domingo, 7 de janeiro de 2024

FALECEU O TOZÉ, O PASTOR AGREGADOR DO BLOCO DE ESQUERDA/COIMBRA

 






Fiquei a saber, hoje pelo Diário de Coimbra, que faleceu o António José André, mais conhecido em toda a Baixa de Coimbra por “Tozé”.

Durante muito tempo acompanhei de perto a militância activa do Bloco de Esquerda em Coimbra. Fui uma espécie de prosélito (aquele que abraça uma religião diferente da sua), ou seja, ideologicamente considerando-me liberal, comprava à peça as actividades do partido na cidade, isto é, se concordava com o tema da reunião, fosse sobre economia, política e sociedade, estava lá para escrever e aprender em longas conversas, sobretudo, no Café Santa Cruz.

Como tinha uma loja na Baixa da cidade, antes da realização dos eventos, era certo e sabido que iria ter a visita do “Tozé” André a convidar-me. Da porta de entrada da loja lançava o desafio: “Vais lá?”

Mais tarde comecei a receber os convites por SMS. O último foi no final de Dezembro. Embora há muito deixasse de participar, certamente por continuar na rede de contactos, era certo em receber uma comunicação.

O “Tozé” foi em vida, como se diz na gíria, um tipo bacano. Professor de profissão, era uma pessoa sem peneiras. Falava a toda a gente, independentemente do estatuto social. Não tenho dúvida nenhuma em afirmar que o Bloco de Esquerda/Coimbra e o movimento Cidadãos por Coimbra, tendo a importância que têm, muito devem a este militante de causas sociais. Era uma pessoa discreta e eficaz. Era o pastor que, na sombra e meticulosamente, reunia as “ovelhas” em torno de uma ideia e acontecimento promovidos por qualquer uma das agremiações políticas na cidade dos estudantes.

Era muito normal vê-lo a distribuir “flayers” na Praça 8 de Maio em horas de ponta.

Companheiro e amigo do falecido João José Cardoso – outro grande defensor de causas sociais na cidade – com mais esta perda , soma a duas o desaparecimento importantíssimo de dois relevantes activistas na meia idade.

À sua família enlutada, em meu nome e da Baixa de Coimbra, se posso escrever assim, os nossos sentimentos profundos.

Até sempre, “Tozé”. Que descanses em paz.


sábado, 6 de janeiro de 2024

A OBSTRUÇÃO

 




Mas eu não me deixei amolecer. Avisei logo: ou ajudas

no mal que me atormenta ou não vais ver um cêntimo para ajudar

a pagar a sagrada procissão que vai acontecer proximamente,

já que no que toca a festa profana, bailarico e outros que tais,

não vais ter sorte nenhuma”


Esta semana, tudo começou devagar, devagarinho com um pequeno arroto, assim como se a canalização expelisse ares de cólica abdominal em vómito anunciado. Não sei se estou a ser claro mas, em boa verdade os líquidos não corriam livremente como deveria ser.

No primeiro dia, não dei muito importância, afinal nunca tivera problemas com o encanamento. Se é certo que nunca tivera muito cuidado com as gorduras, que provocam a obstrução e o colesterol e, no limite, podem provocar o colapso, também é certo que tinha um certo uso mas não era muito velha. Isto é, visto do exterior, tudo indicava estar ali para as curvas, durante mais umas largas décadas.

O problema é que o engasgamento continuava e tudo indicava ter vindo para me complicar a vida. Se no início era um simples expelir de gazes encaracolados em bolas de sabão, com a continuação o bloqueio foi total e o cheiro pestilento a podre invadiu tudo em redor. A minha mulher, sem saber o que fazer, preocupadíssima como sói de ver, só maldizia o azar que nos calhou em sorte. Às tantas, sabe-se lá, foi bruxedo. Andam para aí tantas bruxas desencaminhadas, prontas a despejar o veneno em pessoas boas, como nós.

Comecei por vários produtos especializados. O primeiro a entornar em dose dupla, para além de provocar uma sensação de borbulhar, não deu em nada. O segundo, aparentemente melhor do que o antecedente, dando-se imediatamente por vencido, nem se dignou promover uma rebelião interior. O terceiro, sugerido como o melhor à venda no mercado, e acompanhado de banhos de água quente, rendeu-se logo e deu-se como incapaz no primeiro assalto.

