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quinta-feira, 7 de maio de 2009

BAIXA: "DESEJO-LHE BOA SORTE"






 Como já escrevi aqui, faço parte de um grupo de comerciantes da Rua Eduardo Coelho que, vendo a situação calamitosa em que se encontra o comércio de rua, nomeadamente o centro histórico, em que quase todas as semanas encerram lojas, nos dirigimos à APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, e à ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, para que, todos juntos, estabelecêssemos um plano que visasse a inversão deste dramático problema.
Apesar de alguns de nós não serem associados, imediatamente estas duas entidades se disponibilizaram e, numa mesa, estabelecemos planos imediatos e a médio prazo. No tocante aos imediatos, entendemos que deveríamos recuperar os sábados todo o dia. Numa primeira impressão, não se entende como é que, nos tempos difíceis que passamos, a maioria das lojas continuem a encerrar às 13 horas. -Seria injusto se dissesse que não entendo alguns deles, sobretudo estabelecimentos com pessoal. Muitos deles têm problemas adstritos à legislação do trabalho e que não são fáceis de resolver. Mais à frente falarei de alguns deles.
Estão em curso várias iniciativas, em que se pede a colaboração da Câmara Municipal e das Juntas de Freguesias. Não vou aqui esmiuçá-las. A seu tempo, em conferência de imprensa, a APBC, as apresentará.
A partir de ontem, tenho tirado a manhã, para, de loja-em-loja, andar a pregar a minha mensagem. A todos, em ladainha, digo: as coisas estão muito más, como sabe, peço-lhe, em nome de todos, que mantenha o seu estabelecimento aberto aos sábados todo o dia. Para parecer Santo António, já que tenho o nome António, só me falta o hábito.
Posso dizer, com certeza, e também com satisfação, que cerca de oitenta por cento estão de acordo, de que é preciso começar por algum lado. Temos de fazer alguma coisa para evitar o genocídio desta classe comercial.
Mas, então, o que argumentam os outros 20%? Acredite, leitor, é um desconforto, para mim, transcrever aqui o que dizem, mas vou fazê-lo. Uns dizem: “o quê, eu trabalhar ao sábado de tarde? Nem pensar! É o único tempo que tenho para cuidar do meu quintal. Desculpa lá, mas não vou deixar de fazer isso!”
Outros, saem-se com isto: “Oh…trabalhar ao sábado todo o dia, para quê? Já aos outros dias normais pouco se faz. O melhor que se fazia era encerrarmos todos ao sábado durante todo o dia!”
Outros ainda: “Ora, ora, isto não vai resolver nada! Não deveria ser assim. Deveria haver outras medidas!” –quando lhe pergunto qual, começam a gaguejar e não sabem responder em conformidade.
Outros ainda: “olhe, eu tenho muita consideração por si. Palavra que tenho. Acredito em si. Mas estando metidas nisto a câmara, a agência (APBC) e a ACIC, desculpe lá, mas não acredito nessa gente. Nunca fizeram nada por nós. Isto não vai resultar. Era preciso outras medidas de fundo" –quais?, interrogo. "Não sei. Era preciso encontrar um homem que chamasse a si a defesa de todos” –quando lhe digo que esse “Sebastião” não existe, e que a solução está dentro de nós individualmente, que, no momento em que as coisas estão, não pergunte o que pode Deus fazer por nós, mas antes o que se pode fazer por Ele, continua: “não, sozinhos, não vamos a lado nenhum. É preciso alguém que nos salve. Vamos fazer assim: se resultar, eu entro na segunda fase. Está certo, não está? Olhe que eu até gosto muito da Baixa. Só por isso é que continuo aberto –não me esqueço que foi aqui que ganhei a minha vida- e só por isso ainda não aluguei a minha loja a um chinês. Apesar de estar descrente, desejo-lhe boa sorte”.
Pode parecer incrível, mas tudo o que aqui transcrevo é a mais pura das verdades.
Eu sei que as pessoas estão desmotivadas, cansadas, descrentes e até frustradas. Eu tenho dias que também me sinto do mesmo modo. Mas, sendo assim, vamos cruzar os braços e deixar que chegue a nossa vez de “morrer”?
Eu sei que não é fácil. Está tudo contra o comércio tradicional. A começar pelos políticos nacionais e locais. O que querem é ouvir que abriu mais uma grande superfície na sua cidade –hoje mesmo abriu o Dolce Vita Tejo, o maior do país e um dos maiores da Europa.
O desinteresse pela revitalização dos centros históricos levou a este estado de apatia e ao “deixa arder que o meu pai é bombeiro”. Estabeleceu o princípio da “pescadinha-de-rabo-na-boca”: Os comerciantes não trabalham mais horas porque cada vez há menos pessoas para comprar. Por sua vez os clientes, mesmo os poucos, como antevêem que as lojas estarão encerradas, cada vez vêm menos.
O Código de Trabalho –tal como o Novo Regime de Arrendamento Urbano está para os proprietários- é profundamente discriminador para os empresários do comércio tradicional. Os funcionários admitidos de novo nas grandes superfícies comerciais, se preciso for, trabalham feriados e até à meia-noite. No comércio de rua, em nome do bizarro, em nome de “direitos adquiridos”, os antigos empregados, sem sua autorização e acordo, não trabalham, nem depois das 19 horas, nem aos feriados, nem aos sábados de tarde. Por cada tarde de trabalho extraordinário vale um dia de folga. Pergunta-se: quem consegue desenrolar esta meada, fugindo a esta teia em forma de armadilha?
Em resumo, se admito compreender as razões de alguns comerciantes como legítimas, não posso aceitar que fiquem de braços cruzados à espera do tal D. Sebastião ou um Deus que nos salve.
Temos de ir à luta. Por muito que todos nos queixemos, este é o resultado da nossa pouca exigência e capacidade de reivindicar. Penso que estamos no fim da linha. Ou se tomam medidas de salvação, ainda que sejam apenas de efeito “aspirina”, ou então vamos mesmo desaparecer todos. Não haja ilusões. Os grandes centros comerciais ficam muito gratos por esta passividade e falta de resposta.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

MIA COUTO NO CAFÉ SANTA CRUZ, VISTO PELO "OLHO DE LINCE"



