domingo, 8 de julho de 2012

A PROCISSÃO DA RAINHA SANTA (2)


A PROCISSÃO DA RAINHA SANTA (1)


 Durante várias horas, sobre um sol abrasador e muitos graus celsius –às 18h00 estavam 25º-, a Praça 8 de Maio, esteve literalmente atapetada de largas centenas, senão mais de um milhar, de pessoas para verem sair da igreja de Santa Cruz o andor da Rainha Santa, em direcção ao Convento de Santa Clara.
Com um padre a organizar o cortejo através de um microfone, cerca das 18h15, iniciou-se o aprontar do cortejo. Começou pela magnífica, senão extraordinária, banda de música de Lorvão, seguindo-se-lhe outros agrupamentos musicais e várias entidades representadas na manifestação religiosa mais importante da cidade e que, como se sabe, ocorre de dois em dois anos.
Às 18h35 o andor, suportado por uma dúzia de homens e tendo em cima a imagem criada por Teixeira Lopes, em proporção humana, da Santa Isabel de Aragão, abeirou-se das portas do frontispício do Panteão Nacional. Imediatamente, como regido por um maestro invisível, todo aquele povo presente começou a bater palmas. Foi impressionante este momento de devoção e respeito pela representação da mulher, casada com Dom Dinis, em 1282, então com 12 anos de idade e que morreu em Estremoz a 4 de julho de 1336. Ficaria célebre por ter sido uma rainha muito piedosa e, sobretudo, pelo suposto milagre de transformar o pão destinado aos pobres em rosas. Seria primeiro beatificada em 1516 e posteriormente canonizada durante a nossa ocupação espanhola, Filipina, em 1625.

E A AUTARQUIA, SENHORA?

 A Câmara Municipal de Coimbra, este ano, ostenta na sua fachada um enorme painel alegórico às festas da cidade em honra da Rainha Santa e que tapa completamente uma ala do edifício. Não vou discutir se é ou não de bom gosto e muito menos se, em tempos de austeridade, justificará um custo supérfluo apenas para aparecer durante uma semana e bianualmente. O que creio fazer sentido neste dia, porque é domingo e a procissão sai a meio da tarde, seria a autarquia estar aberta de portas e janelas ao público. Evidentemente que os gabinetes deveriam estar encerrados, mas todo o hall de entrada, escadarias, e no primeiro andar o Salão Nobre deveriam ser acessíveis, neste dia, aos visitantes. É de muito mau gosto estar o palácio do paço encerrado numa festa religiosa tão importante para a cidade.

O QUE MOVE AS PESSOAS?

 Para quem não é tocado, como eu, pela graça da fé, não deixa de se sentir impressionado com tamanha manifestação de religiosidade. Não vou analisar –quem sou eu para fazer isso?- o assombro do “re ligar”, ou seja, o que tanto, enquanto humanos, nos une e empurra para o acreditar em prodígios superiores, alguém, que nos transcende enquanto pessoas imperfeitas e finitas. Sabe-se que esta necessidade é antropológica, isto é, é imanente à condição e ao estudo do homem e à humanidade em geral. O homem crê porque é um ser inacabado, cheio de defeitos e, mais, contrariamente aos outros animais, toma consciência das suas incompletudes e, embora não quando, sabe que vai morrer. E a morte, enquanto fim para uns, recomeço de uma nova vida para outros, com toda a sua incompreensível finitude de um ciclo natural, que traz medos não compreendidos, acaba por ser fundamental para os fenómenos da religião.
Neste acreditar em algo que o transcende, e no fundo não entende, está a virtude do dogma. Entre a entidade religiosa suprema, eleita, em que se acredita, há um cordão umbilical de esperança a religá-los. Por isso mesmo, em silogismo, se todos somos seres de esperança, poderemos afirmar que todo o homem, quer se julgue ateu o agnóstico, é intrinsecamente um ser de religiosidade. Toda a pessoa carrega nessa expectativa de um futuro melhor um espírito de luz que lhe confere uma “santidade” inclusiva entre os seus pares –uns mais outros menos.
Bem sei que pode até parecer paradoxal eu escrever isto quando me afirmo agnóstico.


