roubos na Baixa”, declarou o presidente da ACIC.
Continuando a apresentar pequenos extractos da entrevista, sublinhou ainda o facto de muitos proprietários de estabelecimentos comerciais não terem seguros do recheio e dos imóveis, motivo que vai contra a atitude de prevenção recomendada e que potencia “situações em que é fácil assaltar”.
O “repórter estrábico”, que é assumidamente vesgo, ia ficando com os olhos quase em bico. Fora dos estúdios da Rádio do Diário de Coimbra, tentou obter umas palavras de Paulo Mendes. Interrogou: “importa-se de repetir? O que tem a ver a falta de seguros para ser motivo que vai contra a atitude de prevenção recomendada e que potencia “situações em que é fácil assaltar”?
O presidente da ACIC, que gosta mais de ouvir do que falar, não respondeu ao nosso repórter.
Claro que o nosso enviado especial à Rádio do Diário de Coimbra, até entende, se Paulo Mendes não esteve no País, no último ano, é lógico que está a confundir Portugal com os USA. E só assim se entende que ele não saiba que a maioria dos comerciantes, pela crise instalada, pela necessidade de diminuir custos, tiveram que prescindir dos seguros de recheio e de imóveis.
Devido à ausência das lides empresariais, durante o último ano, também desconhece que para ourivesarias e lojas de antiguidades, actualmente, as seguradoras se escusam a contratualizar seguros.

A FRASE



“Paulo Mendes e Armindo Gaspar (respectivamente presidentes da ACIC E DA APBC), por seu lado, sublinharam que a insegurança na Baixa não é maior do que noutras zonas, não havendo, pois, motivos para alarme”. In Jornal de Notícias de hoje, e acerca do “Contrato Local de Segurança” apresentado pelo Governador Civil para tentar pôr cobro à onda de assaltos nocturnos na Baixa.
Só uma perguntita daquelas tão parvas, tão parvas, que até parecem estúpidas: o que estiveram a fazer estes dois “cromos” na reunião do Governo Civil?
E ainda mais outra pergunta, que por ser tão bacoca, tão pacóvia, tão infeliz, até sinto alguma inibição em fazê-la: SERÁ QUE VOZES DE BURRO CHEGAM AO CÉU?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

"O CONTRATO LOCAL DE SEGURANÇA"




