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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

BAIXA: CRÓNICA DA SEMANA PASSADA

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)

REFLEXÃO: A DETERIORAÇÃO DA MÁQUINA FISCAL

Estamos em período de entrada de novos alunos para as universidades portuguesas. É um novo ciclo de grande alegria mas também novos e grandes sacrifícios para as famílias cujo rendimento se vê dividido por mais uma nova parcela.
Há dias passou na TVI, canal de televisão privado, uma reportagem sobre os preços praticados em quartos arrendados em Lisboa e no Porto. O que indignava nem era o preço absurdo de um beliche por 400 euros. O que nos insultava fortemente era o facto de a maioria de senhorios, na maior impunidade, assumir que não passava recibo.
Depois de um período negro, entre 2011 e 2015, em que a Autoridade Tributária ganhou o estigma odioso de um Estado dentro de outro Estado e os seus serviços passarem a ser classificados como uma máquina infernal de destruição maciça, o pior que se pode conceber num Estado democrático – quem não se lembra de casos em que famílias perderam a sua casa de morada por dívidas de 1500 euros? -, eis que passados cerca de quatro anos assistimos a um escândalo como este que foi visionado na TV. Ou seja, passamos dos oitenta para o oito. De uma eficiência e eficácia impressionantes, no oposto, agora passou para uma instituição fiscalizadora laxante e permissiva. A bem da razoabilidade, pela responsabilidade directa das Finanças na evolução da Economia, não podemos deixar passar em branco o que está acontecer nas grandes cidades.
Contrariamente ao que defendem os representantes dos estudantes e outros ligados à academia, não tem de ser o Estado a construir e a oferecer alojamento a preços controlados aos alunos. Ao Estado, através do Governo, cabe por inteiro a obrigação de, com medidas sancionatórias e políticas de desenvolvimento, regular o mercado e, com mão firme, assegurar que funciona. Como o Estado é parte interessada e o maior especulador – lembra-se que a taxa liberatória de 28 por cento sobre os rendimentos prediais habitacionais a termo é um escândalo e concorre para a fuga – logo, deixando passar o ónus do odioso para os operadores, demite-se da sua função de mediador. O resultado de tudo isto é a destruição do mercado de arrendamento. Será que os governantes não vêm o óbvio?


O PRINCÍPIO DA HISTÓRIA




Na semana passada abriu o Talho (na) Avenida, mais concretamente no Edifício Prestige, em frente aos Bombeiros Voluntários, na Avenida Fernão de Magalhães.
Os responsáveis por este empreendimento comercial são o Sérgio Cunha e o Eugénio Taipina, ambos nossos conhecidos e com larga experiência na arte de trinchar. Um e outro foram, durante largos anos, funcionários do Talho Central, na Rua da Louça.
Com uma decoração simples mas muito atractiva, as carnes frescas de elevada qualidade parecem brilhantes e vivas e a querem saltar para o nosso prato. Ao mesmo tempo, os enchidos, os transformados de produção de regiões tradicionais do país, teimam em piscar o olho a senhoras novas e idosas.
Em nome da Baixa comercial, se posso escrever assim, desejamos a maior ventura para o novo estabelecimento que muito veio enriquecer a zona histórica.


ORÇAMENTO PARTICIPATIVO


Gostava de lembrar que, até ao fim deste Setembro, está decorrer a votação do Orçamento Participativo promovido pela União das Freguesias de Coimbra. Esta participação é reservada aos fregueses das juntas agregadas da Sé Nova, Almedina, São Bartolomeu e Santa Cruz. Para além disso a escolha é pessoal, isto é, o inscrito numa destas autarquias tem de se deslocar a qualquer uma das sedes – o horário pode consultar aqui (clique em cima).
Não precisa dizer, bem sei que você só vai à sua junta de freguesia uma vez de quatro em quatro anos e a última -tomara eu que fosse – foi há escassos dez meses. Mas deixe lá, faça lá isso pela colectividade. Não interessa em quem vai votar, o que importa é que, como bom cidadão, se inteire dos projectos a concurso e vote naquele que melhor corresponder às suas expectativas. Não é pedir muito, pois não?


A TRADIÇÃO REVIVIDA
[Imagem+2880.jpg]


No último Sábado, a comemorar os 80 anos de vida na Baixa de Coimbra, o Rancho das Tricanas de Coimbra levou a efeito o seu festival anual no Terreiro da Erva e mesmo ao lado da sua sede, na Rua do Moreno.
Porque já escrevi sobre o abandono a que a nobel instituição foi votada pelo Pelouro da Cultura e da União de Freguesias de Coimbra não irei malhar mais no desgraçadinho, até porque, o que aconteceu este ano em, em repetição, não é nada a que não estejamos habituados. Sobretudo pela parte municipal, entregue a pessoas que só conta a dedicação ao partido, é uma estrutura fechada, pesada e sem sensibilidade para a identidade cultural do povo. Bem sei que até parece irónico, mas é assim. Salvo melhor opinião, é uma máquina registadora que se limita a distribuir anualmente dinheiro para calar a revolta dos actores. Entre os 60 mil euros e os mil euros é só consultar a lista e fazer as contas. Já o ressarcimento deste investimento público por parte destes agrupamentos para a cidade é questionável, digo eu. Mas como o dinheiro é de todos e não é de ninguém, ninguém reclama para não levar um corte. Haja paz no reino da rebaldaria.


FEIRA ANTIGA
(Imagem desviada do jornal online Notícias de Coimbra)
No último fim-de-semana, Sábado e Domingo durante todo o dia, no parque da cidade, realizou-se a iniciativa “(RE)viver, Tempos, Sabores e Tradições”, promovido pela União das Freguesias de Coimbra (junta agregada constituídas pelas juntas da Sé Nova, Almedina, São Bartolomeu e Santa Cruz). Tratava-se de tentar recriar uma feira antiga com profissões em desaparecimento em actividade.
Retirando a ideia de, numa espécie de sopa aos pobres, ter realizado um almoço gratuito para 350 fregueses – que, a meu ver, torna o encontro mais político do que de desenvolvimento social para a cidade - pelo mérito de se ter abalançado para esta resolução, está de parabéns a União de Freguesias de Coimbra (UFC). Mas há um porém, percebemos que foi o primeiro, serve como experiência e devemos ser indulgentes, mas sejamos francos: esteve muito aquém do que se esperava. Poucos visitantes, escassas barraquinhas de comes e bebes, fraca performance dos actores intervenientes e pouca ambição neste projecto. Repito, por esta primeira edição está perdoada a UFC, mas, certamente já a planear a segunda, exige-se outro profissionalismo, outro palco geográfico, outro arrojo, outra data, outro envolvimento de instituições e adesão plena da Baixa e da Alta. O que quero dizer com isto?

