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domingo, 23 de outubro de 2016

UMA ESCANDALOSA VISÃO DESFOCADA E DISTORCIDA DA CIDADE POR QUEM TEM OBRIGAÇÃO DE A VER BEM





Promovida pela APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, e CMC, Câmara Municipal de Coimbra, realizou-se ontem, no auditório da Escola da Noite, no Teatro da Cerca de São Bernardo, a conferência seguida de debate sobre o lema “A visão do Guia Interprete para uma Cidade Património da Humanidade". O painel era constituído por representantes das entidades que são responsáveis pelo turismo na cidade. Ou seja, são estas organizações que respondem perante os cidadãos -operadores comerciais e outros privados- pela forma como “vendem” a cidade ao visitante e detém o poder de, no caso não desempenharem bem a sua função, alterar o situacionismo e fazerem melhor.
Logo a abrir, no púlpito estavam sentados Vitor Marques, em representação da APBC, Paulo Cosme, secretário-geral do SNATTI, Sindicato Nacional da Actividade Turística, Tradutores, Intérpretes e Guias Turísticos, Maria José Fernandes, guia turística, Luís Filipe Menezes, vice-reitor da Universidade de Coimbra, Marli Monteiro, Turismo Centro de Portugal, e Carina Gomes, vereadora da Cultura e em representação da Câmara Municipal de Coimbra.

UMA DECLARAÇÃO PRÉVIA EM JUIZO DE VALOR

O que assisti ontem no espaço da Escola da Noite foi demasiado mau para conseguir admitir ser verdade. O que vi foram tecnocratas -para não lhes chamar pior- cheios de apriorismos, pré-conceitos, sobre a cidade, desconhecimento total sobre o que se passa em Coimbra. E, para meu desespero -que deixei bem sublinhado na sala-, são estas pessoas representantes de organismos que trabalham todos os dias com turistas e mostram a cidade a quem nos visita (deveriam mostrar). Uma nulidade de agentes, velhos mais idosos do que eu -como lhes chamei cara-a-cara. Se a APBC, na pessoa do seu presidente Vitor Marques, e a Câmara Municipal de Coimbra, na pessoa da vereadora Carina Gomes, não fossem apenas e só instituições políticas -não no interesse da polis mas na vantagem pessoal e partidária- tinham obrigação de, no mínimo, pedir às agremiações a que pertencem estes personagens estranhos a sua demissão imediata nestas funções de representação.
Embora, na primeira parte, gostasse do desempenho da vereadora, para o final acabou a juntar-se à restante molhe disfuncional. Enquanto anfitriões, quer Carina Gomes, a vereadora, quer Vitor Marques, da APBC, tinham obrigação ética e moral de repudiar com veemência as asneiras, o desconhecimento e os insultos à Lusa Atenas que foram verberados naquele auditório. Mas não, como deputados na Assembleia da República, que no fim de uma contenda vão beber uns copos, preferiram engolir o enxovalho.
Não admira, portanto, que o turismo na cidade vá continuar “viciado”. Não me causa surpresa que tudo vá continuar igual, nomeadamente o triângulo Largo da Portagem/Almedina/Universidade e a Rua da Sofia sem turistas -mas os comerciantes e hoteleiros desta antiga rua da sabedoria têm o que merecem. Ontem, neste importantíssimo debate estiveram presentes uma dúzia de pessoas ligadas à hotelaria, cafés, hotéis e alojamento local -nem um da Rua da Sofia- e quatro comerciantes. Repito, uma dúzia de hoteleiros e quatro comerciantes. No total na sala estiveram cerca de quarenta pessoas, a maioria estudantes de turismo e guias e o restante era constituído por jornalistas.
Na parte que me toca deixo já um veredicto: quase certo, foi a última vez que participo numa fantochada deste género. Irrito-me facilmente com a hipocrisia generalizada e não estou para perder tempo com gente, sem auto-estima, que se deixa ultrajar em nome de interesses mesquinhos, que se alheia e não participa, que não defende o que é seu. Para mim, chega! É isto que querem para a cidade? Que faça bom proveito a todos -aos comerciantes, aos hoteleiros que não compareceram, às entidades que ali estiveram (mal) representadas.
Para melhor aferir o que disseram as seis “almas” perdidas vou transcrever o essencial dos seus discursos anedóticos. Peço paciência para lerem. Se possível, repitam a leitura. Esta crónica pretende ser um documento para os vindouros, uma prova irrefutável de que estamos no ponto nem de retorno nem de avanço, no limbo existencial, por que poucos se importam com o que está acontecer. A maioria prefere mandar desabafos nas redes sociais do que dizer cara-a-cara o que estes incompetentes merecem ouvir.