 Desde que me levantei –já tardote, que nunca fui de me atirar ao trabalho pelo lusco-fusco, segui sempre o aforismo “vale mais quem Deus ajuda do que quem muito madruga”- que senti que hoje não era um daqueles meus dias de sol –bem sei que esteve a chover e de tons acinzentados, mas não era por isso. Levantei-me assim um bocado para o “em baixo”, não sei se me faço entender. Eu vi logo, eu seja ceguinho, quando espreitei pela janela e não vi o Januário –é o pintassilgo que me costuma saudar todos os dias na árvore em frente ao meu quarto- adivinhei logo que hoje não ia ter sorte nenhuma.
Nas calmas –que a vida é curta e não pode ser levada com correrias-, tomei o pequeno-almoço, lá dei milho às galinhas –e é claro, levando à letra as directivas comunitárias, falei para elas, é certo que não me responderam, mas deu para perceber que estavam felizes. Dei ração aos gatos e ao meu cão –naturalmente que, empregando os meus conhecimentos de psicanálise animal, intuí que também não estavam mal, quer dizer, o “Pintas”, o meu cachorro, pareceu-me que estava a precisar de uma cadela. Estava carente, não sei se me entendem, mas o que é que eu podia fazer? Nada, claro. Atirei-lhe: “olha pá, aguenta o desejo, contenta-te com a minha sorte”. Não sei se me teria entendido muito bem, mas pelo abanar do rabo, pareceu-me que ficava bem. E rumei à Baixa, até à sede do blogue Questões Nacionais”.
Mal transpus a porta da redacção vi logo que já tinha perdido “vinte paus”. Não sei o que se passa com vocês, mas comigo, quanto mais velho estou mais intuitivo me torno. Bastou-me olhar para a cara do gajo –eu escrevi cara? Nada disso, aquilo era uma tromba maior que a do elefante que o Rei de Espanha mandou um tiro-liro. “O gajo” é o director do blogue, o Luís Fernandes –não devem conhecer. Aliás, ninguém o conhece, mas ainda bem, só ganham com isso, palavra de escuteiro. O tipo, assim com umas fuças –salvo seja, é claro- que parecia o Gaspar, o ministro das Finanças. Assim do género que por muito doces que aparentem são sempre amargos, não sei se estarei a ser claro. Se calhar não, mas também não interessa para o caso. Dizia eu, umas fuças divididas entre os confins da Amazónia e a casa do senhor engenheiro Belmiro de Azevedo –entenderam? Mal o tipo -o Luís Fernandes, não percam o fio à meada- estampou os olhos em mim, juro, até senti um murro no estômago. Logo a seguir, com aquela voz de falsete, assim de “engraxadelas”, não sei se estão acompanhar, atirou de supetão: “ó “Olho de Lince” faça o favor de chegar aqui ao escritório!”. Não sei se vocês estarão a sentir o que eu senti, mas fiquei logo de pé atrás. Mentalmente disse cá para o meu interior: “estás lixado, Lince, dali só sai “poda ou canelada”. Não pensem que não tenho razões para pensar assim. O gajo desde que soube que eu era vidrado na Rosete –vocês não devem conhecer, é a jornalista cá da casa, que é boa, boa, cinco vezes boa- nunca mais me gramou.
-Ó “Olho de Lince”, logo à noite o Mia Couto vai estar no Café Santa Cruz. Vai apresentar o seu último livro –não me recordo do título, mas também não interessa-, de modo que queria que você fizesse a cobertura do acontecimento –atirou o gajo, assim de chicote, com um  desprezo cortante nas frases.
-Ó chefe, eu até ia, mas, calculo que vai lá estar a fina flor da cidade. Acontece que, por falta de pagamento de honorários –não recebo há mais de um ano-, estou completamente nas lonas e não tenho roupa nenhuma de jeito –levantei um dos sapatos e mostrei-lhe um grande buraco na sola, para ver se o animal se condoía.
-Ó “Olho de Lince” faça o favor de se deixar de merdas. Você vai trabalhar, não vai fazer nenhuma passagem de modelos…
-Ó Chefe, caramba, parece mal, já viu a imagem que o blogue vai dar? Eu sou um embaixador cá da casa. Bem sei que você está mais teso que qualquer comerciante da Baixa e não tem nem uma moeda para fazer cantar um cego, mas os outros não precisam de saber. É ou não é? –atirei assim, naquela coisa, como se fosse o ministro Relvas para o Passos.
-(A cavalgadura olhou assim  para mim fixamente e eu fiquei a balouçar. Nem sabia se ia levar um coice ou uma nota de vinte)… Bem, vistas as coisas dessa forma, se calhar até pode ter razão. Mas você não me estava a ofender, pois não? Interroga o mastronço, assim meio desconfiado.
-Ó chefe, por amor de Deus! Nem lhe passe uma coisa dessas pela sua cabeça enfeitada…
-O quê? O que é quer dizer com “enfeitada”?
-Fosca-se, chefe, você está mesmo para desconversar. Queria dizer que esse gel no cabelo fica-lhe mesmo a matar. Tem um penteado espectacular…
-Ah, bom! De repente, até pensei… você anda um bocado a sair-se das cascas, não anda? Tome lá uma vintena e vá comprar qualquer coisa apresentável. Mas compre aqui na Baixa. Está a ouvir? Sei lá, vá às Modas Veiga, aqui ao lado e nosso vizinho, ou ao Arménio, da Sofimoda. Está a perceber?!?
Nem respondi ao asinino. Este malcriado –e mal gerado, mal empregado grito que o pai mandou quando estava lá na confecção- irrita-me profundamente. Porra, não há pachorra!
Então, durante o dia, fui comprar uma “farpela”. Tinha de me apresentar bem, à noite no Santa Cruz, quem sabe não estivesse por lá a diva do meu encantamento? –É a Helena Freitas, a mais linda mulher de Coimbra. Desconfio que esta mulher é reincarnada de um modelo de Miguel Ângelo, o italiano do século XVI, não é o cantor. Quem sabe se eu fosse bem vestido ela não me convidasse para jantar? –sim, só se fosse ela a pagar, porque, por aqui, nas tascas em redor, já tenho o livro dos calotes cheiinho. Nunca se sabe, pensava eu cá com os meus botões, em solilóquio. Pois claro, porque do Mia Couto não sei nada. Nunca li nenhum livro dele –nem de outros, eu não leio quase nada. Faço umas citações assim para parecer que sou intelectual, mas não passo das primeiras 50 páginas, nem vejo um boi à frente. Mas também é certo que das pessoas que irei encontrar lá no café, mais logo, quem é que leu um livro do Couto até ao fim? Dizem todos que leram, que é para parecer bem. Até aposto que a sala do café Santa Cruz vai estar a abarrotar. Por acaso já nem uma moeda  tenho, se tivesse, apostava dobrado em como vai ser assim. Todo o mundo vai querer aparecer no lançamento do livro do escritor moçambicano. Mas eu não quero saber nada disso! Eu só lá vou para tirar umas fotos para o blogue e ver se apanho a minha musa de inspiração. Isso é que me interessa. O resto, estou a borrifar-me! Eu quero lá saber do Couto. Até já estou irritado com ele, mesmo sem o conhecer.
Então, por volta das 22h00, lá rumei ao velho café. Ena pá! Estava repleto até às bordas. Aquilo parecia o “basófias” nos velhos tempos de cheia invernosa. É evidente que eu ia em missão. Empurrão para aqui, calcadela num pé acolá, e consegui chegar só a meio da sala. “C’um caraças”, parecia que tinha rebentado a cadeia! Lá tirei umas fotos mal e porcamente, porque estavam sempre a empurrar-me e ficaram todas tremidas. Eu não disse que não ia ter sorte nenhuma? Eu vi logo! Foi então que avistei a alegria do meu olhar. Sorrateiramente, pancada para aqui, ombro para acolá, e lá cheguei ao pé da minha Afrodite. Beijei-lhe a mão –que não sei se estão a ver, mas mesmo um carroceiro tem sempre de se fazer fino para uma senhora. O meu coração palpitava, “pum pum, pum pum”, que até parecia os canhões de Napoleão, ali na Serra do Buçaco, em 1809, não se devem lembrar. Acho que não. O barulho da minha máquina de fluídos amorosos era tal que até estava com medo de abafar as palavras do escritor.
 Foi então que ela me bombardeou nas bentas: “vou jantar com o Mia Couto!

sábado, 11 de abril de 2015

LEIA O DESPERTAR...



