terça-feira, 4 de dezembro de 2012

POR QUE NÃO TE CALAS, HOMEM DE DEUS?



Mário Soares é o exemplo acabado de alguém que teima em "queimar em lume brando" um capital político conquistado ao longo de uma vida. Nos últimos tempos, num completo estado de aparente senilidade tem vindo publicamente a apelar à desordem, ao caos e até à instigação de violência contra o Primeiro-ministro -que é crime, como todos sabemos. Os dislates são tantos que já não têm conta e só lhe podem ser perdoados pela idade avançada. Porém, a comunicação social , neste caso o Diário de Notícias, também tem culpa. Se este senhor não mede as palavras e não sabe o que diz, porque razão, de uma forma subserviente, lhe continuam a colocar o microfone e as câmaras à frente?
Mais um exemplo dos seus disparates:

Mário Soares avisa o primeiro ministro para "ter cuidado com o que possa acontecer-lhe". Numa crónica no Diário de Notícias, o histórico socialista diz que, "com o povo desesperado e em grande parte na miséria, Pedro Passos Coelho corre imensos riscos".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O ACERVO DE VASCO BERARDO NO EXECUTIVO MUNICIPAL

(Foto do Blogue Sexo e a cidade, com a devida vénia, obviamente)


  Hoje apresentei-me na reunião pública do executivo para levar ao conhecimento do Presidente da Câmara, João Paulo Barbosa de Melo e de toda a vereação um assunto que, para a Cultura da cidade, considero muito importante.
Em introdução, comecei por dizer que ia falar na obra do artista conimbricense multidisciplinar, desde a cerâmica, à azulejaria, tapeçaria, pintura, medalhística, etc., Vasco Berardo. A sua criação está espalhada por toda a cidade, pelo distrito e pelo mundo. O Vasco para além de ser um reconhecido artista foi sempre armazenando espólio. Para além da sua obra produzida, ao longo da sua vida de trabalho –começou a labutar com 11 anos- foi sempre adquirindo peças de arte. Hoje, contrariando o aforismo de que os artistas não têm nada e são uns “coitadinhos” porque venderam tudo ao desbarato, este grande notável artístico terá, porventura, uma das maiores acumulações de arte da cidade. As suas colecções vão desde a estatuária, medalhistica de sua autoria, obras pictóricas, estatuária representativa de Coimbra, tendo em conta que sempre fomos uma cidade de oleiros, desde António Vitorino até peças da Nova Decorativa de Coimbra, Estatuária e outras que desapareceram há muitas décadas. Este artista, no tocante à pintura, tem de tudo desde Contente a António Vitorino a Fausto Gonçalves. Continuei a dizer que conheço o Vasco há mais de uma dezena de anos. Cheguei a vender-lhe algumas peças ainda ele e a família moravam junto à Rua Antero de Quental. Já nessa altura era detentor de um vasto espólio que me deixou "aparvalhado".
Como se sabe o Vasco, de 79 anos, está doente. Há pouco tempo, em sua honra, foi feita uma homenagem no Centro Cultural D. Dinis.
Há cerca de duas semanas fui contactado pela esposa do Vasco para avaliar e dar opinião sobre o seu acervo. Perante o que vi, pela extensa diversidade, fiquei espantado. Falei com o pintor e a esposa e perguntei-lhes directamente se a minha visita se relacionava com intenção de, a curto prazo, ser vendido. Foi-me dito que, felizmente no tocante ao lado financeiro, estava tudo bem, mas que, devido à doença do Vasco seria bem possível. Perguntei ao criador de tantos murais na cidade o que gostaria de ver acontecer ao seu ajuntamento. Respondeu que o seu maior sonho seria ver tudo num museu com o seu nome. Evidentemente que, a seu ver legítima, com uma contra-prestação que poderia ser mensal.
Ora, tendo em conta que a obra de Vasco Berardo é vastíssima e o município está em “dívida”, entre aspas, salientei, uma vez que os artistas contribuem para enriquecer o espaço cultural das cidades e estas, na reciprocidade, devem-lhe a preservação da sua obra e a manifestação do reconhecimento público. Prossegui, entendo que, harmonizando os interesses de todos, do artista, da apreensão do município e da urbe para que esta não veja espartilhado um espólio desta categoria, a Câmara, na pessoa da senhora vice-presidente e vereadora da Cultura, Manuela Azevedo, deveriam ir apreciar e falar com a família Berardo. Por outro lado, tenho noção de que a cultura é sempre o parente pobre das Finanças Públicas, porque não há dinheiro, mas ao vir aqui é para que a autarquia tome conhecimento e fique ratificado em acta do que está mesmo à frente dos nossos olhos. Estou aqui na qualidade de cidadão, tal como já estive em outras ocasiões aquando do desmantelamento do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, há cerca de 4 anos, e cujo legado acabou por ser dividido por alguns museus nacionais. Nessa altura, vim aqui ao Executivo duas vezes, se a memória não me falha, e outras duas à Assembleia Municipal. Não valeu de nada. Sem querer pressionar o executivo, espero que desta vez não aconteça o mesmo e, no mínimo, vão ver o que o artista detém.