E ABRE-SE O PANO

Pelas 18h10 -com apenas dez minutos de tolerância depois da hora-, enquanto anfitrião, Vitor Marques, levantando-se da mesa, apresentou e agradeceu a vinda dos ilustres convidados.
Seguidamente tomou a palavra Filipe Menezes, vice reitor da Universidade de Coimbra.
Vamos ouvir Filipe Menezes: “É muito importante para todos nós conhecer a cidade. Vim a pé e tentei tomar um café pouco antes das 18h00 na Rua da Sofia: estava tudo fechado. É preciso receber bem as pessoas e saber contar bem a história da cidade. Os comerciantes podem ter uma loja cheia de coisas e o turista não gostar de nada. Nunca sabemos o que o turista quer. O comerciante deve saber o que o turista quer. Em 2013 tivemos 190 mil turistas a visitar a Universidade. Em 2016 vamos ter 450 mil visitantes. Isto é o resultado de ter uma equipa que se dedica ao turismo.”

Juízo crítico desta intervenção:
O senhor vice-reitor, ao ser juiz em causa própria -isto é, auto-elogiando o seu desempenho- está a dar um mau contributo para o que é necessário alterar. Por outro lado, embarcando no facilitismo, está a ser incorrecto na apreciação global da Rua da Sofia. É isto que entende por contar bem a história da cidade? À hora a que passou, o Penta, café e pastelaria, estava aberto. Quando questionado por mim, para esta inverdade, disse que era uma forma de apresentar o problema. Estranha forma, digo eu. Realmente, é mais fácil passar a culpa para os outros. (Deixo-lhe aqui, senhor Menezes, um manguito!)

OUTRA PALESTRANTE

Seguidamente usou da palavra Maria José Fernandes, guia turística. Vamos ouvir a Maria José: “A cidade não vive só da Universidade. Estamos a lidar com visitantes de uma faixa etária muito alta. Nós sabemos que a Biblioteca (Joanina) está muito limitada ao número de pessoas. Estamos a ser despejados na zona do Astória (Hotel). Somos advertidos pela polícia para fluir o trânsito. Queremos tentar deixar o local de paragem do Astória mas não é possível. Tento ir ver as Repúblicas (de estudantes). As Ruas da Matemática e de São Salvador e outras não estão em boas condições. A calçada não está em boa condição. Também as Escadas de Quebra Costas estão com os degraus cada vez mais gastos. O problema do estacionamento junto da Sé Velha (da catedral). O problema dos bares; é vidros no chão, é o cheiro a urina. Na Baixa consegue-se apreciar a louça de Coimbra. Mas depois só vemos lojas da cortiça (a vender). Quer-se uma coisa diferente, um lençol de linho, e não há. Falta criatividade ao comércio. A má condição dos prédios. Por que não criar alojamento para os estudantes? Por que não criar casas de habitação para jovens? Em Aveiro vemos o trabalho de Vhils, na arte urbana.”

Juízo crítico desta oradora:
Mais uma vez, pelas suas palavras, se mostra que esta senhora, guia turístico, conhece mal a cidade e não sabe o que está acontecer. Há muito que a Baixa está com alojamento para estudantes. Por outro lado, sejamos justos, agora, estão a ser desenvolvidas políticas para restaurar e desenvolver a habitação a custos controlados. Preferiu enveredar nos clichés habituais: a cidade está suja, as ruas estão com a calçada em mau estado, o estacionamento é caótico. Que um residente diga isto, admite-se -aliás é trabalho de cidadania levantar os problemas no seu bairro- já um guia, enquanto vendedor de um produto, não pode ser tomado de apriorismos nem dizer mal do artigo que vende. Uma lástima, o discurso desta senhora. (Deixo-lhe também, senhora guia turística, um manguito).

