domingo, 8 de julho de 2012
A PROCISSÃO DA RAINHA SANTA (1)
Durante várias horas, sobre um sol
abrasador e muitos graus celsius –às 18h00 estavam 25º-, a Praça 8 de Maio,
esteve literalmente atapetada de largas centenas, senão mais de um milhar, de pessoas
para verem sair da igreja de Santa Cruz o andor da Rainha Santa, em direcção ao
Convento de Santa Clara.
Com um padre a organizar o
cortejo através de um microfone, cerca das 18h15, iniciou-se o aprontar do
cortejo. Começou pela magnífica, senão extraordinária, banda de música de Lorvão,
seguindo-se-lhe outros agrupamentos musicais e várias entidades representadas
na manifestação religiosa mais importante da cidade e que, como se sabe, ocorre
de dois em dois anos.
Às 18h35 o andor, suportado por uma dúzia de homens e tendo em cima a imagem criada por Teixeira Lopes, em proporção
humana, da Santa Isabel de Aragão, abeirou-se das portas do frontispício do
Panteão Nacional. Imediatamente, como regido por um maestro invisível, todo
aquele povo presente começou a bater palmas. Foi impressionante este momento de
devoção e respeito pela representação da mulher, casada com Dom Dinis, em 1282,
então com 12 anos de idade e que morreu em Estremoz a 4 de julho de 1336. Ficaria
célebre por ter sido uma rainha muito piedosa e, sobretudo, pelo suposto
milagre de transformar o pão destinado aos pobres em rosas. Seria primeiro beatificada
em 1516 e posteriormente canonizada durante a nossa ocupação espanhola,
Filipina, em 1625.
E A AUTARQUIA, SENHORA?
A Câmara Municipal de Coimbra, este
ano, ostenta na sua fachada um enorme painel alegórico às festas da cidade em
honra da Rainha Santa e que tapa completamente uma ala do edifício. Não vou
discutir se é ou não de bom gosto e muito menos se, em tempos de austeridade,
justificará um custo supérfluo apenas para aparecer durante uma semana e bianualmente.
O que creio fazer sentido neste dia, porque é domingo e a procissão sai a meio
da tarde, seria a autarquia estar aberta de portas e janelas ao público.
Evidentemente que os gabinetes deveriam estar encerrados, mas todo o hall de
entrada, escadarias, e no primeiro andar o Salão Nobre deveriam ser acessíveis,
neste dia, aos visitantes. É de muito mau gosto estar o palácio do paço
encerrado numa festa religiosa tão importante para a cidade.
O QUE MOVE AS PESSOAS?
Para quem não é tocado, como eu,
pela graça da fé, não deixa de se sentir impressionado com tamanha manifestação
de religiosidade. Não vou analisar –quem sou eu para fazer isso?- o assombro do
“re ligar”, ou seja, o que tanto, enquanto humanos, nos une e empurra para o
acreditar em prodígios superiores, alguém, que nos transcende enquanto pessoas
imperfeitas e finitas. Sabe-se que esta necessidade é antropológica, isto é, é
imanente à condição e ao estudo do homem e à humanidade em geral. O homem crê porque
é um ser inacabado, cheio de defeitos e, mais, contrariamente aos outros
animais, toma consciência das suas incompletudes e, embora não quando, sabe que
vai morrer. E a morte, enquanto fim para uns, recomeço de uma nova vida para
outros, com toda a sua incompreensível finitude de um ciclo natural, que traz
medos não compreendidos, acaba por ser fundamental para os fenómenos da
religião.
Neste acreditar em algo que o transcende,
e no fundo não entende, está a virtude do dogma. Entre a entidade religiosa
suprema, eleita, em que se acredita, há um cordão umbilical de esperança a religá-los.
Por isso mesmo, em silogismo, se todos somos seres de esperança, poderemos afirmar
que todo o homem, quer se julgue ateu o agnóstico, é intrinsecamente um ser de
religiosidade. Toda a pessoa carrega nessa expectativa de um futuro melhor um
espírito de luz que lhe confere uma “santidade” inclusiva entre os seus pares –uns
mais outros menos.