Os dias iam decorrendo e eu sem ter melhoras. O cheiro a pútrido era cada vez mais notado.

Várias vezes dei por mim a pensar que os meus vizinhos chamariam a ASAE por pensar que transformei a minha casa numa destilaria clandestina.

Deitava-me a pensar em possíveis soluções milagrosas, acordava a meio da noite a transpirar de ansiedade, e, para além de umas profundas olheiras negras, levantava-me sem alento. Comecei a dar por certo que isto era mesmo mau-olhado, ou, se calhar, o pagamento antecipado pelos muitos pecados que pratiquei e descrença no sagrado.

Ao terceiro dia a situação estava simplesmente caótica e sem controlo. À minha falta de paciência para tal calamidade e empestamento, soçobrava uma apatia cada vez mais instalada que me impedia de dormir. A minha mulher, perante o meu “deixa-andar”, encostando-me o dedo indicador em riste no nariz, lançou um ultimato: ou chamava um clínico para debelar a doença ou apelava ao transcendente, como quem diz, recorrer à hagiografia católica e lançar mão à bem-aventurança de um Santo.

Mas as coisas não eram tão lineares assim. Se, por um lado, corria o risco de chamar um “médico” para debelar o imbróglio e, para além de não resolver a anomalia, me levava o coiro e o cabelo, por outro, como é que ia rogar a um Santo que me ajudasse nesta aflição se, para além de não acreditar no seu poder metafísico, há muito tempo, mas muito tempo mesmo, não falava com nenhum, nem mesmo naqueles momentos mais introspectivos, de catarse? E mais: a que santo vou pedir auxílio? Aos da casa, como diz o povo, não valia pena, porque não fazem milagres.

Até que na última noite, passada em branco, inteirinha a contar carneiros, tomei uma decisão drástica e de último recurso: apesar do descrédito sentido, iria pôr em acção o poder obscuro e enigmático dos santos da casa.

Ontem, em abstração, tive uma longa conversa com São Sebastião – para quem não sabe, é o padroeiro da nossa aldeia, e cuja festa anual é no próximo dia 20. Abri o diálogo – aliás monólogo – logo a atacar. Não fosse ele pensar que, por ter sido mártir e reconhecido milagreiro e eu ser um simples humano, me metia medo. Isso é que era bom! E ainda lhe disse que não acreditava nele. Com aqueles olhos profundos e fixados em mim, a santidade parecia olhar-me com ternura, compreensão e contemporaneidade. Mas eu não me deixei amolecer. Avisei logo: ou me ajudas no mal que atormenta ou, não vais ver um cêntimo para ajudar a pagar a sagrada procissão que vai acontecer proximamente, já que no que toca a festa profana, bailarico e outros que tais, não vais ter sorte nenhuma. Levas uma homilia e um cortejo em torno da povoação, e dá-te por grande sortudo. E dei por encerrado o bate-papo.

Entretanto, lembrei-me que, num canto da minha casa, tinha uma imagem de Santo Onofre, o protector dos comerciantes, em terra cota com cerca de um metro de altura. Durante mais de uma década, aparentemente, esteve a olhar pelo meu negócio numa loja de velharias que tive em Coimbra. Ou seja, sendo franco, esta imagem fazia companhia a outras que se destinavam a venda e compunham o acervo do velho estabelecimento comercial. Como fechei o negócio no final de 2022, dei guarida a algumas peças não vendidas, uma delas foi a imagem de Santo Onofre.

Num olhos-nos-olhos, coloquei-lhe a questão friamente: aqui, a tua função de zelador comercial terminou. Para além disso, como te apercebeste, ninguém se interessou em levar-te para casa. Ora então, temos que decidir o teu futuro. Ou vais para uma ermida obscura e perdida no monte, ou vais para o desemprego, ou, no limite, não tendo lar de acolhimento, vais aumentar o índice de sem-abrigo por esse Portugal fora – e que o Marcelo, o Presidente da República, prometeu erradicar da pobreza.

