terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AS MULHERES DE COIMBRA

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)




 Eu gosto de Coimbra. Tenho com ela uma relação conflituosa de amor-ódio. Critico-a, critico-a, chego a odiá-la, mas não posso viver sem ela. É assim uma espécie de casamento de conveniência. Ela dá-me segurança financeira, eu, em troca, dou-lhe carinho, ou “pancada” com amor, quando calha. Sim, “casamento”, disse bem, porque ela, sendo feminina, podia perfeitamente ser mulher. E se o fosse seria certamente uma prostituta de luxo. Basta lembrar as intensas misturas da sua intimidade em relações afectivas que meio Portugal já teve com ela. Hoje saudosista e entradota na idade, mas ainda cheia de vigor e com muito amor para dar. Sempre foi muito melancólica, com um choradinho meloso, muito trinado no seu fado. Sempre foi muito promíscua e devassa. Basta ver que nos postais ilustrados aparece sempre com três homens: um a soletrar-lhe versos de amor e dois com o instrumento na mão (uma viola e uma guitarra). 
Depois, de uma forma provocadora, não pára de falar na tradição –que tradição?, de “menage-à-trois”?-, e, mesmo sabendo que o seu tempo passou, continua a dizer que é uma lição –lição?! Lição em quê? É só aparência, para inglês ver. É profundamente conservadora. Embirro com ela por dizer continuamente “que é dos doutores”. É dos doutores porquê? Será que estes no leito têm melhor prestação e são melhores que o futrica? Embirro com isto, pronto! É pura discriminação. 
O raio da velha, tipo Lili Caneças, continua a armar-se em boa, como se com a sua provecta idade, já avozinha, pudesse escolher com quer ir para a cama. Depois, quando está inspirada, com veia poética, fala do Choupal até à Lapa. Deixa-me rir! O Choupal já foi. Actualmente não passa de um conjunto de árvores velhas, tipo Amazónia, pouco virgem e violado por milhares. E a Lapa, como eira em decadência, sem milho, sem malho, nem cereais para secagem, hoje, está entregue à Guarda-Fiscal.
É certo que há muitos, muitos anos era quase única, devido ao seu colo e saber monástico. 
Dizem os livros escritos por quem aqui passou e a amou profundamente, desde o Camões, ao Eça, até ao Trindade Coelho, que no amor era única. Beijava como ninguém. Que a sua língua, chamada de Mondego, lambia qualquer amante de cima a abaixo. Imagino-a toda torneada, tipo garrafa de Coca-cola. E quantos milhares de amantes lhe passaram pela alcova. E pelos vistos todos gostaram. Mesmo, nos nossos dias, quando partem, todos a levam no coração, é como se ela fosse o seu primeiro amor, e com ela perdessem os três vinténs. É claro que não passa de um amor platónico, tipo de usar e deitar fora. Amaram-na enquanto estavam dentro dela, quando saíram do seu âmago, já mais homens, mais másculos, apenas se lembram dela pela sua boémia orgiática. Falam desta Coimbra como aquela, a “tal”, a “puta” com quem passaram bons momentos.
Vem isto a propósito do Jornal “24 horas”, de 29 de Novembro último, acerca de um estudo sobre os hábitos sexuais dos portugueses, realizado pela Revista “FHM”,afirmar em grades parangonas que “em Coimbra elas não param”. Continua o Jornal, “que as coimbrãs são as que mais fazem sexo”. Isso é que é uma admiração, depois do que disse em cima, é normal que as mulheres de Coimbra sejam “danadas para a brincadeira”. Elevando a sua prestação sexual, o jornal até diz, quanto à regularidade das relações, que as mulheres de Coimbra têm 5,25 vezes por semana –curioso, quais serão os dias de abstinência? Será o sábado à tarde e o domingo, como o comércio tradicional? Mas, mau, há qualquer coisa que não bate certo. O jornal vai mais longe ao compará-las com as da capital. Estas mulheres, da grande metrópole, fazem apenas sexo 3,38 vezes por semana. Complementa ainda que as lisboetas, sexualmente, se satisfazem sozinhas –fogo, isto é grave! Se eu fosse mulher lisboeta, corria para o psicoterapeuta sexual e começava a praticar mais sexo. Está visto que em Lisboa não se safam, por isso venham para Coimbra –é uma opinião!
Das Bracarenses, diz o jornal que adoram pornografia. Bolas, isto na terra dos arcebispos, só pode ser castigo divino. “O mundo está perdido”, diria o Diácono Remédios.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

"SALAZAR: MUSEU OR NOT MUSEU?"