Bem sei que pode até parecer
paradoxal eu escrever isto quando me afirmo agnóstico.
sábado, 7 de julho de 2012
UMA FEIRA TRADICIONAL MOLHADA
Conforme o protocolo estabelecido
previamente e anunciado ao público, cerca das 10h30, na Praça do Comércio,
estava tudo pronto para a inauguração da “Feira de Artesanato e Sabores
Tradicionais” a decorrer hoje e amanhã naquele recinto histórico. As “barraquinhas”
estandardizadas, com grande apresentação e até com estore para o encerramento
logo à noite, mostravam-se todas preenchidas e bem inseridas na paisagem. Tal
como no ano transacto, Barbosa de Melo, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra,
esta que apoia este certame, acompanhado com a esposa, a dar um toque de
sublime diferença em relação ao seu antecessor Encarnação, não iria tardar.
Havia um senão que estava a estragar aquilo tudo: a chuva. Um homem,
aparentemente ansioso, andava para trás e para a frente de telemóvel ao ouvido:
Carlos Clemente. Pelo gesticular, dava impressão que ralhava com São Pedro. Como
eu estava longe, não deu bem para perceber, mas, como conheço bem o presidente
da Junta de Freguesia de São Bartolomeu, até consegui adivinhar o que ia para
ali, naquele diálogo a uma só voz. De certeza que o pobre santo estava a levar a maior "seca" dos últimos tempos, uma grande rabecada assim do género: “ó pá!, mas que é
isto? Estás feito com a oposição, é? Pára lá com esta “remelisse” de “molha-tolos”,
porra! Isto é uma injustiça, estás a ouvir? Ainda ontem esteve um dia de verão
e hoje está a chover? Isto aqui anda mãozinha dos meus inimigos, só pode! Acaba
lá com esta merdice de chuva que nem é chuva nem é vento e que só molha os
jumentos! Estou à espera do Barbosa e da esposa. Queria tanto uma fotografia em
grande plano, para aparecer amanhã no Diário de Coimbra! Estás a estragar os
meus planos, carago! Isto não está certo! Agora escolhe, ou páras mesmo com esta
coisa ou, então, na próxima Assembleia Municipal vou denunciar-te como inimigo
da Baixa e a favor das grandes superfícies. Vai-te lixar, pá!, mais a tua
insensibilidade! Homessa, sabes bem que isto até está bonito! E mais ainda, estás
burro de saber que eu e a minha junta não podemos fazer mais por esta zona
velha. É ou não é?”
A verdade é que aquela maldita
chuva parecia mesmo ter sido encomendada pelos gajos que não topam o Clemente.
Veio então o presidente da edilidade e mais uma vasta comitiva e o raio da “morrice”
não dava tréguas. Enquanto Barbosa de Melo aproveitava para apertar a mão a um expositor
–como se com este gesto quisesse dizer, “não esqueça que eu sou muito humano e
tolerante, muito mais do que o outro, que nunca vinha até aqui inaugurar uma
festa”- o presidenta da junta olhava o céu, às vezes, com ar de ameaça, como se
quisesse dizer: “ ou me fazes a vontade ou estás lixado comigo! Se não parares
com esta maldita chuva, podes ter a certeza que para o ano não faço as
fogueiras em tua honra no Largo do Romal”.
Ninguém se apercebia de que
naquela praça velha, onde na Idade Média se teriam queimado fariseus e outros
vendilhões e no Renascimento, na Inquisição, se chicotearam cristãos-novos por
muito menos, estava a haver um brutal braço-de-ferro entre o “senhor das festas
terrenas da Baixa” e o administrador de todas as águas do Universo. Quem iria
ceder? Clemente não era de certeza! Parecia-me, não sei!
E então não é que passado pouco
mais de uma hora a chuva parou mesmo? À hora do almoço, sentado ao lado da esposa
de Barbosa de Melo e acompanhado pelo deputado Rui Duarte, assim de peito cheio
–como sabia, que eu sabia, do seu saber, acerca das ameaças ao santo sofredor-
ainda me atirou, assim como a querer mostrar-me a sua força incomensurável,
assim meio a gozar: “olhe lá, ó Luís, acha que vai chover mais?” –claro que ele
sabia muito bem que não iria chover mais porque o São Pedro, imagino, ficou
completamente “borradinho” de medo das suas intimações.