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "O ARTISTA DE LESTE", deixo também as crónicas "VICTOR SANTOS NO RANCHO DE COIMBRA"; "REABRIU A "TOCA DO GATO""; "HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESPONDE"; e "FALECEU O NEVES, DAS AZEITEIRAS"



O ARTISTA DE LESTE

Veio ter comigo há dias. Transpôs a porta, meteu a mão no bolso e puxou de uma carteira recente. Pretendia vendê-la, defendeu. Era o único bem que possuía e o único meio de fazer algum dinheiro. É um homem mediano, de meia-idade, cabeça calva, onde os cabelos que já a cobriram por inteiro decidiram emigrar, olhos vivos e perscrutadores. Exprime-se num português mal-amanhado e a fazer ressaltar a pronúncia de leste. A carteira não tem qualquer valor, repliquei para seu desalento. Em última cartada, em desabafo, o homem atirou: “Não ter uma única moeda no bolso. Estar muito aflito para pagar quarto e não quer estender a mão à caridade. Não ser capaz. Sempre trabalhar na vida. Nunca estar numa situação assim! Ser pintor e escultor. Ser ucraniano! O Marco enviar cá e dizer que você tinha escrito a história dele e também escrevia a minha” –contei a narrativa do músico polaco Marek Kepacs n’O Despertar, da edição de 20 de Março, e no seu fremente desejo de ter um acordeão para poder dar sentido e cor à sua vida.
Dei-lhe uma folha branca e um lápis e pedi-lhe para me mostrar o seu talento. Passado um bocado, e sob o meu olhar, tinha um Cristo, com ar sofrido, bem desenhado e com traço inconfundível de criador. Não tinha dúvida, à minha frente estava um artista, sem margem para dúvida. Se lhe arranjasse uma cana para pescar, como quem diz, tintas, pincéis e papel de aguarela será que estaria na disposição de ir para a rua pintar e tentar arranjar um meio de sobrevivência? Interroguei. “Claro! Claro! Só precisar mesmo de tintas e pincéis para trabalhar. Todo meu “respeto” para o senhor que tenha um grande “coraçau”. Neste meio tempo apareceram dois meus amigos e ouvindo a conversa e perante o desenho um disse logo que lhe oferecia um cavalete. O outro que lhe comprava as tintas e os pincéis. No dia seguinte o Sergiu Stefanov –conhecido por Sérgio- já estava a pintar no Largo da Freiria e pronto a tentar a sua sorte na rua. Ainda teve tempo para me mostrar uma espetacular escultura de um busto feito com jornais e farinha –e sempre a repetir: “eu não enganar. Eu ser artista! Acreditar em mim!”
Mas afinal quem é o Sergiu Stefanov? É ele que se vai apresentar. “Tenho 49 anos de idade, nasci em 1965. Sou romeno. Disse que era ucraniano para não me tomar por pedinte. Infelizmente sinto que o meu povo está muito malvisto por cá. Estudei na Roménia até ao 10º ano. Fui funcionário da Romtelecom durante cerca de uma década e até 1999. Deixou de haver trabalho e o dinheiro começou a escassear. No regime comunista de Nicolae Ceausescu vivi sempre bem, até à sua queda em Dezembro de 1989. Foi uma mudança violenta que resultou em mais de mil mortes. Desde cedo estive sempre ligado à escultura e pintura. Fiz três exposições em Botosani. Já em democracia, com a economia a dar voltas na barriga de miséria, desde pedreiro a pintor de interiores, a estucador, a artesão, a restaurador de móveis, até passando pela eletromecânica, fiz de tudo e não chegou. Atirei-me à Europa e fiz dela a porta da minha esperança. Passei por Itália, Bulgária, França, Holanda. Nestes países fazia de tudo o que aparecia, desde a construção civil até apanhar fruta, e aproveitava o que calhava para sobreviver. Em 2013 vim para Portugal. Por cá, trabalhei numa quinta, na construção civil. Recusei sempre a estender a mão na rua. Tenho dignidade. Continuo a procurar trabalho. Estou inscrito no IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional. Já tirei vários cursos profissionais, incluindo de português, mas não tem aparecido nada para eu mostrar o que sei fazer. Nunca recebi nada do Estado português até agora –embora já tivesse tratado da documentação para futuramente poder receber o RSI, Rendimento Social de Inserção. Até há pouco, com os trabalhos precários que tenho arranjado, fui conseguindo saldar a renda do quarto. Pago 135,00 euros. Mas agora é que toquei no fundo. Não sei o que fazer nem a que porta posso bater. Não quero ir para debaixo da ponte. Para as refeições, diariamente, vou à Cozinha Económica. Foi então que o Marek Kepacs me indicou o senhor. Pode fazer alguma coisa por mim? Pode ajudar-me?”


VICTOR SANTOS NO RANCHO DE COIMBRA

Victor Santos, o nosso mais querido e famoso cantor e artista de variedades, esvoaçando entre as nossas margens esquerda e direita do Mondego e do Sena, na terra de Obelix, vai atuar no Rancho das Tricanas de Coimbra no próximo domingo, 12 de Abril, entre as 16 e as 20h00, em mais uma extraordinária matiné promovida pela nova direção da coletividade recreativa com sede na Rua do Moreno, na Baixa da cidade.
Pelo que sei, por parte do seu público admirador, sobretudo o feminino, a expectativa é enorme e conta os dias que faltam com ansiedade. Segundo as declarações do artista, “tenho a certeza de que não irei defraudar as minhas fãs. Vou cantar entre oito a dez canções. A minha participação é gratuita para poder contribuir para a revitalização deste grande espaço de memória. A talhe de foice, aproveito para informar que proximamente vou gravar um novo cd com 10 temas. Provavelmente será depois da minha “tournée” que vou realizar entre a Suíça, Alemanha e Luxemburgo. Vou atuar para a comunidade portuguesa. Sinto um grande contentamento por poder mostrar o meu talento para os nossos emigrantes que tão bem conheço e mantenho no coração.”