UMA FEIRA TRADICIONAL EM IMAGENS


UM EXEMPLO DO PAÍS VIZINHO PARA PENSAR...

sábado, 7 de julho de 2012

UMA FEIRA TRADICIONAL MOLHADA



 Conforme o protocolo estabelecido previamente e anunciado ao público, cerca das 10h30, na Praça do Comércio, estava tudo pronto para a inauguração da “Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais” a decorrer hoje e amanhã naquele recinto histórico. As “barraquinhas” estandardizadas, com grande apresentação e até com estore para o encerramento logo à noite, mostravam-se todas preenchidas e bem inseridas na paisagem. Tal como no ano transacto, Barbosa de Melo, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, esta que apoia este certame, acompanhado com a esposa, a dar um toque de sublime diferença em relação ao seu antecessor Encarnação, não iria tardar. Havia um senão que estava a estragar aquilo tudo: a chuva. Um homem, aparentemente ansioso, andava para trás e para a frente de telemóvel ao ouvido: Carlos Clemente. Pelo gesticular, dava impressão que ralhava com São Pedro. Como eu estava longe, não deu bem para perceber, mas, como conheço bem o presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, até consegui adivinhar o que ia para ali, naquele diálogo a uma só voz. De certeza que o pobre santo estava a levar a maior "seca" dos últimos tempos, uma grande rabecada assim do género: “ó pá!, mas que é isto? Estás feito com a oposição, é? Pára lá com esta “remelisse” de “molha-tolos”, porra! Isto é uma injustiça, estás a ouvir? Ainda ontem esteve um dia de verão e hoje está a chover? Isto aqui anda mãozinha dos meus inimigos, só pode! Acaba lá com esta merdice de chuva que nem é chuva nem é vento e que só molha os jumentos! Estou à espera do Barbosa e da esposa. Queria tanto uma fotografia em grande plano, para aparecer amanhã no Diário de Coimbra! Estás a estragar os meus planos, carago! Isto não está certo! Agora escolhe, ou páras mesmo com esta coisa ou, então, na próxima Assembleia Municipal vou denunciar-te como inimigo da Baixa e a favor das grandes superfícies. Vai-te lixar, pá!, mais a tua insensibilidade! Homessa, sabes bem que isto até está bonito! E mais ainda, estás burro de saber que eu e a minha junta não podemos fazer mais por esta zona velha. É ou não é?”
A verdade é que aquela maldita chuva parecia mesmo ter sido encomendada pelos gajos que não topam o Clemente. Veio então o presidente da edilidade e mais uma vasta comitiva e o raio da “morrice” não dava tréguas. Enquanto Barbosa de Melo aproveitava para apertar a mão a um expositor –como se com este gesto quisesse dizer, “não esqueça que eu sou muito humano e tolerante, muito mais do que o outro, que nunca vinha até aqui inaugurar uma festa”- o presidenta da junta olhava o céu, às vezes, com ar de ameaça, como se quisesse dizer: “ ou me fazes a vontade ou estás lixado comigo! Se não parares com esta maldita chuva, podes ter a certeza que para o ano não faço as fogueiras em tua honra no Largo do Romal”.
Ninguém se apercebia de que naquela praça velha, onde na Idade Média se teriam queimado fariseus e outros vendilhões e no Renascimento, na Inquisição, se chicotearam cristãos-novos por muito menos, estava a haver um brutal braço-de-ferro entre o “senhor das festas terrenas da Baixa” e o administrador de todas as águas do Universo. Quem iria ceder? Clemente não era de certeza! Parecia-me, não sei!
E então não é que passado pouco mais de uma hora a chuva parou mesmo? À hora do almoço, sentado ao lado da esposa de Barbosa de Melo e acompanhado pelo deputado Rui Duarte, assim de peito cheio –como sabia, que eu sabia, do seu saber, acerca das ameaças ao santo sofredor- ainda me atirou, assim como a querer mostrar-me a sua força incomensurável, assim meio a gozar: “olhe lá, ó Luís, acha que vai chover mais?” –claro que ele sabia muito bem que não iria chover mais porque o São Pedro, imagino, ficou completamente “borradinho” de medo das suas intimações.
A verdade é que a Baixa, hoje e amanhã, está e vai estar muito bonita e engalanada. Durante a hora do almoço, de hoje, as várias agremiações da cidade não tiveram mãos a medir a venderem os seus petiscos pantagruélicos, tal como “sopa da pedra” e “chanfana”. Até a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, tem lá um stande a vender uns pastelinhos “crúzios”, de Tentúgal e outros tantos.
Por entre os visitantes e os trabalhadores –como o Jorge Neves que também deu uma perninha- que de uma forma histórica se dedicam de corpo e alma a estas causas, o nosso embaixador para as questões culturais da Baixa e consultor da Unesco, “Carlitos popó”, media tudo ao pormenor. Pelos vistos, como não se me queixou, é mais que certo que estava tudo bem.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