Como se sabe, ontem, os comerciantes da Baixa de Coimbra, alarmados pela onda crescente de violência contra o património, foram à sessão pública do executivo de Carlos Encarnação pedir ajuda para o grave problema que os atormenta.
Há cerca de um ano, mais concretamente a partir de Julho de 2007, durante a noite, começaram a sentir os prejuízos decorrentes dos constantes assaltos aos estabelecimentos. Com pico entre Julho e Outubro, e após a intervenção da PSP, com o desmantelamento de pelo menos um gang e a identificação de uma receptadora, a verdade é que a violação da propriedade privada continuou, embora mais paulatinamente.
Durante este ano de 2008, os assaltos continuaram durante a noite.
Perante cerca de quatro dezenas de comerciantes, o presidente da autarquia declarou a sua total incapacidade em resolver este problema de segurança física, assim como mostrou total passividade em dar alguma esperança a esta pessoas.
Luís Vilar, vereador do PS, na oposição, aproveitando bem a inabilidade de Carlos Encarnação, imediatamente se colocou em contacto com o seu correligionário Henriques Fernandes, Governador Civil, e, na hora, convocou os comerciantes à Couraça para hoje, pelas 11,30, na presença do representante do Governo no Distrito e o Comandante da PSP, intendente Bastos Leitão, se tentar uma solução possível.
Cerca das 11,30, cerca de uma dezena de comerciantes, o presidente da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, Paulo Mendes, o presidente da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, Armindo Gaspar, todos foram recebidos pelo anfitrião Henrique Fernandes.
Para que a reunião se tornasse mais profícua, “porque com tanta gente deixava de ser uma reunião de trabalho para ser um plenário”, segundo a alegação do Governador Civil, passaram então para uma sala de trabalho quatro comerciantes, o representante da APBC, o representante da ACIC, o Comandante da PSP e o próprio Henrique Fernandes, coadjuvado pelo seu assessor Paulo Valério e por várias juristas do Governo Civil.
Depois da explanação do problema pelo Governador Civil, apresentando os presentes, e reiterando a partilha das preocupações dos comerciantes, abriu a reunião o comerciante que ontem, perante o hemiciclo camarário, apresentou as queixas do comércio da Baixa de Coimbra. Dirigindo-se ao Governador Civil, começou por dizer que não o movia outros interesses para além de assegurar a salvaguarda dos seus bens e os dos seus colegas do comércio de rua. Não tinha partido político, não aspirava à presidência do que quer que fosse, e, acima de tudo, muito menos criar uma guerrilha institucional entre os representantes dos comerciantes (ACIC e APBC). Estava ali do mesmo modo que esteve na Câmara. Ou seja, foi obrigado a chamar a si este papel porque as instituições citadas não responderam aos apelos, mesmo depois de avisadas verbalmente há cerca de um ano atrás. Foi dito por um destes representantes “que tudo o que viesse nos jornais era pernicioso e prejudicial à Baixa”.
Continuou o comerciante, afirmando que a Baixa têm dois agentes da PSP durante o dia, em giro, e após as 19 horas, até ao outro dia seguinte de manhã, absolutamente nenhum. Metaforicamente, comparou o abandono destes comerciantes como se nadassem num oceano de tubarões, confiando que a divina providência os salvaria de serem atacados.
Respondeu o senhor Intendente Bastos Leitão “que não era verdade, a Baixa era bastante policiada. “Até de mais, se tivermos em conta o índice de participações feitas pelos comerciantes na Polícia de Segurança Pública: “no primeiro trimestre deste ano, apenas foram comunicadas 13 ocorrências na Baixa”, alegou o Intendente. Daí o policiamento necessário, directamente proporcional ao número de queixas.
Contrapôs o comerciante que, com conhecimento de causa, afirmava que as pessoas não participam por dois motivos: o primeiro é porque não acreditam na segurança jurídica, ou seja na eficácia e ressarcimento dos seus queixumes. Em suma não acreditam na justiça das instituições.