-Começo pelo mês de realização: a altura ideal deve ser Julho ou Agosto. No limite em Junho para fazer coincidir com a feira Medieval, que se já se faz no Largo da Sé Velha. Para além disso, deve ter a duração de três dias, Sexta, Sábado e Domingo. E mais: só deverão ter acesso a desempenho pessoas e entidades que exerçam no concelho de Coimbra;

-Deve ser criada uma comissão consultiva e de apoio (para trabalhar) constituída obrigatoriamente por todas as agremiações financiadas anualmente pela Câmara Municipal, grupos folclóricos, companhias de teatro e outros grupos culturais. A todas estas associações, para quem quisesse, deveria ser permitido ter a sua barraquinha para venda de produtos alimentares.
Devem fazer parte desta comissão comerciantes e suas representações associativas que queiram colaborar; também, como é óbvio, pela Associação dos Mercados e respectivos operadores dos Mercado Dom Pedro V – com a feira a entrar dentro da popular praça;

-A realização e custos deve caber por inteiro à UFC -dentro das suas possibilidades orçamentais – e à Câmara Municipal de Coimbra. A edilidade não pode continuar a aparecer nos cartazes como apoiante só porque contribui com água e electricidade. É pouquíssimo. A autarquia tem de se envolver directamente em festas de grande monta e deixar de estar no escondidinho atrás da cortina cultural;

-O palco onde se realizou este ano, o Parque da Cidade, não serve para a iniciativa em apreço. É preciso envolver uma grande parte da Baixa e uma grande parte da Alta. Para envolver a parte cimeira da cidade, por exemplo, a Feira Antiga de Coimbra poderia ser no mesmo fim-de-semana da Feira Medieval. E mais: poderia juntar-se na mesma data a Feira das Cebolas e a Feira Cultural de Coimbra, que agrega a Feira do Livro e outras actividades;

-Este evento na Baixa deve ter a sua representação nas avenidas, ruas largas, becos, largos e vias estreitas. Deve envolver-se o mercado Dom Pedro V na festa. A feira Antiga poderia ir desde a Avenida Fernão de Magalhães, Rua da Sofia e Avenida Sá da Bandeira até à Praça da República.

MAS, AFINAL, O QUE É ISSO DE FEIRA ANTIGA?

Começo por dizer que em 2010 fui ao Mercado à Moda Antiga que se realiza em Oliveira de Azeméis e fiquei apanhadinho, pedrado com o que vi. E o que vi lá? Tão só uma recriação de imensas profissões em desaparecimento. Vi a performance da cigana a ler a sina; o vendedor da Banha da Cobra; a exibição de um espectáculo dos Robertos; o vendedor cigano de peças de pano para fatos; do sapateiro; do Barbeiro; o cozer pão ao vivo; os bons torresmos a dançarem em óleo a ferver no tacho de cobre e com as labaredas por baixo a crepitarem.
A partir dali estabeleci uma ideia para muitas outros ofícios que se poderiam recriar em Coimbra num certame parecido. Desde a costureira; do construtor de instrumentos musicais; do ceramista; do padeiro em forno de lenha; da cerzideira; da Franjeira, franjas para xailes; do alfaiate; a bordadeira; o técnico de rádios antigos; o técnico de máquinas de escrever antigas; o vitralista; o calceteiro; o chapeleiro, isto tudo a ser trabalhado ao vivo.
Depois, em desempenho por arte cénica, o cauteleiro; o amola-tesouras; o azeiteiro; o Pitrolino; o Leiteiro; o vagabundo; o pedinte; o pastor; o ardina; a vendedeira de peixe (varina); o onzeiro, espécie de agiota; o albardeiro; o ferrador; o moleiro; a criada de servir; o limpa-chaminés; o fotógrafo à la minute; a prostituta; o moço de fretes; o paquete; o carteiro; o padeiro de porta-a-porta; o polícia sinaleiro; o vendedor de banha da cobra; o trapeiro; a vendedeira de galinhas e ovos; o vendedor de castanhas asadas; o vendedor de gelados; a vendedeira de rendas; o vendedor cigano de peças de tecido.
Ao mesmo tempo que se mostram vários jogos tradicionais – não os enumero por a crónica já ir demasiado comprida.
Vale a pena pensar nisto?


FIM DA HISTÓRIA
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé
(Foto de Isabel Leão)


Subitamente, na semana passada, faleceu Concha Nunes dos Santos, de 85 anos.
Esposa de Leonel da Silva Rocha, durante as décadas de 1970 até finais de 1990, foram ambos comerciantes estabelecidos com malas e carteiras na Rua Eduardo Coelho com dois estabelecimentos. Um deles no número 50, no espaço hoje ocupado pelo Tico & Teco.
Segundo a sua grande amiga Isabel Leão, também comerciante do ramo de carteiras, marroquinaria e outros artigos de adorno na antiga rua dos sapateiros, “era uma pessoa fantástica! Estou muito triste pela partida abrupta da minha estrelinha, que amo tanto! Parecia que vendia saúde. Excepto aos fins-de-semana, todos os dias estava aqui comigo, na loja, a fazer-me companhia entre as 11h00 e as 13h00. Ainda ontem repetiu o costume de muitos anos e esteve a ajudar-me a abrir umas encomendas que recebi. Estou muito triste pela sua partida sem avisar e sem despedida!

Neste tempo de sofrimento e luto para a família, em nome da Baixa comercial, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames. Até sempre, Dona Concha!

sábado, 9 de setembro de 2017

O INDIGENTE

Resultado de imagem para o miserável
(Imagem da Web)




Conheço o António Manuel Seabra há mais de 30 anos. Tem agora 52 anos. Até há cerca de dois anos morou sempre na Alta da cidade. Também até há pouco mais do que isso e durante décadas trabalhou na Universidade de Coimbra. A Alta e a Baixa, passando pelas Escadas do Quebra Costas, foram sempre o seu teatro de paz existencial.
O Seabra é parente de grandes famílias -um seu familiar foi Ministro da Educação. Embora o meu conhecimento com ele fosse sempre um pouco distante -assim do género: bom dia, António. Estás bom?-, habituei-me a considerá-lo como se trata um vizinho sem grande intimidade. Entre nós houve sempre um respeito recíproco -pelo menos até há poucos anos. Foi sempre um homem calmo que, pressinto, mais que certo nunca levantou a voz para ninguém. Desde que me lembro dele, ainda moço, que intuí na sua forma de estar na vida alguma inadaptação à sociedade. Talvez porque andasse sempre acompanhado com “amigos do copo” fui formando a ideia de que o António era mesmo disfuncional, ou seja, codependente e incapaz de tomar as rédeas da vida com as suas mãos.