OUTRO ARGUENTE

Puxou o micro o senhor Paulo Cosme, secretário-geral do Sindicato de Guias e Intérpretes. Vamos ouvir: “Os turistas estão em Coimbra duas noites. Têm medo de andar à noite. Coimbra tem falta de espaços de diversão. Antigamente havia os restaurantes Dom Pedro e das Piscinas. Este ano até encerrou um restaurante na Baixa. E só isto! Logicamente que gosto muito de Coimbra. Gosto de ir a um local todos os dias -por exemplo, tomar um café- e que o senhor(a) me cumprimente. Gosto de vir a Coimbra e entrar no Café Santa Cruz -e aponta para Vitor Marques. Acho que ainda se está num processo de melhoramento. Não se deve repetir tudo (o que tem sucesso). Se eu quiser comprar uma imagem da Rainha Santa? Não encontro! Só encontro artigos “made in China”.

Juízo crítico desta dissertação:
Mais uma vez se constata que este senhor não sabe o que diz. Sendo secretário-geral de uma instituição, deveria primar pela verdade. E o melhor é vir cá -disse-lhe isto, aliás fiz o mesmo a todos. Sem conhecimento de uma área que se pretende ser valorizada e que justifica o seu próprio ganha-pão -acho que não, deve ser antes a função sindical-, como é que se pode conceber uma ignorância disfuncional desta envergadura? O índice de criminalidade na cidade, felizmente, -que o digam as polícias- é extremamente baixo. Não encerrou nenhum restaurante na Baixa este ano -quando questionado por mim, não respondeu. Coimbra não tem falta de espaços de diversão. Só um anedota pode afirmar uma aberração destas. (Deixo-lhe também um manguito, senhor Cosmo).

OUTRA ORADORA

Puxou da palavra a senhora Marli Monteiro, em representação da Turismo Centro Portugal. Faça o favor de falar, dona Marli: “O que me fez vir foi o enorme respeito pela Universidade. É de lhe bater palmas pelo bom serviço que se faz em Coimbra pelo turismo. Gostaria de ver uma plateia cheia. Estou farta de ouvir sempre os mesmos clichés. Em 1983 a cidade tinha poucos hotéis. Estava entregue a gente que só tinha a lembrança dos restaurantes Dom Pedro e Piscinas. O mundo Mudou. Há muitas empresas “low-cost” a trabalhar para o turismo. O meu trabalho é de produção externa. Eu tenho de ter uma Baixa da cidade preocupada com a limpeza, e sobretudo a Câmara Municipal. Há ruas na cidade que eu não levo turistas, porque está tudo sujo. Eu vivo (habito) numa rua próximo do Hospital (endereço substituído para não localizar). Como é que podemos ganhar dinheiro com os turistas? Não faço compras na Baixa. Também não faço nos centro comerciais. É tudo igual! Tudo do mesmo! Onde está o comércio da cidade? Onde fazem compras as pessoas da cidade? Façam um mapa comercial. Há um certo sentido de repetição. Não há paciência para tanta monotonia, para tanta cortiça. Preciso de gente privada que tome conta da cidade. Não tenho paciência para ouvir falar do xixi. No comércio o que é preciso é que ele seja modernizado. É preciso diferenciar. São precisas livrarias, lojas de design, degustação de vinhos. Uma grande empresa, que se queria instalar em Coimbra com uma loja, não veio porque encontrou uma cidade suja, porca. O Café Santa Cruz é um café histórico. É preciso o agir da CMC. Agora temos uma cidade cheia de hotéis. A Uber chegou! A cidade de Coimbra não é só Universidade! É preciso limpar os caixotes do lixo e limpar a cidade. Porque é que os turistas não compram aqui? Porque estritamente não encontram cá o que procuram.”

Juízo crítico desta oração de estupidez

Utilizando as suas próprias palavras, não há paciência humana para ouvir tantos disparates. Num universo de cerca de cinco centenas de operadores, na Baixa e na Alta, há pouco mais do que uma dúzia de comerciantes dedicados a este tipo de negócio. É uma falácia a recorrência a esta frase-feita. Perguntei-lhe onde, afinal, fazia as suas compras. Se não as fazia na Baixa nem nos centros comerciais, onde ia? Não me respondeu. Convidei-a também a abrir uma loja de comércio na Baixa. Com tanta sabedoria acumulada, inevitavelmente, está fadada ao sucesso! (Para esta senhora também um enorme manguito)

E FALOU A VEREADORA

Tem a palavra a senhora vereadora da autarquia: “Duas ou três notas breves. Eu compro na Baixa. A cidade está longe de ser perfeita. Há muito para fazer, mas está muito melhor do que há uns anos. Todos os dias temos vindo a constatar melhorias no espaço público -veja-se o Terreiro da Erva. Eu não tenho esta visão trágica da cidade, embora tenhamos muito para fazer.”