A segunda questão, que as leva a não participar pequenas ocorrências é que se o furto ou roubo não for superior a 96 euros é considerado semi-público, o que quer dizer, na prática, que para além de necessitar de queixa, e se não chamou a PSP logo a seguir ao acto da lesão, terá a vítima de constituir advogado.
O senhor Governador Civil avançou então com a figura de estilo “Contrato Local de Segurança”. Este “contrato” pressupõe, sob a sua moderação, para além de uma harmonização de interesses, obrigações das partes (comerciantes, autarquia e PSP).
Comecemos pelas “obrigações” dos representantes dos comerciantes: estes irão convencer todos os lesados nos últimos 6 meses –para além deste prazo a acção prescreve- a apresentarem queixa na PSP de todos os danos sofridos, sobretudo de roubo, em que esteja implícita violência, como intrusão, quebra de vidros. Para além disso, também deverão ser apresentadas participações de violação de portas, sobretudo se a intenção era a intrusão.
Quanto às obrigações da autarquia e da PSP, em assegurar o normal funcionamento de segurança, Henrique Fernandes, chamou a si a gestão do seu funcionamento entre estas duas instituições.
Durante um mês, prazo para estabelecer metas, convocaria e sensibilizaria o presidente da Câmara Municipal de Coimbra para “utilizar” a Polícia Municipal a assessorar a PSP. Isto é, retirar-lhe alguma função contra-ordenativa e dar-lhe funções preventivas nas ruas da Baixa.
Por outro lado, e se –saliento este “se”- os comerciantes efectivassem as queixas na polícia, aumentando as estatísticas, o senhor Intendente poria mais policiamento na Baixa.
Em resumo, o futuro policiamento das ruas da Baixa, durante a noite, depende do “se”…forem apresentadas participações.
Se me perguntarem do que achei desta reunião, direi que foi essencialmente política, não no verdadeiro sentido de resolver os problemas prementes da polis, mas parecer que, efectivamente, os poderes públicos estão preocupados e “querem” resolver a insegurança.
Porque, sinceramente, leitor, alguém acredita que se a pessoa não apresentou queixa na altura do dano irá fazê-lo agora? Mesmo que seja uma acção necessária ao colectivo, isso é que era bom! E, para mais, uma classe que só move um dedo se este lhe estiver a arranhar o outro.
E o Governador Civil, professor universitário de Sociologia e político de largo costado, assim como o Intendente da PSP, agente de larga experiência, estão fartos de saber isso. Conhecem o ser humano como ninguém. Antecipadamente, sabem que nós, os “estóicos”, aqueles que dão a cara, vamos esforçar-nos para nada. Foi uma forma de nos entreter. A ver vamos! Pode ser que eu esteja enganado.
Apesar de tudo, devo salientar a forma como o Governador Civil conduziu a questão sem passar o ónus inoperante para Carlos Encarnação. Poderia perfeitamente tê-lo feito, mas não fez.
Se me perguntarem se estou demasiado optimista, não, não estou mesmo! No entanto, uma coisa tenho de salientar, perante “um nada” do presidente da edilidade e uma palavra de esperança, ainda que longinquamente vã, de Henrique Fernandes, prefiro este último.
Tal como disse, olhos-nos-olhos, a terminar a reunião, a Henrique Fernandes, reitero-o aqui: conheço-o há muitos anos, desde que era vice de Manuel Machado –e também, na altura, tive alguns “desencontros” verbais- tenho por ele um grande apreço e tenho a certeza de que é um homem sério. Como tal, eu e os comerciantes que foram à Câmara ontem –se posso falar por eles- esperam poder contar com a sua ajuda em resolver esta limitação de, com segurança, em liberdade, podermos exercer a nossa profissão.
No entanto, atente-se, na Baixa estão as nossas vidas, está a nossa alma, e as pessoas para defender as suas vidas são capazes de tudo. Se não nos ajudarem a defender o que é nosso, os políticos poderão estar certos: voltaremos outra vez à Câmara, e, na próxima seremos centenas. Não brinquem com as nossas vidas!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