HÁ TRÊS ANOS A VIDA DESCAMBA...

Funcionário da Universidade de Coimbra de pleno direito, há cerca de três anos deu-lhe para fazer asneira da grossa e remível com cadeia. Sem pretender desculpabilizá-lo, talvez fruto de más companhias e de uma existência de prodigalidade com gastos maiores que os seus rendimentos, acabou a ser julgado no Tribunal de Coimbra há cerca de um ano. Certamente por não ter antecedentes, creio, apanhou pena suspensa. A consequência maior foi ter sido irradiado da função pública.
Hoje, de roupas sujas e sapatos gastos pelo tempo, passa as noites onde calha. Às vezes embriagado, é normal encontrá-lo a dormir durante o dia num banco junto à Loja do Cidadão ou na Praça do Comércio. O seu rosto, coberto de barba hirsuta, envelhecido e avermelhado, mostra que o álcool, como veneno ingerido diariamente, está a fazer a sua parte.
Encontrei-o ontem e, como de costume, interroguei como ia a sua vida. “Mal, muito mal! Durmo em entradas de prédios -esta noite dormi na Avenida Sá da Bandeira. O problema maior é a fome...”, respondeu-me. Perguntei: então não vais comer à Cozinha Económica? “Não, não vou! Como posso ir se tenho de desembolsar 1,70 € e nem um cêntimo tenho no bolso?”, enfatizou.
Depois de lhe pedir autorização para escrever sobre a sua história, fiquei a pensar que a sua narrativa pode estar mal contada, isto é, já estar sinalizado por uma assistente social e não ser bem assim. Mas e se for mesmo assim como ele conta?

UMA RESSALVA

Gostaria que este texto não fosse levado para a caridadezinha. O que pretendo dar eco é que um homem de 52 anos apenas, abandonado, sem eira nem beira, percorre estas pedras milenares da Baixa de Coimbra. E uma das várias instituições de apoio social que por aqui desenvolvem o seu trabalho devem sinalizá-lo e, primeiro, ver se de facto está a passar fome e, depois, tentar a sua ressocialização.
Provavelmente os mais duros de coração vão achar esta crónica comezinha e cheia de lamechice e dizer que ele está a apanhar os frutos que semeou. É verdade! Mas não foi julgado? E não está já a sofrer em dobrado o seu descaminho? Mais, sendo ele um desenraizado, um homem sem ânimo e incapaz de levantar um braço para pedir auxílio, uma alma perdida nos labirintos sociais, não teremos nós, eu, você e outros, obrigação de, no mínimo, pedir ajuda? O que vier a seguir, imagine-se que não quer mesmo ser ajudado, isso já nos transcende.
Este texto pretende apenas isso: uma mão estendida para ajudar o António Manuel Seabra.

(Texto enviado para a Divisão de Acção e Família, da Câmara Municipal de Coimbra)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

COMUNICAÇÃO DE UMA CONFERÊNCIA SOBRE O COMÉRCIO TRADICIONAL QUE CONVÉM LER






CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DAS MICRO, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS (CPPME)


José Brinquete
Secretário-Geral da CPPME 
Regional Workshop Small Retailers
21 de Fevereiro de 2017, Culturgest, Lisboa



Revitalização do Comércio Tradicional


Minhas senhoras e meus senhores:

Cabe-me falar da importância da “Revitalização do Comércio Tradicional” ou de proximidade, como também muitas vezes o designamos.

Nos últimos 30 anos assistimos a grandes mudanças:

I

Primeiro foi o aparecimento das grandes superfícies, que neste espaço de tempo não pararam de crescer, como enxames de abelhas, por todas as vilas e cidades do país. Sempre com privilégios na fiscalidade, nos horários de funcionamento, no estacionamento fácil e na capacidade de aquisição dos produtos.

Depois foi o aparecimento das lojas chinesas, mas com produtos de origem chinesa, indiana, paquistanesa, etc., com artigos a preços de baixo custo que as lojas nacionais muitas vezes não podiam suportar.

Mais recentemente surgiu a crise, esta crise provocada pelos desmandos do sistema financeiro, que conduziu milhares de portugueses ao desemprego, afectando profundamente o mercado interno.

Na verdade, a política de austeridade, de cortes nos salários e nas pensões, de aumento brutal de impostos, reduziu o poder de compra dos portugueses e levou milhares de micro e pequenas unidades comerciais ao encerramento e à falência.

Na generalidade das zonas comerciais das vilas e cidades, onde sempre estiveram o comércio e a restauração, foram retirados os serviços públicos e foi condicionado drasticamente o estacionamento e a mobilidade de uma forma geral.

A tudo isto, há que acrescentar as dificuldades de acesso ao crédito, com vista a modernização do negócio, todas as questões da fiscalidade, os preços proibitivos da energia eléctrica, a lei do arrendamento não-habitacional, que a CPPME designa como a lei dos despejos comerciais, e muitas outras questões que afectam igualmente a actividade comercial.

Qualquer vila ou cidade está completamente cercada por grandes superfícies comerciais e de lojas chinesas (só na Avenida da República, em Vila Nova de Gaia, já existiram mais de 30 lojas chinesas).

Acontece que, nas zonas históricas ou antigas de qualquer urbe, onde se situava, e ainda se situa, a maior parte do comércio tradicional, é, precisamente, onde está a memória de cada uma dessas populações.

Daí afirmarmos que matar o comércio tradicional é, ao mesmo tempo, matar a memória desses espaços urbanos.

II

O quadro atrás referido, é suficientemente demonstrativo da profunda crise por que está a passar o comércio tradicional.

Não há nada a saber! As políticas económicas, implementadas nestas três décadas, levaram ao abuso de «poder dominante» e de «abuso de dependência económica» por parte das grandes empresas e oligopólios sobre as PME, apesar de ilegais e ilegítimas face à lei da concorrência..

Podíamos referir ainda: as condições do crédito às MPME; as Agências de Viagens que passaram para as mãos das Companhias de Seguros. Ou, a asfixia das pequenas empresas dos sectores funerário, de oficinas de reparação, de empresas de reboque, etc.

Para já não falar da predação das grandes empresas de energia e combustíveis sobre as PME, ou as gravosas condições impostas pelas grandes cadeias de distribuição de vestuário (Grupo Inditex/Zara por exemplo) sobre a sua rede de PME subcontratadas, entre outros exemplos que aqui poderiam ser dados.
Deve dizer-se que as zonas históricas ou antigas ainda há décadas fervilhavam de intensa actividade comercial. Aliás o comércio terá sido algumas vezes o embrião desses próprios centros.