LEIA O DESPERTAR...



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA


Para além da coluna "Na morte lava-se a alma", deixo também os meus textos "Reflexão: a lei do desejo", "Uma artista na nossa rua: a Abadessa" e  "Rostos nossos (des)conhecidos: o "Paixão"".



NA MORTE LAVA-SE A ALMA

 Há um ano, na data de 26 de junho, faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós por “Aspirante” –o Luís tinha 40 anos quando num estúpido acidente adormeceu na berma do Mondego e, segundo o pai Max, veio a cair no rio. Era tratado pela alcunha de “Aspirante” precisamente porque fora a patente que tivera enquanto cumprira o serviço Militar. Enquanto decorria o tempo de tropa viera a sofrer um grave desastre, em que faleceu um seu amigo. Pelos danos causados, nunca mais recuperaria o senso. Durante muitos anos vagueou pela cidade. Aparentemente, não desencadeava exteriorizações de extraordinário afeto. Parecia ser apenas mais um personagem que deambulava pelas ruas estreitas e largas do casco urbano de uma cidade velha.
Quando, nessa altura, escrevi a crónica a anunciar o seu precoce desaparecimento, para além de ter recebido mais de uma vintena de comentários dolorosos e a lamentar a sua morte, só nesse dia tive 8438 visitas aos textos que reportavam a sua passagem entre nós –a média diária de visitantes assinalados anda por volta de 500.
Há dias escrevi sobre a morte súbita do Adelino Paixão, noticiada pelo jornal Diário as Beiras -o Paixão, tal como o Luís Miguel, era mais uma figura típica da Baixa que, também na aparência, poucos lhe ligavam. Nesse dia, abruptamente, o blogue disparou também o contador de visitas.
Depois desta longa introdução, penso que dá para ver onde quero chegar. O que pode explicar que durante a vida errante destas pessoas, durante muitos anos, enquanto circularam por entre nós, nunca lhes tivessem ligado muito, nem dado qualquer importância, e depois, subitamente, quando colocados perante o seu nefasto sumiço, reagem com redobrado pesar e dor?
Se respondermos sem pensar, assim no óbvio, estou certo que retorquimos com uma palavra: hipocrisia. Porém, a meu ver, esta manifestação de luto é muito mais profunda e estranhamente é mesmo sentida como um corte na alma de cada um. Vou tentar explicar, desbravando o que está por detrás deste comportamento.
Começaria por interrogar: o que são estas pessoas numa cidade? Carlos do Carmo, em fado versejado e musicado, chamou-lhes “loucos na cidade”. Há cerca de 30 anos li uma tese de um advogado francês –que já não recordo o nome- em que defendia que estes indivíduos, diferentes da maioria, talqualmente como a pequena delinquência, eram um quebrar da rotina nas urbes e, na sua ação pragmática, ainda que, por vezes, negativa, impediam que, em mimética estandardizada, fosse tudo igual. Imaginemos e transportemo-nos para um agregado onde não se ouve um barulho, uma imprecação, onde tudo é previsível, onde a paz social é uma constante, um lugar paradisíaco, será que conseguiríamos viver num lugar assim? Penso que não. O homem é um ser social/associal, tanto precisa de estar acompanhado como só. É capaz das maiores demonstrações de carinho, de solidariedade e bondade. No entanto este mesmo homem, a qualquer momento, é capaz de virar homicida e assassinar sem mácula na consciência. Se for em guerra, com a desculpa de estado de necessidade, mata dezenas, centenas, milhares de humanos. É portanto, em sincronismo, um ser pacífico e conflituoso. Isto para dizer que, para além de todos sermos bipolares, temos absoluta necessidade de exteriorizar os dois sentimentos que transportamos dentro de nós como instintos inseparáveis.
Então, chegados aqui, já poderemos ver que embora todos defendamos a paz social como objeto, diariamente, no relacionamento com os outros, fomentamos a antipatia, a desconfiança e a animosidade permanentemente. Isto é, o desejo de pacificação não é mais do que uma utopia. Por outro lado a ordem que todos parecemos obsessivamente buscar quando a alcançamos pode já ser o caos –isto tem já a ver com a dinâmica social e o perfeccionismo que nos consome.