ESTE PRESIDENTE NÃO (ME) SERVE

(POR NÃO TER OUTRA FOTO À MÃO, COM A DEVIDA VÉNIA, UTILIZO ESTA DO BLOGUE "PIOLHO DA SOLUM")

Hoje, juntamente com cerca de quatro de dezenas de comerciantes, estive na Câmara Municipal. Embora só um munícipe usasse da palavra, estávamos todos presentes com uma única intenção, que era levar ao conhecimento do executivo, liderado por Carlos Encarnação, a instabilidade e a insegurança nocturna que os homens do comércio sentem diariamente na Baixa da cidade.
Nestes quarenta comerciantes presentes, cerca de 25 já tinham visto os seus estabelecimentos vilipendiados nos últimos dois anos. Alguns várias vezes. Por exemplo, o fotógrafo Victor Ramos no último ano duas vezes. No total de vezes assaltado ao longo dos últimos anos: 16 vezes.
O Alípio, dono da sucata por detrás da antiga Zara, de Janeiro ultimo até agora: 4 vezes. Na última, há semanas, com recurso a rebarbadora, abriram-lhe um cofre de ferro e roubaram cerca de 300 euros.
A Dona Graça, da Rua Velha, de Setembro do ano passado até agora: 14 vezes.
Uma loja de Velharias, no Largo da Freiria, de Julho do ano passado até agora: 3 vezes.
Os restantes vinte e um presentes no plenário do executivo, nos últimos dois anos viram os seus estabelecimentos violados.
Como se sabe também, os assaltos têm decorrido entre as 22,30 e a 1.00 horas da madrugada. E tanto faz ter grades de ferro como não, vai tudo à frente. A técnica utilizada é pegar num paralelepípedo, jogá-lo contra a porta ou montra, forçar a grade com uma marreta ou "pé de cabra", entrar e roubar o que estiver à mão e desaparecer.
Quando a PSP chega, passados 15 minutos, limita-se a constatar o óbvio. Como durante a noite não existe um único agente, para além de se saber que a zona histórica está bastante desertificada, calcula-se a facilidade com que actuam os meliantes.
E foi isso mesmo que este grupo de comerciantes, bastante preocupados, foram dizer a Carlos Encarnação. Que acima de tudo, para além da sua responsabilidade política, enquanto presidente da Protecção Civil Municipal e, sobretudo, pela segurança autárquica, iam ali para pedir a sua ajuda. Disseram também que, numa zona comercial de mais de quinhentos estabelecimentos, era intolerável, como quem diz, absurdo, que toda esta zona comercial estivesse entregue à divina providência.
“E o que ouviram do presidente?”, interroga você, leitor. Pois pasme! Textualmente disse isto: “que não podia fazer nada! Que o problema era com a PSP, e que ele, enquanto presidente da autarquia, não podia valer em nada”. Foi então que o comerciante, que usava da palavra em nome de todos, lhe perguntou se perante a sua tolhida e confessada inoperância deveriam, os homens do comércio, pegar em armas para defender o que era seu. Indirectamente respondeu que a culpa era do Governo Nacional, pelas recentes alterações nos Códigos Penal e de Processo.
Ou seja, tinha resposta para aquilo que os comerciantes não precisavam. Que era a politiquice barata, dividida entre a “partidarite” bacoca, “azelha” e irresponsável.
Quem salvou a situação foi Victor Baptista, vereador (e deputado) do PS, que numa argumentação simples e exemplar, ali, naquele hemiciclo onde vale tudo menos fazer política verdadeira, no sentido da polis, se colocou ao lado dos comerciantes.
A seguir foi Pina Prata, que desancando em Gouveia Monteiro, lhe perguntou porque razão, para o planalto do Ingote, havia polícias e dinheiro e para a Baixa, o coração da cidade, não havia nada –saliento, nesta reunião, a posição do vereador comunista, que descaradamente se colocava ao lado de Carlos Encarnação, não só em sua defesa, como se fosse seu advogado, como em posturas ridículas de risinhos, perfeitamente descabidos num contexto de luta política. Uma tristeza, senti eu.
Seguidamente interveio Luís Vilar, de forma contundente, a defender os comerciantes e a questionar para que serve a APBC (Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra).
Seguidamente, do seu telemóvel, marcou uma reunião, para amanhã, às 11,30, no Governo Civil, em que estará presente, para além do Governador o Comandante da PSP.
Poderemos todos questionar a intervenção, quer de Pina Prata, quer dos vereadores da oposição do PS. E, no limite, até podemos dizer: “olha!, pois, actuaram assim porque estamos próximos das eleições”. É possível que a sua motivação até fosse mesmo essa, mas, e depois? Não foi lícita? Não é isso que se espera de um plenário onde estão presentes executivo e oposição? Eles apenas aproveitaram uma oportunidade dada de bandeja pelo presidente da autarquia. Que, aliás, quanto a mim, sai péssimo da fotografia. Pode-se esperar pouco de um chefe de um executivo, mas, hoje, daquele homem, nada saiu. E isso, quanto a mim, é inconcebível.
Uma coisa posso garantir, e isto é um juízo de valor, Carlos Encarnação, hoje, perante a oposição, os dois vereadores do PS e Pina Prata, que a seu modo também concorre para ela, pareceu um pigmeu, um inadaptado, um “vencido da vida”. Sinceramente, já tinha uma opinião formada, mas agora, reafirmo-o: este homem não me serve para presidente da minha cidade.
Tal como fiz lá, no salão camarário, para Pina Prata e os dois vereadores do PS, uma grande salva de palmas.