A verdade é que a Baixa, hoje e
amanhã, está e vai estar muito bonita e engalanada. Durante a hora do almoço, de
hoje, as várias agremiações da cidade não tiveram mãos a medir a venderem os
seus petiscos pantagruélicos, tal como “sopa da pedra” e “chanfana”. Até a APBC,
Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, tem lá um stande a vender uns
pastelinhos “crúzios”, de Tentúgal e outros tantos.
Por entre os visitantes e os trabalhadores
–como o Jorge Neves que também deu uma perninha- que de uma forma histórica se
dedicam de corpo e alma a estas causas, o nosso embaixador para as questões
culturais da Baixa e consultor da Unesco, “Carlitos popó”, media tudo ao
pormenor. Pelos vistos, como não se me queixou, é mais que certo que estava
tudo bem.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
LEIA O DESPERTAR...
Para além da coluna "Na morte lava-se a alma", deixo também os meus textos "Reflexão: a lei do desejo", "Uma artista na nossa rua: a Abadessa" e "Rostos nossos (des)conhecidos: o "Paixão"".
NA MORTE LAVA-SE A ALMA
Há um ano, na data de 26 de junho,
faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós por “Aspirante” –o Luís tinha
40 anos quando num estúpido acidente adormeceu na berma do Mondego e, segundo o
pai Max, veio a cair no rio. Era tratado pela alcunha de “Aspirante”
precisamente porque fora a patente que tivera enquanto cumprira o serviço
Militar. Enquanto decorria o tempo de tropa viera a sofrer um grave desastre,
em que faleceu um seu amigo. Pelos danos causados, nunca mais recuperaria o
senso. Durante muitos anos vagueou pela cidade. Aparentemente, não desencadeava
exteriorizações de extraordinário afeto. Parecia ser apenas mais um personagem
que deambulava pelas ruas estreitas e largas do casco urbano de uma cidade
velha.
Quando, nessa altura, escrevi a
crónica a anunciar o seu precoce desaparecimento, para além de ter recebido
mais de uma vintena de comentários dolorosos e a lamentar a sua morte, só nesse
dia tive 8438 visitas aos textos que reportavam a sua passagem entre nós –a
média diária de visitantes assinalados anda por volta de 500.
Há dias escrevi sobre a morte
súbita do Adelino Paixão, noticiada pelo jornal Diário as Beiras -o Paixão, tal
como o Luís Miguel, era mais uma figura típica da Baixa que, também na
aparência, poucos lhe ligavam. Nesse dia, abruptamente, o blogue disparou
também o contador de visitas.
Depois desta longa introdução,
penso que dá para ver onde quero chegar. O que pode explicar que durante a vida
errante destas pessoas, durante muitos anos, enquanto circularam por entre nós,
nunca lhes tivessem ligado muito, nem dado qualquer importância, e depois,
subitamente, quando colocados perante o seu nefasto sumiço, reagem com
redobrado pesar e dor?
Se respondermos sem pensar, assim
no óbvio, estou certo que retorquimos com uma palavra: hipocrisia. Porém, a meu
ver, esta manifestação de luto é muito mais profunda e estranhamente é mesmo
sentida como um corte na alma de cada um. Vou tentar explicar, desbravando o
que está por detrás deste comportamento.
Começaria por interrogar: o que
são estas pessoas numa cidade? Carlos do Carmo, em fado versejado e musicado,
chamou-lhes “loucos na cidade”. Há cerca de 30 anos li uma tese de um advogado
francês –que já não recordo o nome- em que defendia que estes indivíduos,
diferentes da maioria, talqualmente como a pequena delinquência, eram um
quebrar da rotina nas urbes e, na sua ação pragmática, ainda que, por vezes,
negativa, impediam que, em mimética estandardizada, fosse tudo igual.
Imaginemos e transportemo-nos para um agregado onde não se ouve um barulho, uma
imprecação, onde tudo é previsível, onde a paz social é uma constante, um lugar
paradisíaco, será que conseguiríamos viver num lugar assim? Penso que não. O
homem é um ser social/associal, tanto precisa de estar acompanhado como só. É
capaz das maiores demonstrações de carinho, de solidariedade e bondade. No
entanto este mesmo homem, a qualquer momento, é capaz de virar homicida e
assassinar sem mácula na consciência. Se for em guerra, com a desculpa de
estado de necessidade, mata dezenas, centenas, milhares de humanos. É portanto,
em sincronismo, um ser pacífico e conflituoso. Isto para dizer que, para além
de todos sermos bipolares, temos absoluta necessidade de exteriorizar os dois
sentimentos que transportamos dentro de nós como instintos inseparáveis.