Coitadinho, fixou os olhos em mim com tal tristeza que até se me deu um lancinar no lado esquerdo. Palavra de honra, arrependi-me imediatamente do que tinha proferido. Podem não acreditar mas, apesar dos meus lapsos e relapsos ao longo da minha existência, eu até tenho bom coração. Então, moderando o tom agressivo, sugeri: está bem, não te vou abandonar como se fosses um preso de longa data que, depois de libertado, não tem onde cair morto. Vais comigo para a minha residência. Mas, atenção, vais ter de trabalhar como qualquer comum mortal, que lá em casa não há pão para malandros. Vais ter de te esforçar e mostrares o que vales.

Mais uma vez, com voz grave, como naqueles momentos de grande tensão, interpelei o Onofre e ordenei: meu amigo, durante o último ano em que permaneceste como hóspede neste locado, não me apercebi de qualquer graça tua transcendental. Então, meu caro, chegou a hora de mostrares o que vales. Considera ser uma oportunidade.

E, pela enésima vez, fui tentar desentupir o cano do lavatório da cozinha. Sentia-me esperançado e com muita fé. Algo no meu interior me dizia que ia mesmo conseguir. Não é para isso que a fé complementa a nossa limitação, incompletude, e nos empurra para a frente, mesmo sem ânimo?

Repetindo o processo já anteriormente tentado, novamente enfiei a longa bicha curvilínea, mas agora ligada a um berbequim. Como cobra saracoteando na terra árida, penetrou no longo buraco escuro. E pumba! Já está! Finalmente! E a água toldada pelo cansaço, como se deslizasse na planície por entre socalcos, correu alegremente.

Num canto da minha casa uma certa imagem que simboliza a crença no divino pareceu sorrir.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

FELIZ ANO 2024


Aos meus mais chegados, aos outros ligeiramente mais afastados e àqueles que estão mais longe de mim do que a Lua cintilante, que a luz ofuscante que o Sol irradia os ilumine a todos por igual, são o desejo sincero deste vosso camarada. Bem sei -como diz a frase, “bem-aventurado aquele que nunca espera nada, pois nunca irá se decepcionar”- que a esperança (e a ambição) é o motor da humanidade, que a empurra em direcção ao desconhecido e a faz andar para a frente, mas o mais certo é mesmo pedir igual ao que nos calhou em sorte no ano velho que agora acaba.

Entre tantas coisas que gostávamos mesmo de ter e não temos, no mínimo, que não se esgote a saúde e a doença não nos apoquente.

Um bom Ano Novo.


 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

O NATAL COMEÇA AGORA

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)





Acordei de manhãzinha com o Sol no meu beiral,

por entre a agitação de um sono profundo,

sonhei que era o incarnado espírito de Natal

que vinha trazer a paz e a concórdia ao mundo,

silenciando as guerras entre o Bem e o Mal,

digladiando religiões com o mesmo fundo,

e um Deus, amor do interesse individual,

em que irmãos se gladiam num submundo,

e filhos tratam os pais com ferocidade brutal;


A madeira dos móveis clicava, estremecia,

a minha gata espreguiçava a pata e o dente,

a minha amada calma e serenamente dormia,

por entre ruídos surdos e silêncio envolvente,

eu pesava tudo, imaginava o que me acontecia,

acredito que a tolerância deve ser transcendente,

e o perdão, sem ter em conta a crença que nos guia,

deixar cair o fanatismo insano e mentiras vigentes,

sermos como somos em verdade e não o que se plagia;


De que vale acender a vela no altar ao padroeiro,

rezar Pais Nossos e Avé Marias a Nosso Senhor,

fazer promessas de beatice em alma de romeiro,

tomar a hóstia, Corpo de Cristo, ministrada pelo prior,

confessar os pecados repetidos à exaustão de boateiro,

bater no peito com a mão, parecendo livre de rancor,

ajoelhando, prometer tudo perante o divino, e justiceiro,

se os buracos da desumanidade são não ter para dar amor

e em vez de partilhar, em soberba, furta como vezeiro.


domingo, 24 de dezembro de 2023

 



A todos os nossos amigos, conhecidos e inimigos desejamos uma mesa cheia de tudo, incluindo amor, saúde e algum conforto financeiro. Aquele enorme abraço que embora virtual até parece apertadinho.