Se, a si leitor, lhe fizessem esta pergunta de chofre o que responderia? Poderemos especular que a sua resposta teria sempre em conta várias variáveis: factor-mor, a sua idade; no caso de ser nascido antes de Abril de 1974, se militou ou era, ideologicamente, simpatizante da esquerda ou direita e se nasceu depois de Abril. Ou então, sendo independente politico-partidariamente.
Se nasceu muito antes de 74, por volta da década de 50, era simpatizante de esquerda e até hoje não passou para o reviralho, com trejeito de ofendido, com “cara de pau”, interrogará: “sinceramente , isso é pergunta que se faça? Vê-se logo que você é facho. Claro que sou contra! Eu não fui preso pela PIDE, mas o meu vizinho, o Manel Tiago, que Deus tenha em descanso, foi. Esteve em Peniche com o camarada Álvaro. Até o ajudou a escrever o livro “Cinco dias, Cinco noites”, e até emprestou o seu nome para servir de pseudónimo ao camarada Cunhal. Admite-se uma coisas dessas, um museu ao “Botas”? Uma elegia a um ditador e a tudo o que lhe está associado? Desde a Igreja católica, com o Cerejeira a servir-lhe de muleta? Por isso é que sou ateu. Nunca mais pude ver padres. Claro que você, sendo facho, quer um santuário, tipo Fátima, para se promover o fascismo. Nem pensar! Sou completamente contra. Isso é pergunta que se faça? Se vivêssemos no tempo de Estaline bem sei para onde você iria seu saudosista de merda. Desculpe, não pude evitar, fico fora de mim, é que há perguntas que não se devem fazer. Se me perguntasse se eu era a favor do movimento “não apaguem a memória”, isso é diferente. Claro que sou! Trata-se de relembrar a história de antifascistas. Isso sim, é uma verdadeira causa nacional”.
Se lhe fazem a pergunta e você nasceu logo a seguir à 2ª Guerra e era simpatizante de direita, responderá: “claro que estou de acordo que António Salazar tenha um museu. É um direito meu amigo. Foi o único político sério que não se locupletou com bens do Estado. Depois dele foi o princípio do caos. Fez de um país na bancarrota uma nação rica. Cometeu erros? Pois cometeu, como todos. Ele foi o resultado dos movimentos ideológicos do seu tempo, baseados no autoritarismo ditatorial (como Franco, Mussolini e Hitler) e contra os ventos vermelhos de leste de 1917, contra o Lenine, esse comunista desgraçado, que além de mandar matar milhões ainda comia criancinhas ao pequeno-almoço. É inadmissível esta polémica em torno de Salazar, até faço a pergunta: quem tem medo da sua ressuscitação? Aos comunas tudo é permitido, desde movimentos de “não apaguem a memória” até serem perpetuados em ruas e praças. Isto é complexo, complexo de inferioridade, meu amigo, pode crer…”
Se lhe fazem a pergunta, a si que nasceu muito depois de 1974, pode acontecer responder: “claro que sim, não tenho qualquer dúvida, Salazar deve ser perpetuada num museu. Por tudo o que tem feito por este pais além-fronteiras, no “prêt-a-porter”, na moda, levando o nome de Portugal aos confins do mundo".
Se é independente, apartidário e pensa que a história não se constrói isoladamente e cada acto presente tem sempre a ver com o antecedente, contrariamente às placas tectónicas, assenta num continuum, uma sequência continuada de actos inseparáveis entre si e é constituída por atrocidades e gestos de boa-vontade de homens, que no seu tempo, mesmo não escolhendo o melhor, julgaram fazer a melhor opção, responderá que é legítimo que Santa Comba Dão tenha o seu museu. É uma questão de honestidade intelectual. A sua concretização evitará o dispersar de inúmeros documentos históricos, que permitirão o seu estudo, enriquecerá o berço de António de Oliveira Salazar e sobretudo o nosso país. Alguém disse um dia que um povo sem memória é um povo sem identidade e sem futuro. E que quem tem medo de fantasmas vai à bruxa, acrescento eu.