E O QUE DISSE O PRESIDENTE?

 Barbosa de Melo salientou que tendo em conta que já subsistia uma situação parecida com o Museu Municipal do Chiado, e em que existia um acordo entre o cedente e a edilidade, no entanto, do ponto de vista jurídico, parecia-lhe, há dúvidas quanto à sua legalidade. É certo que aquela situação, do Chiado, foi há cerca de 15 anos e hoje já há outra legislação para estes efeitos. Claro que se o pintor quisesse doar toda a sua obra isso já seria diferente, embora também com algumas condições. Por esse país fora estão casos desse género em que o acervo foi cedido e depois o dador exigia um projecto de arquitectura que custava milhares ou milhões e acabava por ficar mais caro que o espólio. Poder-se-ia avaliar no sentido de adquirir algumas obras mais emblemáticas. Apesar disso, a senhora vereadora da Cultura certamente se iria debruçar sobre o assunto. Agradeceu a minha ida ao plenário para, mais uma vez, levar questões de cidadania.

E O VEREADOR CARLOS CIDADE?

 Que o artista Vasco Berardo merecia a consideração e a estima de toda a cidade. No entanto, já no tocante a levar este assunto ao executivo público, parecia-lhe que deveria ter havido algum pudor em tratar deste caso. Deveria ser tratado particularmente. Não expor o assunto assim publicamente –para mim, não foi claro no que quis transmitir. Poderia querer dizer que os artistas não podem declarar publicamente que vão vender a sua obra, porque precisam, ou, por exemplo, que o artista poderia vir a ser assaltado. Por alguns membros do executivo lhe terem dado razão, presumo, pelos vistos, foi claro para todos menos para mim.

E  A SENHORA VEREADORA DA CULTURA?

 Começou por desfolhar o portefólio genealógico de Vasco Berardo, que, disse ela, provém de uma família do século XV, “os Berardi”, que sempre estiveram ligados à arte em Portugal. Disse também que tem acompanhado muito de perto a situação e a doença do Vasco e até está programada uma exposição, proximamente, na Casa da Cultura. Disse também desconhecer, porque não lhe disseram nada, que o artista tencionava alienar a sua colecção de arte. Disse também que concordava que este tema deveria ter sido tratado particularmente e com algum pudor –confesso que, tal como o verberado por Carlos Cidade, não sei o que queria dizer, mas isto deve ter a ver com a minha ignorância, é que só falo e escrevo português. De linguagem “politiquês” não entendo nada. Portanto para que fique escrito, o lapso não será da senhora vice-presidente mas meu, que sou disfuncional.
Disse ainda que os artistas na cidade são muito bem acarinhados por todos. Por exemplo, o Vasco Berardo tem obras em muitas casas de Coimbra. Todos conhecem o Vasco. Mas que o assunto iria ser encaminhado e que, aproveitando a minha disponibilidade, todos juntos iríamos avaliar o espólio do artista e depois se decidiria.

E A MINHA REFUTAÇÃO FOI?