Nota crítica desta intervenção:
Aqui, nesta sua primeira intervenção, gostei -e disso, ali, lhe dei conta. Perante tanta mediocridade esplanada naquela mesa, salvou-se a sua argumentação. Já no encerramento do debate, a meu ver, deixou muito a desejar. Enquanto anfitriã, deveria ter protestado publicamente contra as asneiras proferidas pelo painel. Não o fez, preferindo os beijinhos e abraços, e foi pena.
Foi pena também, no remate final, ter-se dirigido ao público, em apelo, e ter pedido que todos os munícipes não partilhem nas redes sociais -na página da Câmara Municipal de Coimbra (Não Oficial) e outras- uma visão negativa da cidade. Disse mesmo: “não digam mal da cidade nas redes sociais!”. Bem sei que, enquanto “profissional” política, lhe dava jeito, senhora vereadora. Mas temos pena! Contrariamente ao que pensa, o que é preciso é que, em nome da cidadania activa, o colectivo, no seu todo individual, participe na gestão da sua cidade e obrigue as instituições, como a sua, a intervir com eficácia para melhorar o que está mal. Há porém um pormenor, que não é de somenos: sejamos justos na apreciação. Atribua-se a cada um o que é seu. Elogie-se quando é preciso e o contrário também.


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terça-feira, 25 de agosto de 2009

BAIXA: O SONHO QUE A MORTE DESTRUIU









 Quem passa na Rua do Corvo talvez desconheça que mesmo ali ao seu lado está o mais bonito estabelecimento da Baixa e da cidade de Coimbra. Chama-se “Centrum Corvo”, a dois passos da igreja românica de Santa Cruz. É uma loja de artesanato.
Este estabelecimento, pensado e sonhado por um homem que já não está entre nós, e que tive o grato prazer de conhecer, com a sua decoração retro, com os seus móveis de 1900, com os seus ferros forjados de Coimbra, confere-lhe uma autenticidade e transforma-o no melhor exemplar único do comércio tradicional. Este “museu” que enriquece o centro histórico, sonho de um homem que depois de o concretizar viveu pouco, vai encerrar dentro em breve.
É o sonho que se desfaz de um inconformado com a vida, um apaixonado pela cidade, que, apesar da sua já alguma idade, a morte, sem ter atenção ao nefelibata, que vivia nas nuvens, no carrossel da montanha russa da utopia, pôs um ponto final. Este homem, o António Cerveira, que conheci e privei muito de perto, apostou tudo para perpetuar a memória do estabelecimento de mercearia que fora de uns seus primos naquele mesmo local por volta do início do século XX. Por entre fundas “tulhas” de açúcar e arroz ao quilo, entre o azeite vendido ao decilitro, e os rebuçados de meio-tostão, ali brincou, ali cresceu, dali já licenciado em medicina, partiu para Lisboa. Por lá andou até se aposentar.
Sendo dono do prédio, em 2000, adquiriu, por trespasse, o espaço comercial ao seu inquilino, que era, nessa altura, de venda de tecidos a metro. Fez obras de remodelação, restaurou os móveis originais, modernizou tudo sem alterar a traça antiga, foi ao pormenor de mandar fazer um corvo que existia na fachada do prédio por alturas do velho estabelecimento de mercearia fina.
Os planos deste homem de grande cultura, de sensibilidade ímpar, vinculado a tudo o que tivesse a ver com a memória, eram imensos. No Centrum Corvo podia encontrar-se artesanato de todo o país, desde a serra da Estrela, passando a serra de Montemuro, até ao sal da Figueira da Foz. Eram todas as artes em desaparecimento locais, desde a cestaria aos bordados de Almalaguês -onde foi buscar um tear manual e o mantinha a funcionar na loja, com a Amélia-, a louça pintada à mão –com um artesão a pintar ao vivo no estabelecimento, o Armando-, a olaria, com incríveis peças criadas no local –com o Victor Bizarro-, o grés –com obras da Carla Silva. A imaginação deste homem não tinha fim.
Quando morreu, em 22 de Julho de 2007, tinha uma estrutura turística montada. Com protocolos assinados entre o turismo de Coimbra e os vários hotéis da cidade, a prestação de serviços da Centrum Corvo iam desde passeios em roteiros turísticos pela cidade, até á degustação de produtos endógenos, desde doçaria regional, queijos e vinhos, de licores artesanais e chás. Para além da venda de cd’s com música coimbrã e livros de história, se o grupo de visitantes quisesse poderia ouvir música ao vivo, executada por um trio do grupo de cordas Alegro.
A maior infelicidade que podia ter acontecido à Baixa foi o desaparecimento do António Cerveira. Muito tinha a dar ao centro histórico. Infelizmente, para todos nós, o acaso não quis. Será que a Câmara Municipal de Coimbra vai deixar desaparecer o seu mais belo legado e exemplar do comércio tradicional? Eu sei que os herdeiros do meu amigo Cerveira, fundamentalmente, gostavam de preservar a memória do pai. Ou seja, manter o espaço, com todo o mobiliário antigo e vocacionado para fins turísticos. Não valeria a pena a Turismo de Coimbra, E.M., pensar no assunto e estabelecer ali um posto permanente?