Então, chegados aqui, já
poderemos ver que embora todos defendamos a paz social como objeto,
diariamente, no relacionamento com os outros, fomentamos a antipatia, a
desconfiança e a animosidade permanentemente. Isto é, o desejo de pacificação
não é mais do que uma utopia. Por outro lado a ordem que todos parecemos
obsessivamente buscar quando a alcançamos pode já ser o caos –isto tem já a ver
com a dinâmica social e o perfeccionismo que nos consome.
E então, interroga-se, o que tem
estes dislates que escrevi atrás a ver com os dois comportamentos antagónicos
–desprezo em vida e carinho na morte- perante um óbito? Que pode não acontecer
somente com um vagabundo da rua como também com alguém relativamente chegado.
Um falecimento desencadeia sempre
em nós várias sensações desencontradas. Lembra-nos, por exemplo, que somos finitos,
que a nossa vida é efémera e que a qualquer momento podemos perecer –este
pressentimento torna-se mais latente tanto quanto mais velhos estivermos e
próximos do fim. Mas, acima de tudo, na generalidade, acende a luz do perdão,
da caridade, e extingue ódios recalcados. É como se aquela imagem da morte de
outrem nos viesse recordar que somos todos pecadores. Seres frágeis e fracos, e
que, um dia, não se sabe quando, iremos também precisar daquela absolvição.
Digamos que, no nosso viver compulsivo, o desaparecimento de alguém, subitamente,
do nosso conhecimento, toma assim no quotidiano o efeito de choque de um objeto
arremessado na nossa cabeça.
Por outro lado, em relação ao
desaparecimento destas pessoas invulgares -chamemos-lhe dementes- que nos
cruzamos na rua mas que, provavelmente, nunca trocámos uma palavra ou um
sorriso mas que, inconscientemente, passámos a admirá-los, para além do
sentimento de perda, solta também várias intuições diferenciadas. Enquanto
vivos, transeuntes na cidade, olhamos para eles como o outro lado do espelho, o
reverso de nós, a nossa alma despida. Ao mirá-los, naquele estado decrépito, é
como se fizéssemos comparação entre o que somos e o que poderíamos ser.
Vemo-los como a materialização dos nossos medos. E ao constatar que somos
diferentes para melhor recebemos uma mensagem de bem-estar instantaneamente. É
como se ao apreciarmos uma pessoa assim nos obrigasse a um balanço imediato,
mas também passível de ser emergente num futuro próximo, e esta impressão, pela
dureza da imagem viva, ativa a nossa defensiva e alerta-nos para um hipotético
perigo. Esta ilação, em projeção, pode continuar até ao desaparecimento físico
da pessoa fixada pelo nosso olhar. Nesta altura, quando perdemos esta
visualização, haverá um sentimento de culpa que se liberta em pena e dor
materializada na disponibilidade em fazer o que for preciso para colmatar o que
não foi feito anteriormente. Como se, em cada um de nós, houvesse uma implícita
e absoluta necessidade de expiação de culpa pelo lapso. Poderemos pensar que
haverá nesta manifestação um descarregar, um lavar da alma, por, durante anos e
anos, nunca lhe darmos qualquer importância significante.

REFLEXÃO: A LEI DO DESEJO
A semana passada a cidade foi
surpreendida por uma morte bárbara ocorrida numa rua da Baixa. A vítima tinha
apenas 41 anos e ocorreu, segundo se consta, num cenário de droga e
prostituição. Não é preciso dizer que o aumento do crime é contrariamente
proporcional ao estado das Finanças Públicas. O primeiro sobe vertiginosamente
quando as segundas descem. Mas acontece que, independentemente da crise que nos
assola, a recorrência às drogas e à prostituição nunca pararam de aumentar, o
que me leva a pensar que é preciso colocar em prática novos modelos de
sociedade. Se é certo que as duas práticas, o consumo de droga e a
prostituição, nas últimas décadas, já foram despenalizadas e sofreram grandes
alterações, a verdade é que, em face dos resultados, não foi o suficiente.