domingo, 2 de novembro de 2008

"A BAIXA ESTÁ A MORRER" -QUEM PODE AJUDAR?






 Como alguns saberão, sou comerciante na Baixa da cidade já há muitos, muitos anos. Para além dos imensos defeitos que possuo, e que não vou contar aqui, tenho pelo menos três, que são do pior que pode haver. Para não criar muito “suspense”, posso já dizer quais são: gosto demasiado de escrever, sou terrivelmente curioso e não consigo calar uma qualquer injustiça, venha ela de onde vier. Se repararem, as três juntas, metaforicamente, são um barril de pólvora. Porque, atentem, se me faltasse uma qualquer das três a “coisa” até passava despercebida, mas assim, não. Os três defeitos juntos são uma espécie de fósforo junto de dinamite e de objecto a implodir. Não preciso de dizer as “chatices” que me traz, mas isso é outra questão.
E se comecei por aqui é para entenderem a razão deste texto. Sempre que sei de determinada notícia de um comerciante, como “cusca”, lá vou eu tentar conversar com ele. Com alguns, até esse momento, nunca tínhamos falado antes. Não sei se é bom ou mau. Uma coisa percepciono; sei, com aqueles que converso, o que pensam de determinada instituição. É evidente, e podem dizê-lo, que, o facto de me contarem determinado desabafo, isso, pode não querer dizer nada. Às vezes é a frustração do momento. É verdade, porque na maioria das vezes, muitas pessoas dizem uma coisa e estão a pensar outra. Mas, mesmo que seja assim, para o caso é irrelevante. Aqui, o que conta, para eu chegar onde quero, à minha argumentação, será aquilo que me dizem, quase em queixume. E, um dos muitos, demasiados quanto a mim, é a acusação de que a Câmara Municipal não se interessa minimamente pela zona histórica da cidade.
Se me perguntarem o que penso acerca disso direi o mesmo. Mas acrescento mais qualquer coisa. A autarquia é uma “máquina” pesada, obsoleta, burocrática e pouco sensibilizada para os pequenos problemas de cada um. Como está dividida em vários pelouros e secções, uns chegam a atrofiar-se e a sobrepor-se a outros e a contradizer-se mutuamente. Há dias, em conversa com um comerciante que encerrou portas, dizia-me ele que ia embora porque entre outros motivos, era a insensibilidade da Câmara. “Repare, durante vários anos, paguei licença de toldo. Este ano recebi uma comunicação de que teria de o retirar porque não fazia parte da planta do edifício comercial”, referia-me ele, numa catadupa de queixumes.
É certo que poderemos dizer que o Centro histórico tem um director. É verdade. Mas os pequenos problemas, a “lana caprina”, aquelas coisas ínfimas que incomodam as pessoas no dia-a-dia, naturalmente porque não está cá, passam-lhe ao lado. Posso dar um exemplo: a reparação de um buraco numa rua estreita pode demorar duas semanas a ser reparado. Dirão vocês: “que raio, é apenas um buraco, tenha dó!”. Pois, mas se lhe disser que várias pessoas já lá caíram, algumas com escoriações, e foram directamente para a farmácia?
“E, então?”, interroga você, sem saber onde quero chegar.
O que quero defender aqui é que deveria ser criada uma comissão para debater, discutir e, rapidamente, resolver qualquer assunto sobre a Baixa (para a Alta deveria ser criada uma congénere). De uma forma rápida, uma espécie de linha azul de gabinete desburocratizada.
Nestas comissões, para além da autarquia, deveriam estar representados um elemento dos inquilinos, dos senhorios, das duas juntas de freguesias (S. Bartolomeu e S. Cruz); da ACIC, da associação de hotelaria (Restauração e dormidas); da APBC; um elemento da Diocese; um elemento dos Bombeiros; um da PSP; Um elemento da esfera judicial, um Juiz, do Tribunal de Comarca, etc.)
Qualquer assunto, por muito residual que fosse, desde que respeitante à zona histórica, ainda que não sendo órgão deliberativo, deveria obrigatoriamente passar por aqui. A Câmara Municipal, ao descentralizar os seus serviços, só tinha a ganhar, sobretudo ao perder o ónus do odioso de certas decisões que ninguém entende.
E na Baixa há imensas questões urgentes a debater e a resolver. Ultimamente, desde há um ano para cá é a segurança nocturna de pessoas e bens. Durante a noite não há um único agente da PSP. Como se sabe, desde Agosto do ano passado, com imensos estabelecimentos a serem assaltados e, muitos deles, várias vezes; as inúmeras lojas comerciais a encerrarem; o paulatino avanço do comércio chinês nas ruas estreitas –num perímetro de 200 metros quadrados existem seis estabelecimentos, com possibilidades de abrirem mais dois nos próximos dias; a tensão lactente entre senhorios e inquilinos, com intervenção de restauro no edificado e sobretudo pelas rendas de miséria; o necessário convencimento dos comerciantes-proprietários para que arrendem os seus andares superiores vagos por cima dos estabelecimentos; a necessária intervenção na negociação para que se acabe com alguns negócios em entradas únicas para os andares superiores vazios e cuja entrada é apenas aquela para todo o edifício; os vários prédios "entaipados" há vários anos –como exemplo, indico um no Largo da Freiria e outro no Largo da Maracha; a questão da mendicidade, que está a regressar em força por pessoas de leste; as arbitrariedades da Polícia Municipal, com imensas queixas de comerciantes e residentes, a parecer que esta força civil actua “sem rei nem roque”, quase a raiar o autoritarismo; as questões de estacionamento para residentes, que apesar de Carlos Clemente, o presidente da Junta de São Bartolomeu, tentar levar o assunto à Assembleia Municipal, ninguém lhe liga; a saída presumível do Tribunal; o encerramento da Estação-Nova; a limpeza das ruas, se atentarmos, algumas, o seu empedrado está ensebado, e não se pense que é agora por causa da Latada; o lixo espalhado pelas artérias ao fim-de-semana, é preciso sancionar quem o abandona fora das horas convencionadas; a reparação da calçada, que apesar de se dar conhecimento à autarquia, os buracos jazem abandonados como crateras “ad eternum”.
Este meu plano pode até parecer complicado. Num país onde a tendência é para centralizar, admito que possa parecer utópico. Mas, uma coisa é certa, actualmente, como as coisas estão, pura e simplesmente, não funcionam mesmo e cada vez se nota mais um azedume contra a autarquia, como se esta entidade fosse estranha e, para além de se considerar inimiga da Baixa, nada tivesse a ver com tudo aquilo que diz respeito a esta parte histórica.
Uma coisa é certa, e furtando o título ao Diário de Coimbra de ontem, “A Baixa está a morrer”. E, apelando um pouco à cidadania que existe dentro de cada um de nós, estará na nossa mão, de todos, para que isso não aconteça.