quarta-feira, 22 de julho de 2015

EDITORIAL: UM VULCÃO CHAMADO BAIXA

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Para quem andar mais atento, nota-se na Baixa, incluindo a margem esquerda, na zona do Convento Velho de Santa Clara, uma intensíssima movimentação comercial.
Por um lado, há vários estabelecimentos a encerrar porque não aguentam as despesas. Embora se conste que alguns mais antigos, com funcionários de décadas, vão cerrar portas no final do ano –num hábito já meu conhecido, confrontados com esta hipótese, os comerciantes não assumem-, sabe-se que são os mais novos com implantação de meses e um com menos de dois anos os mais sacrificados. Associando a alguma inexperiência comercial, estes, com rendas impossíveis de aguentar, são os mais expostos. Assiste-se a deslocalizações sistemáticas. Sempre em busca do menor valor de renda a pagar. Estou a lembrar-me de um comerciante que, no espaço de um ano, já mudou três vezes. Mas há mais nesta situação. Como a evitar um final drástico e a tentar prolongar um fim que se adivinha, num contorcionismo compreensível, a procura de espaços baratos continua na mira de muitos aflitos. Mas não há lojas acessíveis na Baixa –quando escrevo “baratos” quero dizer entre os 100 e os 250 euros. Os valores assim praticados só se encontram em zonas sem qualquer movimento de transeuntes, as chamadas zonas mortas. E que ninguém quer.
Falando de novos contratos, para as lojas de rés-do-chão, os preços operados, neste momento, nas ruas largas da calçada, Ferreira Borges e Visconde da Luz, variam entre os 1250 e os 3000 euros. Para os primeiros-andares oscilam entre os 450 e os 1000 euros. Nas ruas estreitas de movimento, por que nem todas são iguais, os arrendamentos andam entre os 400 e os 1500 euros.
Por outro lado, talvez devido ao grande incremento do turismo, com a recente classificação de Património Mundial, pela Unesco, a procura de espaços comerciais é intensa. No geral, é como se sentisse que aqui o futuro está ao alcance um piscar de olhos. É como se andassem fluídos no ar a mostrar que as coisas vão mudar a breve-prazo -consta-se que o “Burger King” está prestes a obter luz verde para se instalar na Baixa.
Falando de turismo, numa discriminação inconcebível e num paradoxo, continua a verificar-se que a Rua da Sofia –a antiga rua dos colégios e que  mereceu a máxima distinção da Unesco- não tem fluxo de turistas. Já escrevi sobre este assunto. A Câmara Municipal e a Universidade de Coimbra, enquanto motores ligados ao progresso turístico, têm obrigação de se debruçarem sobre esta questão, que é fundamental para o comércio e hotelaria nesta histórica via larga. O que está a acontecer parece uma anedota só aceitável nesta cidade. Quero dizer, a organização mundial classifica uma rua como a mais importante para ser visitada e o que se constata é que somente as zonas protegidas, envolventes e limítrofes, é que estão a ser beneficiadas com a proclamação universal. Está certo acontecer uma coisa destas?
Continuando, verifica-se que a procura comercial é, na maioria das vezes, feita por gente nova, sem experiência, que, a todo o custo, procura um trabalho como rendimento que lhe permita fazer face à vida. Tal como já escrevi várias vezes, com um enorme respeito por estas pessoas, sem que haja alguém que se importe, as tragédias estão ao virar da esquina e ao alcance de um olhar.
Não é preciso ser economista para verificar que, apesar de se pensar regularizado pelo tempo, estamos a assistir a um continuado “Subprime” no arrendamento comercial. Ou seja, mesmo sabendo de antemão que os valores pedidos são arriscados e mesmo até incobráveis a médio-prazo, os proprietários, colectivamente seguros de uma rentabilidade imediata de curto-prazo, baseiam a sua estimativa de retorno esperado do investimento, por um lado, na precariedade da economia, por outro, numa hipotética recuperação das actividades económicas. Não é difícil de ver quem é a vítima. Também não é preciso ter um telescópio para ver que faltam regras que cerceiem estes abusos. E como? Evitar, por exemplo, que um estabelecimento comercial se mantenha fechado mais do que seis meses. E quando reabrir, no mínimo, estar em funcionamento seis meses também. O que é que as autarquias têm feito para resolver este problema? Como a lei do arrendamento não contempla esta situação, pouco ou nada. Ou melhor, recorrem ao único instrumento possível: sobrecarregar com IMI, Imposto Municipal sobre Imóveis. Mas, provando que não funciona e não demove os senhorios, tudo continua na mesma e igual.
Num desprezo total pelo desenvolvimento, em algumas ruas da cidade, há lojas encerradas há mais de uma década. Nem arrendam nem fazem nada para lhe dar utilidade –porque é preciso não esquecer que o que esteve na génese destes empreendimentos foi sempre o seu objecto, a sua utilidade social. Um estabelecimento pode ser propriedade particular –que se deve respeitar- mas tem agregada uma responsabilidade colectiva na criação de riqueza. É aqui que a renovação do Novo Regime de Arrendamento Urbano falhou completamente. O legislador estava completamente preocupado com o aumento de rendas e a transmissão –que até aí era feita desordenadamente, beneficiando os inquilinos e esquecendo os interesses dos donos dos prédios- mas não deu atenção, por intenção ou não, à conveniência social.
Por outro lado ainda, a edilidade coimbrã detém vários edifícios em ruína nesta parte velha e nem ata nem desata. Como quem diz, nem os recupera nem vende. Em casa de ferreiro espeto de pau, poderia dizer-se.