Somos um povo conservador e agarrado a certos costumes morais que damos como
inatacáveis. Apenas encaramos a repressão como única via possível à lei do
desejo e ao pensar assim estamos a condicionar os políticos para experienciarem
novos paradigmas.
UMA ARTISTA NA NOSSA RUA: A ABADESSA
Quantos de nós já a ouvimos, e
vimos, a tocar extraordinariamente bem concertina nas ruas largas, de Visconde
da Luz e Ferreira Borges? Quantos de nós, nessa altura, não demos conta de que
comentávamos com nossos botões: “é pá!, esta miúda tem talento! Toca bem que se
farta!”. É a Cláudia Alves -sem pretender ofendê-la, vou batizá-la de
“Abadessa”, pelas suas permanentes saias compridas e parecenças com uma mulher
da Idade Média-, é estudante de jornalismo e, naturalmente como todos nós,
precisa de trabalhar para fazer face às despesas porque a vida não está fácil
para ninguém e muito menos para estudante. Aprendeu há cerca de um ano,
sozinha, a tocar concertina. Como gosta tanto de música, e sobretudo do
instrumento a que se dedicou, evoluiu rapidamente e agora até já faz parte do
conjunto “Urtigas”, um outro grupo de foles que, para nosso contentamento,
também costuma estar a tocar junto ao Arco de Almedina. Posso dizer que, tal
como a Cláudia a solo, esta associação de músicos é um encanto para os nossos
sentidos poder apreciar as suas composições –e tanto quanto sei, um dia destes vão gravar um cd de originais.
Voltando à Cláudia, ainda bem
que, com a sua sublime música, alegra os nossos corações. Felizmente que as
nossas ruas, graças a pessoas como ela, e tantos outros de que vou falando
aqui, continuam a ser “enfeitadas” com estas melodias que nos entram diretamente
na alma. Gostava só de chamar a atenção de que é preciso mostrar apreço por
estes artistas ao alcance do nosso olhar. Se puder, dê-lhes um pequeno contributo
monetário e, já agora, sorria, sorria para eles. É importante mostrar-lhes o
quanto lhes estamos gratos por, sem ordenado contratualizado, trabalharem para
todos nós.
ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS
“O PAIXÃO”
Quando comecei esta nova rubrica
há umas semanas, em que mostro o rosto de muitas figuras típicas que nos fazem
companhia, no dia-a-dia, na Baixa da cidade e dando-lhes nome, um dos que iria
retratar obrigatoriamente seria o Adelino Paixão. Infelizmente, quis o destino
que ele já não pudesse ver. De qualquer modo, em jeito de homenagem póstuma,
porque todo o homem tem direito ao seu minuto de fama nem que seja pelo seu
desaparecimento, aqui fica a lembrança de alguém que, embora vagueasse por
estas ruelas acompanhado, morreu sozinho -como só aos pobres, como castigo de
desventura, acontece assim.
UM HOMEM AVANÇA E RECUA
(IMAGEM DA WEB)
Hoje tive um inesperado encontro
numa rua da Baixa da cidade. Passei por ela e não liguei. De repente, deu-me um
baque. Aquela mulher, já velhinha, que acabou de passar por mim, era nem mais
nem menos do que a Maria –evidentemente que este nome por mim utilizado é
truncado. Senti uma necessidade enorme de a cumprimentar e voltei atrás ao seu
encontro. Pareceu não me reconhecer. É certo que também não entrei em grandes
pormenores, mas, aparentemente, gostou muito de me ver e agradeceu imenso o
facto de, propositadamente, a ir saudar. Esta mulher, há mais de quarenta anos, foi muito importante
na minha vida. Talvez ela, mesmo, se acaso lembrasse, nem imaginasse o quanto
foi uma pedra de toque na minha adolescência. Bem sei que você estará a arder
de curiosidade sobre o que teria acontecido, mas como sou um pouco sádico, vai
desculpar, mas vai ter mesmo de esperar. Só lá para o fim do texto desvendarei
o que aconteceu assim de tão marcante para eu nunca me esquecer.