"A ACIC REÚNE PARA DISCUTIR COMÉRCIO EM CRISE"

Em protesto contra novo regime de licenciamento, vai a Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC) levar a efeito, na próxima terça-feira, dia 11 do corrente, pelas 21 horas, na sede, na Avenida Sá da Bandeira, uma reunião de comerciantes associados e outros.
Aproveitando a presença de José António Silva, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), esta entidade sendo membro do Conselho Permanente da Concertação Social, deve levar de Coimbra um recado de completo repúdio para o governo pela forma como estão a ser tratados. Espera-se que todos os empresários do comércio descontentes com a actual situação, votados ao ostracismo e esquecimento, compareçam e, massivamente, demonstrem o descontentamento e apreensão quanto a um futuro que, infelizmente, não se augura próspero e se esperam situações de completa indigência.
Lembra-se que este executivo de José Sócrates, em completo autismo, prepara-se para pôr em prática um novo regime de licenciamento ultraliberal de novas grandes superfícies, num momento de profunda crise económica, em que é notório o excesso de oferta, e, em consequência, se vive e sente uma completa asfixia do pequeno comércio.
“É necessária uma entidade Reguladora” –palavras de Paulo Mendes, presidente da ACIC- para evitar a mais completa lei da selva, onde a força do mais forte impera sobre o mais fraco. Também os horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais serão debatidos. Lembro que os horários praticados pelo pequeno comércio são vistos pelo consumidor como o paradigma anacrónico do estatismo. Acontece que perante o actual regime laboral para o comércio, o Contrato Colectivo de Trabalho, não é fácil ir para além dos horários estabelecidos. Pelo menos para quem tenha funcionários antigos. Com um horário de 40 horas semanais e petrificado além-tempo, só é possível alterar horários com o acordo do trabalhador e recorrendo a horas extraordinárias. Ora, como se calcula, num momento dificílimo para este sector, é óbvio que não é fácil mudar. Muitas vezes, o consumidor pensa que é apenas uma falta de vontade dos comerciantes. Para um estabelecimento familiar, sem pessoal, é possível desde que exista vontade de cooperar, mas para quem tiver vários funcionários tal mudança é pouco exequível em rendibilidade. Muitas vezes este anátema cai no lojista como se esta mudança dependesse apenas da sua vontade pura e simplesmente. Mas, diga-se em abono da verdade, não depende apenas da sua disposição. Estando em dificuldades financeiras, como poderá ele pagar horas extraordinárias? E não pode porque o retorno de pessoas à Baixa, para além dos horários conhecidos (diariamente depois das 19 e sábados depois das 13) vai demorar. Claro que é a teoria da pescadinha de rabo-na-boca, só o tempo permitirá inverter esta tendência. Mas o comerciante, em completa asfixia financeira, não pode dar largas ao tempo, precisa de cortar despesas imediatas a todo o custo.
Com muito respeito que os funcionários mais antigos do comércio merecem, assim como os seus direitos adquiridos noutros tempos. Mas, hoje, prevendo-se 100 mil desempregados nos próximos quatro anos, onde a precariedade, os contratos a termo, os (falsos) recibos verdes vieram para ficar –e refiro-me, como é óbvio às grandes superfícies, onde estas fazem “gato-sapato” das pessoas com necessidade de trabalhar-, faz sentido a recorrência a “direitos adquiridos” no comércio tradicional? Com a liberalização da economia de mercado, com a natural dinâmica dos valores e a mudança acelerada dos costumes, fará sentido hoje classificar o trabalho de sábados, Domingos e feriados como extraordinário no comércio? A verdade é que este óbice, ainda que vá de encontro às reivindicações da APED, Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, estou convencido que acaba por ser muito mais pernicioso para o comércio de rua, pois funciona como garrote, desmotivador da vontade de mudança e contribui para o imobilismo dos horários. E lembro, a talhe de foice, que noutros serviços, como por exemplo a hotelaria, tal premissa restritiva há muito que foi banida.
Se avaliarmos bem, há um comportamento egocêntrico por parte do comprador que não é coerente. Por um lado o consumidor –que somos todos, é bom não esquecer-, duma forma ditatorial, legitimamente pugna pelo máximo de comodidades, querendo o comércio aberto Sábados, Domingos e feriados; por outro lado “exige” comprar nesses dias ao mesmo preço que em dias e horários considerados normais, esquecendo-se que essa prestação é paga ao trabalhador em dobro. É evidente que o grande operador, através de vários subterfúgios, consegue rodear esta questão, artimanha que o pequeno comerciante não pode. Até porque o funcionário mais antigo, pura e simplesmente escusa-se a colaborar.
Outros garrotes que afogam o comércio poderiam aqui ser citados, mas como este apontamento já vai longo, ficarei por aqui.