E então, interroga-se, o que tem estes dislates que escrevi atrás a ver com os dois comportamentos antagónicos –desprezo em vida e carinho na morte- perante um óbito? Que pode não acontecer somente com um vagabundo da rua como também com alguém relativamente chegado.
Um falecimento desencadeia sempre em nós várias sensações desencontradas. Lembra-nos, por exemplo, que somos finitos, que a nossa vida é efémera e que a qualquer momento podemos perecer –este pressentimento torna-se mais latente tanto quanto mais velhos estivermos e próximos do fim. Mas, acima de tudo, na generalidade, acende a luz do perdão, da caridade, e extingue ódios recalcados. É como se aquela imagem da morte de outrem nos viesse recordar que somos todos pecadores. Seres frágeis e fracos, e que, um dia, não se sabe quando, iremos também precisar daquela absolvição. Digamos que, no nosso viver compulsivo, o desaparecimento de alguém, subitamente, do nosso conhecimento, toma assim no quotidiano o efeito de choque de um objeto arremessado na nossa cabeça.
Por outro lado, em relação ao desaparecimento destas pessoas invulgares -chamemos-lhe dementes- que nos cruzamos na rua mas que, provavelmente, nunca trocámos uma palavra ou um sorriso mas que, inconscientemente, passámos a admirá-los, para além do sentimento de perda, solta também várias intuições diferenciadas. Enquanto vivos, transeuntes na cidade, olhamos para eles como o outro lado do espelho, o reverso de nós, a nossa alma despida. Ao mirá-los, naquele estado decrépito, é como se fizéssemos comparação entre o que somos e o que poderíamos ser. Vemo-los como a materialização dos nossos medos. E ao constatar que somos diferentes para melhor recebemos uma mensagem de bem-estar instantaneamente. É como se ao apreciarmos uma pessoa assim nos obrigasse a um balanço imediato, mas também passível de ser emergente num futuro próximo, e esta impressão, pela dureza da imagem viva, ativa a nossa defensiva e alerta-nos para um hipotético perigo. Esta ilação, em projeção, pode continuar até ao desaparecimento físico da pessoa fixada pelo nosso olhar. Nesta altura, quando perdemos esta visualização, haverá um sentimento de culpa que se liberta em pena e dor materializada na disponibilidade em fazer o que for preciso para colmatar o que não foi feito anteriormente. Como se, em cada um de nós, houvesse uma implícita e absoluta necessidade de expiação de culpa pelo lapso. Poderemos pensar que haverá nesta manifestação um descarregar, um lavar da alma, por, durante anos e anos, nunca lhe darmos qualquer importância significante.


 
(IMAGEM DA WEB)

REFLEXÃO: A LEI DO DESEJO

 A semana passada a cidade foi surpreendida por uma morte bárbara ocorrida numa rua da Baixa. A vítima tinha apenas 41 anos e ocorreu, segundo se consta, num cenário de droga e prostituição. Não é preciso dizer que o aumento do crime é contrariamente proporcional ao estado das Finanças Públicas. O primeiro sobe vertiginosamente quando as segundas descem. Mas acontece que, independentemente da crise que nos assola, a recorrência às drogas e à prostituição nunca pararam de aumentar, o que me leva a pensar que é preciso colocar em prática novos modelos de sociedade. Se é certo que as duas práticas, o consumo de droga e a prostituição, nas últimas décadas, já foram despenalizadas e sofreram grandes alterações, a verdade é que, em face dos resultados, não foi o suficiente. Somos um povo conservador e agarrado a certos costumes morais que damos como inatacáveis. Apenas encaramos a repressão como única via possível à lei do desejo e ao pensar assim estamos a condicionar os políticos para experienciarem novos paradigmas.