Hoje, na maioria das urbes, essa intensa vida comercial deixou de existir ou apresenta-se decadente. Muitos apontam a pequena dimensão, a pouca diversidade da oferta, a não adaptação de horários, a não adesão a formas de comércio electrónico ou, até, a vetustez dos equipamentos como causa dessa decadência. Há naturalmente alguma razão nisto tudo. Mas essa razão não explica tudo.

Como explicar que o comércio de proximidade, no geral desenhado na urbe, à escala humana, deixe de integrar a vida urbana? Que alternativa ou alternativas foram oferecidas?

Duma coisa temos a certeza, sem comércio e serviços não há cidade nos espaços históricos e em novas centralidades, que as dinâmicas e o crescimento da urbe sempre criaram. E, para desatar este o nó cego, a mobilidade urbana (do cidadão, da viatura e do estacionamento) é um dos aspectos vitais.

A maior parte das grandes superfícies incluem parqueamento, restauração e diversão. Constituem-se como pólos alternativos à cidade histórica e às novas urbanizações, estas quase sempre sem planificação adequada.

Que fique claro, na Confederação não diabolizamos as grandes superfícies, mas também não se podem matar os centros históricos. Há que lhe dar uso e serão sempre incompletos sem o comércio.

III

O que fazer, então?

O planeamento urbanístico pode, e deve, definir as regras de ocupação do território que, a ser cumpridas, impediriam muitas das grandes superfícies. Sobretudo, aquelas que estão a mais!.

Depois, é essencial revitalizar os centros históricos, investindo na regeneração urbana.

Então que políticas de regeneração?

1 -A nosso ver, através de direcção municipal, participada, discutida com as populações, com os agentes sociais, económicos e culturais. Depois, políticas de manutenção de emprego, de espaço urbano ocupado, durante todo o dia, por aqueles que lá residem mas também por aqueles que lá trabalham. Voltar a instalar serviços públicos que empregam e mobilizam milhares de pessoas para os centros das Vilas e Cidades.

2 -Modernizar velhas estruturas locais, sejam elas o mercado, a escola, o jardim de infância, o lar de terceira idade, o teatro, o museu ou as colectividades. Criar novas actividades, onde as indústrias criativas poderão ter um importante papel – na animação, no entretenimento, na cultura e até nos desporto.

3 -Na manutenção da habitação e dos habitantes, procurando mesclar a actual maioria de população envelhecida com novos habitantes, que serão os novos utilizadores de todos os equipamentos e actividades antes referidas.

4 -E claro, políticas de apoio ao comércio de proximidade no acesso ao crédito, no arrendamento comercial, na redução dos impostos e das taxas, na baixa dos custos fixos e de contexto, na mobilidade (que como dissemos atrás é crucial), no combate à concorrência desleal fazendo funcionar a autoridade da concorrência, na melhoria do poder de compra dos portugueses, entre muitas outras medidas.

IV

Minhas senhoras e meus senhores!

Colocadas algumas questões que nos parecem centrais para a abordagem desta matéria “Revitalização do Comércio Tradicional”, gostaríamos de dizer, por fim, que estamos disponíveis para continuar a procurar as melhores soluções para a resolução dos constrangimentos aqui recenseados e outros que vierem a considerar-se importantes.

Muito obrigado pela atenção dispensada!

José Brinquete
Secretário-Geral da CPPME

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA




 CRÓNICA ESCRITA A QUATRO MÃOS.
POR MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES

Coimbra tem um património de grande valor. A maioria está concentrado na zona histórica, Alta e Baixa, se bem que alguns monumentos estejam fora desta área, como é o caso da Igreja de Santo António dos Olivais, Mosteiro de Celas e os Conventos de Santa Clara, que, dada a sua beleza, merecem ser visitados. Muito já se criticou neste blogue sobre o triângulo turístico desta urbe: Largo da Portagem/Arco de Almedina/Universidade. Os visitantes descem dos autocarros na Avenida Navarro e é vê-los subir a Rua Ferreira Borges, passando pelo Arco de Almedina, Quebra Costas e a desaguarem no Largo D. Dinis -por vezes este percurso é feito no inverso. Algumas vezes prosseguem a marcha até à Igreja de Santa Cruz (Panteão Nacional) e voltam para trás para seguirem até à Alta. Estes percursos não incluem a via larga do conhecimento. A Rua da Sofia, sendo parte intrínseca que deu origem à classificação de Património Mundial, pela UNESCO, fica de fora como se não contasse para a enorme riqueza patrimonial de Coimbra.
Sejamos realistas, com as igrejas encerradas, com a maioria dos colégios ocupados e inacessíveis a qualquer turista, com monumentos abandonados à sua sorte, para não falar da falta de requalificação de muitos edifícios, é natural que esta importante ligação urbana seja excluída do itinerário turístico da cidade.
Como conimbricense, deixa-me triste saber que aqui tão perto um vasto acervo museológico permanece inacessível e, não sendo explorado, prejudica todos os operadores em redor. De uma vez por todas é preciso acabar com ocultação intencional -e temos à porta uma boa ocasião para, cara-a-cara, dizer isto mesmo aos responsáveis por este situacionismo, nomeadamente a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), a Universidade de Coimbra e o Turismo Centro de Portugal. Segundo o Diário de Coimbra (DC) de hoje, promovido pela APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, em parceria com a CMC, no próximo Sábado, 22 do corrente, vai realizar-se no Teatro da Cerca de São Bernardo, no Pátio da Inquisição, pelas 18h00, o evento “A Visão do Guia Intérprete para uma Cidade Património da Humanidade”. Citando o DC, é o tema de uma conferência que “pretende ver discutida a problemática da vivência do Centro Histórico de Coimbra pelos seus vários intervenientes, sejam eles os comerciantes, os transeuntes, a população da cidade, a população estudantil, os estudantes abrangidos pelo programa Erasmus ou os turistas”. Para além da vereadora da Cultura da edilidade, Carina Gomes, e do vice-reitor da Universidade, Filipe Menezes, estarão presentes altos responsáveis pela Turismo Centro de Portugal e do SNATTI, Sindicato Nacional da Actividade Turística, Tradutores, Intérpretes e Guias Turísticos.
Eu estarei lá para contar o número e ver, in loco, quantos operadores, comerciantes e industriais de hotelaria, interessados nesta problemática estarão presentes. A ver vamos, como diz o cego!
Há cerca de uma semana reparei em algo que me alegrou a alma. Cheguei mesmo a pensar se não seria uma alucinação. Verifiquei que um grupo de turistas vinha da Rua da Sofia em direção ao Panteão Nacional. Contente, dei por acabado ser uma excepcão, que apenas confirmava a regra. Mas não. Pouco depois, noutro dia após, aconteceu de novo. Eureka! Afinal, parece que os guias turísticos descobriram a Rua da Sofia.
Se é verdade que, por um lado, a maioria dos visitantes ainda faz o triângulo turístico, por outro, é com satisfação que se começa a ver nos roteiros a inclusão da Rua da Sofia. É bom que assim seja, pelos vistos, o hábito está a mudar o monge. Mas de pouco vale o esforço se as igrejas e restantes monumentos continuarem fechados.
Em nome da cidade, em nome de todo o património classificado, Alta e Baixa, em nome de todos quantos ganham a vida ligados ao turismo, a Rua da Sofia merece ser respeitada. Em nome do bom-senso, este abandono tem de ter um fim. Pela incapacidade, ou desleixo, é uma riqueza que se desperdiça diariamente. Passando estes motivos fortes, é também a nossa história, pelo apagamento da memória, que está a ser lesada. Pelos seus colégios ligados aos sete séculos de existência da Universidade, aqui reside uma grande parte da identidade de Coimbra.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