No meu entender de “sociólogo” e “psicólogo”
formado pela universidade empírica, o Homem, em sentido literal, tem várias
fases ao longo da sua vida. Diria que a primeira, a infância, até aos 12 anos
de idade, é a de longe aquela que estará sempre presente no nosso inconsciente,
quer pelos momentos marcantes, de alegria ou tristeza, que nos ficariam para
sempre assinalados na mente. Curiosamente, será pelos traumas mais profundos –que
poderá ser provocado por uma separação de alguém que se gosta muito, avô, avó,
ou violência física ou psicológica que ficarão marcados em dor lancinante de sangue
na alma para toda a vida-, que nos tornará mais sensíveis, ou até sensitivos, à
arte e a tudo o que nos rodeia e fará de nós escritores, poetas, pintores,
artistas de uma maneira geral.
Embora todas as outras etapas
posteriores sejam importantes, no sentido lato de que o sujeito aprende, molda
e aperfeiçoará o carácter durante toda a sua existência, é aqui, com esta
vivência da puberdade, que se formará a sua intrínseca personalidade. Digamos
que será aqui que se constituirá a coluna vertebral da individualidade.
O segundo estádio irá dos 12 até
aos 20 anos. Será a fase da afirmação, em que tudo e todos, numa mimética
continuada, procuramos copiar o melhor e o pior.
O terceiro irá dos 20 até aos 50 –embora
aos quarenta se note uma queda abrupta no caminho, assim como se descêssemos
umas escadas e, de repente, nos faltassem os degraus e nos estatelássemos ao
comprido. É neste ciclo de vida que, talvez pelo casamento e pela vinda dos
filhos –evidentemente que refiro um tempo que passou quase de moda-, o homem se
torna obreiro, apenas preocupado em mudar o mundo, construir o futuro, e,
aparentemente, fixado apenas no objectivo de vencer a qualquer custo. Passará
por cima de tudo e todos, atendendo para si mesmo que se encontra em estado de
necessidade, como se em guerra estivesse consigo e com todos à sua volta, e não
olhará para a terra onde coloca os pés.
E vem a quarta etapa, e última, que começa por volta do meio século. A partir desta altura o homem apercebe-se que carrega consigo
um saco incomensurável de memórias que lhe pesam assustadoramente. Não sabe
muito bem o que fazer a tantas recordações. Sabe apenas que, de um momento para
o outro, passou a lembrar melhor o que aconteceu há quatro décadas do que no
ano transacto. Sendo incompreensível para si, nota que há um sentimento
misturado entre o prazer da vitória, por ter alcançado feitos, e o sofrimento
da derrota por, pelos caminhos que pisou e passou, em muitos casos, ter deixado
angústia e dor –sobretudo a tentar entender a razão de tanto se ter esforçado
para dar um bom futuro à família e não ter valido a pena tanta transpiração. Ou
por não ser reconhecido por esta no seu empenho ou a conjuntura económica se
encarregar de deitar abaixo tantos sonhos idealizados e materializados nos bens
conquistados a pulso e agora em vias de se esfumarem.
Então o resto, no tempo que lhe
sobra de vida, porque se tornará mais sábio, irá fazer a desconstrução dessas imagens gravadas a fogo tentando, a todo o custo, entender porque foi assim e, ao mesmo
tempo, conseguir explicação e dar-lhe forma existencial. Haverá, provavelmente,
uma catarse, um encontro consigo mesmo numa purificação psicanalítica. Um
desmistificar, um dissecar do “cogito logo existo”. Este homem não tem dúvidas
de que pensa e existe, mas porque existe? Que razão estará na origem da sua
existência? Porque veio ao mundo? O que veio fazer? Veio por acaso ou traria
uma finalidade traçada, um Karma ou destino previamente escrito?
E então, à procura de sinais
justificativos que o esclareçam, este sujeito no epílogo da sua passagem
terrena, deixando de visionar a riqueza como objecto master e colocando de lado a
ambição, passará a olhar permanentemente para trás. Atente-se que dará por si,
facilmente, a lacrimejar perante uma memória que num lapso lhe saltou aos olhos
Dando resposta ao início do
texto, aquela velhinha que passei hoje, a Maria, foi a mulher que, teria eu
cerca de 13/14 anos, me iniciou e ensinou tudo no campo sexual. Pode ler aqui a história.
Foi ela que, com vinte anos a mais em relação à minha idade, durante algumas
noites, gratuitamente, me fez homem. Num tempo em que apenas se fala da
pedofilia, poucos se lembram que, às vezes, entre um adolescente e um adulto
pode haver muito mais do que parece. Talvez valha a pena, nem que seja por um
minuto, pensar nisto.
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