sábado, 8 de dezembro de 2007

"O INDIVIDUALISMO E INDIFERENÇA NAS ATITUDES ESTUDANTIS"

(IMAGEM DA WEB)


  Elísio Estanque, reconhecido sociólogo do Centro de Estudos Sociais da FEUC, em 25 de Novembro do corrente ano de 2007, publicou no Diário de Coimbra (DC) a primeira parte de um estudo sociológico, em forma de diagnóstico, no âmbito de um projecto realizado pelo CES, Centro de Estudos Sociais , da Universidade de Coimbra. Presumo que, correndo a possibilidade de errar, que a segunda parte tarda em ser publicada no DC, provavelmente, como estratégia, à espera do livro “Do Activismo à indiferença –movimentos estudantis em Coimbra”.
Já naquela data li o artigo com atenção e a verdade é que não me provocou reacção. Todos constatamos estas atitudes de mergulho no “individualismo quotidiano autocentrado no interesse individual” no dia-a-dia. Até vou mais longe: afinal, não se passará o mesmo com a sociedade no seu todo?
Recuemos um pouco no tempo. O individualismo como filosofia económica começou no século XVIII, com Adam Smith, ao preconizar um ideal político em que o desenvolvimento assentava na iniciativa privada e o Estado, tendo apenas uma função de árbitro, não deveria se imiscuir na actividade económica. Dando início ao “laissez faire, laissez passez”. Com avanços e recuos, a verdade é que chegámos ao século XXI e o pai da moderna economia, que muito contribuiu para a ciência económica, estava longe de prever que a riqueza mais distribuída, verticalmente, elevando o bem-estar, daria origem a outro movimento, com o mesmo “ismo”: o narcisismo individual, desprovido de qualquer sentimento de solidariedade para com o próximo, o pensamento centrado apenas no individual, na sua própria pessoa. Não deixa de ser paradoxal, porque o ter mais, o viver melhor, deveria, em principio, criar um subsequente desejo de dividir e ajudar o próximo. Mas já se viu que em face da abastança, o homem quanto mais tem mais quer. Assim como, à medida que, obsessivamente, caminha em direcção ao mirífico mundo novo do bem-estar, transversalmente vai perdendo a sua capacidade reivindicativa e, em consequência, cada vez se torna mais apático em relação às causas sociais. O curioso é que o seu desinteresse pelo colectivo, como boomerang, virá, inevitavelmente, a médio prazo, a tocá-lo no (seu) individual. Como especulação, poderemos ser levados a intuir, no limite, que se é no dissenso social que germina a evolução do sociedade, poderemos pensar que o futuro será “muito mais do mesmo”, talvez para pior, e muito menos daquilo que fomos habituados a conquistar, com especial incidência no último século, através da reivindicação e das lutas sociais. Ou seja, a abastança e a fúria desenfreada pelo “ter” a qualquer jeito, sem olhar a meios para atingir os fins, acabou por apagar a chama do “ser”, que assentava num “devir” de transformação, sempre em movimento, sem esquecer a afirmação individual, mas cujo objecto era o político-social, enquanto interveniente no espaço público.
Voltando ao estudo de Elísio Estanque, os estudantes universitários, penso, não serão muito diferentes do homem-sócio-cultural, enquanto resultados de uma cultura social em que estão inseridos. Claro que poderemos afirmar que as revoluções sociais começaram sempre nos jovens, enquanto contestatários a um “status quo” implantada quase autoritariamente e displicentemente pelos mais velhos, normalmente conservadores e alheios a mudanças.
E aqui, inevitavelmente, vou chegar onde queria: pode uma universidade velha, conservadora, como é a Universidade de Coimbra -e não me refiro obviamente à sua vetusta idade, desde 1537 que se instalou de vez em Coimbra- incutir nas gerações mais novas um espírito reivindicativo e de intervenção social?
Evidentemente que tenho a minha opinião e conhecimento de causa, mas deixo isso à especulação alheia.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