UMA ARTISTA NA NOSSA RUA: A ABADESSA


 Quantos de nós já a ouvimos, e vimos, a tocar extraordinariamente bem concertina nas ruas largas, de Visconde da Luz e Ferreira Borges? Quantos de nós, nessa altura, não demos conta de que comentávamos com nossos botões: “é pá!, esta miúda tem talento! Toca bem que se farta!”. É a Cláudia Alves -sem pretender ofendê-la, vou batizá-la de “Abadessa”, pelas suas permanentes saias compridas e parecenças com uma mulher da Idade Média-, é estudante de jornalismo e, naturalmente como todos nós, precisa de trabalhar para fazer face às despesas porque a vida não está fácil para ninguém e muito menos para estudante. Aprendeu há cerca de um ano, sozinha, a tocar concertina. Como gosta tanto de música, e sobretudo do instrumento a que se dedicou, evoluiu rapidamente e agora até já faz parte do conjunto “Urtigas”, um outro grupo de foles que, para nosso contentamento, também costuma estar a tocar junto ao Arco de Almedina. Posso dizer que, tal como a Cláudia a solo, esta associação de músicos é um encanto para os nossos sentidos poder apreciar as suas composições –e tanto quanto sei, um  dia destes vão gravar um cd de originais.
Voltando à Cláudia, ainda bem que, com a sua sublime música, alegra os nossos corações. Felizmente que as nossas ruas, graças a pessoas como ela, e tantos outros de que vou falando aqui, continuam a ser “enfeitadas” com estas melodias que nos entram diretamente na alma. Gostava só de chamar a atenção de que é preciso mostrar apreço por estes artistas ao alcance do nosso olhar. Se puder, dê-lhes um pequeno contributo monetário e, já agora, sorria, sorria para eles. É importante mostrar-lhes o quanto lhes estamos gratos por, sem ordenado contratualizado, trabalharem para todos nós.



ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS

“O PAIXÃO”


 Quando comecei esta nova rubrica há umas semanas, em que mostro o rosto de muitas figuras típicas que nos fazem companhia, no dia-a-dia, na Baixa da cidade e dando-lhes nome, um dos que iria retratar obrigatoriamente seria o Adelino Paixão. Infelizmente, quis o destino que ele já não pudesse ver. De qualquer modo, em jeito de homenagem póstuma, porque todo o homem tem direito ao seu minuto de fama nem que seja pelo seu desaparecimento, aqui fica a lembrança de alguém que, embora vagueasse por estas ruelas acompanhado, morreu sozinho -como só aos pobres, como castigo de desventura, acontece assim.

UM HOMEM AVANÇA E RECUA

(IMAGEM DA WEB)