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O MANTO DIÁFANO DA MORTE

 Como ressalva de valores, gostaria de deixar bem expresso o respeito por quem parte e pelas famílias enlutadas que sofrem a dor que se abate no seu seio. Esta crónica, se é que presumidamente pretende alguma coisa, será, no máximo, sensibilizar em forma de lembrete de que entramos e saímos desta vida de forma igual.
Na velha parede junto à Pastelaria Palmeira, na Rua da Sofia, os anúncios de necrologia mantêm-se alinhados com os olhos de quem passa. Em contraste com as demais, uma das comunicações salta à vista pelo apêndice junto ao nome: “Dr.”. Sabendo-se que o extinto exercia a profissão de causídico, poderemos nós interrogar: está errado? Não, não está! Mesmo eticamente estará certo. Então, nesse caso, por que melindre me haveria de dar para implicar com um sentimento tão profundo quanto é o desaparecimento de um humano? Não sei se conseguirei ser claro, e muito menos que alguém concorde com o meu ponto de vista, mas, sobretudo por parte das empresas funerárias e igual aos registos de nascimentos, deveria ser implementado um princípio universal de que a publicidade a alguém que deixa o mundo dos vivos deveria ser mostrada apenas pelo nome. Que os obituários falem de todo o percurso do defunto e contem toda a sua história de vida aceita-se completamente e nem sequer se coloca qualquer questiúncula. Dá-me a parecer que esta discriminação positiva, talvez sem que seja essa a intenção por parte das funerárias, acaba por manter um situacionismo, uma hierarquia, entre vivos. Não se pense que sou contra as hierarquias na sociedade. Nada disso! O que quero dizer é que deveríamos todos caminhar, cada vez mais, no sentido de um certo nivelamento. Procurarmos ser mais iguais mesmo na diferença estatutária. Sentirmos todos que estamos cá de passagem. Mesmo com honras, começando na molécula, chegamos sem nada e partimos apenas com uma roupa vestida que, juntamente com toda a materialidade, se transformará em pó.
É evidente que, e falo de Coimbra, um longo caminho tem sido percorrido e sempre a melhorar. Na década de 1960 qualquer estudante de capa e batina, ou um homem vestido de fato e gravata, era apodado de doutor. Não foi há muitos anos que, ao comprar uns livros de direito numa livraria da Baixa fui tratado por doutor. Embora rectificasse imediatamente o funcionário, tenho de confessar que me soube bem. Afinal, ali, naquele procedimento, ainda que obrigado pelas circunstâncias de subserviência ao cliente, estaria os juros de um capital humano por mim investido em tantas situações análogas ao longo da minha existência.
Comparando esses idos tempos e os de hoje na imprensa escrita deu-se um salto ciclópico. Numa notícia, raramente se apresenta um nome importante com o Dr., Eng.º, ou Arq.º a anteceder. Mas ainda há muito para fazer para que a universalidade, a igualdade nos direitos e obrigações sejam de facto uma premissa constitucional. Deveremos começar pelas coisas simples, como o caso que apresento em epígrafe.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FALECEU O MONTEIRO, DOS RETRATOS