BAIXA: O PAI NATAL DA DISCÓRDIA



 Esta semana, do romper de Dezembro, a Baixa de Coimbra, onde os dias correm demasiadamente pachorrentos para a quadra natalícia que atravessamos, com pouca gente nas ruas e, desta, pouquíssima a comprar, comparativamente a anos anteriores quando nesta época era um fervilhar de gente, foi recheada de dois acontecimentos que provocaram algum alvoroço nos comerciantes e foi conversa obrigatória de mesa de café.
O primeiro caso, logo na 2ª feira, dia 3, começou com uma longa entrevista a Paulo Ramos ao DC –este empresário, com vários estabelecimentos na Baixa, foi, em 2002, numa reunião de comerciantes, numa assembleia da Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC), o mentor da semente que viria a germinar na hoje constituída Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC).
Nesta longa entrevista, este empresário, duma forma clara e implacável, fugindo ao politicamente correcto, àquilo que estamos habituados –que é os comerciantes dizerem em público o contrário daquilo que pensam ou dizem em surdina- verberou corajosamente tudo o que lhe ia na alma, ou seja, o que muitos pensam mas não têm coragem para o afirmar em público. Para uns “ é um exagerado, um “bota-abaixista”, um individualista, que só quer dar nas vistas e, se o deixassem, duma forma ditatorial, faria as coisas à sua maneira sem ouvir ninguém”. Para outros um homem com ideias, que foge ao “stablishement” e que muito pode vir a dar, através da sua forma de estar na vida, com o seu empenho, ao comércio de rua tão necessitado de vozes dissonantes que bradem, sem “papas na língua”, que o rei vai nu, e, contrariamente ao que se pensa, a maioria dos comerciantes vive apenas de aparências, vestidos de uma pobreza envergonhada de meter dó.
O segundo acontecimento surgiu de boca-em-boca na terça-feira à noite. Como rastilho aceso em mecha em direcção à detonação, o “diz-que-disse” correu célere entre ruas e vielas do centro histórico: “o Góis deu de “frosques”, como quem diz fugiu, ao compromisso assumido anteriormente ao presidente da APBC, Armindo Gaspar”. Lembro que em 20 de Novembro, numa longa entrevista a este jornal, o presidente da APBC, entre outras explanações, declarava que “durante a época natalícia, vamos ter na Praça 8 de Maio um projecto muito interessante. Propusemos à ARCA (EUAC –Escola Universitária de Artes de Coimbra) que nos criasse algo que tivesse impacto. Trata-se de um Pai Natal de grande dimensão, com cinco metros de altura, que será colocado na fonte da praça. É um projecto financiado pelo empresário Carlos Góis (…)”.
Posteriormente, para uns, “este gesto era uma pedrada no charco. Ainda bem que havia um comerciante com visão, altruísta, felizmente, bem sucedido, que, neste procedimento, mostrava que não eram uns míseros 2.600 euros que impediam a concretização de uma obra escultórica de grande qualidade e traria à lembrança um Natal melhor para uma Baixa anémica e que atrairia muitas mais pessoas”.
Para outros, inevitavelmente, os frustrados do costume, sempre do contra, as chamadas línguas viperinas, aqueles aquém o sucesso incomoda, exclamavam em surdina:” pois, fez aquilo para dar nas vistas, apenas pela publicidade, ele não dá ponto sem nó. No fim veremos se passa o cheque”.
Ontem, dia 5, em conferência de imprensa, junto ao Café Santa Cruz e com a escultura alegórica ao Pai Natal em fundo, o presidente da APBC, ladeado pelos presidentes das juntas de freguesia de Santa Cruz e de São Bartolomeu e pelo director da ARCA sem nunca citar o nome do empresário Carlos Góis, afirmou que “depois de um comerciante ter garantido que iria suportar o seu custo, anteontem o acordo foi quebrado (…)”.
Ora, em face destas declarações, e até pelo respeito que o empresário Carlos Góis merece dentro da classe a que pertence, é imperioso que este comerciante venha a público dizer o que efectivamente se passou. Caso não o faça, de bandeja, estará a dar razão aos seus detractores que antes deste “qui pro quo” afirmavam que ele apenas estaria interessado na publicidade extraída neste gesto e jamais passaria o cheque a que se comprometera.
Evidentemente, que tenha ou não razão para o seu rompimento –trata-se apenas do esclarecimento público, para o caso é irrelevante- é obrigação de todos os comerciantes da Baixa estarem ao lado da APBC e contribuírem para o pagamento desta belíssima obra. Pelo seu tamanho ou não, sobressai em beleza e obra de arte, nesta polémica de polichinelo.
Parabéns à ARCA.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O MITO E A UTOPIA DOS ALMOÇOS GRÁTIS