Boas festas.


quarta-feira, 1 de novembro de 2023

HOJE É DIA DE TODOS OS SANTOS




Hoje, 1 de Novembro, “Dia de Finados” é feriado religioso convencionado para homenagear, “visitando” os nossos mortos, mais familiares ou menos chegados, nas campas e mausoléus dos cemitérios.

Reza a história que a prática de enterrar os mortos em cemitérios públicos como a que conhecemos hoje é relativamente recente, com pouco mais de dois séculos. Teria começado com o iluminismo, movimento cultural europeu iniciado no século XVII e seguinte que tinha por finalidade gerar e alterar usos e costumes em vários sectores da sociedade desse tempo, respectivamente políticas, económicas, sociais e judiciais. Os iluministas defendiam a vulgarização do conhecimento, tornando-o geral, para alcançar a razão, cimentando a objectividade no lastro do raciocínio lógico de pensamento crítico individual, em detrimento de uma subjectividade imposta de fora, de cima, pelo absolutismo feudal e pela teologia. Os homens das luzes, tinham em mente, sobretudo acabar com o obscurantismo, criando uma arma filosófica, social e política para combater a concentração de poder exercido pelo Rei ou no domínio do pensamento religioso vigente.

Embora D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal, fosse o construtor dos primeiros cemitérios junto de igrejas em algumas cidades do Condado, espaços térreos que eram reservados a cristãos de renome e de riqueza considerável que pudessem pagar a permanência num local sagrado e as cerimónias religiosas iniciais.

Supostamente, aos indigentes estava reservada a vala comum. Ou seja, por ilacção, os ricos, com as suas almas bem encaminhadas por exéquias e normas de encomenda onde predominava a ostentação e a oração, iam direitinhos para o paraíso. Já quanto aos pobres, doentes e vítimas de pandemias eram queimados colectivamente fora da cidade – as denominadas “queimas de alecrim”. Os vadios sem identidade, os presos, os escravos e outras estirpes menores eram enterrados em poços- os chamados “Monturos”, ou montureiras.

A instauração de cemitérios civis como um serviço público foi decretada em 1835 por Ribeiro Sanches, proibindo o enterro em igrejas ou lugares habitados, com a total oposição do clero a difundir a ideia "de que os poderes públicos estavam a invadir um terreno que pertencia exclusivamente ao âmbito religioso" - Fonte: Jornal Público.


A CREMAÇÃO É O FUTURO?


Nas últimas duas décadas a cremação – técnica funerária que visa reduzir um corpo a cinzas num forno crematório com fogo em altas temperaturas – tem vindo a conquistar um espaço cada vez mais notório. Descrito como uma alternativa que oferece poucos riscos para o ambiente, sem colidir com o ritual de exéquias tradicional, para os pragmáticos (como eu) a diferença reside no desaparecimento imediato do corpo físico, contra uma deterioração progressiva de vários anos em cova ou jazigo.

Para os defensores da prática tradicional, para uns, a cremação, fazendo desaparecer os restos mortais físicos do falecido e reduzidos a uma pequena urna de cinzas que serão espalhadas ao vento, corta, ou menoriza, uma hipotética ligação memorial e assente numa saudade ao defunto.

Para outros, esta prática que envolve a queima é um voltar ao tempo das trevas, à Idade Média, onde o fogo simboliza um castigo, o Inferno, e não um descansar eterno ao que o finado tem direito. Provavelmente, no seu imaginário, esta “destruição” do corpo, constituindo pecado capital, também evitará a reencarnação.

Para outros ainda, a visita ao cemitério, semanalmente, mensalmente, ou anualmente, é um acto racional, objectivo, de “conviver”, ou pelo menos “sentir” próximo, o ente que partiu há pouco ou há muito tempo.

Não há dúvida é que quanto mais forem as idas ao cemitério maiores serão as probabilidades de perpetuar o luto e, com esta vinculação extremada, não conseguir seguir em frente com a sua vida.

Uma coisa é certa, e isto é um postulado histórico provindo da Antiguidade, o tratamento “pós-mortem”, depois da morte, sendo de escolha múltipla e pessoal, assenta essencialmente na generosidade – cedendo o corpo à ciência com Testamento Vital -, e na fé, enquanto axioma sem contestação, ou falência dela. E, por princípio de bom-senso, a fé não se discute, ou se “sente”, e vive-se muito bem com ela, ou não se sentindo o seu espectro transcendental, não se dando por ela, por norma não afecta a felicidade dos descrentes.