 Virando-me para Carlos Cidade, vereador da oposição, disse-lhe que não entendia o seu argumento de que este assunto deveria ser tratado com pudor e particularmente. Lá, no plenário, reiterei que estava ali como cidadão apenas interessado para que esta vasta panóplia de arte não se espartilhasse e, na minha subjectividade, no interesse da cidade. Repeti que não entendia o termo “pudor”. Se era pelo facto de levar ao conhecimento público da intenção futura de vender, estava ali por minha própria iniciativa mas com conhecimento da família Berardo. Se o “pudor” era por poder parecer que o artista precisará de vender, salientei que, por três vezes, repeti que não era essa a intenção.
Virando-me para o presidente, Barbosa de Melo, e a senhora vereadora da Cultura, Maria Manuela Azevedo, perguntei-lhes como é que esta questão poderia ser tratada em particular se não tenho meios para lhes chegar próximo? Por exemplo, a senhora vice-presidente, apesar de me cansar de lhe enviar e-mail’s de assuntos de cidadania para o seu departamento nunca me deu resposta. Respondeu a vereadora que não tem recebido nenhuma comunicação minha. Lembrei-a então de que há pouco, sobre a Feira de Velharias, lhe enviei uma exposição de que se deveria debruçar e, no mínimo, dar-me uma satisfação. E nunca o fez. Não são os senhores que apelam constantemente à cidadania activa? Interroguei. Refutou a senhora vereadora de que não tem recebido os meus e-mail’s. “Se calhar não está a fazer o envio para o endereço certo”, argumentou. Interroguei: e o jornal, a senhora vice-presidente lê? Retorquiu a senhora: “ai, eu a notícias de jornais nunca respondo!”. Como a dialéctica estava a alongar-se e as coisas não estavam a correr bem à promotora da cultura, Barbosa de Melo, indo em auxílio da sua correligionária, admoesto-me: “como deve entender estamos a seguir um assunto não inscrito na agenda.
Pedi desculpa pelo extravasar, mas o recado lá ficou e a senhora vereadora estava salva das garras de um aventureiro macaco.
Era bom que todos, mas todos os agentes políticos eleitos, de uma vez por todas, ficassem a saber que se querem a comparticipação pública do cidadão terão de mostrar vontade de participar na discussão. Por este desleixo e falta de consideração, talvez se entenda a razão de haver poucas pessoas no executivo municipal.
Quanto ao assunto que ali me levou e respeitante a Vasco Berardo. Aguardo com serenidade o evoluir do meu desencadeamento. Sentado, obviamente, por causa dos malditos bicos de papagaio que, para além de me picarem a coluna, corroem-me a alma.




domingo, 2 de dezembro de 2012

VOU MAS É DAR UMA VOLTA...

O ÚLTIMO SUSPIRO DO SACRIL(ÉGIO)



 Morreu ontem o Sacril. Tinha à volta de 50 anos. Como é que se pode morrer tão novo? Interrogarão alguns mais chegados. Para outros, mais que certo, estava numa altura óptima para deixar este mundo. Afinal meio século é sempre o meio de qualquer coisa, neste caso metade de 100 anos. Mas quem chega lá, à centúria, salvo excepções, já não vive, arrasta-se, sobrevive. 
O Sacril morreu desta doença da moda. Dizem que foi a mudança dos costumes que o condenou inexoravelmente. Parece que é um  vírus que anda por aí à solta e tão depressa não haverá antídoto. Já há quem lhe chame a peste negra destes tempos. Mas este seu perecimento deixa saudades? Se calhar não. Afinal é mais um que partiu. E que importa isso? É certo que nos primeiros dias vamos notar a sua falta, mas depois habituamo-nos e passa. A vida é uma roda que vai girando devagar para uns e a correr para outros. De vez em quando lá cai um raio da circunferência, mas imediatamente outro tomará o seu lugar e a cidade, que é feita de todos mas  de ninguém em especial, na sua continuidade assente nestes figurantes, no seu caminhar insensível rumo ao futuro, não se sabendo onde fica nem a quem pertence, prossegue a sua marcha silenciosa sem proferir um lamento de dor.
Só quem convive muito de perto com o falecido sofre. Sofre não. Padece, mingua de amargura. Contava-se por cá, à “boca sussurrada”, aqui e acolá, como manda a lei da ética cá no bairro, que o Sacril estava nas últimas. Dizia-se que era por isto e por aquilo. Como sou o coscuvilheiro de serviço –gostava de ser cangalheiro, ganhava muito mais, e tinha futuro garantido, mas já há muitos-, naqueles gestos de coragem –confesso que é raro sair uma coisa assim  de mim-, há três dias, vi a Sandra, uma das familiares directas do Sacril, muito magra e com um espírito de grande angústia pesada a envolver todo o seu frágil corpo de mulher bela de trinta e poucos anos. Comecei por pedir desculpa por me estar a meter na sua vida e interroguei se era verdade o Sacril estar muito doente e se corria risco de vida? E a Sandra, já muito debilitada, em manifestação de alguém que vai perder um familiar chegado, sem força anímica, não conseguiu conter as lágrimas, que lhe caíram em turbilhão por aquele rosto lindo, mas muito fragilizado. “É verdade, sim, senhor Luís. É muito duro o que nos está acontecer! Ao morrer o meu estabelecimento Sacril falece uma parte de mim, um pedaço de carne de todos nós, o coração da minha família. Ali está a vida dos meus pais, que, para ver se nos aguentávamos, já há muito que não nos cobravam renda, a mim e à minha irmã. São 50 anos de história que se perdem, que se esvaem como água por entre os dedos, aqui na Rua das Padeiras, como estas lágrimas que escorrem pela minha cara. É muito duro. Não merecíamos isto! É um castigo demasiado grande. Somos quatro pessoas a viver da loja. Não dá para continuar. Deixou de dar, e não é por falta de esforço de todos que lá trabalhamos. Nunca imaginei uma coisa destas! Nasci ali, senhor Luís. Como é que vou viver sem o Sacril? Ali está a minha alma, todo o meu ser. É tudo para mim! Não sei se vou aguentar. Há uns meses que ando a emagrecer cada vez mais. Já há muito que não consigo dormir. Mesmo com os fármacos que me receitaram não vou além de duas horas. O que vai ser de mim sem a minha loja, senhor Luís?”