Como já vem sendo hábito, nas colunas da partida sem regresso que se multiplicam pela zona histórica –a talhe de foice, era altura de se dar outra dignidade ao local onde são colados estes anúncios- fui hoje surpreendido pelo desaparecimento de Mário Duarte Monteiro, de 73 anos. Embora o conhecesse mal, durante décadas, foi dono da Foto Monteiro, na Baixa, e um nome grande na fotografia em Coimbra.
Pedi a um colega de profissão, o Mário Afonso que conviveu com o finado mais do que eu, que me desse umas palavras acerca do grande retratista. Diz o Mário: “embora não tivesse muita confiança com ele, falei e fui várias vezes ao seu estabelecimento. Foi um nome muito prestigiado na fotografia, em Coimbra. Enquanto fotógrafo do mesmo ofício do Monteiro, lamento profundamente a forma como esta sociedade hodierna trata quem levou uma vida a servir os outros. Ainda que legitimamente se procure o lado egoísta, já que ainda não se inventou outra fonte de rendimento que não seja o trabalho, os artistas –porque um fotógrafo é e será sempre um criador-, que se dedicam a uma causa, na generalidade e salvo excepções de origem particular, são simplesmente esquecidos pela cidade que os acolheu e eles, na sua função, tanto deram para que  a urbe fosse reconhecida no país e no estrangeiro. É uma pena que o poder político só tenha olhos para os seus, os da sua classe, e despreze os pequenos que, em esforço de formiga, ajudaram a projectar Coimbra no mundo. No mínimo, deveriam merecer uma pequena homenagem póstuma.”
Se posso escrever assim, em nome dos poucos fotógrafos ainda em actividade, em nome de toda a Baixa, para a família enlutada, pelo falecimento do seu ente querido, os nossos sentidos pêsames.


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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

UM TURISMO EMBRULHADO EM TEIAS



Bom dia Sr. Luís,

Permita-me contar-lhe (mais) um episódio daqueles que nos deixam chateados. Como sabe tenho a minha Loja na Rua Visconde da Luz, e nos últimos tempos até nem nos podemos queixar da afluência de turistas estrangeiros. Apesar de não comprarem como dantes, sempre vão adquirindo alguma coisa. Aconteceu que, hoje, e sendo já episódio recorrente, entrou uma senhora espanhola na loja, esbaforida e cheia de pressa pegou num artigo e mandou embrulhar rapidamente. Disse que não se podia separar do grupo que caminhava apressadamente com o guia à frente.

Ora, sendo eu turista há alguns anos em vários países da Europa, nunca vi tal coisa; havendo mesmo recomendações aos guias para que parem nas zonas históricas e deixem os turistas usufruir do comércio local, e, quem sabe, fazer umas "comprinhas" para os amigos e familiares.

Não sei se é possível mudar esta situação, estabelecer um protocolo com os operadores turísticos, sei lá...

Diga-me lá Sr. Luís, você que tem sempre boas ideias, o que pensa do assunto?