COIMBRA VISTA DA MINHA JANELA






ESCRITO A QUATRO MÃOS.
POR MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES 


Pujante, cheia de alegria, vivi a minha infância na Baixa onde podia não haver muitas iniciativas mas certamente havia mais movimentação de pessoas.
Hoje vemos uma zona com muitos prédios degradados e quase vazia de moradores, a essência que constitui o fulgor, a vida de uma comunidade.
Também por parte dos comerciantes deste bairro comercial há muitas culpas por se ter chegado onde chegou. Pela passividade e deixa-correr, pela falta de coragem em dar a cara e incapacidade de sublevação, as mais apontadas são o fecho do trânsito nas Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges e a abertura de centros comerciais. Ao longo dos últimos quinze anos, os negociantes têm aceitado todas as decisões políticas como desígnios de Deus.
Coimbra até ao final da década de 1980 foi uma cidade parcialmente industrializada. Só para referir algumas grandes empresas desaparecidas, tivemos a Fábrica da Cerveja Topázio, a Triunfo, a Estaco.
O fecho destas indústrias, pelo desemprego criado e penúria financeira, levou a que menos pessoas consumissem na zona comercial.
Depois foi o progressivo encerramento de serviços, pontos de atracção que obrigavam as pessoas a vir e a movimentar-se no Centro Histórico. Um dos mais recentes, há poucos anos, foi o Correio do Mercado –em criança, como num bailado bem ensaiado, lembro-me do corrupio de pessoas a entrar e sair do bonito edifício. O seu desaparecimento foi mais uma seta envenenada a contribuir para o empobrecimento da Baixa e do Mercado Municipal D. Pedro V.
Outro foi o Arquivo Municipal. Outro ainda, foi o posto número um, de saúde, na Avenida Sá Bandeira -diziam na altura que, por falta de obras, estava em risco de colapso. A verdade é que detinha poucas condições mas, na realidade, abandonado e sem utilidade, ainda lá está de pé. Outro serviço ainda foi a Manutenção Militar. Quando era pequeno via lá soldados, não sei se ainda está activa, mas é raro ver lá alguém.
Também pela deslocalização do antigo hospital, na Alta, em 1980, paulatinamente, vimos abalar os consultórios médicos. Caminhávamos pelas ruas largas e dávamos de frente com as placas médicas penduradas nas varandas dos prédios. Víamos também anúncios de advogados, de cabeleireiros, de fotógrafos e até escritórios de grandes firmas, já que, pela intensa procura, o exercício comercial não se limitava ao rés-do-chão. De muitos outros, são apenas alguns exemplos de serviços públicos e privados que desapareceram e davam dinamismo a esta zona.
De grandes firmas comerciais como, por exemplo agora, a Coimbra Editora que, perante a nossa impotência encerram, nem vale a pena um grito. Morreu? Paz à sua alma!
Na mesma enxurrada foram os cinemas, como o Tivoli, o Sousa Bastos, o antigo Avenida e até o Teatro Académico de Gil Vicente, que até à década de 1980 passou filmes na sua espectacular sala. Antes da chegada dos Multiplex nas grandes superfícies ainda se experimentou cinema, com duas salas, no novo Centro Comercial Avenida e no Centro Comercial Girassolum. Nesta luta entre o grande poder económico das grandes distribuidoras e os independentes, naturalmente, os segundos tinham que morrer. Tudo se resume a uma questão de força em que está transformada a economia nacional. Como está tudo encadeado, o desaparecimento dos cinemas da zona da Baixa, a par de outros serviços, é apenas a amostra de uma grande tragédia oculta nos subterrâneos da razão. Com um poder político hábil a disfarçar as desgraças como se remendasse uma camisa velha, procurando capitalizar a calamidade em proveito próprio ou partidário, tornamo-nos animais amestrados, e habituaram-nos a justificar tudo em nome do progresso. Tudo o que é tradicional, passado de costume arreigado popular, cheira a mofo e deve ser trucidado em nome da inovação. Transformamo-nos em coveiros da nossa memória. Os optimistas continuam a achar que na natureza nada se perde, tudo se transforma, mas a verdade é outra: tudo se perde e se transforma em algo absurdo e que não se vislumbra a utilidade social. Quando se destroem pilares citadinos que constituíram a nossa identidade colectiva e, em substituição, surgem postes de remedeio que ninguém reconhece, é evidente que, enquanto colectividade, estamos ameaçados e o resultado social, inevitavelmente, é o desastre. Como autómatos, sem dignidade nem personalidade, passamos a caminhar em direcção a nada, sem objectivo, e somente em busca da sobrevivência.
Valerá a pena pensar nisto?