REABRIU A “TOCA DO GATO” COM NOVA GERÊNCIA

Com nova gerência, reabriu a semana passada a “Toca do Gato”, uma nossa bem conhecida taberna da Baixa de Coimbra. Ao leme desta reconhecida embarcação pantagruélica está o João Pedro Almeida Braga, dono da Retrosaria Ziguezague e situada ao lado do novo estabelecimento.
Encerrada desde Dezembro do ano transato, a “Toca do Gato” a laborar desde 1930 na cidade, pela sua convivência revitalizadora fazia falta nas Escadas do Gato. Quem nos vai fazer a apresentação é o João Braga: “já sonhava há muito tempo em ter uma tasquinha típica e, agora, surgiu a oportunidade. Até porque, para melhor e pela proximidade dos dois estabelecimentos, com a ajuda da minha mulher, Anabela, consigo conciliar o comércio com a hotelaria. É certo que será muito mais esforçado mas os tempos de dificuldades que atravessamos assim obrigam. No meu novo investimento e na minha reconhecida casa histórica, como manda a tradição, o cliente pode continuar a provar a boa bifana, a sardinha frita, a patanisca, o croquete e o rissol e o ovo cozido. Diariamente, para acompanhar um bom tinto, também temos o pires de orelheira e o polvo em mistura ensalsada. Para além destes petiscos, terá também um prato do dia bem confecionado e por um preço ótimo.
Aproveito o ensejo para convidar os leitores a visitarem esta minha casa típica.”


HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESPONDE

Há cerca de duas semanas escrevi uma crónica n’O Despertar a contar a história de Marek Adam Kepacz, mais conhecido por Marco, polaco e nosso conviva diário destas ruelas e becos. No texto subscrevo a sua vontade de conseguir um acordeão para ganhar algum dinheiro a tocar na rua. Para minha surpresa e a mostrar que há muita gente boa a responder a estes apelos, o polaco já tem um instrumento, cedido a título de empréstimo, que lhe permite ganhar a vida. O benemérito é o meu amigo José João Cardoso. Obrigado João! Esperemos que o Marco esteja à altura do gesto altruísta do Cardoso. Ou seja, ansiamos todos ver o músico a tocar proximamente na via pública. A ver vamos! Mais uma vez, e por que não me cansa enaltecer e agradecer, bem-haja João!


FALECEU O NEVES, DAS AZEITEIRAS

Foi sepultado na semana passada, no cemitério de Chelo, Penacova, o nosso colega Manuel Aguiar Neves. O Neves, com 70 anos de idade e pessoa muito estimada na Baixa da cidade, esteve estabelecido, durante muitos anos, com uma taberna e casa de pasto na Rua das Azeiteiras. Era pai do Jorge Neves, meu amigo e grande defensor da Baixa da cidade. Sei que foi bem cuidado pelo filho Jorge e tudo foi feito para lhe prolongar a vida. Infelizmente estava escrito nas estrelas que o seu caminho tinha chegado ao fim. E quando assim é, por mais que se corra, nada se pode fazer.
Para o Jorge Neves e restante família, em nome da Baixa –se posso escrever assim- as nossas sentidas condolências. Um grande abraço de solidariedade nesta hora de sofrimento e pesar.







segunda-feira, 27 de junho de 2011

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE...)




Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA CONSTATAÇÃO CURIOSA": 


 A resposta à sua questão é simples amigo Luís.
A morte do Luís, o “50” com o lhe prefiro chamar, não foi anunciada como mais um que faleceu, mas sim com muita dignidade e trabalho da sua parte para nos poder informar da verdadeira história do Luís.
A morte do “50” foi descrita por si com sentimento de perda de todos, e muito bem no meu entender, ao mesmo tempo “obrigou” muita boa gente e muita gentinha a olhar para o seu umbigo e a reflectir que por detrás daquele “louco” existia um Homem. 



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Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA CONSTATAÇÃO CURIOSA":

  Apenas uma curiosidade,
635 pessoas partilharam a notícia do seu blogue no facebook....



 
P.S. DO EDITOR:


Já que fala disso -o que lhe agradeço-, desde ontem, das 22h00, até hoje, até cerca da meia-noite, 7.881, Sete mil oitocentos e oitenta e uma, visitas teve o blogue. Incrível, não é?



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26 de Jun de 2011, 14 comentários
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Raquel Misarela deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA CONSTATAÇÃO CURIOSA":

 Sinceramente não sei. Mas gostava de acreditar no facto de haver pessoas boas e de coração grande. Os que dizem que nao faz cá falta serão seguramente pessoas intolerantes, tristes e secas com a sorte de nada de mal lhes ter acontecido, ou pelo menos não deste género. O Miguel, ou "sr. feio" como lhe chamava o meu filho (que tinha um medo terrivel cada vez que o Miguel bebia), será sempre um símbolo de como as coisas podem correr mal, como a linha entre o são e o louco pode ser tão ténue, e como um acidente pode destruir vidas. Sempre quis acreditar que estes "loucos" são só isso, que nao têm noção da dita realidade. Seria sem dúvida mais fácil. Mas hoje quando me disse que o Miguel  tinha momentos de lucidez consegui perceber o talvez deste fim e assustou-me ainda mais a imagem dele na sexta-feira à noite na Praça 8 de Maio. Para quem não é da Baixa era só mais um lunático perigoso e indesejável. Para quem é de cá, já sabem dos beijos e dos abraços nos dias bons. 
E sim, tem sido comovente ver, ler e ouvir a tristeza e sentimento de perda por parte de tantas pessoas que nada lhe eram. Por mim, fica o desejo de nada de mal lhe ter acontecido, esperando que tenha sido acidental ou suicídio, e fica saudade. Porquê, nao sei explicar. Nao será certamente dos beijos lambuzados, nem dos berros nos dias maus, nem tão pouco dos nus integrais na fonte da Praça 8 de Maio, mas havia qualquer coisa no Miguel de sedutor. Mas lá está, provavelmente será essa linha ténue que nos faz lembrar que a vida é frágil e muitas vezes injusta. 