 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

VELHOS COSTUMES CAÍDOS EM DESUSO: BOLINHOS E BOLINHÓS





Tal como relembra o meu amigo Jorge Oliveira, até mais ou menos duas décadas, mais propriamente nas áreas com maiores manchas de pobreza, como, por exemplo, a zona da Alta, a da Baixa e outros bairros periféricos em torno da cidade, era hábito em Coimbra nesta altura dos Santos os miúdos, isoladamente ou em grupo, acompanhados de uma caixa de sapatos ou com uma abóbora, ambas, recortadas com uma carantonha e com uma vela acesa dentro, tocarem insistentemente às campainhas das portas a solicitarem uma moeda ou uma guloseima aos moradores. Também conhecido por “Pão-por-Deus”, é um ritual antigo baseado no uso de oferecer vinho e bens alimentares aos defuntos.

Dividido entre o hilariante e a encarar esta prática de antanho como uma praxe séria e a respeitar, era um espectáculo cénico de luz e cor pela espevitada lenga-lenga infantil que a troco de um “tostãozinho”, de um pão, de um fruto nos enchia a alma de calor humano, sobretudo, numa quadra sombria e tristonha como é a véspera do “Dia de Todos os Santos”, ou “Dia de Finados”, ou “Dia dos Fiéis Defuntos”.

Seja por a pobreza subitamente ter passado a ser um estigma mais humilhante e acentuando uma diferenciação indesejada, um cancro, mais notado numa sociedade formatada nos usos e costumes e englobada numa Europa aparentemente ricaça, fosse pela “importação” da moda “Halloween”, provinda dos “Staites”, destinada aos adultos e fortemente impulsionada por uma indústria interesseira que não se compadece com manifestações de ternura, que marcaram vidas num tempo que era lento no passar, a verdade é que a tradição dos “Bolinhos e Bolinhós” foi-se perdendo nos anéis da recordação. Hoje, também devido à falta de cobertura pelas televisões e jornais e desinteresse pelas tradições populares, esta prática em Portugal é quase inexistente.

Versos mais usuais:


BOLINHOS E BOLINHÓS

Para mim e para vós,

Para dar aos finados

Que estão mortos e enterrados

À bela, bela cruz

Truz, Truz!


A senhora que está lá dentro

Sentada num banquinho

Faz favor de s'alevantar

Para vir dar um tostãozinho


(Se comparticipam)


Esta casa cheira a broa,

Aqui mora gente boa.

Esta casa cheira a vinho,

Aqui mora um santinho.


(Se não abrem a porta)


Esta casa cheira a alho

Aqui mora um espantalho.

Esta casa cheira a unto

Aqui mora algum defunto



COINCIDÊNCIAS:


Estava eu na minha lucubração (meditação intensa) para escrever esta crónica, eis senão que toca a campainha: “Terrin, terrin, terrin, terrin”…

Fui à porta e deparei-me com duas senhoras, moradoras na aldeia, em Barrô, uma delas ostentando ao peito a caraterística lata da Liga contra o Cancro e um autocolante pronto a ser colado na lapela dos generosos.

Depois de ter contribuído pensei com os meus botões que há coisas do “arco da velha”. Rei morto, Rei posto… Só faltou mesmo a lenga-lenga de substituição:


Bolinhos e Bolinhós,

para a Liga e para Vós,

que hoje estais com saúde,

mas não está a sua avó,

que partiu para a eternidade,

contrariada, doente e tão só,

hoje repousa na tumba,

no descanso do faraó,

à espera de uma flor,

até se transformar em pó,

Dai-nos uma moedinha,

para os doentes, tenhai dó,

não vá a doença marcar-vos

e chegar no Natal, de trenó,

e vossemecê arrependido,

de não ter dado uma moeda,

agora tão combalido,

dava tudo para evitar a queda.


CRÓNICA RELACCIONADA

"A MORTE... NA NOSSA VIDA"

"O DIA DE FINADOS QUE MORREU" (2014)