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA

(Foto de Márcio Ramos)



TEXTO ESCRITO A QUATRO MÃOS.
POR MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES


Há em Coimbra vários centros comerciais. Embora alguns no centro de Coimbra estejam às moscas, como o Avenida, o Visconde, o Mayflower, outros, fora da cidade velha, parecem autênticas cidades dentro de outra cidade, é caso do Dolce Vita, Coimbra Shopping e Fórum.
Estamos perto de uma altura mítica do ano que, embora de objectivo paganístico, é um período de santidade para o comércio e indústria hoteleira: o Natal e Passagem de Ano.
Na televisão já há muito tempo que se vêem anúncios da quadra natalícia. As grandes superfícies já estão engalanadas para esta época festiva e as suas lojas  igualmente há mais de um mês. Embora fossem inauguradas as luzes no último fim-de-semana no maior centro comercial de Coimbra, a Baixa,  seguindo o costume de anos anteriores, parece que o espírito do menino Jesus  se atrasou. É verdade que a maioria dos lojistas tradicionais sente o desânimo e muitas vezes nem vontade tem de ornamentar a sua loja  para a festa que se avizinha, mas, apesar disso, já vou vendo alguns estabelecimentos decorados. Embora as grandes áreas comerciais da cidade andem muito à frente nas ornamentações, a Baixa, como é hábito, anda ao ralenti e pouco se vê, cheira ou sente –porque a cidade tem cheiro, tem emoção, tem vida.
Já vi as luzes nas ruas e o programa de Natal e Passagem de Ano. Pergunto: que género de luzes? Esta zona comercial deveria ser totalmente adornada com decorações festivas para a fazer renascer das cinzas -sim, porque a Baixa está muito em baixo. No entanto, só  três artérias, as Ruas Ferreira Borges, a Visconde da Luz e a Sofia –esta como enteada das primeiras-, as mais largas, são engalanadas  e algumas pracetas. E, seguindo a tradição de anos anteriores, provavelmente quando os  comerciantes tentarem dar mais luz ao centro comercial a céu aberto metendo uns vasos decorativos,  uns pequenos arbustos a lembrar a quadra, iniciativas que animem as vias públicas, levam uma multa para os remeter à quietude. Ou seja, em metáfora é como se o Paço Municipal, senhor intemporal, passe a mensagem de que se não  iluminar  as artérias nenhum dono de loja tem o direito de alindar a sua porta. Há qualquer coisa que não bate certo. Não deveria ser o contrário? Não deveria ser obrigação? Isto é, convidar todos, através de postura municipal a comparticiparem no embelezamento? Até porque, nos becos e pracetas os candeeiros de iluminação pública estão de tal maneira conspurcados que não irradiam luz alguma.
Nas ruelas mais estreitas, as únicas luzes de Natal que foram colocadas foi um pequeno painel. Do ponto de vista da equidade estará certo? Não são todos filhos de Deus? A verba não provém do mesmo fundo, o erário público? O argumento de que a cavalo dado não se olha o dente –no sentido de que é a edilidade que assume os custos- não cola. Não há cuspo que aguente tamanho despautério. O acto simbólico de trazer o Pai Natal num carro de bombeiros é pouco. Muito pouco! Pouquíssimo! É atirar milho para entreter os galináceos.
Acho bem que se comemore na Baixa a Passagem de Ano. Mas, a complementar, durante esta época festiva todas as ruas comerciais e praças deveriam estar carregadas de espírito natalício, bem iluminadas, e até com música alusiva à época.
Não deveria haver bloqueios aos comerciantes. A edilidade, pelo menos nesta altura, deveria mostrar solidariedade e dar um sinal de paz e concórdia.
Vai haver vários concertos mas esqueceram a música clássica tão indicada para o mês do nascimento de Jesus. Porque não toma a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, a iniciativa de realizar uma Noite Branca com teatro de rua, um presépio vivo, referente ao Natal?
Pressinto que este ano a Câmara Municipal se desligou de contribuir para a revitalização comercial. Se a intenção é, neste preceito, mostrar que o executivo liderado pelo PS é muito pior do que o anterior dirigido pelo PSD estamos conversados e todos convencidos de que assim é, de facto.
Quando se visiona na Internet outras cidades e vilas do país  a resplandecerem de luz e cor -e não me refiro somente ao Porto ou a Lisboa-, onde dá prazer percorrer as ruas, passear e apreciar o encanto e a mágica do tempo, Coimbra perdeu o comboio, o metro, e segue de bicicleta –penso que não terá nada a ver com a cimeira do clima.
Sentados e a rezar à padroeira, continuamos à espera de um executivo aberto, que desça do pedestal e, de peito aberto, entre nas lojas e venha falar com os comerciantes- é certo que há excepções no grupo de vereadores eleitos, mas são residuais.
A Baixa tem tudo para competir com os grandes centros comerciais. Porém, numa tradição indecorosa, está abandonada à sua sorte pelo poder autárquico. É uma pena! Ou melhor, é uma tragédia que custa muito caro a muitas famílias que fazem da arte da compra e venda o seu modo de vida.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA (CARTA DE UM MORADOR)




POR ALEX RAMOS
(E LUÍS FERNANDES)

Olá:

Espero que esteja tudo bem com o senhor. Acima de tudo, o meu respeito por defender um património humano e cultural. Poucas pessoas o fazem.
Concordo com muitas coisas que diz no blogue.  Nunca escrevi, pois não sou exímio a escrever como o senhor. E depois... não sou dado às letras,  seja para escrever ou ler mas, confesso, das poucas páginas da Internet que, dia sim dia não, venho ver se há novidades, e até leio às vezes com atenção, é o seu blogue.
Com o devido respeito acho que tem uma visão algo romântica de Coimbra.  Entende-se, não? Para mais, afinal Coimbra é a capital do romance, da saudade... Mas passo a  explicar  o meu ponto de vista, se me deixar elencar os problemas na Baixa.
Eu moro desde os 5 meses ao lado da Maria, a nossa amiga comum, na rua larga. Sou do tempo em que a Baixa fervilhava de gente, de vida. Agora parece um deserto. Tenho 35 anos...
Coimbra é uma cidade que vive essencialmente de quê?  Respondo: juventude. Você pode dizer não. Vou explicar melhor. Antigamente não o era,  havia a Estaco, onde a minha mãe trabalhou, havia a Triunfo, a fábrica de cerveja. Havia indústria, algo que desenvolvia a cidade. ...Esse foi o primeiro desastre para a Baixa. O acabar com a indústria em Coimbra. As pessoas tinham dinheiro, vinham à  Baixa, faziam as suas compras. Hoje  não há fábricas. Coimbra é apenas uma cidade de estudantes. Ora, sendo assim,  no meu ver, é aqui que se deve apostar e forte. Se temos a Universidade como Património Mundial da Unesco, naturalmente, que usemos esta valorização em nosso favor.