Raquel Misarela 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

COMERCIANTES A BARALHAR E A GANHAR UM TRUNFO





 Como foi amplamente noticiado nos jornais locais da cidade, Diário as Beiras e Diário de Coimbra, realizou-se no sábado, no hotel Oslo, um encontro/debate promovido por um cidadão anónimo de nome Sérgio Reis. Este homem, preocupado com o decair constante da Baixa da cidade, metendo as mãos na massa, enviou 400 cartas em forma de convite aos diversos profissionais do comércio que aqui exercem a sua actividade.
Cerca das 16h00, a bonita sala do Oslo estava relativamente composta –antes de prosseguir, é legítimo deixar aqui um grande agradecimento ao senhor José Madeira, proprietário da unidade hoteleira, que generosamente e gratuitamente cedeu a sala e ainda ofereceu águas e café aos presentes. Nestes tempos que correm é de enaltecer este desprendimento.
Cerca de quarenta pessoas, representativas de comércio, serviços e hotelaria, marcavam posição. Entre elas: o decano comerciante mais antigo em actividade, o Cândido Carvalho, da Loja das Meias; o João Braga ; o António Cruz, da ourivesaria Ágata; o Moreira, da Lusatenas: o Hélder, da Coisas & Sabores"; o Francisco Veiga, das Modas Veiga; o Quirino Adelino; o Alfredo, do Paço do Conde; o Henrique, da Bambina; Paulo Ramos; o Lúcio, da Brasileira; o Eduardo, da retrosaria Edu; o Joaquim, da ourivesaria Safira; o Nuno Rasteiro; o Amadeu Carvalho; o Eduardo Costa; o Luís Carvalho; o Luís Alves; o Armindo Gaspar, da APBC; o Paulo Mendes, da ACIC e o vereador João Orvalho.
Para não deixar créditos apenas aos homens, cinco mulheres marcaram vincadamente ali o seu desejo de ver a Baixa caminhar para um futuro melhor. Entre elas: a Maria Natividade; a Sandra Marques; a Anabela Braga; a Isilda Veigas e a Fátima Madeira, sócias do pronto-a-vestir Sonhos Selvagens.
Optei por transcrever a súmula de cada intervenção -retirei a minha que, de tanto escrever aqui, considerei despicienda. Vacilei se o deveria fazer ou não. Acabei a optar por contar tudo o que se lá passou no encontro. E porque o fiz? Interrogará o leitor? Porque tudo o que escrevi, para além de ter sido feito com o máximo cuidado -sem qualquer intenção de manipular-, vincula quem proferiu as palavras e ficará para memória futura. Mais ainda, o que está escrito aqui, tenho a certeza, servirá para reflectir. Não porque o que é agora apresentado seja algo de novo e que já alguns de nós o não tivesse proferido, mas, assim, tudo transposto para quem quiser ler, quanto a mim, compõe um concentrado de todos os problemas que nos afligem a todos.
É um texto longo, que só lerá quem se interessar por estas questões. Só mesmo quem gostar de ler ou tiver interesse chegará ao fim. É uma grande "seca", bem sei. Desculpem-me ter abusado. 
Espero sinceramente, com este apanhado em forma de lençol, ter contribuído para futuras discussões, e se for para resolução melhor ainda.




O QUE DISSE SÉRGIO REIS?

 Naturalmente, abriu com votos de boas-vindas o anfitrião Sérgio Reis. Depois de se apresentar, contou então que seria sua intenção criar uma página na Internet onde todos os inscritos, através de “password”, ficariam a par do que se iria passando.
A seguir propôs que o horário de atendimento ao público nas lojas se fizesse de segunda a sábado das 09 às 20h00.
Disse depois que o alargamento de horário para as grandes superfícies ao domingo todo o dia não vai trazer nada de benéfico, quer para o consumidor, quer para quem lá trabalha. Assim como, notoriamente, não trará mais criação de emprego. Está na mão do executivo municipal, fazendo o mesmo que outras algumas autarquias, ter a coragem de dizer NÃO a esta pretensão do grande comércio;
Disse ainda que é um absurdo manter uma creche aberta até à meia-noite. É impensável ir buscar uma criança a essa hora em consequência de os pais estarem a trabalhar. Será esta a sociedade que queremos construir para o futuro? Deixou em interrogação;
Propôs ainda que os parquímetros apenas funcionassem, a pagar, das 09 às 17h00 e de segunda a sexta-feira;
Que o pagamento de estacionamento nos parques subterrâneos deveria ser feito pelos comerciantes através de senhas dadas aos clientes em compras superiores a 20 euros;
Que o estacionamento no Mercado Municipal deve ser gratuito apenas para quem comprar no mercado;
É preciso rever a iluminação nocturna na Baixa, sobretudo, através da limpeza e substituição de lâmpadas;
A autarquia deve isentar de taxas todos os reclames luminosos de estabelecimentos comerciais que contribuam para a iluminação pública;
Na segurança, deve ser dada maior visibilidade à PSP;
É preciso trânsito na Baixa. Sem tráfego automóvel não há negócio. Deve ser inventariada a hipótese de repor os transportes públicos e táxis a circular nas Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges, tendo em conta uma maior ligação à Universidade e aos Hospitais;
É necessário colocar carros a circular, como antigamente, entre a Rua de Sargento-Mor e Esteireiros;
Colocação de alguns parquímetros na Praça do Comércio para permitir uma paragem temporária a quem vem comprar à Baixa;
É preciso avaliar a limpeza diária no Centro Histórico;
É preciso rever a remoção de cartazes publicitários –não defende a colocação em espaços criados unicamente para o efeito;
É preciso efectuar a limpeza de grafites –os vários cenários actuais desmotivam os compradores;
As obras na via pública devem passar a serem acompanhadas de aviso aos comerciantes, com datas de início e de términos;
Deve ser maior a publicitação de todos os eventos a realizar na Baixa pela APBC. A sua programação deve passar a ser semestral em vez de anual.
“Seguidamente iremos dar início ao debate com as várias pessoas inscritas. O primeiro da lista será o senhor Paulo Ramos”, disse Sérgio Reis.



O QUE DISSE PAULO RAMOS?


“Chamo-me Paulo Ramos, sou representante da Românica, um estabelecimento na Rua Adelino Veiga.
Estamos desagregados. Já fiz tudo para acompanhar o que é necessário para aguentar no comércio tradicional. Modernizei as minhas lojas. Tive uma marca de franchising…hoje está fechada. O representante da marca obrigou-me a encerrar.
Aceitei integrar a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra.
Os subsídios europeus para a ACIC foram esbanjados. Esta associação é uma predadora; precisa deles para sobreviver. Concorre aos fundos, mas depois não os executa. São coisas desgarradas.
Foi criada a APBC. É um desperdício de verbas. Se fossem bem aproveitadas talvez se pudesse ter alterado a situação.
É necessário outro modelo. Temos andado a ser enganados. É preciso alterar este modelo de funcionamento da APBC. É preciso partir para uma nova estrutura organizativa", disse Paulo Ramos.



O QUE DISSE SANDRA MARQUES?


“Chamo-me Sandra Marques. Represento a Ez-Team, é uma empresa de serviços virada para a ajuda ao empresário, nomeadamente na criação de “loja Online” e outros serviços ligados à Internet, mas temos vasto leque ligado a serviços de consultoria. Comigo trabalham 20 profissionais.
Estou há pouco tempo na zona, conheço mal a Baixa. No entanto, no meu entender, penso que o comércio local terá de se virar para o mercado externo através da sua presença online. Para além disso, é preciso atrair pessoas à Baixa –e aqui, pelo que vejo, dou os parabéns à APBC, que sinto estar a desenvolver um bom trabalho.
É preciso motivar os proprietários para restaurar os seus prédios. Sei que há na Câmara Municipal facilidades para conseguir este intento. Nós, a nossa empresa, está num edifício recentemente intervencionado. Está lindíssimo. Tivemos sorte em encontrar um senhorio assim. É preciso, e urgente, acabar com esta imagem de casas velhas e a caírem.”