Passados 21 anos depois da adesão de Portugal à então CEE, hoje Comunidade Europeia, começam a vislumbrar-se alguns custos da modernidade. Evidentemente que, como em tudo, é inevitável a ponderação entre custos e proveitos. Como resultado de uma adição de variáveis, a média desta incursão num projecto europeu à partida utópico –Tratado de Roma de 1957- é, pelo menos por agora, ainda, positivo, embora comecem a surgir dúvidas. À custa desta adesão, em 1986, a partir daí, pelo menos até 2000, atingimos um patamar notável de bem-estar, um índice de desenvolvimento nunca antes alcançado: uma maior esperança de vida à nascença e mais longa longevidade, uma maior taxa de alfabetização e de escolarização (93,8% dos adultos sabe ler e escrever) e um PIB (Produto Interno Bruto) dentro da média dos restantes países da Comunidade.
O problema é que o que antes foi alcançado e foi sentido e vivido no nosso contentamento, hoje assistimos ao regredir dessas conquistas económicas. Como um reverso da medalha, como se estivéssemos apagar com juros elevados esse patamar alcançado. Então, num exercício de retórica, perguntamos: de quem foi a culpa? Dos nossos políticos que dentro duma certa ingenuidade, sem visão estratégica de futuro, inebriados pelos milhões, não souberam alertar de que tudo é pago e não existem almoços grátis, ou, pelo contrário, esta adesão, sendo um contrato de interesses, não será mais do que um negócio bem engendrado e altamente lucrativo para os países mais ricos? Seria então uma falácia, um sofisma com intenção de enganar ou, pelo contrário, um paralogismo, em que não havia intenção predefinida e os nossos (maus) resultados de hoje são resultado de factores e variáveis endógenas, alheias à doutrina comunitária que lhe serviu de base?
Reportemo-nos à década de oitenta, ao Portugal subdesenvolvido, em que o sector primário (agricultura, pescas, recursos florestais, etc.) ocupava mais de metade da população portuguesa. Pouco mecanizada e sobretudo braçal, em que o factor trabalho era aplicado em detrimento do factor capital, sendo, em rentabilidade, pouco competitiva com o exterior. Sem esquecermos um período conturbado e quente, com a tomada de terras, a chamada Reforma Agrária, a verdade era que o país, na alimentação, era auto-sustentável nos bens que produzia, desde o azeite ao sal.
Com a assinatura do Tratado, em 1986, foi aplicado o chamado teorema das vantagens comparativas –cada país deve apenas produzir os bens que lhe são mais favoráveis, em custos de produção, e, portanto, de menor custo final; o que lhe permite vender a outros que produzam os mesmos bens com custos mais elevados. É assim, à luz desta filosofia económica, que entendemos os subsídios recebidos para aposentar, na altura, muitos agricultores, com o ónus acrescido do arranque de várias espécies arvorarias, entre elas a videira, a oliveira e o começo do abandono da terra e a desertificação do interior do país; bem como o abate da nossa frota pesqueira, arrastando consigo a construção naval, e subsequente reforma de muitos homens do mar.
Com a abertura à economia de mercado a nossa indústria (sector secundário), sobretudo pesada, ficou também à mercê dos outros países mais desenvolvidos e, por isso mesmo, impossível para nós competir com um nível mais industrializado, onde o factor capital era preponderante em máquinas, e, onde os custos dos factores de produção eram menores, e, por isso, com produtos iguais aos nossos mas mais baratos. Nem mesmo os milhões recebidos para modernizar este sector evitou a sua quase completa capitulação. Por inépcia ou por externalidades, entre elas a mão-de-obra barata da China, a verdade é que a consequência foi a falência e o encerramento de várias fábricas e envio de muitos milhares de operários para o desemprego.