O PERIGO PODE VIR DO CÉU

Na Baixa há prédios em perigo de matar alguém. Na Rua da Moeda há um deles, em que passam ali dezenas de pessoas. Já olhei para cima tantas vezes. Vêem-se vidros numa janela que às vezes, penso, basta um ventinho mais forte, cai e mata alguém.  O presidente da Câmara queixou-se de uns fios  feios nas ruas, mas disso, do perigo que pode vir do céu, não se queixa ele... fios no ar não matam, agora um vidro com ângulo certo .... pode arrumar qualquer um que por lá passe no minuto errado. Já agora, porque não fazer na Baixa o que se fez na Rua Corpo de Deus? Ou seja, tirar os fios aéreos, que passavam por cima, e remetê-los para o solo? Há zonas na Baixa que mais parecem centrais eléctricas de tanto fio. Isso sim, é feio.
 
CASAS A CAIR DE DESGOSTO

Em relação aos edifícios degradados porque não reabilitar esses prédios para habitação e meter  na Baixa jovens? Outrora não havia qualquer casa que não tivesse morador. Hoje assistimos ao inverso: é difícil  ver residentes. E por que não povoar esta área antiga com jovens? Por outro lado, não vejo como é que alguém que viva nas zonas da Solum, ou Bairro Norton de Matos, venha para a Baixa fazer compras tendo lá perto O Dolce Vita e o Coimbra shopping. Havendo aqui gente a morar, é evidente, eles não irão para o outro lado da cidade. Aqui fazem as compras, aqui consomem. Mas há ainda outra coisa: os mais novos têm carros,  onde estacionam? Esse é um dos maiores erros aqui na Baixa. Tiraram os carros na Rua Visconde da Luz, a meu ver, a Praça 8 de Maio está mais linda -sim, tirando a “piscina”. Mas agora as pessoas que vêm cá onde estacionam? E depois as que moram cá onde estacionam?  Em Coimbra qualquer canto é a pagar. Um jovem, pagando renda de casa, com tantas dificuldades, não pode pagar à Câmara para ter algo que é seu para estar estacionado perto de si. Não há estacionamento gratuito... e quando há é longe da  Baixa, o que não ajuda no dinamismo que deve estar subjacente ao seu almejado crescimento.  Às vezes, nas minhas caminhadas, passo na praça velha... e são carros parados ao desbarato. Acho mal, muito mal mesmo! É uma praça pedonal, não um estacionamento.

ASFALTO ENCARDIDO

Outra situação. Por que razão as ruas da Baixa e não só estão sempre tao sujas? Antes, era eu pequeno, passava ao Sábado um carro que lavava as ruas. Agora só na Queima das Fitas e nem sempre. Às vezes, na Baixa, passo em ruas que é um cheiro horrível. Dou um exemplo, perto do largo do antigo Saul Morgado, na rua Paço do Conde, tantas vezes, é um cheiro mau, parece que está por lá alguém morto. Não vejo lixo mas acho que passar numa artéria onde cheira mal... A minha mãe acha que é por não lavarem os ralos dos esgotos. Acredito, mas também pode ser algo mais. Há ruas sujas  onde as pedras estão mesmo muito porcas, para além disso,  depois há a falta de civismo tantas vezes relatada por vossa excelência.

O LIXO SOB OS NOSSOS PÉS

Por exemplo, veja-se o lixo no chão deixado ao lado dos contentores onde se deveria meter o entulho. Isto não é gozar com quem o recolhe? Há algo curioso, ao fundo da Rua Adelino Veiga colocaram dois contentores muito melhores dos que os que lá estavam e o cheiro desapareceu, até ver. Por que não distribuem mais uns dois ou três na Baixa  em locais estratégicos? E por que  não é recolhido o lixo, digamos, três vezes por dia, de manhã, à tarde e à noite? Já agora que se fala tanto em reciclagem... na Baixa não vejo um único Ecoponto. Separamos os detritos em casa para quê? Vamos andar dois ou três quilómetros para o recolher nos contentores devidos? Se muitos jovens nunca o fariam, pela debilidade dos mais velhos, acha que pessoas idosas teriam este cuidado?  Há que haver infraestruturas adequadas para facilitar as coisas.

COISAS DO DEMO

Depois há coisas na Baixa que não lembram ao diabo. Onde moro, na Rua Visconde da Luz, quando falta uma pedra junto a um ralo o que se faz? Não metem pedra mas sim cimento. Será que há assim tanta falta de calcário? Ou o que não há é formação das pessoas que trabalham as pedras, os calceteiros?  Ainda outra coisa, na Rua Ferreira Borges as sarjetas, ralos, estão inclinados. É bom para as pessoas desprevenidas darem uma queda. Também os passeios, alguns, vêem-se desnivelados. Na minha rua, a Visconde da Luz, e seguinte, na Ferreira Borges, deveria haver intervenção.

WIRELESS E CONFORT

Outra coisa, por que  não há Internet da PT  na Baixa de Coimbra? Há da Vodafone, da Cabovisão. E por que não há da Meo?  Porque não pode a pessoa escolher? Porque tem que se restringir a uma velocidade pequena, ou a um operador? Já agora as casas deviam ter um mínimo de conforto como, por exemplo, casas de banho. Há lares que só com remodelação profunda… não quero dizer que as casas devam ter ar condicionado, mas com janelas  duplas, sem retirar a traça original. Até deveria poder ser janelas de alumínio,  mas inseridas na traça original do prédio. Hoje há tantos materiais a imitar a madeira!

I LOVE YOUR, BAIXA

A Baixa à noite, mesmo com cafés abertos, é um deserto  a partir das 22h00. Muitas vezes já não passa cá ninguém. As Marchas Populares são uma boa iniciativa,  “djs” nem tanto. Passo  a explicar. Na última “Noite Branca, realizada no Sábado, sim houve cá muito povo. Mas animadores de música nem por isso. Sem luz? Sem luzes é o mesmo que arroz doce sem arroz. Os “djs” devem dar música, mas sem esquecer um “background” que anime  as pessoas. Apenas meter música? Para isso meto colunas na janela e, olhem, também sou “disco jokey”!    como seria o ideal? Vou dar uma ideia. Por exemplo, na  Praça do Comércio e naquelas pracetas  como há várias deveriam meter armações em treliças e meia dúzia de luzes em cada uma, mas luzes que animassem e não a do  tipo dos concertos de fados ou ranchos, que só acendem e pronto! Na praça  velha, nestes dias de festa, poderia ser mesmo uma discoteca ao ar livre, assim no género como foi com o grupo “Os Azeitonas”, no ano passado. Na minha rua mais larga, a Visconde da Luz, podiam meter arcos em treliça com projectores. Os transeuntes passavam e seria lindo, brutal, dava muito mais animação à Baixa. É uma uma ideia que fica à disposição, mas depois pagam os direitos de autor…heheheh!
Agora a sério, por que não inovar, fazendo algo  que puxe os jovens? Quanto às lojas abertas até à meia-noite....