O QUE DISSE MARIA DA NATIVIDADE?


“Chamo-me Maria da Natividade. Sou empregada aqui na Baixa, numa loja comercial, onde trabalho há 34 anos. Adoro esta zona. A Baixa é a minha vida. Exerço a minha actividade como se fosse eu a proprietária. Naturalmente, para poder continuar a contar com o meu posto de trabalho.
Pela degradação, estou muito preocupada. É preciso lavar a cara a esta zona antiga. É preciso que haja mais transportes públicos, sobretudo serem mais eficazes, com outros horários. É preciso tornar a Baixa atractiva, de modo a que as pessoas que aqui vêm se sintam cá bem. É necessário colocar vasos com flores para embelezar esta parte museológica –nós, lá na nossa loja, fazemos isso e as pessoas gostam muito. Até nos dão os parabéns.
Se não fosse o senhor Armindo –apontando o presidente da APBC- muito mais lojas estariam fechadas.”


(este esboço não é do Nuno. Por lapso não lhe tirei o "boneco")



E NUNO RASTEIRO DISSE O QUÊ?


“Chamo-me Nuno Rasteiro. Sou arquitecto. Tenho aqui o meu ateliê. Ainda estou há pouco cá, mas já deu para ver que há aqui muito trabalho para desenvolver. É preciso recuperar todo este edificado monumental para que esta zona se torne aprazível e dê gosto ao consumidor vir aqui fazer as suas compras e cativar novos moradores…”



E O QUE DISSE AMADEU CARVALHO?


"Sou o proprietário da farmácia Vilaça. Estou a revitalizar o edifício. Sinto que aqui em Coimbra, a nível camarário, é muito mais difícil trabalhar do que em Viseu. O IPPAR/IGESPAR é um problema muito sério. Já cheguei a vir de Lisboa de propósito para resolver coisas ínfimas. Por uma simples assinatura, complicam, complicam, demais.
Quando comprei o prédio ainda me chegaram a dizer: “porque é que não monta ali o “Mc Donald’s”? Ainda cheguei a pensar nisso, mas, tendo em atenção a área e segundo percepcionei, a marca não quer apostar aqui na Baixa.
Esta autarquia de Coimbra é muito burocrática. Por exemplo, para manter um reclame que outrora a farmácia teve, que era composto, “Farmácia Vilaça – Perfumaria”, andei que tempos de volta de projectos e mais projectos. Aconselharam-me a retirar a “perfumaria” do reclame, mas eu queria manter, já que era assim que, há muitas décadas, me lembrava da farmácia. Então, depois de muito teimar lá consegui a legalização. Passaram-me três alvarás: um para “Farmácia”, outro para “Vilaça” e outro para “Perfumaria”. Ora é evidente que isto está mal. Há coisas simples que se podem e devem fazer…a bem de quem vem investir aqui na Baixa. Mas isto não será óbvio?"



E O QUE DISSE O QUIRINO ADELINO?


“Chamo-me Quirino Adelino e sou o proprietário da sapataria Trinitá. A limpeza nas ruas é um problema. Sinto vergonha de ver tanto lixo.
Foi um crime retirar o trânsito na Rua Ferreira Borges/Visconde da Luz. Na altura chamei a atenção. Ninguém me ouviu. É preciso repor o tráfego automóvel. Pelo menos transportes colectivos e táxis.
É preciso acabar com aquela miséria da venda-ambulante junto à Loja do Cidadão. Até agora, não vejo nenhum presidente da Câmara que seja capaz de acabar com isto. Era preciso haver indústria em Coimbra. Deixaram morrer tudo.
Toda a Praça do Comércio deveria ser toda para restauração.
Há coisas elementares, junto ao café Angola deveria estar uma paragem de autocarros, para as pessoas entrarem na Rua Adelino Veiga. Seria uma forma de se tentar recuperar esta artéria outrora tão vivificada e hoje em coma comercial. Duzentos metros entre as paragens da Estação Nova e a da Loja do Cidadão são muitos metros. Não cabe na cabeça de ninguém… com juízo…”



O QUE DISSE PAULO MENDES?


“Chamo-me Paulo Mendes e sou o presidente da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra.
Gostaria de clarificar dois pontos. O primeiro é que a criação da APBC foi uma decisão da ACIC. Com a produção desta agência passou a haver uma delegação de funções. A ACIC é de âmbito distrital e, naturalmente, não se poderia debruçar sobre a Baixa com a mesma eficácia e do mesmo modo como o faz a APBC. Está muito bem entregue e, esta agência, tem feito um bom trabalho.
O segundo ponto é que os problemas que se passam aqui nesta zona histórica são iguais e são transversais a todas as baixas do país.
É urgente alterar a fisionomia da cidade. A nova avenida Central, cujo projecto já vem da década de 1940, é fundamental. Não se sabe se irá haver Metro de Superfície ou não, mas uma coisa sabemos: é importantíssima a nova Avenida Central para projectar a cidade até ao rio.”



E O QUE DISSE O EDUARDO COSTA?


“Chamo-me Eduardo Costa e sou proprietário de uma das mais antigas hospedarias da cidade. Gostaria de informar que mais de 80 por cento da oferta de alojamento é feita pelas pensões.
Há muito para fazer pela Baixa. Os transportes públicos deveriam circular de acordo com os interesses dos consumidores. A zona histórica está velha, decrépita e abandonada. É preciso mudar esta imagem de miserabilismo que transparece a quem nos visita.
Fazem as coisas sem pensar. Por exemplo, colocaram uma cancela a impedir o acesso ao estacionamento do mercado… mataram o posto de turismo. Alguém se importou com isso?
Têm tirado os serviços todos da Baixa. No dia em que retirarem a Estação Nova, a câmara e o tribunal, o que nos resta, o que poderemos fazer, é ir entregar as chaves dos nossos estabelecimentos à autarquia.
Estamos a 30 dias das comemorações do foral da cidade. Alguém ouviu falar de alguma coisa?"



O QUE DISSE O CÂNDIDO CARVALHO?


“Chamo-me Cândido Carvalho e sou o proprietário da Loja das Meias em Coimbra. Estou muito contente por estar aqui a debater estas dificuldades que tantos nos afligem a todos. Até agora, a todos os presidentes de câmara que aqui têm passado os nossos problemas entram por um ouvido e saiem pelo outro. Nunca nenhum quis saber.
Hoje, para minha satisfação, reparo que é a voz do povo… é o povo que está aqui.“
Apontando para o vereador João Orvalho, “o senhor vereador é o “pára-secas” aqui. Desculpe falar assim. O senhor passa a ser o nosso delegado na Câmara Municipal de Coimbra…
Tenho 85 anos. É triste verificar as consequências deste capitalismo selvagem. O que se passa no nosso país é o mesmo que se passa na América latina… é muito triste constatar este facto.
O comércio é uma família. Quantos milhares de empregos damos?
Volto a dizer, o senhor vereador passa a ser o nosso delegado na Câmara Municipal de Coimbra. Faça lá sentir que somos gente. Estão a ouvir bem?... Que seja nomeado nosso representante na autarquia. Tem mesmo de ser…”



E O QUE DISSE ARMINDO GASPAR?