TOMAR O PULSO À RUA





 Vivemos todos presos a estereótipos, a apriorismos, a frases que apanhamos nos outros e as tomamos como verdadeiras, nossas, sem pensar.
Ontem foi inaugurado o som musical nas ruas da Baixa. Trata-se de uma feliz iniciativa da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, no sentido de tornar as artérias mais alegres, uma vez que, por vários motivos e sobretudo a crise, se encontram tão tristonhas e desertificadas. O que eu não imaginava é que a propagação sonora em todo o quarteirão formado pelo Largo da Portagem, Ferreira Borges, Visconde da Luz, Sofia e demais ruas e becos estreitos, poderia ser fatal para uma actividade: a dos músicos que tocam na via pública. 
Logo a seguir, e ainda ontem, o Paolo Vasil, acordeonista romeno, e o Lourenço Pina, tocador de viola e cantante Cabo-verdiano, ambos músicos da recente formada “Orquestra de músicos de Rua de Coimbra”, vieram ter comigo muito preocupados e a suplicar: “ó senhor Luís, a música nas colunas está muito alta. Assim não podemos tocar. Como é que vamos ganhar a vida? Se o senhor pudesse falar com quem manda nisto para baixar um bocadinho do volume…”. A seguir o Lourenço disse uma coisa que me colocou em choque: “ó senhor Luís, na segunda-feira eu preciso de ganhar 2,50 euros para ir comer à Cozinha Económica. Assim, com o som tão alto, não posso tocar e também não posso comer…”
Sem entrar em grandes tiradas reflexivas, gostava de chamar a atenção para este caso. Este homem, diariamente, aufere na rua o seu sustento. Mais: bastam-lhe dois euros e meio para aguentar esta vida nesta terra tão desgraçada para tantos e prometida para ele. Era bom que todos pensássemos nisto quando nos lamentamos porque não temos isto e aquilo.
Felizmente, falei com o Armindo Gaspar, presidente da APBC, e, numa compreensão digna de louvar, o som foi baixado para o mínimo. Penso que amanhã já todos os músicos de rua, naquelas artérias, estarão mais felizes com um simples gesto de rodar um botão.
São tantas as vezes que pensamos que estas pessoas ganham fortunas diariamente –e acredito que haverá quem ganhe de facto muito- que até nos esquecemos daqueles que pouco auferem. Talvez valha a pena pensar nisto.


sábado, 1 de dezembro de 2012

EM NOME DE DEUS...

(Hoje, encontrei vários panfletos iguais a este na Baixa)