OS HORÁRIOS DOS SMTUC

Ainda não acabei. Há ainda mais propostas. Há pessoas que não vivem cá, residem nas redondezas. Por que é que a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, não estabelece um protocolo com as empresas rodoviárias, como os SMTUC, Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra,  para as carreiras nesses dias estarem até a funcionar até às 2h00? Há pessoas que trabalham aqui e ate gostavam de estar abertas mas não há transportes.

IDOSOS E O POLICIAMENTO

A Baixa deve renovar sua oferta às pessoas idosas. Como o senhor disse numa crónica recente, os mais velhos não têm força anímica,  mas há jovens que devem querer investir na zona e aí a Câmara deveria dar incentivos fiscais para quem  abrisse uma loja na Baixa. Para fomentar a participação, nas “Noites Brancas” deveria haver incentivos camarários para quem estivesse aberto.
Deveria haver policiamento efectivo. Não é meter câmaras de videovigilâncias e já esta! Assim também eu! É a lei do menor esforço. Deveria haver agentes na rua para as pessoas se sentirem seguras. Moro na Baixa há mais de 30 anos e agora, sobretudo durante a noite,  sinto receio de andar  em certas ruas, pois são um deserto de vida.  Na noite do concerto dos Azeitonas um colega meu de Lisboa  disse-me: “Alex, jamais  passava aqui nesta rua” –referia a Rua Adelino Veiga. Esta artéria estava completamente vazia e o concerto a bombar ali a poucos metros. É incompreensível a falta de pessoas e uma enorme sensação de insegurança numa zona que é o coração da cidade. Não deveria ser assim.

UMA DISCOTECA NA BAIXA

Sou da opinião e muito mais gente também concorda que se houvesse aqui uns bares e uma discoteca a Baixa tinha mais vida –por exemplo, aquela loja enorme em frente da Igreja de São Tiago (as antigas Galerias Coimbra), porque não fazer ali uma discoteca ou bar para atrair mais juventude? Claro que sem esquecer a  protecção contra o ruido. É que tantas vezes estou na minha janela e vejo os jovens a vir do Largo da Portagem e a irem para a Alta. Porque não se dá a volta a isto? Creio que trazia mais vida à noite nesta parte velha da cidade. Na Baixa há falta de oferta.

ELECTRÓNICA E CINEMA

Como já disse em cima trabalho em computadores. Quero comprar um componente, onde vou? Tenho que ir à Worten -onde há pouca oferta- ou mandar vir de lojas online. Por que razão não há uma loja de  informática na Baixa? A loja Sportino, na rua Visconde da Luz, acho que  está a ter sucesso, porquê? Parece-me, porque é direcionada para os jovens.
Por que não há  na Baixa um cinema?  Para ver um bom filme temos que ir aos centros comerciais. Lembro-me do Centro Comercial Avenida a fervilhar de  gente. Íamos ao cinema, víamos as lojas e comprava-mos. E agora? Acabou o cinema e está às moscas.

VENHA O FADO

 Acho bem a iniciativa de haver às quintas-feiras fado de Coimbra na Praça 8 de Maio. Embora não goste dos ranchos folclóricos, acho bem à sexta-feira haver espectáculos destes agrupamentos. Agora pergunto e para os jovens não há nada?  Na década de 1990, Manuel Machado, o presidente da edilidade da altura e actual, pode ter feito asneiras mas com os concertos que fazia na Praça 8 de Maio trazia multidões.  Havia teatro com pirotecnia,  havia ritmos cubanos  para dançar e até havia rock. Por que não reactivar esses  tempos  de glória e  trazer para a Baixa concertos que atraiam os jovens? Acho que é destas iniciativas que a zona precisa. Temos uma Praça 8 de Maio boa para concertos e uma Praça do Comércio óptima. Acho que é  desvalorizar estes espacos se forem destinados somente para explanadas.

A AGÊNCIA DEVE ABRIR OS BOLSOS

A APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, faz iniciativas disto e daquilo, algumas certas outras nem tanto. Acho que cada um se esforça para dar seu melhor.
No Natal, no meu tempo de ainda mais jovem, havia música  nas ruas todas da Baixa; havia iluminações natalícias em toda esta área.  No ano passado as ornamentações ficaram apenas pela Rua da Sofia, Rua Ferreira Borges, a minha rua, e algumas pracetas. No Natal deste ano, por que não junta a APBC uns euros,  contrata uma empresa e ilumina as ruas todas da Baixa que tenham comércio? No Natal passado, não  fossem os laços de papel e não parecia a época mais bonita do ano. Há que animar as ruas nesta quadra

PRESERVAR ÍCONES

A meu ver, no virar do milénio, Coimbra virou só cidade estudantil.  E é aqui que se deve apostar: nos estudantes. A Câmara Municipal deveria dar incentivos, quer fosse no pagamento de água e luz ou até no arranjo, para manter certas relíquias comerciais no activo, para que não encerrassem. Há um estabelecimento que, sempre que por lá passo, me deixa abismado: a Farmácia  Nazareth. Com os seus traços vintage a lembrar o antigo, tem aquele romantismo, aquela arquitectura  bela e única, que me tira as palavras e coloca o coração a pulsar. Assim como na minha rua, há um prédio verde com brasão da cidade. Lindo!  Devia-se preservar estas preciosidades do passado, sem dúvida, mas também adaptá-las a uma nova visão. Dar-lhes outra utilidade. Sou jovem, gosto de coisas antigas. Acredito que uma pessoa idosa  é uma biblioteca ambulante e quando  desaparece, pela morte, fica mais pobre a cultura do país.

AQUI NASCEU A CAPITAL DO REINO

É nas zonas antigas, como a Baixa e a Alta, que está a identidade de uma cidade, da sua população e quem sabe de um país. Ali na Igreja de Santa Cruz estão enterrados  os primeiros Reis de Portugal.  Foram eles que erigiram Portugal. Num lado está a bandeira actual, noutro, já algo suja, está desfraldada a primeira bandeira oficial da Nação. Gostando do antigo e interessando-me por história não concordo com o desmazelo.
Não tenho mais nada a dizer.  Despeço-me e agradeço  ter tido a maçada de ter lido o meu testamento. Com alguns erros, admito, mas, tenho a certeza, o senhor corrige. Escrevo como costumo falar ao telemóvel.
Abraço e continue essa luta, pois acredito que se um homem não pode mudar o mundo pode fazer muito por ele.
Cumprimentos calorosos deste jovem que o respeita. Desculpe qualquer coisita.