“Chamo-me Armindo Gaspar e sou o presidente da APBC. Começo por dizer que a entidade que presido não tem administradores a ganhar salário. Tem duas funcionárias em que o seu ordenado é cabimentado.
Eu e os meus colegas de direcção estamos “atravessados” numa conta caucionada de 50 mil euros na Caixa Geral de Depósitos. É a única forma de fazer face aos compromissos da agência.”
Virando-se para Paulo Ramos, “não lhe admito que levante suspeições a meu respeito. Está a ouvir? O senhor também recebeu subsídios para as obras do Procom que fez nas suas lojas. Faça o favor de não me ofender. O senhor esteve na agência e sei muito bem os problemas que levantou…
A APBC já tem protocolos assinados com os parques de estacionamento e nunca funcionou porque os comerciantes nunca se interessaram em adquirir senhas para entregar aos seus clientes.”
Virando-se para o vereador Orvalho, “não é por estar aqui o professor João Orvalho, mas afirmo aqui que este (novo) presidente da Câmara tem uma abertura completamente diferente do anterior… posso-me enganar. Oxalá não me engane…”



RESPONDE PAULO RAMOS

“Eu não ofendi o senhor. Nem sequer nomeei o seu nome. Agora que o senhor nomeou o meu vai ouvir: o senhor é uma pessoa boa e honesta… isso não tenho dúvida… mas é uma marioneta nas mãos da ACIC.”



E O QUE DISSE O VEREADOR ORVALHO?


“Meus senhores é um prazer estar aqui. Não fui convidado, fiz-me convidado. Não sou muito de palavras… sou mais pela realização. O presidente da Câmara Municipal não está aqui… não precisa de estar. Estamos os dois do mesmo lado, eu e ele.
Todos sabemos que há toneladas de diagnósticos. Este país é o maior a fazer estudos. Mas eu não estive só a marcar presença. Estive a tomar notas. Foram aqui ditas coisas muito importantes
Estou em frente de bons gestores. Se não o fossem não teriam chegado até aqui.
Mexer nos transportes, nos horários, na sua racionalização, na sua eficácia, é obrigatório. Estamos a trabalhar nisso.
A Baixa tem de ser ocupada com jovens e, sobretudo, com residências universitárias; com indústrias criativas.
A questão da limpeza irá ter um novo enquadramento.
Na iluminação pública iremos alterar substancialmente, sobretudo, com melhor gestão; iremos baixar os consumos com novas lâmpadas.
Iremos ter um gabinete de relação com o munícipe.
Irá haver uma reorganização toda integrada; o Gabinete para o Centro Histórico vai deixar de existir –Não estamos a inventar nada, estamos é atrasados.
O Turismo está a ser também reorganizado e também com vários pontos móveis. O Turismo é fundamental. Não sabemos comunicar. É essencial saber estabelecer comunicação com Paris, Nova Iorque, etc.
A Baixa já começa a estar na moda. Há muita gente a querer vir para a Baixa.
Temos de acreditar que a Baixa renascerá!”



O QUE FAZER AGORA COM TODOS ESTES DADOS?

  Houve várias opiniões acerca do que se haveria de fazer a seguir. João Braga foi taxativo: “não vale a pena andar a criar grupos de trabalho. Não teria força e isso iria desunir as nossas pretensões. É preciso que o que saiu daqui seja apresentado à APBC e todos juntos devemos remar para o mesmo lado. É preciso aproveitar a experiência da agência, que, já se disse aqui, tem feito um bom trabalho. Agora, para se enriquecer ainda mais, só precisa de dar atenção ao que foi hoje aqui apresentado.
 A presença do vereador João Orvalho foi fundamental e, neste baralhar e dar de novo, constituiu o grande trunfo nesta boa jogada do Sérgio Reis.
Parabéns a todos!     

quinta-feira, 24 de maio de 2012

LEIA O DESPERTAR



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA


Para além  da coluna Memória: "Brancal sem concorrência", deixo também os textos "Reflexão: Enterrar a cabeça na religião", "O sinal do Zorro" e "Rostos nossos (des)conhecidos: O Popeye".




MEMÓRIA: BRANCAL SEM CONCORRÊNCIA

 Em 26 de abril de 1976, quando no rescaldo das eleições legislativas se contavam os votos para uma maioria de esquerda entre o PS e o PCP, e com a recente aprovação da Constituição da República portuguesa se arrumava de vez com o PREC, Processo Revolucionário em Curso, a Brancal, loja de lãs, na Rua Visconde da Luz, abria ao público na cidade. Uma semana depois, na segunda-feira 3 de maio, entrava ao serviço Natividade Oliveira, a funcionária que viria a ser a pedra de toque no futuro deste estabelecimento comercial.
Nesses tempos idos, da década de setenta, o pronto-a-vestir ainda era incipiente. Talvez por isso se entenda que só na Baixa havia quase uma dúzia de casas a vender meadas. Eram a Bijoulan, a Rostex, a Zéfios, a Casa Monteiro, o Capitão, as Teresas e outras que a nossa memória já não lembra. Hoje, como símbolo de um tempo que passou –mas felizmente nesta área está a voltar-, a Brancal é o único sítio onde se podem comprar novelos em quantidade e de grande qualidade.


Mas, sendo assim, o que aconteceu para nos nossos dias só restar a Brancal? Responde a Natividade: “é assim, como sabe, nessa épocas de 1950 até 1985 –este último ano que considero ser o pico das vendas- o rendimento disponível das famílias era escasso e, acima de tudo, havia o costume de se fazerem camisolas à mão. Era um hábito cultural que se transmitia de mães para filhas –também, talvez porque a roupa feita, vendida nas lojas, ainda estava a dar os primeiros passos. Depois, sobretudo a partir de meados de oitenta, o pronto-a-servir invadiu tudo –se reparar, nesta altura, começaram a desaparecer as costureiras e os alfaiates-, e, por parte do consumidor, passou a haver mais dinheiro. Para além disso, creio também que a televisão, enquanto instrumento lúdico de serão, veio ajudar à festa. Então, naturalmente como se começou a vender menos, por inerência, foram encerrando as fábricas de lãs pelo país fora. No caso da Brancal é diferente, porque temos integração vertical, isto é, somos fabricantes desde a fiação até à tinturaria e incluindo a distribuição. Não temos intermediários. E para compensar, num vasto leque de oferta ao público, temos cerca de 28 pontos de venda em Portugal. Embora de grandes alicerces, é uma empresa familiar: os Brancais –é uma importante família muito conhecida na Covilhã, onde estão localizadas as fábricas e outros investimentos.”