Com o comércio (sector terciário), o mesmo choque económico: tínhamos um comércio conservador, disperso, ainda que concentrado nos centros das cidades, assente quase exclusivamente numa estrutura familiar, onde a pequeníssima empresa era preponderante, e sem ligações entre si. A filosofia económica vigente, reflectida, num comerciante quase iletrado e feito empiricamente à força do subir a corda a pulso, onde prevalecia o trato pessoal, assente numa clientela geracional e fidedigna, era vender o máximo ao maior preço possível. O lucro não assentava em rácios médios, não estava dependente da quantidade vendida, incidia individualmente no bem alienado.
Com a década de 90, vieram as grandes superfícies. Com uma nova filosofia comercial, neoliberal, arrojada, desprovida de conceitos morais para a concorrência –arrasar para reinar- quase paradoxal ao comércio de rua, concentraccionista e, por isso, com maior racionalidade de custos operacionais, o seu lema era vender o máximo ao menor preço possível, mesmo até praticando “dumping”, vendendo com prejuízo, tendo apenas em conta o rácio médio anual de lucro. Pondo em prática uma nova ciência comercial; criando, no cliente, a ilusão de uma liberdade plena em adquirir os produtos, projectando-o como peão dentro da superfície comercial, onde os seus passos eram estudados ao milímetro, fazendo desta um labirinto, sem que aquele nunca se aperceba que está a ser usado como marioneta e a fazer exactamente aquilo que foi anteriormente programado ao pormenor pelo operador. Aplicando subterfúgios discutíveis do ponto de vista ético, num jogo de espelhos onde ressalta o interesse, levam o consumidor a adquirir produtos considerados por este anteriormente desnecessários. Inevitavelmente, também neste sector, várias pessoas são obrigadas a mudarem de vida e outros reformados compulsivamente à força das circunstâncias.
Como ponto de balanço circunstancial, até à adesão de Portugal à Comunidade Europeia, é notório o profundo atraso na modernização destes três sectores. Entre prós e contras, salienta-se o quanto foi importante a entrada para o clube dos 12, em 1986, para o desenvolvimento destas actividades económicas.
Como elementos positivos comuns nesta época e indirectamente ligados no aperfeiçoamento destes três sectores, deveremos considerar: o embaratecimento dos produtos, tornando-os mais acessíveis a um maior universo de consumidores, a democratização do consumo; a democratização do ensino superior; O crescimento económico do país; universalidade dos cuidados de saúde e o elevado poder aquisitivo das famílias.
Como elementos negativos comuns, consideraria o abandono da terra e das pescas como extremamente deficitários para o país, colocando-nos, economicamente, à mercê do exterior e com o continuado aumento do défice da Balança de Pagamentos; o elevado número de pessoas empurradas para a aposentação; o aumento desvairado do desemprego; diminuição de impostos sobre o trabalho, recebidos pelo Estado, por força de aposentações forçadas, de desemprego e de falências de agentes económicos; aumento brutal da Despesa Pública, não só com estes encargos, como também com a criação do Rendimento Mínimo Garantido, dado, em forma de subsídio, sem contrapartidas obrigacionais.
Em consequência, no continuado aumento do défice, conclui-se o fim inevitável do Estado-Providência, a cessação deste modelo social; inicia-se a morte anunciada do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social e a privatização de quase todos os serviços do Estado. Aumento brutal de impostos.
Começo de uma nova era “Sul-americanizada”, desconhecida e de custos imprevisível para nós no futuro, ou o pagamento de juros sobre juros sobre um desenvolvimento anunciado como mensagem messiânica, prometido pela Comunidade Europeia a Portugal e que poderá vir a tornar-se num logro?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