 Hoje tive um inesperado encontro numa rua da Baixa da cidade. Passei por ela e não liguei. De repente, deu-me um baque. Aquela mulher, já velhinha, que acabou de passar por mim, era nem mais nem menos do que a Maria –evidentemente que este nome por mim utilizado é truncado. Senti uma necessidade enorme de a cumprimentar e voltei atrás ao seu encontro. Pareceu não me reconhecer. É certo que também não entrei em grandes pormenores, mas, aparentemente, gostou muito de me ver e agradeceu imenso o facto de, propositadamente, a ir saudar. Esta mulher, há mais de quarenta anos, foi muito importante na minha vida. Talvez ela, mesmo, se acaso lembrasse, nem imaginasse o quanto foi uma pedra de toque na minha adolescência. Bem sei que você estará a arder de curiosidade sobre o que teria acontecido, mas como sou um pouco sádico, vai desculpar, mas vai ter mesmo de esperar. Só lá para o fim do texto desvendarei o que aconteceu assim de tão marcante para eu nunca me esquecer.
No meu entender de “sociólogo” e “psicólogo” formado pela universidade empírica, o Homem, em sentido literal, tem várias fases ao longo da sua vida. Diria que a primeira, a infância, até aos 12 anos de idade, é a de longe aquela que estará sempre presente no nosso inconsciente, quer pelos momentos marcantes, de alegria ou tristeza, que nos ficariam para sempre assinalados na mente. Curiosamente, será pelos traumas mais profundos –que poderá ser provocado por uma separação de alguém que se gosta muito, avô, avó, ou violência física ou psicológica que ficarão marcados em dor lancinante de sangue na alma para toda a vida-, que nos tornará mais sensíveis, ou até sensitivos, à arte e a tudo o que nos rodeia e fará de nós escritores, poetas, pintores, artistas de uma maneira geral.
Embora todas as outras etapas posteriores sejam importantes, no sentido lato de que o sujeito aprende, molda e aperfeiçoará o carácter durante toda a sua existência, é aqui, com esta vivência da puberdade, que se formará a sua intrínseca personalidade. Digamos que será aqui que se constituirá a coluna vertebral da individualidade.
O segundo estádio irá dos 12 até aos 20 anos. Será a fase da afirmação, em que tudo e todos, numa mimética continuada, procuramos copiar o melhor e o pior.
O terceiro irá dos 20 até aos 50 –embora aos quarenta se note uma queda abrupta no caminho, assim como se descêssemos umas escadas e, de repente, nos faltassem os degraus e nos estatelássemos ao comprido. É neste ciclo de vida que, talvez pelo casamento e pela vinda dos filhos –evidentemente que refiro um tempo que passou quase de moda-, o homem se torna obreiro, apenas preocupado em mudar o mundo, construir o futuro, e, aparentemente, fixado apenas no objectivo de vencer a qualquer custo. Passará por cima de tudo e todos, atendendo para si mesmo que se encontra em estado de necessidade, como se em guerra estivesse consigo e com todos à sua volta, e não olhará para a terra onde coloca os pés.
 E vem a quarta etapa, e última, que começa por volta do meio século. A partir desta altura o homem apercebe-se que carrega consigo um saco incomensurável de memórias que lhe pesam assustadoramente. Não sabe muito bem o que fazer a tantas recordações. Sabe apenas que, de um momento para o outro, passou a lembrar melhor o que aconteceu há quatro décadas do que no ano transacto. Sendo incompreensível para si, nota que há um sentimento misturado entre o prazer da vitória, por ter alcançado feitos, e o sofrimento da derrota por, pelos caminhos que pisou e passou, em muitos casos, ter deixado angústia e dor –sobretudo a tentar entender a razão de tanto se ter esforçado para dar um bom futuro à família e não ter valido a pena tanta transpiração. Ou por não ser reconhecido por esta no seu empenho ou a conjuntura económica se encarregar de deitar abaixo tantos sonhos idealizados e materializados nos bens conquistados a pulso e agora em vias de se esfumarem.
Então o resto, no tempo que lhe sobra de vida, porque se tornará mais sábio, irá fazer a desconstrução dessas imagens gravadas a fogo tentando, a todo o custo, entender porque foi assim e, ao mesmo tempo, conseguir explicação e dar-lhe forma existencial. Haverá, provavelmente, uma catarse, um encontro consigo mesmo numa purificação psicanalítica. Um desmistificar, um dissecar do “cogito logo existo”. Este homem não tem dúvidas de que pensa e existe, mas porque existe? Que razão estará na origem da sua existência? Porque veio ao mundo? O que veio fazer? Veio por acaso ou traria uma finalidade traçada, um Karma ou destino previamente escrito?
E então, à procura de sinais justificativos que o esclareçam, este sujeito no epílogo da sua passagem terrena, deixando de visionar a riqueza como objecto master e colocando de lado a ambição, passará a olhar permanentemente para trás. Atente-se que dará por si, facilmente, a lacrimejar perante uma memória que num lapso lhe saltou aos olhos
Dando resposta ao início do texto, aquela velhinha que passei hoje, a Maria, foi a mulher que, teria eu cerca de 13/14 anos, me iniciou e ensinou tudo no campo sexual. Pode ler aqui a história. Foi ela que, com vinte anos a mais em relação à minha idade, durante algumas noites, gratuitamente, me fez homem. Num tempo em que apenas se fala da pedofilia, poucos se lembram que, às vezes, entre um adolescente e um adulto pode haver muito mais do que parece. Talvez valha a pena, nem que seja por um minuto, pensar nisto.