A Natividade já não vê o patrão há cerca de 12 anos. Implicará esta ausência numa redobrada confiança na gerente? Interrogo. “Ora bem, não me caberia responder, no entanto sempre lhe vou dizendo que tudo faço para merecer esta fidúcia. Ao longo destes 35 anos, entreguei-me sempre totalmente de corpo e alma a esta causa. Procedo de modo igual como se o negócio fosse meu. Deito-me a pensar na loja, sonho com ela, e acordo a pensar nela. Às vezes, em brincadeira com o meu marido digo-lhe que tenho dois amores, assim como o Marco Paulo, está a ver? Também é certo que não estou sozinha, de dois em dois meses vem um supervisor perguntar o que é que preciso. É realmente uma grande prova de confiança. Mas, passando a imodéstia, acho que a mereço. Não tenho horas de saída; se necessário não vou almoçar e, posso dizer-lhe, muitas vezes, para preparar as coisas para o dia seguinte, fico até altas horas na noite.”
E, com esta crise, como é que estão a correr as vendas? Questiono. “Graças a Deus, muito bem. A tradição está a voltar outra vez e com muita força às lãs. Não sei bem, mas talvez pela saudade, pela memória de outros tempos, ou, quem sabe, pelo prazer de oferecer uma peça de roupa a um netinho, com a ternura de ter sido feita pela avó. O ano transato foi um dos melhores de sempre. É um negócio garantido. No último Natal tivemos muitos clientes a comprar uma meada com agulhas para oferecer na quadra. Felizmente, mesmo nesta altura, não há mãos a medir. Tenho a sorte de estar muito bem acompanhada pela Paula Costa, que é uma excelente colaboradora. Entendemo-nos muito bem e fazemos uma boa equipa.


Sabe que temos muitos homens a comprar para eles próprios confecionarem? É verdade. Conheço alguns que fazem muito bem tricot. Temos muitos outros a adquirirem malhas e agulhas para levarem para as esposas, mas ficam enrascados quando lhes perguntamos se a agulha é sem ou com barbela –é a cabeça que a agulha tem.”
E como é que a Natividade vê a Baixa atualmente? Pergunto. “Ai, senhor Luís, tenho muita saudade daqueles sábados em que os transeuntes passavam carregados de sacos. Sempre que há eventos por aqui e vejo muita gente vêm-me as lágrimas aos olhos. Dava tudo para que se mantivessem as lojas abertas. Ainda agora, com o encerramento da Casa Ruben, sendo sua vizinha, foi uma surpresa triste. Custou-me muito, mas mesmo muito. Se, por acaso, este senhor ler este texto gostaria de lhe transmitir o seguinte: muita força e coragem, senhor Ruben. Não tenho palavras para lhe quantificar a felicidade que lhe desejo. Que Deus o acompanhe. O senhor foi sempre uma ótima pessoa e deixa muitas saudades aqui na rua.”

REFLEXÃO: ENTERRAR A CABEÇA NA RELIGIÃO

(Imagem da Web)

 Segundo a imprensa, neste 13 de maio último, estiveram cerca de 300 mil pessoas no santuário de Fátima e foram queimadas 31 toneladas de velas. Poderia começar por dizer que a religião é o ópio do povo, tal como escreveu Karl Marx em 1844 –embora já tivesse aparecido anteriormente em textos de Kant e de Feuerbach- mas não quero ir por aí de uma forma tão linear. Antes de prosseguir, saliento que não estou a pôr em dúvida as opções de cada um e muito menos a fé -esta, enquanto convicção de verdade pessoal e indiscutível.
O que gostaria de refletir é que, num ano de intensa crise como a que vivemos, neste acorrer em massa à Cova da Iria, há muito de calculismo nas preces de quem lá esteve presente. “Eu vou, acendo uma vela, rezo a Nossa Senhora e Ela, em troca, ajuda-me nos meus negócios”, é assim que pensa o povo, na sua canonizada ignorância, e que durante um dia, embrenhado no odor da cera e dos cânticos religiosos, se julga senhor de todos os santos. No resto do ano, esquecendo tudo o que ouviu, indiferente à injustiça e insensível à humanidade perene, está sempre pronto a tramar alguém. Bem sei que historicamente sempre foi assim e, no futuro, sempre assim será. A bondade, enquanto sentimento autêntico, é imanente ao homem e sai de dentro, da alma, para fora. O que quer dizer que por muito puras e bem-intencionadas, que sejam as mensagens cristãs, por exemplo, sendo sempre extrínsecas, de fora para dentro, para a receber no coração, enquanto luz de aperfeiçoamento espiritual, nem todos, poucos, se deixam alcançar.


O SINAL DO ZORRO

 

(Imagem da Web)

 Na noite de quinta para sexta-feira, da semana passada, três dependências bancárias, na Rua Ferreira Borges e num raio de 20 metros, foram atacadas com um objeto contundente e viram os seus vidros quebrados. Embora este assunto passasse ao lado da imprensa nacional, e só fosse noticiado pela imprensa local, não deixa de ter a sua ponta de mistério. Teria sido uma manifestação de revolta ou um simples ato isolado de alguém que, ideológica e solidariamente, se coloca ao lado dos muitos espoliados pela máquina bancária? Pessoalmente inclino-me para esta hipótese.
Pode até parecer que concordo com esta atitude. Não, não aceito de maneira nenhuma este género de reivindicação, sobretudo, saliento, porque é anónima e cobarde. É violência gratuita e apologista do caos. Porém, mesmo defendendo a ordem e a legalidade, e a frontalidade que deve ser condição “sine qua non” de alguém que se preza, não considero despiciendo escrever que este “atirar e fugir”, este “sinal do Zorro”, apesar de inócuo, não deixa de ser uma marca na forma imoral como os bancos estão a atuar na sociedade portuguesa. Estas entidades, outrora denominadas de “instituições de crédito” que detinham a responsabilidade do desenvolvimento social, hoje pouco diferem do “onzeneiro”, de Gil Vicente, no século XVI e subsequentes, o agiota que emprestando dinheiro a juros com garantia real, tudo fazia para, invocando vários estratagemas, confiscar a propriedade ao devedor. Este sistema bancário não serve o público em geral. Financiando-se no Banco Central Europeu a taxas reduzidas, serve-se a si mesmo e o de localizados interesses, mas jamais o povo.

ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS


O “POPEYE”

 É o António Simões da Silva, mais conhecido pela alcunha carinhosa de "Popeye". É um passante diário das nossas ruas estreitas. Tem uma leve demência, no entanto não deixa de respeitar quem está. Sempre que o vejo, lembro-me do pai, homem de H grande e já falecido. Com um farto bigode enrolado nas pontas, bombeiro-chefe de profissão, andava sempre de chapéu. Um dia, para minha sorte, cruzou-se comigo. Sem nos conhecermos, o seu testemunho foi fundamental num acidente de viação em que eu estava envolvido. Apesar de já ter passado cerca de 25 anos, o seu exemplo continua a servir-me de guia no dia-a-dia. De certo modo, neste meu singelo ato de retratar o filho, fica o agradecimento e a homenagem ao velho Silva.