MEGACOMÉRCIO: O MITO DO DESENVOLVIMENTO

(IMAGEM DE BRAGA PINHEIRO)


  Neste último fim de semana, de 25 de Novembro, ficámos a saber, quer pelo “Expresso”, quer pelo “Diário de Notícias”, que o patrão dos patrões, o presidente da Confederação do Comércio Português, José António Silva, ponderava a hipótese de, conjuntamente, com o presidente da CGTP, Carvalho da Silva, de aderir a uma greve geral, em face do crescente aumento de falências e subsequente desemprego no comércio, quer de pequenos empresários, quer de funcionários. Ficou-se a saber que a partir de 2004 este sector perdeu 250 mil empregos. Prevê-se, também, que para os próximos quatro anos desapareçam mais 100 mil postos de trabalho.
Não vou pronunciar-me se, sendo uma medida inédita, é a mais indicada ou outra qualquer –sabe-se, agora, que foi fumo sem fogo, uma vez que o presidente da Confederação veio desmentir e afirmar que tudo não passou de um mal-entendido. Uma coisa é certa, José António Silva ficou numa posição periclitante, muito fragilizada, e, das duas uma, ou avança com medidas reivindicativas ou então dever-se-á demitir. Caso não o faça deverão ser as diversas associações comerciais do país a pedir a sua cabeça. Depois deste "mal-entendido”, penso, iniciou-se um processo sem retorno que não pode parar mais e o “big boss” do patronato tem de mostrar que está à altura do lugar que ocupa. Criou expectativas nos operadores, agora, alguma coisa terá de fazer para chamar a atenção do governo perante este continuado empobrecimento de um sector, o pequeno comércio, que foi um dos maiores empregadores do país. Hoje, corre-se o risco, caso não se tomem medidas drásticas de salvação de todos, de assistirmos ao seu desaparecimento, e, no caso concreto, se se concretizar o anteprojecto do novo licenciamento das grandes superfícies, que liberaliza ainda mais a abertura de hipermercados e centros comerciais.
Bem sei que o consumidor comum está perfeitamente de acordo que abram mais grandes superfícies e, se possível, que estejam abertas 24 sobre 24 horas. Egocentricamente, acha até que esta guerra não é sua, diz respeito apenas aos comerciantes, a quem considera atávicos e anacrónicos, que não conseguiram modernizar-se e adaptar-se aos novos tempos, sobretudo, tendo em conta os horários praticados hoje; iguais há 50 anos atrás. Se levarmos à letra a doutrina neoliberal desta desbragada liberalização, que nos é impingida, e aceite pela maioria, como um mito do desenvolvimento, esse acto legislativo, levará a uma maior concorrência entre as grandes superfícies e, no limite, a um embaratecimento dos produtos. Aparentemente, no curto prazo, assim é. Mas a médio prazo todos pagaremos bem caro este excessivo laivo de concorrência, esta falta de limites. Basta atentar no abandono dos Centros Históricos. -Chamei-lhe mito, porque, a meu ver, mesmo produzindo impacto sobre a sociedade, na sua constante repetição, nunca deixará de o ser e jamais se tornará uma verdade sem contestação. O desenvolvimento implica uma concertação de factores –como a saúde, a educação, a habitação, o emprego, etc.- e sustenta o crescimento económico do todo social, bem como o político e até o filosófico. O desenvolvimento é um progresso de um estado a outro, de tal modo que o seguinte é sempre mais perfeito que o anterior, mas sempre, verticalmente, devendo ter em conta a maximização da sociedade no seu todo, atingindo-se um nível de vida razoável. Como se vê facilmente, no caso da extinção do comércio de rua, apenas uma franja, ainda que elevada, consegue obter um melhor nível socio-económico, mas esse patamar é alcançado à custa do esmagamento de milhares de pessoas e de uma classe (os comerciantes). Então pergunta-se, quem vai sustentar estas pessoas, empresários e funcionários, empurradas para o desemprego? É óbvio que serão os nossos impostos, aumentando a despesa no Orçamento Geral do Estado. Diga-se a propósito, presentemente, por parte de alguns comerciantes com menos de 60 anos, está a assistir-se a uma corrida desenfreada às pré-reformas. Mesmo com as penalizações associadas é preferível receber pouco do que ter de pagar sem se ganhar para isso.
O Estado, tendo apenas em meta o racionamento económico, a concentração, espalha a crença na sociedade de que o mito do desenvolvimento assenta na grandiosidade dos fins, sem ter em conta os meios, no presente e no futuro. Tudo se sustenta na mega estrutura: é a mega superfície comercial, é o mega transporte em alta velocidade (TGV), é o mega aeroporto (OTA, ou outro), é o mega hospital, é a mega maternidade. Pouco importa que no futuro a população média esteja impossibilitada de usar estas estruturas, por falta de suporte financeiro. O que interessa é construí-las hoje, em nome do desenvolvimento de amanhã.
Todos sabemos que os consumidores (que somos todos) são agentes privados que exercem livremente os seus direitos de adquirirem os bens de consumo ao mais baixo preço. Até porque o estado da economia nacional empurra-nos a todos para os produtos de menores dígitos, mesmo sabendo, antecipadamente, que serão inferiores a outros, comparativamente. O problema é que ao escolhermos o mais barato, normalmente, é importado, e, em bloco, numa cegueira continuada, estamos todos a contribuir para o encerramento de estabelecimentos e produtores nacionais. 
Valerá a pena pensar nisto?