 Que o homem é o lobo do homem não me escandaliza. Quem escreveu a frase pela primeira vez foi Thomas Hobbes -1588-1679. Para este filósofo da Idade Moderna “o homem é lobo do homem”, porque no “Estado de Natureza” em que se encontram “os homens são perfeitamente iguais, desejam as mesmas coisas, têm as mesmas necessidades e o mesmo instinto de auto-preservação. Para este grande filósofo inglês o “estado natural” é o conflito, o dissenso, a guerra. As guerras existem porque todos concorrem pelo mesmo fim, pelas mesmas coisas. A disputa acontece porque o homem é um ser obsessivamente ambicioso. Nunca está satisfeito com o que tem. Quer cada vez mais e, para alcançar o que não tem, não olha a meios para atingir os fins. Por outro lado, o homem é um ser inacabado, incompleto, e tendo consciência desta imperfeição, na inquietação, abalança-se para a frente em busca de respostas que possam colmatar as suas dúvidas existenciais cada vez maiores, sobretudo assentes na catarse: “quem sou eu? O que faço aqui? Para onde vou?”. É também aqui, nesta interrogação metafísica, pela incapacidade de refutação convincente, que o humano se vira para o transcendente e, na sua fé, sem questionar, se vira para Deus e para o Seu poder supremo e omnipotente. Continuando sem respostas, mas aceitando o dogma como axioma, verdade sem contestação, pára na sua mania de encontrar réplicas para todas as questões e aceita a impossibilidade de não ver para crer.
Não tenho dúvida em afirmar que o homem, sem resposta objectiva e clara para o que o move, a balouçar entre o bem e o mal, procura cada vez mais a perfeição e, dentro da sua natural propensão para a injustiça, tenderá cada vez mais em sublimar as iniquidades e ser equitativo. Naturalmente que neste caminhar ao longo da vida, em busca de uma solução filosófica às suas questões, se misturam as necessidades de poder, riqueza e reconhecimento. E é exactamente nesta mistura de contenda, ambição e notabilidade que assenta o progresso e desenvolvimento.
Isto tudo para dizer que não me escandaliza que a pessoa, nas suas relações bilaterais, seja e continue a ser imperfeita e injusta. O que me indigna é que em nome da sua crendice, em nome do seu acreditar, sobretudo quando se encontra numa posição de extrema fragilidade económica, alguém, uma igreja, em nome de Deus, em Seu nome, se aproveite da sua debilidade.
Em face deste prospecto, estamos perante um exemplo acabado. É preciso denunciar esta nova forma de aliciamento social.


NA BAIXA RESPIRA-SE NATAL



 Ontem, com a presença de Barbosa de Melo, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, foram oficialmente inauguradas as iluminações de Natal. Quase ao mesmo tempo, e por iniciativa da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, chegou o Pai Natal, uma obra escultórica da ARCA, à Praça 8 de Maio, transportado num camião dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, e o som melodioso de música natalícia invadiu todas as ruas, becos e ruelas. Saliento que todas estas iniciativas têm um custo zero para os mercadores. Há na Baixa um espírito de Natal à solta. Vive-se por aqui uma ternura que não se sentia há muito tempo.
Naturalmente que haverá sempre quem não esteja de acordo com estas acções. Para uns os enfeites estão muito pobrezinhos; para outros criticam o facto de só as duas ruas principais merecerem serem ornamentadas; para outros, perante a grave crise, estão contra estas manifestações alusivas ao Menino Jesus. No tocante ao som, para uns, a música que está a tocar não tem qualidade, deveriam passar mais canções brasileiras; para outros a toada está muito alta.
Têm razão? Têm e não têm. Antes de explicar esta minha deliberação ambígua, convém esclarecer que há sempre, no mínimo, duas maneiras de ver as coisas: a visão dos que estão muito próximo e a dos que estão longe. Depois, mesmo nestas duas posições geográficas, a influir na apreciação, conta muito a forma como se está perante o mundo. Se estamos em paz com ele teremos uma avaliação positiva e até desvalorizamos e damos uma margem de dúvida para os promotores. Se estamos mal, se a vida nos desiludiu ou corre mal, tornamo-nos azedos, mal-humorados, pessimistas, e dizemos mal de tudo e todos. Somos todos iguais nesta prospectiva.
Claro que, como em tudo, haverá sempre um meio-termo entre dois polos. Se me pedissem um conceito diria que talvez o designasse por bom senso, bom agradecimento por quem faz alguma coisa por nós. E ao proceder assim, teremos sempre de menosprezar as posições radicais. Mesmo assim, olhando um pouco às críticas, por exemplo, se alguns consideram que o som está alto, é muito fácil de tentar harmonizar os interesses: baixa-se um pouco. Relativamente aos reparos de se ornamentarem apenas as ruas da calçada, a meu ver, estes comentários têm perfeita razão de ser. Não se pode entender que todos os arcos estejam concentrados nas Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz e a Rua da Sofia não merecesse um único ornamento de atenção. Esta rua, conjuntamente com as citadas, é uma das mais importantes da Baixa. Basta lembrar a sua monumentalidade e ser candidata a Património Mundial pela Unesco. Para além deste “esquecimento”, lamenta-se também verificar que a autarquia não tivesse previamente contactado a APBC e, juntas, combinarem um plano de acordo, isto sem que houvesse aumento de custos –que, quanto a mim, a Câmara Municipal ao reduzir as verbas, mas sem erradicar, esteve muito bem. Todos os comerciantes lhe devem agradecer, pelo menos se tiverem memória. É bom não esquecer que até 2001 os custos alegóricos à quadra eram a expensas dos lojistas.