Um abraço,
Pedro
--
Soap&Soul Coimbra
Rua Visconde da Luz, C.C. Visconde, nº 75, Lojas 2 e 3
3000-414 COIMBRA
239 837 202
soapandsoul.coimbra@gmail.com
http://soapsoulcoimbra.blogspot.com/
http://www.facebook.com/pages/SoapSoul-Coimbra/139768652742360


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NOTA DO EDITOR

 Bom dia, Pedro. Lá ideias tenho muitas, talvez por isso me julgue permanentemente idiota. De que vale tê-las numa terra em que poucos auscultam alguém? E se por acaso ouvirem é porque o emissor terá uma importância tal que o escutar não é ouvir, é simplesmente um mero formalismo, uma submissão directamente proporcional ao seu grau de estatuto. Ou seja, vale mais um tossir de um qualquer “senhor Doutor”, tecnocrata, que nunca saiu do seu gabinete e não tem qualquer percepção da realidade laboral, do que uma voz anónima que está no terreno e fala com conhecimento –como é o seu caso.
Quanto ao seu legítimo lamento, concordo consigo. É um escândalo! Em 13 de Janeiro de 2011 escrevi um texto –veja link- sobre o mesmo assunto e que acontece diariamente na zona da Sé Velha. Enviei-o para a Empresa Municipal de Turismo. Pensa que alguém desta entidade respondeu? Isso é que era bom!
Na altura consegui saber que muitos dos guias turísticos são contactados particularmente por hotéis. O que quer dizer que agem por sua conta e risco. Outros profissionais de turismo são contratados por agências de viagens e a mesma coisa: como ganham pouco, muitas vezes, tentam ampliar a sua prestação com comissões nas lojas previamente visitadas. Outros ainda são então contratualizados pelo turismo e pela empresa municipal.
O que é saliente, e indigna, é o desprezo a que a maioria das lojas comerciais é votada. Salta à vista que não há planeamento e cada guia faz o que bem entende, mesmo que com a sua acção interesseira esteja a condenar dezenas ou centenas de operadores que arriscam tudo o que têm para ganharem a vida.
No meu entender, por exemplo aqui em Coimbra, este encargo de criar roteiros caberia por inteiro à Empresa Municipal De Coimbra –embora já fosse anunciada a sua extinção-, que, para isso, deveria reunir com todas as entidades ligadas ao sector. Claro que, mesmo assim, não quer dizer que não houvesse desvios, isto é, favorecimento de um ou outro estabelecimento, mas, creio que tentar agitar já seria um passo em frente. Este silêncio que todos assistimos faz um barulho danado a quem está na Baixa e vê os grupos a passarem em bandos, como se fossem andorinhas em direcção ao Norte de África.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

DEIXAI REPOUSAR EM PAZ




 Sempre que alguém importante morre faz-me muita impressão a louca corrida aos encómios, aos louros de eternidade, os discursos exaltados para o falecido. Andamos todos carecentes de ícones que nos façam lembrar de que, enquanto andarmos por cá a percorrer esta estrada, devemos ser boas almas. É uma constatação. A nossa rua precisa de projectar o melhor de nós no senhor “Jaquim”, um pacato vizinho que se limita a sorrir para nós quando estamos ensimesmados? A cidade precisa de se ver na vida de um político que, sem fazer grande obra mas era um tipo porreiro, partiu cedo e deixou muitos amigos? O País precisa de continuar a venerar um homem que morreu num acidente de avião, provocado ou não, e a achar que se ele estivesse vivo esta Nação seria tudo menos igual? O mundo precisa de se rever num homenzinho de metro e meio, que descalço e túnica branca, renegou a violência e fez curvar uma das maiores potências mundiais da altura à sua vontade férrea? O planeta precisa de se remirar em Nelson Mandela que foi tudo, na fragilidade e na fortaleza, o que um humano pode ser desde pobre, agitador, terrorista, presidiário, libertário, até presidente de uma imensurável terra da África Austral? Precisa! Faz-nos bem ao ego. O que não precisa é de exagerar. O universo está pejado de exaltações de bem-aventurança. Basta atentarmos para a Igreja Católica que, desde pastorinhos, passando por madres, até papas, todos servem para canonizar –o que, a talhe de foice, dá para especular que se Mandela fosse um bom praticante cristão –e fosse branco, claro-, mais que certo, teria um lugar garantido na candidatura à Congregação Para a Causa dos Santos do Vaticano.
Pelo respeito destas pessoas que passaram pela história e nela permanecerão até um dia que por conveniência serão apagados, que pelas circunstâncias acabaram heróis –na maioria das vezes de efabulação- haja alguma contenção na verve. Deixemo-nos de hipocrisias, de mentiras descaradas. Não façamos do homem um santo que nunca foi, nem do santo o homem que nunca existiu. Tomemos mais atenção ao homem simples da rua.



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